1Samuel 21.1-9 §
Nota de John Wesley
Nobe — cidade de sacerdotes, onde então estava o tabernáculo. Para lá recorreu Davi, em busca de suprimento para as suas necessidades, que supunha poder receber ali sem perigo de ser entregue às mãos de Saul — e principalmente para, naquela grande angústia, receber do SENHOR conforto e conselho. Aimeleque — o sumo sacerdote, irmão daquele Aías (1Sm 14.3) e, morto este, seu sucessor no sacerdócio, pois ambos eram filhos de Aitube. Tremendo — suspeitando alguma causa extraordinária de vir ele daquela maneira. Só — pois, embora Davi tivesse alguns servos, como é manifesto dos v. 4-5 — que Jônatas provavelmente enviara a lugar combinado —, ficaram noutro lugar, como o próprio Davi afirma (v. 2). E Davi estava agora só, como também quando fugiu para Aquis. Aquele que fora subitamente elevado à mais alta honra é tão depressa reduzido à condição desolada de um exilado: tais mudanças há neste mundo, e tão incertos são os seus sorrisos. O rei me ordenou — parece mentira clara, arrancada pelo medo; mas foi perniciosa a todos os sacerdotes dali, e Davi depois declara o seu arrependimento deste pecado. A tal e tal lugar — a certo lugar que não convém agora mencionar, porque todo o negócio requer segredo. Não tenho pão comum — aqui no tabernáculo; sem dúvida tinha outras provisões em casa, mas Davi estava com muita pressa e com medo de Doegue, a quem viu e conheceu, e não quis esperar que se buscasse coisa alguma de lá. Havia duplo impedimento para dar-lhes este pão: primeiro, a sua sacralidade em si, que o sacerdote insinua e Davi responde no v. 5, satisfazendo-se o sacerdote com as grandes necessidades de Davi; segundo, a abstinência de mulheres que supunha nos que o usassem, sobre a qual agora inquire. Três dias — o tempo que a lei exigia (Êx 19.15); e por tanto tempo Davi e os seus moços, ao que parece, se esconderam por medo de Saul — privados assim tanto de mulheres como do alimento que lhes convinha. Os vasos — ou as vestes e utensílios da viagem, ou os seus corpos. O pão — em hebraico: e este pão é de certo modo comum; isto é, considerando o tempo e a nossa necessidade, pode usar-se quase como pão comum. Pois, embora, enquanto está posto perante o SENHOR, seja tão santo que nem o sacerdote o pode comer, depois é comido pelo sacerdote e toda a sua família — e assim pode sê-lo por nós, nas nossas circunstâncias. Ainda que — recém-posto no lugar, deve ceder à grande lei da necessidade e da caridade: porque Deus quer a misericórdia antes que o sacrifício. Detido — não à força, mas por escolha: fixou ali a morada naquele dia, ou por ser sábado, em que não podia prosseguir viagem, ou pelo cumprimento de algum voto. Perante o SENHOR — isto é, no tabernáculo. Edomita — de nascimento, mas prosélito da religião judaica. Trás a estola sacerdotal — isto é, atrás do lugar santo destinado à guarda das vestes sagradas ou sacerdotais, todas aqui compreendidas sob a estola, que, como principal, está por todas. Ali se guardava a espada como sagrado monumento do poder e da bondade de Deus. Outra igual não há — porque não só lhe servia para o uso — era homem forte e alto, capaz de manejar aquela espada —, mas era também penhor do favor de Deus para com ele: sempre que a olhasse, seria apoio à sua fé, lembrando-lhe o que Deus já fizera. A Aquis — ação estranha; mas considere-se que a fúria de Saul era tão grande, e tão grandes o seu poder e diligência em caçá-lo, que desesperou de escapar por outro caminho — e doença desesperada produz remédio desesperado. O rei eleito é aqui um exilado: ungido para a coroa, e forçado a fugir do seu país. Assim as providências de Deus às vezes correm contra as suas promessas, para prova da nossa fé e para a glorificação do seu nome no cumprimento dos seus desígnios, apesar das dificuldades do caminho. Rei da terra — de Canaã. Chamam-no rei ou, em geral, pelo governante, o mais eminente capitão e comandante; ou como rei eleito, a pessoa destinada a ser rei: pois a esta altura a fama da rejeição de Saul e da destinação de Davi ao reino já se espalhara entre os israelitas, e deles, provavelmente, aos filisteus. Não é este aquele de quem cantavam? — considera pois o que fazer: agora que o nosso grande inimigo está na tua mão, não o deixes escapar vivo. Temeu — que ou a vingança ou a política deles os movesse a matá-lo. Talvez estivesse tanto mais apreensivo porque trazia a espada de Golias, provavelmente bem conhecida em Gate. Aprendeu agora por experiência o que depois nos ensinou: melhor é confiar no SENHOR do que confiar em príncipes.
Nota do editor
Deste episódio nasceram os Salmos 34 e 56 — e a ele Jesus apelou para ensinar que 'a misericórdia vale mais que o rito': 'não lestes o que fez Davi, quando teve fome?' (Mt 12.3-4; Mc 2.25-27). O pão sagrado dado ao faminto tornou-se argumento do Senhor do sábado: as ordenanças cerimoniais servem ao homem, não o homem a elas. Mas o capítulo também adverte: a mentira de Davi a Aimeleque, nascida do medo, custou a vida de oitenta e cinco sacerdotes (1Sm 22.22) — as meias-verdades dos santos podem ter contas trágicas.
Temas: providencia