Nossa História

John Wesley

O pai do metodismo e o coração aquecido pela graça (1703–1791)

Retrato de John Wesley, por George Romney (c. 1789).
Retrato de John Wesley, por George Romney (c. 1789).

Como um pastor anglicano do século XVIII, sério e disciplinado, tornou-se o instrumento de um avivamento que atravessou oceanos e séculos? A resposta está numa vida marcada pela busca de Deus, por um coração transformado pela graça e por uma obediência metódica ao chamado.

Clérigo anglicano e evangelista incansável, Wesley pregou mais de 40 mil sermões e percorreu cerca de 400 mil quilômetros a cavalo, anunciando a graça de Deus a todos. “O mundo é a minha paróquia”, costumava dizer. Percorra abaixo as etapas dessa história.

“Senti meu coração estranhamente aquecido.”Diário de John Wesley · 24 de maio de 1738

1. Infância em Epworth: o tição arrebatado do fogo

Anos depois, Wesley pregaria sobre o túmulo do próprio pai, no adro da igreja de Epworth (1742).
Anos depois, Wesley pregaria sobre o túmulo do próprio pai, no adro da igreja de Epworth (1742).

John Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, na reitoria de Epworth, em Lincolnshire, décimo quinto filho do reverendo Samuel Wesley e de Susanna Wesley. Foi Susanna, mulher de rara piedade e disciplina, quem moldou nos filhos o amor às Escrituras e o hábito da oração metódica.

Em fevereiro de 1709, um incêndio consumiu a reitoria. O menino John, então com cinco anos, foi resgatado de uma janela do andar superior no último instante. A imagem do “tição arrebatado do fogo” (Zc 3.2) acompanhou-o a vida toda como sinal de que fora poupado para um propósito.

2. Oxford e o “Clube Santo”

John Wesley em retrato de Nathaniel Hone (1766), National Portrait Gallery.
John Wesley em retrato de Nathaniel Hone (1766), National Portrait Gallery.

Depois de estudar em Charterhouse, em Londres, Wesley ingressou em Christ Church, Oxford, em 1720. Ordenado diácono em 1725 e eleito fellow do Lincoln College em 1726, dedicou-se ao estudo e ao ensino.

Junto de seu irmão Charles e de alguns amigos, formou um pequeno grupo de disciplina espiritual — comunhão frequente, jejum, estudo das Escrituras e visita a presos e enfermos. Os colegas os apelidaram, com escárnio, de “metodistas”, pela regularidade metódica de sua devoção. O apelido pegou; o método permaneceu.

3. A missão na Geórgia e os morávios

Estátua de John Wesley em Reynolds Square, Savannah, Geórgia, onde serviu como missionário.
Estátua de John Wesley em Reynolds Square, Savannah, Geórgia, onde serviu como missionário.

Em 1735, John e Charles embarcaram para a colônia da Geórgia, na América, como capelães e missionários. A empreitada frustrou-se: Wesley voltou desanimado, ciente de que lhe faltava a certeza da própria salvação.

No mar, porém, algo o marcou. Durante uma tempestade violenta, enquanto muitos entravam em pânico, um grupo de morávios cantava tranquilo, sem temor da morte. Wesley reconheceu naquela serenidade uma fé que ainda não possuía — e passou a buscá-la de todo o coração.

4. Aldersgate: o coração estranhamente aquecido

“Chama de Aldersgate” — monumento em bronze que assinala a conversão de Wesley, em Londres.
“Chama de Aldersgate” — monumento em bronze que assinala a conversão de Wesley, em Londres.

Na noite de 24 de maio de 1738, quase contra a vontade, Wesley participou de uma reunião numa casa da Rua Aldersgate, em Londres. Enquanto liam o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, sua convicção intelectual tornou-se experiência viva.

Ele escreveu no diário: “Senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados”. Ali a justificação pela fé deixou de ser doutrina e passou a ser vida (Rm 5.1; Ef 2.8–9).

5. A pregação ao ar livre e o avivamento

Gravura de John Wesley pregando ao ar livre a grandes multidões (Wellcome Collection).
Gravura de John Wesley pregando ao ar livre a grandes multidões (Wellcome Collection).

Barrado em muitos púlpitos por causa de seu entusiasmo evangelístico, Wesley aceitou, em 1739, o convite de George Whitefield para pregar ao ar livre, em Bristol. Confessou a princípio o incômodo, mas rendeu-se: “Consenti em ser ainda mais vil”, e anunciou o evangelho a mineiros e operários que jamais entrariam numa igreja.

As multidões vinham aos milhares. Vidas eram transformadas, e o avivamento se espalhava. Wesley tornou-se um pregador itinerante por mais de cinquenta anos, levando a mensagem da graça a cada vilarejo da Inglaterra (Mc 16.15).

6. A organização do metodismo

A Capela de Wesley (City Road), inaugurada em 1778, em Londres — “catedral-mãe” do metodismo mundial.
A Capela de Wesley (City Road), inaugurada em 1778, em Londres — “catedral-mãe” do metodismo mundial.

Wesley não queria fundar uma nova igreja; queria renovar a Igreja da Inglaterra por dentro. Mas o crescimento exigiu estrutura. Ele organizou os convertidos em sociedades, subdivididas em classes e bandas, pequenos grupos de mútuo cuidado, prestação de contas e crescimento na santidade.

Diante da escassez de clérigos, valeu-se de pregadores leigos e de conferências anuais para pastorear o movimento. Construiu a New Room, em Bristol (1739), e a Capela de City Road, em Londres (1778). Em 1784, ordenou obreiros para a América, dando origem à Igreja Metodista independente.

7. Charles Wesley e o canto do avivamento

Charles Wesley, irmão de John e autor de mais de seis mil hinos.
Charles Wesley, irmão de John e autor de mais de seis mil hinos.

Nenhum retrato de John estaria completo sem Charles Wesley. Companheiro de Oxford, da Geórgia e do avivamento, Charles deu voz à teologia do movimento em mais de seis mil hinos, muitos deles cantados até hoje.

Se John pregava a graça, Charles a fazia cantar. Hinos como “Ó mil línguas” e “Cristo já ressuscitou” ensinaram doutrina ao povo pela melodia, provando que o coração aquecido também precisa de lábios que louvem (Cl 3.16).

8. Os últimos anos e a partida

Medalhão de John Wesley em jasperware azul, Josiah Wedgwood, c. 1790 — já em seus últimos anos.
Medalhão de John Wesley em jasperware azul, Josiah Wedgwood, c. 1790 — já em seus últimos anos.

Wesley pregou e viajou até quase o fim. Em fevereiro de 1791, já com 87 anos, pregou seu último sermão. Faleceu em 2 de março de 1791, cercado de amigos, entoando louvores.

Suas palavras finais tornaram-se um testemunho de toda a sua vida: “O melhor de tudo é que Deus está conosco.” Deixou atrás de si não riquezas, mas dezenas de milhares de metodistas, uma Inglaterra transformada e um método de discipulado que atravessaria o mundo (2Tm 4.7).

O coração da teologia de Wesley

A pregação de Wesley não era mero entusiasmo: tinha espinha dorsal teológica. Eis alguns dos seus grandes temas, que continuam a nutrir a fé arminiana-wesleyana.

Graça preveniente

Deus vai adiante de nós. Antes mesmo de o buscarmos, a graça já opera, despertando a consciência e capacitando a resposta. Ninguém é salvo por mérito próprio, mas todos são convidados e habilitados a crer (Jo 1.9; Tt 2.11).

Justificação pela fé

Somos aceitos por Deus não por obras, mas pela fé em Cristo. Foi a redescoberta viva dessa verdade, em Aldersgate, que incendiou todo o ministério de Wesley (Rm 3.28; Ef 2.8–9).

Novo nascimento e testemunho do Espírito

A fé produz vida nova. O crente pode ter a certeza da filiação divina pelo testemunho interior do Espírito, que confirma em nosso coração que somos filhos de Deus (Rm 8.14–17).

Santificação e perfeição cristã

A graça que perdoa também transforma. Wesley pregou a busca de um amor pleno a Deus e ao próximo — a santidade de coração e de vida como alvo real do cristão (1Ts 5.23; Hb 6.1; Mt 5.48).

Graça para todos

Fiel à tradição arminiana, Wesley proclamou que Cristo morreu por todos e que a salvação, embora dependa inteiramente da graça, é oferecida a cada pessoa e recebida pela fé (1Tm 2.4; Tt 2.11).

Fé e obras de misericórdia

“Não há santidade senão a santidade social.” A fé verdadeira floresce em amor concreto: cuidado dos pobres, dos presos e dos doentes, educação e combate à escravidão (Tg 2.17; Mt 25.40).

Um avivamento que atravessou o mundo

Estátua de John Wesley — sua memória perpetuada em instituições ao redor do mundo.
Estátua de John Wesley — sua memória perpetuada em instituições ao redor do mundo.

Wesley morreu como filho da Igreja da Inglaterra, mas deixou um movimento que se tornaria uma das maiores famílias do cristianismo mundial. Do metodismo brotaram igrejas em todos os continentes — entre elas, no Brasil, a Igreja Metodista Livre e tantas outras tradições de santidade.

Seu legado é duplo: a paixão por almas, que levou o evangelho a quem estava longe; e o cuidado com a santidade, que uniu conversão e discipulado, fé e obras de misericórdia. Wesley nos lembra que o coração aquecido pela graça não descansa: ele arde para servir (Gl 5.6).

Que a sua história desperte em nós a mesma busca — não por método apenas, mas pelo Deus vivo que salva, santifica e envia.

Conheça o site completo sobre John Wesley →
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Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil

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