A Graça em Movimento
De Wesley aos nossos dias: a história da Igreja em cinco lições, através de quatro homens que Deus usou para colocar a graça em movimento.
Cada lição traz um encontro completo: perguntas norteadoras, conteúdo, aplicação pastoral, perguntas para o grupo e um teste. Clique numa lição para abrir. No teste de múltipla escolha você recebe a nota na hora; nas perguntas abertas, tente responder de cabeça e depois clique para conferir a resposta sugerida.
Lição 1John Wesley: o coração aquecido pela graça▾

Antes de começar
Toda igreja nasce de algum lugar. Quando cantamos, quando nos reunimos em pequenos grupos, quando falamos de santidade e de graça, estamos repetindo palavras e hábitos que outras pessoas viveram antes de nós, muitas delas há mais de dois séculos e do outro lado do oceano. Este curso conta essa história a partir de quatro homens que Deus usou para colocar a graça em movimento: John Wesley, na Inglaterra; Benjamin Titus Roberts, nos Estados Unidos; Daniel Nishizumi e José Emílio Emerenciano, aqui no Brasil.
Começamos por Wesley, porque é dele que vem o nome “metodista” e é da sua experiência com a graça que brota tudo o que somos.
Sugestão de uso em grupo: cada lição foi pensada para um encontro. Leia o conteúdo com a turma, converse sobre as perguntas de discussão e feche com o teste. Duração aproximada: 45 a 60 minutos.
Perguntas norteadoras
Vale abrir o encontro colocando estas perguntas para o grupo, antes mesmo de contar a história:
- É possível conhecer a Bíblia inteira, viver de forma disciplinada e religiosa, e ainda assim não ter certeza da própria salvação?
- O que muda numa pessoa quando ela deixa de tentar merecer a Deus e passa a confiar na graça?
- Fé é assunto só do coração de cada um, ou tem consequências no mundo à nossa volta?
Guarde as respostas. No fim da lição elas voltam.
1. O menino arrancado do fogo
John Wesley nasceu em 1703, em Epworth, na Inglaterra, filho de Samuel e Susana Wesley. A casa era de gente séria com a fé: o pai, pastor anglicano; a mãe, uma mulher de oração e de método, que educava os muitos filhos com horários definidos até para conversar com Deus.
Quando John tinha cinco anos, a casa pastoral pegou fogo de madrugada. Todos escaparam, menos o menino, que ficou preso no andar de cima. Vizinhos formaram uma corrente humana e o tiraram pela janela momentos antes do teto desabar. Susana passou a ver aquele filho como alguém guardado por Deus para algum propósito, um “tição arrancado do fogo”, nas palavras que a própria Bíblia usa (Zc 3.2). Wesley carregou essa imagem pela vida inteira.
Guarde o detalhe: nesse ponto da história, Wesley já era um menino religioso, criado na igreja, cercado de fé. E ainda faltava a ele o essencial.
2. Muita religião, pouca paz
Wesley estudou em Oxford, tornou-se pastor da Igreja da Inglaterra e reuniu um grupo de jovens que levavam a fé a sério: liam a Bíblia em horários fixos, jejuavam, visitavam presos e doentes, examinavam a própria consciência com rigor. Os colegas de faculdade, meio zombando, chamavam aquele grupo de “os metodistas”, por causa do método com que organizavam a vida cristã. O apelido que era piada virou o nome de um movimento.
Buscando servir a Deus, Wesley atravessou o Atlântico como missionário na colônia da Geórgia, na América. Foi um fracasso. Ele voltou frustrado, e a frase que escreveu no diário resume tudo: fora pregar aos outros, mas quem o converteria a ele? Toda a disciplina, todo o esforço, todo o conhecimento não lhe davam paz. Faltava confiança, não em regras, mas na graça.
Aqui está o primeiro grande ensino desta lição: é possível ter muita religião e pouco Evangelho. Wesley sabia doutrina, praticava a piedade, e ainda assim vivia tentando merecer o que só se recebe de graça (Ef 2.8–9).
3. Aldersgate: o coração aquecido
A virada veio em 24 de maio de 1738, à noite, numa reunião simples na Rua Aldersgate, em Londres. Alguém lia em voz alta um comentário de Lutero sobre a Carta aos Romanos, tratando da mudança que Deus opera no coração pela fé. Wesley escreveu depois: sentiu o coração “estranhamente aquecido”; naquele instante confiou em Cristo, só em Cristo, para a salvação, e recebeu a certeza de que os seus pecados estavam perdoados.
Não foi o começo da religião de Wesley; isso ele já tinha de sobra. Foi o começo da sua confiança. A diferença entre o Wesley de antes e o de depois não está em passar a crer em Deus, mas em parar de se apoiar em si mesmo e se apoiar inteiramente na graça de Cristo. É a diferença entre servir a Deus com medo, tentando ser aceito, e servir a Deus como filho, já aceito (Rm 8.15–16).
Essa experiência tem um nome na tradição wesleyana: o testemunho do Espírito, a certeza interior que o Espírito Santo dá ao crente de que ele é filho de Deus (Rm 8.16). Não é fanatismo nem emoção passageira; é fruto da fé que descansa em Cristo.
4. O mundo é a minha paróquia
Depois de Aldersgate, Wesley começou a pregar essa mensagem por toda parte. Como muitas igrejas fecharam as portas para ele, passou a pregar ao ar livre, em campos, praças e bocas de minas de carvão, para multidões de trabalhadores pobres que quase nunca punham os pés num templo. Quando o criticaram por pregar fora dos limites da sua paróquia, respondeu com a frase que ficou famosa: “o mundo é a minha paróquia”.
Wesley percorreu a Inglaterra a cavalo por mais de cinquenta anos. Calcula-se que tenha pregado mais de quarenta mil vezes e cavalgado centenas de milhares de quilômetros. Mas ele não se contentava em reunir gente para ouvir sermões. Ele organizava os convertidos.
5. A graça precisa de método: as classes
Aqui aparece o gênio pastoral de Wesley, e a raiz de algo que ainda praticamos. Ele agrupava os novos crentes em pequenas comunidades chamadas classes, grupos de cerca de doze pessoas que se reuniam toda semana para orar, prestar contas da própria vida e cuidar uns dos outros. Ninguém crescia sozinho. A pergunta que se fazia nesses grupos era direta: como vai a sua alma?
Wesley entendia que a graça que salva também precisa ser cultivada em comunidade. Ele resumiu isso numa frase que soa estranha à primeira vista: não existe santidade que não seja social. Ele não quis dizer com isso “ativismo”, mas que ninguém se santifica isolado; a fé cristã se vive junto, no cuidado mútuo (Hb 10.24–25). O nosso apego a pequenos grupos, a discipulado, a comunidades de cuidado, nasce dali.
6. Santidade de coração e de vida
O centro da mensagem de Wesley era a santidade. Ele cria que a mesma graça que perdoa o pecador também o transforma: Deus não apenas nos declara justos, mas nos torna santos por dentro, curando aos poucos o amor pelo pecado e enchendo o coração de amor por Deus e pelo próximo (1Ts 5.23; Hb 12.14).
Wesley chamava isso de perfeição cristã, e é preciso entender bem o termo, porque ele não queria dizer que o cristão fica sem falhas ou sem necessidade de crescer. Queria dizer que a graça pode chegar a governar de tal modo o coração que o amor a Deus e ao próximo se torne o motivo dominante da vida (Mt 22.37–39). Santidade, para Wesley, nunca foi frieza de regras; foi o coração tomado pelo amor.
E essa santidade tinha mãos e pés. Wesley e os metodistas visitavam presos, abriam escolas, socorriam pobres, distribuíam remédios. Já idoso, quase cego, a última carta que escreveu foi para encorajar William Wilberforce na luta pelo fim da escravidão, que Wesley chamou de a “abominável vilania”. A fé que aquecera o seu coração o empurrava para fora, em direção ao sofrimento do próximo. Fé viva produz obras; sem elas, é fé morta (Tg 2.17). E essa fé atua pelo amor (Gl 5.6).
7. A graça que vai à frente
Falta explicar por que a mensagem de Wesley alcançava qualquer pessoa, sem exceção. Wesley era arminiano: cria que Cristo morreu por todos, e não apenas por um grupo escolhido de antemão. A base disso é o que chamamos de graça preveniente: a graça que “vem antes”, que Deus derrama sobre todo ser humano ainda antes da conversão, despertando a consciência, criando a sede de Deus e tornando possível responder ao Evangelho.
Ninguém busca a Deus por mérito próprio; é a graça que nos busca primeiro. Mas essa graça não força ninguém: ela convida, e espera a resposta da fé. Por isso Wesley podia olhar para qualquer trabalhador de rosto sujo de carvão e dizer, com certeza, que Cristo tinha morrido por ele e que a salvação estava ao seu alcance, se cresse. A salvação é oferecida a todos, e recebida por quem crê (Jo 3.16; Rm 10.13).
8. O legado
Wesley morreu em 1791, aos 87 anos. Nunca quis fundar uma nova denominação; até o fim se considerou pastor da Igreja da Inglaterra. Mas o movimento que ele organizou cresceu tanto e ganhou vida própria a ponto de se tornar as igrejas metodistas espalhadas hoje pelo mundo inteiro, a nossa incluída. As suas últimas palavras registradas foram: “o melhor de tudo é que Deus está conosco”.
Dele herdamos um jeito de ser cristão: a graça que busca antes, o coração aquecido pela fé, a certeza da salvação, a santidade vivida em comunidade, e o amor que não fica preso ao templo, mas vai ao encontro do necessitado.
Aplicação pastoral
A história de Wesley é um espelho incômodo. É perfeitamente possível crescer na igreja, saber os hinos de cor, participar de tudo, e ainda estar tentando merecer a Deus, sem a paz de quem descansa na graça. Wesley foi missionário antes de ter certeza da própria salvação.
A pergunta desta lição, então, é pessoal: você serve a Deus como quem tenta ser aceito, ou como filho que já foi aceito? O convite de Aldersgate continua aberto. Não se trata de começar a ser religioso (muitos de nós já somos), mas de parar de se apoiar em si mesmo e confiar inteiramente em Cristo. E, uma vez aquecido o coração, esse fogo não fica guardado: ele nos junta a outros irmãos em cuidado mútuo e nos empurra para fora, em direção a quem precisa.
Para discussão em grupo
- Wesley foi religioso a vida toda, mas só encontrou paz em Aldersgate. Você já viveu, ou conhece alguém que viveu, a diferença entre “praticar religião” e “confiar na graça”? Como foi?
- O que significa, na prática, a certeza da salvação (o testemunho do Espírito) de que Wesley falava? Ela é para todo crente ou só para alguns?
- Wesley dizia que “não existe santidade que não seja social”. O que você entende com isso? De que forma um pequeno grupo ajuda a pessoa a crescer na fé?
- A fé de Wesley o levou a agir contra a escravidão e a favor dos pobres. Onde a nossa fé deveria estar nos empurrando para fora do templo hoje?
- A ideia da graça preveniente (a graça que age antes de crermos) muda alguma coisa no modo como você enxerga as pessoas que ainda não conhecem a Cristo?
Teste — múltipla escolha
Marque uma alternativa em cada questão e clique em “Ver minha nota”.
1. O apelido “metodistas” surgiu porque Wesley e seus companheiros:
2. A experiência de Aldersgate (1738) foi, para Wesley:
3. As “classes” wesleyanas eram:
4. Ao ensinar a “graça preveniente”, Wesley afirmava que:
5. A santidade, para Wesley, era principalmente:
Perguntas para responder com suas palavras
Tente responder de cabeça, sem olhar. Depois clique para conferir.
1. Explique, em duas ou três frases, a diferença entre “ter religião” e “confiar na graça”, usando a história de Wesley.
2. Cite um exemplo de como a fé de Wesley se traduziu em ação concreta pelo próximo.
Lição 2Benjamin Titus Roberts: a santidade que virou justiça▾

Antes de começar
Na primeira lição vimos a graça aquecer o coração de John Wesley e colocar em movimento um jeito de ser cristão marcado pela santidade e pelo cuidado com os pobres. Agora essa graça cruza o Atlântico. Setenta anos depois da morte de Wesley, no oeste do estado de Nova York, um jovem advogado promissor vai abrir mão de tudo por causa dela, será expulso da sua igreja e, dessa expulsão, nascerá o movimento que hoje leva o nosso nome: a Igreja Metodista Livre.
Guarde uma pergunta desde já: o que quer dizer o “Livre” no nome da nossa igreja? A resposta está nesta lição.
Sugestão de uso em grupo: um encontro, 45 a 60 minutos. Leitura, conversa sobre as perguntas e teste ao final.
Perguntas norteadoras
- O que leva um pastor talentoso e querido pelo povo a ser expulso da própria denominação aos 35 anos?
- É possível ao mesmo tempo pregar a santidade do coração e defender direitos de gente oprimida? Ou uma coisa atrapalha a outra?
- Quando a igreja se organiza para agradar a quem pode pagar, o que ela perde?
1. O advogado que ainda não se convertera
Benjamin Titus Roberts nasceu em 25 de julho de 1823, no oeste de Nova York, numa região tão sacudida por avivamentos que os historiadores a apelidaram de “distrito queimado”. Menino de inteligência fora do comum, aos 16 anos já dava aulas enquanto estudava Direito. Quando um pastor se ofereceu para custear a sua formação para o ministério, o rapaz respondeu com uma honestidade que diz muito: “Não posso aceitar, pois ainda não me converti.” Ele já havia abraçado a causa contra a escravidão, mas ainda não havia entregado a vida a Cristo.
A conversão veio por volta dos 21 anos, e por um caminho humilde. Num culto de oração, um tanoeiro analfabeto levantou-se e, gaguejando, contou como Deus o havia transformado. Aquela simplicidade tocou o jovem advogado, que se viu como pecador necessitado da graça (Rm 3.23–24). Houve luta: Roberts queria ser cristão sem largar a carreira. Mas a escolha se pôs entre a advocacia e Deus, e ele escolheu Deus. Formou-se na Universidade Wesleyana, em Connecticut, em 1848. Ao ver o avivamento sob a pregação do evangelista John Wesley Redfield, exclamou: “Isto é o metodismo!”.
2. Ellen: o ministério que só existiu porque foram dois
Pouco antes de formar-se, Roberts conheceu Ellen Lois Stowe. Ela anotou no diário: “Gostei do tom da mente dele.” Casaram-se em maio de 1849. Foi um casamento notavelmente feliz e igualitário para a época; Roberts dizia que o matrimônio devia ser uma parceria de iguais, e já velho comentava sorrindo que ainda não tinham tido a primeira briga.
Registro isso porque não se conta a história de um sem a do outro. Ellen foi intercessora, conselheira, administradora e cooperadora em tudo o que ele construiu (Ec 4.9–12). Guarde esse detalhe: ele viria a ser um dos maiores defensores da ordenação de mulheres no século XIX, e a raiz dessa convicção estava dentro de casa.
3. Sete igrejas, um só tema
Roberts começou a pregar em 1848. Como os pastores metodistas serviam apenas dois anos em cada lugar, ele passou por sete igrejas em dez anos, todas no Concílio de Genesee. O seu primeiro sermão tratou da pureza de coração a partir de “bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8), e esse foi o tema dominante de toda a sua vida: a necessidade e a possibilidade da santidade (Hb 12.14).
Mas essa santidade tinha olhos para o próximo. Em Buffalo, em 1852, ele enfrentou de perto o sistema de aluguel e venda de bancos nas igrejas, que reservava os melhores lugares a quem pudesse pagar e humilhava o pobre à porta do templo. Roberts propôs quitar as dívidas da igreja se os assentos se tornassem livres para todos. A congregação recusou. Em 1856 ele publicou três artigos chamados “Igrejas Livres”, argumentando pela Bíblia que um sistema que envergonha o pobre nega o próprio Evangelho que Jesus anunciou aos pobres (Lc 4.18; Tg 2.1–9). As nuvens começaram a se juntar.
4. Dois julgamentos e uma expulsão
Em 1857, Roberts publicou um artigo chamado “Metodismo da Nova Escola”, denunciando o aluguel de bancos e uma religião que trocava a fé por boas obras. Líderes poderosos apresentaram contra ele acusações formais de “conduta não cristã”, por um artigo de opinião. Ele foi condenado e repreendido. Aceitou a repreensão, mas não a sua justiça, e anunciou que apelaria.
O caso poderia ter morrido ali, mas outro homem republicou o artigo por conta própria, e isso levou a um segundo julgamento, em 1858. Acusado de participar dessa republicação, o que não era verdade, Roberts foi expulso do ministério e da denominação. Quando a conferência se encerrou, em 22 de outubro de 1858, ele estava sem igreja, sem denominação, sem cargo e sem casa pastoral. Ellen reagiu com uma serenidade que surpreende: dava-lhe vontade de rir, “o riso de uma criança inocente que não tem preocupação alguma”. No domingo seguinte, o casal sentou-se humildemente no meio do povo, na igreja de Pekin.
5. Do exílio nasce um movimento
Os dois anos seguintes foram de espera. Então, em 1860, duas coisas decisivas aconteceram. Roberts fundou a revista The Earnest Christian, que ele editaria pelos 33 anos seguintes, até morrer. E fundou a primeira igreja metodista livre em St. Louis, no Missouri, onde ainda havia leilões de escravos. Vendo escravos atravessarem as ruas, escreveu: “Deus me ajude a fazer tudo o que puder em favor da pobre humanidade sofredora.” Aquela igreja proibia terminantemente a posse de escravos. Ali a palavra “livre” ganhou o seu sentido mais largo (Gl 5.1).
Negado o seu apelo pelo Concílio Geral, ficou claro que uma nova denominação precisaria nascer. A Igreja Metodista Livre foi organizada em 1860, e a data tradicionalmente lembrada é 23 de agosto daquele ano, em Pekin, Nova York. Roberts, então com 37 anos, foi eleito por unanimidade Superintendente Geral, o que mais tarde se chamaria bispo. A convenção deixou claro que não queria inventar nada novo, mas manter o metodismo original de Wesley. E aqui está a resposta à nossa pergunta de abertura. O “Livre” reunia várias liberdades práticas de uma só vez: assentos gratuitos em todas as casas de culto, para que o pobre nunca se sentisse estrangeiro na casa de Deus; liberdade em relação à escravidão, com a proibição de possuir escravos; liberdade das sociedades secretas; representação igual de pastores e leigos nas decisões; simplicidade no culto e nos templos; e liberdade para o Espírito agir na adoração, sempre “com decência e ordem” (1Co 14.40). O lema que resumia tudo: manter o padrão bíblico do cristianismo e pregar o Evangelho aos pobres.
6. Santidade que desemboca em justiça
A fé de Roberts nunca foi um assunto só do íntimo. Para ele, o Evangelho da santidade desembocava necessariamente em justiça (Mq 6.8). Abolicionista antes mesmo de crer em Cristo, fez da oposição à escravidão uma marca do seu ministério, e depois da Guerra Civil defendeu direitos civis iguais para os ex-escravos, décadas à frente do seu tempo. Certa vez, num trem, um passageiro furioso exigiu que jovens negros bem-vestidos fossem mandados para a segunda classe. Roberts levantou-se e os defendeu; eles mantiveram os seus lugares. Ao descer, cercaram-no, agradeceram e cantaram. Eram os famosos Jubilee Singers, da Universidade Fisk. “Ele tomava o partido do oprimido”, resumiu o seu filho.
A mesma santidade o levou a fundar, em 1866, uma escola para que meninos e meninas pobres pudessem estudar. Aquele Seminário Chili é hoje a Roberts Wesleyan University. E o levou também a defender publicamente a ordenação de mulheres, numa época em que quase ninguém o fazia. Quando o Concílio de 1890 recusou a proposta, Roberts respondeu com um livro, Ordaining Women (1891), uma das defesas mais fortes da ordenação feminina do século XIX, dedicado a Ellen, “por 42 anos fielmente ao meu lado”.
7. O amor perfeito
Que teologia sustentava tudo isso? Roberts foi, do começo ao fim, um wesleyano convicto. A sua bandeira era a doutrina da inteira santificação, o amor perfeito, tal como Wesley a ensinou: ainda que imperfeito no conhecimento, o cristão pode ser perfeito no amor (Mt 5.48; 1Jo 4.17–18). A santidade é obra da graça, recebida pela fé, e não conquista do próprio esforço. Dessa raiz brotavam os seus três acentos: a simplicidade, para que o pobre nunca se sentisse fora de lugar na igreja; a liberdade do Espírito no culto; e o Evangelho aos pobres como prova de fidelidade. Uma igreja que se organiza para agradar aos ricos, dizia ele, já apostatou na prática, mesmo que a sua doutrina continue correta (Tg 2.5–6).
8. O legado
Roberts morreu em 27 de fevereiro de 1893, aos 69 anos, depois de um ataque cardíaco. As suas últimas palavras foram: “Louvado seja o Senhor! Amém!”. Em 1910, o mesmo Concílio que o expulsara reconheceu a injustiça e devolveu as credenciais de ordenação ao seu filho, cinquenta e dois anos depois da expulsão. A história absolveu o profeta que a instituição havia condenado (Mt 5.10–12).
O movimento que ele organizou já alcança dezenas de países, o Brasil incluído, onde a Igreja Metodista Livre chegou em 1928. Dele herdamos uma identidade, não uma nostalgia: somos parte de um movimento que nasceu para guardar o padrão bíblico do cristianismo e pregar o Evangelho aos pobres.
Aplicação pastoral
A vida de Roberts junta duas coisas que muita gente separa: um coração cheio de Deus e mãos abertas para o oprimido. Ele pregava a pureza de coração (Mt 5.8) e, com a mesma convicção, defendia negros no trem, abria escola para pobres e enfrentava o sistema que humilhava o necessitado à porta da igreja. Para ele, o amor a Deus só se completa quando alcança o próximo que sofre (1Jo 3.17–18).
Fica a pergunta que a história dele nos faz. Quais são os nossos “bancos alugados” de hoje, as maneiras sutis pelas quais a igreja pode acabar mais confortável para quem tem posses e mais estranha para quem não tem? Roberts pagou caro por não fingir que não via. E a coragem dele não nasceu de ativismo, mas de santidade: foi o amor de Deus enchendo o coração que transbordou em justiça.
Para discussão em grupo
- Roberts abriu mão de uma carreira jurídica promissora por causa de Cristo. O que a fé já pediu que você deixasse para trás? O que ela ainda pode pedir?
- O sistema de bancos alugados humilhava o pobre dentro da igreja. Existem hoje formas parecidas, ainda que sutis, de fazer alguém se sentir menos bem-vindo na casa de Deus?
- Para Roberts, santidade de coração e defesa do oprimido eram a mesma fé. Você costuma ligar ou separar essas duas coisas? Por quê?
- Ele foi expulso injustamente e não se amargurou; ao contrário, construiu algo novo. Como se reage assim a uma injustiça? De onde vem essa serenidade?
- Sem Ellen não haveria B. T. Roberts. Que parcerias Deus tem usado para sustentar o seu serviço a ele?
Teste — múltipla escolha
Marque uma alternativa em cada questão e clique em “Ver minha nota”.
1. Antes de converter-se a Cristo, Roberts já era:
2. O sistema de “bancos alugados” que Roberts combateu:
3. A Igreja Metodista Livre foi organizada em:
4. Entre os sentidos do “Livre” no nome da igreja estavam:
5. A teologia que sustentava toda a obra de Roberts era:
Perguntas para responder com suas palavras
Tente responder de cabeça, sem olhar. Depois clique para conferir.
1. Explique, em duas ou três frases, por que para Roberts a santidade de coração e a justiça para com o oprimido eram inseparáveis.
2. O que significa, para a Igreja Metodista Livre do Brasil hoje, ser herdeira do lema “pregar o Evangelho aos pobres”?
Lição 3Daniel Nishizumi: o Evangelho atravessa o mar▾

Antes de começar
Vimos a graça aquecer o coração de Wesley na Inglaterra e, com Roberts, transbordar em santidade e justiça nos Estados Unidos. Agora ela atravessa dois oceanos. Do trabalho metodista livre no Japão sai um jovem que havia sido rejeitado por todos, e é justamente ele que Deus usa para lançar os fundamentos da nossa igreja no Brasil. A história da Igreja Metodista Livre do Brasil começa com um homem doente que bateu à porta de uma família cristã pedindo comida.
Sugestão de uso em grupo: um encontro, 45 a 60 minutos. Leitura, conversa e teste ao final.
Perguntas norteadoras
- Deus pode usar alguém que a própria família rejeitou e que a sociedade considerava um caso perdido?
- O que converte de verdade uma pessoa: um argumento bem montado ou um amor concreto que ela vê com os próprios olhos?
- Vale a pena começar uma obra grande sabendo que talvez você não viva para ver o resultado?
1. Uma porta que se abre para um homem sem esperança
A Igreja Metodista Livre já trabalhava no Japão desde 1895, e foi de suas igrejas em Osaka que sairia boa parte dos primeiros pastores enviados ao Brasil. Entre os missionários americanos que serviam ali estavam Roy e Eva Millican, chegados ao Japão em 1911. Eva havia se formado em enfermagem, entendendo que aquilo poderia servir à obra de Deus. Ela ainda não sabia o quanto.
Por volta dos vinte anos, um jovem chamado Masayoshi Nishizumi bateu à porta dos Millican pedindo comida e trabalho. A vida dele estava em ruínas. Bebia, fumava, levava uma vida desregrada e, pior de tudo, sofria de tuberculose, uma doença então temida como altamente contagiosa e quase sempre incurável. Os tuberculosos eram isolados e tratados como ameaça. A própria família de Nishizumi o havia excluído. Ele estava doente, marginalizado e sem qualquer perspectiva.
2. O amor antes do sermão
Os Millican poderiam ter recusado. Tinham oito filhos, e receber em casa uma pessoa com tuberculose era um risco real para todos. Mesmo assim, decidiram acolhê-lo. Deram-lhe comida, trabalho e um lugar; Eva usou a enfermagem para cuidar da sua saúde; e o casal passou a tratá-lo como filho.
Aquilo impressionou profundamente o jovem, que não entendia por que uma família estrangeira o recebia com tanto amor, mesmo doente e capaz de transmitir uma enfermidade grave. Um dia ele perguntou a Eva por que faziam aquilo. Ela respondeu falando do amor de Jesus Cristo, que buscou, perdoou e restaurou os perdidos. Repare na ordem das coisas: antes de ouvir uma explicação completa do Evangelho, Nishizumi já tinha visto o Evangelho na maneira como fora recebido. O amor veio primeiro; a doutrina, depois.
3. Conversão, cura e um nome novo
Nishizumi reconheceu a sua necessidade, arrependeu-se dos seus pecados e recebeu Jesus como Senhor e Salvador. A transformação foi profunda. Os Millican o acompanharam, ensinaram-lhe as Escrituras, oraram com ele e o ajudaram a abandonar os hábitos que destruíam a sua vida. Depois de cerca de um ano de convivência, ele estava livre do cigarro, curado da tuberculose e restaurado por dentro e por fora.
O casal passou a chamá-lo pelo nome bíblico de Daniel. Assim como o Daniel das Escrituras permaneceu fiel a Deus numa cultura estranha, aquele jovem japonês seria chamado a testemunhar a sua fé em ambientes difíceis e, mais tarde, numa terra distante. O homem que fora excluído pela própria família havia encontrado uma nova família em Cristo.
4. Chamado a seguir os que partiam
Restaurado, Nishizumi entendeu que a graça recebida precisava ser anunciada. Consagrou-se ao ministério, entrou no seminário metodista livre de Osaka e recebeu ali uma formação bíblica dentro da tradição arminiana, wesleyana e de santidade. Em 11 de março de 1928, foi ordenado diácono por Teikichi Kawabe, um dos grandes pioneiros metodistas livres do Japão. No mesmo ano, concluiu os estudos.
Foi então que veio o chamado que definiria a sua vida. Do porto de Kobe, Nishizumi via partir os navios carregados de famílias japonesas rumo ao Brasil. Desde o início do século, milhares de japoneses emigravam em busca de trabalho, e a maioria ia parar nas lavouras de café do interior de São Paulo e do Paraná, enfrentando uma língua estranha, condições duras e grande isolamento. Ao ver os seus compatriotas partindo, Nishizumi sentiu que Deus o chamava para ir com eles. Naquele mesmo ano de 1928, o Concílio de Osaka o designou para pregar o Evangelho entre os imigrantes e formar a Igreja Metodista Livre no Brasil.
5. Partir sem garantias
Havia um problema sério: não existiam recursos para sustentá-lo. Nem a junta missionária americana nem a igreja no Japão podiam garantir o apoio necessário. Nishizumi decidiu partir mesmo assim, confiando não em garantias materiais, mas na providência divina. Amigos oraram e reuniram o dinheiro da passagem. Dois leigos se ofereceram para ir com ele e sustentar a missão com o próprio trabalho: Yoshikazu Wada, um comerciante experiente de cerca de setenta anos, e um jovem de dezoito, conhecido como Mita.
A presença desses dois diz muito sobre a nossa origem. A Igreja Metodista Livre no Brasil não nasceu do esforço isolado de um pastor, mas da cooperação entre o ministério pastoral e a dedicação de leigos, um idoso e um jovem trabalhando lado a lado. Em 5 de agosto de 1928, Nishizumi embarcou rumo ao Brasil a bordo do navio Arabia Maru. No porto, Roy e Eva Millican vieram se despedir. O rapaz que chegara à casa deles doente e sem esperança partia agora como pastor e missionário.
6. Cafelândia: o Evangelho debaixo da máquina de café
Nishizumi estabeleceu-se em Cafelândia, no interior de São Paulo, região de grande concentração de imigrantes japoneses. Visitava os trabalhadores, reunia as famílias, ensinava a Bíblia e anunciava a salvação. Ser japonês facilitava a comunicação, mas não removia todos os obstáculos: para muitos, o cristianismo ainda era uma religião estrangeira, e converter-se podia significar rejeição pela própria comunidade. Nishizumi sabia por experiência o que era ser rejeitado, e talvez por isso tivesse uma sensibilidade especial para acolher os marginalizados.
Havia também a questão do sustento. Wada, aos setenta anos, cultivava a terra e entregava os ganhos à obra. Mita fazia o mesmo. E o próprio Nishizumi passava horas debaixo das máquinas seletoras de café, fazendo consertos para ganhar algum dinheiro. Aquela imagem, um pastor formado em teologia deitado sob uma máquina de café, resume os primeiros anos da nossa igreja no Brasil. A denominação não começou com templos, propriedades ou recursos, mas com um pastor e dois leigos dispostos a trabalhar, sofrer e confiar em Deus. A fé na providência não os levou à passividade; expressou-se em trabalho, disciplina e perseverança.
7. O desânimo e o amigo que orou
De 1928 a 1936 foram cerca de oito anos de semeadura, provavelmente o período mais difícil da missão. Os obreiros eram poucos, as distâncias entre as comunidades eram grandes e os resultados pareciam pequenos diante de tanto esforço. Depois de tantos anos, Nishizumi chegou a duvidar se deveria mesmo organizar uma igreja.
Foi aí que Deus lhe deu um amigo. Hiroyuki Hayashi, outro pastor formado no ambiente metodista livre de Osaka, havia se mudado para São Paulo, onde trabalhava como dentista. Nishizumi o procurou como paciente, e aquele encontro aparentemente casual se revelou providencial. Hayashi compreendeu a importância da obra, começou a incentivá-lo e insistiu para que ele não abandonasse o propósito pelo qual deixara o Japão. Os dois passaram a orar e a planejar reunir os metodistas livres japoneses espalhados pelo país. A perseverança de Hayashi ajudou Nishizumi a recuperar o ânimo. Não devemos idealizar os pioneiros como se nunca tivessem cansado; Nishizumi perseverou não porque fosse imune ao desânimo, mas porque Deus o sustentou também por meio de um irmão.
8. 1º de novembro de 1936: a igreja nasce
No dia 1º de novembro de 1936, realizou-se em São Paulo o primeiro culto oficialmente organizado da Igreja Metodista Livre no Brasil, no refeitório de um consultório odontológico, na Rua Conde de Sarzedas, 40. Estavam presentes 21 pessoas, entre pastores, leigos e famílias japonesas. O número era pequeno, mas o significado, imenso: depois de cerca de oito anos de trabalho, Nishizumi via nascer oficialmente a comunidade pela qual havia orado, trabalhado e atravessado o oceano.
Já em 1935 ele havia conhecido o pastor José Emílio Emerenciano, então ligado à Igreja Holiness, e os dois se tornaram grandes amigos. Emerenciano falava português, japonês e inglês, e podia acompanhar Nishizumi como intérprete. Aquela amizade teria enorme importância para o futuro, porque aproximava o trabalho entre os japoneses da futura missão entre os brasileiros. Nishizumi representava a origem japonesa da nossa igreja; Emerenciano se tornaria o principal pioneiro da obra em língua portuguesa. Os dois já entendiam que o Evangelho não podia ficar preso a uma só cultura.
9. Uma obra que ele não veria concluída
Os anos da Segunda Guerra foram duros. Com o Japão em guerra contra os Aliados, os imigrantes japoneses no Brasil passaram a ser vistos com desconfiança, reuniões foram restringidas e o uso público da língua japonesa, proibido. Ainda assim, a obra continuou, e em 1945 a comunidade já reunia cerca de oitenta membros. Manter uma igreja unida sob suspeita e vigilância foi, por si só, uma realização pastoral importante.
Com o fim da guerra, os planos de expansão foram retomados, e decidiu-se convidar Emerenciano para iniciar oficialmente o trabalho entre os brasileiros. Mas Nishizumi não viveria para ver esse dia. No dia 26 de junho de 1946, ao descer de um bonde em São Paulo, foi atropelado e morreu. Havia servido por cerca de dezoito anos. Pouco mais de dois meses depois, em 7 de setembro de 1946, Emerenciano deu início oficial ao trabalho metodista livre entre os brasileiros. Nishizumi não esteve fisicamente ali, mas a sua amizade, a sua cooperação e a sua defesa da expansão haviam preparado aquele momento. Ele plantou, outros regaram, mas foi Deus quem deu o crescimento (1Co 3.6).
Aplicação pastoral
A história de Nishizumi começa numa porta. Um homem doente e rejeitado bate pedindo comida, e uma família cristã, em vez de recuar diante do risco, o recebe como filho. Foi assim, e não por um grande evento, que Deus alcançou o fundador da nossa igreja no Brasil. A primeira lição é que a hospitalidade pode ser a forma mais poderosa de evangelização. Muita gente ouve o Evangelho pela primeira vez não numa pregação, mas numa mesa onde foi bem recebida.
A segunda lição é sobre a missão como resposta à graça. Nishizumi não foi ao Brasil em busca de posição ou segurança; foi porque, tendo sido acolhido, quis acolher, e tendo recebido a salvação, quis anunciá-la. A verdadeira missão nasce de um coração alcançado pela graça, não apenas de uma estratégia. E a terceira lição é a coragem de servir sem ver o fim. Nishizumi não conheceu os templos, seminários e concílios que viriam depois; lançou os fundamentos e partiu. Deus muitas vezes nos chama a plantar árvores à cuja sombra outros se sentarão.
Para discussão em grupo
- Nishizumi foi alcançado por um amor concreto antes de ouvir a explicação do Evangelho. Quem foram as pessoas que “encarnaram” o Evangelho na sua vida antes de você entender a doutrina?
- Os Millican correram um risco real ao acolher um doente em casa. Até onde a hospitalidade cristã deve ir? Onde estão os limites, se é que existem?
- A nossa igreja no Brasil nasceu da cooperação entre um pastor e dois leigos, um idoso e um jovem. O que isso ensina sobre o lugar dos leigos na missão hoje?
- Nishizumi chegou a desanimar depois de anos de pouco resultado, e um amigo o ajudou a seguir. Quem tem sido esse amigo para você? De quem você tem sido esse amigo?
- Ele lançou fundamentos de uma obra que não veria concluída. Isso muda a maneira como você encara o seu próprio serviço a Deus?
Teste — múltipla escolha
Marque uma alternativa em cada questão e clique em “Ver minha nota”.
1. Quando bateu à porta dos Millican, Nishizumi era:
2. O que primeiro tocou Nishizumi e o levou a perguntar sobre a fé foi:
3. A Igreja Metodista Livre foi oficialmente organizada no Brasil em:
4. Nishizumi veio ao Brasil acompanhado de dois leigos que sustentavam a missão. Eles eram:
5. Nishizumi morreu em 1946, atropelado por um bonde, pouco antes de:
Perguntas para responder com suas palavras
Tente responder de cabeça, sem olhar. Depois clique para conferir.
1. Explique como a hospitalidade dos Millican foi, na prática, um ato de evangelização.
2. O que significa dizer que a missão de Nishizumi “nasceu da gratidão”?
Lição 4José Emílio Emerenciano: uma vida inteiramente consagrada▾

Antes de começar
Nishizumi lançou os fundamentos da nossa igreja entre os imigrantes japoneses e partiu cedo, sem ver a obra crescer. Quem deu continuidade e abriu o trabalho entre os brasileiros foi um pastor nordestino que aprendeu a orar em japonês. José Emílio Emerenciano é a ponte entre a origem japonesa da Igreja Metodista Livre e a igreja de língua portuguesa que hoje conhecemos. A sua vida cabe numa frase: consagração integral a Cristo.
Sugestão de uso em grupo: um encontro, 45 a 60 minutos. Leitura, conversa e teste ao final.
Perguntas norteadoras
- O que faz uma vida ministerial deixar marcas que atravessam gerações?
- Como é, na prática, “viver pela fé”? Isso é romantismo espiritual ou tem consequências reais no dia a dia?
- Qual é o serviço mais duradouro que um pastor ou líder pode prestar à sua igreja?
1. De Macau ao mundo
A história começa longe dos grandes centros, em Macau, pequena cidade salineira do Rio Grande do Norte, onde José Emílio Emerenciano nasceu em 1902. Nada ali sugeria que aquele menino potiguar se tornaria pioneiro de uma denominação nascida do outro lado do mundo. Mas Deus tem um plano para cada criatura (Sl 139.16), e foi abrindo portas uma a uma: os estudos de inglês e francês na infância, a conversão aos vinte anos, o seminário em Recife e, por fim, o Mackenzie, em São Paulo.
Foi ali que veio o encontro decisivo. Ouvindo as conferências do bispo japonês Juji Nakada, da Igreja Holiness, o jovem José recebeu um convite surpreendente: concluir os estudos teológicos no Japão para, de lá, voltar e pastorear os imigrantes japoneses no Brasil, já que o governo brasileiro não permitia a vinda de líderes religiosos do Japão. Antes de responder, recolheu-se por três dias em Santos, em oração, buscando a certeza de estar no centro da vontade de Deus. Aqui está a primeira marca da sua vida: as grandes decisões se tomam de joelhos. Como Abraão, saiu sem saber ao certo para onde ia, obedecendo pela fé (Hb 11.8), e embarcou para o Japão em 1929.
2. Um missionário às avessas
A estratégia era engenhosa: em vez de missionários estrangeiros vindo evangelizar o Brasil, um brasileiro formado no Oriente para alcançar os orientais radicados em sua própria pátria. Em 1931, o Rev. José voltou ao Brasil credenciado como ministro pela Igreja Holiness do Japão e passou a pregar em português e em japonês, nas casas, nas praças e nas igrejas, em plena crise mundial. Em 1935, foi ordenado pastor no primeiro concílio da Igreja Evangélica Holiness do Brasil.
Por cerca de doze anos serviu sem salário fixo, vivendo pela fé. Era sustentado por ofertas e por doações de roupas e, sendo mais alto que a maioria dos irmãos japoneses, era comum vê-lo com calças de pernas curtas e camisas de punhos curtos. Ele vestia, literalmente, a provisão de Deus, e aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação (Fp 4.11–13, 19).
3. Fé provada nas dificuldades
Em 1942, casou-se com Irene Rompenso, formada na Escola Dominical da Igreja Metodista da Mooca. O pai da noiva, o sério italiano Luiz Rompenso, resistiu ao casamento com uma pergunta que ecoa até hoje: “Como é que pode alguém viver pela fé?”. A resposta veio da própria Providência. Quando a empresa em que José trabalhava atrasou o salário bem na hora de pagar a dívida dos primeiros móveis do casal, ele orou e dormiu um sono tranquilo; no dia seguinte, o carteiro trouxe uma carta com um cheque, oferta de gratidão de um conferencista a quem José havia servido como intérprete, no valor exato da necessidade (Hb 11.6).
Os anos da Segunda Guerra trouxeram provações mais duras. Por amar e pastorear os japoneses, o Rev. José foi chamado de “quinta-coluna”; a polícia invadiu a pensão onde morava e confiscou os seus preciosos livros de teologia, que nunca foram devolvidos; e ele foi várias vezes à delegacia socorrer japoneses presos apenas por conversarem no seu idioma na rua. Quando a perseguição o afastou temporariamente da colônia japonesa, Deus abriu outra porta, e o casal pastoreou com fruto uma congregação em Barretos entre 1942 e 1946. A adversidade não interrompeu o plano de Deus; muitas vezes, foi o caminho dele (Rm 8.28).
4. 1946: a cruz da continuidade
O ano de 1946 foi o mais doloroso e o mais decisivo da sua vida. Em abril, faleceu a sua mãe. Em junho, morreu tragicamente o Rev. Daniel Nishizumi, seu amigo de longa data, que já vinha convidando o casal para a obra. Diante do rebanho sem pastor, os Emerencianos mudaram-se às pressas para São Paulo e assumiram a continuidade do trabalho em Mirandópolis, inclusive o internato de filhos de imigrantes. O pioneirismo raramente é planejado em gabinetes; quase sempre nasce de uma cruz assumida por obediência (Lc 9.23).
Sob essa liderança fiel, somada ao trabalho de missionários e de outros pioneiros, a obra cresceu entre japoneses e brasileiros, e em 13 de outubro de 1949 a Igreja Metodista Livre do Brasil adquiriu personalidade jurídica, com sede à Rua das Rosas, em Mirandópolis. A denominação que hoje conhecemos passou, humanamente falando, por aquelas mãos nordestinas que aprenderam a orar em japonês.
5. Plantando igrejas, formando pessoas
Nas décadas seguintes, o Rev. José e D. Irene serviram em várias frentes: Mirandópolis, Lins, Vila Galvão e São José do Rio Preto, entre outras. O casal investia em tudo o que edificasse pessoas. Havia Escola Dominical vibrante, classes de alfabetização, acampamentos (inclusive no período de Carnaval, para guardar a juventude), retiros, campanhas evangelísticas com folhetos distribuídos até de avião, programas de rádio e as inesquecíveis serenatas em que D. Irene tocava o seu órgão portátil, carregado na garupa de uma bicicleta, para levar consolo aos idosos e doentes.
Ele evangelizava declamando poesias, ensinava, acolhia, aconselhava e formava obreiros. A sua casa era extensão do templo, e o seu ministério, um ministério de multiplicação: confiava às novas gerações o que havia recebido, como Paulo orientou a Timóteo (2Tm 2.2). Muitos pastores e líderes da nossa igreja, e até missionários da sua própria família, que anos depois partiram do Brasil para evangelizar no Japão, invertendo a rota de 1929, são frutos daquela sementeira.
6. O quarto de oração
Qual era o segredo de tanta fecundidade? Quem o visitava encontrava a resposta num pequeno escritório: a Bíblia aberta, hinários em português, inglês e japonês, a revista de meditação diária e uma lista, escrita em letras bem grandes, com os nomes das pessoas pelas quais ele orava todos os dias. Já idoso, o Rev. Emerenciano intercedia diariamente por cada um dos pastores da Igreja Metodista Livre e suas famílias, citando os nomes um a um diante de Deus (Fp 1.3–4; Cl 4.12).
Essa foi a sua última trincheira de serviço. Quando as forças físicas se foram, restou-lhe o ministério maior, o da intercessão, até que, em 15 de junho de 1998, aos 96 anos, ele foi promovido à presença do Senhor, tendo combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé (2Tm 4.7).
7. O que essa vida nos ensina
Que legado essa vida entrega à Igreja Metodista Livre do Brasil? Destaco algumas lições. A vocação se obedece sem reservas: quando Deus chama, a resposta se dá de joelhos e com as malas prontas (Is 6.8). Vive-se pela fé: a provisão de Deus pode vir em cheques inesperados ou em camisas de punhos curtos, mas nunca falta ao servo obediente (Fp 4.19). A santidade de coração e vida, ênfase que nos define como metodistas livres, não é teoria de seminário; é um quarto de oração frequentado diariamente (Hb 12.14). O amor de Cristo não conhece fronteiras de cultura, raça ou idioma, e paga o preço social de amar os rejeitados (Gl 3.28). E o ministério fecundo é sempre aquele que forma sucessores e persevera na intercessão (2Tm 2.2; 1Sm 12.23).
Aplicação pastoral
A Escritura nos manda lembrar dos nossos guias, que nos falaram a palavra de Deus, considerar o resultado do seu procedimento e imitar a sua fé (Hb 13.7). A melhor homenagem que esta geração pode prestar ao Rev. Emerenciano não é um busto nem apenas um livro, mas uma igreja que ore como ele orou, creia como ele creu e vá aonde o Senhor mandar, como ele foi.
Duas coisas da vida dele nos interpelam de perto. A primeira é o “viver pela fé”, que nele não foi frase bonita, mas uma prática de anos sem salário fixo, sustentado por ofertas e por um Deus que nunca o deixou faltar. A segunda é o quarto de oração. É fácil admirar os frutos de um ministério e esquecer a fonte secreta que os produziu. Emerenciano orava por cada pastor da igreja pelo nome, todos os dias. Talvez esse seja, de fato, o serviço mais duradouro que alguém possa prestar ao povo de Deus.
Para discussão em grupo
- Emerenciano passou três dias em oração antes de tomar a decisão que mudaria a sua vida. Como você costuma tomar as suas grandes decisões? O que aprenderia com ele?
- Ele viveu anos sem salário fixo, confiando na provisão de Deus. O que a expressão “viver pela fé” significa para você, na sua realidade concreta?
- O sogro perguntou: “Como é que pode alguém viver pela fé?”. Que resposta a vida de Emerenciano dá a essa pergunta?
- O segredo da sua fecundidade estava num quarto de oração escondido. Qual é a sua “fonte secreta”? Como está a sua vida de intercessão pelos outros?
- Ele formava sucessores e confiava às novas gerações o que recebera. A quem você tem transmitido o que Deus lhe deu?
Teste — múltipla escolha
Marque uma alternativa em cada questão e clique em “Ver minha nota”.
1. José Emílio Emerenciano nasceu em:
2. O convite que mudou o rumo da sua vida foi:
3. Durante cerca de doze anos, Emerenciano:
4. Em 1946, após a morte de Nishizumi, os Emerencianos:
5. O segredo da fecundidade do seu ministério, já idoso, estava:
Perguntas para responder com suas palavras
Tente responder de cabeça, sem olhar. Depois clique para conferir.
1. Explique, com base na vida de Emerenciano, o que é “viver pela fé”.
2. Por que a intercessão diária e nominal é descrita como talvez o serviço mais duradouro de um pastor?
Lição 5E nós? A mesma graça, a mesma missão▾




Antes de começar
Percorremos quatro vidas em quatro continentes: Wesley na Inglaterra, Roberts nos Estados Unidos, Nishizumi vindo do Japão e Emerenciano aqui no Brasil. À primeira vista, são histórias muito diferentes, separadas por séculos, oceanos e idiomas. Nesta última lição quero mostrar que, no fundo, é uma só história, e que ela não terminou. O último capítulo está sendo escrito por nós.
Sugestão de uso em grupo: um encontro, 45 a 60 minutos. Esta lição fecha o curso; reserve um bom tempo para a conversa e para o teste de revisão.
Perguntas norteadoras
- O que quatro homens tão diferentes, em épocas e lugares tão distantes, tinham em comum?
- Se essa história chegou até nós, o que Deus espera que façamos com ela?
- Qual é o seu lugar nessa mesma história?
1. Uma só graça, quatro continentes
Vale juntar num só quadro o que vimos separadamente. A graça que aqueceu o coração de Wesley numa reunião em Londres é a mesma que buscou o jovem advogado Roberts por meio de um operário gago num culto de oração. É a mesma que abriu a porta dos Millican para um doente rejeitado e transformou Nishizumi. E é a mesma que, num quarto de Santos, deu a Emerenciano a certeza de partir para o Japão. Muda o cenário, mudam os rostos, mas a graça é uma só, e ela sempre chega primeiro (Ef 2.8–9).
Repare no movimento. O Evangelho nasceu do avivamento inglês, atravessou o Atlântico e ganhou nos Estados Unidos a forma da Igreja Metodista Livre. Dos Estados Unidos foi levado ao Japão. Do Japão veio ao Brasil, na bagagem de um pastor que a própria família havia rejeitado. E aqui ganhou raízes brasileiras pelas mãos de um nordestino que aprendeu a orar em japonês. Cada um recebeu a graça de alguém e a entregou a outro. Foi assim que ela chegou até você.
2. O mesmo DNA
Não foi só a graça que se repetiu; foram também as suas marcas. Os quatro creram que essa graça vai à frente, buscando o pecador antes que ele busque a Deus. Os quatro pregaram a santidade de coração e vida, não como frieza de regras, mas como o coração tomado pelo amor a Deus e ao próximo (Hb 12.14). Nos quatro, essa santidade transbordou para fora: em Wesley, contra a escravidão e a favor dos presos; em Roberts, nos bancos livres e na defesa do oprimido; em Nishizumi, no acolhimento dos marginalizados; em Emerenciano, no amor que cruzou barreiras de raça e idioma.
E os quatro entenderam que a graça recebida vira missão. Nenhum deles guardou o que recebeu. Wesley disse que o mundo era a sua paróquia; Roberts atravessou os Estados Unidos e enviou missionários a outros continentes; Nishizumi seguiu os seus compatriotas por dois oceanos; Emerenciano formou sucessores que um dia voltaram ao Japão, invertendo a rota. Esse é o nosso DNA: graça preveniente, santidade, amor ao próximo e missão. É o que quer dizer ser metodista livre.
Um cuidado importante, para não confundirmos as coisas. Dizer que a graça busca a todos não é dizer que todos são automaticamente salvos. A graça é oferecida a todo ser humano, mas ela não força ninguém; recebe-se pela fé (Jo 3.16; Rm 10.13). Foi assim com cada um deles: a graça chegou primeiro, e cada um respondeu, crendo e entregando a vida. O mesmo convite continua aberto, e a mesma resposta continua sendo pedida.
3. E nós?
A Escritura diz que estamos “rodeados de tão grande nuvem de testemunhas” e, por isso, devemos correr “com perseverança a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1). Wesley, Roberts, Nishizumi e Emerenciano fazem parte dessa nuvem. Eles não são heróis distantes para admirarmos de longe; são a geração que correu antes de nós e nos passou o bastão. A pergunta que a vida deles faz é direta: e nós, o que faremos com o que recebemos?
A mesma graça que buscou cada um deles busca você. Talvez o seu Aldersgate ainda não tenha acontecido, e você continue servindo a Deus com medo, tentando merecer, sem a paz de quem confia. O convite é o mesmo de sempre: parar de se apoiar em si mesmo e confiar inteiramente em Cristo. E, uma vez aquecido o coração, o resto vem por acréscimo. Cada um deles tinha um “banco alugado” para derrubar, uma porta para abrir, um quarto de oração para frequentar. Nós também temos. A história da graça em movimento só continua se cada geração fizer duas coisas: receber e entregar (2Tm 2.2). Recebemos. Falta entregar.
Aplicação pastoral
Estudar a nossa história não é exercício de nostalgia, mas de identidade. Saber de onde viemos nos diz quem somos e para onde devemos ir. Somos herdeiros de um movimento que nasceu para guardar o padrão bíblico do cristianismo, viver a santidade de coração e vida e pregar o Evangelho aos pobres. Enquanto formos fiéis a isso, Wesley, Roberts, Nishizumi e Emerenciano continuarão vivos entre nós, não em bustos ou placas, mas numa igreja que ora, crê e vai.
Termino com um convite pessoal a cada um do grupo. Escolha uma das quatro marcas que estudamos e leve-a a sério nesta semana. Se for a graça, descanse nela e pare de tentar merecer o que já lhe foi dado. Se for a santidade, deixe o amor de Deus governar um ponto do seu coração que ainda resiste. Se for o amor ao próximo, abra uma porta que você vinha mantendo fechada. Se for a missão, entregue a alguém o que você recebeu. A graça só permanece em movimento quando passa por nós e segue adiante.
Para discussão em grupo
- Depois de conhecer as quatro histórias, o que mais te marcou? Por quê?
- Qual das quatro marcas do nosso DNA (graça preveniente, santidade, amor ao próximo, missão) você sente mais forte na sua vida hoje? E qual precisa crescer?
- Cada um deles recebeu a fé de alguém e a entregou a outro. Quem te entregou a fé? A quem você a tem entregado?
- O que significa, para a sua igreja local, “pregar o Evangelho aos pobres” hoje, no seu bairro e na sua cidade?
- Se daqui a cem anos alguém contar a história da graça na nossa igreja, o que você gostaria que estivesse escrito sobre a sua geração?
Teste — múltipla escolha
Marque uma alternativa em cada questão e clique em “Ver minha nota”.
1. John Wesley — a sua marca principal:
2. B. T. Roberts — a sua marca principal:
3. Daniel Nishizumi — a sua marca principal:
4. José Emílio Emerenciano — a sua marca principal:
5. A “graça preveniente”, comum aos quatro, significa que:
6. As quatro marcas do nosso “DNA” metodista livre são:
Perguntas para responder com suas palavras
Tente responder de cabeça, sem olhar. Depois clique para conferir.
1. Explique, em poucas frases, como uma mesma graça liga quatro homens tão diferentes, de quatro continentes.
2. O que você pretende fazer, na prática, com o que aprendeu neste curso?
Curso “A Graça em Movimento” · Setor Discipulado · Igreja Metodista Livre do Brasil
Bispo Ildo Mello