Há perguntas que acompanham todo ministro fiel ao longo de sua jornada. Não são perguntas de teologia sistemática, embora a teologia as atravesse por inteiro. São perguntas vividas: Como pastorear com integridade num mundo que perdeu a confiança nas lideranças? Como equilibrar a autoridade e a humildade? Como cuidar do rebanho sem destruir a si mesmo? Como terminar bem?
Este livro nasceu dessas perguntas — e das tentativas, às vezes acertadas e às vezes tortuosas, de respondê-las na prática.
Desde 1986, quando plantei minha primeira congregação ainda no segundo ano de seminário, até os dias de hoje, no exercício do episcopado na Igreja Metodista Livre do Brasil, tenho acumulado décadas de aprendizado pastoral. Não apenas aprendizado livresco — embora os livros tenham sido companheiros imprescindíveis —, mas o tipo de aprendizado que só nasce da vida compartilhada com o povo de Deus: no púlpito e na mesa de aconselhamento, nas reuniões difíceis e nos momentos de celebração, ao lado de pastores em crise e de igrejas em crescimento.
Como bispo, minha responsabilidade se ampliou. Passei a ser, entre outras coisas, um pai espiritual para dezenas de pastores e pastoras que carregam sobre seus ombros o peso e a glória do chamado ministerial. Ao acompanhá-los de perto, percebo que as questões que me habitaram nos primeiros anos de ministério continuam vivas em cada geração: a solidão pastoral, a pressão por resultados, a tentação do ativismo sem oração, os riscos da liderança não vigiada, a dificuldade de governar com graça e firmeza ao mesmo tempo.
Foi a partir desse acompanhamento episcopal — de visitas, conversas, cartas, orientações formais e informais — que fui reunindo os textos que compõem esta obra. Não se trata de uma teologia sistemática do ministério, embora a reflexão teológica esteja presente em cada capítulo. Trata-se, antes, de conselhos de caminhada: orientações que escrevi ao longo de décadas para pastores reais, em situações reais, à luz da Palavra de Deus e da tradição wesleyana que nos forma.
A organização dos textos por temas é uma tentativa de facilitar a consulta e o estudo. O leitor encontrará reflexões sobre identidade e vocação pastoral, sobre integridade e santidade de vida, sobre saúde emocional e cuidado do pastor, sobre os desafios contemporâneos do ministério — do ambiente digital à inteligência artificial, da polarização à desinformação —, sobre sacramentos e culto, sobre liderança e disciplina eclesiástica, e sobre o cuidado concreto do rebanho. Há textos mais extensos e acadêmicos; há outros breves e diretos, escritos para serem lidos rapidamente antes de uma reunião difícil ou de um momento de crise.
O fio que une tudo é a convicção de que o ministério pastoral não é uma carreira, mas uma vocação; não é uma habilidade gerencial, mas um chamado de Deus que exige o ser inteiro — coração, mente, vontade e corpo. Como dizia João Wesley: o pastor é, antes de qualquer coisa, um homem de um livro e um homem de um Deus. Toda a competência ministerial deve estar a serviço dessa dupla fidelidade.
Escrevo para pastores e pastoras que querem terminar bem. Escrevo para líderes que sentem o peso do chamado e precisam ser lembrados de que não estão sozinhos. Escrevo também para os que estão em crise, tentados a desistir, porque sei que “aquele que vos chama é fiel, e fará isso” (1Ts 5.24).
Que estas páginas sejam um companheiro de jornada. Que, nas mãos do Espírito Santo, sirvam para fortalecer pastores fiéis, corrigir desvios a tempo, e edificar igrejas que glorifiquem ao Deus que nos amou e nos chamou para servi-lo.
Ildo Mello
Bispo da Igreja Metodista Livre do Brasil