O Dever Especial dos Pastores de Igrejas
Resumo do capítulo de John Owen, em Pastores & Diáconos Bíblicos (Nehemiah Coxe & John Owen. 1ª ed. Francisco Morato, SP: O Estandarte de Cristo).
Neste capítulo, Owen descreve as responsabilidades centrais do ofício pastoral. Um fio condutor amarra todas elas: o pastor existe para nutrir, guardar e cuidar de um rebanho que pertence a Cristo — comprado com o seu próprio sangue (At 20.28). Dessa convicção decorrem oito deveres concretos.
1. Alimentar o rebanho pela pregação diligente da Palavra
Para Owen, o dever primordial do pastor é alimentar o rebanho pelo ensino contínuo da Palavra. Em Jeremias 3.15, Deus promete dar pastores “segundo o meu coração”, que apascentarão o povo “com conhecimento e inteligência” — e, nesse texto, apascentar equivale a ensinar. A pregação, portanto, não é um acessório do ofício: é o seu centro.
As Escrituras convergem nessa direção. O mandato de Jesus a Pedro — “apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21.15–17) — não foi pessoal e único, mas modelo do encargo confiado a todos os pastores. Os apóstolos, diante do risco de dispersão, recusaram-se a negligenciar o ministério da Palavra e delegaram outras tarefas aos diáconos, justamente para se dedicarem “à oração e ao ministério da palavra” (At 6.1–4). Paulo, por sua vez, reserva dupla honra aos presbíteros que governam bem, “especialmente os que se dedicam à pregação e ao ensino” (1Tm 5.17), e adverte os líderes de Éfeso a pastorearem o rebanho que o Espírito Santo lhes confiou (At 20.28).
A pregação deve ser feita com diligência e constância, “a tempo e fora de tempo” (2Tm 4.2), pois é a principal ferramenta que Deus usa para corrigir e edificar a igreja (Ef 4.11–12). Owen conclui que o pastor deve afastar tudo o que o desvie desse chamado: pregar não é opcional, mas obrigação inescapável — “ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16). Negligenciá-lo é transgressão grave, que compromete a saúde espiritual do rebanho.
2. Orar continuamente pelo rebanho
O segundo dever é a oração fervorosa e constante. Os apóstolos uniram as duas prioridades — “à oração e ao ministério da palavra” (At 6.4) —, e Owen insiste que sem oração nenhum pastor prega adequadamente nem cumpre qualquer outro dever. A oração é o que torna a Palavra viva e eficaz no coração dos ouvintes.
Essa intercessão tem alvos definidos:
As tentações do rebanho, que variam conforme as circunstâncias (perseguição, aflição, tempos de paz). O modelo é o próprio Cristo, que orou por Pedro para que sua fé não desfalecesse (Lc 22.31–32).
A condição espiritual de cada membro — os doentes, os fracos, os distantes, os que precisam de direção —, à semelhança da oração de Paulo para que os crentes crescessem “no conhecimento de Deus” (Cl 1.9–10).
A presença de Cristo nas reuniões (Mt 18.20) e a eficácia das ordenanças (batismo e Ceia), para que não se reduzam a formas vazias, mas operem como verdadeiros meios de graça.
3. Administrar os selos da aliança (sacramentos)
Administrar o batismo e a Ceia do Senhor é parte vital do ofício (At 20.28). Os sacramentos são selos visíveis da Palavra e devem ser administrados exatamente como Cristo os instituiu, sem acréscimos humanos — Paulo entregou à igreja o que “recebeu do Senhor” (1Co 11.23).
Owen aplica aqui o princípio de Deuteronômio 12.32: nada acrescentar nem retirar. Inovações nas ordenanças abrem caminho para a idolatria e afastam a igreja da verdadeira adoração. Além disso, os sacramentos devem ser administrados com discernimento, aos que estão preparados e em comunhão com a igreja, e não de modo indiscriminado (Mt 7.6).
4. Preservar a verdade do Evangelho
Os pastores são guardiões da doutrina. Cabe-lhes “batalhar pela fé uma vez por todas confiada aos santos” (Jd 3) e guardar o depósito do Evangelho que lhes foi confiado (1Tm 1.11; 2Tm 4.7). A igreja é “coluna e fundamento da verdade” (1Tm 3.15), e essa firmeza depende, em boa parte, da fidelidade de seus líderes.
A ameaça é real e, muitas vezes, interna: Paulo adverte que “dentre vós mesmos se levantarão homens” que torcerão a verdade para atrair discípulos (At 20.30). Por isso o pastor precisa não só ensinar a sã doutrina, mas também refutar o erro (Tt 1.9) — o que exige conhecimento profundo das Escrituras, discernimento espiritual e vigilância contínua. Negligenciar essa guarda é abrir a porta a heresias.
5. Trabalhar diligentemente pela conversão de almas
A pregação é o meio primário pelo qual Deus chama pecadores ao arrependimento e à fé, pois o Evangelho “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Além de edificar os crentes, o pastor tem o dever de buscar ativamente a conversão dos perdidos, em obediência à Grande Comissão: “fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19–20).
Esse encargo carrega a mesma urgência que Paulo sentia (1Co 9.16) e deve ser exercido “a tempo e fora de tempo” (2Tm 4.2) — não apenas nos cultos regulares, mas em toda oportunidade providencial. O pastor prega convicto de que o poder transformador do Evangelho é capaz de converter qualquer pecador.
6. Confortar e revigorar os aflitos e tentados
O pastor deve estar pronto para confortar os que sofrem, são tentados ou estão desanimados. Isaías 50.4 fala de uma “língua instruída”, capaz de “sustentar com uma palavra o que está cansado”: é preciso sabedoria e experiência espiritual para dizer a palavra certa, no tempo certo.
Esse é um encargo explícito do ministério — “confortai os desanimados, amparai os fracos” (1Ts 5.14) — e tem origem em Deus mesmo, “o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação”, que nos consola para que possamos consolar os outros (2Co 1.3–4). O conforto que o pastor oferece, portanto, não é fruto de sua eloquência, mas da consolação que ele próprio recebeu de Deus.
7. Compadecer-se dos membros em suas tribulações
À compaixão une-se a identificação. Owen lembra a pergunta de Paulo: “Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?” (2Co 11.29). O pastor deve sentir com seu rebanho, partilhar de suas dores e oferecer apoio em todas as provações, internas ou externas. É o cumprimento prático da lei de Cristo: “levai as cargas uns dos outros” (Gl 6.2).
8. Cuidar dos pobres e visitar os doentes
Deveres comuns, mas frequentemente negligenciados. Owen recorda que a religião pura diante de Deus inclui “cuidar dos órfãos e das viúvas nas suas dificuldades” (Tg 1.27), e que servir ao necessitado é servir ao próprio Cristo (Mt 25.35–36). Diante da enfermidade, a igreja é chamada à ação concreta: que os presbíteros orem sobre o doente e o unjam com óleo em nome do Senhor (Tg 5.14–15). O cuidado pastoral atende, assim, tanto às necessidades práticas quanto às espirituais.
Conclusão
Os oito deveres convergem para um único centro: o pastor é um servo a quem se confiou um rebanho que pertence a Cristo. Palavra e oração são as colunas gêmeas do ofício (At 6.4); os sacramentos selam a Palavra; a sã doutrina a guarda; a evangelização a estende; e o conforto, a compaixão e o cuidado a aplicam às vidas concretas.
A advertência de Owen é constante: negligenciar qualquer um desses deveres compromete o ministério e prejudica a saúde espiritual da igreja. A fidelidade pastoral exige, portanto, diligência no ensino, perseverança na oração, discernimento na doutrina e amor genuíno pelo rebanho — nutrindo o povo de Deus “com conhecimento e inteligência” (Jr 3.15).