2Samuel 21.1 §
Nota de John Wesley
Então — as coisas aqui relatadas, e as de 2Sm 24.1-25, os melhores intérpretes entendem terem acontecido muito antes da rebelião de Absalão. E essa opinião não carece de fundamentos suficientes. Primeiro, a partícula então é aqui explicada por nos dias, isto é, durante o reinado de Davi — palavras gerais que parecem acrescentadas como indicação de que estas coisas não se deram depois dos episódios imediatamente anteriores; pois nesse caso o escritor sagrado teria antes acrescentado depois destas coisas, como em muitos outros lugares. Segundo, há aqui várias passagens que parece improvável atribuir aos últimos anos do reinado de Davi: como, primeiro, que o pecado de Saul contra os gibeonitas ficasse tanto tempo sem castigo — e, de fato, que isto já se tinha dado, e os sete filhos de Saul já tinham sido enforcados por ordem de Davi antes daquele tempo, parece indicado pela passagem de 2Sm 16.8, onde ele é acusado do sangue da casa de Saul, acusação para a qual não havia o menor pretexto até este episódio. Segundo, que Davi não removesse os ossos de Saul e de Jônatas para o seu devido lugar até então. Terceiro, que os filisteus fizessem guerra a Davi repetidas vezes (v. 15ss) tanto tempo depois de ele os ter subjugado por completo (2Sm 8.1); e que Davi, na velhice, tentasse pelejar com um gigante filisteu, ou que o seu povo lho permitisse. Quarto, que Davi tivesse então desejo tão veemente de contar o seu povo (2Sm 24.1) — ato de vaidade juvenil que não condiz com a sua velhice, nem com o estado de profunda humilhação em que então se achava. E a razão de estas matérias virem aqui fora da sua ordem própria é claramente esta: relatado uma vez o pecado de Davi, era mui conveniente que os castigos de Davi se seguissem imediatamente — coisa frequentíssima na história sagrada: juntar as coisas que pertencem a um mesmo assunto, embora acontecidas em tempos diversos. Matou — o que foi ato não só de crueldade, mas também de perfídia, por ser violação pública do juramento solene dado aos gibeonitas por Josué e pelos príncipes, em nome de todos os israelitas, daquela e das gerações seguintes. 'Mas por que Deus não castigou Saul em vida por isto, e sim os seus filhos e os israelitas desta geração?' Primeiro: Deus castigou severamente Saul por este e pelos seus outros pecados. Segundo: como Deus pode justamente infligir castigos temporais a qualquer ofensor, quer na sua pessoa, quer na sua posteridade, quando lhe apraz, convém que tome o seu próprio tempo para isso; e é loucura nossa questionar Deus por assim fazer. Terceiro: os israelitas podiam de vários modos ter-se feito cúmplices do pecado de Saul, ainda que isso não se mencione em particular — aconselhando-o ou animando-o a ele, ou ajudando-o na sua execução. E ainda que muitos do povo fossem provavelmente inocentes daquele crime, eram culpados de muitos outros pecados, pelos quais Deus os podia castigar, tomando esta ocasião para isso.
Nota do editor
Wesley toca aqui num nervo: um juramento feito séculos antes (Js 9.15,19-20) ainda obrigava a nação, e quebrá-lo trouxe fome sobre gerações. Deus leva a palavra empenhada mais a sério do que nós (Sl 15.4; Ec 5.4-6) — e a resposta veio quando Davi 'consultou o SENHOR' em vez de tratar a fome como acaso (2Sm 21.1): as calamidades persistentes pedem exame, não apenas resignação. Sobre a justiça transgeracional, convém o equilíbrio bíblico: há consequências que descem aos filhos (Êx 20.5), mas cada alma responde pelo próprio pecado no juízo final (Ez 18.20; Jr 31.29-30).