Êxodo 12.1-8 §
Nota de John Wesley
Disse o SENHOR (v. 1) — dissera, antes dos três dias de trevas; mas a menção ficou para este lugar, para não interromper a história das pragas. Este vos será o princípio dos meses (v. 2) — até então começavam o ano em meados de setembro; dali em diante o começariam em meados de março, ao menos em todos os cômputos eclesiásticos. Podemos supor que, enquanto trazia as dez pragas sobre os egípcios, Moisés ia orientando os israelitas a preparar-se para partir ao primeiro aviso. Provavelmente já os fora aproximando, aos poucos, das suas dispersões — pois aqui são chamados a congregação de Israel, e a eles, como congregação, se enviam estas ordens. Tome cada um um cordeiro (v. 3) — por família; ou duas ou três famílias pequenas se juntariam para um cordeiro. O cordeiro devia estar pronto quatro dias antes; e, naquela tarde, deviam imatá-lo (v. 6) — como sacrifício, não em sentido estrito, pois não era oferecido sobre o altar, mas como cerimônia religiosa, reconhecendo a bondade de Deus, que não só os preservou das pragas infligidas aos egípcios, mas por elas os libertou. O cordeiro imolado deviam comê-lo assado, com pães asmos e ervas amargas; deviam comê-lo à pressa (v. 11) e nada deixar até a manhã — pois Deus queria que dependessem dele para o pão de cada dia. Antes de comer a carne, deviam aspergir o sangue nas ombreiras das portas, pelas quais as suas casas se distinguiriam das casas dos egípcios, ficando os seus primogênitos a salvo da espada do anjo destruidor. Obra terrível se faria naquela noite no Egito: todos os primogênitos, de homens e de animais, seriam mortos, e executado juízo sobre os deuses do Egito (Nm 33.4) — é provável que os ídolos fossem desfigurados: fundidos os de metal, consumidos os de madeira, despedaçados os de pedra. Isto se observaria anualmente como festa do SENHOR nas suas gerações, com a festa dos pães asmos anexa: por sete dias não comeriam pão que não fosse asmo, em memória de terem ficado restritos a tal pão por muitos dias depois de sair do Egito (v. 14-20). Havia muito do evangelho nesta ordenança. Primeiro, o cordeiro pascal era figura: Cristo é a nossa Páscoa (1Co 5.7) e o Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Devia ser macho de um ano, no seu vigor — Cristo ofereceu-se a si mesmo no meio dos seus dias; nota-se a força e suficiência do Senhor Jesus, sobre quem foi posto o nosso socorro. Devia ser sem defeito — nota a pureza do Senhor Jesus, cordeiro sem mácula (1Pe 1.19). Devia ser separado quatro dias antes — nota a designação do Senhor Jesus para Salvador, no propósito e na promessa; e é notável que, crucificado na Páscoa, ele entrou solenemente em Jerusalém quatro dias antes: o próprio dia em que se separava o cordeiro pascal. Devia ser imolado e assado ao fogo — nota os sofrimentos extremos do Senhor Jesus, até a morte, e morte de cruz. Devia ser morto por toda a congregação, entre as duas tardes, isto é, entre as três e as seis horas — Cristo padeceu no fim dos tempos (Hb 9.26), pela mão dos judeus, a multidão toda deles (Lc 23.18). E osso nenhum se lhe quebraria (v. 46) — o que expressamente se diz cumprido em Cristo (Jo 19.33, 36). Segundo, a aspersão do sangue era figura. Não bastava que o sangue do cordeiro fosse derramado: devia ser aspergido — nota a aplicação dos méritos da morte de Cristo à nossa alma. Devia ser aspergido nas ombreiras das portas — nota a profissão aberta que devemos fazer da fé em Cristo e da obediência a ele: a marca da besta pode receber-se na testa ou na mão direita, mas o selo do Cordeiro é sempre na testa (Ap 7.3). E o sangue assim aspergido foi o meio da preservação dos israelitas do anjo destruidor — se o sangue de Cristo for aspergido na nossa consciência, será a nossa proteção contra a ira de Deus, a maldição da lei e a condenação do inferno. Terceiro, a refeição solene do cordeiro era figura do nosso dever evangélico para com Cristo. O cordeiro pascal foi morto não para ser contemplado apenas, mas para servir de alimento: assim devemos, pela fé, fazer Cristo nosso, como fazemos nosso o que comemos, e receber dele força e nutrição espirituais, como do nosso alimento, e ter nele delícia, como a temos em comer e beber quando famintos ou sedentos. Devia ser comido todo: os que pela fé se alimentam de Cristo devem alimentar-se de Cristo inteiro — tomar Cristo e o seu jugo, Cristo e a sua cruz, tanto quanto Cristo e a sua coroa. Devia ser comido com ervas amargas, em memória da amargura da servidão no Egito: devemos alimentar-nos de Cristo com coração quebrantado, em memória do pecado. E devia ser comido em postura de partida (v. 11): quando nos alimentamos de Cristo pela fé, devemos estar desapegados do mundo e de tudo o que nele há. Quarto, a festa dos pães asmos era figura da vida cristã (1Co 5.7-8). Tendo recebido Cristo Jesus, o Senhor: devemos celebrar a festa em santa alegria, deleitando-nos continuamente nele — se os verdadeiros crentes não têm festa contínua, a culpa é deles; deve ser festa de pães asmos, celebrada em caridade, sem o fermento da malícia, e em sinceridade, sem o fermento da hipocrisia — todo o velho fermento do pecado deve ser lançado para longe de nós, com o máximo cuidado, se queremos celebrar a festa de uma vida santa para a honra de Cristo; e devia ser ordenança perpétua: enquanto vivermos, devemos continuar a alimentar-nos de Cristo e a nos alegrar nele sempre, com menção agradecida das grandes coisas que por nós fez.