E o SENHOR passou diante dele — as vistas fixas de Deus estão reservadas para o estado futuro; as melhores que temos neste mundo são passageiras. E proclamou o nome do SENHOR — pelo qual se daria a conhecer. Dera-se a conhecer a Moisés na glória da sua existência própria e autossuficiência, quando proclamou aquele nome EU SOU O QUE SOU; agora se dá a conhecer na glória da sua graça e bondade, e da sua toda-suficiência para nós. O proclamá-lo denota a extensão universal da misericórdia de Deus: ele não é bom somente para Israel — é bom para todos. O Deus com quem tratamos é Deus grande: é Javé, o SENHOR, que tem o ser de si mesmo e é a fonte de todo ser. Isto vem à frente da exibição da sua misericórdia, para nos ensinar a pensar e falar até da bondade de Deus com santo temor, e para nos animar a depender dessas misericórdias. E é Deus bom: a sua grandeza e a sua bondade ilustram-se mutuamente — para que a grandeza não nos apavore, diz-se-nos quão bom ele é; para que não abusemos da bondade, diz-se-nos quão grande ele é. Muitas palavras se acumulam aqui para nos convencer da bondade de Deus. Primeira: ele é misericordioso — fala a sua piedade e terna compaixão, como a de um pai pelos filhos; vem primeiro, por ser a primeira roda em todas as mostras da boa vontade de Deus para com o homem caído. Segunda: é gracioso — fala gratuidade e bondade: não só compaixão pelas criaturas, mas complacência nelas e em lhes fazer bem, e isso de pura boa vontade, não por coisa alguma nelas. Terceira: é longânimo — ramo da bondade de Deus a que a nossa maldade dá ocasião: tardio em irar-se, adia as execuções da sua justiça, espera para ser gracioso e prolonga as ofertas da sua misericórdia. Quarta: é grande em benignidade e verdade — bondade abundante, acima do que merecemos, acima do que concebemos: as nascentes da misericórdia sempre cheias, as correntes sempre a fluir; há em Deus misericórdia que baste para todos, para cada um, para sempre; e bondade prometida — benignidade e verdade juntas: bondade empenhada por promessa. Quinta: guarda a misericórdia em mil gerações — misericórdia estendida a milhares de pessoas: quando dá a uns, ainda guarda para outros, e nunca se esgota; misericórdia vinculada a milhares de gerações, até àqueles sobre quem chegou o fim dos séculos — a sua linha corre paralela à da própria eternidade. Sexta: perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado — especifica-se a misericórdia perdoadora porque nela a graça divina mais se engrandece, e porque é ela que abre a porta a todos os outros dons da graça: perdoa ofensas de toda sorte, multiplica os seus perdões, e com ele há copiosa redenção. E é Deus justo e santo: pois não tem por inocente o culpado — não inocentará o culpado impenitente, o que persiste nas suas transgressões; não o inocentará sem satisfação à sua justiça; e visita a iniquidade dos pais nos filhos — especialmente no castigo dos idólatras. Contudo, não guarda para sempre a sua ira: visita só até a terceira e quarta geração, enquanto guarda misericórdia em milhares. Este é o nome de Deus para sempre, e este o seu memorial de geração em geração. E Moisés apressou-se, inclinou-se à terra e adorou (v. 8) — exprimiu assim a sua humilde reverência e adoração da glória de Deus, com a sua alegria nesta revelação que Deus fez de si mesmo, e a sua gratidão por ela; e também a sua santa submissão à vontade de Deus, subscrevendo tanto a sua justiça como a sua misericórdia, e pondo a si e ao seu povo Israel debaixo do governo de um Deus tal qual Javé agora se proclamara. Seja este Deus o nosso Deus para todo o sempre! E disse: Rogo-te, vá o Senhor no meio de nós (v. 9) — pois a tua presença é tudo para a nossa segurança e o nosso êxito. E perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado — do contrário, não podemos esperar que vás conosco. E toma-nos por tua herança — sobre a qual terás olhar e cuidado particulares. Estas coisas Deus já prometera a Moisés; e contudo ele as pede, não por duvidar da sinceridade das concessões de Deus, mas como quem se empenha pela sua ratificação. E estranho é o argumento de que usa: porque este é povo de dura cerviz — Deus dera exatamente isto como razão de não ir com eles (Êx 33.3). Sim, diz Moisés: por isso mesmo, vai conosco; quanto piores são, mais necessidade têm da tua presença. Moisés os vê tão obstinados que não tem paciência nem poder que bastem para lidar com eles: portanto, Senhor, vai tu no meio de nós — do contrário nunca serão mantidos em respeito; tu os pouparás e os suportarás, porque és Deus, e não homem. Eis que faço uma aliança (v. 10) — quando a aliança foi quebrada, foi Israel que a quebrou; agora que vem a ser renovada, é Deus quem a faz. Se há contendas, nossa deve ser toda a culpa; se há paz, de Deus deve ser toda a glória. Diante de todo o teu povo farei maravilhas — como o secar-se o Jordão, o parar do sol: maravilhas de fato, pois sem precedente — quais nunca se fizeram em toda a terra; o povo verá e reconhecerá a obra do SENHOR; e elas eram o terror dos seus inimigos: coisa terrível é o que farei contigo. Guarda o que eu te ordeno (v. 11) — não podemos esperar o benefício das promessas se não fizermos consciência dos preceitos. Os dois grandes preceitos são: não adorarás outros deuses — com boa razão anexa: porque o SENHOR, cujo nome é Zeloso, é Deus zeloso — tão sensível nas coisas do seu culto como o esposo na honra do leito conjugal; e não farás para ti deuses de fundição — não adorarás o Deus verdadeiro por imagens: era o pecado em que havia pouco tinham caído, contra o qual por isso são particularmente advertidos. E, para não serem tentados a adorar outros deuses, não deviam unir-se por afinidade ou amizade aos que os adoravam.