Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Êxodo 34

Referências: 34.1-434.534.6-1134.12-3034.33-35

Introdução ao capítulo

Quatro mostras do retorno do favor de Deus temos neste capítulo: as ordens que dá a Moisés de subir ao monte na manhã seguinte, levando duas tábuas de pedra (v. 1-4); o seu encontro com ele ali, e a proclamação do seu nome (v. 6-9); as instruções que ali lhe deu, e a sua conversa com ele por quarenta dias (v. 10-28); e a honra que pôs sobre ele, ao enviá-lo para baixo com o rosto resplandecente (v. 29-35). Em tudo isto Deus tratou com Moisés como mediador entre ele e Israel, e figura do grande Mediador.

Êxodo 34.1-4 §

Nota de John Wesley

Moisés deve preparar-se para a renovação das tábuas. Antes, o próprio Deus proveu as tábuas e nelas escreveu; agora Moisés deve lavrá-las, e Deus somente escreverá nelas. Quando Deus se reconciliou com eles, ordenou que as tábuas fossem renovadas e nelas escreveu a sua lei — o que claramente nos indica que, mesmo sob o evangelho (de que a intercessão de Moisés era figura), a lei moral continuaria a obrigar os crentes. Embora Cristo nos tenha redimido da maldição da lei, não nos redimiu do seu mandamento: continuamos debaixo da lei para com Cristo. Quando o nosso Salvador, no sermão do monte, expôs a lei moral e a vindicou das glosas corruptas com que os escribas e fariseus a haviam quebrado, ele de fato renovou as tábuas e as fez como as primeiras: isto é, restituiu a lei ao seu sentido e intenção primitivos.

Temas: leicristo

Êxodo 34.5 §

Nota de John Wesley

E o SENHOR desceu — por algum sinal sensível da sua presença e manifestação da sua glória. Desceu na nuvem — provavelmente aquela coluna de nuvem que até ali fora adiante de Israel, e na véspera se encontrara com Moisés à porta da tenda.

Êxodo 34.6-11 §

Nota de John Wesley

E o SENHOR passou diante dele — as vistas fixas de Deus estão reservadas para o estado futuro; as melhores que temos neste mundo são passageiras. E proclamou o nome do SENHOR — pelo qual se daria a conhecer. Dera-se a conhecer a Moisés na glória da sua existência própria e autossuficiência, quando proclamou aquele nome EU SOU O QUE SOU; agora se dá a conhecer na glória da sua graça e bondade, e da sua toda-suficiência para nós. O proclamá-lo denota a extensão universal da misericórdia de Deus: ele não é bom somente para Israel — é bom para todos. O Deus com quem tratamos é Deus grande: é Javé, o SENHOR, que tem o ser de si mesmo e é a fonte de todo ser. Isto vem à frente da exibição da sua misericórdia, para nos ensinar a pensar e falar até da bondade de Deus com santo temor, e para nos animar a depender dessas misericórdias. E é Deus bom: a sua grandeza e a sua bondade ilustram-se mutuamente — para que a grandeza não nos apavore, diz-se-nos quão bom ele é; para que não abusemos da bondade, diz-se-nos quão grande ele é. Muitas palavras se acumulam aqui para nos convencer da bondade de Deus. Primeira: ele é misericordioso — fala a sua piedade e terna compaixão, como a de um pai pelos filhos; vem primeiro, por ser a primeira roda em todas as mostras da boa vontade de Deus para com o homem caído. Segunda: é gracioso — fala gratuidade e bondade: não só compaixão pelas criaturas, mas complacência nelas e em lhes fazer bem, e isso de pura boa vontade, não por coisa alguma nelas. Terceira: é longânimo — ramo da bondade de Deus a que a nossa maldade dá ocasião: tardio em irar-se, adia as execuções da sua justiça, espera para ser gracioso e prolonga as ofertas da sua misericórdia. Quarta: é grande em benignidade e verdade — bondade abundante, acima do que merecemos, acima do que concebemos: as nascentes da misericórdia sempre cheias, as correntes sempre a fluir; há em Deus misericórdia que baste para todos, para cada um, para sempre; e bondade prometida — benignidade e verdade juntas: bondade empenhada por promessa. Quinta: guarda a misericórdia em mil gerações — misericórdia estendida a milhares de pessoas: quando dá a uns, ainda guarda para outros, e nunca se esgota; misericórdia vinculada a milhares de gerações, até àqueles sobre quem chegou o fim dos séculos — a sua linha corre paralela à da própria eternidade. Sexta: perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado — especifica-se a misericórdia perdoadora porque nela a graça divina mais se engrandece, e porque é ela que abre a porta a todos os outros dons da graça: perdoa ofensas de toda sorte, multiplica os seus perdões, e com ele há copiosa redenção. E é Deus justo e santo: pois não tem por inocente o culpado — não inocentará o culpado impenitente, o que persiste nas suas transgressões; não o inocentará sem satisfação à sua justiça; e visita a iniquidade dos pais nos filhos — especialmente no castigo dos idólatras. Contudo, não guarda para sempre a sua ira: visita só até a terceira e quarta geração, enquanto guarda misericórdia em milhares. Este é o nome de Deus para sempre, e este o seu memorial de geração em geração. E Moisés apressou-se, inclinou-se à terra e adorou (v. 8) — exprimiu assim a sua humilde reverência e adoração da glória de Deus, com a sua alegria nesta revelação que Deus fez de si mesmo, e a sua gratidão por ela; e também a sua santa submissão à vontade de Deus, subscrevendo tanto a sua justiça como a sua misericórdia, e pondo a si e ao seu povo Israel debaixo do governo de um Deus tal qual Javé agora se proclamara. Seja este Deus o nosso Deus para todo o sempre! E disse: Rogo-te, vá o Senhor no meio de nós (v. 9) — pois a tua presença é tudo para a nossa segurança e o nosso êxito. E perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado — do contrário, não podemos esperar que vás conosco. E toma-nos por tua herança — sobre a qual terás olhar e cuidado particulares. Estas coisas Deus já prometera a Moisés; e contudo ele as pede, não por duvidar da sinceridade das concessões de Deus, mas como quem se empenha pela sua ratificação. E estranho é o argumento de que usa: porque este é povo de dura cerviz — Deus dera exatamente isto como razão de não ir com eles (Êx 33.3). Sim, diz Moisés: por isso mesmo, vai conosco; quanto piores são, mais necessidade têm da tua presença. Moisés os vê tão obstinados que não tem paciência nem poder que bastem para lidar com eles: portanto, Senhor, vai tu no meio de nós — do contrário nunca serão mantidos em respeito; tu os pouparás e os suportarás, porque és Deus, e não homem. Eis que faço uma aliança (v. 10) — quando a aliança foi quebrada, foi Israel que a quebrou; agora que vem a ser renovada, é Deus quem a faz. Se há contendas, nossa deve ser toda a culpa; se há paz, de Deus deve ser toda a glória. Diante de todo o teu povo farei maravilhas — como o secar-se o Jordão, o parar do sol: maravilhas de fato, pois sem precedente — quais nunca se fizeram em toda a terra; o povo verá e reconhecerá a obra do SENHOR; e elas eram o terror dos seus inimigos: coisa terrível é o que farei contigo. Guarda o que eu te ordeno (v. 11) — não podemos esperar o benefício das promessas se não fizermos consciência dos preceitos. Os dois grandes preceitos são: não adorarás outros deuses — com boa razão anexa: porque o SENHOR, cujo nome é Zeloso, é Deus zeloso — tão sensível nas coisas do seu culto como o esposo na honra do leito conjugal; e não farás para ti deuses de fundição — não adorarás o Deus verdadeiro por imagens: era o pecado em que havia pouco tinham caído, contra o qual por isso são particularmente advertidos. E, para não serem tentados a adorar outros deuses, não deviam unir-se por afinidade ou amizade aos que os adoravam.

Nota do editor

Êxodo 34.6-7 é a autodefinição de Deus mais citada pela própria Escritura (Nm 14.18; Ne 9.17; Sl 86.15; 103.8; Jl 2.13; Jn 4.2). Note o equilíbrio que Wesley preserva: a misericórdia vem primeiro e transborda ('em mil gerações'), mas não anula a justiça ('não tem por inocente o culpado impenitente'). Não há aqui universalismo: o perdão é copioso, mas alcança o pecador que se volta para Deus — o impenitente que 'persiste nas suas transgressões' permanece sob juízo.

Temas: gracamisericordiaalianca

Êxodo 34.12-30 §

Nota de John Wesley

Guarda-te a ti mesmo (v. 12) — é pecado a que és propenso, e que facilmente te assedia; abstém-te com cuidado de toda aproximação dele: não faças aliança com os moradores da terra. Se Deus, por bondade para com eles, expulsava os cananeus, deviam eles, por dever para com Deus, não os acolher; se desposassem os seus filhos, correriam perigo de desposar os seus deuses. E, para não serem tentados a fazer deuses de fundição, deviam destruir totalmente os que achassem, com tudo o que lhes pertencia — os altares e os bosques —, para que, deixados de pé, não viessem com o tempo ou a usá-los, ou a tomá-los por modelo. Repetem-se aqui várias ordenações já feitas, especialmente as das festas solenes (v. 21): quando fizeram o bezerro, apregoaram uma festa em sua honra; agora, para que nunca mais o fizessem, encarrega-se-lhes a observância das festas que Deus instituiu. Descansarás, até na aradura e na sega — os tempos mais atarefados do ano: todo negócio do mundo deve ceder àquele santo descanso; a obra da colheita prosperará tanto melhor pela observância religiosa do sábado no tempo da colheita. Com isso devemos mostrar que preferimos a nossa comunhão com Deus ao negócio e à alegria da própria sega. Três vezes no ano, todos os teus homens comparecerão (v. 23) — mas poderia sugerir-se: subindo todos os homens de cada região para adorar no lugar que Deus escolhesse, a terra ficaria exposta às investidas dos vizinhos — e que seria das pobres mulheres e crianças? Confia-os a Deus. Ninguém cobiçará a tua terra (v. 24) — não só não a invadirão: nem sequer pensarão em invadi-la. Que milagre permanente foi este, por tantas gerações! E escreveu (v. 28) — Deus. A pele do seu rosto resplandecia (v. 29) — desta vez, no monte, Moisés ouviu apenas o que já ouvira; mas viu mais da glória de Deus — e, havendo-a contemplado de rosto descoberto, foi em certa medida transformado na mesma imagem. Foi grande honra feita a Moisés, para que o povo nunca mais lhe questionasse a missão, nem pensasse ou falasse dele com pouco caso: levava as suas credenciais no próprio semblante. Alguns pensam que, enquanto viveu, reteve restos desta glória — o que talvez contribuísse para o vigor da sua velhice: não podia embaciar-se o olho que vira a Deus, nem enrugar-se o rosto que resplandecera com a sua glória. E Arão e os filhos de Israel o viram, e temeram (v. 30) — não só lhes ofuscava os olhos, mas lhes infundiu tal temor que os obrigou a recuar. Provavelmente duvidavam se era sinal do favor de Deus, ou do seu desagrado.

Temas: sabadocomunhao

Êxodo 34.33-35 §

Nota de John Wesley

E Moisés pôs um véu sobre o rosto — este véu significava a obscuridade daquela dispensação: as instituições cerimoniais tinham em si muito de Cristo e do evangelho, mas sobre isso se corria um véu, de modo que os filhos de Israel não podiam ver distinta e fixamente aqueles bens vindouros de que a lei tinha sombra. Era formosura velada — ouro na mina, pérola na concha. Mas, graças a Deus, pelo evangelho o véu foi tirado de sobre o Antigo Testamento; contudo, permanece ainda sobre o coração dos que fecham os olhos contra a luz. Quando, porém, entrava perante o SENHOR, tirava o véu (v. 34) — todo véu deve ser lançado de lado quando vamos apresentar-nos ao Senhor. Isto também significava, como se explica em 2 Coríntios 3.16, que, quando uma alma se converte ao Senhor, o véu lhe é tirado, para que com rosto descoberto contemple a sua glória.

Temas: cristograca

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