Gênesis 1.1-2 §
Nota de John Wesley
Observe aqui, primeiro, o efeito produzido: os céus e a terra — isto é, o mundo, com toda a armação e a mobília do universo. Moisés se propõe a relatar apenas a parte visível da criação; e mesmo nela há segredos que não podemos sondar nem explicar. Mas, do que vemos dos céus e da terra, podemos inferir o eterno poder e a divindade do grande Criador. E que a nossa constituição e o nosso lugar, como seres humanos, nos lembrem do nosso dever como cristãos: manter sempre o céu diante dos olhos e a terra debaixo dos pés. Observe, segundo, o autor e a causa desta grande obra: Deus. A palavra hebraica é Elohim, que parece indicar, de um lado, o Deus da aliança — pois deriva de uma raiz que significa jurar —, e, de outro, a pluralidade de pessoas na Divindade: Pai, Filho e Espírito Santo. O nome plural de Deus em hebraico, que fala dele como muitos embora seja um só, talvez tenha sido para os gentios um cheiro de morte para morte, endurecendo-os na idolatria; mas para nós é cheiro de vida para vida, confirmando a nossa fé na doutrina da Trindade que, apenas esboçada no Antigo Testamento, é claramente revelada no Novo. Observe, terceiro, o modo como a obra foi efetuada: Deus criou — isto é, fez do nada. Não havia matéria preexistente da qual o mundo fosse produzido. Os peixes e as aves foram, de fato, produzidos das águas, e os animais e o ser humano, da terra; mas aquela terra e aquelas águas foram feitas do nada. Observe, quarto, quando a obra foi produzida: no princípio — isto é, no princípio do tempo. O tempo começou com a produção dos seres que por ele são medidos. Antes do princípio do tempo não havia senão o Ser infinito que habita a eternidade. Se perguntássemos por que Deus não fez o mundo antes, estaríamos apenas obscurecendo o conselho com palavras sem conhecimento — pois como poderia haver antes ou depois na eternidade? No versículo 2 temos o relato da primeira matéria e do primeiro Motor. A primeira matéria foi um caos. Ele é chamado aqui de terra (embora a terra propriamente dita só tenha sido feita no terceiro dia, v. 10) porque era o que mais se parecia com aquilo que depois se chamaria terra: uma massa pesada e disforme. É chamado também de abismo, tanto pela sua vastidão quanto porque as águas que depois seriam separadas da terra estavam ainda misturadas com ela. Dessa imensa massa de matéria todos os corpos foram depois produzidos. O Criador poderia ter feito a sua obra perfeita desde o primeiro instante; mas, procedendo por etapas, quis mostrar qual é, ordinariamente, o método da sua providência e da sua graça. Esse caos era sem forma e vazio — tohu e bohu, confusão e vacuidade, como essas palavras são traduzidas em Isaías 34.11: sem contorno, sem uso, sem habitantes, sem adornos; a sombra ou o rascunho das coisas que viriam. Para os que têm o coração no céu, este mundo de baixo, comparado com o de cima, ainda parece confusão e vazio. E havia trevas sobre a face do abismo — Deus não criou essas trevas (como se diz que cria as trevas da aflição, Is 45.7), pois eram apenas a ausência da luz. E o Espírito de Deus foi o primeiro Motor: ele se movia sobre a face das águas — movia-se sobre a face do abismo como a galinha ajunta os pintinhos debaixo das asas e paira sobre eles para aquecê-los e nutri-los (Mt 23.37); como a águia desperta o seu ninho e adeja sobre os seus filhotes — é a mesma palavra que se usa ali (Dt 32.11).