Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 1

Referências: 1.1-21.3-51.6-81.9-131.14-191.20-231.24-251.26-281.29-301.31

Introdução ao capítulo

A Escritura Sagrada, destinada a sustentar e aperfeiçoar a religião natural — a reparar as suas ruínas e suprir as suas faltas desde a queda —, estabelece logo de início este princípio da límpida luz da natureza: que este mundo foi criado, no princípio do tempo, por um Ser de infinita sabedoria e poder, que existia antes de todo tempo e de todos os mundos. O primeiro versículo da Bíblia nos dá um conhecimento da origem do universo mais seguro e melhor, mais satisfatório e mais útil, do que todos os volumes dos filósofos. Temos três coisas neste capítulo: primeiro, uma ideia geral da obra da criação (v. 1-2); depois, o relato detalhado da obra de cada dia, em ordem — a luz no primeiro dia (v. 3-5), o firmamento no segundo (v. 6-8), o mar, a terra e os seus frutos no terceiro (v. 9-13), os luzeiros do céu no quarto (v. 14-19), os peixes e as aves no quinto (v. 20-23), os animais e o ser humano no sexto (v. 24-28), e o alimento para ambos (v. 29-30); por fim, a revisão e a aprovação de toda a obra (v. 31).

Gênesis 1.1-2 §

Nota de John Wesley

Observe aqui, primeiro, o efeito produzido: os céus e a terra — isto é, o mundo, com toda a armação e a mobília do universo. Moisés se propõe a relatar apenas a parte visível da criação; e mesmo nela há segredos que não podemos sondar nem explicar. Mas, do que vemos dos céus e da terra, podemos inferir o eterno poder e a divindade do grande Criador. E que a nossa constituição e o nosso lugar, como seres humanos, nos lembrem do nosso dever como cristãos: manter sempre o céu diante dos olhos e a terra debaixo dos pés. Observe, segundo, o autor e a causa desta grande obra: Deus. A palavra hebraica é Elohim, que parece indicar, de um lado, o Deus da aliança — pois deriva de uma raiz que significa jurar —, e, de outro, a pluralidade de pessoas na Divindade: Pai, Filho e Espírito Santo. O nome plural de Deus em hebraico, que fala dele como muitos embora seja um só, talvez tenha sido para os gentios um cheiro de morte para morte, endurecendo-os na idolatria; mas para nós é cheiro de vida para vida, confirmando a nossa fé na doutrina da Trindade que, apenas esboçada no Antigo Testamento, é claramente revelada no Novo. Observe, terceiro, o modo como a obra foi efetuada: Deus criou — isto é, fez do nada. Não havia matéria preexistente da qual o mundo fosse produzido. Os peixes e as aves foram, de fato, produzidos das águas, e os animais e o ser humano, da terra; mas aquela terra e aquelas águas foram feitas do nada. Observe, quarto, quando a obra foi produzida: no princípio — isto é, no princípio do tempo. O tempo começou com a produção dos seres que por ele são medidos. Antes do princípio do tempo não havia senão o Ser infinito que habita a eternidade. Se perguntássemos por que Deus não fez o mundo antes, estaríamos apenas obscurecendo o conselho com palavras sem conhecimento — pois como poderia haver antes ou depois na eternidade? No versículo 2 temos o relato da primeira matéria e do primeiro Motor. A primeira matéria foi um caos. Ele é chamado aqui de terra (embora a terra propriamente dita só tenha sido feita no terceiro dia, v. 10) porque era o que mais se parecia com aquilo que depois se chamaria terra: uma massa pesada e disforme. É chamado também de abismo, tanto pela sua vastidão quanto porque as águas que depois seriam separadas da terra estavam ainda misturadas com ela. Dessa imensa massa de matéria todos os corpos foram depois produzidos. O Criador poderia ter feito a sua obra perfeita desde o primeiro instante; mas, procedendo por etapas, quis mostrar qual é, ordinariamente, o método da sua providência e da sua graça. Esse caos era sem forma e vazio — tohu e bohu, confusão e vacuidade, como essas palavras são traduzidas em Isaías 34.11: sem contorno, sem uso, sem habitantes, sem adornos; a sombra ou o rascunho das coisas que viriam. Para os que têm o coração no céu, este mundo de baixo, comparado com o de cima, ainda parece confusão e vazio. E havia trevas sobre a face do abismo — Deus não criou essas trevas (como se diz que cria as trevas da aflição, Is 45.7), pois eram apenas a ausência da luz. E o Espírito de Deus foi o primeiro Motor: ele se movia sobre a face das águas — movia-se sobre a face do abismo como a galinha ajunta os pintinhos debaixo das asas e paira sobre eles para aquecê-los e nutri-los (Mt 23.37); como a águia desperta o seu ninho e adeja sobre os seus filhotes — é a mesma palavra que se usa ali (Dt 32.11).

Temas: criacaotrindade

Gênesis 1.3-5 §

Nota de John Wesley

Temos aqui um relato mais detalhado da obra do primeiro dia. Observe: primeiro, que o primeiro de todos os seres visíveis que Deus criou foi a luz, a grande beleza e bênção do universo; como o primogênito, é, de todos os seres visíveis, o que mais se parece com o seu grande Pai em pureza e poder, brilho e beneficência. Segundo, que a luz foi feita pela palavra do poder de Deus. Ele disse: Haja luz — ele o quis, e estava feito; e houve luz — uma cópia que correspondia exatamente à ideia original na mente eterna. Terceiro, que a luz que Deus quis, ele aprovou: viu Deus que a luz era boa — era exatamente como ele a projetara, e apta a cumprir o fim para o qual a projetou. Quarto, que Deus separou a luz das trevas — pôs uma da outra de tal modo que jamais pudessem unir-se; e, contudo, repartiu o tempo entre elas: o dia para a luz e a noite para as trevas, em sucessão constante. Embora as trevas fossem então dissipadas pela luz, elas conservam o seu lugar, porque têm a sua utilidade: assim como a luz da manhã favorece o trabalho do dia, as sombras da tarde favorecem o repouso da noite. Deus dividiu entre luz e trevas para nos lembrar, dia após dia, de que este é um mundo de misturas e mudanças. No céu há luz perpétua, e nenhuma treva; no inferno, trevas completas, e nenhuma luz; mas neste mundo elas se alternam, e passamos diariamente de uma à outra — para que aprendamos a esperar as mesmas vicissitudes na providência de Deus. Quinto, que Deus as separou uma da outra por nomes distintos: chamou à luz Dia e às trevas chamou Noite — deu-lhes nomes como Senhor de ambas. Ele é o Senhor do tempo, e o será até que o dia e a noite cheguem ao fim e a corrente do tempo seja tragada pelo oceano da eternidade. Sexto, que esta foi a obra do primeiro dia: houve tarde e manhã, o primeiro dia — a escuridão da tarde veio antes da luz da manhã, para realçá-la e fazê-la brilhar com mais intensidade.

Temas: criacao

Gênesis 1.6-8 §

Nota de John Wesley

Temos aqui o relato da obra do segundo dia: a criação do firmamento. Observe: primeiro, a ordem de Deus: Haja um firmamento — uma expansão, como significa a palavra hebraica: como um lençol estendido ou uma cortina desenrolada. Isso inclui tudo o que é visível acima da terra, entre ela e o terceiro céu: o ar em suas regiões mais alta, média e baixa, o globo celeste e todas as esferas de luz lá em cima; alcança a altura em que as estrelas estão fixadas — pois a isso se chama aqui firmamento do céu (v. 14-15) — e desce até onde voam as aves, pois isso também é chamado firmamento do céu (v. 20). Segundo, a criação dele: e fez Deus o firmamento. Terceiro, o seu propósito: separar águas de águas — isto é, distinguir entre as águas envoltas nas nuvens e as que cobrem o mar; as águas do ar e as da terra. Quarto, o nome que lhe deu: chamou Deus ao firmamento Céus — são os céus visíveis, o pavimento da cidade santa. A altura dos céus deve lembrar-nos a supremacia de Deus e a distância infinita que há entre nós e ele; o brilho e a pureza dos céus devem lembrar-nos a sua majestade e perfeita santidade; a vastidão dos céus, que envolvem a terra e sobre ela influem, deve lembrar-nos a sua imensidade e a sua providência universal.

Temas: criacao

Gênesis 1.9-13 §

Nota de John Wesley

Nestes versículos se relata a obra do terceiro dia: a formação do mar e da terra seca, e a fertilização da terra. Até aqui o poder do Criador estivera ocupado com a parte superior do mundo visível; agora ele desce a este mundo de baixo, destinado aos filhos dos homens, para lhes servir de habitação e de sustento. E aqui temos o relato da preparação de ambos: a construção da casa e o pôr da mesa. Observe, primeiro, como a terra foi preparada para ser habitação do ser humano: pelo ajuntamento das águas e pelo aparecimento da terra seca. Assim, em lugar daquela confusão em que terra e água estavam misturadas numa só massa, houve ordem, por uma separação que tornou ambas úteis. As águas que cobriam a terra receberam ordem de retirar-se e de ajuntar-se num só lugar — nas cavidades preparadas para recebê-las. Às águas assim alojadas no seu devido lugar ele chamou Mares; pois, embora sejam muitos e em regiões distantes, comunicam-se uns com os outros, acima ou abaixo do solo, e assim formam um só receptáculo comum das águas, para o qual correm todos os rios. E a terra seca foi feita aparecer, emergindo das águas, e foi chamada Terra. Observe, segundo, como a terra foi provida para o sustento do ser humano (v. 11-12). Fez-se provisão imediata pelos produtos diretos da terra que, em obediência à ordem de Deus, mal foi feita já se tornou fecunda. E fez-se igualmente provisão para o tempo futuro, pela perpetuação das várias espécies de vegetais, cada uma com a sua semente em si mesma, segundo a sua espécie — para que, enquanto o ser humano habitasse a terra, dela se tirasse alimento para o seu uso e benefício.

Temas: criacaoprovidencia

Gênesis 1.14-19 §

Nota de John Wesley

Esta é a história da obra do quarto dia: a criação do sol, da lua e das estrelas. Temos o relato, primeiro, em geral (v. 14-15), onde encontramos a ordem dada a respeito deles — Haja luzeiros no firmamento dos céus. Deus dissera (v. 3): Haja luz, e houve luz; mas aquela era, por assim dizer, uma luz em caos, espalhada e confusa; agora ela foi recolhida e organizada em vários luminares, tornando-se mais gloriosa e mais útil. E encontramos também o uso a que se destinavam para esta terra: servir para a distinção dos tempos — do dia e da noite, do verão e do inverno — e para a direção das ações, como sinais das mudanças do tempo, para que o lavrador governe os seus afazeres com discernimento. Eles também iluminam a terra, para que andemos (Jo 11.9) e trabalhemos (Jo 9.4) segundo o dever de cada dia. Os luzeiros do céu não brilham para si mesmos, nem para o mundo dos espíritos lá do alto, que não precisam deles; brilham para nós, para o nosso proveito e conforto. Senhor, que é o homem, para que assim te lembres dele? (Sl 8.3-4). Depois, em particular (v. 16-18): os luzeiros do céu são o sol, a lua e as estrelas, e todos são obra das mãos de Deus. O sol é o maior de todos os luzeiros, a mais gloriosa e útil de todas as lâmpadas do céu: um nobre exemplo da sabedoria, do poder e da bondade do Criador, e uma bênção inestimável para as criaturas deste mundo. A lua é um luzeiro menor e, no entanto, é contada aqui entre os grandes luzeiros porque, embora em grandeza seja inferior a muitas estrelas, em utilidade para a terra é mais excelente do que elas. E fez também as estrelas — mencionadas aqui apenas em geral, pois as Escrituras não foram escritas para satisfazer a nossa curiosidade, mas para nos conduzir a Deus. Ora, diz-se que esses luzeiros governam (v. 16, 18): não que tenham domínio supremo, como Deus tem, mas são governantes debaixo dele. Aqui se diz que o luzeiro menor, a lua, governa a noite; mas no Salmo 136.9 as estrelas aparecem como participantes desse governo: a lua e as estrelas para governarem a noite. Nada mais se quer dizer senão que elas dão luz (Jr 31.35). O melhor e mais honroso modo de governar é dando luz e fazendo o bem.

Temas: criacao

Gênesis 1.20-23 §

Nota de John Wesley

Cada dia, até aqui, produziu seres excelentes; mas não lemos da criação de nenhum ser vivo antes do quinto dia. A obra da criação não só avançou gradualmente de uma coisa a outra, mas também subiu, degrau a degrau, do menos excelente ao mais excelente. Foi no quinto dia que os peixes e as aves foram criados, ambos das águas. Observe, primeiro, a sua criação (v. 20-21). Deus ordenou que fossem produzidos: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes — os peixes nas águas, e as aves a partir delas. E ele mesmo executou a ordem: criou Deus os grandes animais marinhos etc. Os insetos, tão variados quanto qualquer espécie de animais e de estrutura igualmente admirável, fizeram parte da obra deste dia — alguns aparentados aos peixes, outros às aves. Nota-se aqui a variedade das espécies de peixes e aves, cada um segundo a sua espécie, e o grande número de ambos, pois as águas produziram em abundância; em particular os grandes animais marinhos, os maiores dos peixes, cujo porte e força são provas notáveis do poder e da grandeza do Criador. Observe, segundo, a bênção que receberam, para a sua continuidade. A vida é coisa que se gasta; a sua força não é a força das pedras. Por isso o sábio Criador não só fez os indivíduos, mas proveu a propagação das espécies (v. 22): Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos e multiplicai-vos — a fecundidade é efeito da bênção de Deus e a ela deve ser atribuída; a multiplicação dos peixes e das aves, ano após ano, ainda é fruto dessa bênção.

Temas: criacaoprovidencia

Gênesis 1.24-25 §

Nota de John Wesley

Temos aqui a primeira parte da obra do sexto dia. O mar fora povoado na véspera com os peixes, e o ar com as aves; neste dia são feitos os animais da terra: o gado e os seres que rastejam sobre a terra. Aqui, como antes, primeiro o Senhor deu a palavra: ele disse: Produza a terra — venham essas criaturas à existência sobre a terra, e a partir dela, cada uma na sua espécie. Depois, ele mesmo fez a obra: e os fez a todos segundo a sua espécie — não apenas de formas diversas, mas de naturezas, costumes, alimentos e modos diversos. Em tudo isso aparece a multiforme sabedoria do Criador.

Temas: criacao

Gênesis 1.26-28 §

Nota de John Wesley

Temos aqui a segunda parte da obra do sexto dia: a criação do ser humano — da qual nos convém, de modo especial, tomar nota. Observe, primeiro, que o ser humano foi feito por último entre as criaturas: o que foi para ele tanto uma honra quanto um favor. Uma honra, porque a criação devia avançar do menos perfeito para o mais perfeito; e um favor, porque não convinha que ele fosse alojado no palácio a ele destinado antes que estivesse completamente pronto e mobiliado para recebê-lo. O ser humano, assim que foi feito, tinha diante de si toda a criação visível, tanto para contemplá-la quanto para desfrutá-la. Observe, segundo, que a criação do homem foi um ato mais assinalado da sabedoria e do poder divinos do que a das outras criaturas. O relato é introduzido com solenidade e com evidente distinção das demais. Até aqui se dissera: Haja luz, haja um firmamento; agora, porém, a palavra de ordem se transforma em palavra de deliberação: Façamos o homem — por causa de quem as demais criaturas foram feitas. O homem seria uma criatura diferente de todas as já feitas: carne e espírito, céu e terra deviam unir-se nele, e ele devia pertencer aos dois mundos. Por isso o próprio Deus não só se dispõe a fazê-lo, mas se exprime como se convocasse um conselho para deliberar sobre a sua feitura: Façamos o homem — as três pessoas da Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, deliberam sobre isso e nisso concordam, porque o homem, uma vez feito, devia ser dedicado e consagrado ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Observe, terceiro, que o homem foi feito à imagem de Deus, conforme a sua semelhança — duas palavras para exprimir a mesma coisa. A imagem de Deus no homem consiste, primeiro, na sua natureza: não a do corpo, pois Deus não tem corpo, mas a da alma. A alma é um espírito — espírito inteligente, imortal e ativo, e nisso se assemelha a Deus, o Pai dos espíritos e a alma do mundo. Consiste, segundo, no seu lugar e autoridade: Façamos o homem à nossa imagem, e tenha ele domínio. Tendo o governo das criaturas inferiores, ele é, por assim dizer, o representante de Deus na terra. Contudo, o governo de si mesmo, pela liberdade da sua vontade, tem em si mais da imagem de Deus do que o governo das criaturas. E consiste, sobretudo, na sua pureza e retidão. A imagem de Deus no homem está no conhecimento, na justiça e na verdadeira santidade (Ef 4.24; Cl 3.10). Ele era reto (Ec 7.29); tinha uma conformidade habitual de todas as suas faculdades naturais com toda a vontade de Deus. O seu entendimento via as coisas divinas com clareza, e não havia erros no seu conhecimento; a sua vontade obedecia pronta e universalmente à vontade de Deus, sem relutância; os seus afetos eram todos ordenados, sem apetites ou paixões desmedidos; os seus pensamentos fixavam-se com facilidade nos melhores assuntos, sem vaidade nem rebeldia. E todas as faculdades inferiores estavam sujeitas aos ditames das superiores. Assim santos, assim felizes eram os nossos primeiros pais, portando a imagem de Deus. Mas como caíste, ó filho da alva! Como está desfigurada no homem a imagem de Deus! Quão pequenos os seus restos, e quão grandes as suas ruínas! Que o Senhor a renove em nossa alma pela sua graça santificadora! Observe, quarto, que o ser humano foi feito macho e fêmea, e abençoado com fecundidade. Criou-os macho e fêmea — Adão e Eva: Adão primeiro, do pó da terra, e Eva, do seu lado. Deus fez um só homem e uma só mulher, para que todas as nações soubessem que foram feitas de um só sangue, descendentes de um tronco comum, e assim fossem levadas a amar-se umas às outras. E, tendo-os feito capazes de transmitir a natureza que receberam, disse-lhes: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. Deu-lhes com isso uma vasta herança — enchei a terra, na qual Deus pôs o ser humano como servo da sua providência no governo das criaturas inferiores, como que a inteligência deste orbe; como coletor dos seus louvores neste mundo de baixo; e, por fim, como provado em vista de um estado melhor. E deu-lhes uma família numerosa e duradoura para gozar essa herança, pronunciando sobre eles uma bênção em virtude da qual a sua posteridade se estenderia até os confins da terra e continuaria até o fim dos tempos. Observe, quinto, que Deus deu ao homem domínio sobre as criaturas inferiores: sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus — embora não proveja nem a uns nem a outros, tem poder sobre ambos —, e mais ainda sobre todo animal que rasteja sobre a terra. Com isso Deus quis honrar o homem, para que ele se sentisse tanto mais obrigado a honrar o seu Criador.

Temas: criacaoimagem de deustrindadesantidade

Gênesis 1.29-30 §

Nota de John Wesley

Temos aqui a terceira parte da obra do sexto dia — que não foi uma nova criação, mas uma graciosa provisão de alimento para todo ser vivo (Sl 136.25). Primeiro, alimento provido para o ser humano (v. 29): ervas e frutos seriam a sua comida, incluindo o cereal e todos os produtos da terra. Antes de a terra ser coberta pelo dilúvio — e mais ainda antes de ser amaldiçoada por causa do homem —, os seus frutos eram sem dúvida mais agradáveis ao paladar e mais nutritivos e fortalecedores para o corpo. Depois, alimento provido para os animais (v. 30). Acaso Deus cuida dos bois? Certamente: provê o alimento adequado para eles — e não só para os bois, que serviam nos sacrifícios e no trabalho do homem; até os leõezinhos e os filhotes dos corvos são cuidados pela sua providência, e pedem e recebem de Deus o seu sustento.

Temas: providencia

Gênesis 1.31 §

Nota de John Wesley

Temos aqui a aprovação e a conclusão de toda a obra da criação. Observe, primeiro, a revisão que Deus fez da sua obra: viu tudo o que tinha feito — e assim faz ainda; todas as obras das suas mãos estão sob os seus olhos: aquele que fez tudo, tudo vê. Observe, segundo, a complacência de Deus na sua obra. Quando revisamos as nossas obras, descobrimos, para vergonha nossa, que muita coisa saiu muito mal; mas, quando Deus revisou as suas, tudo era muito bom. Era bom — bom porque tudo conforme à mente do Criador; bom porque cumpria o fim da sua criação; bom porque útil ao homem, a quem Deus constituíra senhor da criação visível; bom porque tudo para a glória de Deus, pois há no conjunto da criação visível uma demonstração do ser e das perfeições de Deus, que tende a gerar na alma humana uma reverência religiosa para com ele. E era muito bom — da obra de cada dia (exceto o segundo) se disse que era boa; agora, porém, muito boa. Pois agora o homem fora feito, a principal das obras de Deus, imagem visível da glória do Criador; e agora tudo estava feito: cada parte era boa, mas o conjunto, muito bom. A glória e a bondade, a beleza e a harmonia das obras de Deus, tanto da providência quanto da graça, como desta criação, aparecerão melhor quando forem aperfeiçoadas. Observe, terceiro, o tempo em que a obra foi concluída: houve tarde e manhã, o sexto dia — de modo que em seis dias Deus fez o mundo. Não devemos pensar que Deus não pudesse ter feito o mundo num instante; mas ele o fez em seis dias para mostrar-se agente livre, que faz a sua própria obra do seu próprio modo e no seu próprio tempo; para que a sua sabedoria, o seu poder e a sua bondade nos aparecessem com mais nitidez e fossem por nós meditados; e para nos dar o exemplo de trabalhar seis dias e descansar no sétimo. E agora, como Deus revisou a sua obra, revisemos nós as nossas meditações sobre ela; despertemos tudo o que há em nós para adorar aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas. Todas as suas obras o bendizem em todos os lugares do seu domínio; portanto, bendize, ó minha alma, ao Senhor!

Temas: criacaoadoracao

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