Sendo o homem composto de corpo e alma — um corpo feito da terra e uma alma racional e imortal —, temos nestes versículos a provisão feita para a felicidade de ambos. A parte do homem ligada ao mundo dos sentidos foi feita feliz, pois ele foi posto no paraíso de Deus; a parte ligada ao mundo dos espíritos foi bem provida, pois ele foi recebido em aliança com Deus. Temos aqui, primeiro, a descrição do jardim do Éden, destinado a ser o palácio deste príncipe. O escritor inspirado, escrevendo primeiro para os judeus e ajustando a narrativa ao estado ainda infantil da igreja, descreve as coisas pela sua aparência externa e sensível, deixando que descobertas ulteriores da luz divina nos conduzam à compreensão dos mistérios nelas ocultos. Por isso ele não insiste tanto na felicidade interior de Adão quanto na do seu estado exterior. A história mosaica, como a lei mosaica, contém antes as figuras das coisas celestiais do que as próprias coisas celestiais (Hb 9.23). Observe: o lugar designado para a residência de Adão foi um jardim — não uma casa de marfim: assim como as roupas entraram com o pecado, também as casas. O céu era o teto da casa de Adão, e nunca teto algum foi tão primorosamente forrado e pintado; a terra era o seu piso, e nunca piso algum foi tão ricamente incrustado; a sombra das árvores era o seu retiro, e nunca aposentos foram tão finamente ornados: os de Salomão, em toda a sua glória, não se vestiam como eles. A concepção e a mobília desse jardim foram obra imediata da sabedoria e do poder de Deus: o SENHOR Deus plantou o jardim — isto é, já o plantara no terceiro dia, quando os frutos da terra foram feitos. Bem podemos supor que era o lugar mais perfeito que o sol já viu, pois o próprio Deus todo-suficiente o projetou para ser a felicidade presente da sua criatura amada. A situação do jardim era agradabilíssima: ficava no Éden, que significa delícia e prazer. O lugar é apontado por marcos e limites que bastavam, quando Moisés escreveu, para o identificar aos que conheciam aquela região; hoje, porém, os curiosos não conseguem chegar a certeza sobre ele. Cuidemos nós de assegurar um lugar no paraíso celestial, e não precisaremos atormentar-nos em busca do lugar do paraíso terrestre. Quanto às árvores de que o jardim foi plantado: tinha ele, em comum com o restante do solo, todas as melhores e mais escolhidas árvores — era embelezado por toda árvore agradável à vista e enriquecido por toda árvore de fruto saboroso ao paladar e útil ao corpo. Mas tinha, exclusivas suas, duas árvores extraordinárias, sem iguais na terra. Havia a árvore da vida no meio do jardim — que não era tanto um meio natural de preservar ou prolongar a vida, mas destinava-se sobretudo a ser um sinal para Adão, assegurando-lhe a continuidade da vida e da felicidade sob a condição da sua perseverança na inocência e na obediência. E havia a árvore do conhecimento do bem e do mal — assim chamada não porque tivesse alguma virtude de gerar conhecimento útil, mas porque havia uma revelação expressa da vontade de Deus a respeito dela, de modo que por ela o homem pudesse conhecer o bem e o mal. Que é o bem? Não comer dessa árvore. Que é o mal? Comer dela. A distinção entre todo outro bem e mal moral estava escrita no coração do homem; mas esta, que resultava de uma lei positiva, estava escrita naquela árvore. E, no desfecho, ela acabou dando a Adão um conhecimento experimental do bem — pela sua perda — e do mal — pelo seu peso. Quanto aos rios que regavam o jardim (v. 10-14): esses quatro rios (ou um rio ramificado em quatro braços) muito contribuíam para a beleza e a fertilidade do lugar. Hidéquel e Eufrates são rios da Babilônia. Havilá tinha ouro, especiarias e pedras preciosas; mas o Éden tinha o que era infinitamente melhor: a árvore da vida e a comunhão com Deus. Temos aqui, segundo, a ordem que Deus deu ao homem na inocência, e a aliança em que então o recebeu. Até aqui vimos Deus como poderoso Criador do homem e seu generoso benfeitor; agora ele aparece como seu governante e legislador. Certamente morrerás (v. 16-17) — isto é: perderás toda a felicidade que possuis ou esperas; ficarás sujeito à morte e a todas as misérias que a anunciam e acompanham. Isso foi ameaçado como consequência imediata do pecado: no dia em que comeres, morrerás — não apenas te tornarás mortal, mas a morte espiritual e os precursores da morte temporal se apoderarão de ti imediatamente.