Para testemunhar o seu desagrado contra o pecado, Deus prende uma maldição à serpente: Maldita és entre todos os animais — até os seres rastejantes, quando Deus os fez, foram por ele abençoados (Gn 1.22); mas o pecado transformou a bênção em maldição. Sobre o teu ventre andarás — não mais sobre pés, nem meio erguida: rastejarás, com o ventre colado à terra. Pó comerás — o que significa condição baixa e desprezível. Porei inimizade entre ti e a mulher (v. 15) — tendo as criaturas inferiores sido feitas para o homem, era maldição para qualquer delas voltar-se contra o homem, e o homem contra ela. E isso é parte da maldição da serpente. Sob a figura da serpente, o diabo é aqui sentenciado a ser, primeiro, degradado e amaldiçoado por Deus — supõe-se que o orgulho foi o pecado que transformou anjos em demônios, e ele é aqui justamente punido por uma série de humilhações encerradas nas circunstâncias vis da serpente que rasteja e lambe o pó. Segundo, detestado e abominado por toda a humanidade: até os que de fato são seduzidos para o seu partido professam odiá-lo. Terceiro, destruído e arruinado por fim pelo grande Redentor — é o que significa o esmagamento da sua cabeça: as suas políticas astutas serão todas frustradas, o seu poder usurpado será inteiramente triturado. Declara-se aqui também uma guerra perpétua entre o reino de Deus e o reino do diabo entre os homens: guerra proclamada entre a semente da mulher e a semente da serpente (Ap 12.7). É fruto dessa inimizade o conflito contínuo entre o povo de Deus e o diabo — o céu e o inferno jamais poderão reconciliar-se, tampouco Satanás e uma alma santificada —, e igualmente a luta contínua entre os maus e os bons: toda a malícia dos perseguidores contra o povo de Deus é fruto dessa inimizade, que continuará enquanto houver um piedoso aquém do céu e um ímpio aquém do inferno. E faz-se aqui a graciosa promessa de Cristo como libertador do homem caído do poder de Satanás. Pela fé nesta promessa os nossos primeiros pais e os patriarcas antes do dilúvio foram justificados e salvos. Três coisas lhes são aqui anunciadas a respeito de Cristo: a sua encarnação — ele seria a semente da mulher; os seus sofrimentos e morte — apontados no ferir Satanás o seu calcanhar, isto é, a sua natureza humana; e a sua vitória sobre Satanás por meio disso. Satanás havia pisoteado a mulher e triunfado sobre ela; mas a semente da mulher seria levantada, na plenitude do tempo, para vingar a sua causa e pisoteá-lo, despojá-lo, levá-lo cativo e triunfar sobre ele (Cl 2.15). Temos em seguida a sentença sobre a mulher (v. 16): ela é condenada a um estado de dores e a um estado de sujeição — punições adequadas a um pecado em que ela agradara o seu prazer e o seu orgulho. Posta num estado de dores, do qual só um aspecto é mencionado — o dar à luz filhos —, mas que inclui todas as impressões de tristeza e temor a que a mente desse terno sexo é mais sujeita, e todas as calamidades comuns a que estão expostas. É Deus quem multiplica as nossas dores: eu o farei. Deus o faz como Juiz justo — o que deveria calar-nos debaixo de todas as nossas dores, pois, por muitas que sejam, merecemos todas, e mais; e Deus o faz também como Pai terno, para a nossa necessária correção, para que sejamos humilhados pelo pecado e dele desmamados. E posta num estado de sujeição: todo o sexo, que pela criação era igual ao homem, é, por causa do pecado, feito inferior. Porque atendeste à voz da tua mulher (v. 17) — ele desculpara a falta lançando-a sobre a mulher, mas Deus não admite a desculpa: se foi culpa dela persuadi-lo a comer, foi culpa dele dar-lhe ouvidos. Maldita é a terra por tua causa — e o efeito dessa maldição é: espinhos e cardos te produzirá. A terra, pelo pecado do homem, foi sujeita à vaidade, e as suas várias partes já não servem ao conforto e à felicidade do homem como quando foram feitas. A fecundidade era a sua bênção, para o serviço do homem (Gn 1.11, 29); agora a esterilidade é a sua maldição, para castigo do homem. No suor do teu rosto comerás o teu pão (v. 19) — o seu trabalho, antes de pecar, era-lhe um prazer constante; agora o seu labor será fadiga. Ao pó tornarás — o teu corpo será abandonado pela alma e se tornará ele mesmo um punhado de pó; então será depositado na sepultura e se misturará com o pó da terra. Tendo Deus dado nome ao homem, chamando-o Adão — que significa terra vermelha —, o homem, em novo sinal de domínio, deu nome à mulher e chamou-a Eva, isto é, vida (v. 20). Adão traz o nome do corpo que morre; Eva, o da alma que vive. A razão do nome é dada aqui — por Moisés, o historiador, pensam uns; pelo próprio Adão, pensam outros: porque ela era — isto é, haveria de ser — a mãe de todos os viventes. Ele já a chamara Ishá, mulher, como esposa; aqui a chama Eva, vida, como mãe. Ora, se isso foi feito por direção divina, foi uma mostra do favor de Deus e, como a renomeação de Abraão e Sara, um selo da aliança e uma garantia de que, apesar do pecado deles, Deus não revogara a bênção com que os abençoara: Sede fecundos e multiplicai-vos. Foi também uma confirmação da promessa agora feita: que a semente da mulher — desta mulher — esmagaria a cabeça da serpente. E, se Adão o fez por si mesmo, foi uma mostra da sua fé na palavra de Deus.