Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 4

Referências: 4.1-44.54.74.84.94.104.11-144.154.164.17-244.25-26

Introdução ao capítulo

Neste capítulo temos o mundo e a igreja dentro da família de Adão, e uma amostra do caráter e do estado de ambos em todas as eras. Assim como toda a humanidade estava representada em Adão, a grande divisão da humanidade entre filhos de Deus e filhos do maligno está aqui representada em Caim e Abel — um exemplo primeiro da inimizade entre a semente da mulher e a semente da serpente. Temos aqui: o nascimento, os nomes e as ocupações de Caim e Abel (v. 1-2); a religião de ambos e o seu diferente resultado (v. 3-5); a ira de Caim contra Deus, e a repreensão que recebeu por ela (v. 5-7); o assassinato de Abel e o processo contra o assassino — o crime, a citação, a defesa, a condenação, a sentença, a queixa contra a sentença, a sua confirmação e execução (v. 8-16); a família e a posteridade de Caim (v. 17-24); e o nascimento de outro filho e de um neto de Adão (v. 25-26).

Gênesis 4.1-4 §

Nota de John Wesley

Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas (Gn 5.4); mas Caim e Abel parecem ter sido os dois mais velhos. Caim significa aquisição, pois Eva, ao dá-lo à luz, disse com alegria, gratidão e grande expectativa: Adquiri um homem com o auxílio do SENHOR. Abel significa vaidade, sopro. O nome dado a este filho é aplicado depois a toda a raça (Sl 39.5): todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade — Abel, sopro. Ele escolheu a ocupação que mais favorecia a contemplação e a devoção, pois essa sempre foi tida como a vantagem da vida pastoril: Moisés e Davi apascentaram ovelhas e, nas suas solidões, conversaram com Deus. No fim de certo tempo (v. 3) — ao fim dos dias: ou no fim do ano, quando celebravam a festa da colheita, ou no fim dos dias da semana, no sétimo dia. Em algum tempo determinado, Caim e Abel trouxeram, cada um, a Adão, como sacerdote da família, uma oferta ao SENHOR — e temos razão para crer que havia nisso uma ordenança divina dada a Adão, como sinal do favor de Deus apesar da apostasia deles. E o SENHOR atentou para Abel e para a sua oferta (v. 4), mostrando que a aceitava — provavelmente por fogo do céu; mas para Caim e para a sua oferta não atentou. Podemos estar certos de que houve boa razão para essa diferença: o Governador do mundo, embora soberano absoluto, não age arbitrariamente ao dispensar os seus sorrisos e as suas reprovações. Havia diferença no caráter dos ofertantes: Caim era um ímpio; Abel, um justo (Mt 23.35). E havia diferença nas ofertas: a de Abel foi um sacrifício mais excelente que a de Caim. A de Caim era apenas um sacrifício de reconhecimento oferecido ao Criador — as ofertas de manjares, do fruto da terra, não eram mais que isso; Abel, porém, trouxe um sacrifício de expiação, cujo sangue foi derramado em vista da remissão: com isso ele se confessava pecador, suplicava o desvio da ira de Deus e implorava o seu favor por meio de um Mediador. Mas a grande diferença foi esta: Abel ofereceu com fé, e Caim, não. Abel ofereceu com os olhos na vontade de Deus como sua regra, e na dependência da promessa de um Redentor; Caim não ofereceu com fé — e assim a sua oferta se lhe tornou pecado.

Temas: fesacrificio

Gênesis 4.5 §

Nota de John Wesley

E Caim se irou fortemente, e o seu semblante caiu — não tanto de tristeza quanto de malícia e raiva. O seu rosto fechado e carrancudo, o seu olhar abatido, traíam o seu ressentimento apaixonado.

Temas: pecado

Gênesis 4.7 §

Nota de John Wesley

Se fizeres o bem, não serás aceito? — O sentido pode ser: primeiro, se tivesses feito o bem, como o teu irmão, terias sido aceito como ele. Deus não faz acepção de pessoas; de modo que, se ficamos aquém da sua aceitação, a culpa é toda nossa. Isso justificará a Deus na destruição dos pecadores e agravará a ruína deles: não há um só pecador perdido que, se tivesse feito o bem — como poderia ter feito —, não fosse agora um santo glorificado no céu. Com isso toda boca em breve se calará. Ou, segundo: se agora fizeres o bem — se te arrependeres do teu pecado, reformares o teu coração e a tua vida e trouxeres o teu sacrifício de modo melhor —, ainda serás aceito. Veja-se quão cedo o evangelho foi pregado, e o seu benefício aqui oferecido até a um dos principais pecadores! Deus lhe põe diante a morte e a maldição; mas, se não fizeres o bem — visto que não fizeste o bem, não ofereceste com fé e do modo devido —, o pecado jaz à porta: isto é, só o pecado impede a tua aceitação. Considerado tudo isso, Caim não tinha razão para irar-se contra o irmão, mas somente contra si mesmo. O desejo dele será para ti — Abel continuará a respeitar-te como irmão mais velho, e tu, como primogênito, continuarás a ter sobre ele a mesma precedência de sempre. A aceitação da oferta de Abel por Deus não lhe transferiu o direito de primogenitura (do qual Caim tinha ciúme), nem lhe conferiu aquela dignidade e autoridade que se dizem próprias dele (Gn 49.3).

Nota do editor

Esta nota é preciosa para a leitura arminiana-wesleyana: Deus não rejeitou Caim arbitrariamente, e a porta da aceitação permanecia aberta — 'se fizeres o bem, não serás aceito?'. A ruína do pecador nunca nasce de um decreto secreto de reprovação, mas da recusa da graça que lhe foi sincera e realmente oferecida.

Temas: gracaarrependimento

Gênesis 4.8 §

Nota de John Wesley

E falou Caim com Abel, seu irmão — o parafraseador caldeu acrescenta que Caim, na conversa, sustentava que não haveria juízo vindouro, e que, quando Abel falou em defesa da verdade, Caim aproveitou a ocasião para atacá-lo. A Escritura nos diz o motivo por que o matou: porque as suas obras eram más, e as do seu irmão, justas — e nisso ele se mostrou filho do diabo, inimigo de toda justiça. Observe: o primeiro que morre é um santo; o primeiro que desceu à sepultura subiu ao céu. Deus quis assegurar para si as primícias — o primogênito dentre os mortos, o primeiro a abrir a madre para o outro mundo.

Temas: pecadoperseguicao

Gênesis 4.9 §

Nota de John Wesley

E disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? — Deus o sabia culpado; ainda assim pergunta, para dele extrair a confissão do crime, pois quem quer ser justificado diante de Deus precisa acusar-se a si mesmo. E ele respondeu: Não sei — assim, em Caim, o diabo foi desde o princípio homicida e mentiroso. Acaso sou eu o guardador do meu irmão? — 'Ele já tem idade para cuidar de si, e nunca me foi confiado. Não és tu o guardador dele? Se está faltando, a culpa é tua, não minha, que jamais me encarreguei de guardá-lo.'

Temas: pecado

Gênesis 4.10 §

Nota de John Wesley

E disse Deus: Que fizeste? — Pensas ocultá-lo, mas a evidência contra ti é clara e incontestável: a voz do sangue do teu irmão clama — fala-se como se o próprio sangue fosse, a um tempo, testemunha e acusador, porque o próprio conhecimento de Deus testificava contra ele e a própria justiça de Deus exigia satisfação. Diz-se que o sangue clama desde a terra — a terra que, no versículo 11, abre a boca para receber da mão de Caim o sangue do seu irmão. A terra como que corou ao ver a própria face manchada com tal sangue; e por isso abriu a boca para esconder o que não pôde impedir.

Temas: justica

Gênesis 4.11-14 §

Nota de John Wesley

E agora és maldito desde a terra — primeiro, ele é maldito: separado para todo mal, posto sob a ira de Deus, que se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens. Segundo, é maldito desde a terra: dali subiu o clamor a Deus, dali subiu a maldição a Caim. Deus poderia ter-se vingado com um golpe imediato do céu; preferiu, porém, fazer da terra a vingadora do sangue: conservá-lo sobre a terra, sem o cortar de pronto — e fazer disso mesmo a sua maldição. A parte da terra que lhe coube, e que ele cultivava, tornou-se infrutífera pelo sangue de Abel. Além disso: fugitivo e errante serás na terra — com isso ele foi condenado a desgraça e opróbrio perpétuos, e a perpétua inquietação e horror na própria mente: a sua consciência culpada o perseguiria por onde quer que fosse. E observe como ele lamenta a sentença (v. 13-14). Primeiro, vê-se excluído do favor do seu Deus, e conclui que, sendo maldito, está escondido da face de Deus — e esta é, de fato, a verdadeira natureza da maldição de Deus; os pecadores perdidos assim a experimentam, quando lhes é dito: Apartai-vos de mim, malditos. Malditos de verdade são os que ficam para sempre excluídos do amor e do cuidado de Deus e de toda esperança da sua graça. Segundo, vê-se expulso de todos os confortos desta vida, e conclui: Eis que hoje me lanças da face da terra — tanto vale não ter lugar na terra quanto não ter lugar fixo; melhor descansar na sepultura do que não descansar nunca. E da tua face me esconderei — excluído da igreja, sem admissão para vir com os filhos de Deus apresentar-se perante o SENHOR. E será que todo aquele que me achar me matará — por onde quer que vagueie, anda em perigo de vida. Não havia vivos senão os seus parentes próximos; mas até destes tem justo medo aquele que foi tão bárbaro com o próprio irmão.

Temas: juizoconsciencia

Gênesis 4.15 §

Nota de John Wesley

Qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes — tendo Deus dito, no caso de Caim, 'Minha é a vingança; eu retribuirei', teria sido usurpação ousada qualquer homem tomar a espada da mão de Deus. E o SENHOR pôs um sinal em Caim — para o distinguir do restante da humanidade. Qual era o sinal, Deus não nos disse; por isso as conjecturas dos homens são vãs.

Temas: justica

Gênesis 4.16 §

Nota de John Wesley

E saiu Caim da presença do SENHOR e habitou a leste do Éden — em algum lugar distante de onde residiam Adão e a sua família piedosa, separando-se, com a sua geração maldita, da semente santa; na terra de Node — isto é, de agitação ou tremor, por causa da inquietação contínua do seu espírito. Os que se apartam de Deus não podem achar descanso em nenhum outro lugar. Quando Caim saiu da presença do SENHOR, nunca mais descansou.

Temas: pecado

Gênesis 4.17-24 §

Nota de John Wesley

E edificou uma cidade — em sinal de separação definitiva da igreja de Deus. E temos aqui o registro da sua posteridade — ao menos dos herdeiros da sua casa — por sete gerações. Seu filho foi Enoque: do mesmo nome, mas não do mesmo caráter, daquele santo homem que andou com Deus. Os nomes de outros descendentes seus são mencionados — e apenas mencionados, não como os da semente santa (Gn 5): são contados às pressas, como quem não os estima nem se deleita neles, em comparação com os filhos de Deus. E Lameque tomou para si duas mulheres (v. 19) — foi um da raça degenerada de Caim o primeiro a transgredir aquela lei original do casamento, a de que somente dois seriam uma só carne. Jabal foi um pastor famoso: deleitava-se em criar gado, e foi tão feliz em inventar métodos de o fazer com proveito, e em ensiná-los a outros, que os pastores daquele tempo — e até os de depois — o chamaram Pai; ou talvez os seus filhos, criados no mesmo ofício: a família era uma família de pastores. Jubal foi um músico famoso, e o primeiro a dar regras para a nobre arte da música. Quando Jabal lhes ensinara o caminho da riqueza, Jubal lhes mostrou o caminho da alegria. De Jubal, provavelmente, veio o nome da trombeta do Jubileu — pois a melhor música é a que proclama liberdade e redenção. De Tubalcaim, provavelmente, veio o Vulcano dos pagãos (v. 22). Por que Naamá é mencionada em particular, não sabemos; provavelmente o sabiam os que viviam quando Moisés escreveu. Esta passagem é extremamente obscura (v. 23): não sabemos a quem Lameque matou, nem em que ocasião, nem em que fundava tamanha confiança na proteção divina.

Gênesis 4.25-26 §

Nota de John Wesley

Esta é a primeira menção de Adão na história deste capítulo. Sem dúvida o assassinato de Abel e a impenitência e apostasia de Caim foram enorme tristeza para ele e Eva — tanto mais porque a sua própria maldade agora os corrigia, e o seu desvio os repreendia. A insensatez deles dera entrada ao pecado e à morte no mundo, e agora sofriam-lhe as consequências, privados dos dois filhos num só dia (cf. Gn 27.45). Quando os pais se entristecem com a maldade dos filhos, devem tomar daí ocasião para lamentar a corrupção da natureza que deles derivou, e que é a raiz de amargura. Mas temos aqui o que serviu de alívio aos nossos primeiros pais na sua aflição: Deus lhes concedeu ver reconstruída a sua família, tão abalada e enfraquecida por aquele triste acontecimento. Viram a sua descendência — outro em lugar de Abel. E Adão lhe chamou Sete — isto é, posto, estabelecido, porque na sua semente a humanidade continuaria até o fim dos tempos. E a Sete nasceu um filho chamado Enos (v. 26) — nome que designa o homem em geral e fala da fraqueza, fragilidade e miséria do estado humano. Então se começou a invocar o nome do SENHOR — sem dúvida o nome de Deus já era invocado antes; mas agora, primeiro, os adoradores de Deus começaram a despertar-se para fazer na religião mais do que vinham fazendo — talvez não mais do que se fizera no princípio, mas mais do que se fazia desde a deserção de Caim: começaram a adorar a Deus não só no recolhimento e em família, mas em assembleias públicas e solenes. Segundo, os adoradores de Deus começaram a distinguir-se: assim lê a margem — então os homens começaram a ser chamados pelo nome do SENHOR, ou a chamar-se por ele. Caim e os que haviam abandonado a religião tinham construído uma cidade e começado a declarar-se pela irreligião, chamando-se filhos dos homens; os que permaneceram com Deus começaram a declarar-se por ele e pelo seu culto, chamando-se filhos de Deus.

Temas: adoracaoigreja

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