Gênesis 5.1-19 §
Nota de John Wesley
As primeiras palavras do capítulo são o título de todo ele: Este é o livro das gerações de Adão — a lista ou catálogo da posteridade de Adão; não de toda, mas somente da semente santa, da qual, segundo a carne, veio Cristo: os nomes, as idades e as mortes dos que foram sucessores do primeiro Adão na guarda da promessa, e antepassados do segundo Adão. Nos versículos 1 e 2 temos uma breve recapitulação do que antes fora relatado por extenso sobre a criação do homem — coisa de que precisamos ouvir com frequência e conhecer com cuidado. Observe: primeiro, que Deus criou o homem. O homem não é o seu próprio criador; logo, não deve ser o seu próprio senhor: o autor do seu ser deve ser o diretor e o centro dos seus movimentos. Segundo, que houve um dia em que Deus criou o homem: ele não é desde a eternidade, mas de ontem; não foi o primogênito, mas o caçula da criação. Terceiro, que Deus o fez à sua semelhança — justo e santo, e por isso, sem dúvida, feliz: a natureza do homem se parecia com a natureza divina mais do que a de qualquer criatura deste mundo inferior. Quarto, que Deus os criou homem e mulher (v. 2), para o mútuo conforto e para a preservação e o aumento da sua espécie. Adão e Eva foram ambos feitos imediatamente pela mão de Deus, ambos feitos à semelhança de Deus; portanto, entre os sexos não há aquela grande diferença e desigualdade que alguns imaginam. Quinto, que Deus os abençoou. É costume dos pais abençoar os filhos; assim Deus, o Pai comum, abençoou os seus. Mas os pais terrenos só podem pedir a bênção; é prerrogativa de Deus ordená-la. Refere-se principalmente à bênção da fecundidade, sem excluir as demais. E lhes chamou pelo nome de Adão — deu esse nome tanto ao homem quanto à mulher: sendo um só, primeiro por natureza e depois pelo casamento, era justo que ambos tivessem o mesmo nome, em sinal da sua união. Sete nasceu no ano 130 da vida de Adão, e provavelmente o assassinato de Abel não fazia muito tempo (v. 3). Muitos outros filhos e filhas já haviam nascido a Adão; mas deles não se faz menção, porque honrosamente só devia ser lembrado o nome daquele em cujos lombos estavam Cristo e a igreja. O mais notável aqui, a respeito de Sete, é que Adão o gerou à sua semelhança, conforme a sua imagem — Adão fora feito à imagem de Deus; mas, caído e corrompido, gerou um filho à sua própria imagem: pecador e manchado, frágil, mortal e miserável como ele; não apenas um homem como ele, de corpo e alma, mas um pecador como ele, culpado e sujeito à condenação, degenerado e corrupto. Foi concebido e nascido em pecado (Sl 51.5). Essa era a semelhança do próprio Adão — o inverso daquela semelhança divina em que Adão fora feito; tendo-a perdido, não podia transmiti-la à sua descendência. No dia em que comeu do fruto proibido, Adão tornou-se mortal: começou a morrer (v. 5); toda a sua vida daí em diante foi uma vida confiscada e condenada — mais: uma vida que se ia gastando e morrendo. Ele não era apenas como um criminoso sentenciado, mas como um já crucificado, que morre lenta e gradualmente. Nos versículos 6 a 19 temos tudo o que o Espírito Santo achou por bem deixar registrado a respeito de cinco patriarcas de antes do dilúvio: Sete, Enos, Cainã, Maalalel e Jarede. Nada há de particular sobre nenhum deles, embora tenhamos razão para pensar que foram homens eminentes em prudência e piedade. Em geral, porém, observe com que amplitude e clareza as suas gerações são registradas: somos informados de quanto viveram os que viveram no temor de Deus, e de quando morreram os que morreram no seu favor; dos demais, pouco importa — a memória do justo é abençoada, mas o nome dos ímpios apodrece. O mais digno de nota é que todos viveram muitíssimo: nenhum deles morreu sem ter visto quase oitocentas voltas do ano, e alguns bem mais — longo tempo para uma alma imortal ficar presa numa casa de barro! A vida presente certamente não lhes era o fardo que hoje costuma ser, do contrário se teriam cansado dela; nem a vida futura lhes era tão claramente revelada como hoje, sob o evangelho, do contrário estariam impacientes por partir. Podem-se apontar causas naturais para tamanha longevidade naquelas primeiras eras: é bem provável que a terra fosse mais fértil, os seus produtos mais nutritivos, o ar mais saudável e as influências dos corpos celestes mais benignas antes do dilúvio do que depois. Embora o homem tivesse sido expulso do paraíso, a própria terra era então paradisíaca — um jardim, em comparação com o seu estado atual. E alguns pensam que o conhecimento que tinham das criaturas e da sua utilidade, para alimento e remédio, junto com a sua sobriedade e temperança, muito contribuiu para isso — se bem que não achamos que os intemperantes, e muitos o eram (Lc 17.27), vivessem menos. A causa principal, portanto, deve ser buscada no poder e na providência de Deus: ele lhes prolongou a vida, tanto para o mais rápido povoamento da terra quanto para a mais eficaz preservação do conhecimento de Deus e da religião, num tempo em que não havia palavra escrita, e a tradição era o canal da sua transmissão. Todos os patriarcas aqui mencionados (exceto Noé) nasceram antes de Adão morrer, de modo que dele podiam receber o relato completo da criação, do paraíso, da queda, da promessa e dos preceitos divinos sobre o culto e a vida piedosa; e, se surgisse algum engano, podiam recorrer a ele, enquanto vivia, como a um oráculo, para corrigi-lo — e, depois da sua morte, a Metusalém e a outros que com ele haviam convivido. Tão grande era o cuidado do Deus Todo-Poderoso em preservar na sua igreja o conhecimento da sua vontade e a pureza do seu culto.
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