Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 5

Referências: 5.1-195.22-275.29-32

Introdução ao capítulo

Este capítulo é a única história autêntica que existe da primeira era do mundo, da criação ao dilúvio — abrangendo, segundo o texto hebraico, 1.656 anos. A genealogia aqui registrada é inserida, em resumo, na linhagem do nosso Salvador (Lc 3.36-38), e é de grande utilidade para mostrar que Cristo era a semente da mulher que fora prometida. Temos aqui o registro de Adão (v. 1-5), Sete (v. 6-8), Enos (v. 9-11), Cainã (v. 12-14), Maalalel (v. 15-17), Jarede (v. 18-20), Enoque (v. 21-24), Metusalém (v. 25-27), e Lameque e seu filho Noé (v. 28-32).

Gênesis 5.1-19 §

Nota de John Wesley

As primeiras palavras do capítulo são o título de todo ele: Este é o livro das gerações de Adão — a lista ou catálogo da posteridade de Adão; não de toda, mas somente da semente santa, da qual, segundo a carne, veio Cristo: os nomes, as idades e as mortes dos que foram sucessores do primeiro Adão na guarda da promessa, e antepassados do segundo Adão. Nos versículos 1 e 2 temos uma breve recapitulação do que antes fora relatado por extenso sobre a criação do homem — coisa de que precisamos ouvir com frequência e conhecer com cuidado. Observe: primeiro, que Deus criou o homem. O homem não é o seu próprio criador; logo, não deve ser o seu próprio senhor: o autor do seu ser deve ser o diretor e o centro dos seus movimentos. Segundo, que houve um dia em que Deus criou o homem: ele não é desde a eternidade, mas de ontem; não foi o primogênito, mas o caçula da criação. Terceiro, que Deus o fez à sua semelhança — justo e santo, e por isso, sem dúvida, feliz: a natureza do homem se parecia com a natureza divina mais do que a de qualquer criatura deste mundo inferior. Quarto, que Deus os criou homem e mulher (v. 2), para o mútuo conforto e para a preservação e o aumento da sua espécie. Adão e Eva foram ambos feitos imediatamente pela mão de Deus, ambos feitos à semelhança de Deus; portanto, entre os sexos não há aquela grande diferença e desigualdade que alguns imaginam. Quinto, que Deus os abençoou. É costume dos pais abençoar os filhos; assim Deus, o Pai comum, abençoou os seus. Mas os pais terrenos só podem pedir a bênção; é prerrogativa de Deus ordená-la. Refere-se principalmente à bênção da fecundidade, sem excluir as demais. E lhes chamou pelo nome de Adão — deu esse nome tanto ao homem quanto à mulher: sendo um só, primeiro por natureza e depois pelo casamento, era justo que ambos tivessem o mesmo nome, em sinal da sua união. Sete nasceu no ano 130 da vida de Adão, e provavelmente o assassinato de Abel não fazia muito tempo (v. 3). Muitos outros filhos e filhas já haviam nascido a Adão; mas deles não se faz menção, porque honrosamente só devia ser lembrado o nome daquele em cujos lombos estavam Cristo e a igreja. O mais notável aqui, a respeito de Sete, é que Adão o gerou à sua semelhança, conforme a sua imagem — Adão fora feito à imagem de Deus; mas, caído e corrompido, gerou um filho à sua própria imagem: pecador e manchado, frágil, mortal e miserável como ele; não apenas um homem como ele, de corpo e alma, mas um pecador como ele, culpado e sujeito à condenação, degenerado e corrupto. Foi concebido e nascido em pecado (Sl 51.5). Essa era a semelhança do próprio Adão — o inverso daquela semelhança divina em que Adão fora feito; tendo-a perdido, não podia transmiti-la à sua descendência. No dia em que comeu do fruto proibido, Adão tornou-se mortal: começou a morrer (v. 5); toda a sua vida daí em diante foi uma vida confiscada e condenada — mais: uma vida que se ia gastando e morrendo. Ele não era apenas como um criminoso sentenciado, mas como um já crucificado, que morre lenta e gradualmente. Nos versículos 6 a 19 temos tudo o que o Espírito Santo achou por bem deixar registrado a respeito de cinco patriarcas de antes do dilúvio: Sete, Enos, Cainã, Maalalel e Jarede. Nada há de particular sobre nenhum deles, embora tenhamos razão para pensar que foram homens eminentes em prudência e piedade. Em geral, porém, observe com que amplitude e clareza as suas gerações são registradas: somos informados de quanto viveram os que viveram no temor de Deus, e de quando morreram os que morreram no seu favor; dos demais, pouco importa — a memória do justo é abençoada, mas o nome dos ímpios apodrece. O mais digno de nota é que todos viveram muitíssimo: nenhum deles morreu sem ter visto quase oitocentas voltas do ano, e alguns bem mais — longo tempo para uma alma imortal ficar presa numa casa de barro! A vida presente certamente não lhes era o fardo que hoje costuma ser, do contrário se teriam cansado dela; nem a vida futura lhes era tão claramente revelada como hoje, sob o evangelho, do contrário estariam impacientes por partir. Podem-se apontar causas naturais para tamanha longevidade naquelas primeiras eras: é bem provável que a terra fosse mais fértil, os seus produtos mais nutritivos, o ar mais saudável e as influências dos corpos celestes mais benignas antes do dilúvio do que depois. Embora o homem tivesse sido expulso do paraíso, a própria terra era então paradisíaca — um jardim, em comparação com o seu estado atual. E alguns pensam que o conhecimento que tinham das criaturas e da sua utilidade, para alimento e remédio, junto com a sua sobriedade e temperança, muito contribuiu para isso — se bem que não achamos que os intemperantes, e muitos o eram (Lc 17.27), vivessem menos. A causa principal, portanto, deve ser buscada no poder e na providência de Deus: ele lhes prolongou a vida, tanto para o mais rápido povoamento da terra quanto para a mais eficaz preservação do conhecimento de Deus e da religião, num tempo em que não havia palavra escrita, e a tradição era o canal da sua transmissão. Todos os patriarcas aqui mencionados (exceto Noé) nasceram antes de Adão morrer, de modo que dele podiam receber o relato completo da criação, do paraíso, da queda, da promessa e dos preceitos divinos sobre o culto e a vida piedosa; e, se surgisse algum engano, podiam recorrer a ele, enquanto vivia, como a um oráculo, para corrigi-lo — e, depois da sua morte, a Metusalém e a outros que com ele haviam convivido. Tão grande era o cuidado do Deus Todo-Poderoso em preservar na sua igreja o conhecimento da sua vontade e a pureza do seu culto.

Temas: pecadoprovidencia

Gênesis 5.22-27 §

Nota de John Wesley

E andou Enoque com Deus, depois que gerou Metusalém — andar com Deus é pôr Deus sempre diante de nós e agir como quem está continuamente sob os seus olhos. É viver uma vida de comunhão com Deus, tanto nas ordenanças quanto nas providências; é fazer da palavra de Deus a nossa regra e da sua glória o nosso fim em todas as ações; é fazer do agradar a Deus em tudo — e do não ofendê-lo em nada — o nosso cuidado e empenho constantes; é conformar-nos à sua vontade, concorrer com os seus desígnios e ser cooperadores dele. Ele andou com Deus depois que gerou Metusalém — o que sugere que só por volta desse tempo começou a destacar-se em piedade. E já não era, porque Deus o tomou (v. 24) — isto é, como explica Hebreus 11.5: foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara. Mas por que Deus o levou tão cedo? Certamente porque o mundo, já corrompido, não era digno dele; porque a sua obra estava feita — e feita mais depressa, por ele se aplicar a ela tão de perto. Já não era — já não estava neste mundo: não foi o fim do seu ser, mas do seu estar aqui. Não foi achado — assim o explica o apóstolo, seguindo a Septuaginta: não o acharam os amigos que o buscaram, como os discípulos dos profetas buscaram Elias (2Rs 2.17). Deus o tomou, corpo e alma, para si, no paraíso celestial, pelo ministério de anjos, como depois tomou Elias. Ele foi transformado, como serão os santos que forem achados vivos na segunda vinda de Cristo. Metusalém significa 'ele morre, e virá o envio' — a saber, do dilúvio, que veio exatamente no ano em que Metusalém morreu (v. 25-27). Se o nome teve mesmo essa intenção, foi um claro aviso a um mundo descuidado, muito antes de o juízo chegar. Em todo caso, é notável que o homem que mais viveu carregasse a morte no próprio nome, para ser lembrado de que ela viria com certeza, ainda que viesse devagar. Viveu novecentos e sessenta e nove anos — o máximo que se lê de qualquer homem sobre a terra — e, contudo, morreu. O que mais vive há de morrer por fim: nem a juventude nem a velhice livram dessa guerra, pois esse é o fim de todos os homens; ninguém pode reivindicar a vida por longa posse, nem fazer disso defesa contra a citação da morte. Supõe-se comumente que Metusalém morreu pouco antes do dilúvio — os escritores judeus dizem que sete dias antes, com base em Gênesis 7.10 —, e que foi levado de diante do mal que vinha.

Temas: santidadecomunhaomorte

Gênesis 5.29-32 §

Nota de John Wesley

Este nos consolará do nosso trabalho e da fadiga das nossas mãos, por causa da terra que o SENHOR amaldiçoou — muito provavelmente havia profecias anteriores a respeito de Noé, como pessoa que haveria de ser maravilhosamente útil à sua geração. E Noé gerou Sem, Cam e Jafé (v. 32) — começou a gerá-los aos quinhentos anos de idade. Parece que Jafé era o mais velho (Gn 10.21); mas Sem é posto primeiro, porque nele foi vinculada a aliança, como se vê em Gênesis 9.26, onde Deus é chamado o SENHOR, Deus de Sem. A ele, provavelmente, foi dado o direito de primogenitura, e dele certamente haveriam de descender tanto Cristo, a cabeça, quanto a igreja, o corpo; por isso se chama Sem, que significa nome, porque na sua posteridade o nome de Deus permaneceria sempre, até que dos seus lombos viesse Aquele cujo nome é sobre todo nome — de modo que, pondo Sem em primeiro lugar, punha-se, com efeito, Cristo em primeiro lugar, ele que em todas as coisas deve ter a primazia. Para a glória da justiça de Deus, e para advertência a um mundo ímpio, antes da história da ruína do velho mundo temos o relato completo da sua degeneração, da sua apostasia de Deus e rebelião contra ele. Destruí-lo foi um ato não de pura soberania, mas de justiça necessária, para a manutenção da honra do governo de Deus.

Temas: cristojuizo

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