Gênesis 6.1-10 §
Nota de John Wesley
Os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra — era o efeito da bênção (Gn 1.28); e, contudo, a corrupção do homem abusou de tal modo dessa bênção que a converteu em maldição. Os filhos de Deus (v. 2) — os que eram chamados pelo nome do SENHOR e invocavam esse nome — casaram-se com as filhas dos homens — as profanas e alheias a Deus. A posteridade de Sete não se guardou à parte, como devia, mas misturou-se com a raça de Caim: tomaram para si mulheres de todas as que escolheram — escolhiam só pelos olhos: viram que eram atraentes, e era só isso que olhavam. O meu Espírito não contenderá para sempre com o homem (v. 3) — o Espírito contendia então pela pregação de Noé (1Pe 3.19) e por freios interiores; mas em vão, com a maioria. Por isso diz Deus: não contenderá para sempre, porque ele também é carne — incuravelmente corrupto e sensual, de modo que é trabalho perdido contender com ele. 'Ele também', isto é, todos, um como o outro: todos afundados no lamaçal da carne. Contudo, os seus dias serão cento e vinte anos — por tanto tempo adiarei o juízo que merecem, dando-lhes espaço para evitá-lo pelo arrependimento e pela emenda. A justiça dizia: corta-os; mas a misericórdia intercedeu: Senhor, deixa-os ainda; e a misericórdia prevaleceu a ponto de obter um adiamento de cento e vinte anos. Havia gigantes, homens de renome (v. 4) — atropelavam tudo diante de si, tanto pelo seu grande porte, como os filhos de Anaque (Nm 13.33), quanto pelo seu grande nome, como o rei da Assíria (Is 37.11). Assim armados, insultavam com ousadia os direitos de todos os vizinhos e pisoteavam tudo o que é justo e sagrado. E viu Deus que a maldade do homem era grande na terra (v. 5) — pecado em abundância, cometido em todos os lugares, por todo tipo de gente; pecados em si mesmos grosseiros, hediondos e provocadores, e cometidos com ousadia, em desafio ao céu. E que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era só má continuamente — triste espetáculo, ofensivíssimo aos santos olhos de Deus. Esta era a raiz amarga, a fonte corrompida: toda a violência e a opressão, todo o luxo e a devassidão que havia no mundo procediam da corrupção da natureza; a concupiscência os concebe (Tg 1.15; cf. Mt 15.19). O coração era mau, enganoso e desesperadamente corrupto; os princípios, corrompidos; os hábitos e disposições, maus. E os pensamentos do coração eram assim: tanto o juízo assentado — desviado e mal orientado — quanto os movimentos da imaginação, sempre vãos ou vis. Os seus planos e projetos eram maus: não faziam o mal apenas por descuido, mas deliberada e intencionalmente, tramando como causar dano. Era mau de fato, pois era só mal, continuamente mau, e toda inclinação era assim; não se achava bem algum entre eles, em tempo algum: a corrente do pecado ia cheia, forte e constante. E Deus viu — eis o desgosto de Deus diante da maldade do homem: não a viu como espectador indiferente, mas como quem é por ela lesado e afrontado; viu-a como um pai terno vê a insensatez e a teimosia de um filho rebelde, que não só o ira, mas o entristece. E arrependeu-se o SENHOR de ter feito o homem sobre a terra (v. 6) — de ter feito uma criatura de faculdades tão nobres e de a ter posto nesta terra, que ele construíra e mobiliara de propósito para lhe ser morada agradável; e isso lhe pesou no coração — expressões à maneira dos homens, que devem ser entendidas sem prejuízo da imutabilidade e da felicidade de Deus. Não indicam paixão ou inquietude em Deus — nada pode perturbar a mente eterna —, mas o seu justo e santo desagrado contra o pecado e os pecadores. Tampouco indicam mudança na mente de Deus, pois nele não há variação; indicam mudança no seu proceder. Quando fizera o homem reto, Deus descansou e se deleitou (Êx 31.17), e o seu trato com ele mostrava o seu agrado pela obra das próprias mãos; agora, apostatado o homem, não podia deixar de mostrar-se desagradado. A mudança estava no homem, não em Deus. Farei desaparecer o homem (v. 7) — a palavra original é muito expressiva: limparei o homem de sobre a terra, como se limpa a sujeira de um lugar que deve ficar limpo, lançando-a ao monturo; ou: riscarei o homem da terra, como se riscam de um livro as linhas que desagradam ao autor. Tanto o homem quanto o animal, os répteis e as aves — foram feitos para o homem, e por isso com o homem seriam destruídos. Arrependo-me de os haver feito — pois também o fim da criação deles fora frustrado: foram feitos para que o homem servisse e honrasse a Deus por meio deles, e foram destruídos porque o homem os fizera servos das suas paixões. Mas Noé achou graça aos olhos do SENHOR (v. 8) — isso vindica a justiça de Deus no seu desagrado contra o mundo e mostra que ele examinou o caráter de cada pessoa antes de o declarar universalmente corrupto; pois, havendo um só homem bom, sobre ele sorriu. Noé era homem justo (v. 9) — justificado diante de Deus pela fé na semente prometida, pois foi herdeiro da justiça que vem da fé (Hb 11.7). Era santificado, com princípios e disposições retos plantados nele; e era justo no seu proceder: fazia questão de consciência de dar a cada um o que lhe era devido — a Deus o que era de Deus, e aos homens o que era deles. E andava com Deus, como Enoque antes dele — na sua geração, mesmo naquela era corrupta e degenerada. É fácil ser religioso quando a religião está na moda; mas é prova de fé robusta nadar contra a corrente e aparecer por Deus quando ninguém mais aparece por ele. Assim fez Noé, e isso ficou registrado para a sua honra imortal.
Nota do editor
Note-se como Wesley lê o 'arrependimento' de Deus: linguagem humana que não fere a imutabilidade divina — 'a mudança estava no homem, não em Deus'. E note-se também o prazo dos cento e vinte anos: a justiça anuncia o juízo, mas a misericórdia obtém tempo para o arrependimento. O juízo de Deus nunca é precipitado; a sua paciência espera, como esperou nos dias de Noé (1Pe 3.20).