Levítico 1.1-9 §
Nota de John Wesley
E chamou o SENHOR a Moisés — que estava fora (Êx 40.35), esperando o chamado de Deus. Da tenda do encontro — de sobre o propiciatório, no tabernáculo. Prescrevem-se aqui diversos tipos de sacrifícios (v. 2): uns por reconhecimento a Deus por misericórdias desejadas ou recebidas; outros por satisfação a Deus pelos pecados dos homens; outros, meros exercícios de devoção. E a razão de haver tantos tipos era, em parte, atenção ao estado infantil dos judeus — que, pelo costume das nações e pela própria inclinação natural, eram muito dados a ritos e cerimônias exteriores: teriam assim pleno emprego dessa espécie no serviço de Deus, e com isso seriam guardados das tentações da idolatria —; e em parte para representar tanto as várias perfeições de Cristo, o verdadeiro sacrifício, e os vários benefícios da sua morte, como os vários deveres que os homens devem ao seu Criador e Redentor — coisas que não se podiam exprimir tão bem por um só tipo de sacrifício. Do rebanho — a palavra hebraica abrange ovelhas e cabras. Deus escolheu estes animais para os seus sacrifícios: ou em oposição à idolatria egípcia, a que muitos israelitas estavam habituados e a que ainda corriam perigo de voltar — para que a destruição frequente destes animais lançasse no desprezo divindades tão tolas; ou por serem as mais próprias representações de Cristo e dos verdadeiros cristãos — mansos, inofensivos, pacientes e úteis aos homens; ou por serem os animais melhores e mais proveitosos, com que convém que Deus seja servido, e de que devemos estar prontos a nos desfazer quando Deus o requer; ou por serem os mais comuns, para que nunca faltasse ao homem um sacrifício quando precisasse, ou Deus o exigisse. Holocausto (v. 3) — assim chamado em sentido estrito o que era todo queimado, exceto a pele. Os sacrifícios significavam que o homem inteiro, em cujo lugar o sacrifício era oferecido, devia ser inteiramente oferecido e devotado ao serviço de Deus; e que o homem inteiro merecia ser totalmente consumido, se Deus o tratasse com rigor; e nos ensinam a servir ao Senhor com toda a singeleza de coração, prontos a oferecer-lhe até sacrifícios e serviços de que nós mesmos nenhuma parte ou proveito tenhamos. Macho — por mais perfeito que a fêmea (Ml 1.14), e representando mais propriamente a Cristo. Sem defeito — para significar: que Deus deve ser servido com o melhor de cada espécie; que o homem, representado nestes sacrifícios, deve visar a toda perfeição de coração e vida — e que os cristãos um dia a alcançarão (Ef 5.27); e a santidade imaculada e completa de Cristo. De sua própria vontade — segundo esta tradução, o texto fala das ofertas voluntárias, não prescritas, oferecidas por devoção espontânea, em súplica por alguma misericórdia ou em gratidão por alguma bênção. À porta da tenda — no átrio, junto à porta, onde estava o altar (v. 5): ali devia ser sacrificado, e ali o povo podia contemplar a oblação. E isto significava, além do mais, que ninguém pode entrar, nem no tabernáculo terreno — a igreja —, nem no tabernáculo celestial da glória, senão por Cristo, que é a porta (Jo 10.7, 9), por quem só temos acesso a Deus. Porá a mão (v. 4) — ambas as mãos (Lv 8.14, 18; 16.21). Com isso significava: que voluntariamente o dava ao Senhor; que se julgava merecedor daquela morte que o animal sofria em seu lugar; que punha sobre ele os seus pecados, com os olhos naquele sobre quem Deus faria cair a iniquidade de todos nós (Is 53.6); e que, junto com ele, oferecia livremente a si mesmo a Deus. Para fazer expiação — sacramentalmente: dirigindo a sua fé e os seus pensamentos ao verdadeiro sacrifício propiciatório que a seu tempo seria oferecido por ele. E aspergirá o sangue (v. 5) — em quantidade considerável; com o que se significava: que o ofertante merecia ter o seu sangue assim derramado; e que o sangue de Cristo seria derramado pelos pecadores — o único meio da sua reconciliação com Deus e aceitação diante dele. Em pedaços (v. 6) — a cabeça, a gordura, as entranhas e as pernas (v. 8-9). Porão fogo (v. 7) — ou disporão o fogo: soprá-lo-ão e o ajuntarão, para servir à obra. Pois o fogo ali usado e permitido descera do céu (Lv 9.24) e devia ser cuidadosamente conservado — todo outro fogo era proibido (Lv 10.1). A gordura (v. 8) — toda a gordura devia ser separada da carne e posta junta, para aumentar a chama e consumir mais depressa as outras partes do sacrifício. As entranhas, porém, lavará (v. 9) — para significar a pureza universal e perfeita, tanto das entranhas — o coração — como das pernas — os caminhos e ações —, que havia em Cristo e deve haver em todos os cristãos. De cheiro suave — não em si mesmo, pois antes causava mau cheiro; mas enquanto representava Cristo oferecendo-se a Deus em cheiro suave.
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