Coletânea histórica · Tradução integral

Por Que Outra Denominação?

Benjamin Titus Roberts, fundador da Igreja Metodista Livre · 1879

“Bem-aventurados vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês.”Mateus 5.11

Sobre esta obra. Em 1876, o bispo Matthew Simpson publicou na sua Cyclopedia of Methodism um artigo sobre a Igreja Metodista Livre cheio de inexatidões. Why Another Sect (“Por que outra denominação?”) é a resposta documentada de B. T. Roberts: a história, contada por quem a viveu, das perseguições na Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal — os julgamentos armados, as expulsões de pregadores e leigos fiéis por “contumácia”, a conivência da Conferência Geral de 1860 — que tornaram inevitável a organização da Igreja Metodista Livre. É o registro fundacional da nossa denominação: a prova de que os metodistas livres não saíram; foram postos para fora por pregar a santidade, combater a escravidão e as sociedades secretas e defender os pobres. Esta é a tradução integral do original de 1879, em domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).

Leia os 15 capítulos

Capítulo 1 — O bispo Simpson e a Igreja Metodista Livre+

A Cyclopedia of Methodism (“Enciclopédia do Metodismo”) é um livro novo, editado por M. Simpson, D.D., um dos bispos da Igreja Metodista Episcopal. Uma enciclopédia é livro que ninguém deveria escrever sem a máxima candura e grande paciência de pesquisa. O brilho de imaginação que habilita alguém a luzir como orador ou ensaísta não deveria ter lugar algum na compilação de fatos sóbrios ou verdades estabelecidas. Uma história muitas vezes se lê por entretenimento, além de instrução; mas uma enciclopédia só é útil como obra de referência — e, se as suas afirmações não merecem confiança, não vale nada.

Da necessidade de equidade o bispo parece ter estado plenamente lembrado quando escreveu o seu prefácio — e singularmente esquecido quando admitiu o seu artigo sobre “A Igreja Metodista Livre”. Esse artigo contém várias deturpações importantes. É o que nos propomos a demonstrar, à satisfação de toda mente cândida, apesar da dificuldade de provar uma negativa. Não acusamos o bispo de deturpar voluntariamente um só fato; com os seus motivos nada temos; não lhe faríamos, conscientemente, a menor injustiça. Mas afirmações falsas, vindas de fonte respeitável, não precisam proceder de malícia para serem capazes de tanto dano que exijam correção.

Logo depois de ler o artigo referido, escrevemos ao bispo o seguinte:

Rochester, N.Y., 13 de setembro de 1878. — Rev. M. Simpson, D.D., bispo da Igreja Metodista Episcopal. Prezado senhor: penso que, quando alguém faz afirmações incorretas, deve ter o privilégio de corrigi-las. Tomo, pois, a liberdade de dirigir-me ao senhor com referência ao artigo da sua “Enciclopédia do Metodismo” sobre a Igreja Metodista Livre. No seu prefácio o senhor diz: “O alvo foi dar uma visão justa e imparcial de cada ramo da família metodista. Para esse fim, selecionaram-se colaboradores e correspondentes, tanto quanto praticável, identificados com os vários ramos, e que, pela sua posição, estivessem mais bem qualificados para fornecer informações sobre os seus respectivos corpos.” Ou nenhuma seleção dessas foi feita entre os metodistas livres, ou a informação que forneceram — exceto as estatísticas — não foi dada ao público nesse artigo. Em qualquer dos casos, que é feito da pretensão de equidade? Nesse artigo há cerca de quinze afirmações, ou reafirmações, inteiramente inverídicas, e umas cinco ou seis que, embora num sentido verdadeiras, são, pelo modo como são feitas, enganosas. Se lhe fornecerem prova, satisfatória a mentes cândidas, de que essas afirmações são inverídicas e enganosas, o senhor as corrigirá nos periódicos da igreja e nas futuras edições do seu livro? Se não, dará a autoridade em que se baseiam as afirmações de que nos queixamos? Com o maior respeito, B. T. Roberts.

A isso o bispo respondeu:

Filadélfia, 23 de outubro de 1878. — Rev. B. T. Roberts. Prezado senhor: voltando de longa viagem pelo oeste, encontro a sua carta de 13 de setembro, queixando-se de inexatidões no artigo sobre o metodismo livre, mas sem especificar quais sejam. Não tenho conhecimento de afirmações incorretas no artigo; mas, se o senhor me fornecer as correções e as provas correspondentes, farei de bom grado quaisquer alterações numa edição futura, caso tal edição venha a ser pedida. Desejo ter perfeita exatidão em cada artigo, e me dará tanto prazer corrigir quanto ao senhor fornecer as correções. Atenciosamente, M. Simpson.

Lendo essa carta, o leitor inteligente notará: 1) que o bispo assume plenamente a responsabilidade pela exatidão do artigo em questão; 2) que ele não se oferece para corrigir as inexatidões — ainda que convencido delas — senão quando uma futura edição do seu livro for pedida, e de modo algum se tal edição não for pedida, deixando o artigo, entrementes, criar todo o preconceito e fazer toda a injustiça de que é capaz; 3) que não dá autoridade alguma para as suas afirmações; 4) que não professa, como reivindicado no prefácio — a fim de “dar uma visão justa e imparcial” deste “ramo da família metodista” —, ter selecionado um “colaborador” dentre os metodistas livres, identificado com eles e, “pela sua posição, mais bem qualificado para dar informações” sobre o seu corpo particular; nem dá razão alguma por que isso não foi considerado “praticável” — na cidade onde reside havia homens capazes de dar tais informações!

Copiamos da enciclopédia o artigo que contém as afirmações de que nos queixamos. Para facilitar a referência, marcamos com números as cláusulas que consideramos inverídicas, e com letras as enganosas. Damos o artigo inteiro, exceto as estatísticas:

“A IGREJA METODISTA LIVRE. A organização da Igreja Metodista Livre data de 23 de agosto de 1860, numa convenção composta de ministros e leigos que haviam sido membros da Igreja Metodista Episcopal, mas ficaram insatisfeitos com o funcionamento do seu governo. Embora organizado nessa data, o movimento começara vários anos antes, nos limites da Conferência de Genesee, e originou-se numa (1) associação de ministros que (2) julgavam não ter sido devidamente tratados pelos homens de destaque da conferência. (3) Adotaram em particular uma plataforma e, nessa (4) organização, eram conhecidos como “naziritas”. Nos seus escritos e discursos queixavam-se do declínio da espiritualidade na igreja, (b) acusando a igreja de tolerar, por amor do lucro, as práticas mundanas dos seus membros, e do seu afastamento, em doutrina e disciplina, dos ensinos dos pais; (c) professavam-se movidos pelo Espírito Santo e criam ser seu dever dar testemunho aberto contra o que alegavam ser os pecados da igreja. Essa (5) organização e as suas (6) publicações, contendo tais acusações contra os membros de destaque da conferência, levaram, em 1855, a um estado de sentimento muito desagradável, e resultaram em vários julgamentos eclesiásticos. Em (7) 1858, dois dos líderes foram expulsos da conferência; apelaram para a Conferência Geral seguinte, realizada em Buffalo em 1860; mas, como haviam (8) recusado reconhecer a autoridade da igreja e (9) continuado a exercer o seu ministério e a organizar sociedades, a Conferência Geral recusou-se a conhecer da apelação. Mesmo antes do julgamento, (10) alguns dos ministros haviam estabelecido pontos de pregação e (11) organizado sociedades em oposição aos cultos regulares da igreja. Na organização desta igreja, em 1860, aceitaram as doutrinas do metodismo contidas nos Artigos de Religião e puseram ênfase especial na perfeição cristã, ou santificação… (c) Na política eclesiástica, o nome de bispo foi abandonado e substituído por uma superintendência geral. As (d) organizações de conferência foram mantidas como na Igreja Metodista Episcopal, e leigos, em número igual ao dos ministros, foram admitidos em cada um desses corpos. (e) O nome de presbítero presidente foi mudado para presidente de distrito. Ninguém é admitido como membro, mesmo após a probação, sem confissão de fé salvadora em Cristo. A (12) razão que alegam é que muita da defecção nas outras igrejas metodistas se deve ao fato de multidões, que entraram para a igreja como inquiridores, terem falhado em seguir uma vida estritamente espiritual. (f) Exigem também dos seus membros extrema simplicidade no vestir, e proíbem a qualquer pessoa ligada à igreja pertencer a sociedade secreta. Exigem abstinência não só das bebidas embriagantes, mas também do fumo, exceto como remédio. Na sua história primitiva, alguns dos seus líderes encorajaram um espírito de (13) fanatismo desenfreado, reivindicando (14) o poder de curar pela imposição das mãos. Em (15) muitos casos, a excitação ligada às suas reuniões passou a extravagância, sancionada pelos seus homens de destaque como evidência da influência do Espírito Santo. À medida que a denominação progrediu e estendeu os seus limites, embora os seus cultos ainda se caracterizem por muito fervor, há menos dessas manifestações…”

Damos as estatísticas por extenso no apêndice.

Capítulo 2 — A “organização nazirita”+

Os homens às vezes ficam tão impressionados de ouvir uma coisa frequentemente repetida, que acabam por crê-la — não só sem evidência, mas em oposição a evidência positiva em contrário. Parece ser o caso do bispo Simpson com referência à “União” ou “Banda Nazirita”. Que existia tal organização entre os membros da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal foi afirmado com confiança, em particular e pela imprensa — embora mal possamos ver como é possível que os que faziam tal afirmação não soubessem que era falsa. Mas a afirmação ainda se faz, com tanta confiança como se fosse fato reconhecido.

Falava-se dela, na época, como plenamente provada, pelos que se opunham à doutrina da santidade tal como especialmente advogada pelos homens acusados de pertencer a tal organização. Os jornais oficiais da igreja ajudaram a ilusão. Embora fosse enfaticamente negada pelos membros da Conferência de Genesee que tinham conhecimento do assunto — e que se supunha pertencerem à “Banda Nazirita” —, nenhuma atenção se deu à sua negativa. E, pelo livro do bispo Simpson, vê-se que a afirmação ainda é sustentada com grande pertinácia. Será pelo princípio de que uma história muitas vezes contada acaba crida? Ou porque é a única sombra de desculpa que se pode dar para um ato de tirania e proscrição eclesiástica que, olhando para trás após vinte anos, deliberadamente declaramos sem paralelo, nos tempos modernos, pela sua injustiça?

Daremos provas tão conclusivas de que tal organização jamais existiu, que a questão ficará para sempre encerrada para toda pessoa com a mínima pretensão de candura. Primeiro, chamamos a atenção para o seguinte documento, preparado e assinado pelos homens que se supunha serem proeminentes na “organização nazirita”. Foi publicado na época no Northern Independent e em folha avulsa; uma cópia foi entregue ao bispo Simpson:

“ASSUNTOS DA CONFERÊNCIA DE GENESEE — LEIA E DEPOIS JULGUE. Tendo sido postos em circulação certos relatos que acusam uma parte dos ministros da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal do ato desonroso e indigno de haver organizado uma sociedade ‘com certas marcas de segredo’, sob o nome de ‘Banda ou União Nazirita’, cujo objetivo, segundo se relatou, é controlar as nomeações e dirigir os negócios da conferência — acusação que implica muitos dos nossos ministros em passos indignos do cristão e depreciativos do caráter ministerial: portanto, nós, os abaixo-assinados, membros da Conferência de Genesee, declaramos que, após cuidadosa investigação, estamos plenamente convencidos de que tal sociedade jamais existiu nos limites desta conferência. Toda a agitação com referência à suposta organização nasceu de certas cartas, indicando a existência de tal sociedade, escritas por um único indivíduo, que, no plenário da conferência de Olean, em 1855, declarou publicamente que só ele era responsável por todo o caso. Essas cartas foram escritas sem o nosso conhecimento e jamais receberam a nossa aprovação. Embora a existência de tal sociedade tenha sido repetidamente negada, de vários modos e em numerosas ocasiões, ainda assim, em público e em particular, e especialmente pelas colunas do Buffalo Christian Advocate, esses relatos foram espalhados, com dano à reputação ministerial e à influência e utilidade cristãs de vários dos nossos ministros, criando contra eles um preconceito injusto — e entre eles estão alguns dos nossos homens mais capazes e eficientes. Ligada à acusação de associação está a de encorajar o fanatismo e a extravagância nos exercícios religiosos e no culto. Declaramos esta acusação tão infundada quanto a outra. Nunca encorajamos excessos, e com eles não temos a menor simpatia. Mas, opondo-nos a todas as impropriedades nos exercícios religiosos e no culto, declaramo-nos a favor de uma religião coerente e vitalizada: não um formalismo morto, mas o poder da piedade. Não aquela forma de religião que se exprime em irregularidades confusas, de um lado, nem, do outro, em sermões sem vida e sem aplicação, no abandono das reuniões sociais e na negligência da oração em família e em particular; mas uma religião que move o coração e impele a toda boa obra — não só de beneficência, mas também de devoção. Estas acusações, pois, de formar associação ou encorajar fanatismo — que têm origem, na opinião de alguns, na ambição e na inveja, e foram feitas e reiteradas, teme-se, com desígnio e para causar efeito —, se aplicadas a nós, declaramo-las sem hesitação injustas, iníquas, caluniosas e falsas. — A. Abell, John P. Kent, Samuel C. Church, Loren Stiles Jr., John B. Jenkins, W. Gordon, A. W. Luce, J. Miller, Isaac C. Kingsley, C. D. Burlingham, A. Hard, B. T. Roberts, E. S. Furman, R. E. Thomas, Daniel B. Lawton, Wm. Kellogg, J. Bowman. Le Roy, setembro de 1857.”

Os dezessete membros da Conferência de Genesee que assinaram essa negativa enfática eram proeminentes entre os comumente designados “naziritas”. Se havia tal associação, eles tinham de sabê-lo — pois eram os homens de quem se dizia que a associação era principalmente composta. Cinco deles haviam sido presbíteros presidentes, e quatro, membros da Conferência Geral. Do número total, só três chegaram a ser membros da Igreja Metodista Livre; um, cremos, uniu-se depois aos presbiterianos; outro, aos Irmãos Unidos; os demais, até onde sabemos, ou estão na Igreja Metodista Episcopal, ou nela permaneceram até morrer. Alguns, com o tempo, tornaram-se os inimigos mais amargos da Igreja Metodista Livre. E, contudo, nunca ouvimos que algum deles fizesse jamais declaração incompatível com o que aqui dizem.

Que esses homens estavam em circunstâncias de conhecer a verdade do que afirmam, ninguém pode questionar. Crê o bispo Simpson — crê alguém — que esses dezessete homens, ministros do evangelho, publicaram deliberadamente o que sabiam ser falso? Nomeou o bispo, ano após ano, para dirigir igrejas e guiar almas ao Céu, homens que, segundo cria, amavam, fabricavam e publicavam a mentira, e nela persistiam? Quereria o bispo que o público entendesse que a falsidade deliberada, voluntária e persistente não desqualifica homens para serem pastores na Igreja Metodista Episcopal? É caridade cristã lançar, sem evidência, sobre dezessete ministros do evangelho — alguns dos quais morreram, ao que tudo indica, em santo triunfo — a imputação de falsidade voluntária, em matéria na qual não podiam de modo algum estar enganados?

Há contradição clara e irreconciliável entre a declaração do bispo e a destes homens. O bispo diz do movimento metodista livre que começou “nos limites da Conferência de Genesee, e se originou numa associação de ministros que julgavam não ter sido devidamente tratados pelos homens de destaque da conferência; adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como naziritas”. Os dezessete dizem: “Declaramos que, após cuidadosa investigação, estamos plenamente convencidos de que tal sociedade jamais existiu nos limites desta conferência.” Investigaram o assunto nas circunstâncias mais favoráveis possíveis a uma investigação completa: eles próprios eram não só suspeitos, mas abertamente acusados de membros de tal associação; se havia outros membros além deles, esses homens, seus amigos, o teriam descoberto. Declaram ter feito “cuidadosa investigação”, e o resultado não lhes deixou dúvida: dizem-se plenamente convencidos. A sua negativa não está na linguagem cautelosa e evasiva de quem procura esconder a verdade sob um subterfúgio especioso: é aberta, franca e abrangente. Não negam apenas que exista uma organização nazirita — deixando no espírito a suspeita de que existiu, mas fora dissolvida —, mas estão “plenamente convencidos de que tal sociedade jamais existiu nos limites desta conferência”. E, com referência a si mesmos: “Esta acusação de formar associação ou encorajar fanatismo, se aplicada a nós, declaramo-la sem hesitação injusta, iníqua, caluniosa e falsa.” É possível formular negativa mais específica e mais abrangente? Ou a declaração deles é falsa, ou a do bispo o é: não há modo possível de conciliá-las. O bispo não professa falar de conhecimento pessoal — apoiado em informações, podia facilmente ser enganado; os dezessete ministros professam falar de conhecimento pessoal — não podiam de modo algum estar enganados. Se a sua declaração é inverídica, é conscientemente, e de propósito, inverídica.

Além de assinar a negativa acima, o rev. Asa Abell, em artigo publicado no Northern Independent de 10 de março de 1859, diz: “Parece-me que estive em tais circunstâncias que, se realmente houvesse tal União ou Sociedade, ela não poderia ter deixado de chegar ao meu conhecimento; e declaro solenemente que nem sei agora, nem jamais soube, de sociedade alguma chamada pelo nome em questão, nem na forma nem de fato; nem de associação alguma semelhante àquela cuja existência é tão ousada e positivamente afirmada; nem de liga ou combinação alguma, por nome algum. Tudo isto pretendo afirmar sem reserva mental alguma que deixasse o que digo verdadeiro e, contudo, em algum sentido oculto e misterioso, verdadeiro que exista ou tenha existido tal organização. Ninguém provou ainda, e estou certo de que ninguém jamais poderá provar, a existência de tal liga ou sociedade — pela razão de que ninguém pode provar que um nada seja um algo. Nunca soube nem ouvi de reunião alguma para formar tal sociedade, liga ou união; nem de reunião de tal sociedade; nem de reunião de supostos oficiais de tal sociedade.”

Em matéria desta espécie, o caráter pessoal das testemunhas deve ser considerado. Com o do bispo nada temos: podemos conceder, a esse respeito, tudo o que os seus amigos mais calorosos reivindiquem — pois ele não afirma ter assistido a reunião alguma da “associação”, nem ser testemunha pessoal do assunto; obteve o seu conhecimento de outros, e toda a experiência mostra que não é difícil enganar uma natureza generosa e confiante. Mas o caráter destes dezessete homens é elemento importante desta investigação: são testemunhas voluntárias, que se apresentam para remover uma aspersão injusta, e falam de matéria que geralmente se supunha que entendiam — e que eles afirmavam entender. São homens dignos de crédito? Conhecemos um só, do número inteiro, cujo caráter de veracidade tenha sido alguma vez posto em questão — deixemo-lo de fora. Quanto aos demais, são homens cujo testemunho teria plena força em qualquer tribunal de justiça, em qualquer causa, por importante que fosse. Alguns passaram vidas longas e úteis no ministério.

Asa Abell foi um dos pioneiros do metodismo no oeste de Nova York. Entrou para a Conferência de Genesee em 1821. Durante o seu longo e notavelmente bem-sucedido ministério, foi presbítero presidente por dezoito anos e membro de quatro Conferências Gerais sucessivas. Quando a Igreja Metodista Livre se organizou, mostrou a sua devoção aos princípios que sempre advogara, cortando voluntariamente a ligação com a igreja a que dera as melhores energias da vida e unindo-se a um punhado de homens proscritos e perseguidos, quando ainda era duvidoso que pudessem manter a existência como denominação. Durante a sua longa vida, nem o sopro da calúnia jamais ousou sussurrar algo contra o seu bom nome. John P. Kent esteve no ministério por período ainda mais longo, e sempre teve reputação acima de qualquer censura: nunca deixou a Igreja Metodista Episcopal, e é ministro jubilado e honrado. Dos registros da Conferência de Genesee sobre o rev. Samuel C. Church, D.D.: “A sua conscienciosidade não lhe permitia ser neutro; o seu bom senso e a sua generosidade o guardavam do mero partidarismo.” Charles D. Burlingham foi homem capaz, íntegro e de coração afável, leal à Igreja Metodista Episcopal, na qual morreu ministro aceito e respeitado; as atas da Conferência do Oeste de Nova York para 1875 dizem: “O irmão Burlingham era homem de talentos superiores, homem de cultura e sólida piedade, escritor e pregador capaz, excelente pastor, muito respeitado e amado por todos os que o conheciam… morreu como vivera: verdadeiro cristão, ministro honrado e fiel de Cristo.” E o bispo Simpson, na sua larga experiência com homens, conheceu algum mais consciencioso e temente a Deus do que Amos Hard? Quem jamais questionou a honestidade dos seus propósitos? Dele dizem as atas da Conferência de Genesee para 1878: “O irmão Amos Hard, como cristão, era completo e fervoroso. Não tolerava nada de superficial, em si nem nos outros. Nas palavras do seu amigo de toda a vida, o rev. dr. Reddy, ‘abominava todas as farsas’. O seu estudo e oração para descobrir o que a Bíblia entende por ‘santidade’, a sua fome dessa experiência, as suas lutas e jejuns e rigorosas provas de si mesmo, e a doçura indizível do amor divino de que toda a sua alma se enchia, tal como ele mesmo relatava, constituem um dos retratos mais vívidos de um cristão poderosamente decidido. Medido pelo padrão do êxito em ganhar almas para Cristo, poucos partiram do nosso meio para recompensa mais rica, ou deixando registro mais glorioso.”

Ao compor a história de eventos em que tais homens tiveram parte proeminente, deve o seu testemunho sobre esses eventos ser posto de lado sem sequer se indicar uma causa? Deve presumir-se, sem evidência, que eles se puseram em registro como falsificadores de fatos que bem conheciam? E deve tal presunção passar à história sem contestação? Devem o preconceito partidário, ou o orgulho denominacional, dispensar a necessidade de pesar candidamente a evidência?

Se nenhuma atenção se há de dar ao testemunho de homens como estes, de que serve o testemunho humano? A história bem poderia ser escrita inteiramente da imaginação. Se estes homens merecem crédito, então a declaração do bispo Simpson — de que a Igreja Metodista Livre teve origem numa “associação de ministros” que “adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como naziritas” — é inteiramente falsa.

Mas que fazer dos “Documentos da União Nazirita”? Não pressupõem eles que houve tal organização? Respondemos: não fala toda obra de ficção dos eventos que relata como se realmente tivessem ocorrido? Mas quem, por isso, as cita como história? A única prova jamais aduzida, que saibamos (e presumimos ter lido tudo o que se escreveu sobre o assunto), de que tal organização existiu, tira-se dos escritos de um só homem — as suas cartas e o panfleto intitulado “Documentos da União Nazirita da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal” — e do voto da Conferência de Genesee, baseado nesses documentos.

O corpo desse panfleto foi lido pelo rev. Joseph McCreery à conferência, na sua sessão anual de Olean, em 1855. Mas ele declarou, na mesma ocasião, que ele era “a União Nazirita” — que só ele era responsável por todo o caso. Outros, supostos membros, corroboraram a sua declaração de que tudo era fantasia da sua própria criação. O próprio McCreery mais que o insinua no prefácio do panfleto: “Certo panfleto publicado em Nova York representou os naziritas como sociedade secreta devotada à propagação de teses doutrinárias. Basta dizer que o seu autor foi enganado pelo seu zeloso correspondente, tanto quanto ao fato quanto ao propósito dos naziritas. É, até agora, mera proposta de voltar às ‘veredas antigas’.” Note que o autor declara: “é, até agora, mera proposta de voltar às veredas antigas”. Mas uma proposta não é prova de que a coisa proposta seja fato consumado: é preciso outra prova de que a proposta foi executada — e essa prova, neste caso, não existe.

Perante a Conferência de Genesee, na sessão de Perry, em 1858, Joseph McCreery testemunhou: “Escrevi tudo o que se refere à Banda Nazirita. Escrevi os documentos. Cheguei a projetar uma associação, e preparei os documentos em antecipação dela; mas, quando chegamos à conferência, tivemos bastante que fazer com outros assuntos. Não nos organizamos, e a questão da organização ficou em aberto desde então. Nunca administrei o voto a ninguém, e nunca o tomei eu mesmo — não formalmente. A associação nunca foi praticamente formada; declarei-o quase nesses termos no plenário da conferência de Olean. Declarei que a coisa toda era provisória e prospectiva, e que só eu era responsável por todo o caso. O prefácio do panfleto é coisa inteiramente mítica.” Não é claro?

Numa carta ao rev. H. Hornsby (Parma Centre, 11 de novembro de 1855), o rev. J. McCreery explica ainda mais: alguns pregadores haviam informalmente combinado entre si voltar, tanto quanto praticável, à disciplina e aos costumes da igreja, e sugeriram estender convite geral aos inclinados na mesma direção — “esta é a soma e substância de todo o caso”. Por todos os adornos circunstanciais — os números místicos, nomes e parábolas — ele assumiu a responsabilidade: “Eu os dei para o propósito a que tão eloquentemente serviram: dar ao assunto um ar de mistério que não podia deixar de atrair a mais intensa atenção em certos quadrantes… Ninguém assinara a obrigação; ninguém aderira às ‘proposições práticas’… A coisa toda era, ainda, apenas um princípio proposto: não tinha corporificação formal. Era uma sociedade sem constituição, sem leis, sem membros, sem nada — exceto oficiais, e estes ignorantes da sua posição oficial. Em sentido estritamente legal, era uma ‘ficção’. Contra essa ficção impalpável a Regência de Buffalo disparou todo o parque da sua artilharia carregada até a boca: atiraram no nada e acertaram, enquanto o coice dos canhões punha o batalhão inteiro fora de combate… A terrível ‘Banda Nazirita’ era non est inventa — e a aprovação da famosa resolução de compromisso a deixa non est inventa ainda… A Regência de Buffalo é que nos trouxe a guerra. Eles fizeram a contenda; gritaram, rugiram e bramiram; perturbaram a paz; leram cartas particulares interceptadas para causar contenda… Nós, como evidência do nosso espírito quieto e cristão em meio a toda essa comoção, ficamos serenos em silêncio pacífico… O nosso argumento especial é este: a adesão estrita e positiva às formas e costumes do metodismo engendrará um desvio das suas doutrinas? É provável que encoraje outro ‘ismo’ que não o metodismo? Ao contrário: não há razão especial, fundada na prevalência, nestes dias, de todos esses ‘ismos’ errantes, para uma adesão mais explícita e firme ao metodismo? De sorte que, longe de favorecer o fanatismo, ela é a nossa única defesa segura contra ele… Seguiremos direto no caminho do ‘metodismo de velha linha’, e quem ou o que vier em direção contrária terá de dar passagem ou chocar-se conosco, como até aqui. Não buscaremos nem fugiremos de contenda alguma… Simplesmente, em nome do Senhor nosso Deus, atravessaremos qualquer tropa e saltaremos qualquer muralha que cruze a vereda que os nossos pais trilharam. Amém.”

Na conferência de Perry, a questão da existência de uma “organização nazirita” foi judicialmente investigada. Tomaram-se as maiores penas para provar a sua existência; mas toda a prova trazida foram os “Documentos” em questão. Ora, se esses “Documentos” são admissíveis como prova, a declaração do seu autor a respeito deles é igualmente admissível, e merece igual peso — e essa declaração, na sua própria linguagem, é que “a coisa toda é uma ficção, preparada e pronta para tornar-se fato quando julgássemos oportuno fazê-la tal”. Esse momento nunca chegou.

Mas diz-se que a conferência de Olean votou que existia tal sociedade. O voto, publicado nas atas, lamenta que alguns membros se tenham “associado… sob o nome de ‘Banda Nazirita’ ou apelações semelhantes, com algumas formas de segredo, e com a pretensão de ser peculiares neste respeito”, e expressa a expectativa de que tal associação seja abandonada. Confessamos a nossa incapacidade de entender essa linguagem: parece absurdo acusar os “naziritas” de “pretender ser peculiares” quanto a ter “algumas formas de segredo” — homens que por anos vinham combatendo as sociedades secretas! E não é de modo algum certo, supondo-se cópia fiel do registro, que o registro esteja correto: conhecemos casos em que secretários tão competentes quanto aquele cometeram, sem querer, ao copiar documentos no diário, erros que afetam seriamente o sentido. Mas, supondo corretos a cópia e o registro — supondo que a conferência votou como se diz —, o seu voto de que um fato existia não prova que existisse de fato. Havemos de conceder infalibilidade à Conferência de Genesee, cegada pelo furor partidário, quando a negamos ao papa e ao seu concílio geral agindo de modo desapaixonado? O voto nem sequer prova que a conferência cresse no que votou: prova apenas que tinha poder de aprovar tal voto, e o aprovou. Esta mesma Conferência de Genesee, na sessão de LeRoy, em 1857, votou como fato o que cada votante sabia não ser fato — fizeram-no no meu julgamento: com o meu artigo impresso diante deles, votaram que eu dissera naquele artigo o que sabiam que eu não dissera; chamei-lhes a atenção para isso, e o tornei tão claro que o mais obtuso não podia deixar de ver.

Que o voto de uma conferência sobre a existência de um fato não prova a sua existência, mostram-no os registros de um corpo bem mais respeitável da Igreja Metodista Episcopal do que a Conferência de Genesee. O diário da Conferência Geral reunida na Filadélfia, em maio de 1864, registra: “A longa luta sobre o assunto da escravidão parece aproximar-se do fim… Alegramo-nos de ter estado, desde o princípio, na vanguarda das igrejas americanas na luta contra a escravidão.” Os homens que votaram essa autocongratulação foram eleitos das várias conferências para representar a piedade e a sabedoria da igreja — homens acima da média dos pregadores metodistas. Esses homens tinham de saber que havia, no diário da Conferência Geral, com força de lei, resoluções aprovadas apenas vinte e oito anos antes que contradizem claramente essa pretensão. Copiamos do diário da Conferência Geral de 1836: “Resolvido pelos delegados das Conferências Anuais reunidos em Conferência Geral: 1. Que desaprovam, no sentido mais incondicional, a conduta de dois membros da Conferência Geral que, segundo se relata, deram recentemente nesta cidade preleções sobre o abolicionismo moderno e a seu favor. 2. Que se opõem decididamente ao abolicionismo moderno, e renunciam inteiramente a qualquer direito, desejo ou intenção de interferir na relação civil e política entre senhor e escravo, tal como existe nos estados escravagistas desta União. 3. Que a comissão nomeada para redigir carta pastoral aos nossos pregadores fique instruída a tomar nota do assunto do abolicionismo moderno… e faça saber aos nossos pregadores, membros e amigos que a Conferência Geral se opõe à agitação desse assunto e usará todos os meios prudentes para reprimi-lo.” Duvidamos que algum corpo respeitável tenha jamais feito maior insulto a um povo que lê. Depois de ler a ação dessas duas Conferências Gerais, pode você crer que o voto de uma conferência metodista episcopal prove algo mais do que o fato de o terem aprovado?

Não está você convencido, pois, de que a asserção do bispo Simpson — de que o movimento metodista livre “se originou numa associação de ministros que adotaram em particular uma plataforma e, nessa organização, eram conhecidos como naziritas” — é inteiramente falsa? Pode você chegar a outra conclusão? Não devia o bispo ter dado a estes fatos alguma atenção cândida, antes de admitir no seu livro afirmação tão sem fundamento e falsa? Provada falsa a sua asserção fundamental, segue-se que todas as dela dependentes são igualmente falsas: se não houve organização, ela não podia ter nome, nem plataforma, nem publicações.

Capítulo 3 — Os fatos do caso+

O metodismo neste país estava, naquele tempo, no que o dr. Stevens, então editor do Christian Advocate and Journal, chamou “o seu estado de transição”. Ainda retinha muito da religião vital, do fervor, da simplicidade e da sobriedade que, no princípio, constituíram a sua única justificativa para existir como denominação distinta. Em geral, ao entrar nas suas casas de culto em hora de serviço, percebia-se num relance que era uma congregação metodista.

Mas uma mudança já havia começado — e acelerou-se quando o censo dos Estados Unidos revelou que a Igreja Metodista Episcopal era a maior denominação protestante do país e possuía o maior patrimônio eclesiástico. Essa notícia gratificante era frequentemente celebrada nos periódicos da igreja e nos discursos das conferências. O efeito logo se fez visível. A Disciplina ainda dizia, em resposta à pergunta “Convém alguma coisa quanto à construção de templos?”: “Sejam todos os nossos templos construídos simples e decentes, e com assentos livres; e não mais dispendiosos do que for absolutamente inevitável; do contrário, a necessidade de levantar dinheiro nos tornará necessários os homens ricos. E, nesse caso, ficaremos dependentes deles, sim, e governados por eles. E então, adeus à disciplina metodista — se não também à doutrina.” As direções sobre o vestuário eram positivas: “Pergunta: Devemos insistir nas regras sobre o vestuário? Resposta: Sem falta. Não é tempo de encorajar a superfluidade no vestir. Portanto, não recebam ninguém na igreja enquanto não tiver deixado os ornamentos supérfluos.” “Ao visitar as classes, sejam muito brandos, mas muito estritos.” “Não admitam caso isento: melhor que um sofra do que muitos.” Assim dizia a Disciplina de 1846. Mas a conformidade com o mundo crescia rapidamente nesses aspectos. Ainda havia muitos, entre ministros e membros, que não se afeiçoavam à nova ordem de coisas: a Bíblia lhes barrava o caminho. Haviam aprendido que ela dizia o que queria dizer; e, se assim era, e as suas regras estavam, como criam, de acordo com ela, julgavam que as regras deviam ser aplicadas, não revogadas. Não tinham aprendido a explicar até sumir os preceitos claros da Palavra de Deus. Estes também sustentavam a doutrina da santidade tal como ensinada por Wesley — que a inteira santificação devia ser buscada pela fé, subsequentemente ao perdão. Outros se opunham a fazer da santidade questão distinta, contentando-se em pregá-la só de modo geral, e passavam a ideia de que se obtinha gradualmente. Um velho pregador disse que buscava a santidade havia vinte anos — e, interrogado de perto, admitiu que não estava, até onde podia ver, mais perto dela do que quando começou.

Nesse período, a escravidão era a questão absorvente na Igreja Metodista Episcopal, como na nação. A igreja se dividira sobre a questão da escravidão — mas fora sobre o direito de os ministros possuírem escravos; o direito dos membros era concedido. Havia então, na questão da escravidão, como há hoje nalgumas conferências na questão do fumo, um padrão de moralidade para os pregadores e outro para os leigos. Até o dia em que a escravidão foi abolida pela espada, havia milhares de senhores de escravos em boa posição na Igreja Metodista Episcopal: a Disciplina tolerou a escravidão até o fim. Mas muitos pregadores e membros do Norte empenhavam-se zelosa e honestamente em banir da igreja, por decretos próprios, toda posse de escravos. Na Conferência de Genesee, como alhures, havia duas classes: uns decidida e sempre aberta e declaradamente contrários à escravidão; outros que se diziam contrários, mas objetavam às medidas propostas para eliminá-la. Os que na Conferência de Genesee pediam “as veredas antigas” eram abolicionistas do tipo mais pronunciado.

O rev. F. G. Hibbard fora eleito, pelos homens pró-escravidão da Conferência Geral, editor do Northern Christian Advocate, sobre o velho editor, rev. William Hosmer — que era enfaticamente a escolha das conferências mantenedoras. Os antiescravagistas dessas conferências não se submeteriam mansamente a essa usurpação do poder escravagista: fundaram o Northern Independent e fizeram Hosmer editor. Esse jornal teve larga circulação e poderosa influência. Em intelecto e coragem, Hosmer foi o John Knox do seu tempo. O seu antiescravagismo não era daquele tipo sentimental que combatia a escravidão no Sul e defendia a tirania em casa: com verdadeira nobreza de alma, odiava a injustiça e a opressão em toda parte, e as condenava com igual força no Norte e no Sul, na sua própria igreja e no mundo. Não só abriu as suas colunas aos que o partido dominante da Conferência de Genesee proscrevia, como se pronunciou editorialmente em vigorosa condenação dos atos opressivos da maioria da conferência.

Por essa época começou o reavivamento da maçonaria neste país. Na agitação que se seguiu ao rapto e assassinato de Morgan, as lojas em geral se haviam dissolvido; mas o odd-fellowismo preparara o caminho para a sua reorganização. Na Conferência de Genesee, vários dos pregadores de destaque ligaram-se a uma ou a ambas dessas sociedades secretas. Haviam ocorrido colisões entre esses pregadores e alguns dos membros mais velhos e conscienciosos das igrejas que foram nomeados a servir. Homens de Deus, em cuja mente a lembrança da tragédia de Morgan estava fresca, sentiam que não podiam, em consciência, sustentar pregadores que tomavam sobre si juramentos que os obrigariam a cometer crimes semelhantes, se a ocasião o exigisse. Tais homens eram muitas vezes postos fora da igreja — e essa ação trouxe insatisfação e divisão. Nesta leitura do caso somos confirmados pelo rev. C. D. Burlingham, que, num panfleto de 1860 intitulado “Esboço histórico das dificuldades da Conferência de Genesee”, escreveu: “Há uns dezesseis ou dezoito anos, introduziu-se na Conferência de Genesee um elemento perturbador. A nossa igreja, como a comunidade em geral, fora por anos muito agitada pela questão maçônica e pela agitação antimaçônica consequente ao rapto e assassinato de William Morgan, de Batavia, em 1826. Quando as ondas tumultuosas iam serenando, esse novo elemento de discórdia começou a introduzir-se na nossa igreja, professadamente como companhia de seguro mútuo contra a necessidade temporal e como recém-descoberto e notavelmente bem-sucedido expediente evangélico para trazer o mundo, reformado e salvo, para dentro da igreja. Mas o nosso povo, muito naturalmente, olhou-o com suspeita: temendo o seu poder como agência secreta operando por sociedades afiliadas, e duvidando da sua utilidade como esquema financeiro, receou que arrastasse a igreja — aviltada e corrompida — para o mundo. Sob a influência dos seus amigos na conferência — vários jovens ativos e ambiciosos —, o odd-fellowismo tornou-se fixture na conferência; não como organização formal entre os pregadores ‘Fellows’, provavelmente não, mas virtualmente tal: sendo os ‘Fellows’ membros da ‘Ordem’, eram uma unidade na política, e prontos a agir como corpo associado na conferência e alhures.”

Os pregadores das sociedades secretas, os oportunistas e os tímidos naturalmente se juntaram. Havia muitos na conferência que resistiam fortemente às invasões que o mundo assim fazia na igreja, e procuravam conter a tendência crescente à conformidade mundana. Haviam entrado para a igreja metodista porque criam honestamente nas suas doutrinas; e, considerando os votos de ordenação obrigatórios, esforçavam-se fielmente por conformar a si mesmos e aos seus membros, na experiência e na vida, à Disciplina que haviam prometido aplicar. Esses homens — calmos, confiantes e ignorantes das táticas da loja — recebiam a sua nomeação como do Senhor, sem saber que havia um poder trabalhando, em segredo, para encher os principais postos da conferência com os que, ao menos, não se opunham às operações da loja. Nada une coração a coração como a semelhança de experiências religiosas, especialmente sob perseguição por amor de Cristo. Assim se formou na conferência uma divergência, cada vez mais claramente definida, sobre a santidade bíblica, a escravidão e as sociedades secretas.

As coisas chegaram a uma crise, e os dois partidos tomaram forma na conferência de Buffalo, em 1848 — a sessão em que entrei para a conferência em probação. Numa das sessões, o rev. Eleazer Thomas entregou a cada pregador, no seu assento, um exemplar de um panfleto do rev. C. D. Burlingham mostrando o caráter infiel da maçonaria e do odd-fellowismo. Com presciência profética, o autor apontava os males que resultariam da união de pregadores a essas sociedades: “Crê-se que a tendência direta do odd-fellowismo é a formação de partidos na conferência, na igreja e na sociedade civil — partidos danosos à causa de Deus e perigosos ao Estado… É bem sabido que um pequeno partido, agindo em perfeito concerto e em segredo, unido por forte sentimento partidário e sob a influência de uma obrigação imposta aos seus membros, tida por eles como sagrada, talvez como juramento, é capaz de controlar, em quase qualquer caso, uma multidão de homens desprevenidos que não estão sob tais afinidades. E não podemos justamente temer que, quando uma ou duas dúzias dos membros da nossa conferência, abrangendo os vários graus intelectuais do ministério, se combinarem sob tais influências, se pratique um favoritismo (quando não mais) por apego à Ordem, que criará invejas e ciúmes no ministério e prejudicará muito todos os interesses da igreja?” Seguiu-se à distribuição do panfleto a agitação mais desenfreada. Os adeptos da loja insistiam em que os srs. Burlingham e Thomas os haviam acusado de infiéis. Thomas Carlton disse, com grande ênfase, que, se fosse “obrigado a deixar uma das duas, deixaria a Igreja antes que a loja”. Depois de algum tempo as coisas serenaram e adotaram-se medidas de compromisso: nenhum dos partidos faria coisa alguma calculada a manter a agitação. Os homens das sociedades secretas entenderam que podiam continuar na loja e recrutar quantos pudessem, e que os outros nada deviam dizer contra, pois isso manteria a agitação; os seus opositores entenderam que os que estavam na loja deviam sair o quanto antes, e que ninguém mais devia entrar. A brecha assim aberta nunca se fechou. Os homens das sociedades secretas recrutavam ativamente, no ministério e no rol de membros; usavam todo induzimento para persuadir os pregadores jovens a entrar, dando-lhes a entender que a sua posição na conferência dependeria do partido a que se filiassem. Tão depressa quanto podiam, levavam a igreja para a loja, e a loja para a igreja. Em poucos anos, o poder da loja era exercido para controlar os negócios da igreja. O rev. J. B. Alverson, um dos pregadores velhos e influentes, procurou dissuadir Thomas Carlton de candidatar-se a Agente da Casa Publicadora, alegando que não poderia ser eleito. Carlton respondeu: “Posso comandar influência de sociedade secreta suficiente na Conferência Geral para garantir a minha eleição.” O evento mostrou que não errara o cálculo: foi eleito, reeleito — e tornou-se homem rico.

Os contrários a essa união da igreja com o mundo saíram a promover, como podiam, a vida e o poder da religião: esforçavam-se por aplicar a Disciplina e pregavam clara e abertamente a doutrina da santidade. Proeminentes entre eles eram Asa Abell, Eleazer Thomas e William C. Kendall. Asa Abell fez profissão distinta da bênção da inteira santificação no acampamento de Byron, em 1851; pregou-a no seu distrito e obteve, em diferentes ocasiões, os serviços de Fay H. Purdy — então no seu primeiro vigor, advogado que recebera poderoso batismo do Espírito, e cujos esforços pelo despertamento das igrejas formais alcançavam êxito notável. Avivamentos profundos e poderosos irromperam em Parma, Kendall e outros lugares, e o distrito em geral estava em condição próspera e espiritual. O rev. Eleazer Thomas mantinha o distrito de Cattaraugus, para o qual fora nomeado, em chama de avivamento: dizia que, como Asbury, se sentia divinamente comissionado a pregar a santidade em cada sermão. Num acampamento que realizou em Collins, condado de Erie, N.Y., no qual estavam presentes o dr. e a sra. Palmer, recebemos a bênção da santidade — e daquele momento começaram as nossas tribulações na conferência.

O irmão Thomas introduziu em cada uma das suas Conferências Trimestrais, e obteve a aprovação de, resoluções contra o canto de coro e a música instrumental no culto. Os seus acampamentos eram estações de grande poder: as linhas eram traçadas com tanta nitidez, e a verdade pregada com tanta clareza, quanto hoje entre os metodistas livres. O rev. William C. Kendall teve avivamentos extensos e poderosos nos seus pastorados; e, sob os seus trabalhos, muitos chegaram ao gozo e à profissão da bênção da santidade. Outros pregadores — especialmente nos distritos citados — entraram de coração na obra de salvar almas, e houve aumento constante, em número de membros e em espiritualidade, em muitos dos pastorados.

Entrementes, os homens das sociedades secretas e os seus aderentes trabalhavam por edificar a igreja em esplendor exterior. Liam belos sermões — às vezes sem muito cuidado quanto à fonte de onde os obtinham. “Não foi eloquente o sermão que o nosso pregador proferiu ontem?”, disse um dos mordomos a John A. Latta, numa segunda-feira de manhã. “Talvez o senhor tenha gostado tanto que queira ouvi-lo de novo”, respondeu Latta — e, tirando um livro da estante, leu-lhe o sermão idêntico, palavra por palavra.

Assim as coisas seguiram, sem colisão aberta, por vários anos. Mas era claramente visível que o partido da salvação avançava mais depressa. Tinham também esta vantagem: enquanto, em geral, as nomeações que os homens do partido das sociedades secretas haviam ocupado por alguns anos acolhiam bem uma mudança, as que os pregadores da salvação haviam ocupado só com a maior relutância recebiam alguém do outro partido. Os homens das sociedades secretas sentiam, assim, que as nomeações importantes da conferência se iam fechando gradualmente contra eles. Algo precisava ser feito, ou ficariam em minoria desesperada e impotente.

Sob pretexto especioso, o rev. Eleazer Thomas, líder reconhecido do partido da salvação, foi enviado à Califórnia — e, como é sabido, foi depois morto pelos modocs. O venerável dr. Samuel Luckey foi nomeado para o distrito de Genesee. Embora se houvessem feito grandes esforços para estigmatizar a obra como fanática, esse pregador veterano a reconheceu de imediato como obra de Deus, e com toda a sua grande capacidade a ajudou. Os acampamentos de Bergen haviam-se tornado famosos pelas notáveis manifestações de poder salvador. O interesse religioso não declinou sob a sua administração; ele encorajou o que se chamava o fanatismo do distrito — e não foi renomeado presbítero presidente. Sucedeu-lhe o rev. Loren Stiles: jovem, formado pelo seminário teológico metodista de Concord, N.H., já célebre no oeste de Nova York como orador de púlpito. Amável na índole, agradável nas maneiras e cavalheiro completo em todo o porte, dava-se por certo que recuaria instintivamente diante do que se tachava de “fanatismo grosseiro” prevalecente no distrito; supunha-se que ganharia o coração do povo e o reconduziria gradualmente, sem atrito, à quietude respeitável da morte espiritual. Nunca homens se decepcionaram tão amargamente. Os seus preconceitos baseavam-se só nos relatos que ouvira e lera. Inteiramente sincero, reconheceu, mal chegou ao distrito, as marcas da obra de Deus; viu que muitos tinham um poder espiritual que ele mesmo ainda não recebera; buscou-o de imediato — e aquele que fora enviado para reprimir a obra da santidade a promoveu com toda a influência que possuía. As suas reuniões trimestrais enchiam-se, e muitos do povo se consagraram inteiramente a Deus. No distrito de Niágara houve decepção semelhante: o rev. Isaac C. Kingsley, presbítero presidente, formado por um colégio de Ohio, criado presbiteriano e ainda com muitos modos presbiterianos — às vezes lia os sermões, era um tanto rígido nas maneiras e preciso no seu modo de fazer as coisas —, era intelectualmente homem forte, examinava as coisas por si mesmo e, chegando a uma conclusão, tinha a honestidade e a coragem de declará-la, ainda que divergisse dos outros. Após cuidadoso exame da obra, decidiu que o que se tachava de “fanatismo” era apenas a piedade vital que ele esperara achar quando entrou para a igreja metodista; e, em vez de opor-se, deu-lhe o seu apoio cordial. O rev. Charles D. Burlingham impulsionava a obra de Deus no distrito de Olean com zelo caloroso e êxito abundante: o interesse pela santidade mantinha-se, e as reuniões trimestrais eram vivas e interessantes.

Os homens das sociedades secretas, agitados por esse estado de coisas, começaram a publicar críticas desfavoráveis aos proeminentes no movimento de santidade e a lançar insinuações contra eles. O seu órgão acreditado era o Buffalo Advocate. Um dos primeiros ataques diretos foi um editorial contra o ex-bispo Hamline: “Corre pelos jornais um artigo que afirma que o bispo Hamline doou 25 mil dólares a um colégio do Oeste. Não cremos numa só palavra. Aquele que um dia foi bispo é, se estamos bem informados, tão apertado e arguto na administração das suas finanças quanto qualquer outro homem famoso por propriedades. Pode, contudo, ter dado alguma coisa” (12 de abril de 1855). Depois de vários esforços dos amigos do bispo, o editor por fim admitiu a correção — o bispo dera a soma referida — e acrescentou o escárnio: “Homem nobre! Terá todo o nosso louvor, se isso lhe servir de algo.” Outros artigos ainda mais severos contra o bispo saíram de tempos em tempos. Por que tudo isso? O bispo Hamline era eminente na advocacia da doutrina da santidade.

A primeira declaração pública de que existia uma “associação nazirita” foi feita em editorial do Buffalo Advocate de 19 de julho de 1855: “Soubemos de fonte fidedigna, e temos em mãos evidência suficiente para provar, que existe, entre os ministros de certa seita protestante do oeste de Nova York, uma organização religiosa secreta, onde menos se suspeitaria. O propósito dessa ordem jesuítica não tentaremos explicar agora; mas as suas consequências, se o seu progresso não for detido e a sua existência apagada, não é preciso olho de profeta para prever: facções ministeriais incuráveis e igrejas arruinadas serão o resultado inevitável. Essa ordem tem sido designada por várias apelações, mas o cognome autorizado é ‘A Banda Nazirita’… Conhecemos bem os homens que originaram esse movimento singular, e há muito vigiamos o seu sentar e o seu levantar. A nossa gaveta editorial secreta contém o segredo de muitos fatos curiosos relativos à carreira ministerial de alguns desses eminentes e notabilíssimos personagens… Outra bela característica dessa nova ordem são as características pessoais e religiosas peculiarmente amáveis daqueles por quem foi concebida e dada à luz. O seu caráter é estranho composto de santidade e calúnia, de humildade pomposa e orgulho humilde, de pecabilidade e perfeição. A sua pregação do evangelho da paz é sempre acompanhada ou seguida de ciúmes, ressentimentos e dissensões fanáticas. Tiranos rabugentos e irritadiços em casa, têm ardentíssima caridade pelas ‘queridas irmãs’ fora… Como espécime dessa classe, remetemos o leitor a certo indivíduo residente no condado de Orleans, chamado, segundo a nomenclatura nazirita, Bani, que é, segundo nos informam, o sumo sacerdote desta nova profissão.”

Tal foi a acusação. Mas a “evidência suficiente” nunca foi apresentada. Vê-se, pelo número da semana seguinte do Advocate, que houve pronta negativa — feita pela única pessoa competente para negar ou confirmar a acusação: aquele que, por conta própria, escrevera as cartas a que nos referimos, e que se apresentou virilmente para assumir a responsabilidade pelo que só ele escrevera. Como foi tratada a sua negativa? Outro extrato do mesmo jornal o mostrará: “Soubemos que ‘Bani’ nega que os naziritas sejam uma banda organizada, como afirmamos no nosso número da semana passada. Lembraríamos a esse indivíduo tão consciencioso e notável a importância de manter a verdade do seu lado, tanto quanto as circunstâncias permitirem; e de não se colocar, por negativas gratuitas e voluntárias de fatos, numa posição muito embaraçosa, e na qual homens honestos raramente se acham. Bani, não é direito, é decididamente errado, fazer declarações que você sabe serem falsas — e você não deve mais fazê-lo.” Esses extratos são espécimes favoráveis dos artigos que apareciam naquele jornal. Compare-os, no tom e no espírito, com o artigo que escrevemos intitulado “O metodismo da nova escola” — e lembre-se então de que o editor que escreveu os extratos acima foi depois admitido à conferência e feito presbítero presidente, enquanto nós fomos visitados, por escrever aquele artigo, com os mais pesados anátemas da igreja!

Isto, pois, é tudo o que jamais houve quanto à “União Nazirita”. O rev. Joseph McCreery escreveu algumas cartas a diferentes pregadores, propondo que trabalhassem em harmonia nos seus esforços por persuadir o povo a voltar às veredas antigas do metodismo. Ali, com toda probabilidade, o assunto teria ficado; mas algumas dessas cartas foram mostradas ao editor do Buffalo Advocate, que tirou delas o máximo proveito e levantou certa agitação. Prevendo que o assunto seria trazido à conferência, o rev. McCreery preparou uma exposição de todo o caso, incluindo cópias das cartas que escrevera, e leu-a à conferência em Olean, em 1855. Esse “Documento”, ou “Rolo”, como foi chamado, foi grandemente deturpado; para corrigir as deturpações, foi publicado pelo rev. Wm. C. Kendall. Isto é tudo o que houve neste caso, no que toca aos pregadores pertencentes à conferência. Depois de organizada a IGREJA METODISTA LIVRE, alguns que se opuseram à sua organização realizaram reuniões por conta própria e se chamaram “naziritas” — alguns conservando a filiação à Igreja Metodista Episcopal, outros não; mas todos se arregimentaram contra a Igreja Metodista Livre, da qual sempre foram opositores implacáveis. Insistem em que foi grande erro deixar a Igreja Metodista Episcopal — ou, uma vez expulsos, não se reunir de novo a ela para manter a agitação dentro do seu recinto.

Capítulo 4 — As reuniões secretas+

Em qualquer assembleia deliberativa, uma minoria composta de homens de inteligência mediana, unidos por juramentos secretos desconhecidos dos demais, geralmente consegue aprovar as suas medidas. Espalhados pelo recinto, a sua ação combinada parece espontânea; e assim, muitas vezes, garantem decisão favorável antes que os adversários tenham tempo de reagir. Foi assim que o Clube Jacobino ganhou o controle da Assembleia Nacional da França. Foi assim que os homens das sociedades secretas da Conferência de Genesee obtiveram a influência dominante.

Em várias sessões da conferência, realizaram reuniões tão secretas que a sua existência nem sequer foi suspeitada por alguns anos. Fizeram, de fato, o que falsamente acusavam os outros de fazer. Provamos que a “União Nazirita” era uma ficção; mostraremos agora que os que afirmavam a sua existência realizavam reuniões secretas e adotavam medidas para esmagar os que não podiam, em consciência, acompanhar a sua política mundana. Consumado o feito, alegaram como desculpa que as suas vítimas haviam formado “a União Nazirita, com algumas marcas de segredo”. Houve jamais incoerência mais gritante?

O conhecimento de que realizavam reuniões secretas chegou-nos providencialmente às mãos: um amigo nos deu as atas originais de uma delas. Dizem assim: “Le Roy, 3 de setembro de 1857. Reunião convocada conforme adiamento; o irmão Parsons na presidência. Oração pelo irmão Fuller. Os irmãos presentes comprometeram-se, pondo-se de pé, a guardar consigo os procedimentos desta reunião. Resolvido: que não deixaremos passar o caráter do rev. B. T. Roberts enquanto ele não tiver julgamento regular. Aprovado. Proposto: que não deixaremos passar o caráter do rev. W. C. Kendall enquanto ele não tiver julgamento regular. Aprovado. Proposto: que o irmão Carlton seja acrescentado à comissão do caso do irmão Kendall. Aprovado.” Voltaremos a este documento notável; por ora, diremos apenas: 1) que foi lido à conferência e repetidamente publicado, e a sua autenticidade nunca foi questionada; 2) que prova que eles não só realizavam reuniões secretas, mas tinham organização com os oficiais usuais — presidente, secretário e comissões; 3) que não só se reunia em segredo, mas se comprometia a manter secretos os seus procedimentos; 4) que se ocupava do negócio infame de conspirar contra a reputação e a posição ministerial de alguns dos seus irmãos.

A pista assim obtida foi seguida. Vários dos homens que assistiram a essas reuniões secretas foram chamados a testemunhar sobre elas no meu julgamento. Alguns, com relutância, deram testemunho importante; outros responderam com evasivas. Dessas testemunhas relutantes apurou-se que tinham organização secreta desde pelo menos a conferência de Medina, em 1856 — e desde quanto antes, não se apurou. O rev. Sanford Hunt testemunhou: “Estive presente a reuniões na casa de John Ryan. Creio que havia presidente e secretário naquela reunião; tivemos umas três reuniões; havia geralmente vinte ou trinta presentes.” Na conferência de LeRoy, o número dos que entraram na conspiração aumentou. O rev. Thomas Carlton testemunhou: “Assisti a três das reuniões na casa de John Ryan durante a sessão da conferência de Medina. Assisti a algumas das reuniões seletas em Le Roy; não a todas. Calculo que houvesse talvez sessenta numa das reuniões; noutra, cerca de quarenta; variavam de trinta a sessenta.” O rev. D. F. Parsons testemunhou: “Fui presidente dessas reuniões realizadas em Le Roy. Havia uma pessoa que lavrava atas breves das reuniões.”

Se o bispo Simpson não crê nos dezessete homens que testemunharam nunca ter havido na Conferência de Genesee uma “organização nazirita”, crerá nestes três, que testemunharam ter assistido, de tempos em tempos, a reuniões secretas e organizadas? São homens a quem ele deu ouvido benévolo. Se a Igreja Metodista Livre se originou “numa associação de ministros”, então esta deve ter sido a associação — pois nela se originaram as proscrições e perseguições que tornaram necessária a sua formação. Que essa associação era notavelmente secreta, evidencia-o o fato de vir realizando reuniões havia pelo menos dois anos antes de a sua existência ser suspeitada. Notava-se que cerca de trinta homens votavam em bloco em todas as questões que tocassem o metodismo à moda antiga ou à moda nova; mas atribuía-se isso às afinidades naturais e à influência da loja. Os alvos da conspiração não careciam de sagacidade comum; estavam alertas; e, contudo, as reuniões realizadas em duas conferências sucessivas foram tão cuidadosamente ocultadas, que não se ouviu delas um sussurro.

A primeira ação dessa associação de que temos conhecimento foi um esforço bem-sucedido para obter a remoção dos revs. L. Stiles e I. C. Kingsley do ofício de presbíteros presidentes. Ambos eram populares nos seus distritos, e a obra de Deus prosperava sob os seus cuidados; mas não simpatizavam com os homens das sociedades secretas, que agora visavam ao controle total da conferência. Decidiu-se, pois, em segredo, que deviam ser removidos. Cerca de trinta pregadores assinaram petição ao bispo pedindo a remoção; disse-se ao bispo que, se não fossem removidos, esses trinta homens não aceitariam nomeação. Isso ficou provado pelo testemunho de alguns deles. Na conferência de LeRoy deu-se o seguinte testemunho sobre este ponto. O rev. Wm. Barrett: “Vi na conferência de Medina uma petição pedindo a remoção dos irmãos Stiles e Kingsley do ofício de presbíteros presidentes. Não posso declarar o texto da petição, mas entendi que era este: que recusaríamos aceitar nomeação se os irmãos Stiles e Kingsley continuassem no ofício.” O rev. J. M. Fuller: “Pergunta: O senhor declarou na conferência de Medina que não aceitaria nomeação sob Stiles ou Kingsley? Resposta: Declarei. Pergunta: Ouviu alguém mais dizer o mesmo? Resposta: Ouvi outros dizerem o que daria mais ou menos no mesmo.”

Houvesse tal soma de testemunho de que uma “organização nazirita” jamais existiu e procurou controlar as nomeações, isso seria considerado vindicação completa das medidas extremas da conferência. Mas há alguma justiça — algo da equidade comum que temos o direito de esperar entre homem e homem, deixando o cristianismo inteiramente de fora — em que uma classe de homens expulse outros da igreja sob o falso pretexto de terem feito o que eles próprios habitualmente faziam? Se sim, então seria justo que falsários de moeda mandassem homens honestos à prisão sob a falsa acusação de passar moeda falsa.

O passo seguinte foi barrar da conferência jovens piedosos que se ofereciam para entrar e que não se poriam, segundo supunham, sob a sua direção e controle. Vários jovens de boa capacidade, instrução e profunda piedade, que professavam e pregavam a santidade, foram obrigados a ir para outras conferências. Sobre essa ação, disse o Buffalo Advocate: “Cabeças-quentes e fanáticos, de qualquer quadrante, acharão daqui em diante solo difícil para produzir as suas maldades ou escândalos. Alguns tentaram ganhar admissão à conferência na última sessão, mas foram repelidos no limiar e se foram, desgostosos com os presságios de ordem e virilidade que uma Providência bondosa permite que governem daqui em diante. Estes, com os seus simpatizantes dentro e fora do corpo, são os agentes empregados em escrever escândalos daqueles que agora seguram as rédeas, e que pretendem viver e governar para Deus e a santidade — e para uma posição respeitável.”

Mas o pior uso dessa organização foi proteger os culpados e punir os inocentes. Acusações, apoiadas pelas partes mais responsáveis, feitas contra alguns dos seus membros por transações desonestas que beiravam crimes de prisão estadual, foram sumariamente arquivadas; enquanto homens de vida imaculada, acusados de serem “naziritas”, eram expulsos da igreja sob pretextos tão frágeis que não admitiam defesa.

Uma das primeiras vítimas escolhidas foi William C. Kendall — um dos ministros mais piedosos, laboriosos e bem-sucedidos do oeste de Nova York, e o mais perseguido. Prepararam-se acusações contra ele na última sessão da conferência a que compareceu; disseram-lhe que não foram processadas por falta de tempo, mas que o seriam no ano seguinte. Ele, porém, morreu cedo demais para isso: foi removido do mal iminente. O seu caso nos lembra o devoto Rutherford, a quem tanto se assemelhava no espírito. Rutherford foi intimado a responder no parlamento seguinte por acusação de alta traição; a intimação o encontrou no leito de morte. Ao ouvi-la, observou calmamente que recebera outra intimação, perante Juiz e tribunal superiores, e mandou o recado: “Cumpre-me atender à minha primeira intimação; e, antes que chegue o vosso dia, estarei onde poucos reis e grandes chegam.”

William C. Kendall era de antiga e respeitabilíssima família metodista do condado de Wyoming, N.Y. Foi nosso colega de classe na academia, no colégio e na conferência, e irmão amado. Ainda no colégio, experimentou a bênção da santidade, e manteve viva a chama do amor perfeito trabalhando por levar outros ao mesmo estado bendito. Formou-se no verão de 1848 e logo entrou para a Conferência de Genesee em probação. Deus lhe dera todas as qualificações para trabalhar com êxito na sua vinha: porte belo e viril, de nobre presença; semblante franco e aberto em que pousava um doce sorriso celestial; voz agradável, de alcance e força incomuns, perfeitamente sob o seu comando; mente cuidadosamente provida da verdade divina e das letras clássicas — e, acima de tudo, um coração plenamente santificado a Deus. Uma observação do bispo Hamline deixou-lhe impressão duradoura: ouvindo que alguns pregadores eram acusados de fazer da santidade a sua mania, disse o bispo: “Ai do pregador metodista, filho da perdição, que não fizer da santidade a sua mania.” O irmão Kendall foi para o seu primeiro circuito — Cambria, condado de Niágara — resolvido a fazer da santidade a sua mania. Nos seus dois anos ali, muitos se converteram e muitos foram santificados a Deus. Em Royalton, em 1850, teve boa obra; e em Pike, no ano seguinte, cem pessoas se converteram e se uniram à igreja sob os seus trabalhos. Ali, como alhures, insistia fortemente na santidade interior e exterior — a inteira santificação —, esforçando-se por manter o padrão da justificação onde a Palavra de Deus o colocou. Os resultados eram conversões claras e fortes, e convertidos avançando para o gozo da santidade inteira. Estes eram fortes para o trabalho e, naturalmente, ativos nas reuniões — o que despertou o ciúme de alguns que estavam havia mais tempo na igreja, mas haviam deixado de avançar na experiência. Nomeou-se uma comissão para pedir ao pregador que não pregasse tanto sobre a santidade, “para não afugentar homens de influência necessários à igreja”. À frente dos que temiam a santidade, receosos de que dividisse a igreja, estava um membro de destaque, havia muito proeminente na comunidade. Provou-se depois que, por dez anos — incluindo esse período —, esse homem vinha falsificando endossos em notas bancárias! Pagava-as no vencimento; mas, adoecendo por fim quando uma nota venceu, o seu crime foi descoberto, e ele, punido. Principalmente pela influência desse homem, o irmão Kendall foi removido no fim do ano. No circuito de Covington, para onde foi enviado, multidões foram salvas. Em setembro de 1854 foi enviado a Albion.

O seu antecessor o advertira contra pregar ali, como fizera alhures, sobre o assunto do vestuário. Mas ele foi muito bondoso e, contudo, muito firme, e não se esquivou de “declarar todo o conselho de Deus”. Apesar da oposição violentíssima de vários da sua junta oficial, teve um dos avivamentos mais poderosos e extensos que o lugar já conheceu: centenas se converteram e foram santificados, e mais de cem se uniram à igreja. No ano seguinte foi enviado a Brockport, onde a oposição se tornou ainda mais intensa e assumiu forma mais organizada. Muitos foram salvos — mas tachados de fanáticos, e um antigo pregador itinerante escreveu contra a obra um panfleto que circulou extensamente. Numa carta desse tempo, escreve o irmão Kendall: “À tarde tivemos a reunião oficial, ao fim da qual duas horas foram dedicadas ao meu caso. O conselho, é claro, estava dividido — temos alguns irmãos firmes do lado da religião. Eu mesmo pouco fiz além de negar afirmações inverídicas. Encerramos sem ação final sobre o meu caso. Segunda-feira à noite é de novo a nossa reunião regular. O que me acontecerá então, não sei.” Costumava dizer na pregação: “Estou de pé sobre a Bíblia e a Disciplina Metodista; quando eu sair delas, então ponham as mãos sobre mim.”

Quando as nomeações foram lidas na conferência de Medina, ao fim desse ano, e se viu que os irmãos Stiles e Kingsley haviam sido removidos do presbiterato presidente e transferidos para outra conferência — e ficou evidente que o partido conhecido como “a Regência de Buffalo” fazia tudo à sua vontade —, o coração da maioria dos que eram a favor do metodismo à moda antiga afundou em desânimo. Não assim William C. Kendall. Ele via as coisas como os demais; e, além do mau estado geral, fora de novo removido ao fim do primeiro ano e mandado para nomeação bem menos importante. Mas, quando, ao encerrar a conferência, o bispo pediu que alguém cantasse, o irmão Kendall levantou-se e, em notas claras e triunfantes, entoou: “Vinde, meus companheiros na aflição!” Ao fim da primeira estrofe, alguns fizeram menção de ajoelhar-se para encerrar o canto; mas ele prosseguiu, jubiloso: “Nós, que sofremos com o nosso Mestre aqui, compareceremos diante da sua face e ao seu lado nos assentaremos.” Quem olhasse teria suposto, pela aparência, que os vencidos eram os vencedores. Quando o canto terminou, estávamos todos prontos a ir aos confins da terra, se preciso, para proclamar uma salvação livre e plena.

Em Chili, para onde foi enviado, a oposição foi ainda mais determinada; contudo, muitos se converteram, foram restaurados e santificados. Falando de um ponto do seu campo onde alguns buscavam a religião, diz: “Ontem à noite pedi que não viesse ao altar quem não estivesse disposto a orar por si mesmo. Alguns que se apresentavam como buscadores ficaram longe. Muito melhor do que serem escorados em falsas esperanças. Senhor, dá-nos um cristianismo completo! Livra-nos dos avivamentos espúrios.” Na sessão seguinte da conferência, apresentaram-lhe duas peças de acusação — adiadas, como se alegou, para o ano seguinte, por falta de tempo.

Da conferência de LeRoy foi enviado ao circuito de West Falls, considerado um dos mais pobres da conferência. O presbítero presidente lhe disse que, “se agradasse bem ao povo, talvez o hospedassem, a ele e à esposa, de casa em casa; mas não poderiam sustentá-lo se montasse casa”. E ao povo o presbítero dissera, antes da conferência, que “duvidava que houvesse na conferência homem pequeno o bastante para eles”. Para esse circuito foi enviado Wm. C. Kendall — homem capaz de ocupar com crédito qualquer púlpito cristão. Enxugando a última lágrima na conferência, sorriu e disse com triunfo: “Confiarei em Deus para fazê-los arrepender-se de me terem mandado a West Falls para me curar ou punir.” Achou as coisas piores do que se dizia: havia pouco até da forma de piedade. Mas pôs-se ao trabalho, com coragem resoluta e fé forte, por promover um avivamento — e os seus labores foram ajudados além de toda expectativa. Um dos primeiros a contribuir para o seu sustento foi um velho amigo quacre que, ao fim de um dos seus sermões penetrantes, aproximou-se e pôs-lhe na mão uma cédula, dizendo: “William, percebo que Deus está contigo.” Irrompeu um avivamento que varreu com poder quase irresistível toda aquela região. Com zelo incansável, ia de casa em casa orar com o povo; famílias inteiras se converteram; incrédulos de coração duro caíam prostrados sob o poder de Deus, e ficavam gratos de que orassem por eles aqueles a quem antes odiavam. Dizia-se que, por oito milhas ao longo da estrada principal, não havia casa em que alguém não se tivesse convertido nesse avivamento. Na vila, quando ele chegou, só três casas tinham culto doméstico; quando partiu, só três não o tinham.

Mas, por fim, os labores incessantes e a perseguição sem trégua a que estava sujeito — e que se originava dos seus irmãos no ministério — cobraram o preço do seu sistema nervoso, e a sua constituição forte cedeu. No sábado, 16 de janeiro de 1858, apresentou sintomas de febre tifoide. Ainda assim, no dia seguinte, como não havia quem o substituísse, cavalgou oito milhas até o compromisso e pregou duas vezes com grande poder; voltou para casa e deitou-se — para morrer. Foi piorando gradualmente, mas consciente e feliz. Cantava muitas vezes os seus hinos favoritos: “Quão feliz todo filho da graça, que sabe perdoados os seus pecados”; e “Minha alma está cheia de glória, inspirando a minha língua”. Certa manhã, ao acordar, disse: “Vi o Rei da Glória, e dormi no seu palácio. Estive tão íntimo dos anjos!” Nem um murmúrio lhe escapou dos lábios nos paroxismos mais severos de dor. No domingo de manhã, 31 de janeiro, julgaram-no à morte, e o quarto se encheu de uma multidão em pranto. A voz lhe faltou, e ele ficou com o olhar fito no céu, arrebatado pelas glórias que desciam sobre ele, agitando as mãos em triunfo. A esposa inclinou o ouvido aos seus lábios e ouviu-o sussurrar: “Salve! Salve! Toda a glória!” Após breve silêncio, despertou de súbito e cantou: “Nós o louvaremos de novo, quando passarmos o Jordão.” O pai perguntou: “William, está tudo bem?” Com um olhar de alegria indizível, respondeu três vezes: “Tudo está bem.” Aos poucos a corda de prata se soltou; e na segunda-feira de manhã, 1º de fevereiro de 1858, às dez e meia, esse guerreiro cristão, sempre valente pela verdade, depôs a armadura para vestir a coroa. Foi vitorioso na morte, como na vida.

Depois da sua morte, os que haviam sido os seus perseguidores violentos pareciam rivalizar em honrar-lhe a memória. Sempre foi assim com as igrejas formais e perseguidoras; foi assim nos dias do nosso Salvador: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Porque vocês edificam os sepulcros dos profetas, enfeitam os túmulos dos justos e dizem: Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não teríamos sido cúmplices deles no sangue dos profetas” (Mt 23.29-30). A Conferência de Genesee, na sessão seguinte, em vez de julgá-lo e expulsá-lo, adotou um tributo à sua memória: “Caiu no seu posto, no meio de um dos avivamentos mais promissores que jamais acompanharam os seus trabalhos… Pode-se dizer do irmão Kendall que caiu mártir da sua obra… O seu fim foi tal como uma vida como a sua não podia deixar de assegurar: não só pacífico, mas triunfante… Assim viveu e morreu o nosso amado irmão William C. Kendall, homem honrado por Deus e grandemente amado por todos os que o conheciam.” Bem pode a conferência registrar nas suas atas que ele “CAIU MÁRTIR DA SUA OBRA”. Não seria bom que os sobreviventes participantes da proscrição que o mandou a um circuito grande e duro — e que o seguiram com as suas calúnias até a sua natureza sensível não suportar mais — perguntassem quem é responsável pelo seu martírio? Ele pertencia a família longeva, tinha constituição vigorosa e era capaz de uma soma de trabalho que poucos homens realizariam: segundo toda aparência humana, devia ter vivido e trabalhado por anos.

Encerramos o capítulo com o seguinte extrato de carta que nos escreveu o rev. Seymour Coleman — hoje na glória —, então venerável pregador da Conferência de Troy: “Fort Edward, 8 de março de 1858. Querido irmão Roberts: Recebi esta manhã a sua carta com a notícia da morte do nosso querido irmão Kendall. Você diz que ele morreu em triunfo. Levantemos por ele aqui o brado de vitória, enquanto ele canta louvor lá em cima. Ele não terá mais nomeações duras; graças a Deus! As horas que passei com ele são muito agradáveis na lembrança. Penso que a igreja e o mundo poderiam tê-lo tido por mais tempo, se o tivessem tratado melhor. Procurarei edificar sobre a Rocha contra a qual as portas do inferno não podem prevalecer… Fique com Deus. Seymour Coleman.”

Capítulo 5 — A religião da maioria (o “metodismo da nova escola”)+

Diz o bispo Simpson, falando daqueles com quem a Igreja Metodista Livre se originou: “Nos seus escritos e discursos queixavam-se do declínio da espiritualidade na igreja, acusando a igreja de tolerar, por amor do lucro, as práticas mundanas dos seus membros, e do seu afastamento, em doutrina e disciplina, dos ensinos dos pais.”

Para mostrar o estado de religião promovido pelo partido dominante na Conferência de Genesee, poremos primeiro diante dos leitores os relatos que a respeito publicamos na época; depois mostraremos, pelas suas próprias confissões, que a nossa representação foi mais favorável que a realidade. Nos julgamentos eclesiásticos de então, o partido dominante fez todo esforço para montar o caso mais forte possível contra os que pretendia expulsar: é justo concluir que trouxeram as piores acusações que julgavam poder provar. Fui julgado por escrever um artigo publicado no Northern Independent, intitulado “O metodismo da nova escola”. É justo concluir que este é o pior espécime da classe de escritos a que o bispo alude que se poderia achar.

Já antes nos haviam apelidado “metodistas da nova escola”, num artigo do Buffalo Advocate, órgão do partido dominante. Mostramos que a apelação pertencia propriamente aos nossos opositores. Embora divergindo deles, queríamos tratá-los com justiça; por isso, com medo de deturpar as suas opiniões, nós as expusemos tal como as achamos expressas por um dos seus pregadores de destaque, num editorial do Buffalo Advocate copiado no Christian Advocate and Journal de Nova York. O artigo, de que citamos com fidelidade, foi endossado pelos homens de destaque do partido dominante; nunca soubemos que algum daquele partido o desaprovasse. A existência de grande divisão na conferência tornara-se notória; os nossos opositores haviam, de tempos em tempos, exposto a sua versão em linguagem nem verídica nem respeitosa. Julgamos chegado o tempo de nos pormos certos diante do público — o que procuramos fazer no artigo seguinte, publicado sob a nossa assinatura conhecida no Northern Independent, do qual eu era então editor correspondente. Chamamos especial atenção para ele: é a seleção, feita por eles mesmos, das piores coisas que dissemos contra eles.

“O metodismo da nova escola” — o artigo

A melhor semente, semeada ano após ano em solo pobre, degenera gradualmente. A bolota do carvalho majestoso, plantada na planície árida, torna-se arbusto raquítico. Desde a queda, o coração humano tem-se mostrado solo desfavorável ao crescimento da verdade. As ervas nocivas florescem por toda parte espontaneamente, enquanto os grãos úteis requerem cultivo diligente. Os princípios corretos implantados na mente precisam de atenção constante, ou erros monstruosos os sufocarão e desarraigarão. Toda nação antiga conta a história da própria degenerescência e aponta para a idade de ouro em que a verdade e a justiça reinavam entre os homens. A verdade religiosa não está isenta dessa sujeição à corrupção. “Deus cuidará da sua própria causa” é máxima muitas vezes citada pelos covardes e contemporizadores como desculpa da sua vil defecção. Quando os seus servos são fiéis aos encargos que lhes foram confiados, ela é gloriosamente verdadeira; quando vacilam, a sua causa sofre. As igrejas plantadas pelos apóstolos e regadas com o sangue dos mártires excedem hoje o próprio paganismo nas suas corrupções: nenhuma parte do mundo é tão inacessível à verdade do evangelho quanto os países onde as igrejas romana e grega dominam.

Como denominação, estamos tão sujeitos a cair por influências corruptoras quanto quaisquer que floresceram antes de nós; não gozamos de imunidade alguma. Já está brotando entre nós uma classe de pregadores cujo ensino é muito diferente do dos pais do metodismo. Acham-se aqui e ali por toda a nossa Sião; mas na Conferência de Genesee agem como corpo associado. São cerca de trinta. Durante a última sessão desta conferência, realizaram várias reuniões secretas, nas quais combinaram um plano para aprovar as suas medidas e espalhar as suas doutrinas. Fizeram abertamente a questão na conferência: ela está dividida; existem dois partidos distintos, e cada pregador simpatiza com um ou com o outro. A diferença é fundamental: não toca coisas indiferentes, mas as de importância mais vital — envolve nada menos que a própria natureza do cristianismo.

Ao mostrar as doutrinas dos metodistas da nova escola, citaremos o Advocate da seita, publicado em Buffalo — o órgão do partido, por eles sustentado. O seu título antigo era “Buffalo Christian Advocate”; mas, desde a declaração aberta das novas doutrinas, suprimiu significativamente do cabeçalho a palavra expressiva “Christian” (cristão). Essa omissão é cheia de sentido — e, aliás, altamente apropriada, como veremos ao examinar a sua nova teoria da religião. Louvamos o editor por esse exemplo de honestidade. Agora é simplesmente “The Advocate” — isto é, o único advogado das teses que defende.

Os metodistas da nova escola afetam um liberalismo tão grande quanto Theodore Parker; professam “caridade” por todos, exceto pelos seus irmãos da velha escola… Mas a sua teoria da religião expõe-se mais plenamente no editorial de 14 de maio, sob o título “O cristianismo, religião de beneficência antes que de devoção”: “O cristianismo não é, caracteristicamente, um sistema de devoção. Não tem nenhum daqueles traços que devem distinguir uma religião fundada na ideia de que adorar o caráter divino é a obrigação mais imperativa que pesa sobre os seres humanos…” Os metodistas da velha escola sustentam que “adorar o caráter divino” É a obrigação mais imperativa dos seres humanos; que quem adora a Deus retamente possuirá, por consequência necessária, todas as virtudes sociais e morais; que o evangelho prescreve a oração, o louvor e a observância dos sacramentos como “modos particulares de prestar homenagem à Divindade”. O escárnio seguinte não seria indigno do próprio Thomas Paine, e fica abaixo da dignidade de Voltaire: “O cristianismo de modo algum dá apoio à suposição de que o grande Jeová seja tão afetado pela fraqueza da vaidade, que receba com emoções peculiarmente gratas as atenções e ofertas que as pobres criaturas humanas lhe prestem diretamente em adoração.”

Isso basta para mostrar o que o cristianismo NÃO é, na opinião desses teólogos da nova escola. Vejamos agora o que ele é: “A ideia característica deste sistema é a benevolência, e a sua realização prática efetua-se na beneficência… Quaisquer que sejam as graças necessárias à vida cristã interior, a principal delas é o amor ao homem… A grande condição pela qual alguém se torna participante da salvação do evangelho é alguma exibição prática de abnegação, de sacrifício próprio pelo bem dos outros.” Os metodistas da velha escola sustentam que a benevolência é apenas um dos frutos da verdadeira religião, mas de modo algum a coisa mesma; que “a graça principal da vida cristã interior” é o amor a Deus; que a grande condição da salvação é a fé em Cristo, precedida do arrependimento.

Os metodistas da nova escola sustentam que a justificação e a inteira santificação, ou santidade, são a mesma coisa — que, quando o pecador é perdoado, é ao mesmo tempo feito santo, e que toda mudança espiritual que daí em diante pode esperar é simples crescimento na graça. Segundo os da velha escola, as pessoas apenas justificadas, embora não cometam pecado exterior, estão conscientes do pecado que ainda resta no coração — orgulho, vontade própria, incredulidade; os santificados por inteiro são salvos de todo pecado interior: nenhuma disposição errada, nenhuma contrária ao amor, permanece na alma. Os ministros da nova escola têm a franqueza de reconhecer que as suas doutrinas não são as da igreja: empreenderam corrigir os ensinos dos seus autores clássicos… “O lodge deve suplantar a classe e a festa de amor; e a reunião de oração à moda antiga deve ceder lugar à festa social!” Os que fundaram ou adotaram “os exercícios e meios de graça instituídos pela igreja” — Paulo e Pedro, os mártires e os reformadores, Lutero e Wesley, Calvino e Edwards — todos falharam em compreender a verdadeira ideia do cristianismo, pois todos sustentaram que o pecador é justificado pela fé em Cristo, e não por “alguma exibição prática de abnegação”. A honra de apreender distintamente o verdadeiro gênio do cristianismo estava reservada a uns poucos teólogos do século dezenove!

Usos e resultados

Divergindo assim nas suas visões da religião, os metodistas da velha e da nova escola divergem necessariamente nas medidas para promovê-la. Estes constroem igrejas por ações e as provêm de bancos para acomodar uma congregação seleta, e de órgãos, melodeons, violinos e cantores profissionais para executar peças difíceis de música para uma audiência elegante. Aqueles favorecem igrejas livres, canto congregacional e espiritualidade, simplicidade e fervor no culto; esforçam-se por promover avivamentos profundos e completos, como os que eram comuns sob os trabalhos dos pais — como os que fizeram do metodismo a denominação principal do país. Os líderes do movimento da nova divindade não são notáveis por promover avivamentos; e os que ocasionalmente ocorrem entre eles podem geralmente caracterizar-se como o editor do Advocate designou um que lhe caiu sob os olhos: “avivamentos esplêndidos”. Os pregadores do velho cunho instam com todos os que querem ganhar o céu sobre a necessidade da abnegação, da não conformidade com o mundo, da pureza de coração e da santidade de vida; os outros ridicularizam a singularidade, encorajam pelo silêncio — e nalguns casos pelo próprio exemplo, e pelo das suas esposas e filhas — “o uso de ouro e vestuário dispendioso”, e tratam com desconfiança toda profissão de experiência cristã profunda. Quando estes querem levantar dinheiro para a igreja, recorrem à venda de bancos ao maior lance, a festas de prazer, ceias de ostras, quermesses, sacos-surpresa, festivais e loterias; os outros, para o mesmo fim, apelam ao amor que o povo tem a Cristo. Em suma: os metodistas da velha escola confiam, para a difusão do evangelho, na agência do Espírito Santo e na pureza da igreja; os da nova escola parecem depender do patrocínio dos mundanos, do favor dos orgulhosos e ambiciosos, e dos vários artifícios da política mundana.

Se essa diversidade de opinião e prática se confinasse a uma conferência, seria comparativamente sem importância. Mas indicações inconfundíveis mostram que a prosperidade está produzindo sobre nós, como denominação, o mesmo efeito intoxicante que tantas vezes produz sobre indivíduos e sociedades. A mudança, pela Conferência Geral de 1852, da regra da Disciplina que exigia que todas as nossas casas de culto fossem construídas simples e com assentos livres, e a da última Conferência Geral na seção sobre o vestuário, mostram que já há entre nós gente demais disposta a derrubar as barreiras que até aqui nos separaram do mundo. O fato de a remoção ser gradual, para não despertar demasiada atenção e comoção, não a torna menos alarmante.

Todo amante da igreja há de sentir profunda ansiedade por saber qual será o resultado desta nova ordem de coisas. Se julgarmos pelos seus efeitos na Conferência de Genesee, desde que ali domina, ela nos será desastrosa como denominação… Em oito anos, sob o reinado da nova divindade, a igreja sofreu, nos limites dessa única conferência, perda relativa de quinze por cento dos membros. O seminário de Lima, à época da divisão segundo nenhum no país, foi, pela mesma espécie de administração, levado à beira da ruína financeira.

Procuramos assim dar uma representação justa e imparcial do metodismo da nova escola. A sua prevalência numa conferência já a envolveu, como vimos, em divisão e desastre. Prevaleça ele em geral, e a glória se apartará do metodismo. Ele tem uma missão especial a cumprir: não recolher ao seu redil os orgulhosos e elegantes, os devotos do prazer e da ambição, mas “espalhar a santidade bíblica por estas terras”. As suas doutrinas e usos, os seus hinos, a sua história e o seu espírito, as suas nobres conquistas no passado e as suas brilhantes perspectivas para o futuro — tudo proíbe que adote uma política acomodatícia e contemporizadora, pactuando com os vícios dos tempos. Prossiga ele como tem feito, insistindo em que as grandes verdades cardeais do evangelho recebam corporificação viva no coração e na vida dos seus membros, e o metodismo continuará a ser o favorecido do Céu e a alegria da terra. Mas desça ele da sua posição e receba à sua comunhão todos os amantes do prazer e do mundo dispostos a pagar pelo privilégio, e não é preciso visão de profeta para prever que o metodismo se tornará um corpo morto e em decomposição, tentando em vão suprir, pela ereção de templos esplêndidos e pela execução imponente de cerimônias sem poder, a glória manifesta da presença divina que outrora brilhou tão claramente em todos os seus santuários. “Assim diz o SENHOR: Ponham-se nos caminhos, vejam e perguntem pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andem por ele e acharão descanso para a alma de vocês.”

Há algo de errado nesse artigo? Essa foi a nossa representação do estado da religião na Conferência de Genesee naquele tempo. Damos a opinião que partes responsáveis exprimiram sobre o artigo quando apareceu. O dr. Hibbard, então editor do Northern Christian Advocate, a quem enviamos o artigo para publicação, mandou-nos a seguinte carta (depois que ficou claro que estávamos em minoria, o dr. Hibbard escreveu contra nós com grande zelo e, pensamos, injustiça): “Querido irmão Roberts: devolvo a sua comunicação como pediu, por não julgar prudente publicá-la. Presumo que o senhor não possa ver as coisas como eu as vejo do meu ponto de observação. A sua comunicação me envolveria em controvérsia sem fim… Não digo isto contra o seu artigo considerado em si mesmo, mas contra a controvérsia que ele ocasionaria. O seu artigo me parece escrito no tom mais brando e cândido em que tais fatos podem ser expostos. Esteja certo, meu caro irmão, de que na doutrina da santidade, na vida e poder da religião, na integridade e espírito do metodismo tenho interesse profundo e vivo… Sempre seu em Cristo, F. G. Hibbard. Auburn, 10 de agosto de 1857.”

Um presbítero presidente da Conferência de Oneida nos escreveu, logo após a publicação do nosso artigo: “1º de setembro de 1857. Querido irmão: alegro-me com a sua exposição da ‘nova divindade’ que está sendo a maldição da nossa igreja. Ela vai-se infiltrando na nossa conferência e fazendo imenso dano. Mantenha o monstro na luz.” Outro ministro proeminente da mesma conferência nos escreveu: “Se o senhor pertencesse à nossa conferência, ter-lhe-íamos dado um voto de agradecimento por escrever aquele artigo.” Tal é a opinião de homens distintos, bem qualificados para julgar, sobre o nosso relato do estado da religião que o partido dominante promovia.

Damos alguns extratos dos escritos deles próprios, para mostrar que a sua opinião, quando tinham a candura e a coragem de exprimi-la, não diferia tão materialmente da nossa. Leia-os com cuidado, e veja se a representação que eles mesmos fazem do estado da religião entre eles não é pior que a nossa. O seguinte editorial do Buffalo Advocate foi copiado no Christian Advocate and Journal: “INTERESSE RELIGIOSO EM BUFFALO. Não temos nenhum; não temos mais do que o usual pelo ano afora. Não pretendemos, com o título acima, transmitir a ideia de que haja qualquer movimento especial entre nós, ou qualquer esforço marcado por converter almas, ou por conservar convertidos os que já estão na igreja. O grande movimento entre nós é, a nosso juízo, determinar até onde a igreja pode voltar ao mundo salvando a sua aparência de piedade, devoção e verdade. Daí muitos, muitos membros de igreja terem-se tornado a parte mais frívola, amante de prazeres e dada a leviandades da gente da nossa cidade. Amam, promovem e sustentam os divertimentos mundanos mais populares — bailes, festas, festas de cartas, festas com bebidas, bailes de máscaras e festas-surpresa — e não têm disposição alguma de sair do mundo e separar-se dele. Tudo isso pode ser visto, lido e sabido em mais ou menos igrejas de Buffalo.”

Perguntamos a qualquer pessoa inteligente se estas não são acusações mais graves do que qualquer das que se acham no nosso artigo sobre o “metodismo da nova escola”. Nós tratamos mais de opiniões especulativas — este artigo os acusa de falta de piedade experimental e prática. O rev. Wm. Hart comentou no Northern Independent: “Ora, a questão é: essas acusações são verdadeiras ou falsas? Se falsas, sabe o Advocate o que custa caluniar a igreja nestes dias? Ele viu dois homens decapitados por uma ofensa que se reduz à insignificância superlativa comparada com essas acusações por atacado… O dr. Stevens despacha essas acusações terríveis aos seus milhares de leitores, sobre a simples afirmação do Advocate, sem esperar conhecer os fatos… Se pertencessem à Conferência de Genesee e fossem acusados de maltratar e caluniar a igreja, seriam, eclesiasticamente, pendurados mais alto que Hamã. Na Conferência de Genesee, o extrato acima do Advocate seria considerado calunioso, fosse verdadeiro ou falso… Qual foi a falta dos irmãos Roberts e McCreery, comparada com a vossa? Onde ou quando disseram esses irmãos algo metade tão severo quanto isto do Advocate? Mas, se o que o irmão Robie escreve é verdade, por que toda essa gritaria contra os chamados naziritas? As mesmas influências ímpias, e a mesma propensão a ceder-lhes, existem noutros lugares além de Buffalo… O mesmo estado de coisas narrado pelo Advocate existiu e existe alhures: deu-se ouvido às tentações do diabo, e a reunião de oração cedeu lugar à festa social; a consagração inteira morreu, e vigora o espírito de compromisso entre a igreja e o mundo; a formalidade e a indiferença pela salvação das almas tomaram o lugar da espiritualidade… Para contrariar esses efeitos, umas poucas almas fiéis se levantaram por Jesus e, como os jovens hebreus, declararam que não se prostrariam diante dos deuses mundanos que esses membros e ministros ‘frívolos, levianos e amantes de prazeres’ estão erguendo. Isto, como sabe todo mundo que sabe alguma coisa do assunto, foi a origem do ‘nazaritismo’. O antagonismo natural entre o pecado e a santidade causou toda a tribulação.”

Os meios adotados para promover essa religião — que ridicularizava sem misericórdia “uma religião de devoção” — não eram indignos da religião que se buscava promover. Extraímos do Buffalo Courier a seguinte notícia amistosa de um “festival de mariscos assados e caldeirada”, realizado em benefício da igreja metodista episcopal da rua Niágara: “O lugar escolhido foi o bosque de Clinton… cercado por boa cerca de tábuas, e cobravam-se dez centavos de cada visitante pela entrada. Dentro achamos milhares de pessoas: umas ventilando as roupas nos balanços, outras em jogos de várias espécies, centenas comendo sorvete, café, presunto, aves e outros substanciais, enquanto a grande massa abria, engolia ou se empanturrava de mariscos. Mariscos era o grito — de cada canto vinha o eco: mariscos! mariscos!… Havia mesas de flores, onde donzelas jovens e bonitas emboscavam com os olhos os rapazes endinheirados e os persuadiam a compras florais… Na cordoaria — um edifício que nos pareceu ter uma milha de comprimento — juntara-se grande multidão e, à música de duas bandas, saltava e suava a contento, privilégio que custava a cada dançarino dez centavos… Tudo foi hilaridade e gozo pela tarde afora, parecendo cada um feliz na exata proporção dos mariscos absorvidos… O festival, ao todo, foi um sucesso e inaugurou uma nova ordem de excursões, que esperamos tenha seguimento. A receita da entrada passou de quatrocentos dólares, segundo entendemos, e nas várias barracas, várias centenas mais. O produto reverte em benefício da igreja metodista da rua Niágara e será grande ajuda no pagamento da dívida do templo.” A pessoa que ficou à porta da cordoaria cobrando “dez centavos” de cada um que ia ao baile era, segundo se disse, membro de uma das igrejas metodistas da cidade; e o produto, pago o custo da música, reverteu em benefício da igreja. O caráter dos que, numa cidade como Buffalo, frequentariam um baile de dez centavos sob os auspícios de uma igreja respeitável imagina-se facilmente.

A igreja da rua Niágara, em cujo benefício se realizou esse festival, era a mais antiga igreja metodista episcopal da cidade, e foi outrora altamente próspera: ali Eleazer Thomas pregou a santidade, segundo o padrão de Asbury, no poder do Espírito Santo. Nessa igreja fomos estacionados no quinto ano do nosso ministério… Deus nos guardou de contemporizar e nos deu um bom avivamento: os membros em geral foram vivificados, e muitos pecadores, convertidos. Uns poucos — menos de meia dúzia —, compostos de homens de sociedades secretas e uma ou duas mulheres orgulhosas, encorajados por um ex-pastor de sociedade secreta, resistiram e se opuseram à obra. Desde a construção do templo pesava sobre ele uma hipoteca de alguns milhares de dólares; concordamos em vê-la paga, se fizessem livres os assentos, e já tínhamos boa parte da soma prometida quando, ao fim do primeiro ano, pela influência acima referida, fomos removidos, e um homem do outro partido, enviado em nosso lugar. O povo foi por fim persuadido de que o que precisava era de um edifício mais imponente: a igreja — sólida construção de pedra — foi remodelada, fez-se fachada nova, pôs-se grande órgão na galeria e altas cadeiras góticas no púlpito. Levantou-se todo o dinheiro que se pôde, vendendo os bancos, taxando os membros ao limite e fazendo de um dos maiores comerciantes de bebidas da cidade curador e tesoureiro. Tão grande foi o zelo despertado entre os membros para “salvar a igreja”, que uma das mulheres mais piedosas que até então conhecêramos foi induzida a presidir a uma das mesas do festival de mariscos! Mas tudo foi em vão: o edifício foi vendido para pagar as dívidas, e os membros, dispersos. Essa igreja é, há muitos anos, uma sinagoga judaica.

Depois de livrar violentamente a conferência da presença e influência daqueles que declarara “perturbadores da sua paz”, o partido dominante alarmou-se com o seu rápido declínio, mesmo pelo seu próprio padrão de prosperidade. Nas atas de 1865 publicaram um relatório sobre “O estado da obra”, que o editor do Northern Independent teve a coragem de comentar: “…Mas o que mais nos impressiona é o relatório sobre o ‘Estado da Obra’. É capaz, pungente, verídico, humilhante… Já faz quase dez anos que essa conferência deteve o caráter de um dos seus ministros mais capazes e úteis, e por fim o expulsou por calúnia — calúnia que consistiu em escrever para este jornal um artigo sobre o ‘Metodismo da nova escola’. O artigo criticava com bastante severidade alguns usos correntes naquela e noutras conferências, mas não era nem um pouco mais contundente que este relatório sobre o ‘Estado da Igreja’… O homem valente cujos olhos, ungidos por Deus, viram essa condição deplorável da Conferência de Genesee devia ter sido recompensado com algo melhor que a expulsão — pois teve boa intenção, falou bem, e está agora plenamente endossado pela própria conferência… A título de ajudá-los a sair do apuro, sugerimos que a conferência reconsidere imediatamente a sua ação no caso de todos os que foram expulsos por meros fundamentos técnicos, restaurando aqueles por cuja causa Deus mandou magreza a todas as suas fronteiras.” E o próprio relatório confessava: “Os nossos avivamentos não têm sido, nem em número nem em extensão, o que desejávamos… Em muitas, talvez na maioria das nossas igrejas, o rol de membros compõe-se quase inteiramente de pessoas de idade avançada; raramente achamos um jovem na junta oficial… Outro mal muito grande entre nós é o envolvimento de tantos dos nossos ministros em atividades seculares… O povo diz que somos tão ávidos de lucro, tão cobiçosos de grandes posses, tão facilmente arrastados a especulações desenfreadas quanto qualquer outra classe de homens. Essa perda de confiança no ministério não se confina aos que se envolvem em atividades seculares, mas se estende sensivelmente a todo o corpo.”

A conferência prosseguiu como corpo por mais alguns anos. Muitos dos pregadores de destaque haviam perdido a confiança do povo a tal ponto, que se transferiram para outras conferências. Introduziram-se homens novos; mas tudo em vão — não conseguiam sequer aparência de prosperidade. Foram unidos por um tempo a outras conferências, o nome mudado e, após troca geral de pregadores, restaurados como conferência com o velho nome. Mas, com toda essa administração, e com a ajuda das lojas que se puderam atrair ao apoio de uma seita religiosa, houve declínio constante. Nas atas de 1858 relataram 13.656 membros e provandos; em 1878, no mesmo território, 12.744 — mostrando, como resultado dos trabalhos de mais de cem pregadores por vinte anos, num território em que o povo é favorável ao metodismo, uma diminuição de novecentos e doze membros.

Do estado da religião em geral, naquele tempo, escreveu o rev. Jesse T. Peck (hoje bispo): “Que massa de desviados há agora na igreja, pela exata razão de se terem contentado sem prosseguir para a perfeição!” E, da luz dada pelo batismo do Espírito Santo: “Ela treme ao ver que o esplendor exterior da igreja, outrora tido por evidência confiável de êxito, não passa do traje de uma meretriz, revelando e convidando ao comércio ilícito com um mundo sem Deus.” Você acha algo tão severo quanto isso no “Metodismo da nova escola”? Pelo que sabemos, julgamos que o estado da religião em geral não melhorou muito sob esta nova dispensação. Citamos o seguinte, que corre pelos jornais, atribuído ao dr. Newman: “A moralidade da igreja é radicalmente defeituosa. A igreja é rica, e é extravagante. Os prazeres do mundo lhe são mais que as alegrias da piedade. O seu amor ao lucro é provérbio. Estende os braços para agarrar as ilhas do mar, enquanto os fogos da devoção ardem baixos nos seus altares. Muito membro de igreja, que diz com frequência ‘Senhor, Senhor’, alugaria um imóvel para um botequim onde marido e pai gastam tempo e dinheiro em bebida, ou para uma casa de jogo onde os jovens se arruínam — porque assim ‘pode obter aluguel mais alto’.” Não é ainda necessária a reforma na igreja?

Demos assim aos leitores o artigo que o partido dominante da Conferência de Genesee selecionou como o pior que escrevêramos contra eles. Pelos seus próprios relatos publicados, mostramos que o estado da religião entre eles era ainda pior do que representáramos.

Capítulo 6 — A religião proscrita+

Ao mostrar a espécie de religião promovida pelos homens proscritos pela Conferência de Genesee, daremos um espécime dos relatos publicados a seu respeito pelos seus opositores; depois, para provar a falsidade dessas representações, daremos os relatórios feitos por testemunhas desinteressadas de algumas das reuniões mais atacadas, realizadas sob os auspícios dos homens acusados de promover “um espírito de fanatismo desenfreado”.

Nos artigos publicados na época pelos proscritos, davam-se nomes responsáveis: procurávamos escrever a verdade e estávamos dispostos a respondê-la. Os que escreviam contra nós geralmente o faziam sob assinaturas fictícias. Pelos editoriais do Buffalo Advocate e do Northern Christian Advocate, os editores, é claro, assumiam a responsabilidade; mas numerosos ataques falsos e vingativos foram feitos por desconhecidos: faziam o possível por matar reputações, mas, como assassinos, “escondiam a mão que desferia o golpe”. Citamos um dos mais respeitáveis desses escritos, publicado primeiro no Medina Tribune, em 11 de setembro de 1856 — um ano antes de “O metodismo da nova escola” ser escrito. É evidente que o autor era membro da conferência:

“REFORMADORES E REFORMA NAZIRITAS. Reformadores espúrios são tão abundantes quanto amoras — e tão desprezíveis quanto abundantes. Incapazes de compreender a condição moral e as necessidades da sociedade ao seu redor, e também de entender os modos ou processos pelos quais a reforma se efetua, creem, ou fingem crer, que são os instrumentos escolhidos de alguma regeneração social grandemente necessária — cuja necessidade ou possibilidade ninguém, além deles, consegue descobrir. Confundindo o desejo de fazer algo grandioso com o chamado a um grande empreendimento, e a vontade de ser conhecido da fama com a intimação profética de alguma realização esplêndida, saem pelo mundo assumindo ares estranhos e grosseiros, que esperam que todos tomem por prova do ‘furor divino’ de que estão possuídos… A figura ridícula que fazem desperta o riso e a zombaria de todos — salvo dos que são tão desmiolados e tolos quanto eles… Nós, da Conferência de Genesee, temos uma fornada dessas de falsos profetas — desses pseudorreformadores… De onde ou por que lhes veio a ideia de que eram os ministros escolhidos de uma nova reforma, provavelmente jamais será resgatado da penumbra e da incerteza da especulação. Provavelmente sentiram o movimento de algo dentro deles — pode ter sido gás no estômago — e o tomaram pelas intimações de uma comissão derivada do céu… Para eles, a religião ainda parece ser um sistema de formas e símbolos exteriores, de cerimônias materiais e manifestações corporais, de influência animal e sensações nervosas. Entre eles, cara comprida e ares santarrões respondem por pureza interior e bondade de coração… Gritos e berros barulhentos, durante os exercícios devocionais, é o que chamam servir a Deus… Consideram a simplicidade no vestir de maior momento que a retidão de caráter. Uma fita ou flor ornamental no chapéu de uma senhora é, aos seus olhos, enormidade maior que o pecado da mentira; e usar um anel ou bracelete julgam mais perigoso e condenatório que a cobiça ou a calúnia… Entre eles, um chapéu de aba larga e copa alta equivale ao ‘capacete da salvação’, e uma casaca de abas curtas, ao manto da justiça… Mas que meios empregam esses reformadores? Vão ao povo com palavras de verdade e sobriedade…? Não: as suas arengas ao povo consistem em discursos facciosos, frases de jargão e berreiro; em protestos da própria imaculabilidade e em imputações, abertas e veladas, contra o caráter cristão e ministerial dos seus irmãos. — Junius.”

Entre os membros mais velhos da conferência tidos como pertencentes à classe a que esse artigo se refere estavam homens como Asa Abell, Benajah Williams, John P. Kent, Samuel C. Church e Amos Hard; entre os mais jovens, homens como William C. Kendall, Loren Stiles e I. C. Kingsley — homens que, em talento, instrução e cultura geral, para não falar da piedade, não sofreriam na comparação com os que os trataram publicamente com tal desprezo. Ao comparar o tom e o espírito desse artigo com “O metodismo da nova escola”, lembre o leitor que este é um dos mais respeitáveis da sua classe: havia outros baixos e insultuosos demais para republicar.

Para provar o estado da religião entre eles, demos o seu próprio testemunho. Para mostrar o caráter da religião assim denunciada, chamamos a atenção para o testemunho de ministros em boa — alguns em alta — posição noutras conferências da Igreja Metodista Episcopal.

Damos primeiro um relatório publicado no Northern Christian Advocate, escrito pelo rev. William Reddy, por muitos anos presbítero presidente na Conferência de Oneida. O acampamento de Bergen era considerado pelos nossos opositores a mais objetável de todas as nossas reuniões — alguns o chamavam “viveiro do fanatismo”. A reunião aqui referida realizou-se na primavera anterior à nossa expulsão: “O ACAMPAMENTO DE BERGEN. Havia cento e quatro tendas no terreno, num bosque deleitoso… Deus estava ali. Eu cri, eu senti que ele estava ali; e muitas eram as testemunhas vivas do seu poder para salvar — não só para perdoar, mas também para purificar de toda injustiça. Ouvi velhos metodistas de Boston e de Connecticut dizerem, com os olhos rasos d’água e o coração aos saltos: ‘Isto é como costumava ser há quarenta anos.’… A doutrina da santificação segundo o padrão de John Wesley, o modo definido de buscar a bênção, as confissões espontâneas de tê-la obtido da parte de pessoas inteligentes e maduras, o dever de exemplificá-la pela abnegação e pela obediência universal, a guarda das regras da Disciplina ‘não por temor do castigo, mas por dever de consciência’, a paciente e amorosa tolerância da oposição e perseguição por amor de Cristo, se necessário — tudo foi fervorosamente ensinado e aplicado, e muitas foram as testemunhas… Soube que número bem grande se converteu. — Wm. Reddy. Auburn, 25 de junho de 1858.”

O relato seguinte, da mesma reunião, é da pena do rev. B. I. Ives, D.D., da Conferência de Oneida: “A reunião foi de longe a maior a que já assisti, e diz-se ter sido a maior e melhor já realizada no oeste de Nova York. Havia cento e quatro tendas de lona… No domingo devia haver pelo menos cinco mil pessoas presentes; e, contudo, até onde pude ver ou saber, prevaleceu a melhor ordem… Duas coisas me impressionaram particularmente. A primeira foi o número de homens inteligentes, de negócios e influentes, que ali estavam com as famílias, acampados no terreno, e que ficaram até o fim da reunião, trabalhando por Deus e pela salvação das almas. A segunda foi o espírito de oração e trabalho pela conversão dos pecadores e pela santificação dos crentes, manifestado do começo ao fim… Tal era o poder de convicção sobre muitos dos não convertidos, que em vários casos vieram, sem serem chamados, às reuniões de oração e, chorando, pediram que o povo de Deus orasse por eles… Havia mais de trinta ministros presentes… Não vi nada que parecesse ‘fogo selvagem’ ou mera ‘excitação animal’ durante toda a reunião. O lema era: ordem e poder. E todo o povo de Deus parecia batizado com o verdadeiro e antigo ‘fogo de Jerusalém’. Louvado seja Deus pelos acampamentos, e diga todo o povo: amém. — B. I. Ives. Auburn, 28 de junho de 1858.”

A reunião seguinte de que damos conta realizou-se no mesmo terreno no ano seguinte — a primavera que se seguiu às primeiras expulsões. O autor era também membro da Conferência de Oneida: “Chegamos ao terreno na sexta-feira de manhã (segundo dia), e parecia que a reunião estava mais adiantada em interesse e poder do que algumas a que assistimos estavam nos seus últimos dias. É evidente que essas pessoas vivem mais perto de Deus em casa e trazem consigo o fogo verdadeiro… No sábado de manhã, B. T. Roberts pregou às dez horas. O notável nesse sermão foi que o pregador nem sequer aludiu às suas tribulações; o espírito mais doce e celestial pareceu reinar por todo o discurso. Se ele continuar mantendo o espírito que agora possui, os seus inimigos hão de cair todos impotentes aos seus pés. O dr. Redfield pregou às duas… No domingo, embora houvesse provavelmente doze mil pessoas no terreno, reinou ordem perfeita: a ordem de Deus evidentemente prevaleceu… Esta reunião foi uma das mais fortes a que já assistimos. Tínhamos ouvido tanto sobre esse povo que, ao chegar ao terreno, ficamos por um momento no banco dos ‘vem e vê’; mas logo achamos que essas pessoas nada têm senão o que uns poucos dos nossos têm na Conferência de Oneida. São um povo cheio de fé; e, quando oram, esperam resultados imediatos. São gente tão inteligente quanto a que se acha em qualquer congregação do estado de Nova York. São claros nas suas visões da santidade, segundo os nossos autores clássicos e segundo a Escritura. Queremos identificar-nos com os princípios e doutrinas sustentados por esse povo tão perseguido. Se há alguma vergonha ligada a eles, enquanto estiverem onde agora estão, queremos levar a nossa parte. — J. F. Crawford. Marathon, 15 de julho.”

Segue-se o relato de um acampamento de leigos realizado perto de Belfast, condado de Allegany, N.Y., habilmente dirigido pelo rev. C. D. Burlingham: “Sentei-me sob a pregação do rev. B. T. Roberts e do rev. J. McCreery, acusados de fanatismo e entusiasmo. Eles estão decididos a que a igreja alcance o céu, e buscam a plena salvação de todo pecado. Esses homens são abençoados de Deus. Cheguei ao terreno no domingo à noite. As estrelas brilhavam sobre a terra sorridente; a voz da oração ressoava com música do templo de folhagem; uma torrente de luz celestial descia do céu… Dezenas foram restaurados e convertidos a Deus. Grandes e poderosas manifestações se fizeram… Apesar de toda a oposição e das combinações secretas dos homens, ‘eles prevalecerão’. Jesus diz: ‘Não temam; eu estou com vocês.’ — Ira A. Weaver, wesleyano. Phillipsville, 25 de julho de 1859.”

O seguinte é de um pregador local da cidade de Nova York: “METODISMO À MODA ANTIGA. É o nome mais próprio que conheço para a pregação, as exortações e os exercícios que ouvi e vi num acampamento perto de Black Creek, no oeste de Nova York, e também numa reunião em Bergen… Assisti a ambas as reuniões e ouvi a bênção da inteira santificação pregada e aplicada como costumava ser por Wilbur Fisk, B. C. Eastman, A. D. Merrill, Asa Kent e outros do velho tempo. Observou-se ordem perfeita, e os ímpios, ao chegarem ao terreno com os seus grandes porretes, pareciam constrangidos à reverência pelo poder do Espírito que prevalecia. Muitos acharam o Salvador — alguns nos contaram que vieram para zombar, mas Deus respondeu à oração e os convenceu e converteu… Oh, que a religião do oeste de Nova York se espalhe por estas terras! — J. Palmer.”

O relato seguinte, de outro acampamento de leigos, foi escrito por um pregador, cremos, da Conferência da Filadélfia: “O ACAMPAMENTO GIGANTE. 2 de setembro de 1858… A pregação dos irmãos foi eminentemente experimental e prática. Oração, louvor e brados ouviam-se de toda parte do terreno. No domingo, calculou-se que havia dez mil pessoas no terreno. Não vi arruaça alguma durante a reunião… No domingo de manhã, depois que o irmão Roberts concluiu o sermão, a srta. Hardy, membro da nossa igreja e formada pelo Colégio de Genesee, levantou-se e proferiu uma exortação comovente diante do vasto auditório. Alegro-me de ver revivido entre nós esse traço do metodismo: quando o metodismo era jovem e vigoroso, tínhamos dirigentes de classe e exortadoras mulheres… — J. D. Long.”

Enquanto a conferência estava em sessão em Brockport, em outubro de 1859, Fay H. Purdy realizou um acampamento num prado pouco ao norte da vila. O jornal de Brockport publicou: “Os serviços do acampamento continuam do caráter mais interessante. O espaçoso pavilhão está apinhado de milhares atentos… O altar se enche de penitentes chorosos em quase todo culto… O bispo ordenou peremptoriamente ao sr. Thurston que deixasse a reunião e não participasse dos cultos; essa assunção prelatícia de poder foi recebida com a independência viril que ricamente merecia… Aos domingos, às dez e meia, o rev. Wm. Hosmer, editor do Northern Independent, pregou a uma congregação de seis a oito mil pessoas um discurso eloquentíssimo e impressionante sobre o texto ‘Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça’. Cada frase era um provérbio… Ao fim do culto, o sr. Purdy disse que ia fazer um anúncio de que só ele tinha conhecimento: nunca fugira à responsabilidade quando Deus lhe falava; sentia claro o seu dever, e oferecia agora a plataforma a B. T. Roberts, membro expulso da Conferência de Genesee, para proclamar a salvação ao povo à tarde… Às duas, a tenda espaçosa apinhou-se até o limite, e o sr. Roberts pregou um discurso evangélico sobre ‘Filho do homem, eu o constituí atalaia’… Na terça, administrou-se o sacramento da Ceia do Senhor a quatrocentos ou quinhentos comungantes… Os serviços finais, na quarta de manhã, foram solenes e impressionantes: depois de uma festa de amor como nunca vimos, a multidão de crentes marchou ao redor da área abraçada pelo círculo de tendas e trocou o aperto de mão de despedida — para só se reencontrarem todos diante do tribunal do juízo.”

Damos em seguida o relato da dedicação da Igreja Metodista Livre de Albion. O Buffalo Morning Express publicou: “Alegramo-nos com toda provisão feita para pregar o evangelho às massas. A tendência do sistema exclusivista em que se conduz a maioria das igrejas das cidades do oeste de Nova York é alienar as massas do culto religioso. Numa igreja onde uns poucos têm os seus bancos, ocupados por direito, os muitos não se sentirão à vontade para entrar, nem consentirão em anunciar a sua pobreza, domingo após domingo, ocupando assentos reservados aos pobres. Por isso registramos com alegria o êxito que coroou os esforços de construir uma igreja livre em Albion. O rev. L. Stiles, que, com outros, foi expulso pela Conferência de Genesee na última sessão por cumprir o seu dever de ministro cristão, foi convidado pela grande maioria da igreja de Albion, que servira com grande aceitação nos dois anos anteriores, a continuar os seus trabalhos entre eles, e aceitou. Antes que houvesse qualquer perturbação, abriram mão da propriedade eclesiástica a que tinham direito legal e passaram imediatamente a comprar um terreno e erguer uma casa de culto. Essa casa foi ontem dedicada ao culto de Deus pelo rev. E. Bowen, D.D., da Conferência de Oneida da Igreja Metodista Episcopal. O seu sermão, sobre a santidade… foi capacíssimo e impressionante… À noite, o rev. B. I. Ives proferiu um dos seus apelos poderosos sobre as palavras: ‘Iremos com vocês, porque ouvimos que Deus está com vocês.’ Os brados vibrantes do povo mostraram que a verdade caiu em ouvidos capazes de apreciá-la. A casa apinhou-se: cerca de 1.300 presentes, e muitos saíram sem conseguir entrar… O custo total foi, em números redondos, de uns 10 mil dólares — tudo pago ou provido… O sr. Stiles reuniu uma congregação grande e inteligente, uma igreja devotada, piedosa e trabalhadora.”

Segue o relato da primeira Reunião Trimestral Geral realizada na Igreja Metodista Livre de Albion, escrito pelo rev. George Fox, então membro da Conferência de Wisconsin da Igreja Metodista Episcopal, que depois se uniu aos metodistas livres e, após trabalhar entre eles alguns anos com grande zelo e êxito, morreu em santo triunfo: “Os exercícios da Reunião Trimestral Geral, do começo ao fim, foram acompanhados da presença e glória divinas. A cena do domingo, língua ou pena humana não pode descrever… Às nove horas, hora da festa de amor, havia reunidas não menos de mil pessoas de vestir simples e aparência metodista… Os testemunhos dados naquela festa de amor não eram o tilintar de velhos cobres enferrujados de experiências passadas, mas o timbre do ouro da comunhão presente com Deus. Oh, como cresceu a minha fé na divindade da nossa santa religião ao ouvir muitos dos meus velhos colegas de classe, e muitos convertidos depois que deixei aquela região, testificarem que o sangue de Cristo é todo-poderoso para purificar de todo pecado!… O sacramento da Ceia do Senhor foi administrado a quatrocentas e quarenta pessoas… O irmão Ives pregou à noite e, ao fim do sermão, convidou ao altar os pecadores que sentissem necessidade do Salvador: catorze penitentes chorosos vieram à frente e, em resposta à oração, Deus desceu e honrou a nova igreja convertendo claramente almas preciosas… Muito se tem dito no oeste sobre os ‘naziritas’ da Conferência de Genesee. Pois bem, irmão Hosmer: vi por mim mesmo, e posso exclamar, como aquele que contemplou a glória de Salomão, que ‘nem a metade me foi contada’… Quando aquela irmã me contou que o pedido de morte do seu marido foi que o rev. B. T. Roberts pregasse o seu sermão fúnebre, e que, por atender a esse pedido, o funeral não pôde ser feito no templo — embora ele tivesse dado o seu dinheiro para construí-lo —; e quando ouvi irmãos cristãos devotados contarem que foram riscados da igreja sem julgamento e sem o seu consentimento, só pude dizer: ‘Deus nos livre de tal usurpação eclesiástica.’ — G. H. Fox.”

Disse Asa Abell no Northern Independent de 10 de março de 1859, com referência à acusação de fanatismo: “Sou membro da Igreja Metodista Episcopal há mais de quarenta e três anos, e indigno pregador do evangelho há quase quarenta; e, quer o saiba quer não, estou certo de que devia saber o que é essa forma de cristianismo chamada metodismo. E sou constrangido a declarar que, ao meu entender, não há entre nós, onde tenho conhecimento, nada que justifique a acusação de um novo tipo de metodismo. Considero a acusação falsa e cruel… Não conheço desígnios políticos eclesiásticos. Se alguém os tem, não julgou próprio confiá-los a mim… Penso que o único grande desígnio dessas pessoas fervorosas, pregadores e outros, é espalhar a religião vital entre a humanidade — isto é, um cristianismo real, e não diluído e sem poder.”

Homens de Deus de longe, vendo tanto publicado nos jornais contra nós, começaram a suspeitar que o grito de “fanatismo” era só uma nova forma da velha oposição à piedade vital, e muitos vieram ver e ouvir por si mesmos. Assim, o venerável dr. Elliott, autor de Elliott on Romanism, embora inteiramente estranho, veio de propósito ver-nos e assistir às nossas reuniões; passou vários dias conosco, na nossa família, deu à obra o seu endosso público mais caloroso e a ajudou pregando e exortando em demonstração do Espírito.

Demos assim o testemunho de homens desinteressados a respeito do que o bispo Simpson chama “espírito de fanatismo desenfreado”. Eram homens inteligentes — a maioria ministros, alguns de alta posição na Igreja Metodista Episcopal. Em quem crer: nesses homens, testemunhas oculares e auriculares do que escreveram, ou na tradução, feita pelo bispo Simpson para linguagem respeitável, das falsas acusações dos nossos inimigos mais amargos?

Capítulo 7 — Os julgamentos eclesiásticos+

O velho método de resolver disputas religiosas era o partido mais forte queimar o mais fraco na estaca, ou lançá-lo às feras. A perseguição foi uma das práticas do paganismo que Constantino trouxe consigo para dentro da igreja cristã. Pela influência do cristianismo, o espírito de perseguição ficou restrito a manifestações como relatos caluniosos, ostracismo social e expulsão da igreja. Mas o espírito é o mesmo em todas as eras.

O primeiro dos julgamentos partidários da Conferência de Genesee foi o do rev. Joseph McCreery — homem de grande originalidade, talentos notáveis e, naquele tempo, profundamente devotado a Deus. Era quieto no púlpito, mas vimos, sob a sua pregação, grandes congregações comovidas ao mais alto grau. Tinha um jeito próprio de dizer as coisas, de modo que o povo as entendia e lembrava. Sob os seus trabalhos ocorreram avivamentos extensos e profundos. O pai era pregador metodista; o dr. Samuel Luckey, seu tio; e ele se orgulhava da sua linhagem metodista. Nunca conhecemos aderente mais devotado da Igreja Metodista Episcopal… Expulso pela acusação mais trivial, entrou de novo em probação; quando foi excluído, por causa do clamor dos seus inimigos, e a Igreja Metodista Livre foi organizada por aqueles com quem ele trabalhara, recusou-se por cinco anos a entrar; e, quando por fim se uniu, tais eram as suas saudades da velha igreja, que deixou a conferência em uns dois anos e partiu para a fronteira.

Em 1854–55 estava estacionado no circuito de Lyndonville. A igreja estava muito decaída na espiritualidade, e ele se pôs a trabalhar seriamente pela sua recuperação. Leu e explicou à sociedade as Regras Gerais; disse que não queria aproveitar-se da ignorância de ninguém, pois alguns podiam não saber o que faziam quando entraram para a igreja; daria, pois, aos que não quisessem ser governados por essas regras a oportunidade de retirar-se quietamente. Ninguém saiu; todos se comprometeram a guardar as regras. Desfez o coro — ou, como ele dizia, “expulsou as pombas que arrulhavam na galeria” — e introduziu o canto congregacional. Pregava com fervor; tão grande era o interesse que, mesmo quando os bancos de neve passavam das cercas, o povo vinha de milhas para as reuniões. Houve grande avivamento.

O dr. Chamberlain, pregador jubilado, residia numa fazenda desse circuito: homem forte, de pendor metafísico, temperamento frio e maneiras pouco expansivas; advogado da teoria “gradual” da santidade. Encorajado por grandes verbas do fundo dos jubilados, deixou-se pôr em evidência pelo partido dominante nos seus ataques abertos aos chamados “naziritas” — zelo avivado também pelo fato de a sua esposa, mulher nobre, de mente forte e piedade profunda e uniforme, identificar-se aberta e decididamente com os proscritos. Durante o ano em que McCreery esteve no circuito, o doutor anotou uma longa lista das expressões características que ele proferira no púlpito. Como espécime: descrevendo os festivais de igreja então em voga, disse McCreery: “Um trapaceiro de suíças e capote virá pagar os seus vinte e cinco centavos pelo privilégio de pescar uma boneca de pano num saco-surpresa.” E, sobre a oposição que enfrentava ao tentar reconduzir a igreja à sua antiga simplicidade: “Alguns dos meninos mais novos pegaram a minha mãe, a Igreja Metodista, na velhice dela: pintaram-lhe o rosto, frisaram-lhe o cabelo, puseram-lhe arcos e babados e joias, e a enfeitaram de tal modo que mal se distinguia de uma mulher do mundo. Agora que eu peguei a velha senhora, lavei-lhe o rosto, alisei-lhe o cabelo e a vesti com traje modesto, para que voltasse a parecer-se consigo mesma, fazem grande alarido e chamam a isso maltratar a mãe.”

O dr. Chamberlain leu à conferência seguinte os ditos a que objetava, e deteve o caráter do rev. Joseph McCreery. Este leu à conferência os “Documentos Naziritas”, e o seu caráter foi aprovado, sujeito a exame, perante o seu presbítero presidente, das acusações que porventura se apresentassem. O rev. Loren Stiles era o seu presbítero presidente e, apresentadas as acusações, ordenou que o julgamento se realizasse em Lyndonville — onde as alegadas ofensas foram cometidas e onde moravam as testemunhas —, embora fora do seu distrito. Na abertura, a acusação objetou à decisão do presidente e, recusando-se a prosseguir, o julgamento foi abruptamente encerrado. Na conferência seguinte, em Medina, apresentaram-se acusações contra Loren Stiles pela sua administração nesse caso, movidas por Thomas Carlton e James M. Fuller. A pedido do irmão Stiles, atuamos como seu advogado, e ele foi absolvido.

A chamada “regência” até então controlava só dois dos cinco presbiterados presidentes e, tendo apenas uns trinta pregadores nas suas reuniões secretas, não controlava votos bastantes para condenar. Mas, como dissemos, por ameaças feitas ao bispo, conseguiram remover Stiles e Kingsley do presbiterado presidente e pôr homens seus nos lugares. A pedido próprio, os irmãos Stiles e Kingsley foram transferidos para a Conferência de Cincinnati. As acusações contra McCreery foram retiradas, adotando-se, em lugar de condenação, resoluções que o desabonavam.

Queixas de caráter grave foram apresentadas contra três dos pregadores proeminentes do partido da regência. Uma delas: Enoch Pease, velho metodista do condado de Niágara, emprestara a esses pregadores cerca de mil dólares. Deram-lhe por garantia o que disseram ser uma primeira hipoteca, devidamente registrada, sobre um imóvel que alegavam possuir em Lima, N.Y. Ele deixou a hipoteca correr até o vencimento; entrementes, os devedores faliram. Na ação de execução, mostrou-se que haviam comprado o imóvel do dr. T. pagando só quantia nominal e dando de volta hipoteca pelo preço; que a escritura e a hipoteca ficaram com o advogado até a sra. T. assinar; e que, enquanto esses papéis jaziam em custódia, executou-se a hipoteca a favor de Enoch Pease. Ele nunca recebeu o seu dinheiro. Esses homens podiam não saber qual hipoteca prevaleceria — mas sabiam que haviam dado, a uma das partes com quem negociavam, uma garantia sem valor. Mal as queixas chegaram à conferência, um dos chefes do partido — creio que T. Carlton — propôs arquivar tudo; a proposta foi secundada e aprovada, e ali jaz até hoje. Com a culpa das partes nada temos; mas sustentamos que a conferência que se recusou a investigar tais queixas — feitas por homem como Enoch Pease, de tal maneira (pois tomamos por escrito o seu depoimento juramentado) — foi CULPADA DE ENCOBRIR FRAUDE!

Outro caso: a mesma firma dos três pregadores quis de novo tomar dinheiro emprestado. Um deles levou uma nota assinada pelos três a Geneseo, para tomar quinhentos dólares do irmão White, metodista que ali mantinha banco particular. Sendo-lhe estranhos, White levou a nota ao seu pastor, o rev. Jonathan Watts, e pediu conselho. Watts lhe disse que supunha honestos os homens da nota — eram pregadores metodistas em boa posição, e deviam sê-lo —, mas nada sabia da sua responsabilidade financeira. “Mas”, disse, “o sogro de um deles, o dr. B., sei que é homem de posses; se ele endossar a nota, estará segura.” White devolveu a nota ao pregador, dizendo que, com o endosso do dr. B., ele próprio a endossaria e obteria o dinheiro noutro banco. O pregador voltou no dia seguinte com a nota endossada com o nome do doutor; White a endossou e lhes obteve o dinheiro. Vencida, a nota foi protestada, e o irmão White recorreu ao endossante, dr. B. — mas, em lugar dele, quem assinara, a pedido deles, era o filho do doutor, financeiramente irresponsável! Nota e custas somaram seiscentos dólares, e nem um centavo jamais foi pago ao irmão White. Pouco depois ele faliu e foi reduzido à necessidade; pediu a Watts que procurasse um daqueles pregadores — que recebia bom salário como pastor de uma das igrejas principais — para pagar a sua parte, ou parte dela, e socorrer-lhe as necessidades prementes. Ele recusou por completo. O rev. Watts mandou então dinheiro ao irmão White, para livrar da fome a ele e à família. Levamos essa transação fraudulenta à conferência, apoiada na declaração do rev. J. Watts — e a queixa foi prontamente arquivada.

Por que as vítimas de tal desonestidade não processaram esses pregadores no foro criminal? Enoch Pease era velho, rico, e não queria o incômodo de um processo, sabendo que não recuperaria o dinheiro; era metodista devotado e não queria a igreja desonrada. White obteve a acusação formal (indiciamento) do pregador que negociara a nota — e o pregador fugiu do estado; entrou para uma conferência no oeste e era, pela última notícia, pregador regular em boa posição na Igreja Metodista Episcopal. Na mesma sessão, o rev. L. Stiles declarou à conferência que tinha cartas, escritas por homens de boa posição na comunidade — dois deles membros da Igreja Metodista Episcopal —, pondo em questão a integridade comercial de um membro da conferência, e pediu que se nomeasse uma comissão à qual as cartas fossem remetidas. Mas a conferência recusou-se a nomear a comissão — e até a ouvir as cartas!

O partido da chamada regência tornou-se então desesperado nas suas medidas: a questão entre os dois partidos havia-se tornado, para alguns dos chefes de um deles, questão de vida ou morte. O desespero cresceu quando viram, na conferência seguinte, que os revs. Stiles e Kingsley, conforme petições assinadas por mais de mil e quinhentos membros, haviam sido retransferidos para a conferência. Viram que algo devia ser feito para mutilar a nossa influência, ou ainda corriam o risco de ser chamados a contas pelos seus malfeitos. Alugaram um salão e, sem jamais serem suspeitados, realizaram reuniões secretas à noite. Controlavam agora os presbíteros presidentes; e, dando a entender aos pregadores jovens e aos pouco aceitos que as suas nomeações dependiam do partido com que se identificassem, conseguiram trazer a maioria da conferência a essas reuniões secretas. Então votaram, nesse conclave secreto — composto dos homens que haveriam de sentar-se no júri, e com cujos votos se contava de antemão para a condenação —, apresentar acusações contra B. T. Roberts e W. C. Kendall!

O meu artigo sobre “O metodismo da nova escola” acabava de ser publicado, e as acusações contra mim se basearam nele. Levantei-me na conferência e disse: “Não tenho intenção de deturpar ninguém. Não penso que o tenha feito. Penso honestamente que os homens referidos sustentam exatamente as opiniões que digo. Mas, se não sustentam, ficarei feliz em ser corrigido. Se disserem que não, tomarei a sua palavra, farei a minha humilde confissão e, tanto quanto possível, repararei o mal que tiver feito. Publicarei no Northern Independent, e em todos os jornais da igreja que desejarem, do Maine à Califórnia, que os deturpei.” Mas ninguém disse que eu os havia deturpado. Tinham-se dado grandes penas para obter a maioria — e agora precisavam usá-la. Como disse um dos pregadores: “O nazaritismo tem de ser esmagado, e temos as ferramentas para isso!”

Prosseguiram com o julgamento. Pouco havia que fazer, pois admiti que escrevera o artigo. Na minha defesa mostrei: 1) que é princípio incontestado do direito comum que, em toda ação por difamação, a linguagem exata apontada como difamatória deve constar da denúncia…

“Uma denúncia por difamação deve reproduzir as próprias palavras; não basta alegar que o réu publicou certo libelo cuja substância é a seguinte” (Brightley’s Digest, vol. II, p. 1681). “Numa ação por difamação, a lei exige que se transcrevam as próprias palavras do libelo, para que o tribunal possa julgar se constituem bom fundamento de ação” (Sergeant & Rawle’s Reports, vol. X, p. 174).

2) Mostrei que, se se responsabiliza um homem pela interpretação que os seus inimigos põem nas suas palavras, pode-se condenar qualquer homem que já escreveu. Mais: por esse princípio, poder-se-ia condenar o próprio Salvador. Ele disse: “Todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes.” Noé, Jó e Daniel vieram antes dele; logo, ele caluniou Noé, Jó e Daniel, chamando-os ladrões e assaltantes. De fato, o nosso Salvador foi condenado pela interpretação que os inimigos puseram nas suas palavras. 3) Mostrei que, em todas as especificações importantes, não só não haviam dado as minhas palavras, como haviam pervertido o meu sentido. Reivindico a capacidade de dizer o que quero dizer. Pus as acusações e as minhas palavras em colunas paralelas, e ficou evidente o contraste: acusavam-me de publicar que “existe na Conferência de Genesee um corpo associado” — eu escrevera que certos pregadores “agem como corpo associado”; acusavam-me de dizer que aqueles membros “se opõem ao que é fundamental no cristianismo” — eu escrevera que “a diferença é fundamental… envolve a própria natureza do cristianismo”; acusavam-me de os classificar com Theodore Parker “quanto à frouxidão do sentimento religioso” — eu escrevera que “afetam um liberalismo tão grande quanto” o dele; acusavam-me de os acusar de “escarnecer do cristianismo à maneira de Thomas Paine” — eu escrevera que determinado escárnio “não seria indigno de Thomas Paine”; e assim por diante em cada ponto.

Expliquei-lhes com tanta clareza que o mais obtuso não podia deixar de ver: 1) que homens podem “agir como corpo associado” sem “existir como corpo associado” — era verdade que tinham um corpo associado regularmente organizado, mas eu não o sabia, nem sequer suspeitava, e por isso não o disse; 2) que homens podem divergir sobre o que é “fundamental” — sobre “a própria natureza do cristianismo” — sem que nenhum deles se “oponha ao fundamental”: de fato, calvinistas e arminianos, unitários e trinitários divergem assim; 3) que há larga diferença entre “liberalismo” e “frouxidão de sentimento religioso”; 4) que dizer “o seguinte escárnio não seria indigno de Thomas Paine” não equivale a dizer “eles escarnecem do cristianismo à maneira de Thomas Paine”; 5) que dizer que por “santidade” entendem o mesmo que os “ministros evangélicos” das outras igrejas protestantes em geral não é acusá-los de “heterodoxia no assunto da santidade”; 6) que o artigo que citei sustenta plenamente tudo o que digo no ponto da sexta especificação; 7) que, ao mostrar que, prevalecendo certas visões da religião, “a loja haveria de suplantar a classe e a festa de amor”, não os acusei de tentar fazê-lo, mas apontei o resultado lógico dos ensinos que resenhava; 8) que, ao chamar os seus avivamentos de “avivamentos esplêndidos”, apenas citei um editorial do seu próprio órgão; 9) que, ao dizer que “tratam com desconfiança toda profissão de experiência religiosa profunda”, apenas disse o que era notoriamente verdade — ouvi um desses pregadores dizer: “Quando ouço um homem professar santidade, ponho a mão na carteira”; outro disse: “Se eu achasse na minha casa o livro de Jesse T. Peck, A ideia central do cristianismo, pegava-o com a tenaz e o jogava no fogo.”

E, contudo, com o assunto assim claramente exposto, a maioria da conferência votou sustentadas essas especificações (exceto a 4ª, retirada). Ao fazê-lo, cada um deles votou como verdadeiro o que sabia ser falso. Não podemos chegar a outra conclusão possível: não eram homens ignorantes que não soubessem o que faziam; não agiam às pressas sobre matéria que não entendessem; o caso lhes foi lealmente exposto. Votaram deliberadamente que eu escrevi o que sabiam que eu não escrevi. Fui sentenciado a ser repreendido pela presidência; recebi a repreensão e apelei para a Conferência Geral.

Quando as nomeações foram lidas, fui enviado a Pekin, condado de Niágara — praticamente a única parte da conferência em que eu era completamente estranho: que eu soubesse, nunca vira uma só pessoa do meu novo pastorado. Antes de eu chegar, um pregador proeminente do partido contrário se dera ao trabalho de informá-los de que o seu pregador fora condenado na conferência por “conduta imoral e anticristã” — o que também foi publicado, sem explicação, no Buffalo Advocate. Naturalmente, o povo mal queria receber-nos; duvidamos que algum itinerante tenha tido recepção mais fria. Até o pai Chesbrough — um dos mais nobres dos homens, e dos mais firmes e leais metodistas — pensou a princípio em nem ir ouvir-me pregar. “Que fizemos nós”, exclamou, “para que nos mandem por pregador um homem condenado por conduta imoral?” Chegado o primeiro domingo, como sempre ia à igreja, resolveu ir, dizendo: “Mal não faz ouvi-lo uma vez.” Voltando da igreja, contou o filho que ele cavalgou em silêncio por mais de uma milha, e então disse: “Pois é, Sam, nada sei do homem; mas sei que o que ouvimos hoje é o metodismo como eu o ouvia na velha Conferência de Baltimore, e como não o tenho ouvido pregar no oeste de Nova York.”

Logo irrompeu um poderoso avivamento que, apesar da indiferença marcada do presbítero presidente e da oposição aberta de dois ou três membros oficiais, avançou com poder crescente pelo ano afora. Um dos mordomos, insatisfeito porque os jovens se convertiam tão profundamente que largavam as joias e os enfeites, começou reuniões de oração na sua casa, do outro lado da rua, enquanto fazíamos as reuniões de avivamento no templo; não lhes demos atenção, e logo morreram de morte natural. Embora o acampamento do distrito se realizasse a só três milhas, o presbítero presidente jamais nos tocou no assunto. Mas fomos — e, para o seu desgosto, tivemos uma das maiores tendas do terreno. Por três dias ele não abriu uma só vez espaço para testemunhos nas reuniões públicas diante do estrado — sem dúvida com medo de que algum dos peregrinos de Pekin contasse o que Deus fizera pela sua alma. Por fim uma irmã, livre em Jesus, rompeu, e a maré de salvação começou a correr. Nos intervalos, mantínhamos as reuniões na nossa tenda, e ali muitos se converteram e muitos foram santificados a Deus.

Da obra no circuito nesse ano, um irmão amado escreveu para o Northern Independent: “Não se pode negar que recebemos na nossa igreja, como pastor, um homem que o Advocate nos informou ter sido julgado e achado culpado de ‘imoralidade’… A grande pergunta a responder é: prosperou a igreja sob os seus trabalhos, e honrou Deus os seus labores com a sua bênção? Alegramo-nos em dizer que a igreja prosperou, pela bênção de Deus, durante o ano — e toda a honra e glória depomos aos pés de Jesus… Apesar dos muitos relatos em contrário, Deus tem trabalhado no meio do povo: entre cinquenta e sessenta professaram conversão, dos quais uns quarenta entraram em probação. A pregação tem sido clara, simples e direta, de acordo com as doutrinas e a disciplina da igreja… Vários professaram publicamente ter recebido a bênção da santificação. Sem exceção, cada membro idoso da nossa igreja se alegrou de ver voltarem os dias do metodismo wesleyano, com o seu espírito intransigente e fervoroso. Quando o irmão R. chegou, a nossa classe do meio-dia de domingo tinha uns quinze; agora a frequência média é, e há tempo vem sendo, de setenta e cinco a oitenta… A escola dominical também alcançou frequência e interesse jamais atingidos na sua história. Há dezenas na igreja hoje que agradecem a Deus por o ter enviado ao nosso meio. — S. K. J. Chesbrough. South Pekin, 24 de setembro de 1858.”

Capítulo 8 — Duas expulsões+

Diz o bispo Simpson no seu artigo: “Em 1858, dois dos líderes foram expulsos da conferência.” Quanto a um dos dois, isso é um erro: Joseph McCreery, embora proeminente no movimento de santidade na Conferência de Genesee, nunca foi líder na Igreja Metodista Livre — opôs-se à sua organização. Quanto à pena, a afirmação é só meia verdade: os homens referidos foram expulsos não só “da conferência”, mas também “da igreja”. Por que o bispo Simpson não disse toda a verdade? Não queria que parecesse que as leis da Igreja Metodista Episcopal, tal como então administradas, eram como as leis de Drácon, que puniam com a morte a mais leve ofensa — ou nenhuma? Ou, pior ainda, como os editos de Nero, que torturavam homens por serem cristãos? Que ofensa hedionda se havia cometido, para que se infligisse a pena mais alta conhecida do direito eclesiástico?

Ao fim da conferência de LeRoy, o partido vitorioso publicou por toda parte que o irmão Roberts fora condenado por “conduta imoral” — deixando a coisa nesse vago, com a intenção de transmitir a impressão de que ele fizera algo muito mau. George W. Estes era então membro proeminente da Igreja Metodista Episcopal, no circuito de Clarkson: homem de inteligência e de influência na sua comunidade, obreiro eficiente nas reuniões de avivamento que fizemos em Brockport, e vivo na religião. Como muitos outros, Estes sentiu que grande injustiça fora cometida pela conferência e pelos relatos vagos e insinuantes publicados sobre a ofensa. Estes, sem sequer o meu conhecimento, publicou sob o próprio nome, e à própria custa, em forma de panfleto, o meu artigo “O metodismo da nova escola” e um breve relato do meu julgamento.

No seu texto, “A quem interessar possa”, Estes relatava: o artigo fora objeto de consultas gerais em conluios privados da Regência de Buffalo, numa sala sobre a livraria Bryant & Clark, em LeRoy, nas noites de quinta, sexta e sábado da primeira semana da conferência — de que resultou a peça de acusações. O modo de comprometer de antemão os pregadores mais fracos com a condenação do irmão Roberts foi este, segundo relatou um presente: um dos chefes da Regência, presidindo, perguntou: “Que se fará no caso do irmão Roberts? Todos a favor do seu processo levantem as mãos!” Os “trinta imortais” levantaram as mãos, e uns poucos aspirantes a presbíteros. O presidente proferiu então flamejante exortação à unanimidade — deviam estar unidos o bastante para levar a coisa até o fim, ou não valia a pena empreendê-la. Após várias exortações, votou-se de novo, e alguns mais votaram; após outra estação de exortação fervorosa, houve terceira votação, em que todos, salvo um, concordaram — e o julgamento e a condenação ficaram decididos. “Belo trabalho este, para pregadores metodistas piedosos, sustentados por sociedades religiosas honestas do nosso meio!” E prosseguia Estes: “Há vários anos que se faz o sacrifício anual de uma vítima humana na conferência. Virou costume… E. Thomas, J. McCreery, I. C. Kingsley, L. Stiles e B. T. Roberts constituem até aqui a ‘nobre banda de mártires’. Quem será a próxima vítima anual ainda não se sabe… Ninguém está seguro se ousar sequer sussurrar uma palavra contra esta Inquisição secreta no nosso meio. O crime comum pode obter as suas indulgências — falências e adultérios são ofensas veniais —, mas a oposição aos seus esquemas e políticas é ‘pecado mortal’… Os mesmos cinquenta homens que votaram o irmão Roberts culpado de ‘conduta anticristã e imoral’ por escrever o artigo acima votaram readmitir um irmão das redondezas de Buffalo pelo serviço prestado de beijar uma moça no vestíbulo da sala da conferência durante o julgamento do irmão Roberts. ‘Nero tocava rabeca enquanto os mártires ardiam.’”

Sobre o julgamento, dizia o panfleto: “O julgamento do irmão Roberts — se merece o nome de julgamento — foi marcado por grosseira iniquidade de procedimentos… Quando uma testemunha foi perguntada se sabia de uma reunião privada de cerca de trinta pregadores em Medina durante a conferência, respondeu ‘sim’; perguntada com que propósito se reuniram, respondeu ‘para consulta’. Aí a acusação, percebendo que todo esse conluio secreto… estava prestes a vir à luz, objetou a todas as perguntas não exatamente cobertas pelos termos verbais das especificações que eles próprios haviam astutamente redigido — e as suas objeções foram sustentadas pelo bispo… Acusado de afirmar a existência de um corpo associado de cerca de trinta pregadores, foi-lhe negado produzir os fatos em justificação, que poderia ter provado por trinta testemunhas. Esse direito, que qualquer tribunal civil ou militar lhe teria concedido, foi negado… Enviou-se a Buffalo uma comissão para tomar depoimentos; mas, ao chegarem, acharam que um emissário da conferência fora mandado adiante para tomar conta do escritório do Advocate, o qual se recusou a vender, emprestar ou deixar transcrever qualquer cópia dos jornais ou artigos relativos ao caso, e pôs todo mundo ‘no esquadro’ para recusar testemunho… Um venerável doutor em divindade leu o sermão de ‘auto de fé’ (preparado para a vítima do ano anterior), no qual consignou, em verdadeiro estilo inquisitorial, o irmão Roberts, corpo e alma, ao inferno… Propôs-se que a votação no caso do irmão Roberts fosse nominal; mas o mesmo espírito de ocultação e pavor da luz, fomentado pelas associações de sociedades secretas, prevaleceu também aqui: como alguns dos velhos tempos, ‘temiam o povo’, e derrubaram a proposta. O voto para sustentar a acusação… foi de cinquenta e dois a quarenta e três — maioria de nove.” O panfleto listava os nomes dos que votaram pela condenação, e prosseguia: “Outro fato significativo ficou patente no caso: o poder do presbiterato presidente. Bom número de pregadores não quis votar: honestos demais para ajudar a conspiração e covardes demais para enfrentar o argumento dos ‘pães e peixes’ apresentado pela influência dos presbíteros presidentes, ficaram quietos e viram a condenação do inocente, quando podiam tê-la impedido… Assim, irmãos do rol da Conferência de Genesee, vede: temos entre nós uma clique chamada Regência de Buffalo — conspirando e agindo em conclave secreto para sequestrar, ou expulsar, ou proscrever e destruir, por julgamentos de fachada e nomeações de fome, todo aquele que tem a ousadia de questionar a sua supremacia na conferência… Mil de nós pedimos ao bispo que nos livrasse deste íncubo que nos esmaga contra a terra. ‘Faremos o melhor que pudermos’ é a resposta estereotipada às nossas súplicas leais. Quantas vítimas mais deverão ser imoladas… enquanto o episcopado toma coragem para enfrentar este poder monstruoso, que enrosca as suas dobras viscosas em volta da igreja de Deus e lhe esmaga a vida?… Quanto a mim, enquanto olhava aqueles pregadores de pé para serem contados (não admira que objetassem à votação nominal) no voto de condenação do irmão Roberts, em LeRoy, decidi que nenhum deles — pregador, presbítero presidente ou jubilado — jamais receberá um centavo do meu dinheiro, sob pretexto algum… Comprometi-me a sustentar a Igreja Metodista Episcopal como igreja do Deus vivo, não como mero apêndice de uma clique secular ou política. — Geo. W. Estes.”

Eu nunca vi esse artigo senão algum tempo depois de publicado, e de modo algum fui responsável pela sua publicação. Mas o sr. Estes — homem de posses, exortador na Igreja Metodista Episcopal — era responsável e, como homem, assumiu a responsabilidade. Na última conferência trimestral do ano, veio à pauta a renovação da sua licença. O presbítero presidente perguntou a George W. Estes se era o autor daquele panfleto; ele respondeu que sim. Sem uma palavra de objeção, o presbítero presidente renovou-lhe a licença de exortador — e logo depois foi à conferência e votou por expulsar-me da conferência e da igreja, sob a acusação de publicar esse mesmíssimo panfleto!

A acusação contra mim rezava: “Acuso Benjamin T. Roberts de conduta anticristã e imoral. Especificações: 1ª) Contumácia: por desrespeitar a admoestação desta conferência na decisão do seu caso na última sessão. 2ª) Por republicar, ou ajudar na republicação e circulação, de um documento intitulado ‘O metodismo da nova escola’, cuja publicação original fora declarada por esta conferência ‘conduta anticristã e imoral’. 3ª) Por publicar, ou ajudar na publicação e circulação, de um documento impresso em Brockport e assinado ‘George W. Estes’… contendo, entre outros libelos contra esta conferência em geral e contra alguns dos seus membros em particular, os seguintes…” — e seguiam-se onze citações do panfleto. Assinado: David Nichols. Perry, 11 de outubro de 1858. Os revs. Thomas Carlton e James M. Fuller atuaram como advogados de acusação contra mim.

Pelas ameaças feitas, eu estava convencido de que buscariam ocasião contra mim. Como espécime, dou a seguinte, do rev. S. C. Church, velho presbítero presidente e um daqueles maçons de mente nobre que se indignavam de que a maçonaria fosse usada para controlar os negócios de uma conferência de ministros: “Durante a última sessão da nossa conferência, em LeRoy, eu conversava com o rev. H. Ryan Smith sobre a observação feita pelo rev. B. T. Roberts no plenário, de que a comissão de educação fora arranjada. Smith disse: ‘Mais uma declaração dessas apagará Roberts.’ Na mesma conversa, disse: ‘É melhor você sair do caminho, ou será esmagado.’ — Samuel C. Church. Cartville, 20 de outubro de 1858.”

Para enfrentar a tempestade que vinha, pedi ao rev. B. I. Ives, da Conferência de Oneida, que atuasse como meu advogado — e ele estava presente para isso. Mas o bispo recusou terminantemente permiti-lo. Como a maioria da conferência se dizia caluniada no seu caráter individual, e como eu já sabia que haviam virtualmente votado, nas suas reuniões secretas, condenar-me, pedi que o julgamento se realizasse perante outra conferência. Citei-lhes a sábia provisão da lei civil: “O foro pode ser mudado para outro condado quando o réu entende que não pode ter julgamento justo e imparcial no condado do foro original.” Mostrei-lhes que nenhum homem da maioria seria admitido, em circunstâncias semelhantes, a sentar-se num júri civil, ainda que só vinte e cinco centavos estivessem em jogo. Citei: “Se a lei disser que um homem será juiz na própria causa, tal lei, por contrária à equidade natural, será nula; pois jura naturae sunt immutabilia — são leges legum: os direitos naturais são imutáveis; são as leis das leis” (Hobart, Day vs. Savage). Eu sentia que, num caso em que estavam em jogo a minha reputação e a minha posição de ministro cristão — coisas mais caras que a vida —, eu tinha direito a julgamento justo. O pedido foi recusado. Como último recurso, pedi que se nomeasse uma comissão para julgar o caso, como prevê a Disciplina; disse-lhes que preferia julgamento por comissão tão pequena que os seus membros sentissem responsabilidade pessoal pelos seus atos — ainda que composta dos mais fortemente comprometidos contra mim — a que o caso fosse ao plenário, onde uns se esconderiam atrás dos outros. Também esse pedido foi recusado. Tudo isso, bem sabemos, soa mais como os procedimentos da “Alta Comissão” inglesa nos dias de Jaime II e Carlos I do que como os atos de uma conferência de ministros cristãos presidida por um bispo piedoso, no século dezenove. Diz Macaulay daqueles comissários, que se cobriram de infâmia: “Eram, ao mesmo tempo, acusadores e juízes.” Mas os fatos que aqui relatamos nunca foram postos em questão.

Nessas circunstâncias, o julgamento prosseguiu. O meu amigo Loren Stiles me assistiu de todo o coração e fez eloquente defesa. A acusação não fez o menor esforço para provar que o panfleto de Estes era calunioso, ou que as suas afirmações eram inverídicas — tarefa de que fugiram; era mais fácil dá-lo por assentado. Assim, desde o início se presumiu que o panfleto — cujo autor confesso ainda era membro oficial da Igreja Metodista Episcopal — era de caráter tão perverso, que ajudar na sua circulação era ofensa mortal. A acusação garantiu a presença do impressor que publicara o panfleto, embora ele tivesse de atravessar umas setenta milhas de campo; mas, quando viram que ele diria a verdade — que B. T. Roberts nada tivera com a publicação do documento —, não o chamaram a depor. Todo o testemunho dado para provar a acusação e as três especificações principais foi o do rev. John Bowman — e esse testemunho foi impugnado, e também contraditado, no ponto essencial de ajudar na publicação, por Geo. W. Estes.

John Bowman testemunhou que eu lhe apresentara panfletos no trem entre Medina e Lockport, pedindo que os circulasse — mas admitiu: “a minha lembrança não é muito distinta”. Ao contrário, provei por George W. Estes que eu nada tivera com a publicação. Estes testemunhou: “O irmão Roberts nada teve com a publicação, ou com o auxílio à publicação, do documento em consideração, que eu saiba — e presumo saber. Nada teve com a escrita da parte que leva o meu nome; não sei que tivesse conhecimento de que a publicação era pretendida; nunca deu consentimento para que a parte intitulada ‘O metodismo da nova escola’ fosse republicada por mim ou por quem quer que fosse, que eu saiba; nunca foi responsável pela publicação, no todo ou em parte; nunca contribuiu com nada para o pagamento da publicação, que eu saiba… Nunca lhe vendi nenhum.” E, no contrainterrogatório: “Nunca remeti, nem mandei remeter, nenhum deles ao irmão Roberts; nunca lhe dei nenhum pessoalmente; não sei de ninguém que lhe desse ou remetesse algum.”

Quanto à circulação, ofereci o seguinte testemunho. O rev. Russell Wilcox: “Sou diácono local da Igreja Metodista Episcopal em Pekin. Conheço intimamente o irmão Roberts, pastor da igreja em Pekin. Não sei que ele tenha jamais circulado este panfleto em parte alguma; vi-o pela primeira vez depois que saí de casa, a caminho desta conferência.” O rev. J. P. Kent: “Eu é que pedi ao réu um desses panfletos; queria ver um, e perguntei ao irmão Roberts se podia deixar-me ver; ele disse que não os circulava, mas não tinha objeção a que eu visse o que ele tinha…” Este é todo o testemunho oferecido para provar as especificações — o testemunho de um só homem, e esse testemunho impugnado por vários membros da conferência. O próprio John Bowman diz que a sua lembrança não era muito distinta. Não admira. Mas George Estes foi claríssimo na lembrança e distintíssimo nas declarações. O fato é que eu nada tive com a publicação do panfleto, e pouco interesse tomei por ele: estava ocupado com outro trabalho.

Perguntamos, em nome da candura: devia esse testemunho — assim contraditado — condenar alguém? Algum tribunal honrado já deu veredicto de condenação sobre tão magra desculpa de sombra de prova? Muitos da conferência pareciam não se importar com o testemunho: alguns estavam fora colhendo castanhas e divertindo-se, enquanto se tomavam os depoimentos — mas voltaram a tempo de votar sustentadas a acusação e as especificações! Desejando lançar luz sobre muitos pontos levantados no panfleto de Estes, examinei grande número de testemunhas sobre eles: assim provamos que realizavam reuniões secretas, e outras matérias vieram à luz. As alegações terminaram cedo à noite. Tal foi a impressão causada, que os líderes da oposição não ousaram votar naquela noite: temiam não conseguir a condenação; adiaram, realizaram a sua reunião secreta, e levantaram a coragem ao ponto de poder entrar na conferência na manhã seguinte e votar sustentadas as especificações e a acusação. Votaram então a expulsão da conferência e da igreja!

Como espécie de justificação, alguns alegaram que fui expulso porque tentei provar verdadeiras as alegações de Estes. Mas isso só mostra em luz ainda mais forte a injustiça da maioria: quê! Condenar um homem por crime de que nem sequer era acusado! Falando dos julgamentos de 1857 e 1858, diz o rev. C. D. Burlingham: “É fato notório que esses veredictos não se baseiam em testemunho que prove atos ou palavras criminosos. Vários que votaram com a ‘maioria’, e outros que com ela simpatizam, disseram: ‘Bem, se as acusações não foram sustentadas por prova suficiente, a conferência os serviu como mereciam, pois são grandes agitadores e promotores de desordem e fanatismo.’ Aí está: homens julgados por uma coisa e condenados por outra! Que jurisprudência iníqua não coberta por tal princípio? Por que não julgá-los por promover desordem e fanatismo? Porque o fracasso de tal tentativa de condenar seria o resultado certo.”

Olhando para trás, só posso explicar a ação da conferência pela teoria de que os líderes do partido da chamada Regência não se sentiam seguros enquanto permanecêssemos nela. Pessoalmente, eu não tinha razão para me supor impopular: estava em bons termos sociais com todos os pregadores; as minhas nomeações sempre foram tudo o que eu podia desejar. Duas vezes, durante o meu último julgamento, deram-me tais provas de respeito como nunca ouvi que um tribunal prestasse a um homem que julgava por ofensa criminal: uma vez, adiaram o julgamento por um dia para realizar culto fúnebre em honra do rev. William C. Kendall, falecido durante o ano — e, por voto unânime da conferência, fui eu designado a pregar o sermão fúnebre, o que fiz com dois bispos sentados ao meu lado; noutra ocasião, realizou-se o aniversário da Sociedade Bíblica Americana e, por outro voto unânime, fui designado a presidir a reunião pública! Seria isso imitação dos velhos idólatras, que primeiro coroavam de grinaldas as vítimas que iam sacrificar — ou, antes, a homenagem natural que os homens muitas vezes prestam instintivamente àqueles que sabem estar certos, mesmo enquanto os perseguem?

Contra o rev. Joseph McCreery apresentaram-se acusações essencialmente iguais às minhas, assinadas por H. Ryan Smith. Do relato que McCreery fez do seu julgamento: “O rev. J. G. Miller foi designado para ajudar na acusação. O réu dispensou advogado: não fora intimado para o seu julgamento real, que vinha ocorrendo em segredo, havia várias noites, no salão dos Odd Fellows, em Perry, e não julgou que valesse a pena incomodar alguém para atuar como advogado numa farsa judicial… Os revs. C. P. Clark e W. Seism testemunharam que o réu circulara o panfleto de Estes. A acusação introduziu então como prova um cartão de umas três polegadas por duas, de aparência bem encardida e seriamente roído num canto, marcado de um lado com certas letras e cifras ominosas e cabalísticas… O cartão fora apanhado por S. M. Hopkins, como declarou no seu depoimento, e cuidadosamente guardado até o dia do juízo… Hopkins fora mandado pela Regência de Buffalo para vigiar o irmão Abell e apanhar algo que pudesse ser usado nesta conspiração contra o réu; por esse serviço, os seus senhores lhe votaram sessenta dólares dos fundos da conferência… O réu quis mostrar que todo mundo circulara o panfleto — pregadores da Regência e naziritas, homens, mulheres e crianças, o fizeram com toda a liberdade com que circulariam um almanaque ou o Livro dos Mártires de Fox. A acusação de contumácia por fazer o que todo mundo fazia era farsa ridícula. Sete horas antes, à ordem dos seus senhores, a testemunha Hopkins se levantara e votara a expulsão do irmão Roberts da igreja, pela acusação de circular este panfleto — e se comprometera, em conclave secreto, a prestar-me o mesmo serviço poucas horas depois… O réu foi votado culpado das especificações e da acusação, e expulso da conferência e da igreja pelo número usual de votos: 50. Sinopse da votação: homens regulares da Regência, 33; aspirantes a presbíteros, 15; tolos sérios, assustados com o bicho-papão do nazaritismo, 2 — total pela expulsão, 50. Votaram contra, 17; não votaram, 53. Total de membros: 120… O poder de nomear é onipotente — e quem tem a faculdade de bajulá-lo, intimidá-lo ou enganá-lo a seu serviço pode fazer ou ser o que quiser.”

Cada um de nós deu notícia de apelação à Conferência Geral. Mas que faríamos entrementes? Éramos ambos vinte anos mais jovens do que agora, cheios de vida e energia, ansiosos por salvar a própria alma e quantas mais pudéssemos. Nenhum de nós pensava em formar nova igreja: tínhamos grande amor ao metodismo e confiança inabalável na integridade do corpo como um todo; não duvidávamos de que a Conferência Geral corrigiria as coisas. Mas não queríamos ficar de braços cruzados por dois longos anos. Aconselhamo-nos com homens de idade e experiência em quem confiávamos. Ao deixar a conferência, o bispo Janes apertou-me a mão cordialmente e disse: “Não desanime, irmão Roberts — ainda há um futuro brilhante diante de você.” O rev. Amos Hard registrou por escrito a conversa que teve com o bispo Janes: perguntou-lhe se a entrada de um membro expulso noutra igreja invalidaria a sua apelação, e depois se afetaria a apelação entrar ele na nossa igreja em probação; o bispo respondeu: “Penso que não.”

O rev. William Reddy — então entre os ministros proeminentes da Igreja Metodista Episcopal, presbítero presidente bem-sucedido, altamente estimado pela piedade e pelo bom juízo, várias vezes membro da Conferência Geral — escreveu-nos: “Genoa, 29 de outubro de 1858. Querido irmão Roberts: …A Conferência Geral não estará sob a inflamação em que esteve a Conferência de Genesee, e penso que julgará juízo justo… Quanto ao seu caminho até lá: você sente, e outros creem, que Deus o chamou e comissionou a pregar as insondáveis riquezas de Cristo. A Conferência de Genesee disse que você não pregará sob a autoridade dela; mas você não perdeu o seu caráter cristão, nem o ato deles operou a caducidade da sua comissão de Deus. Eu iria, pois, adiante, pregando e trabalhando pelas almas, sob a declaração expressa de que o faz não pela autoridade da Igreja Metodista Episcopal, mas em virtude do seu chamado divino… Você é simplesmente mensageiro de Deus… Creio que Deus o fará sair como ouro provado no fogo. — William Reddy.”

No conjunto, pensamos — e os nossos amigos pensaram — que era melhor entrarmos em probação: isso mostraria a nossa lealdade à igreja… Não podíamos, em consciência, fazer confissão pelo motivo da expulsão — pois sentíamos não ter feito mal algum. Adotamos, pois, a interpretação da disciplina dada pelo bispo Baker: “Quando um membro ou pregador foi expulso na devida forma da disciplina, não pode depois gozar os privilégios da sociedade e do sacramento na nossa igreja sem contrição, confissão e reforma satisfatória; mas, se a sociedade se convencer da inocência do membro expulso, ele pode ser recebido de novo em experiência, sem confissão.” A sociedade de Pekin, que servi por último, convencida da minha inocência, recebeu-me unanimemente em experiência; Joseph McCreery foi recebido, também por unanimidade, pela sociedade de Spencerport. Recebemos, cada um, da sociedade a que nos unimos, licença de exortador; e saímos realizando reuniões conforme a providência abria o caminho. Havia profundo interesse religioso aonde quer que fôssemos, e muitos, confiamos, se converteram, muitos crentes foram santificados por inteiro, e o povo em geral despertou para o senso dos seus interesses eternos.

Capítulo 9 — A convenção dos leigos+

Essas expulsões violentas naturalmente criaram intensa agitação por toda a conferência. Apareceram artigos em muitos jornais, religiosos e seculares — quase todos, exceto os escritos no interesse da maioria, condenando a ação da conferência. Conferências trimestrais e juntas oficiais aprovaram resoluções exprimindo o seu senso do grande erro cometido.

Por fim, Isaac M. Chesbrough, de Pekin, condado de Niágara, sugeriu a realização de uma convenção de irmãos representativos das sociedades, dentro dos limites da Conferência de Genesee, contrárias à sua ação opressiva. Era velho metodista de cinquenta anos, homem de grande inteligência, juízo sólido, integridade inflexível e larga experiência do mundo: sempre pronto a socorrer os aflitos, encorajar os desanimados e ficar ao lado dos oprimidos; via depressa através das meras pretensões, abominava a hipocrisia e as farsas, e não temia agir segundo as suas convicções. A proposta encontrou favor geral. Fez-se a convocação, assinada por mais de cem homens de destaque de vinte e dois circuitos e estações. Em resposta, cento e noventa e cinco homens de destaque, de quarenta e sete circuitos e estações, reuniram-se em Albion, em 1º de dezembro de 1858. Na primeira noite realizou-se uma festa de amor de leigos na igreja metodista episcopal — culto de grande interesse. A convenção realizou-se no Kingsland Hall. O hon. Abner I. Wood foi escolhido presidente… e nomeou-se comissão de resoluções, que trouxe relatório expondo em termos claros as queixas, o qual, depois de habilmente discutido, foi adotado por unanimidade.

Sobre as expulsões, disseram: “Consideramos a expulsão dos irmãos Roberts e McCreery um ato de perseguição perversa, que pede a mais forte condenação. Foi também violação palpável daquela liberdade de palavra e de imprensa garantida a todos pelas nossas instituições livres.” Sobre o artigo do rev. B. T. Roberts, base da ação da conferência: “A candura e o bom espírito do seu artigo são patentes. Nós mesmos ouvimos diferentes pregadores simpáticos ao ‘partido da Regência’ exporem opiniões semelhantes às que lhes são atribuídas em ‘O metodismo da nova escola’.” Sobre o “fanatismo”: “Tão insignificante era a acusação contra esses irmãos que, em todos os esforços feitos para vindicar os que votaram pela condenação, ninguém tentou mostrar que o testemunho justificava a decisão. A sua única defesa é: ‘Se esses homens não mereciam ser expulsos por circular o panfleto, mereciam por promover entusiasmo e fanatismo.’ Se assim é, por que não foram julgados por isso? Onde está a justiça de julgar homens por uma coisa e condená-los por outra? Quanto a essa acusação de ‘fanatismo e entusiasmo’, sentimo-nos preparados para falar: os nossos meios de informação são bem mais confiáveis que os dos pregadores que a fazem. Assistimos aos acampamentos e reuniões trimestrais gerais contra os quais se levantou clamor especial como ‘viveiros de entusiasmo’; ouvimos a pregação desses irmãos acusados — alguns, por anos. Sabemos o que é o metodismo: alguns de nós se converteram e entraram para a igreja sob os trabalhos dos seus pioneiros honrados. Falamos, pois, com conhecimento de causa, quando dizemos que a acusação de ‘promover fanatismo’, feita aos irmãos Roberts e McCreery e à classe de pregadores denominados ‘naziritas’, é inteiramente falsa e sem fundamento. Eles estão simplesmente procurando que estejamos decididos a ganhar o céu. Em vez de atacar a igreja, são os seus defensores: pregam as doutrinas da Igreja Metodista como as ouvíamos pregadas anos atrás; e, pela sua instrumentalidade, muitos foram levados a alegrar-se no gozo de uma SALVAÇÃO PRESENTE E PLENA. Não podemos dizer o mesmo dos seus opositores… Portanto, quer consideremos a causa ostensiva, quer a causa real da expulsão dos irmãos Roberts e McCreery, o ato pede — e recebe — a nossa condenação calorosa e fervorosa.”

Sobre a impossibilidade de levar à justiça os pregadores da “Regência” acusados: “Nem podemos passar por alto o proceder do ‘partido da Regência’ sempre que queixas de caráter grave foram feitas contra algum dos seus. Correram relatos de que alguns deles foram culpados de ‘crimes expressamente proibidos na Palavra de Deus’, envolvendo alto grau de torpeza moral. Fizeram-se queixas e, embora a prova da culpa fosse considerada ampla, foram sumariamente arquivadas — e de tal modo que se desencorajou todo esforço de levar à justiça, perante a conferência, qualquer pregador da ‘Regência’, por perverso e imoral que seja.”

De obras clássicas escritas em defesa da organização metodista, mostraram que, embora naquela igreja os leigos não tivessem voz na feitura e administração das leis, entendia-se que tinham remédio eficaz contra a opressão clerical no poder de negar sustento a pregadores indignos: “Um remédio patente está ao nosso alcance: o poder de reter os nossos suprimentos… Queremos que fique distintamente entendido que não podemos pagar um só vintém a pregador ou presbítero presidente que votou pela expulsão dos irmãos Roberts e McCreery — salvo mediante ‘contrição, confissão e reforma satisfatória’.” E citaram o dr. Abel Stevens (“esse freio se aplica não só a uma prerrogativa específica do ministério, mas a todo o sistema ministerial… nenhum pregador metodista pode mover ação civil pelo seu salário”), o dr. Emory (“não há no mundo corpo de ministros mais perfeitamente dependente daqueles a quem serve do que o ministério itinerante metodista”), o dr. Bond e o rev. A. N. Fillmore, no mesmo sentido: “Assim, o direito de reter os suprimentos, por razões boas e suficientes, é concedido e urgido pelos autores clássicos da nossa igreja. Que tal razão agora existe, há de ser patente a todo aquele que não esteja inteiramente cego às exigências da justiça e da humanidade.”

Sobre a origem da convenção: “Esta convenção originou-se entre nós mesmos. A primeira sugestão foi de um do nosso número. Nem os irmãos expulsos, nem qualquer membro da conferência, tiveram absolutamente nada com a sua convocação. Mencionamos o fato porque se insinua com frequência que o povo nada pode fazer senão por instigação dos pregadores. Não somos papistas, que precisem de instrução do sacerdócio a cada passo sobre que ação tomar ou que jornais e livros ler.”

Eis as resoluções de importância geral adotadas: “Resolvido: que temos a máxima confiança nos irmãos B. T. Roberts e Joseph McCreery, apesar da sua expulsão da conferência, contando-os entre os mais puros e capazes ministros do Novo Testamento. Resolvido: que aderimos às doutrinas e usos dos pais do metodismo. O nosso apego à Igreja Metodista Episcopal é fervoroso e cordial; mas não reconhecemos a política opressiva da fraternidade secreta na conferência, conhecida como Regência de Buffalo, como ação da igreja, e não podemos nem queremos submeter-nos a ela: temo-la por grosseira má administração sob a pretensa sanção de formas judiciais. Resolvido: que os leigos têm alguma utilidade para a igreja, e que as suas opiniões deveriam merecer algum respeito, em vez do frio desprezo com que os seus desejos têm sido tratados por alguns oficiais da conferência nos últimos anos. Resolvido: que o grito farsesco de desunião e secessão é produção artificiosa de homens maquinadores… Queremos que fique distintamente entendido que não temos, nem jamais tivemos, a menor intenção de deixar a igreja da nossa escolha… Os metodistas têm mais direito na Igreja Metodista Episcopal do que qualquer outro, e, pela graça de Deus, nela pretendemos ficar. Resolvido: que é matéria de não pequeno agravo… que esses pregadores, na sua administração pastoral local, se tenham deliberadamente posto a excluir de posição oficial na igreja dirigentes, mordomos e curadores de experiência cristã profunda e indubitável, por causa da sua adesão ao metodismo espiritual e religioso, e a preencher os seus lugares com pessoas de experiência religiosa leve e superficial, por causa da sua adesão a um metodismo de política mundana. Resolvido: que não ajudaremos no sustento de membro algum da Conferência de Genesee que tenha auxiliado, pelo voto ou pela influência, na expulsão dos irmãos Roberts e McCreery da conferência e da igreja, até que sejam plenamente reintegrados… Resolvido: que recomendamos ao irmão B. T. Roberts e ao rev. J. McCreery que viajem livremente e trabalhem, conforme a oportunidade se apresente, pela promoção da obra de Deus e a salvação das almas.”

Essas declarações fervorosas e dignas desse grande e respeitável corpo de homens cristãos produziram profunda impressão na comunidade. O Orleans American, de Albion, em editorial de 9 de dezembro de 1858, disse: “…As discussões foram conduzidas com animação, em bom espírito e com capacidade marcada. A ação da convenção foi harmoniosa a um grau que não antecipávamos. Compunha-se de homens capazes, que se puseram a trabalhar com seriedade para corrigir o que criam ser grande mal na administração dos negócios da igreja… O número de presentes foi muito maior do que antecipávamos, estando representadas todas as porções da conferência.”

De acordo com a recomendação da convenção, o irmão McCreery e eu percorremos a conferência, em nome de Cristo, realizando reuniões e trabalhando pela salvação das almas. Mas tínhamos o cuidado de declarar que não reivindicávamos autoridade alguma da Igreja Metodista Episcopal para realizar reuniões — que fazíamos o que fazíamos ao chamado de Cristo, sob a nossa própria responsabilidade como homens e como cristãos. Não só o anunciávamos nas congregações públicas, como, em março seguinte à expulsão, publiquei no Northern Independent: “Parece ser questão entre os doutores se pertenço à igreja ou não. Fiz o que pude para ficar; e, quando fui lançado fora sem culpa minha, tentei voltar, e realmente pensei tê-lo conseguido; mas o presidente de um recente julgamento eclesiástico — julgamentos que, diga-se, vão-se tornando bem numerosos na Conferência de Genesee — decidiu que não sou membro nem ‘em probação’… Mas, dentro ou fora, confio que ainda me seja permitido nutrir ‘o desejo de fugir da ira vindoura’. A nossa excelente disciplina especifica, entre os frutos desse desejo, ‘instruir, repreender e exortar todos com quem tivermos trato’. É, pois, o que estou fazendo. O Senhor abriu uma porta larga, pela qual entrei. Renuncio a toda autoridade humana; simplesmente ‘instruo, repreendo e exorto’, porque creio que ele me chamou a isso, e ele me abençoa nisso. Aonde quer que vamos, congregações grandes e atentas ouvem a palavra com interesse aparentemente profundo.”

Mas não é demais dizer que o partido dominante ficou grandemente agitado. O Buffalo Advocate e o Northern Advocate pareciam rivalizar em despejar sobre nós, e sobre todos os que nos davam ajuda e conforto, uma torrente constante de injúrias… O editor do Northern Independent, que não se deixava intimidar ao silêncio, falou da ação da conferência com a sua costumeira coragem e bom senso: “O editor do N. C. Advocate investe furiosamente contra os ‘naziritas’. Como se os infelizes irmãos designados por esse termo de gíria não tivessem sido suficientemente perseguidos, ele os ataca com a sua bravura e acuidade características. Finge crer que uma sociedade nazirita existiu um dia; outros, porém, sabem melhor… Ele parece esquecer que, entre as coisas mais insuportáveis, está o triunfo da arrogância oficial sobre a virtude caída. Devia saber que o homem contra quem as suas flechas principalmente se dirigem é seu igual em tudo, e seu superior em saber, em talentos e em todos os elementos mais altos do caráter ministerial… Reivindicamos que os homens tenham julgamento justo, e que um modo arbitrário e prepotente de dispor deles é apenas nova exibição do mesmo espírito desenfreado de opressão que manteve o africano pisado por eras. Mas o mais singular em tudo isto é a notável bravura do irmão Hibbard: sempre que a guilhotina eclesiástica corta a cabeça de um homem, ele imediatamente se apruma, como cavaleiro andante, e assalta o cadáver. É terrível — contra tal inimigo, Lutero e Knox não se lhe igualariam.” E o rev. Hiram Mattison, D.D., escreveu: “Quem não se lembra de que, pouco antes da última Conferência Geral, o irmão Hibbard publicou no Christian Advocate vários longos artigos em defesa das mesmíssimas doutrinas que agora chama ‘nazaritismo’?”

Capítulo 10 — Guerra contra os membros+

O poder arbitrário exige submissão abjeta. Conscientes da sua força e inflamados com a vitória, os pregadores usaram todos os meios para sujeitar os membros que se opunham aos atos opressivos da conferência. Nunca lemos, em período algum da história da igreja, do emprego, por pregadores, de medidas mais arbitrárias e tirânicas do que as adotadas pelos pregadores do partido dominante da Conferência de Genesee para subjugar os membros que não se curvavam implicitamente à sua autoridade. Tivesse tal tirania sido exercida pelos sacerdotes da Igreja Católica Romana, ter-se-ia levantado um clamor ouvido por todo o país e do outro lado do Atlântico.

Expulsar membros, ou riscá-los como “retirados” sem o seu consentimento, tornou-se a ordem do dia. O pregador era muitas vezes acusador, testemunha, juiz — e, se não júri, o júri era um corpo servil da sua própria criação: ele escolhia a comissão que julgava o caso; onde não se achassem na sociedade homens dóceis o bastante para cumprir as suas ordens, importava-os de longe. “Não farei o seu trabalho sujo”, disse indignado um pregador local do circuito, quando convidado a sentar-se num júri para expulsar Claudius Brainard. Trouxe-se então um de Buffalo, a setenta milhas, para o propósito.

Ter assistido à Convenção de Albion era tido por crime suficiente para expulsão. Não importava há quanto tempo o homem fosse membro da Igreja Metodista Episcopal, nem quão importantes os seus serviços ou grandes os seus sacrifícios em favor dela; não importava quão imaculada a sua reputação ou piedosa a sua vida: se ousasse ser amigo dos que a maioria da conferência anatematizara, estava sujeito aos mais pesados anátemas sobre a cabeça. Um pregador teve o caráter detido por orar conosco: por acaso, o rev. Rufus Cooley e a esposa, e eu e a sra. Roberts, nos encontramos na casa da mãe da sra. Cooley; depois do chá tivemos um momento de oração — o sr. Cooley orou, e eu orei. Por essa ofensa, o caráter do rev. Rufus Cooley foi detido na sessão seguinte da Conferência de Genesee!

Em 14 de fevereiro de 1859, o rev. Claudius Brainard, de North Chili, foi julgado e expulso por assistir à Convenção dos Leigos em Albion: três acusações e dezenove especificações, todas tiradas dos procedimentos da convenção. Por vários anos Claudius Brainard fora pregador itinerante aceito e útil; com a saúde abalada, teve de licenciar-se, mas continuou pregando conforme a saúde permitia. O seu círculo de relações era extenso, e onde quer que fosse conhecido era tido por cristão profundamente devotado, homem de integridade inflexível e piedade sincera. Para garantir o resultado, o rev. J. B. Lankton, pregador encarregado, convocou uma comissão de pregadores locais de longe — homens com que se podia contar para executar a vontade da “Regência”. Da sua expulsão, disse Brainard no Independent: “Ontem fui expulso da Igreja Metodista Episcopal por assistir à Convenção dos Leigos. Nenhuma outra acusação foi apresentada… A minha expulsão foi pela expressão dos meus sentimentos honestos. Se eu tivesse entregado o meu juízo a uma Conferência Anual, teria conservado a minha posição na igreja. Mas então eu não seria ministro do Senhor Jesus Cristo — nem sequer cristão. Prefiro morrer morte de mártir pelo meu próprio juízo a render o meu juízo a uma Conferência Anual. A minha alma descansa docemente em Cristo… Unir-me-ei em experiência, na primeira oportunidade, à Igreja Metodista Episcopal. É tempo de os leigos despertarem para os seus direitos na igreja.” Brainard apelou à Conferência Anual, que se recusou a conhecer da apelação — contra regra explícita da disciplina; mas não davam atenção à disciplina, senão até onde podiam usá-la para punir os que não se submetiam ao seu ditame. Quando perguntaram ao rev. Wm. D. Buck, amigo pessoal de Brainard, por que votara contra conhecer da apelação, respondeu com franqueza: “Porque o bispo Simpson me mandou.”

William Hosmer era o único editor desperto para as enormidades que se perpetravam, ou que tinha a honestidade e a coragem de expô-las à reprovação pública. Respondendo aos que procuravam ocultar que Brainard fora expulso por assistir à Convenção de Albion, porque havia três acusações contra ele, disse Hosmer: “Três acusações eram, para todos os efeitos, uma só… O crime de assistir àquela convenção poderia ter sido processado sob quarenta títulos diferentes e mil especificações — e tudo seria, substancialmente, a mesma e única acusação… A matéria é, em si, de grandíssimo momento, porque envolve claramente o direito dos leigos de reunir-se para a reparação de agravos. Se a assistência a tais reuniões há de ser interpretada como crime, ou se palavras ali ditas hão de ser processadas sob os graves títulos de ‘contumácia’, ‘calúnia’, ‘semeadura de discórdia’ etc., então, aconteça o que acontecer, os nossos leigos devem calar-se sob pena de expulsão. Tal condição de coisas não seria melhor que a sorte dos iludidos devotos da Igreja Católica… Quando a perseguição eclesiástica assume forma judicial, é um dos flagelos mais tremendos jamais soltos sobre a sociedade. As fogueiras de Smithfield foram acesas por judicatórios eclesiásticos desorientados, e todo auto de fé romano tem a mesma origem. Crendo não só que essas decapitações eclesiásticas são a pior espécie de assassínio, mas que a escravidão exigirá noutras conferências a repetição das cenas encenadas na Conferência de Genesee, havemos de informar o público do que se passa e despir esses procedimentos da sua santidade presumida.”

No mesmo circuito, o sr. Thomas Hannah e Alexander Patten foram também expulsos pela mesma causa: fazendeiros prósperos, homens de juízo sólido e piedade sadia. Hannah pagara havia pouco trezentos dólares por um templo do circuito e dera nota promissória por mais trezentos — que eles cobraram, embora o tivessem excluído sem cerimônia da casa que a nota se destinava a pagar. O sr. John Prue, a sra. Sarah Prue, o sr. e a sra. Hutchins, a sra. Elizabeth Porter, a sra. H. Loder, Fanny Smith e a sra. N. S. Brainard foram riscados como “retirados” sem o seu consentimento — Prue e outros acabavam de contribuir com liberalidade para a construção dos templos. No circuito vizinho, o sr. Hart Smith, cristão íntegro e consciencioso, membro da igreja por anos, foi expulso pelo rev. Sumner Smith com a ajuda de comissão trazida de Chili — recusando-se os membros de Churchville a atuar no caso.

Em 13 de abril de 1859, o sr. Thomas B. Catton, de Perry, foi julgado pelo seu pastor, rev. W. S. Tuttle: quatro acusações e vinte e três especificações. O pastor deu por assentado desde o início que ele devia ser expulso, e o citou “para responder às ditas acusações e especificações, e mostrar razão por que você não deve ser expulso da Igreja Metodista Episcopal”. Nos outros tribunais, a acusação deve mostrar razão por que o acusado deve ser punido; neste, dava-se por certo que o acusado de ser “nazirita” merecia a pena máxima, e ele é que devia mostrar razão por que ela não devia ser infligida. Como no caso do rev. Lankton, o rev. Tuttle dizia-se um daqueles contra quem a ação da Convenção de Albion se dirigira — isto é, parte no caso — e, contudo, atuou como juiz, escolheu o próprio júri e, na realidade, conduziu a acusação. Escreveu-nos Catton na época: “…Quando um ministro metodista pode tomar a posição que o rev. W. S. Tuttle tomou neste julgamento, e achar devotos que executem os seus desejos, é mais que tempo de os leigos despertarem. Não pode haver segurança quando um homem que se diz caluniado pode, no julgamento do acusado de caluniá-lo, sentar-se como juiz, nomear o júri e repudiar as leis da prova estabelecidas por eras. Quem já ouviu, fora da Conferência de Genesee, de um membro da Igreja Metodista Episcopal julgado e punido por não poder, em consciência, pagar o ministro nomeado? E, contudo, Tuttle declarou que escrevera ao bispo Baker e tinha a sua sanção para iniciar ação sob essa nova regra…” Nesse julgamento, várias testemunhas fidedignas depuseram que, de seu conhecimento, pregadores da chamada “Regência” estiveram ausentes da conferência por um dia inteiro enquanto se tomavam as provas no caso do rev. B. T. Roberts. E. Sears, Thomas Jeffres e J. Grisewood testemunharam que, em diferentes ocasiões, ouviram diferentes pregadores que votaram pela expulsão de B. T. Roberts dizer que não votaram pela evidência produzida: a única razão que qualquer deles deu foi que ele empreendera a defesa do panfleto de Estes — sete pregadores diferentes fizeram essa declaração. Catton fez defesa tão vigorosa, e a simpatia pública se agitou tanto a seu favor, que — coisa estranha — não foi então expulso: foi censurado. Depois teve outro julgamento por “contumácia”, e por fim foi despachado com dezessete outros que, sem o seu consentimento, foram riscados como retirados.

O sr. Jonathan Handly, de Perry, um dos membros sólidos, quietos e substanciais da igreja por mais de trinta anos, contra cujo caráter moral e cristão os seus inimigos mais amargos nada podiam alegar, foi julgado por assistir à Convenção dos Leigos — e expulso! Copiamos do Olean Advertiser, sobre outro expulso pela mesma causa: “James H. Brooks, Esq., residente em Olean há mais de trinta anos, homem de caráter privado sem mancha, membro da Igreja Metodista Episcopal desde os quinze anos de idade, cristão de valor e utilidade reconhecidos, cidadão contra quem o sopro da calúnia jamais soprou até agora, foi expulso da igreja. Anunciado o fato, a pergunta é natural e pertinente: por quê?… Generosidade, integridade, honestidade e piedade viva são características eminentes do homem… Foi de fato verídica a exclamação do acusado após a condenação, não contraditada pelos acusadores: ‘A minha velha mãe, ali sentada, já deu mais refeições a metodistas do que todo o resto desta igreja junto.’ … Confessamos partilhar o sentimento geral desta comunidade: fez-se ao sr. Brooks um agravo gravíssimo.”

Tão intoleráveis se tornaram os atos opressivos dos pregadores dominantes, que se convocou a Convenção dos Leigos a que o rev. Crawford alude no seu relato do acampamento de Bergen. Na convocação, o hon. Abner I. Wood, presidente, e os secretários, rev. S. K. J. Chesbrough e W. H. Doyle, dizem aos membros da recente “Convenção de Albion”: “Queridos irmãos: …Desde a nossa ação em Albion, temos sido deturpados e o nosso caráter, caluniado. Pedra alguma ficou por revolver, pela lisonja ou pela ameaça, para intimidar a muitos das posições então tomadas… Interesses importantes estão em jogo; sentimos o calcanhar de ferro da opressão pesadamente posto sobre nós como leigos. Não queremos ser escravos de poder algum. Muitos dos nossos amados irmãos que ali agiram conosco foram julgados por assistir àquela convenção — alguns foram expulsos. Reunamo-nos e mostremos-lhes que a causa é uma, e que, quando eles sofrem, sofremos com eles… O medo da expulsão ou da remoção de ofício jamais deveria desviar um metodista do cumprimento do seu dever. Precisamos também reafirmar a nossa confiança não diminuída nos nossos amados irmãos Roberts e McCreery… Convidamos cordial e fervorosamente todos os irmãos que simpatizam conosco… a reunir-se em convenção em North Bergen, no terreno do acampamento de Genesee, quinta-feira, 20 de junho de 1859, às 4 da tarde, para tomar a ação que ali for julgada aconselhável.”

Capítulo 11 — Mais pregadores expulsos+

A sessão seguinte da Conferência de Genesee realizou-se em Brockport, em outubro de 1859. Os esforços para matar a influência daqueles que a conferência anterior escolhera para exemplo haviam fracassado retumbantemente: os pregadores expulsos nunca foram tão cordialmente recebidos pelo povo quanto naquele ano. O Buffalo Advocate e o Northern Advocate transbordavam de apelos inflamados aos seus aderentes para esmagar o que chamavam o “nazaritismo” ainda remanescente na conferência. O partido dominante veio disposto a adotar quaisquer medidas que os seus líderes propusessem para terminar a obra de exterminação começada. O seu mau humor intensificou-se com o espetáculo que testemunharam ao chegar: nos arredores da vila, à vista clara e quase ao alcance dos ouvidos do templo, Fay H. Purdy, evangelista bem conhecido da Igreja Metodista Episcopal, iniciara uma reunião de tendas que continuaria durante toda a sessão da conferência — um grande pavilhão para três mil pessoas, rodeado de várias filas de tendas de famílias e sociedades, reunindo grande número de cristãos inteligentes, devotados e fervorosos, estigmatizados pelo partido dominante como “naziritas”.

Era evidente, na abertura, que medidas extremas seriam adotadas — e a expectativa não se frustrou; mas a audácia da maioria em pisotear a lei humana e divina excedeu as antecipações dos que tinham a mais alta opinião da sua capacidade de fazer o mal. Segundo a constituição da Igreja Metodista Episcopal, uma Conferência Anual não tem poderes legislativos: pode executar as leis da igreja que caiam na sua alçada, mas não pode fazer leis, nem dar força de lei a decretos próprios afixando-lhes penalidade — os seus poderes são executivos e judiciais. Contudo, esta conferência, no segundo dia de sessão, aprovou cinco “resoluções” — as quatro primeiras dirigidas contra a fraternização com os pregadores expulsos e contra “realizar de modo irregular, ou apoiar, tomando parte, os cultos de acampamentos ou outras reuniões assim irregularmente realizadas”. A última resolução dispunha: “Que, se algum membro da conferência for achado culpado de desrespeitar as opiniões e princípios expressos nas resoluções acima, responderá por isso perante esta conferência.” Essas resoluções foram feitas teste no exame de caráter: os pregadores que concordassem em ser governados por elas eram aprovados; os que não, eram postos em julgamento, a menos que se licenciassem. Diz-se que o bispo Simpson, que presidiu a essa sessão, deu a essas “resoluções-teste” o seu endosso e apoio enfáticos. De acordo com o espírito delas, o bispo Simpson ordenou a vários pregadores vindos de outras conferências para ajudar o sr. Purdy que não tomassem mais parte na reunião. Alguns obedeceram; mas o rev. D. W. Thurston, presbítero presidente do distrito de Cortland, Conferência de Oneida, continuou trabalhando nas reuniões — o bispo o chamou perante uma comissão e o admoestou, mas a admoestação não foi atendida.

Sob a operação dessas resoluções, os revs. J. W. Reddy e H. H. Farnsworth foram licenciados; os revs. Loren Stiles Jr., John A. Wells, William Cooley e Charles D. Burlingham, não se dispondo a submeter-se a essa assunção tirânica de autoridade, foram expulsos da conferência e da igreja.

As acusações contra o rev. L. Stiles Jr. foram: 1) falsidade — por alegada contradição nos seus depoimentos sobre ter recebido ou não a prova tipográfica do panfleto de Estes; 2) contumácia — 1º) por receber no seu púlpito, e tratar como ministro, um membro expulso desta conferência; 2º) por entrar nos limites do pastorado de F. W. Conable e ali realizar reuniões e organizar uma classe, contra a admoestação do seu presbítero presidente. A primeira acusação foi feita só para tentar enegrecer-lhe o caráter; não houve sombra de prova, e a maioria se conteve a ponto de votá-la não sustentada — Deus não permitiu que nem eles pusessem essa mancha no seu servo. Da primeira especificação da segunda acusação não houve prova alguma: mostrou-se que, uma vez no ano, o rev. B. T. Roberts esteve numa reunião trimestral geral na igreja de Albion, da qual Stiles era pastor; certa noite, depois que o rev. B. I. Ives pregou, B. T. Roberts, a convite dele, exortou — mas mostrou-se que ele tinha, então, licença regular de exortador em devida forma! Roberts foi tratado simplesmente como exortador, e nada mais: não foi chamado a executar, nem executou, uma só função de “ministro”. A segunda especificação foi admitida como nominalmente verdadeira: Holley é uma vila grande entre Brockport e Albion, onde havia anos não existia sociedade nem pregação metodista. Quando fui estacionado em Brockport, preguei ocasionalmente ali, a convite; depois de Stiles ir para Albion, ele manteve esses compromissos ocasionais em Holley; crescendo o interesse e convertendo-se almas, formou uma classe — que, acrescentemos, cresceu numa igreja próspera, que construiu um dos mais belos edifícios do lugar. Nenhuma objeção se fez, até que a obra de expulsão começou e se buscou “ocasião” contra Stiles. Conable não tinha ponto de pregação em Holley, nem nunca tivera: o mais próximo ficava a umas três milhas; a pregação de Stiles era geralmente em dia e hora diferentes da dele; os dois ou três membros de Conable residentes em Holley continuavam contribuindo, como sempre, para o seu sustento. De sorte que Stiles, indo pregar em Holley, não interferiu de modo algum nem nos seus compromissos, nem no seu salário. Não se tentou mostrar que Stiles violara qualquer disposição da disciplina; ao contrário, ele leu, das regras de conduta do pregador: “Você nada tem a fazer senão salvar almas; portanto, gaste-se e deixe-se gastar nesta obra; e vá sempre não só aos que precisam de você, mas aos que mais precisam.” Foi exatamente o que ele fizera — nada mais, nada menos. Sobre tal acusação, assim sustentada, a maioria votou expulsar da Conferência de Genesee E DA IGREJA METODISTA EPISCOPAL Loren Stiles Jr. — um dos homens mais devotados, eloquentes, dotados e de coração mais nobre então no ministério daquela denominação.

De todos os jornais metodistas, oficiais ou independentes, só um se pronunciou em condenação dessa ação violenta e ilegal. E, contudo, poucos anos depois, quando o rev. S. Tyng Jr. foi brandamente censurado pelas autoridades da Igreja Episcopal Protestante por pregar na paróquia de outro clérigo sem o seu consentimento, os jornais metodistas, com muito calor e zelo, condenaram tal invasão da liberdade pessoal! Mas havia esta diferença: a igreja de Tyng tinha lei clara proibindo o ato; a Igreja Metodista não tinha lei alguma que proibisse aos seus ministros fazer o que Stiles fizera. Tyng pregou na vizinhança imediata de uma igreja episcopal; não havia igreja nem ponto de pregação metodista a menos de três milhas do lugar onde Stiles pregava. Tyng pregou nas horas regulares de culto; Stiles pregava geralmente numa noite de dia útil, sem interferir com pregador algum, em parte alguma. Explicarão os editores metodistas por que era errado a Igreja Episcopal censurar Tyng — e certo a Igreja Metodista Episcopal expulsar Stiles do ministério e da igreja pelo mesmo ato, quando todos os pontos de diferença favoreciam Stiles?

O caso do rev. C. D. Burlingham

Extraímos da “Declaração de C. D. Burlingham à Conferência de Genesee”, em resposta à acusação de “contumácia” apresentada pelo rev. D. F. Parsons (Brockport, 15 de outubro de 1859). Primeira especificação: “Por receber um membro expulso da Conferência de Genesee na igreja, em experiência, sem confissão nem reforma satisfatória.” Respondeu Burlingham: “Recebi Benjamin T. Roberts em experiência, em Pekin, em 7 de novembro de 1858, numa reunião geral da sociedade, por voto unânime, sem que ele confessasse o alegado crime pelo qual fora expulso. As minhas razões: 1) Creio que há casos excepcionais na aplicação da regra da disciplina referida — pois, se a letra estrita da regra devesse sempre reger os casos de candidatos à admissão em experiência, seguir-se-ia que uma pessoa inocente, injustamente expulsa, jamais poderia ser readmitida na igreja… Entendo que o bispo Baker confirma esta visão (Guide Book, p. 159): ‘…se, porém, a sociedade se convencer da inocência do membro expulso, ele pode ser recebido de novo em experiência, sem confissão.’ 2) Cri que tal admissão não removeria o fundamento da sua apelação à Conferência Geral… 3) No dia seguinte à expulsão, notificada a apelação, a questão da sua admissão foi discutida informalmente pelos bispos Janes e Baker e pelos presbíteros presidentes… Nenhum daqueles sete oficiais da igreja tomou a posição de que houvesse na lei metodista algo que impedisse a sua recepção… Posteriormente, o bispo Janes, como o irmão Roberts me informou, disse-lhe que não perdera a confiança nele e que podia unir-se de novo à igreja… Juntei uma coisa à outra e, ligando ambas ao conselho de ministros eminentes, dentro e fora dos limites da nossa conferência, e depois de receber toda a luz então acessível, recebi-o em experiência… 4) Um quarto ponto é um caso perfeitamente análogo, de notoriedade mais que ordinária, ocorrido nos nossos limites: um membro proeminente foi expulso; apelou; … sob a instrução e conselho do experientíssimo presbítero presidente do distrito — homem de profunda erudição —, esse expulso foi recebido em experiência, sem confissão, num pastorado a poucas milhas… Se aquela administração foi correta, cobre, do ponto de vista moral, o meu ato… Quando homens mais sábios do que eu podem assim praticar sem ser tratados como contumazes, certamente eu deveria ter o benefício de igual clemência… A conclusão destes cinco pontos resume-se em poucas palavras: não há — não pode haver — sombra de contumácia, nem no princípio, nem no motivo, nem no ato.”

Segunda especificação: “Por dar ao dito membro expulso licença de exortador, no momento de tal recepção em experiência.” Respondeu: “Pela recomendação, quase unânime, da mesma reunião geral da sociedade que votou pela sua recepção, dei-lhe licença de exortador… As minhas razões: 1) para que ele pudesse, de modo regular e ordeiro, exortar religiosamente o povo; 2) cri que ele era realmente membro em experiência, em boa posição, legalmente — e a opinião do bispo, dada há cinco ou seis dias, confirma esta visão; 3) a lei do uso permite e sanciona, nalguns casos, administração como a minha: o rev. bispo H. B. Bascom, D.D., foi autorizado a exortar enquanto em experiência; um membro destacado da Conferência de Oneida, oito ou dez anos presbítero presidente, diz ter conhecido muitos casos semelhantes, vários sob a sua própria administração; e alguns dos membros mais velhos desta conferência dizem ter conhecido numerosos exemplos… A ideia de erguer o meu juízo privado em oposição e resistência às decisões solenes da conferência jamais entrou nos meus pensamentos ou no meu coração… Se a minha administração foi incorreta, certamente não é erro do coração; e certamente eu não deveria ser tido por contumaz por não ser mais sábio.”

Terceira especificação: “Por assistir e ajudar numa chamada ‘Reunião Trimestral Geral’ realizada em Ransomville, em fevereiro último, dentro dos limites do pastorado de East Porter, e ao mesmo tempo da reunião trimestral regular do dito pastorado.” Respondeu: “Assisti a tal reunião em Ransomville, e os fatos seguintes mostrarão que não o fiz contumazmente contra a conferência, nem desdenhosamente contra o oficial presidente do distrito: 1) à luz do exposto, eu considerava o irmão Roberts autorizado, naquele tempo, a realizar reuniões religiosas onde houvesse abertura… 2) os wesleyanos haviam convidado a reunião para o seu templo, não tendo o nosso povo, segundo entendo, nem templo nem ponto de pregação na localidade; 3) eu nunca soube, nem sonhei, até me apresentarem esta peça, que Ransomville ficava no pastorado de East Porter… 4) a varíola grassava, em certa medida, no nosso lugar, e as nossas reuniões estavam suspensas… 5) a reunião calhou de ocorrer no dia da reunião trimestral do pastorado de Porter. Nada tive com a sua convocação ou marcação da data; e tenho boa razão para crer que a marcação foi feita na ignorância de que a outra reunião seria ao mesmo tempo…”

Concluía Burlingham: “…Não sou homem de interferir no trabalho pastoral e evangélico de outros nos seus respectivos pastorados: geralmente tenho mais do que posso fazer perto de casa… Irmãos, procurei atender a cada ponto da peça; e, embora admita alguma parcialidade pelo meu cliente, devo dizer, com toda a candura: não há — não pode haver — nas vossas convicções sobre o caso a sombra de qualquer prova que sustente a acusação; embora todas as especificações sejam quase literalmente verdadeiras, não há no caso o mais leve grau de contumácia.” Para toda pessoa cândida, essa deve ser uma defesa completa. Mas a maioria da conferência não lhe deu atenção e, como tinha os votos para tanto, votou-o culpado e lhe infligiu a pena mais alta ao seu alcance: expulsão da conferência e da Igreja Metodista Episcopal. Esse era o limite da sua capacidade.

O caso do rev. William Cooley

Acusação: contumácia. Primeira especificação: “Por receber no seu púlpito, e tratar como ministro, um membro expulso desta conferência.” Segunda: “Por violar os desejos e pedidos dos seus irmãos, expressos em resoluções aprovadas nesta sessão da conferência, contra a associação com membros expulsos.” Na defesa, disse Cooley: “Admito que B. T. Roberts uma vez falou ao povo na vila de Kendall, e J. McCreery uma vez em West Kendall, do púlpito. Tivemos uma reunião de quatro dias em Kendall; o irmão Roberts veio, mas não a meu pedido, e exortou uma vez — eu o convidei a tomar parte e exortar. O irmão McCreery veio a uma reunião de dois dias em West Kendall; não o convidei; subiu ao púlpito e falou ao povo, segundo disse, por autoridade própria.” O presbítero presidente, rev. A. D. Wilbor, testemunhou tê-lo admoestado — mas só depois de iniciada a sessão da conferência. Quanto à segunda especificação, o réu admitiu ter pregado no acampamento de Purdy — mas antes de as resoluções da conferência serem aprovadas. Testemunhas descreveram tê-lo visto no acampamento, sentado na plataforma, ajoelhado em oração, participando “do que eu chamaria o concerto geral de gritos e palmas”; viram McCreery no estrado e indo à comunhão, administrada pelo presbítero presidente Thurston, da Conferência de Oneida, com vinte a trinta ministros presentes.

Pouco depois da expulsão, escreveu Cooley estas notas sobre o seu julgamento: “1) A segunda especificação foi acrescentada depois de começado o julgamento e alterada duas vezes; e, por sugestão do bispo Simpson, a maior parte dela foi retirada — para impedir o testemunho do irmão Purdy, que teria mostrado que a sua reunião era regular, pois tinha o consentimento do rev. E. M. Buck para realizá-la. 2) O irmão Roberts exortou em Kendall no começo do ano conferencial, e o presbítero presidente esteve quatro vezes no meu circuito durante o ano, com oportunidades de me admoestar do meu grande erro — e nunca trocou comigo uma palavra sobre ser isso irregularidade, até o segundo ou terceiro dia desta sessão. Parece, certamente, que o desígnio não era coibir irregularidades, mas achar ocasião contra mim. 3) Quando o meu julgamento estava quase no fim, ministros de destaque da Regência vieram dizer-me que, se eu me licenciasse, poderia sair com papéis limpos, como pregador local. Mas eu sentia ter vivido em toda boa consciência e nada ter feito que perdesse as minhas relações conferenciais, e não podia tomar sobre mim tal responsabilidade. 4) Fizeram-se grandes esforços para que eu subscrevesse as ‘cinco resoluções puseístas’ aprovadas pela conferência, com o entendimento de que, se o fizesse, o meu caráter passaria; mas eu não podia renegar a minha dignidade de homem, e as minhas obrigações para com Deus de obedecer a ele antes que aos homens, a ponto de prostrar-me diante daquele ídolo erguido por homens. Fui, pois, expulso — primeiro da conferência, depois da igreja; mas Deus tem estado comigo cada hora desde então, salvando e guardando a minha alma em gloriosa liberdade, e posso dizer: ‘nenhuma destas coisas me move, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que complete a minha carreira com alegria, e o ministério que recebi do Senhor Jesus.’”

A apelação do rev. John A. Wells

“Aos membros da Igreja Metodista Episcopal e a todos os que respeitam os direitos da humanidade e da religião. Queridos irmãos: permitam-me apresentar uma declaração cândida dos fatos da minha expulsão. O diário da Conferência de Genesee de 13 de outubro de 1859 registra: ‘Resolvido: que John A. Wells seja expulso da Conferência de Genesee e da Igreja Metodista Episcopal.’ As acusações: 1ª) contumácia — por reconhecer como ministro, admitindo-o ao seu púlpito e realizando reuniões religiosas em conexão com B. T. Roberts, um membro expulso desta conferência; 2ª) desobediência à ordem da igreja — por entrar nos limites dos pastorados de outros irmãos e realizar reuniões religiosas. Seria fraco, de fato, dizer que estou insatisfeito com essa ação da conferência: desferiu-se um golpe nas vitais da liberdade cristã… Admiti no julgamento que permitira a B. T. Roberts falar no meu púlpito, e que assistira e tomara parte em reuniões dirigidas por ele; também que pregara, em poucos casos, nos limites dos pastorados de outros irmãos. Nada de material se provou além disso. Mostrei na defesa: 1º) que B. T. Roberts, desde a expulsão, fora admitido à Igreja Metodista Episcopal em experiência e licenciado como exortador, e como tal o recebi. O bispo Simpson decidira que um erro ou irregularidade do administrador da disciplina não invalida o título de membro da pessoa recebida na igreja: logo, o irmão Roberts era legal e propriamente membro em experiência… Eu não podia proibir de falar no meu púlpito um homem que vinha com tais recomendações. Se nisto há contumácia, ela há de consistir na recusa de sujeição absoluta à vontade da Regência de Buffalo — não na resistência à autoridade razoável da igreja. 2º) que nenhum dos pregadores em cujos pastorados preguei jamais me insinuara, por palavra ou carta, desagrado; nem o meu presbítero presidente jamais me admoestara… Sustento que fui expulso da igreja por crime nenhum — nem contra a Palavra de Deus, nem contra a disciplina metodista… Eu tinha, por muitos anos, o irmão Roberts na conta de servo devotado de Deus, eminente pela utilidade. Cria realmente que a sua expulsão era só resultado do ódio despertado pela sua fiel denúncia do pecado, e que ele era, à vista do céu, tão servo de Deus e ministro do evangelho depois da expulsão quanto antes. Eu não podia fazer menos que recebê-lo: proibi-lo de falar no meu púlpito teria sido um pecado contra Deus que eu não carregaria no juízo por mundo algum. 2. Não pequei pregando nos territórios reivindicados por outros pregadores: simplesmente pregar o evangelho foi tudo o que fiz… A comissão que Deus me deu é: ‘Vão por todo o mundo.’ Fui ordenado presbítero na igreja de Deus. Se há algo na nossa ordem eclesiástica que limite o meu direito de pregar a um pequeno pastorado, mostre-se… Ao entrar nas fileiras itinerantes do metodismo, rendemos o direito de escolher o campo de trabalho a ponto de permitir que o presidente da conferência nomeie onde pregaremos; mas não rendemos os nossos direitos a ponto de que ele, ou qualquer outro poder na terra, possa determinar onde não podemos pregar. Fazer tal rendição seria traição contra Deus… A conferência, no segundo dia da sessão, adotou uma série de resoluções que equivaleram a uma lei ex post facto, pela qual o caráter de cada pregador devia passar… Até onde irá esta perseguição, só o futuro revelará. A maioria da conferência está evidentemente decidida, levantando o grito de ‘cão raivoso’ do ‘nazaritismo’, a expulsar da igreja todos os que têm religião bastante para não endossar as suas medidas. O que outros farão, não sei dizer; quanto a mim, ainda estou firmemente apegado de coração à Igreja Metodista Episcopal: creio nas suas doutrinas e amo a sua disciplina. Apelei à Conferência Geral. Voltarei à igreja, se puder. — J. A. Wells. Belfast, 20 de outubro de 1859.”

Dessas expulsões falou o editor do Northern Independent, em termos valentes e justos de condenação (20 de outubro de 1859): “Até o momento em que escrevemos, quatro dos melhores membros da conferência foram expulsos, da conferência e da igreja. Já conhecemos desatinos eclesiásticos, mas nunca um tão grande quanto este… Todo homem de bom senso sabe que contumácia não é necessariamente crime; portanto, ainda que o réu fosse culpado de tudo o que se lhe imputou, não havia ocasião para a sua expulsão. A contumácia é muitas vezes virtude. Pode ser dever de um ministro cumprir as regras impostas por uma maioria, ou pode não ser: tudo dependerá do caráter das regras — se retas, pode guardá-las; se não retas, está obrigado a desrespeitá-las, ou pôr em perigo a sua alma. Quando a ação da conferência é justa e sábia, torna-se obrigatória; quando é injusta e insensata, a obrigação cessa. Do contrário, uma Conferência Anual, tornando-se perversa, poderia decretar que todos os seus membros se abstivessem de orar, e o decreto obrigaria. Sendo absurda tal conclusão, somos obrigados a rejeitar as premissas em que repousa, e a sustentar que as conferências só têm poder até onde se mantêm no que é reto… Mas o fato é que não temos, nem jamais tivemos, regra alguma que faça da contumácia um pecado. Não é ofensa nomeada nem contemplada pela nossa disciplina. É crime inaudito nos anais do metodismo — miserável arremedo das prerrogativas mais questionáveis e perigosas jamais exercidas pela autoridade secular… Ao fazer esses julgamentos repousarem sobre essa base, a conferência, de fato, estabeleceu lei nova e deu poder soberano a qualquer resolução avulsa que porventura se aprove… Agindo pelo mesmo princípio, a Conferência de Genesee, ou qualquer outra, só precisa aprovar uma resolução de que nenhum membro assine o Northern Independent, e a obra está feita: daí em diante, quem obtiver um assinante ou receber o jornal em casa é culpado de contumácia e destinado à expulsão. Assim essa presunção infundada se apodera da imprensa, varre todo vestígio de liberdade pessoal e faz da minoria da conferência os mais completos escravos… Uma Conferência Anual pode expulsar um pregador por violar a disciplina — não por violar uma regra sua própria. Não fosse essa restrição necessária, cada Conferência Anual poderia fazer leis ad libitum, e o poder legislativo da Conferência Geral seria nulidade. Certamente, à vista das resoluções acima, todo pregador metodista pode perguntar: temos uma lei orgânica? Ou estamos à mercê de uma mera maioria, como quer que obtida e como quer que disposta?”

Prosseguia o editor: “Pode ser pecado, e causa suficiente de expulsão, tratar um ministro expulso como se ainda fosse ministro; mas a nossa igreja em parte alguma o afirmou. Tudo o que a disciplina diz é que, depois de julgada a apelação — note-se —, ‘a pessoa assim expulsa não terá privilégio de sociedade ou sacramento na nossa igreja, sem confissão, contrição e reforma satisfatória’… Na lei civil, a execução da sentença aguarda a ação do tribunal de apelação: não enforcamos um homem porque o júri o achou culpado, mas esperamos a audiência final perante o tribunal mais alto. Seguindo a analogia, um ministro expulso por uma Conferência Anual está, no máximo, apenas suspenso… Esses casos de expulsão subirão, sem dúvida, à próxima Conferência Geral, onde é bem certo que serão revertidos, se puderem ser ouvidos com equidade… Se, depois da expulsão, eles prosseguem trabalhando — não como metodistas, mas como homens — e fazem o bem que podem, isso não lhes deve ser imputado como crime, nem prejudicar em nada a sua apelação. Eles ainda têm o que Deus e a natureza lhes deram: o direito de falar e agir como homens e como cristãos; o metodismo só tira o que deu. O dom da vida, a comissão divina e a certeza do perdão vêm todos de fonte mais alta — fonte sobre a qual as conferências não têm controle. Estamos convencidos de que há, na administração daquela conferência, um princípio que, se não contido, será fatal ao metodismo: as nossas Conferências Anuais se converteriam em outras tantas pequenas tiranias, igualmente danosas aos homens e ofensivas a Deus; as maiorias se tornariam simples máquinas de extirpação do sentimento progressista. Depois de escrito o acima, recebemos do irmão Roberts: ‘Aprovou-se no sábado uma resolução contra qualquer membro da conferência atuar como agente do Northern Independent.’ Ora, todos sabemos o que tal resolução significa na Conferência de Genesee: todo pregador que ousar atuar como nosso agente será expulso por contumácia. Assim a guerra começou abertamente. Saber-se-á agora se os metodistas são escravos ou homens livres.”

Mr. Stiles — que estudara no seminário teológico metodista de Concord e vivera bastante, um ano estacionado em Cincinnati — tinha ideia mais correta que os outros expulsos da justiça que se podia esperar da Conferência Geral. Disse que de nada valia apelar, e que não desperdiçaria o tempo nem suportaria o desgaste de uma apelação, pois não tinha esperança alguma de que a Conferência Geral fizesse justiça. Voltou a Albion ao chamado urgente do povo. Membros da igreja e da congregação que “amavam a justiça e odiavam a iniquidade” se reuniram ao seu redor. Eram maioria tão larga que, segundo a equidade e as leis do estado, tinham direito à propriedade eclesiástica; mas preferiram não dar causa de queixa e “aceitaram com alegria o confisco dos seus bens”: os amigos abriram mão da propriedade. Com grande presteza o povo lhe ergueu em Albion um grande edifício, onde ele viveu, trabalhou e morreu no afeto caloroso da comunidade. Ajudou a formar a disciplina da Igreja Metodista Livre e deu os seus esforços cordiais para a eleição do seu primeiro superintendente geral. Era de natureza sensível demais para suportar a tensão a que as indignidades sofridas às mãos da Conferência de Genesee o haviam sujeitado. Foi acometido de febre tifoide, de caráter maligno desde o início. Foi grandemente abençoado na alma ao adoecer, e a isso se referia muitas vezes, mesmo nos acessos de delírio. Certa noite, quando velávamos junto dele, imaginou estar nas mãos de uma comissão de sociedade secreta e exclamou: “Irmão Roberts, quero que você saia e diga à comissão que estou pronto a morrer em duas horas, ou numa hora, ou mesmo neste minuto. O Senhor me abençoou grandemente, e irei direto para a glória.” Na véspera da morte, disse ao médico: “Tudo está bem.” Foi enfraquecendo aos poucos e, sem luta, em 7 de maio de 1863, o seu espírito puro passou aos domínios da bem-aventurança. O funeral foi assistido por imensa congregação — o grande templo cheio, e centenas do lado de fora. O rev. William Hosmer, seu companheiro de heroísmo na batalha contra todo pecado e erro, pregou eloquente e impressionante sermão sobre o texto “ficou firme como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.27), dizendo, ao concluir: “Não temos palavras adequadas a esta ocasião. Aquele que jaz diante de nós, abatido na sua flor, foi ilustração viva da grandeza produzida pela presença de Deus… Quando a Conferência de Genesee retirou a sua sanção do seu ministério, ele não sentiu falta: Deus ainda estava com ele, e ele não pedia mais… O Sumo Pastor e Bispo das almas, em vez de conceder-lhe baixa do serviço, fizera por ele o que antes fizera por Lutero e Wesley: alargara o seu pastorado, removendo as peias da autoridade eclesiástica… Não devemos queixar-nos de que o seu sol se pôs ao meio-dia — antes gloriemo-nos de que se pôs no pleno esplendor do brilho meridiano.”

Charles D. Burlingham, ao ser expulso, era pregador efetivo da Conferência de Genesee havia dezenove anos; por quatro anos ocupara com aceitação o ofício de presbítero presidente. Pregador de capacidade acima da comum, original no estilo, claro nos raciocínios e feliz nas ilustrações, trabalhara além das forças físicas e ficou com a constituição quebrada, com família grande e dependente, e sem meios de sustento. Foi restaurado à conferência por meios que mostraram a injustiça da Igreja Metodista Episcopal quase tão fortemente quanto a sua expulsão. Continuou pregando por quinze anos, mas nunca recobrou o vigor de antes: parecia um homem esmagado, de coração partido. Morreu em 1874. William Cooley fora por dezessete anos pregador diligente, fiel e aceito: homem quieto, pacífico, inofensivo e íntegro; pregador claro, bíblico e penetrante, com bons avivamentos nos campos em que trabalhou — prega hoje na Igreja Metodista Livre em Iowa. O rev. J. A. Wells fora sete anos pregador bem-sucedido na conferência: bom pregador, estudioso, inteiramente entregue à obra de Deus, homem de intenção honesta e integridade inflexível — é hoje, cremos, pastor da igreja presbiteriana de Springville.

A Convenção dos Leigos realizou a segunda sessão anual na igreja batista de Albion, em 1º e 2 de novembro de 1859… Disse a convenção: “Quando nos reunimos no ano passado, confiávamos que os pregadores, cujo proceder foi a causa da nossa assembleia, fossem levados ao arrependimento e à reforma. Mas as nossas esperanças murcharam… O proceder de alguns dos nossos pregadores, expulsando da igreja membros em boa posição e alta reputação de caráter cristão, por terem assistido à nossa convenção de dezembro, temo-lo por cruel e opressivo… Que vale o direito do juízo privado, se não podemos exercê-lo sem atrair sobre a cabeça esses anátemas eclesiásticos? A ação da maioria, expulsando da conferência e da igreja quatro ministros capazes e devotados, e licenciando dois outros, pelos pretextos mais frívolos, é tão contrária aos princípios da justiça e do nosso santo cristianismo… A acusação contra cada um foi a conveniente ‘contumácia’. Onde, na Bíblia ou na disciplina, se fala da ‘contumácia’ como crime? É acusação a que geralmente se recorre para fins de opressão. Trate-se como crime o que quer que o poder dominante na igreja queira chamar ‘contumácia’, e a liberdade religiosa está no fim. Não há homem honesto na conferência que não possa ser expulso por ‘contumácia’ sempre que, por quaisquer meios, se obtenha maioria contra ele… A Regência não só expulsou servos devotados de Deus por contumácia, como o fez nas circunstâncias mais agravadas: uma Conferência Anual não possui poder de fazer leis; uma resolução com penalidade afixada é, para todos os efeitos, uma lei; a Regência aprovou resoluções na última sessão e depois julgou e expulsou homens por violá-las meses antes de existirem! Que homem honesto possa nutrir respeito por tal ação judicial é absolutamente impossível… Na segunda conferência realizada por Wesley perguntou-se: ‘A vontade dos nossos governantes não é lei?’ A resposta foi enfática: ‘Não — de governante algum, temporal ou espiritual. Portanto, se algum bispo quiser que eu não pregue o evangelho, a sua vontade não é lei para mim.’ ‘E se ele apresentasse uma lei contra a sua pregação?’ ‘Devo obedecer a Deus antes que aos homens.’ Esta é a linguagem do fundador do metodismo. Como ela repreende as presunções arrogantes e papistas de alguns pretensos seguidores de Wesley!… Os ministros, pois, não são ‘a igreja’. Se os ministros querem ter os seus atos respeitados, devem, como os demais homens, praticar atos respeitáveis. Esses repetidos atos de expulsão, errados como são em si mesmos, merecem condenação tanto mais forte pelo fato, que mal se tenta disfarçar, de que O OBJETIVO é impedir que a obra da santidade se espalhe entre nós — abater a vida e o poder da piedade nas nossas igrejas e inaugurar em seu lugar o reinado pacífico de um formalismo frio e sem coração… O nosso apego ao metodismo nunca foi mais forte do que agora, e a nossa simpatia e os nossos meios serão dados aos homens que labutam e sofrem para promovê-lo.” A convenção aprovou por unanimidade resoluções de plena confiança nos pregadores expulsos, e acrescentou: “Que, a fim de impedir que o nosso povo, oprimido pelo desgoverno da facção dominante na Conferência de Genesee, se disperse e por fim se perca para a nossa igreja, recomendamos aos nossos irmãos no ministério que reúnam o nosso povo em Bandas, e os encorajem à união de ação e esforço na obra do Senhor.” Nomeou-se também comissão para preparar memorial à Conferência Geral pedindo a correção dos abusos.

Poucas semanas depois dessa convenção, circulou entre os pregadores da chamada “Regência” uma carta encorajando-os na sua política. À cópia que nos foi fornecida não se apõe nome; mas o autor do original é tido por ninguém menos que um bispo. Não presumimos saber; damos a cópia, e o leitor formará o seu juízo — a nós, certamente, soa como escrita por quem sentia ter direito de falar com autoridade: “3 de janeiro de 1860. Querido irmão: Feliz Ano Novo… O meu conselho é decidido: remova todo dirigente que tomar parte na Convenção de Albion, ou em qualquer outra de caráter semelhante. Não se deixe deter por ameaças de dificuldade, ou de saída da igreja. Melhor não ter membros do que tê-los desordeiros. O mundo é largo. Os pecadores são numerosos. Iremos a eles com o evangelho, e Deus nos dará fruto. Repito, pois: sem falta, sustente firmemente a ação da igreja. Remova todo dirigente que se levantar contra ela, não importa qual seja a sua influência, ou quão grande a sua utilidade, ou como isso afete a sua congregação, ou em que resulte no fim. Quanto aos membros comuns, eu nada faria enquanto não se envolvessem em reuniões de oposição. Mas, se levantarem e sustentarem reuniões para pregadores expulsos, ou resistirem à ação da igreja, eu os citaria a julgamento, após a devida admoestação. Deixe-me assegurar-lhe de novo: a segurança da igreja está na ação direta e firme. Seu, etc.”

Capítulo 12 — Expulsão por atacado+

Na conferência de Brockport adotaram-se as medidas mais vigorosas para exterminar da conferência o “nazaritismo”. Thomas Carlton distinguiu-se especialmente pela violência das suas denúncias. “Esses naziritas”, exclamou, “são como cardos do Canadá: corta-se um, e dez brotam no lugar.” Deixemos o rev. C. D. Burlingham descrever o seu discurso: “Um dos seus campeões de destaque, cuja eficiência em originar e perpetuar as dificuldades da conferência é insuperável, e de cuja posição oficial se poderia esperar decência, se não dignidade, exclamou, no ‘auge do seu argumento’, com um verdadeiro berro, que ‘preferia encontrar mil demônios a três naziritas’ — isto é, na estimativa desse ministro de Jesus e oficial da Conferência Geral, um nazirita é pior que trezentos e trinta e três demônios e um terço! Mas isso foi dito em defesa da igreja!… A presidência raramente julgou próprio repreender esse tipo de declamação.”

Inspirados por tais exortações, pelo exemplo da conferência e pela carta oficial (publicada no fim do capítulo anterior), os pregadores da Regência foram às suas nomeações decididos a arrancar das sociedades os aderentes intransigentes do metodismo à moda antiga. Só podemos dar pálida ideia das suas operações. No circuito de Kendall havia várias famílias metodistas de inteligência acima da comum, com ideia clara das doutrinas e usos do metodismo; a doutrina da santidade fora ensinada e aplicada, e muitos professavam a bênção e honravam a profissão com a vida. Enviou-se da conferência de Brockport um pregador para reduzi-los à sujeição. O seu primeiro movimento foi apoderar-se da conferência trimestral — coisa fácil na Igreja Metodista Episcopal, onde a conferência trimestral é substancialmente criação do pregador, que nomeia todos os dirigentes, indica os mordomos e licencia os exortadores que principalmente a compõem. Pôs dirigentes novos e, para ter mais dirigentes do que os demais membros, nomeou dois dirigentes para uma só classe. Reunida a conferência trimestral, propôs que a junta de mordomos fosse declarada vaga — e, com a ajuda dos seus dirigentes, aprovou-o facilmente; pôs então os seus seguidores como mordomos. Em seguida, propôs que vários membros de destaque, notoriamente contrários à política de esmagamento, fossem declarados retirados. Também se aprovou. Em vão protestaram esses membros que não se retiravam, nem pretendiam: o pregador os leu como “retirados”, e dali em diante lhes foram negados os privilégios de membros! Era um aperfeiçoamento sobre a farsa de passar pela forma de um julgamento: que necessidade de testemunhas, quando o veredicto está pronto de antemão sem o menor respeito à prova? Assim, dispensaram-se até as formas da justiça, e, pelo despotismo mais descarado, muitos foram postos fora de igrejas de que haviam sido pioneiros, e de casas de culto que o seu próprio dinheiro construíra.

Em East Otto, o rev. A. L. Chapin expulsou da igreja Dewey Tefft, Niles Tefft, E. S. Woodruff e Otis Bacon, exortador. Chapin era um dos aderentes mais violentos do “partido da Regência”… Convocou os membros oficiais do circuito, fez discurso flamejante — disse-lhes que a disciplina não conhece membros que não paguem — e, com a ajuda deles, lavrou uma tabela do que cada um devia pagar, sob pena de exclusão da igreja; e assegurou-lhes enfaticamente que, se alguém divulgasse os atos daquela reunião, isso seria considerado justa causa de expulsão… A classe inteira recusou-se a sustentar o pregador, salvo mediante a sua “contrição, confissão e devida emenda”. Chapin convocou outra reunião oficial e exigiu saber quem publicara os atos da anterior. Bacon disse que não sabia quem publicara, mas ele mesmo contara a um homem o que se fizera. Chapin, enfurecido, sacudiu-lhe o punho no rosto, repetindo com força: “Quem já ouviu coisa igual?” Bacon respondeu: “Eu não sabia que uma reunião oficial fosse associação secreta; mas, se é, quanto antes o senhor me remover dela, melhor para o senhor.” Decidiu-se levar a julgamento os membros refratários. A obra de expulsão começou logo. Às acusações usuais contra os chamados “naziritas” acrescentou-se a de “assinar e circular o Northern Independent”… Durante o julgamento de Dewey Tefft, Chapin foi tão arrogante e prepotente que a dignidade de um dos seus próprios adeptos se revoltou. Pondo-se de pé, muito agitado, em tons de trovão o sr. Scott exigiu, dirigindo-se a Chapin: “Quem é o senhor?” “O neto de Ethan Allen”, respondeu Chapin, levantando-se. “Como a raça degenerou poderosamente!”, replicou Scott. “O senhor pode ser homem esperto, mas não é esperto o bastante para ser juiz, júri, promotor e tudo, num só caso. Agora tome o seu devido lugar e fique nele. Quero ver jogo limpo.” Por algum tempo prevaleceu a agitação mais desenfreada. O resultado desses julgamentos, como o de todos os da sua classe, estando predeterminado, todos os julgados foram, naturalmente, postos fora da igreja. Chapin, ao pronunciar a sentença, teve o cuidado de acrescentar que não eram expulsos por quebra alguma das regras da moralidade ou da religião — mas por “violação das nossas regras”.

Na igreja de Asbury, perto de LeRoy, o rev. S. M. Hopkins conduziu a obra de expulsão. Contra o sr. Cyrus Sperry — um dos homens mais sólidos e íntegros — processou-se longa lista de acusações e especificações, cobrindo mais de duas páginas de papel almaço, tiradas dos procedimentos da Convenção dos Leigos. Foi expulso. Martin Seekins, Hiram Huested e Sylvester Near — todos homens confiáveis e cristãos — foram expulsos por acusações semelhantes. Seekins estava trabalhando no seu campo de colheita quando foi intimado a comparecer perante o tribunal da igreja para responder a acusações que só então lhe foram apresentadas; pediu adiamento de uma hora — foi recusado. No ano seguinte, o rev. J. B. Lankton foi a esse circuito e terminou a obra: a sra. Olive Sperry foi expulsa sob a acusação de “desprezo e desobediência à ordem e disciplina da Igreja Metodista Episcopal, por assistir, e interessar-se a favor de, uma reunião sediciosa… e votar por algumas ou todas as resoluções ali aprovadas” — resoluções no sentido de que exerceriam o seu direito, como metodistas, de negar sustento aos que se haviam mostrado indignos dele. Lankton expulsou uns catorze ou quinze por acusações substancialmente iguais. No circuito de Tonawanda e Ridgeville, o rev. B. F. McNeal adotou a política que tanto êxito tivera alhures: removeu do ofício John Corliss e Anthony Ames, dirigentes de classe havia anos… e, no domingo seguinte, sem o consentimento deles e sem aviso algum, leu como retirados Anthony Ames e John Corliss, dirigentes; Tristram Corliss, superintendente da escola dominical; W. H. Hecox, J. Hunt e Henry Kayner, mordomos, e as suas esposas; M. Folger e esposa, e a sra. Henry Pickard.

No circuito de Belfast, o rev. J. W. Reddy — forçado a licenciar-se na conferência de Brockport — foi julgado e expulso por “maledicência”, por dizer que a Conferência de Genesee expulsara quatro dos seus membros mais santos por nada, e por “desobediência à ordem e disciplina da igreja”, por realizar reuniões religiosas separadas ao mesmo tempo das reuniões regulares… Em 12 de março, as acusações lhe foram declaradas verbalmente, e ele citado a julgamento, do mesmo modo, para a conferência trimestral do sábado seguinte. Pediu cópia escrita das acusações e especificações, para poder preparar a defesa — negou-lha o pregador encarregado, que disse que podia e havia de levá-lo a julgamento sem acusações escritas. Após os cultos do sábado, entregou-se a Reddy uma cópia das acusações, e a conferência reuniu-se imediatamente (não no templo, como de costume, mas na sala do presbitério, que mal comportava os membros oficiais, com exclusão dos membros comuns) e em meia hora passou ao julgamento. Antes, porém, para que os procedimentos fossem harmoniosos, removeram-se quatro dirigentes de classe e um mordomo suspeitos de alguma simpatia pelo acusado. Reddy foi acusado, declarou-se inocente e pediu adiamento para obter advogado e preparar defesa — recusado. Passou-se então pela forma de julgamento, e o acusado foi achado culpado, condenado e expulso.

Restavam ainda na Conferência de Genesee alguns que não reconheciam a autoridade das resoluções-teste… No inverno de 1860 — demonstrado que a Conferência Geral não daria remédio algum —, os revs. Asa Abell, C. D. Brooks e A. F. Curry retiraram-se da conferência e da Igreja Metodista Episcopal. Na conferência de Albion, em 1861, fizeram-se queixas contra o rev. Amos Hard por afiliar-se aos expulsos e retirados. A sua saúde não lhe permitia a responsabilidade de um circuito, mas podia pregar uma vez ao domingo… Pregava a santidade — a não conformidade com o mundo — e por isso só foi convidado pelos membros da sua conferência a pregar três vezes durante o ano. Obedeceu, pois, à disciplina, e foi aos que precisavam dele. Quando arrolado perante a conferência, o seu amigo, rev. H. Hornsby, modestamente arriscou umas palavras em seu favor. O caso de Hard foi deixado com uma comissão; e a atenção se voltou para o amigo tão “contumaz” que interpusera defesa. “O senhor está no mesmo barco desse homem!”, exclamou o rev. J. B. Wentworth, “e trataremos do senhor; e, embora o seu caráter tenha passado, será reconsiderado.” … A comissão relatou que ele assistira, em diferentes ocasiões, a reuniões irregulares e oficiara com membros expulsos, e concluiu com a resolução: “Que ele faça confissão aberta e franca das suas faltas… e prometa conformar a sua conduta e administração, no futuro, às resoluções adotadas na conferência de Brockport.” Ele disse à conferência que se opusera à aprovação das resoluções em Brockport, e recusara submeter-se a elas então, e continuava do mesmo parecer… Era submissão, submissão abjeta, tal como homem nenhum daria — muito menos um ministro cristão… Pediu para licenciar-se: “Não”, disse K. D. Nettleton, “se o sr. Hornsby se licenciar, ficará solto e nos causará mais problema do que já causou…” Pediu permissão para retirar-se; foi concedida. A conferência nem sabia quais eram as acusações pelas quais ele seria julgado: nunca foram lidas em plenário… Alguns diziam: “Ele é nazirita da cabeça aos pés, e tanto faz que vá agora como depois.”

Em Illinois a obra começou de modo semelhante. No outono de 1855, o rev. D. H. Sherman foi nomeado para St. Charles, onde achou a igreja em estado baixo… Escreveu ao dr. Redfield, que veio em abril e trabalhou até junho: muito bem se fez, muitos se converteram e foram santificados; casos terríveis de iniquidade vieram à luz pelo seu trato fiel — furto, embriaguez e adultério… No outono de 1859, o rev. D. C. Howard foi nomeado para o campo. Havia tal desejo de ouvir o irmão Redfield pregar… que Elisha Foot e J. M. Laughlin pediram ao pastor que o convidasse — o pastor recusou. Os batistas, então sem pregação, convidaram-no ao seu púlpito, e o doutor pregou a casa apinhada… Na segunda-feira, Howard nomeou uma comissão para visitar os membros de destaque da sua igreja que tinham ido ouvir o doutor: informou-lhes que era necessário confessar que haviam feito mal e prometer não repetir; se não, podiam escolher entre receber cartas em boa posição ou ser expulsos. Os visitados não sentiam ter feito mal, nem queriam sair da igreja. Naquele dia Howard foi, supõe-se, a Evanston aconselhar-se com o bispo Simpson; no regresso, relatou que a opinião do bispo era que a junta oficial era competente para declarar retirados os que tinham ido ouvir o dr. Redfield. Em consequência, catorze foram declarados retirados pela junta na quarta-feira à noite — um dos quais não era membro da igreja, nem nunca fora… Na quinta à noite, essas pessoas “retiradas” estavam nos seus lugares habituais na reunião de oração, mas o pastor não lhes permitiu tomar parte; ao fim, foram lidas para fora da igreja. Cerca de cinquenta outros pediram cartas, mas lhes ofereceram cartas de retirada, que recusaram. Esperando que o tempo consertasse tudo, essas pessoas alugaram na semana seguinte um pequeno salão como lugar provisório de reunião. J. G. Terrill, pregador local de Elgin, visitou-os e foi convidado a pregar; consentiu; irrompeu um avivamento em que muitos dos mais duros da comunidade se converteram. Sendo necessária alguma organização, formou-se uma banda adotando as regras gerais da Igreja Metodista Episcopal… Em 27 de abril de 1860, esses irmãos, convencidos contra as suas esperanças de que não havia reparação para os seus agravos, organizaram-se em igreja independente, com o nome de Metodista Livre — contavam então 112 membros… Um amigo, ainda membro da velha sociedade, levou a questão à Conferência (de Rock River) no outono: a conferência aprovou o ato de Howard, mas se declarou contra que tal coisa se repetisse no futuro. Perto de Marengo, Illinois, a família Bishop inteira — cinco pessoas — foi expulsa por “negligenciar o culto público de Deus na igreja de Franklinville, a que pertencia”: iam a Marengo ouvir o dr. Redfield e trabalhavam em reuniões de avivamento nas escolas da região. Se a sua ausência fosse por motivos mundanos, nenhuma atenção se lhe teria dado; mas, como davam o seu dinheiro e influência — não para combater a santidade, mas para promovê-la —, foram expulsos da igreja.

Capítulo 13 — As apelações+

Na Igreja Metodista Episcopal, a Conferência Geral é o tribunal de apelação no caso dos ministros. Da Conferência Geral de 1860 nutriam-se grandes expectativas: o povo em geral não duvidava de que se faria justiça nas várias apelações submetidas à sua decisão. A princípio tudo pareceu favorável. Mil e quinhentos membros lhes haviam pedido que dessem às dificuldades da Conferência de Genesee uma investigação justa, plena e imparcial. Quando as petições foram apresentadas, os delegados da Conferência de Genesee professaram desejar exame rigoroso de todos os seus atos. “Agimos bem”, disse o rev. James M. Fuller, “e não tememos que a nossa conduta seja examinada. Queremos que as dificuldades sejam sondadas até o fundo.” Ao fim do discurso, propôs que as petições fossem remetidas a uma comissão especial de nove, nomeada pela presidência! Como era patente que o objetivo era impedir escrutínio imparcial, a proposta foi derrubada após discussão animada, e a matéria remetida a comissão especial composta de um membro de cada conferência, cada delegação escolhendo o seu. A comissão foi nomeada, e todos sentiam que era capaz e imparcial; a confiança era forte de que enfim se faria justiça.

Poucos dias depois, o rev. William Reddy ofereceu resolução autorizando a comissão a investigar plenamente a natureza e origem das dificuldades, com acesso a todos os papéis oficiais. A resolução foi combatida asperamente pelos delegados de Genesee. James M. Fuller negou o poder da Conferência Geral de revolver os papéis da Conferência de Genesee ou de nomear comissões especiais para bisbilhotar os seus procedimentos: a sua conferência “não se submeteria, a menos que compelida, a investigações de câmara estrelada!” O seu tom era exatamente o oposto do de poucos dias antes, quando sem dúvida esperava comissão de outra têmpera. Propôs que a comissão especial fosse dissolvida… O dr. Peck propôs a questão prévia; cortou-se o debate — e a comissão foi dissolvida! Era evidente, até para o mais obtuso, que, no intervalo, influências poderosas haviam trabalhado em segredo entre os delegados a favor do partido dominante de Genesee; despertaram-se em muitos suspeitas de combinações corruptas. Os memoriais e petições foram remetidos à comissão de Itinerância — que tinha todo o expediente de rotina que podia atender; e é duvidoso que o memorial principal tenha sequer sido lido. Nada que se pudesse chamar investigação se fez, e a matéria foi deixada de lado, como sem dúvida se pretendia.

A ação da Conferência Geral num caso de apelação vindo de uma das conferências de Ohio enfraqueceu ainda mais a confiança na sua integridade como corpo. Um membro daquela conferência fora expulso — diziam os jornais — por conduta licenciosa com nove moças da sua congregação… Ambos, ele e o seu presbítero presidente, eram altos maçons… A sua apelação foi ouvida, e ele foi prontamente restaurado! Encontrando o irmão Purdy logo depois de anunciada a decisão, dissemos-lhe: “Há esperança para nós. A. W. foi restaurado.” “Oh!”, disse ele, do seu jeito peculiar, “isso não ajudará em nada os seus casos. A. W. foi leal! Ele nem culto doméstico fez, nem bênção pediu à mesa, desde que foi expulso. Ele foi leal!”

Procuramos que as nossas apelações viessem perante a conferência como corpo: sabíamos que, na escolha de uma comissão, os nossos opositores teriam toda vantagem — conheciam a disposição geral dos membros quanto às questões entre nós; nós, não. Organizou-se um tribunal de apelações: um delegado de cada conferência, escolhido pelas respectivas delegações, com direito de recusa por causa concedido a ambas as partes… Perante esse tribunal as nossas apelações foram apresentadas. O meu primeiro caso — apelação da decisão que me repreendeu por dizer, no artigo “O metodismo da nova escola”, o que eu não digo — foi conhecido. Ouvidos os documentos e apresentado o caso, a comissão dividiu-se ao meio na questão de confirmar a decisão! Ficaram em juízo equilibrado sobre se um ministro metodista deve ou não ser responsabilizado pela perversão que os seus inimigos ponham na sua linguagem! Nos tribunais civis, o juiz instrui o júri a dar ao réu o benefício da dúvida; neste tribunal religioso, o bispo decidiu que a falta de absolvição era condenação, e que portanto a sentença da Conferência de Genesee ficava confirmada!

Quando veio o caso seguinte, comecei a exercer o direito de recusar, por causa, membros da comissão. Dois foram afastados; não me permitiram recusar mais, embora eu apontasse como causa que os recusados haviam publicado artigos hostis contra mim nos jornais. As minhas objeções foram rejeitadas. Fui informado por fonte fidedigna de que foi a evidente parcialidade da comissão contra mim, logo no início, que fez um bispo deixar a presidência, por não querer ser parte na injustiça; tomou o seu lugar um bispo de fortes inclinações pró-escravidão. Os nossos opositores evidentemente sentiam que era tão grande a falta de prova para sustentar as acusações pelas quais nos expulsaram, que nem dessa comissão se podia depender para sustentar o veredicto. Apesar de todas as suas profissões de desejo de ver a ação da Conferência de Genesee revista, dirigiram todas as energias para impedir que as apelações fossem conhecidas… “Pois todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não se chega para a luz, para que as suas obras não sejam expostas” (Jo 3.20). Os esforços de supressão tiveram êxito: a maioria votou não conhecer da minha apelação contra o veredicto que me sentenciou à expulsão da igreja. Por que a mesma comissão ouviu a minha apelação da sentença de repreensão e, poucos dias depois, recusou conhecer da apelação da sentença de expulsão, permanece entre os mistérios insolúveis. Quando a decisão final foi anunciada, eu disse: “APELO PARA DEUS E PARA O POVO.” À medida que os casos vinham, um após outro, a comissão votava não conhecê-los — com a única exceção da apelação do sr. Burlingham.

O bispo Simpson, que tomou vivo interesse nesses procedimentos, dá como razão: “Como haviam recusado reconhecer a autoridade da igreja, e continuado a exercer o seu ministério e a organizar sociedades, a Conferência Geral recusou-se a conhecer da apelação.” Essas afirmações NÃO são verdadeiras. Não recusáramos reconhecer a autoridade da igreja: apresentar as apelações era reconhecimento da sua autoridade, como também o foi entrar em probação; não conheço um só particular em que tenhamos faltado ao devido reconhecimento da autoridade eclesiástica. Não “continuamos a exercer o ministério”: não executamos uma só função peculiar ao ministro do evangelho — não casamos ninguém, não batizamos ninguém, não administramos nem ajudamos a administrar o sacramento da Ceia. Não fizemos mais do que a disciplina da Igreja Metodista Episcopal diz que se espera de todos os que têm “o desejo de fugir da ira vindoura e de ser salvos dos seus pecados”: manifestamos esse desejo, como ela manda, “fazendo o bem” às almas, “instruindo, repreendendo ou exortando todos com quem tivermos trato”. Foi tudo. Não queria o bispo que, postos fora da igreja, fizéssemos esforço honesto por salvar a nossa alma? Num sentido, não organizamos sociedades; noutro, sim: no sentido de igreja local ligada a outras, não organizamos nenhuma; mas organizamos “bandas de oração”, segundo o modelo da velha disciplina — semelhantes às “bandas de santidade” hoje comuns na Igreja Metodista Episcopal. Em Buffalo, quando lá fomos, havia uma igreja metodista de assentos livres, na rua 13, propriedade do sr. Jesse Ketchum, congregacional, que a cedia gratuitamente aos metodistas… O sr. Edward P. Cox, encarregado do edifício, convidou-nos a realizar reunião ali numa noite de dia útil em que não havia culto. Consentimos. O presbítero presidente e outros pregadores disseram a Cox que, se nos permitisse falar ali, retirariam o pregador e a verba missionária. Cox era inglês, e não se deixava tanger assim: “Façam como quiserem; a casa estará aberta para o sr. Roberts na hora marcada.” Cumpriram a palavra. Como a simples humanidade ditava, cuidei daqueles desamparados, realizei reuniões na igreja, e muitos foram salvos…

Mas, ainda que as afirmações do bispo Simpson fossem verdadeiras, não constituiriam razão válida para que as nossas apelações não fossem ouvidas no mérito. Reivindicávamos apenas os direitos que a Igreja Metodista Episcopal nos prometera solenemente no seu livro de disciplina quando a ela nos unimos. Na própria constituição da igreja há um artigo que diz da Conferência Geral: ELES NÃO ABOLIRÃO OS PRIVILÉGIOS DOS NOSSOS MINISTROS OU PREGADORES DE JULGAMENTO POR COMISSÃO E DE APELAÇÃO. A proibição é geral: não diz que não o farão de certo modo particular — diz que não o farão de modo algum; não diz que não o farão sob certos pretextos — mas sob pretexto algum: nem por decretos hostis, nem por precedentes, nem por recusas arbitrárias de ouvir apelações. A única condição da disciplina era que o condenado manifestasse a intenção de apelar — e ninguém alegou que essa condição não fora cumprida. Se a linguagem tem algum sentido, uma Conferência Geral que administra essas leis não tinha o direito de recusar uma apelação: ao fazê-lo, violou, no interesse do erro, a constituição escrita e claramente expressa da igreja. Essa lei não dava à Conferência Geral jurisdição originária sobre pregadores: não tinham o direito de nos julgar — só os nossos casos de apelação; a questão a decidir era: foram esses homens julgados com equidade segundo a disciplina? Justificavam a lei e os fatos o veredicto da Conferência de Genesee?… Nem deviam as nossas apelações ser prejudicadas por termos entrado de novo na igreja em probação. Poucos anos antes, o presbitério de Chautauqua depusera um ministro; ele se uniu aos metodistas, foi licenciado e pregou entre eles vários anos; o presbitério, convencendo-se depois da sua inocência, restaurou-o à posição ministerial, embora fosse então ministro acreditado de outra denominação…

Sobre esses casos escreveu o rev. William Hosmer: “A Conferência Geral assume poderes que não lhe pertencem quando faz o direito de ter uma apelação ouvida depender de qualquer coisa que o apelante tenha feito desde a decisão de que apela… A disciplina não dá à Conferência Geral jurisdição originária sobre ministro algum, exceto os bispos. Não têm mais direito que o juiz Lynch de julgar um pregador, a menos que o seu caso lhes venha por apelação — e então devem ater-se à prova tomada no tribunal inferior… Que vale o direito de apelação, se a segurança do seu exercício depende do preconceito ou capricho da maioria de uma comissão? A apelação do sr. Roberts devia ter sido ouvida, porque a maioria estava comprometida contra ele ANTES DE FEITA QUALQUER QUEIXA OU APRESENTADA QUALQUER ACUSAÇÃO. Nada é guardado com maior ciúme pelo direito comum do que a imparcialidade dos júris… A necessidade de um júri imparcial é tão grande nos julgamentos eclesiásticos quanto nos criminais — quando o caráter, como quando a vida, está em jogo. O crédito da religião, tanto quanto a segurança do indivíduo, não exige menos. Um veredicto obtido por conivência, ou por agitação partidária, não é mais respeitável por ter sido proferido sob formas religiosas, por homens que professam piedade… Foi por essa maioria acidental, inflamada e completamente partidária que o sr. Roberts foi julgado.”

Prosseguia Hosmer: “Se havia caso em que a agência corretiva de um tribunal de apelação era necessária, era este. Se há alguma analogia entre um tribunal eclesiástico e um civil, a necessidade era ainda maior — e, longe de não conhecer da apelação, o tribunal deveria ter anulado o julgamento anterior e devolvido o caso para nova investigação, se julgamento fosse necessário. Mas, admitida a validade da ação do tribunal inferior, não vemos como era possível a este tribunal de apelação recusar-se a conhecer da apelação. O julgamento de casos não é opcional para tal tribunal: a apelação sempre cabe, se a parte dá o devido aviso e comparece para prosseguir. Não conhecer de uma apelação é, pois, palpável deserção do dever; e, neste caso, equivaleu a dizer que, no que toca a estes irmãos expulsos, não haveria tribunal de apelação na Igreja Metodista Episcopal — aniquilando praticamente um dos ramos mais importantes do nosso judiciário… Bem podia o apelante ficar atônito diante de tal tratamento e fazer a sua apelação a Deus e ao povo… O grito insensato e desavergonhado de ‘nazaritismo’, nós o devolvemos com o cordial desprezo que merece… Defender os injustiçados deveria ser tido por virtude, não por crime; e, seja qual for o que a perseguição inflija, preferimos de longe partilhá-la com os oprimidos a entregá-los às garras de uma tirania implacável.”

A ação da Conferência Geral no caso do rev. C. D. Burlingham foi insulto ainda maior à justiça e ao bom senso: o seu caso foi devolvido para novo julgamento quando não havia nada que julgar! Comentou o Northern Independent: “Que o tribunal de apelações constituído pela última Conferência Geral não fez o seu trabalho de modo a merecer respeito divino ou humano é conclusão que se nos impõe… Primeiro veio o caso do rev. C. D. Burlingham. Foi expulso da Conferência de Genesee e da Igreja Metodista Episcopal por fazer três coisas: 1ª) admitir B. T. Roberts na igreja em experiência; 2ª) licenciá-lo como exortador; 3ª) oficiar com pregadores expulsos numa reunião trimestral geral realizada numa igreja wesleyana, ao mesmo tempo que o seu presbítero presidente realizava reunião trimestral regular no mesmo campo, a umas três milhas. Burlingham admitiu os fatos, mas alegou outros fatos em justificação. Essas foram as únicas ofensas de que foi acusado. Depois da expulsão, esperou em silêncio pela Conferência Geral: não pregou, não deu preleções, não exortou, não assistiu a reuniões de pregadores expulsos — fez penitência até a sessão da Conferência Geral. Devia ter sido restaurado ao menos por ter expiado a culpa, se culpado fosse de alguma ofensa ordinária. Quando a sua apelação veio, o sr. Fuller — acusador-chefe em todos esses julgamentos — recusou vários da comissão que haviam manifestado desejo de que os assuntos de Genesee fossem investigados com equidade. Embora a Conferência Geral tivesse dado às partes o direito de recusa por causa, Fuller, após o primeiro caso, não foi obrigado a dar causa, mas recusou quantos quis, e foram afastados: dizia apenas que ‘os considerava preconceituosos’. O sr. Olin, da Conferência de Oneida, conduziu o caso de Burlingham com tato consumado e grande capacidade… e levou convicção, cremos, à mente de todos os que o ouviram — exceto a comissão. Devolveram o caso à Conferência de Genesee para novo julgamento. Consideramos notável essa decisão: nenhuma das partes a pediu. Nunca ouvimos de caso devolvido para novo julgamento sem alguma alegada informalidade no tribunal inferior, ou defeito no registro, ou prova nova — e nada disso se insinuou neste caso. Não pode haver prova nova, pois Burlingham admitiu todos os fatos… Constituem esses fatos um crime pelo qual um ministro capaz, de reputação imaculada, que serviu a igreja por mais de vinte anos, devesse ser expulso? Então diga-o a Conferência Geral, para que todos os que doravante entram no ministério metodista entendam que se espera deles que ponham no pó a sua dignidade de homens, abram mão do direito do juízo privado e prestem obediência servil e sem perguntas a todas as ordens dos seus superiores eclesiásticos… Suponha que as visões de lei e justiça da Conferência de Genesee permaneçam inalteradas, e a mesma sentença seja de novo pronunciada contra Burlingham, e ele de novo apele: depois de esperar quatro anos por outra Conferência Geral — se ainda viver —, haverá não só a mesma razão de devolver o caso, mas a razão adicional do precedente. Assim, esta zombaria da justiça pode continuar ad infinitum. Isto parece mais o tigre brincando com a vítima que pretende devorar do que um corpo de ministros cristãos… E outro fato merece nota especial: embora a decisão não tenha sido pedida em juízo por parte alguma, é precisamente o que os partidários da Regência vinham há meses tentando persuadir Burlingham a aceitar… Houve conluio no caso? É-nos impossível responder. Olhe-se como se olhar, o caso todo tem aspecto escuro e suspeito.

“Talvez alguma pista para explicar os estranhos procedimentos se ache na ação sobre a questão da escravidão. A Conferência de Genesee fora até então uma das mais fortemente antiescravagistas da conexão; o partido proscrito foi, desde o início, intransigente na hostilidade à escravidão na igreja e no estado… Quando se decidiu na Conferência Geral a importante questão da mudança da constituição para proibir a posse de escravos na igreja, os delegados da Conferência de Genesee votaram contra a mudança — e o seu voto decidiu a balança. E, quando os assuntos de Genesee vieram à pauta, os delegados mais duramente pró-escravidão votaram em bloco com os representantes da maioria de Genesee. Pode ser tudo lícito… Entenderam os delegados da fronteira que, se votassem como desejavam os delegados de Genesee, estes retribuiriam o favor e os ajudariam no seu aperto? Ou veio essa estranha coincidência por acaso? Herodes e Pilatos tornaram-se amigos: Baltimore ajudou Genesee a despachar os ‘naziritas’, e Genesee ajudou Baltimore a substituir a regra contra a posse de escravos por alguns conselhos bons, mas sem força.”

Como veio a Conferência Geral a agir assim? Parece incrível que corpo tão grande e respeitável pudesse ser culpado de injustiça tão grande. Respondemos: 1) A acusação de fazer um mal específico não se responde alegando a respeitabilidade geral do corpo que o fez: o Congresso que aprovou a Lei do Escravo Fugitivo era corpo altamente respeitável; o presidente Fillmore, que a assinou, homem altamente respeitável — e, contudo, aquela lei tornava todo homem livre do Norte sujeito a virar caçador de escravos ou infrator da lei. 2) Essa Conferência Geral tinha grande número de maçons e odd-fellows: quando se sabe de antemão que a questão das sociedades secretas será posta em pauta, é fácil, aos que a elas pertencem nas várias conferências, mandar à Conferência Geral proporção invulgarmente grande dos seus amigos. 3) Na disciplina da Igreja Metodista Episcopal há regras importantes que os pregadores não só desrespeitam abertamente, como ensinam o povo a desrespeitar… O resultado de “deter a verdade pela injustiça” é a desmoralização da consciência: a lei da conveniência presente torna-se regra de conduta; a política toma o lugar da consciência. 4) A Conferência Geral de Buffalo realizou-se às vésperas da guerra civil… Em Buffalo, os delegados de Baltimore e os de Genesee, quando essas questões vieram, falaram e votaram amorosamente juntos…

Os casos de apelação foram remetidos a uma comissão. Thomas Carlton visitara as conferências como agente da Casa Publicadora e conhecia os delegados em geral: que podia exercer influência na escolha da comissão de apelações, vê-se facilmente; que não teria escrúpulo em fazê-lo, é evidente pelo caso mencionado pelo dr. Bowen, em que Carlton teve parte proeminente como advogado de um pregador da chamada Regência, acusado por um membro da igreja de desonestidade grosseira e intencional. Antes de começar o julgamento, Carlton fez as partes concordarem em acatar a decisão dos árbitros: cada parte escolheria dois, e os quatro escolheriam o quinto. Carlton escolheu dois pregadores; a outra parte, dois leigos respeitabilíssimos; não conseguiam concordar no quinto. Por fim, Carlton lembrou-se de repente de ter visto no registro do hotel (era em Niagara Falls) o nome de um pregador de Nova York — ele os ajudaria. Todos concordaram. O caso foi ouvido, e os pregadores deram veredicto iniquíssimo contra os leigos. Descobriu-se depois que esse quinto homem era cunhado de Thomas Carlton, que ele trouxera ali de propósito. Da verdade do que aqui se afirma não pode haver questão. E, naquele caso, não havia nem de longe o incentivo à parcialidade que havia nos casos apelados da Conferência de Genesee.

Quanto ao efeito da ação daquela Conferência Geral sobre a questão da escravidão, citamos do American Wesleyan de 27 de março de 1861: “EXPOSIÇÃO OFICIAL DA LEI. Na Conferência de Baltimore, há pouco em sessão, as seguintes perguntas foram propostas ao bispo Scott e por ele respondidas… 1. Há algo na disciplina que, no seu juízo, seja impedimento à ordenação de um pregador local que possua escravos? Resposta: Não. 2. Algo na disciplina que, no seu juízo, opere contra a admissão de um senhor de escravos na igreja? Resposta: Não. 3. Algo na disciplina que justifique um administrador em processar um senhor de escravos? Resposta: Não. 4. Há algum processo autorizado na disciplina pelo qual possa ser levado a julgamento um membro que possua escravos para lucro? Resposta: Não conheço tal processo.” Pode algo ser mais abominavelmente claro do que isto?

Capítulo 14 — As resenhas: respondendo ao bispo Simpson e ao historiador Conable+

Neste capítulo notaremos alguns pontos do artigo do bispo Simpson sobre “Os metodistas livres” ainda não referidos, e também o artigo sobre o “nazaritismo” na “História da Conferência de Genesee” do sr. Conable.

No artigo do bispo, as afirmações que numeramos de 1 a 11, e também as de números 13 e 15, foram, cremos, claramente demonstradas inverídicas nas páginas anteriores. Diz o bispo que os metodistas livres não admitem membro algum, nem em probação, “sem confissão de fé salvadora em Cristo”, e acrescenta (12): “A razão que alegam é que muita da defecção nas outras igrejas se deve ao fato de multidões, que entraram como inquiridores, terem falhado em seguir vida estritamente espiritual.” Onde alegam os metodistas livres tal razão? Não na sua disciplina; nunca em ação de conferência alguma; nunca ouvi indivíduo algum entre eles alegá-la. A razão que dão é que não há no Novo Testamento autorização para admitir alguém na igreja, nem em probação, senão mediante profissão de fé salvadora em Cristo. Cita ainda o bispo (14): “Na sua história primitiva, alguns dos seus líderes encorajaram um espírito de fanatismo desenfreado, reivindicando o poder de curar pela imposição das mãos.” Duas afirmações inverídicas. A primeira já enfrentamos: mostramos que homens como os drs. Reddy e Ives consideravam o que o bispo chama “fanatismo desenfreado” as manifestações próprias da vida espiritual. Quanto a “alguns dos seus líderes reivindicarem o poder de curar”: engano também — nenhum deles jamais fez tal reivindicação. Reconhecemos, com a devida gratidão e humildade, que em resposta à oração houve entre nós alguns casos notáveis de cura — mas nada além do que ocorreu entre os cristãos verdadeiros em todas as eras. A pessoa mais proeminente que já esteve entre nós, que saibamos, que “reivindicou o poder de curar pela imposição das mãos”, era então — e ainda é, supomos — membro da Igreja Metodista Episcopal! Nunca foi metodista livre, muito menos líder!

Notamos algumas afirmações do bispo que, embora num sentido verdadeiras, são enganosas: (a) “Ficaram insatisfeitos com o funcionamento do seu governo.” Nunca tivemos insatisfação especial com o “governo” da Igreja Metodista Episcopal: aprendemos pela experiência que era capaz de grande abuso; ficamos insatisfeitos com a administração — primeiro da Conferência de Genesee, depois da Conferência Geral — em expulsar os inocentes e proteger os culpados. (b) “Professavam-se movidos pelo Espírito Santo.” Não mais que os pregadores metodistas em geral. (c) “Na política eclesiástica, o nome de bispo foi abandonado e substituído por uma superintendência geral.” Não só o nome: a ordenação e a vitaliciedade foram abandonadas — os superintendentes gerais são simplesmente oficiais da Conferência Geral, eleitos de quatro em quatro anos. (d) “As organizações de conferência foram mantidas como na Igreja Metodista Episcopal, e leigos, em número igual ao dos ministros, foram admitidos em cada um desses corpos.” Na Igreja Metodista Livre os delegados leigos não são admitidos às conferências: eles, com os pregadores, compõem as conferências. Os delegados leigos são eleitos diretamente pelos membros, e não indiretamente pelo pregador, através de uma conferência trimestral que é, em parte, criação sua. Não temos medo de confiar no nosso povo. (e) “O nome de presbítero presidente foi mudado para presidente de distrito.” Mas o presidente de distrito pode ter circuito como os demais pregadores; os presbíteros presidentes, não. (f) “Exigem dos seus membros extrema simplicidade no vestir.” Não mais do que a disciplina da Igreja Metodista Episcopal exige dos seus.

Chamamos em seguida a atenção para a “História da Conferência Anual de Genesee”, do rev. F. W. Conable… Como foi endossada pela Conferência de Genesee, e mandada aos seus arquivos como referência, adquire importância de registro histórico que em si mesma não possui. É no seu artigo sobre o “nazaritismo” que mais nos interessamos. É próprio dizer, em termos gerais, que as suas afirmações, originais e emprestadas, sob esse título, são inteiramente incorretas. Notemos algumas: diz Conable que “o nazaritismo, de fato, se não de nome, originou-se com uns poucos ministros da Conferência de Genesee — J. H. Wallace, B. T. Roberts, J. McCreery Jr. e outros”. Incorreto na forma e no fato: mostramos conclusivamente que nunca houve “sociedade nazirita” alguma. Que por “nazaritismo” ele entende o que noutras conferências se chama “santidade” é evidente por associar-lhe o nome de John H. Wallace — que nenhuma relação teve com os expulsos, senão a de ter sido, antes deles, advogado especialmente capaz da doutrina da santidade… John H. Wallace caiu, como outros homens bons caíram; e, para lançar opróbrio sobre a Igreja Metodista Livre, Conable tenta associá-lo à sua origem — o que ele bem sabe ser falso.

Diz Conable que “Roberts e McCreery e dois presbíteros presidentes foram movidos pela inveja, pelo ciúme e pela ambição anticristã, no esforço de assegurar para si o ‘patrocínio principal’ da conferência”. Reivindica esse homem atributos divinos, que saiba ler os motivos alheios? Isto não é só falso: é maligno e tolo. Não ocupavam já os dois presbíteros presidentes a mais alta posição da conferência — ali postos sem esforço nem desejo próprios? Quanto ao meu humilde eu: ninguém pode dizer com verdade que eu jamais busquei posição na Igreja Metodista Episcopal; nunca pedi, direta ou indiretamente, nomeação alguma… Depois que os líderes do movimento de santidade foram despachados — Thomas para a Califórnia, Stiles e Kingsley para Ohio —, ofereceram-me, se eu abandonasse o povo perseguido da santidade, nomeações melhores do que as que a Conferência de Genesee tinha a dar. Embora Conable pareça ignorá-lo, existe isso de ficar do lado do certo sem outro motivo senão o desejo de fazer o certo e obedecer a Deus.

Falando do panfleto de Estes, diz Conable: “O impressor recusou-se a testemunhar sobre a autoria, e não temos lei que obrigue o comparecimento a um tribunal eclesiástico.” Conable, e todos os seus endossantes que estiveram na conferência de Perry, sabem que isso não é verdade… O impressor do panfleto esteve presente ao meu julgamento! Um dos pregadores contrários a mim o levou e trouxe, umas setenta milhas de carruagem. Não o chamaram a depor. O sr. H. N. Beach, editor do Brockport Republic, o cavalheiro referido, escreveu-nos: “O rev. E. M. Buck me fez ir a Perry no caso, à época da conferência; mas não fui chamado a testemunhar — porque, suponho, o meu depoimento não era o que se queria.” Assim Conable comprime duas grandes falsidades conhecidas numa frase curta: 1ª) o impressor compareceu ao tribunal; 2ª) não se recusou a testemunhar! E tais afirmações são votadas aos arquivos da Conferência de Genesee como história, por homens que sabem que não há nelas uma só palavra de verdade!

Sobre o meu julgamento, diz Conable: “O esforço principal do sr. Roberts, na sua defesa prolongada, foi convencer o público — não de que não escrevera e circulara as alegações imputadas, mas de que as alegações eram realmente verdadeiras.” Para essa asserção Conable não tem desculpa: ele e os seus endossantes bem sabem que é falsa. Que eu não escrevi o panfleto de Estes, provei-o à conferência do modo mais conclusivo com que um homem pode provar que não escreveu documento algum: pelo testemunho do autor real e confesso, de que ele mesmo o escreveu… Diz ainda Conable que ao réu se concederam “todos os recursos possíveis para a sua defesa, compatíveis com a disciplina da igreja”. Esse homem parece incapaz de dizer a verdade sobre estes assuntos! Ele sabe que quase duas sessões inteiras se gastaram na minha tentativa de obter, e na dos meus opositores de impedir, ou a mudança de foro, ou o julgamento por comissão! Sabe que me foi recusado o advogado que pedi!… Diz Conable: “As acusações e especificações foram votadas sustentadas por não muito longe de dois contra um.” As atas e o rol daquele ano mostram cento e dezesseis pregadores em plena conexão; destes, cinquenta e quatro votaram contra mim e trinta e quatro a favor — restando clara maioria que não votou por sustentar as acusações. Alguns estavam aterrorizados a ponto de não ousar votar por mim — e tinham consciência demais para votar contra.

Quanto ao terreno do acampamento de Bergen, Conable celebra as “medidas bem-sucedidas” pelas quais foi assegurado à Igreja Metodista Episcopal. Mostraremos que medidas foram essas, dando breve história do terreno: 1) Fiz o negócio pelo terreno — vinte e cinco acres — pretendendo usá-lo para acampamentos… em 11 de julho de 1856 foi escriturado, por transferência absoluta, a Asa Abell, Benjamin T. Roberts e Asa Allis. 2) No inverno seguinte redigi a carta constitutiva da “Associação do Terreno de Acampamento de Genesee”, fui a Albany e a fiz aprovar pela legislatura; à associação escrituramos o terreno em fideicomisso. 3) Depois que começaram a expulsar o povo dos acampamentos, obtivemos emenda à carta. 4) O partido da chamada Regência realizou acampamento naquele terreno depois de nos expulsar da igreja. Os curadores — todos, menos um, tornados metodistas livres — não se opuseram… Mas eles assumiram poderes judiciais e declararam que os curadores não membros da Igreja Metodista Episcopal não eram curadores legais — embora a lei não fizesse tal qualificação; e, declarada a vacância, elegeram-se a si mesmos para ela. 5) De posse assim ganha, ameaçaram-nos de processo se fôssemos ao terreno realizar mais reuniões… Fizemos-lhes três ofertas: ou ficaríamos com o terreno, deixando-os realizar acampamentos ali quando quisessem, sem custo; ou ficariam eles com o terreno, deixando-nos realizar reuniões quando quiséssemos; ou venderíamos o terreno e dividiríamos o produto entre as duas igrejas na proporção do que cada uma pagara — os que se tornaram metodistas livres haviam pago cerca de dois terços do preço. Rejeitaram todas. 6) Para manter a posse, realizavam acampamentos de fachada para a eleição de curadores: certa vez tinham uma só tenda — uma lona jogada sobre uma vara; pregadores, do estrado, pregavam a uma audiência sentada no estrado. 7) Marcamos um acampamento ali para junho de 1867; obtiveram uma liminar; soubemos e transferimos a reunião para outro terreno… A liminar foi julgada, e nós os vencemos. Puseram então homens a cortar lenha no terreno, para vender e pagar as custas. 8) A escritura transferia a terra aos curadores em fideicomisso, com a cláusula de que “não cortarão nem destruirão… as matas ou árvores” salvo o necessário ao cercamento ou à melhor adaptação para acampamentos. Obtivemos, pois, liminar impedindo-os de derrubar a madeira. 9) No julgamento, os curadores da chamada Regência — entre eles três pregadores da conferência — juraram que “todas as árvores e madeira cortadas… ou jaziam no chão, ou estavam mortas, defeituosas e mais ou menos apodrecidas”… Só pudemos jurar sobre os tocos e a lenha: achamos oitenta e sete tocos verdes e sadios — e a lenha também verde e sadia. Venceram-nos, é claro. Mal é preciso acrescentar que, depois de assim “melhorar” o terreno, deixaram de realizar acampamentos ali — e logo o venderam. Um dos melhores advogados do estado disse, após examinar a fundo o caso: “Eles não têm direito àquela terra, nem em lei, nem em equidade.” Mas não temos tempo nem gosto para litígios — ainda que fosse fácil obter justiça nos nossos tribunais contra um poder tão grande quanto o da Igreja Metodista Episcopal, ajudado pela influência de sociedades secretas que podia controlar.

Capítulo 15 — Conclusão (com o Apêndice)+

O leitor inteligente das páginas anteriores dificilmente deixará de ver:

1. Que a Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal está convicta: (1) de expulsar perversamente vários dos seus ministros da conferência e da igreja sem causa adequada alguma; (2) de permitir que pregadores expulsassem da igreja membros dignos, que não haviam violado lei alguma da igreja; (3) de permitir que os seus pregadores declarassem retirados, contra o seu mais solene protesto, membros em boa posição na igreja; (4) de encobrir a iniquidade, recusando-se a conhecer de queixas de desonestidade e fraude, feitas por partes responsáveis contra vários dos seus pregadores.

2. Que a Igreja Metodista Episcopal, como organização eclesiástica, assumiu diante de Deus e dos homens a responsabilidade por todos esses atos anticristãos e perversos, pela ação da sua Conferência Geral, o seu mais alto tribunal de apelação: (1) recusando-se a conhecer de apelações contra a injustiça da Conferência de Genesee, devidamente trazidas perante ela, que a constituição da igreja a obrigava a ouvir e decidir; (2) não decidindo no mérito o caso do rev. C. D. Burlingham, que a ela apelou por reparação de sentença injusta e opressiva, mas devolvendo-o iniquamente para novo julgamento quando não havia nada que julgar — quer essa evasão de um dever claro e importante se devesse à falta de coragem de exprimir a sua opinião honesta sobre a sentença, quer ao desejo de proteger a Conferência de Genesee da censura, é igualmente merecedora de reprovação; (3) não investigando as dificuldades da Conferência de Genesee, sobre as quais tinha jurisdição, nem dando a reparação dos agravos que a justiça exigia e que estava ao seu alcance dar.

3. Que os historiadores da Igreja Metodista Episcopal procuram perpetuar o erro, dando desses assuntos relatos que todos os conhecedores dos fatos sabem ser inverídicos, e não dando atenção alguma a testemunho da mais alta ordem quando conflita com as suas afirmações infundadas.

4. Não temos hostilidade alguma para com a Igreja Metodista Episcopal, o seu ministério ou os seus membros. Amamos a todos os que amam o nosso Senhor Jesus Cristo com sinceridade, e não amamos ninguém menos por pertencer à Igreja Metodista Episcopal. Muitos naquela igreja, que amam a verdade, folgarão de conhecer os fatos reais do caso, pois só ouviram deturpações — deturpações que, repetidas por pessoas em quem se acostumaram a confiar, receberam inocentemente como verdadeiras. Procuramos expor tudo com equidade, sem exagero, e estamos certos de tê-lo feito sem malícia. Nutrimos os sentimentos mais bondosos para com todos.

Apêndice

Numa convenção realizada em Pekin, em agosto de 1860, adotou-se a Disciplina Metodista Livre, e B. T. Roberts foi eleito superintendente geral. A Conferência de Genesee da Igreja Metodista Livre organizou-se em Rushford, condado de Allegany, N.Y., sob a Disciplina, em outubro de 1860: cinco pregadores foram recebidos em plena conexão — todos ex-pregadores da Igreja Metodista Episcopal — e sete em probação. A Conferência Ocidental organizou-se em Wayne, condado de DuPage, Illinois, em 14 de junho de 1861: três pregadores em plena conexão — um deles até havia pouco pastor de uma igreja congregacional — e vinte em probação; total de membros relatado: 511. A primeira Conferência Geral realizou-se em outubro de 1862. Estatísticas daquele ano e de cada quadriênio seguinte: membros — 2.498 (1862), 4.889 (1866), 6.556 (1870), 7.466 (1874), 10.682 (1878); pregadores — 35, 85, 128, 137, 313; valor do patrimônio eclesiástico: 358.290 dólares. Dos pregadores hoje pertencentes às conferências metodistas livres, só dezenove, cremos, pertenceram algum dia a alguma conferência da Igreja Metodista Episcopal — de sorte que não parece haver propriedade alguma em chamar este movimento uma secessão. Têm doze Conferências Anuais, estendendo-se de Nova York ao Kansas. Fundaram duas escolas de nível de academia, em operação bem-sucedida — uma em North Chili, condado de Monroe, N.Y.; outra em Spring Arbor, condado de Jackson, Michigan. Há, sob o patrocínio da denominação, uma revista mensal, The Earnest Christian, devotada à piedade experimental e prática, fundada em 1860 pelo seu atual editor, o rev. B. T. Roberts; também um semanário, The Free Methodist, e dois jornais de escola dominical. Até onde podemos julgar, a denominação está, no conjunto, em condição florescente.

Tradução com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello · Texto original de 1879, em domínio público · Citações bíblicas na NAA

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