Coletânea histórica · Tradução integral

Verdades Contundentes

B. T. Roberts · 1912

Coletânea póstuma dos editoriais breves que B. T. Roberts escreveu para o jornal The Free Methodist entre 1886 e 1890, compilados em 1912 por W. B. Rose, com introdução de Wilson T. Hogue. São 641 extratos numerados, organizados em ordem alfabética de assunto — da graça e da santidade ao dinheiro, à língua, ao lar e ao zelo —, no estilo direto e incisivo que deu nome ao livro.

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hb 4.12)

Leia os 52 blocos de extratos

Prefácio e Introdução+

Prefácio

Ao compilar este volume, o alvo foi apresentar as verdades incisivas contidas nos parágrafos editoriais mais breves escritos pelo reverendo Benjamin T. Roberts enquanto editor do The Free Methodist.

A relação que o autor manteve com seus leitores, como um dos fundadores da igreja de sua escolha e como pai espiritual de muitos deles, somada ao fato de que estes escritos carregam a sabedoria e a experiência de alguém que esteve, por mais de vinte e cinco anos, em contato direto com a nossa história denominacional primitiva, tornará este livro de especial interesse.

O alcance destes editoriais é extremamente amplo. O compilador surpreendeu-se, ao reunir os diversos parágrafos, com o fato de que, embora o autor tivesse escrito várias vezes sobre o mesmo assunto, e em intervalos diversos ao longo de um período de quatro anos, cada escrito apresentava alguma face do assunto não tratada em outro lugar.

Nos raros casos em que possa parecer haver semelhança de pensamento, ou em que uma passagem bíblica apareça pela segunda vez ligada a algum assunto, o leitor, por causa do contexto peculiar, nos louvará por deixar o parágrafo como originalmente escrito.

Quase todos os títulos dos assuntos foram supridos pelo compilador, pois os escritos originais apareceram sem eles. A disposição dos assuntos é alfabética (na ordem do original em inglês), e a das subdivisões procura ser lógica e também alfabética, tanto quanto se harmonize com a ordem lógica. Cada parágrafo é numerado.

“Verdades Contundentes” é enviado ao público com a oração de que estas palavras sejam de novo revestidas do espírito em que foram escritas, e de que assim o leitor sinta o poder de “pensamentos que respiram e palavras que ardem”.

Chicago, 17 de agosto de 1912. — W. B. Rose

Introdução

“Verdades Contundentes” tem o nome certo. É uma compilação dos escritos editoriais de um dos mais contundentes pregadores e escritores.

Benjamin Titus Roberts não costumava falar ou escrever para o entretenimento do público, mas para produzir convicção. Suas palavras geralmente tinham o mesmo efeito que as de São Pedro no dia de Pentecostes: os que as ouviam ficavam “compungidos em seu coração” (At 2.37). É esse o efeito natural do discurso contundente, pois contundente significa “que fere, que pica, que traspassa”.

Tal é o caráter da coleção de verdades aqui apresentada. São declarações sob cuja leitura os mortais comuns não dormirão, assim como ninguém dormiria com agulhas ou espinhos a traspassar-lhe a carne. Como a Palavra de Deus, que elas elucidam com clareza e aplicam com vigor, são “viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12).

Verdades desse caráter são muito necessárias nesta era de indiferença às coisas espirituais, nestes tempos de paralisia geral da consciência e de frouxidão moral dominante, até da parte de gente professamente religiosa. A era laodicense em que vivemos precisa de verdades contundentes que despertem os homens de sua segurança carnal, os tragam a si e produzam neles aquela profunda preocupação moral sem a qual a vida se esvai em meras trivialidades.

A leitura de certos livros tende a produzir estreiteza de visão; mas o exame de “Verdades Contundentes” alargará a perspectiva da vida e do serviço cristãos. As verdades contidas neste volume cobrem uma extensa gama, incluindo todo tópico de importância vital em relação à experiência, à vida e ao serviço cristãos, além de numerosos parágrafos e artigos sobre assuntos educacionais, sociológicos, políticos e de reforma.

Este volume será especialmente útil aos que têm “fome e sede de justiça” (Mt 5.6) — aos que desejam sobressair na vida santa. As discussões sobre a santidade serão instrutivas, inspiradoras e proveitosas, tanto para os que buscam ansiosos quanto para os mais avançados na experiência cristã.

Há muito, também, que será particularmente vivificante e estimulante para o ministro cristão. Um olhar ao índice revela que o número de tópicos relativos a pregadores, pregação, trabalho pastoral e deveres afins é bem proporcionado à sua importância. As dicas, sugestões, conselhos e discussões mais extensas sobre esses assuntos são joias de sabedoria.

O autor de “Verdades Contundentes” sobressaía como escritor. Sua erudição era profunda e ampla. Seu estilo era sóbrio, claro, convincente e altamente sugestivo. Poucos escritores conseguiam dizer tanto em tão poucas palavras; poucos eram tão dotados na arte da ilustração vívida.

Embora o conteúdo deste volume tenha sido disposto pelo compilador com referência à ordem lógica, cada item é, na maior parte, independente do que o precede e do que o segue. Os tópicos são numerados e indexados alfabeticamente. O livro, portanto, pode ser lido com proveito, seja de modo contínuo, seja por tópico. A numeração e a indexação dos quase 650 tópicos também o tornam conveniente para consulta rápida.

O rev. W. B. Rose, agente da Casa Publicadora Metodista Livre, como compilador e editor, prestou valioso serviço à denominação e uma contribuição das mais louváveis à literatura cristã com a produção desta obra. Seu trabalho é também um tributo bem merecido à memória do principal fundador da Igreja Metodista Livre, que foi também seu primeiro superintendente geral (bispo) e, da data de sua eleição, em 1860, à de sua morte, em 1893, foi também, debaixo de Deus, seu principal espírito condutor.

Evanston, Illinois. — Wilson T. Hogue

Extratos 1–12 · Exatidão, trabalho no altar, autoridade, despertamento, o desviado+

1. Declaração exata — sua importância

Forme hábitos de exatidão. Isso acrescentará à sua felicidade, à sua utilidade, à sua prosperidade e à sua piedade. Você poderá confiar em si mesmo, e os outros poderão confiar em você. O texto da Escritura que você quiser usar, decore-o com cuidado e cite-o como ele é. Não deturpe nem exagere os fatos que relatar. Se fizer alusão a alguma das artes ou ciências, cuide para não misturar as coisas nem pô-las de cabeça para baixo.

Numa reunião campal em Minnesota, referimo-nos a um irmão presbiteriano do Leste, em cujas terras se localizava uma estação ferroviária. Em cada escritura que lavrava, ele estipulava que a propriedade seria perdida se bebidas embriagantes ou cerveja fossem vendidas no local. Um homem abriu uma taberna num lote que havia comprado. O presbiteriano moveu ação nos tribunais. O caso subiu à Corte de Apelações, o lote foi declarado perdido, e a bebida ficou de fora. O ocorrido se dera a mil milhas de distância, vinte anos antes do relato aqui mencionado. Não imaginávamos que alguém dos presentes soubesse algo a respeito. Para nossa surpresa, um morador da comunidade, cavalheiro bem conhecido, sem profissão de fé, confirmou tudo o que disséramos e declarou que ele próprio “era a vítima” — o homem que tentara abrir a taberna e fora derrotado. Esse pequeno incidente pareceu acrescentar muito à nossa influência sobre a congregação. As pessoas pareciam pensar que podiam confiar em nossas declarações.

Mutila-se grandemente a capacidade de fazer o bem quando os ouvintes sentem que precisam descontar algo do que se diz. Seja exato em suas declarações. Mantenha contas exatas.

2. Trabalho no altar — a oração é importante

Irmão, quando alguém vem à frente para receber oração e você se dispõe a dirigir a oração, então ore por essa pessoa. Se você não está em condição espiritual de fazê-lo, seja honesto e vá você mesmo à frente pedir oração. Mas não substitua a oração por um sermão de joelhos. Não tente informar ao Senhor o que ele é. Venha a ele com simplicidade e, em linguagem clara e fervorosa, peça-lhe que faça a obra que o Espírito faz você sentir que precisa ser feita. Muitas palavras não são necessárias. Belezas de expressão tomadas de empréstimo não são necessárias. Mas a precisão, a simplicidade e a fé são necessárias. Se o que busca não está sob convicção, como deveria, ore para que a convicção venha sobre ele. Se lhe falta luz, procure trazer à sua alma a luz do Espírito Santo. Se o Senhor lhe der algo para essa pessoa, isso pode ser dito em poucas palavras; diga-o, e depois mantenha-a olhando para o Senhor em busca de libertação. Todos os nossos membros deveriam ser bons obreiros de altar. Podem sê-lo, se quiserem. Se você não é um bom obreiro de altar, quer tornar-se um? Consagre-se a Deus para esse serviço, e ele o inflamará e o usará.

3. Trabalho no altar — a oração unida como meio

“As más companhias corrompem os bons costumes.” (1Co 15.33) Alguns dos nossos, por trabalharem em reavivamentos populares, adquiriram um mau jeito de trabalhar. Falam demais, cantam demais e oram de menos. Não parecem tomar sobre si o fardo das almas. Não oram com a intercessão do Espírito, “com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Nunca devemos esquecer que as almas não são salvas pela oração, mas pelo poder de Deus em resposta à oração. Não oramos a homens, mas a Deus. Portanto, se cinquenta oram ao mesmo tempo, não há confusão, pois Deus pode ouvir cinquenta, ou mil, ao mesmo tempo, tão bem quanto um. Invariavelmente, onde o povo se une dessa maneira, alcançam-se os melhores resultados. Os convertidos são mais numerosos, mais fortes e mais duradouros. Façamos a obra que Deus nos confiou tão perto quanto pudermos do próprio jeito de Deus.

4. Trabalho no altar — salvação somente pelo Espírito Santo

As almas são salvas pelo poder do Espírito Santo, e não pela força da lógica. Quando Paulo dissertou sobre “a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro, Félix ficou amedrontado” (At 24.25). Foi até onde a lógica pôde levá-lo. Mas quando Paulo, “cheio do Espírito Santo, fixou os olhos” em Elimas, e em resposta às suas palavras o grande feiticeiro foi ferido de cegueira, “então o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado com a doutrina do Senhor” (At 13.12). Assim, quando os pecadores vêm aos nossos altares, devemos orar para que o poder de Deus desça sobre eles, e não manter com eles uma conversa contínua. Devemos confiar no Espírito Santo para fazer a obra em resposta à oração. Os que buscam devem ser animados a orar; e devemos perseverar com eles até que a bênção venha. Se não oram como convém, devemos guiá-los, pondo em seus lábios petições curtas e apropriadas. Basta levá-los a orar com fervor e fé, e eles chegarão lá. “Pois todo o que pede recebe.” (Mt 7.8)

5. Autoridade — deve ser respeitada

A Bíblia inculca o devido respeito às pessoas investidas de autoridade. “Paguem a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” (Rm 13.7) “Desprezar o senhorio e difamar autoridades superiores” — eis o que o apóstolo aponta como marcas dos que “se introduziram furtivamente”, “ímpios, que transformam a graça de nosso Deus em libertinagem” (Jd 8,4). O orgulho ímpio e a ambição estão no fundo dessa má vontade em respeitar os que estão acima de nós. O célebre dr. Samuel Johnson diz: “Os seus niveladores querem nivelar para baixo até chegar a si mesmos; mas não suportam nivelar para cima, acima de si mesmos. Todos gostariam de ter alguém abaixo deles; por que não aceitar, então, ter alguém acima?” O amor à preeminência faz triste estrago na piedade pessoal e na prosperidade da igreja. Gente assim está sempre pronta a rejeitar seus pregadores. Diótrefes não recebia nem mesmo o apóstolo João, o discípulo amado (3Jo 9).

6. Despertamento — esforços para produzi-lo

A menos que a comunidade inteira esteja convertida, o pregador não deve contentar-se em pregar somente, ou principalmente, aos seus próprios membros. Onde isso acontece, algo está errado com o pregador. Se não há interesse, ele deve despertar o interesse. Mas, ai! provavelmente ninguém precisa mais de despertamento do que ele mesmo. Um homem não pode estar profundamente interessado em algo sem despertar, se tentar, o interesse dos outros. Isso é duplamente verdadeiro no grande assunto da salvação. A falta de interesse na congregação — e, muito mais, a falta de congregação — prova que o pregador está espiritualmente morto.

“Despertem todos os atalaias de Sião
e deem o alarme que lhes cabe dar.”

Se você não consegue fazer o povo vir até você, vá até o povo. Visite-o em seus lares. Mostre interesse por ele, simpatia por ele. Se estiver na cidade, faça uma reunião na rua pouco antes da hora do culto na igreja. Forme uma procissão e marche, cantando no Espírito, até a igreja. Isso nunca falha em atrair uma congregação. Mantenha o interesse da reunião. Orações e exortações longas, monótonas e enfadonhas afugentam o povo. Faça outros tomarem parte na reunião. Comece no Espírito e siga no Espírito até o fim.

7. Despertamento verdadeiro

O desejo de fugir da ira vindoura é o próprio começo de uma experiência religiosa genuína. Ninguém pode ser justificado, muito menos santificado, sem ele. Se em cada caso esse desejo se mostra pelos frutos acima especificados, segue-se que o vasto exército de professos de religião — enfeitados de joias, leitores de romances, fumantes de charuto, agarradores de dinheiro — de que as igrejas estão cheias não pode, de modo algum, estar em estado de salvação! Não alcançaram sequer o primeiro estágio de uma vida verdadeiramente religiosa. Muitos deles dirão que não se sentem condenados por essas coisas. Mas as mesmas Regras Gerais dizem que todas essas coisas “somos ensinados por Deus a observar, até em sua Palavra escrita. E todas elas sabemos que o seu Espírito escreve nos corações verdadeiramente despertados”. Segue-se, então, que os que não têm consciência dessas coisas não estão despertados. Oh, quanta necessidade há, em toda parte, de fazer para Deus uma obra completa!

8. Desviado — você é um?

Você é um desviado? A pergunta não é inoportuna nem impertinente. Não a descarte depressa. Você pode estar desviado no coração e não o saber. Muitos estão. Você sabe que algo não vai bem, mas nunca suspeita que o problema esteja em você mesmo. Acha que os pregadores que ouve e os jornais que lê já não são como eram. O modo como as coisas nos parecem depende, muitas vezes, da nossa própria vista. Talvez a dificuldade esteja, ao menos em parte, em você. Pode ser que as verdades divinas já não o toquem como antes porque você perdeu o interesse pelas coisas divinas. O fracasso dos sermões em tocá-lo pode dever-se à dureza do seu próprio coração. É possível que até você tenha abandonado o seu primeiro amor (Ap 2.4). Não fará mal nenhum examinar o assunto.

9. Desviado enganado

Muitos estão desviados e não o sabem. Suas profissões são altas — seu estado de graça, baixo. “Porque você diz: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabe que você é infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Ap 3.17) É triste não ver; mais triste ainda é não saber que não se pode ver. Cristo não pôde fazer muito pelos fariseus. Eram tão observantes de algumas práticas da religião que não admitiam a possibilidade de não estarem em estado de salvação. Eram censores dos outros; caridosos consigo mesmos. Muitos estão nessa mesma condição. São rigorosos em algumas coisas, frouxos em outras. Sua religião é uma religião de egoísmo. Têm ilimitada admiração por si mesmos. A quem os aprova, e ao seu caminho, dão comunhão; aos que deles discordam, condenam. Não são hipócritas deliberados — mas estão enganados.

Somos por demais inclinados a julgar nosso estado religioso comparando-nos com os que nos cercam, em vez de nos examinarmos pela Palavra de Deus. Muitos vão descendo rapidamente para o inferno com a observação tranquilizadora: “Acho que sou tão bom quanto qualquer um deles.” Suponha que seja. Se eles não são bons o bastante para ir a um céu de pureza, onde não pode entrar nada que contamine, ser tão bom quanto eles não o salvará. “Porque eu digo a vocês: se a justiça de vocês não exceder em muito a justiça dos escribas e fariseus, jamais entrarão no Reino dos Céus.” (Mt 5.20) Condenar os outros não nos salvará. Seja qual for a condição ou a conduta dos outros, nós é que temos de estar certos com Deus. A traição de Cristo por Judas não desculpou Pedro por negar o seu Mestre. Ele teve de arrepender-se por si mesmo. A grande questão que cada um de nós deve resolver é: “Estou certo com Deus?”

10. Desviado — um traço atenuante

Houve um traço atenuante nos desvios de Salomão: ele não reivindicou de volta o que fizera e dera para a construção do templo. Agiu muito perversamente ao ceder às suas mulheres e construir altares às divindades favoritas delas. Por amor à paz doméstica, sacrificou a pureza do culto ao SENHOR e “seguiu Astarote, deusa dos sidônios, e Milcom, abominação dos amonitas”. E edificou altos “para todas as suas mulheres estrangeiras, que queimavam incenso e sacrificavam aos seus deuses” (1Rs 11.5,8). Mas não hipotecou o templo para pagá-los; nem retirou as ofertas que fizera a Deus. Não tentou entregar o templo aos sacerdotes de Baal. Mau como era o seu caso, poderia ter sido pior. Mas, se Deus se irou contra ele, o que não sentirá para com os que trabalham por destruir o que antes edificaram para Deus?

11. Desviado — volte

Se você, no mais leve grau, se desgarrou de Deus, volte a ele imediatamente. Não espere quebrar algum grande mandamento para só então trazer-lhe um coração quebrantado. A desgraça pública não é essencial à verdadeira penitência. Quanto mais cedo você confessar em que errou, menos terá a confessar. Nada se ganha esperando. Você está constantemente endurecendo, e pode entristecer o Espírito até que ele o deixe.

“Peregrino longe do lar paterno,
tão cheio de pecado, tão distante,
queres vagar ainda mais?
Oh, não voltarás hoje?
Voltarás? Ele sabe de tudo.
Teu Pai te vê; ele te encontra aqui!
Voltarás? Ouve o seu terno chamado:
‘Volta, volta!’, enquanto ele está perto.”

Não espere por alguma grande ocasião, nem por algum santo eminente que o ajude. Você tem agora a melhor ocasião — um tempo sem distração — e a melhor e maior das ajudas: o Espírito Santo. E Deus está dizendo: “Voltem para mim, e eu voltarei para vocês.” (Ml 3.7) Volte, pois, imediatamente, por pouco ou por muito que se tenha desgarrado.

12. Desviado — a morte de um

Por anos ele foi um cristão feliz e um obreiro bem-sucedido em ganhar almas. Entrou na política. Durante a agitação que precedeu a eleição, negligenciou as reuniões de oração para assistir a comícios. Tornou-se frio e formal. Obteve um cargo. Antes de expirar o mandato, abandonou de vez a religião. Deu para fumar, depois para beber cerveja. Fomos visitá-lo. Recebeu-nos cordialmente. Lembramos-lhe os dias de outrora e o instamos a voltar para o Senhor. Ele pôs a mão em nosso ombro e, com grande ênfase, disse: “Irmão, não tenho a menor dúvida de que, se eu morrer como estou, serei condenado. Mas não tenho o menor desejo de estar diferente.” Ele havia entristecido o Espírito até afastá-lo.

“Há uma linha, por nós não vista,
que cruza todo caminho:
a fronteira oculta entre
a paciência de Deus e a sua ira.”

Poucas manhãs depois de nossa conversa, ele saiu de casa aparentemente tão bem como de costume. No coração da cidade, caiu de repente na rua. Uma multidão se juntou ao redor. Tentaram levantá-lo, mas estava morto. A intimação inexorável havia chegado e, despreparado como estava, ele foi introduzido na eternidade. Guarde-se dos começos do desvio.

Extratos 13–23 · O desvio na velhice, a Bíblia, bênção, fardos do Senhor+

13. Desvio na velhice

A provação dura enquanto dura a vida. Cada dia que um homem vive no pecado, ele vai se endurecendo no pecado, e diminui a probabilidade de que venha um dia a converter-se. Quanto mais longa e fielmente alguém vive no serviço de Deus, mais firmados ficam seus hábitos de piedade e obediência a Deus, e mais difícil é desviá-lo para qualquer dos caminhos do pecado. Ainda assim, até que alguém chegue à glória, há possibilidade de queda. Deus é poderoso para nos guardar. Ele inspira, incita e conduz, mas nunca interfere na liberdade da vontade. Ao longo de todo o caminho da vida há atalhos que levam à estrada larga e batida que termina na destruição, e qualquer um pode facilmente passar para ela, se quiser. Os que por muitos anos prestaram valente serviço à causa de Deus não estão isentos do perigo de cair; e, se abandonarem a Deus, asseguram sua destruição tão certamente como se nunca o tivessem conhecido. “Quando o justo se desviar da sua justiça e cometer iniquidade, morrerá por causa dela.” (Ez 18.26)

Salomão foi o homem mais capaz de sua era. Seu intelecto era da mais alta ordem; seu conhecimento, sem igual. Fora criado em hábitos de piedade. Sua conversão foi clara, e a ele se fez manifestação miraculosa da presença e das bênçãos de Deus. Por muitos anos teve a mais clara evidência do cumprimento das promessas de Deus em seu favor; e, no entanto, lemos: “Quando Salomão já era velho, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo fiel ao SENHOR, seu Deus, como fora o coração de Davi, seu pai.” (1Rs 11.4) Se Salomão caiu quando era velho, quem está isento do risco de cair na velhice, mesmo depois de anos felizes no serviço de Deus?

Um dos perigos do desvio na velhice resulta do amor à paz e à tranquilidade, que cresce em nós com os anos. Não gostamos de contenda: “os moços, para a guerra”. Os velhos já tiveram bastante dela. Viram que seu rastro é semeado de desolação, e que todas as graças cristãs e as artes úteis florescem melhor em tempos de paz. Os idosos querem, sobretudo, paz na família. Foi o caso de Salomão. Ele não abandonou a Deus por inclinação própria; mas suas mulheres eram clamorosas. Queriam altares para seus falsos deuses; e Salomão, por amor à paz, atendeu aos seus pedidos e edificou um alto a Quemos, abominação de Moabe, e a Moloque, abominação dos filhos de Amom. Não derrubou o altar do SENHOR; os sacrifícios continuaram sendo oferecidos nele, como de costume. Ele apenas transigiu.

A mesma coisa, em substância, faz-se muitas vezes em nossos dias. Homens que serviram fielmente a Deus por anos, com claras convicções da incompatibilidade entre o culto de Baal e o culto do SENHOR, pagam, por instigação de suas esposas, pelo sustento de pregadores maçônicos em cujo cristianismo não confiam, e pelo aluguel de bancos de igreja, sabendo que a casa de Deus deveria ser tão gratuita quanto a graça que ele oferece.

Como no caso de Salomão, podem manter a forma do culto e, assim, deixam de ver, até que seja tarde demais, que na realidade se desviaram de Deus. É melhor ter guerra do que devassidão dentro de casa. É mais necessário ser fiel aos princípios do evangelho do que ter paz.

Outra causa de desvio é o amor ao dinheiro. Muitos, ao envelhecer, tornam-se cobiçosos e mesquinhos. A corrente de beneficência que flui deles vai minguando quanto mais corre. Quanto menos uso têm para o dinheiro, mais o amam. Entesouram bens para parentes que não precisam deles e que os gastarão no serviço do diabo. Como diz um velho escritor: “Vão para o inferno ganhando dinheiro, e seus herdeiros vão para o inferno gastando-o.” Esperam ter riquezas duráveis, embora não tenham sido “fiéis nas riquezas de origem injusta” (Lc 16.11). Esperam que Deus lhes dê uma herança celestial, e contudo não dão a Deus parte alguma da herança terrena que por um pouco de tempo ele confiou às suas mãos. Nem sequer se lembram dele em seus testamentos.

Vocês que estão na descida da vida, não ouvirão as palavras de advertência escritas com amor por um dos seus? Cuidemos de perseverar até o fim, custe o que custar a fidelidade a Deus. Não nos cansemos de fazer o bem. O tempo da ceifa está próximo. Prossigamos até que o Mestre chame, e “batalhemos, com todo o empenho, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Seja qual for o conflito que nos espere, digamos com Paulo: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira com alegria.” (At 20.24) Então, terminada a batalha, poderemos dizer com ele: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.” (2Tm 4.7-8)

14. Pagãos batizados

Fletcher era um homem muito amoroso e amável, mas muito franco. Tem um capítulo intitulado “Discurso aos pagãos batizados”. O que segue é digno do título:

“Ó vocês que estimam o prazer, o lucro e a honra mais que a justiça, a misericórdia e o temor de Deus; vocês que, longe de abraçar a verdade divina com risco da própria reputação, espalham inverdades escandalosas para a ruína da reputação alheia; vocês que procuram persuadir-se de que a religião não passa de um composto monstruoso de superstição, fanatismo e clericalismo; vocês que violam as leis da temperança ou da honestidade sem um só remorso, quebrando promessas, juramentos e compromissos matrimoniais ou sacramentais, como se não houvesse estado futuro, nem Juiz supremo, nem dia de retribuição, nem lei divina estabelecendo que ‘todo aquele que ama e pratica a mentira’ será lançado ‘no lago de fogo’ (Ap 22.15; 21.8), e que ‘os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus’ (Sl 9.17) — vocês são as pessoas a quem peço licença para chamar de pagãos batizados.”

Leitor, você é cristão?

15. Crer e confessar

Há uma fonte inesgotável de bênçãos naquele dito de São Paulo: “Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 10.10) O crer deve ser com o coração — os afetos, a vontade —, e não apenas com a cabeça, o intelecto. Crer desse modo introduz a pessoa na justiça, no princípio do que é reto, na determinação e no poder de fazer o que é reto. Isso é grande bênção. Mas com a boca — não apenas com a vida — se confessa a respeito da salvação. É preciso haver a confissão franca e declarada, se você quer provar em sua plenitude as alegrias da salvação. Foi para o próprio bem, tanto quanto para o dos outros, que disse o salmista: “Venham, ouçam, todos vocês que temem a Deus, e eu lhes contarei o que ele tem feito por minha alma.” (Sl 66.16) Você não pode conservar a bênção que Deus lhe deu, a menos que a declare. Confesse-a à sua família, aos que convivem com você e, nas ocasiões próprias, à grande congregação.

16. A Bíblia

A Bíblia é um livro maravilhoso. Nunca deixa de ser interessante e instrutiva. Quanto mais a lemos, mais a apreciamos. Sempre encontramos nela algo novo. É um campo cuja fertilidade aumenta quanto mais longa e cuidadosamente é cultivado. Quanto mais dele se tira, mais ele é capaz de produzir. É uma mina que se torna mais e mais rica quanto mais fundo se cava. Perdemos o interesse por outros livros depois de lê-los algumas vezes. Não é assim com a Bíblia. É o livro mais antigo do mundo e, contudo, está sempre fresca e nova para os que a leem devotamente. Adaptou-se a cada período da história do mundo no passado; adapta-se especialmente aos nossos tempos. Amados, leiam as suas Bíblias.

17. Mistérios da Bíblia

Os mistérios da Bíblia não são maiores que os mistérios que nos cercam. As palavras do apóstolo soam estranhas a alguns: “Há corpo natural e também corpo espiritual.” (1Co 15.44) “Como é possível”, diz o materialista, “que haja um corpo espiritual?” Nós lhe diremos — se você nos explicar como é possível que os mesmos elementos, combinados exatamente nas mesmas proporções, formem substâncias tão diferentes na aparência e nas propriedades como a água, o gelo, a neve e o vapor. A vida mais comum está envolta em mistérios. Mas, graças a Deus, todos podemos entender o bastante do mistério da piedade para sermos felizes na vida e triunfantes na morte. Aquele cujo ouvido Deus abriu pode ouvir cânticos na noite.

18. A Bíblia nunca muda

A moda muda, mas a Bíblia nunca muda. Como o seu Autor, é a mesma ontem, hoje e para sempre. Os relógios podem variar, mas o sol nunca varia: sempre marca a hora. Nunca nasce um segundo atrasado, nem se põe um segundo mais cedo. Assim a Bíblia apresenta um padrão infalível e invariável do certo e do errado. Uma geração pode sancionar a escravidão, mas por todas as gerações a Bíblia proclama: “Tudo quanto vocês desejam que os outros façam a vocês, façam também a eles.” (Mt 7.12) Em alguns países, alguns leitores da Bíblia podem amar a bebida forte; mas em todos os países a Bíblia soa a advertência: “Não olhe para o vinho quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e desce suavemente; pois ao final ele morde como a cobra e pica como a víbora.” (Pv 23.31-32) As igrejas podem vestir-se como o mundo, viver como o mundo e buscar deleite nos prazeres mundanos; mas em todas as igrejas a Bíblia pronuncia a solene ordem: “Não vivam conforme os padrões deste mundo.” (Rm 12.2) Ame, pois, a sua Bíblia, obedeça com cuidado às suas direções, e ela o conduzirá por fim à participação plena e interminável das alegrias imortais.

19. Leitura da Bíblia

Recomendamos a todos os nossos leitores que leiam a Bíblia inteira, uma vez por ano, de modo contínuo. Você sentirá por ela um interesse que não sente quando a toma e lê ao acaso. No ano passado, lemos por inteiro a Versão Revisada da Bíblia. É bom ter um exemplar para consultar quando se chega a uma passagem da versão antiga que não se entende: às vezes ela traz à luz com mais clareza o sentido do original. Mas, no conjunto, gostamos imensuravelmente mais da versão antiga. Cremos que está destinada a manter o seu lugar. Ela é querida ao coração de milhões de filhos de Deus.

20. A bênção de Deus enriquece

O lugar mais humilde torna-se agradável pela presença de Deus. Se tivéssemos mais do seu Espírito habitando em nossos lares, precisaríamos de mobília menos custosa e de menos roupas finas. Evitar-se-iam as dívidas, com seus aborrecimentos infalíveis.

“Deus abençoe a nossa saída, e não menos
a nossa entrada, e as torne seguras;
Deus abençoe o nosso pão de cada dia, e abençoe
tudo o que fizermos — tudo o que suportarmos;
na morte, desperte-nos para a sua paz,
e nos faça herdeiros da sua salvação.”

Esta oração de Martinho Lutero é boa para ser adotada por toda família. Não devemos dar um único passo na vida sobre o qual não possamos ter a bênção de Deus. Mais bela ainda é a bênção que Arão e seus filhos foram mandados pronunciar sobre os filhos de Israel: “O SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz.” (Nm 6.24-26)

Estimemos a bênção de Deus acima de todo preço.

21. O pão de cada dia é provido

Pastos verdejantes são providos pelo Grande Pastor para todo o seu rebanho. O alimento é nutritivo, delicioso e abundante. E as ovelhas o colhem à medida que precisam, cada uma por si. Nada fica guardado em depósito; não é distribuído seco por empregados de aluguel. A oração que o nosso Senhor nos ensina é: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje.” (Mt 6.11) Não deve haver famintos no rebanho. Os santos podem ficar sem pregador, mas o seu grande Provedor está sempre à mão. Ele supre as suas necessidades, ora de um modo, ora de outro; mas nunca os deixa sofrer por falta de pão. “Os leõezinhos sofrem necessidade e passam fome, mas aos que buscam o SENHOR bem nenhum lhes faltará.” (Sl 34.10)

22. Os fardos do Senhor não esmagam

O fardo que o Senhor põe sobre nós não é esmagador. O jugo que Cristo quer que levemos não fere. Às vezes, na obra do Senhor, permitimos que outros nos ponham fardos que o Senhor nunca impôs. Toleramos que nos ponham um jugo que Cristo nunca pretendeu que usássemos. Outros podem ter mais conhecimento do que nós em muitas coisas; mas devemos viver tão perto do Senhor que ouçamos e reconheçamos a sua voz em tudo o que se refere ao nosso dever. A promessa é geral: “Todos os seus filhos serão ensinados pelo SENHOR.” (Is 54.13) Cada um de nós deve buscar ser ensinado por Deus, especialmente quanto ao próprio dever. Podemos sempre esperar resposta quando, em humildade e submissão, perguntamos: Senhor, que queres que eu faça?

23. Negócios para Deus — sem preguiça

Quem faz negócios para Deus deveria ser, entre todos os homens, o mais diligente nos negócios. Sua obra é a mais importante em que um ser humano pode empenhar-se. Seu salário é o mais alto de todos. Ninguém deveria superá-lo em fidelidade à vocação. Ele deve aproveitar ao máximo cada hora e cada dia.

Moramos certa vez perto de um ferreiro diligente em seu ofício. O tinir do seu martelo nos despertava para ler a Palavra de Deus e orar — para o estudo e a devoção. O Espírito Santo dizia: “Você deveria ser menos diligente em ajuntar tesouros no céu do que este homem em garantir o sustento terreno?” Assim, a indústria dele se tornou para nós um meio de graça.

Extratos 24–37 · Reuniões campais, caráter e reputação, crianças+

24. Reunião campal — a localização

O êxito das reuniões campais depende muitíssimo de sua localização. Nossa experiência demonstrou que não é proveitoso realizá-las em certas vizinhanças.

1. Não devem ser realizadas em terrenos usados por outros como áreas de lazer. As pessoas vão lá não para serem instruídas, mas para se divertirem. Não comparecerão durante a semana vezes bastantes para se aquietarem e se tornarem sérias. Quando vêm, é para visitar, ouvir “pregação esperta”, criticar. Estão apegadas aos seus ídolos. Deixe-as.

2. Não devem ser realizadas onde o povo é hostil ou indiferente. Não devemos, em regra, fazer reuniões campais onde o povo não sente interesse bastante para preparar o terreno. Isso vale mesmo onde não temos membros na vizinhança. A menor frequência que vimos numa reunião campal, no verão passado, foi a cerca de uma milha de uma cidade, numa vizinhança densamente povoada. A luz fora oferecida ao povo, e ele a rejeitara deliberadamente. Não queriam ser incomodados de novo, e por isso ficaram longe.

3. Localize-a tão perto de uma estação quanto puder, e em vizinhança amigável. Não tenha medo das cidades. Os que nelas residem, em geral, estão ficando tão civilizados que não perturbarão uma reunião de salvação bem conduzida.

25. Reunião campal — o modo de pregar

Se você pregar numa reunião campal, certifique-se de pregar o evangelho. Não procure derrubar ninguém; levante Cristo. Se tem alguma queixa contra algum irmão ou irmã, não vá à reunião campal para ventilá-la. Calúnia, ridículo, sarcasmo e ataque pessoal — por merecidos que sejam da parte daqueles a quem se destinam — não fazem parte dos meios que Deus ordenou para a salvação da humanidade. A pregação clara não precisa ser provocadora. E não o será, se vier de um coração cheio de terno amor. Quem é movido de profunda compaixão pode proferir as verdades mais penetrantes de modo a derreter, em vez de enfurecer. Homens e mulheres podem ser feridos no vivo; mas se arrependerão sob a verdade dita em amor, e não se ressentirão do que sentem ter sido dito sem outro motivo senão fazer-lhes bem. Elias parece ter sido severo em seus conflitos com os sacerdotes de Baal; mas levou o povo consigo. Destruiu os sacerdotes da idolatria — mas o fez para resgatar seus seguidores iludidos. Trouxe o povo de volta a Deus. Seu exemplo não dá apoio aos que, com denúncias inoportunas, afugentam os que estavam meio inclinados a acompanhá-los. Se você não pode expulsar demônios, cuidado com o modo de despertá-los.

26. Reunião campal — a pregação

A pregação em nossas reuniões campais deve ser do caráter mais despertador. Sermões finos estão fora de lugar em toda parte, especialmente nas reuniões campais. O povo não precisa ser deleitado, mas convencido do pecado. A religião superficial e mundana está em crescimento. Sua total inutilidade para salvar a alma deve ser mostrada com clareza. As verdades radicais do Novo Testamento devem ser proclamadas com toda a autoridade. Onde a nossa obra não é mais profunda que a das igrejas populares, ela não é necessária. Os que curam superficialmente devem corrigir-se imediatamente, pois correm o perigo de perder a própria alma e de levar consigo os ouvintes para o inferno. A lei de Deus não foi revogada. O Sermão do Monte não caducou. Devemos não apenas pregar a verdade, mas insistir nela e fazê-la valer. Os que se convertem entre nós devem ser tão completamente salvos que as igrejas populares não os queiram. Devem estar tão enamorados de Cristo e de sua verdade que estejam prontos, em toda parte, a dar ousado testemunho do seu poder de salvar da escravidão ao fumo, ao orgulho, ao mundo e à loja maçônica.

27. Reunião campal — pregadores carregados pelas almas

Os pregadores de uma reunião campal devem sentir profunda preocupação pela salvação das almas. A condição miserável e perigosa dos não salvos deve pesar sobre eles como fardo. Devem ter ao menos algo do sentimento do salmista quando exclamou: “Rios de água correm dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei.” (Sl 119.136) Quanto mais os pregadores tiverem desse sentimento, mais profunda ansiedade sentirá o povo de Deus pelos perdidos. Um espírito de despertamento repousará sobre a congregação, e pecadores se converterão a Deus. “Pois Sião, antes que lhe viessem as dores, deu à luz seus filhos.” (Is 66.8) Mas, se dirigentes e pregadores estão indiferentes no coração, ou na aparência, por boa e incisiva que seja a pregação, os resultados não serão satisfatórios. Ter a melhor ajuda de fora é dano positivo para uma reunião, se for causa ou ocasião de que aqueles sobre quem deveria repousar a responsabilidade escorreguem de sob o fardo e façam da reunião apenas uma temporada de convívio social.

28. Reunião campal — pregadores devem permanecer no altar

Não fica bem, numa reunião campal, quando os pecadores vêm à frente para receber oração, ver os pregadores em geral se dispersarem e abandonarem a reunião de oração. Pode haver boa desculpa: o que pregou provavelmente a tem; mas os que não estão exaustos de labores incessantes devem fazer-se sentir junto ao altar. Um pregador do evangelho deve ser capaz de prevalecer com Deus em oração. Deve ser exemplo e inspiração para o povo nesse aspecto. A verdadeira batalha pelas almas apenas começou quando os pecadores despertaram a ponto de tomar posição diante do mundo como buscadores da salvação. É hora crítica, e as orações mais fervorosas dos justos devem subir por sua salvação. Se desistirem sem se converter, podem desanimar e abandonar a busca do Senhor até que seja tarde demais. Em tal crise, ver os pregadores descansados e fortes se retirarem dá a impressão de que sentem pouco interesse pela salvação das almas. Essa aparência do mal deve ser evitada.

29. Reunião campal — crítica pública

Se o crítico metodista livre quiser exercer o seu ofício nas reuniões campais, que o faça quando o mundo de fora não estiver presente. Os responsáveis pela reunião devem cuidar que a ninguém se permita, no domingo, diante da grande congregação, fazer ataques em massa à piedade de nossos pregadores e membros. Tais ataques não são prova de piedade nem de juízo. Não podem fazer bem algum — e podem fazer muito mal. Não devem ser permitidos.

30. Reunião campal — o altar da família

As orações em família não devem ser negligenciadas na reunião campal, assim como não o são em casa. O dirigente deve anunciar a hora da oração da manhã e da noite.

Disse-nos um cavalheiro numa reunião campal: “Não sou cristão, mas minha esposa é. Em vinte anos, nunca estive tão sobrecarregado de trabalho que não participasse, com meus empregados, do culto doméstico que ela dirigia. Mas estou aqui há uma semana, hospedado com um pregador metodista livre — e ele é dos bons —, e ainda não tivemos culto doméstico.”

Não gostaríamos de assumir a responsabilidade de tal pregador. Teríamos medo de ouvir Deus dizer: “O seu sangue eu o requererei de você.” (Ez 3.18) Um homem que frequenta assim uma reunião campal deve sentir no coração bastante interesse religioso. Quem pode dizer que, com o devido esforço dos seus anfitriões, e em resposta à oração persistente no altar da família, ele não teria sido convertido? Onde Abraão armava a sua tenda, edificava um altar (Gn 12.8). Mantenham os seus altares de família nas reuniões campais e aonde quer que forem.

31. Reunião campal — os forasteiros

Quando forasteiros vierem às suas reuniões campais, ou a outras reuniões, tratem-nos com a devida cortesia. Vocês não precisam endossá-los como cristãos, se não produzem fruto de cristãos; mas devem tratá-los com civilidade. Pode-se ser amigável onde não se pode sentir a comunhão do Espírito. Levantem a cruz de Cristo, mas não a tornem desnecessariamente ofensiva por maneiras repulsivas. Os pecadores empurram; os santos atraem. Tratem as pessoas, quando vierem às suas reuniões, de modo que queiram voltar. Um espírito amigável fará mais convertidos que um espírito criticador. O amor atrai; a amargura repele. Os inimigos chamavam Cristo de “amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11.19). Que isso seja uma das piores coisas que tenham a dizer de vocês. Mostrem severidade impiedosa para com o pecado; mas sejam muito bondosos com os pecadores.

32. Reunião campal — obra completa

Esperamos que todos os nossos pregadores encarregados de reuniões campais, ou de cultos em acampamentos, cuidem que se faça para Deus uma obra completa. As fileiras dos obreiros superficiais não precisam de recrutas metodistas livres. Cidade e campo estão abarrotados de doutores em divindade que curam superficialmente. Só sendo pecadores grosseiros é que alguns não se satisfazem com as indulgências que as igrejas populares permitem entre seus membros. A estrada larga está apinhada. Homens e mulheres de todas as camadas sociais se acotovelam na caça ávida aos deleites sensuais que os vão atraindo para o inferno. Seja a nossa obra converter as pessoas das trevas para a luz, do poder de Satanás para Deus (At 26.18). Levemos as pessoas a converter-se do mundo a Cristo. Sejam poucos ou muitos os nossos convertidos, façamos a nossa parte para que sejam genuínos. A eternidade está às portas.

33. Reunião campal — o êxito

Uma reunião campal, para ter êxito, deve manter-se firmemente na obra de converter pecadores e santificar crentes. Não convém que o dirigente entregue seu tempo à administração de assuntos seculares e deixe a reunião correr ao acaso. Ele deve sentir sobre si o fardo das almas e devotar todas as suas energias a obter um derramamento do Espírito sobre pregadores e povo. Que Deus esteja manifestamente presente, e pouca falta farão as comissões de ordem. Satanás pode enfurecer-se, mas estará amarrado. Um batismo do Espírito dispensará os artifícios para levantar dinheiro e pagar as despesas.

Espere grandes coisas de Deus. Em regra, convide as pessoas a buscar a salvação em cada culto. Espere especialmente uma grande colheita de almas no domingo. Ore por isso; trabalhe por isso.

34. Reunião campal — as coletas

Reuniões campais não são pesqueiros comuns, abertos a todos os que, de anzol iscado, queiram tirar dinheiro dos bolsos do povo. Se um homem faz um açude em seu terreno e o povoa de peixes, quem vai pescá-los sem permissão é pior que um ladrão comum. Os peixes apanhados podem ir alimentar famintos, mas isso não torna certa a ação. Assim, se uma sociedade ou uma conferência trimestral teve o trabalho e a despesa de organizar uma reunião campal, tem o direito de dizer em que medida, e para que fim, se aproveitará o ajuntamento do povo para levantar dinheiro. O objetivo pode ser o melhor possível, mas isso não reveste de moralidade uma transação errada em si mesma. Há direitos, em tais casos, que todos os cristãos conscienciosos são obrigados a respeitar. É grosseiramente incoerente, além de errado, que homens que se opõem às organizações, e se recusam a submeter-se à autoridade, se aproveitem dessas organizações para promover seus próprios fins egoístas. Os cristãos devem imitar a Cristo em sua isenção de dolo.

35. Caráter e reputação

A armadura da justiça não pode impedir que atirem em nós, mas pode impedir que sejamos feridos. Os amigos de Jó, sinceros mas equivocados, esforçaram-se por convencê-lo de maldade secreta; mas, no devido tempo, Deus apareceu para vindicá-lo. Os homens podem ferir a nossa reputação por um tempo, mas não podem ferir o nosso caráter. O que somos depende apenas de nós e de Deus; o que dizem de nós depende da disposição dos outros. Sobre isto não temos controle algum; sobre aquilo, o nosso controle, debaixo de Deus, é absoluto. A nós cabe ser retos e fazer o reto; a Deus cabe cuidar dos resultados. A suscetibilidade é sintoma tanto de orgulho quanto de incredulidade. Quem tem consciência da integridade e confiança na proteção divina nada tem a temer. “Entregue o seu caminho ao SENHOR, confie nele, e o mais ele fará. Ele fará resplandecer a sua justiça como a luz e o seu direito, como o sol ao meio-dia.” (Sl 37.5-6)

36. Crianças — trabalhe pela sua conversão

Há alguns anos, auxiliamos o irmão Phillips e outros numa reunião campal em Boyden, no noroeste de Iowa. A reunião foi notável pelo grande número de crianças clara e poderosamente convertidas. Ao passarmos pelo lugar, alegra-nos ver um dos meninos então convertidos, hoje um jovem promissor, tomar o trem a caminho da conferência para assumir trabalho.

Os que dão pouco valor à conversão das crianças cometem grande erro. Os melhores pomares compõem-se de árvores enxertadas quando pequenas. Os homens de cuja piedade profunda e permanente, e consequente utilidade, a Bíblia faz menção honrosa começaram a vida de piedade na primeira juventude. Percorra a lista. Citamos um ou dois: Moisés foi criado na corte de Faraó e era instruído em toda a sabedoria dos egípcios; mas não há menção de que tenha praticado os seus vícios. José, ainda rapazinho, vivia tão perto de Deus que lhe eram feitas revelações proféticas. Ele também, como Moisés, resistiu com êxito a todas as influências enervantes e mundanas de uma corte idólatra.

Os convertidos na infância podem não causar, de início, tanta sensação quanto os que se voltaram de caminhos viciosos para o serviço de Deus; mas, em regra, perseveram mais e levam vidas mais úteis. Trabalhemos com mais fervor, constância e oração pela conversão das crianças.

37. Leve seus filhos à reunião campal

A temporada de reuniões campais está sobre nós. Se possível, compareça de todo modo. Vá com uma tenda e leve consigo tantos da sua família quantos puder. Não deixe em casa os filhos não convertidos. Leve-os com você e faça um esforço especial pela sua salvação. Não se interesse tanto pelos outros a ponto de não sentir, e manifestar, profundo interesse pelos seus filhos. A salvação eterna deles depende de sua conversão a Deus. Quanto mais tempo permanecem inconversos, maior a probabilidade de que jamais se convertam. Agora é o tempo aceitável (2Co 6.2). Faça tudo o que puder para que este dia seja o dia da salvação deles. Eles podem fazer muito bem sendo convertidos a Deus. Seja importuno em suas orações; fiel em seu esforço pela salvação deles.

Extratos 38–50 · Filhos, Cristo, coragem, o jugo, cristãos coerentes+

38. Onde estão os seus filhos?

Um dos membros mais vivos e fervorosos de uma igreja que pastoreamos era um homem já passado da meia-idade. Crescera na impiedade e fora miraculosamente convertido quando seus filhos menores já tinham idade de frequentar a escola dominical. Insistimos que os trouxesse, mas ele nunca quis. Dizia: “Não quero que meus meninos sejam criados formalistas; quero que saibam quando forem convertidos.” Antes de deixarmos aquele campo, num domingo, enquanto os pais estavam na igreja, um dos meninos mais velhos teve um olho arrancado, e outro quebrou o braço, numa briga de bar numa taberna do interior! Soubemos que alguns desses meninos foram depois para a penitenciária; mas nunca ouvimos que um só deles se tenha convertido.

Irmão, você leva os seus filhos consigo à igreja regularmente? Você cuida para que eles não estejam servindo a Satanás enquanto você serve a Deus?

39. A modéstia no vestir das crianças

Enquanto os pais são responsáveis pelos filhos, devem governar os filhos. Devem consagrá-los ao Senhor e criá-los para o Senhor. Ao vesti-los, devem conformar-se às regras que Deus estabeleceu em sua Palavra, explicando-lhes que o fazem para agradar ao Senhor. A mente das crianças deve ser dirigida a algo mais nobre que as vaidades do vestuário. As crianças podem aprender cedo que o favor do Senhor lhes vale mais que a admiração do mundo. Mas, medida até pelo baixo padrão do gosto, uma criança nunca é tão bela como quando vestida com simplicidade. A modéstia e a humildade são ornamentos mais preciosos que quaisquer dos que se compram na Feira das Vaidades. Ensine seu filho a estimá-los acima de todo preço. Se Deus lhe abriu os olhos para ver que você deve vestir-se com simplicidade, então, se tem filhos, vista-os com simplicidade. Não ponha neles enfeites que você mesmo não pode usar. Não se deve permitir que parentes ou amigos os vistam com trajes da moda, assim como não se lhes permitiria mandá-los a uma escola de dança. Vista-os de modo asseado, confortável e simples. Se você os enfeitar quando pequenos, eles enfeitarão você quando grandes. Muitas mulheres que se vestiam com simplicidade na mocidade, quando os filhos eram pequenos, e que levavam vida piedosa, deixaram que os filhos elegantes as vestissem como o mundo, perderam a experiência religiosa e se tornaram professas mortas e formais, em perigo de condenação. Se você se deixar tornar deste mundo, partilhará a sorte dos mundanos. Transigir em matéria religiosa com os filhos é grande perigo para você e para a alma deles. O orgulho exclui do céu aqueles a quem governa. Fuja dele, portanto, se quer fugir do inferno.

40. As crianças devem aprender a trabalhar

Faz-se grande dano às crianças criando-as sem lhes ensinar a trabalhar. Pode ser mais fácil você fazer um serviço do que ensinar seu filho a fazê-lo; mas, quando a criança tem idade de aprender, tem o direito de aprender, e você deve dar-se ao trabalho de ensiná-la. Crie os seus filhos, desde cedo, para servi-lo e ajudá-lo, em vez de fazer-se escravo deles. Se você tem uma vaca e tem meninos e meninas, que todos aprendam a ordenhar, e ensine aos meninos como cuidar de uma vaca: talvez um dia tenham a sua. Se contratamos outros para o trabalho, especialmente o trabalho comum da lavoura, ajuda muito, para que seja bem feito, sabermos nós mesmos fazê-lo. Uma das melhores coisas que se podem fazer por um rapaz de quinze a vinte anos é pô-lo a trabalhar por mês, ao menos uma estação, com um bom lavrador cristão. Valer-lhe-á mais que um ano de escola. O hábito de aplicar-se ao trabalho o dia inteiro ser-lhe-á de incalculável benefício na vida futura. Sábio foi aquele pai que, perguntado sobre o que faria pela filha recém-formada com todos os dotes que as escolas podiam dar, respondeu: “Vou pô-la de aprendiz com a mãe, para aprender a cuidar de uma casa e de uma família.”

O rapaz que foi bom para a mãe será bom para a esposa. A moça que ajudou constantemente a carregar os fardos da mãe achará os seus mais leves, pela disciplina que adquiriu.

41. Cristo, tudo em todos

Cristo é Deus. “E ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus conosco.” (Mt 1.23) Sempre houve nos homens um anseio por uma manifestação de Deus entre eles. É a esse sentimento que a idolatria deve sua origem e difusão. Em Cristo temos Deus manifestado em carne (1Tm 3.16). Concedido que é mistério; estamos cercados de mistérios — a mente humana ama os mistérios; quando não os encontra, esforça-se por criá-los. Mas ele satisfaz todos os anseios do nosso coração.

“Tu, ó Cristo, és tudo o que quero.”

Já não há demanda por animais sagrados nem por imagens idólatras. Quem encontrou Cristo não buscará mais. Está feliz e contente. Tem socorro presente em toda hora de necessidade; alguém cujos recursos e poder nunca falham. Para toda alma em que habita, Cristo é Rei dos reis e Senhor dos senhores.

42. O Espírito de Cristo é essencial

Estas palavras de Paulo são de aplicação universal: “Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Rm 8.9) Aqui não há lugar para uma única exceção. Pergunte-se cada um de nós: “Tenho eu o Espírito de Cristo?” Não me preocupo tanto com os outros quanto comigo mesmo. Se todos os outros estiverem errados, isso não me salvará. Minhas perspectivas não melhoram com as faltas dos meus irmãos. O fracasso deles em alcançar o céu não me levará até lá. Posso ser muito zeloso pela verdade — mas tenho o espírito da verdade? Posso ser estrito observador das formas cristãs — mas sou nova criatura? A oração foi feita e respondida?

“Jesus, planta e enraíza em mim
toda a mente que houve em ti;
paz estabelecida então acharei:
a de Jesus é mente constante.”

“Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas sim a fé que atua pelo amor.” (Gl 5.6)

43. O mensageiro de Cristo precisa de coragem

O mensageiro de Cristo deve ser homem de coragem. O covarde transigirá. Reterá parte da verdade. O medo de ofender tirará o fio da sua espada. Se ele for fiel a Deus, não poderá deixar de levantar contra si a hostilidade ativa dos inimigos de Deus, tanto na igreja quanto no mundo. Paulo, o mais divinamente prudente dos homens, a levantou; John Wesley também; Jonathan Edwards também. Charles G. Finney encontrou a mais decidida oposição, até em sua própria igreja. Quem quiser ser fiel à verdade precisa orar:

“Enrijece-me contra a vergonha, o opróbrio, a desonra;
arma-me agora com toda a tua armadura;
firma como pederneira o meu rosto,
endurece como diamante a minha fronte.”

A vida eterna não se ganha sem luta. O mundo não se vence sem conflito. As almas não se resgatam das garras do destruidor sem o mais decidido esforço.

Aperte a armadura; afie a espada; combata o bom combate da fé (1Tm 6.12).

44. O jugo de Cristo

Cristo diz: “O meu jugo é suave” (Mt 11.30); mas não diz que seja coisa fácil e trivial tomá-lo sobre nós. Muito pelo contrário. Suas palavras são: “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33) Este moderno modo fácil de converter pessoas — sem arrependimento, sem renúncia ao mundo, substituindo a fé pela presunção — não faz senão cegá-las quanto à sua verdadeira condição e conduzi-las à morte eterna. Conta-se que um evangelista popular converteu duzentos numa única noite. “E foi tudo feito tão quieta e decorosamente!” Os espectadores não disseram: “Estão embriagados de vinho doce.” (At 2.13) Não houve confissão conhecida de pecado, nem restituição, nem clamor a Deus em alta voz. Às perguntas simples e quase sem sentido — “Você aceita Cristo?” — respondiam “sim”, ou assentiam com a cabeça, e era praticamente só isso!

E viver esse tipo de religião é tão fácil quanto obtê-la. Do bispo Hurst, da Igreja Metodista Episcopal, conta-se que disse num recente sermão de dedicação: “Onde há tal timidez, acanhamento, hesitação, ou onde a oração espontânea não é considerada exatamente o que alguém se sinta livre para oferecer em família, não vejo por que não se possa ter o culto doméstico lendo apenas uma passagem da Escritura e recitando apenas o Pai-Nosso.” Não é isto “religião facilitada”? Leitor, Cristo diz: “Esforcem-se para entrar pela porta estreita, pois eu afirmo que muitos procurarão entrar e não conseguirão.” (Lc 13.24)

45. O cristão deve ser firme e flexível

O cristão deve ser inflexível nos princípios, mas flexível nos métodos, tanto quanto seja compatível com os princípios. Deve ser firme, mas não obstinado; independente no juízo, mas não voluntarioso. É bem-aventurado aprender a ceder com graça nas coisas indiferentes, mesmo quando estamos convencidos de que o nosso modo é o melhor. Quem sempre precisa impor a sua vontade criará problemas numa igreja. Por muitas boas qualidades que possua, fará no fim mais mal do que bem.

46. Todos os cristãos, cristãos que trabalham

Temos intenso desagrado por todos esses arranjos, que vão se tornando populares, pelos quais apenas uma parte da igreja é posta em serviço ativo pela salvação das almas. São antibíblicos e anticristãos. Supõem que alguém possa ser cristão sem ser cristão atuante; que possa estar a caminho do céu sem empreender esforços cristãos em benefício do próximo.

Cristo fala sem ambiguidade sobre este ponto. Declara: “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.” (Mt 12.30) Isso não parece indicar que Cristo esperasse que um só dos seus discípulos ficasse indiferente na grande obra da salvação das almas.

Todo membro de uma igreja cristã deve estar empenhado em esforços fervorosos para resgatar os que perecem. Na causa de Cristo, a indiferença é hostilidade, e a mornidão é pecado condenatório.

47. Cristãos coerentes

Quem não quer vestir-se como cristão não tem o direito de chamar-se cristão. É verdade que a roupa não faz o cristão, assim como as penas não fazem o pássaro. O interior se vestirá das formas exteriores apropriadas. A pessoa humilde nunca tem a aparência de orgulhosa, embora a orgulhosa possa, por interesse, assumir aparência de humildade.

O bispo Morris, um dos bispos piedosos da Igreja Metodista Episcopal da geração passada, diz que coisas como estas não podem servir a outro fim senão satisfazer a vaidade: “um anel de ouro no dedo, ou pendurado à orelha; um broche de ouro, ou corrente de relógio; uma bengala de castão de ouro; uma flor artificial no chapéu; um colar de contas de ouro ao pescoço; um grande punhado de cabelo de algum defunto pendurado ao lado do rosto. Quão impróprio, fútil e pecaminoso é que se permitam essas coisas pessoas que, como discípulos de Cristo, deveriam estar mortas para o mundo, levando sempre no corpo o morrer do Senhor Jesus; não conformadas com o mundo, mas gloriando-se na cruz de Cristo; e mais especialmente os nossos irmãos e irmãs metodistas, que foram melhor instruídos no assunto. Ofendem de olhos abertos, sabendo que Deus proíbe o uso de ouro e de trajes custosos tão claramente quanto proíbe qualquer pecado.”

48. Os cristãos são cidadãos

Ao nos tornarmos cristãos, não deixamos de ser cidadãos. Continuamos membros da comunidade civil, com direito à sua proteção e obrigados a fazer a nossa parte para o seu sustento. Devemos evitar o espírito litigioso; contudo, é próprio, quando a emergência o requer, reclamar a proteção do poder civil. Paulo apelou dos sacerdotes perseguidores da igreja para César (At 25.11).

49. Os cristãos devem respeitar os direitos alheios

O evangelho nos faz respeitar os direitos de toda a humanidade. Não podemos ser cristãos e fazer do nosso negócio cuidar apenas de nós mesmos. Devemos interessar-nos pelo bem-estar dos que nos cercam. “Que cada um não cuide somente dos seus próprios interesses, mas também dos interesses dos outros.” (Fp 2.4) Tenha o devido respeito pelos interesses, pela conveniência e pelos sentimentos alheios. Uma objeção, entre muitas, ao hábito de fumar é que ele torna seus devotos esquecidos dos direitos dos outros. Num lugar público, onde se pode ter ar puro, toda pessoa tem direito a ele. Contudo, os fumantes não hesitam em fumar nas ruas e nos parques, e até nos vagões-dormitório! Já fomos tão incomodados com isto que, obrigados a tomar um vagão-dormitório, pedimos um que não seja também vagão de fumantes. Na última viagem, conseguimos. De manhã, tivemos a satisfação de levantar sem dor de cabeça — o que não acontece quando somos forçados a dormir entre os vapores da fumaça de tabaco. Se os homens querem minar a própria constituição e incomodar os outros com esse hábito vil, dizemos, como se conta que disse Daniel Webster: “Se esses homens precisam fumar, que tomem o barracão dos cavalos.”

50. Os cristãos devem ler e instruir-se

Alguns cristãos professos parecem não se importar em aprender. Vivem de excitação. Têm pouco apetite por sermões que explicam as Escrituras e expõem com clareza as doutrinas que Deus quer que creiamos e os deveres que quer que cumpramos. Artigos de periódicos que oferecem instrução, e que exigem alguma atenção para se lhes captar o pleno sentido, ou não os leem, ou os percorrem tão às pressas que, ao terminar, não sabem dizer do que tratam. Gente assim não faz cristãos úteis e permanentes. Podem fazer grande alarde por um tempo, mas logo morrem. Numa batalha prolongada, não se pode contar com eles; como alguns dos homens de Stanley, há pouco, na África, fogem e proclamam que o seu líder está morto.

Lamentarão por fim, dizendo: “Como odiei a instrução, e o meu coração desprezou a repreensão! Não obedeci à voz dos meus mestres, nem inclinei os ouvidos aos que me instruíam!” (Pv 5.12-13)

Extratos 51–62 · Estudo, caráter, coragem, integridade, Natal, a igreja+

51. Os cristãos devem estudar

Nos tempos antigos, Deus se queixou: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento.” (Os 4.6) Ainda é assim. Multidões são desencaminhadas por não terem o entendimento que deveriam ter nas coisas de Deus. “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.” (Pv 1.7) Que a pessoa mais ignorante se converta verdadeiramente a Cristo, e sentirá logo um anseio interior por conhecimento. Quem se acomoda, contente em saber pouco ou nada dos caminhos e das obras de Deus, dá, por esse mesmo ato, a mais clara evidência de que não tem o conhecimento salvador de Deus. Uma casa não precisa apenas de moradores; precisa também de mobília. Se Deus habita em nós, devemos mobiliar o templo com o conhecimento, além de outros bens (2Pe 1.5). Por mais que façamos, ainda ignoraremos muitas coisas que seria desejável saber. Mas podemos avançar diariamente no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, se quisermos.

52. A edificação do caráter cristão

É por acréscimos insensíveis, tirados de fontes exteriores, que a árvore cresce. Ela recolhe partículas do ar pelas folhas e do solo pelas radículas e, pelo maravilhoso poder da vida, transforma-as em sua própria substância e as faz parte de si. É de modo muito semelhante que se edifica o caráter cristão. Das repreensões que recebe, das provações que encontra, o cristão vivo aprende a corrigir algo em seu espírito, ou em seus modos, e assim se fortalece. Tira proveito até de cada repreensão imerecida. Quem sempre se põe em atitude de defesa e repele indignado toda insinuação de que poderia ser melhor, ou fazer melhor, mostra que tem vida própria demais e vida divina de menos. Suportar a repreensão e tirar proveito dela é uma das marcas do verdadeiro cristão.

53. Coragem cristã

O cristão precisa, muitas vezes, de coragem mais alta que a do soldado. Alguns que enfrentam muralhas eriçadas de canhões não conseguem enfrentar o ridículo. Para muitos homens é bem mais fácil ser soldado do que ser singular por amor de Cristo. Manter-se comprometido com a verdade na presença dos seus inimigos, sustentar a doutrina da cruz entre membros mundanos, transigentes e inescrupulosos da professa igreja de Cristo, exige um valor que veteranos de guerra raramente possuem. Disse Georg von Frundsberg, valente capitão, comandante da guarda do imperador, a Lutero, ao vê-lo entrar destemido em Worms, cidade cheia de seus inimigos mortais: “Mongezinho, ousado é o passo que vais dar! Nem eu, nem capitão algum dentre nós, jamais fez coisa igual. Se a tua causa é boa, e se tens fé na tua causa, avante! Mongezinho, em nome de Deus, avante!” Lutero tinha fé em sua causa — e avançou.

54. Cortesia cristã

O cristão sempre se dá a conhecer. Os presentes podem nunca tê-lo visto nem ouvido falar dele; mas ele não pode estar muito tempo em sua companhia sem que descubram quem é. Podem não saber seu nome nem seu endereço, mas geralmente concluirão que é cristão. Há algo na simplicidade do seu traje e na quieta singeleza dos seus modos que atrai a atenção. Ele não manifesta, nas pequenas coisas, um espírito egoísta. É atencioso com os outros. Cuida de respeitar-lhes os direitos. Se alguém precisa de ajuda, está pronto a dá-la. Em toda ocasião própria está pronto a expressar sua opinião, mas nunca é intrometido. Pode ser evidente a todos que é “iletrado e inculto”; mas “reconhecerão que esteve com Jesus” (At 4.13). Os que pensam que o cristão não precisa ter boas maneiras — que, para estar livre do orgulho, deve ser grosseiro e incivil — fariam bem em ponderar a exortação do apóstolo: “Sejam cordiais.” (1Pe 3.8) O termo “cortês” exprime o porte nobre dos que compõem a corte, o círculo social do rei — tidos como as pessoas mais polidas, bem-educadas e obsequiosas do mundo. Você pode não igualá-los nas graças exteriores da expressão; mas deve excedê-los em muito na verdadeira bondade de coração, de que as boas maneiras são apenas imitação. O que neles é aparência exterior deve ser em você realidade interior.

55. Fervor cristão que desperta

Quem está no frio, muitas vezes, não sabe quão gelado está até chegar perto do fogo. Assim, o cristão que vive numa comunidade onde prevalecem a frieza e o formalismo não percebe a própria condição até chegar entre aqueles cujos afetos ardem por Cristo e seus discípulos. O fervor deles contrasta estranhamente com a sua frieza, e ele vê o que perdeu. Se for honesto, confessará o quanto se deixou levar e buscará de novo a alegria da salvação. Se deixar o orgulho e a presunção assumirem o domínio, resistirá à convicção e procurará convencer-se de que aqueles com quem outrora teve comunhão são estreitos demais, talvez fanáticos. É um estado perigoso. Quem está nessa condição tende a afundar mais, até que a luz que nele havia se torne trevas. Quando isso acontece, quão grandes são essas trevas! (Mt 6.23)

56. A integridade cristã deve ser conservada

Quando alguém abre mão de sua integridade, vende virtualmente a alma. Nenhuma vantagem terrena pode compensá-lo suficientemente. Jaime II da Inglaterra deu ao filho este último conselho: “Estou prestes a deixar este mundo, que não foi para mim senão um mar de tempestades e borrascas. O Onipotente achou por bem visitar-me com grandes aflições; sirva-o de todo o coração, e nunca ponha a coroa da Inglaterra na balança com a sua salvação eterna.”

Qual não será o remorso, na hora da morte e por toda a eternidade, dos que barganharam a salvação — não por uma coroa, mas pela indulgência carnal, pelas variedades do vestuário, pela sedução das riquezas ou pelas honras fugazes e insatisfatórias que os mortais podem dar?

57. O princípio cristão, fundamento do caráter cristão

O genuíno princípio cristão está no fundamento do verdadeiro caráter cristão. Quem carece de obediência a Deus, possua o que possuir, não pode de modo algum ser discípulo real de Cristo. Se sabe que não é, e ainda assim professa sê-lo, é hipócrita; se não o sabe, está enganado. O Salvador nos dá ampla advertência sobre este ponto: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt 7.21) O Salvador não descarta aqui a fé; antes, mostra-nos a natureza da fé salvadora. Ela não é de caráter puramente especulativo. Não consiste principalmente no assentimento a um credo; nem se manifesta sobretudo em afirmações confiantes da nossa própria segurança e em denúncias violentas dos que de nós divergem. Ela nos move à obediência humilde, paciente e consciente a todos os mandamentos de Deus. Quem vive em clara violação de um único mandamento de Deus não pode expiar tal desobediência com nenhum grau de zelo por outros preceitos, nem com nenhuma soma de contribuições para os empreendimentos da igreja. Quem negligencia habitualmente o que sabe ser um dever para com Deus deve abandonar toda esperança do céu, ainda que seja um professo proeminente ou um ministro eminente. A religião que nos levará ao céu consiste em algo mais que recitar credos, cantar hinos e dizer orações. Ela nos porá em harmonia com Deus e em obediência aos seus mandamentos.

58. Profissão cristã — comece certo

Tornou-se coisa popular pertencer a uma igreja. Em muitos casos, garante entrada em sociedade melhor. Ajuda nos negócios. Assim, para cada um que se une a uma igreja por convicção religiosa — porque crê em suas doutrinas e simpatiza de coração com suas práticas —, é de temer que muitos se unam pelas vantagens sociais e seculares que esperam obter. Tais motivos mostram a total inutilidade da profissão cristã dos que a eles cedem. Mesmo quando Cristo esteve aqui em carne, disse a muitos que o buscavam: “Em verdade, em verdade lhes digo: vocês me procuram, não porque viram sinais, mas porque comeram dos pães e ficaram satisfeitos. Trabalhem, não pela comida que perece, mas pela comida que subsiste para a vida eterna.” (Jo 6.26-27) Motivos egoístas estragam atos louváveis.

Estamos nos dias de que falou o profeta Isaías (Is 4.1). Não há dúvida de que esse capítulo se refere à dispensação do evangelho. “Sete mulheres, naquele dia, lançarão mão de um homem, dizendo: Nós comeremos do nosso pão e nos vestiremos de nossas roupas; tão somente queremos ser chamadas pelo teu nome; tira o nosso opróbrio.” A palavra “mulher”, em linguagem profética, representa “igreja”. O número “sete” denota a completude, o todo. Por “um homem” entende-se o homem Jesus Cristo. O sentido do versículo é, pois, que, nos dias corruptos do cristianismo, as várias associações religiosas tomarão o nome de Cristo para serem respeitáveis — para tirar o seu opróbrio —, mas imporão as próprias condições: vestirão como o mundo e viverão como o mundo; comerão o próprio pão e vestirão as próprias roupas.

Não seja desta classe. Se você toma o nome de Cristo, coma o pão que ele fornece; abrace as suas doutrinas; procure compreendê-las e receber a força que comunicam. Viva como ele ordena. Vista as roupas dele. Vista-se com simplicidade. Não se conforme com este mundo. Evite toda joia, todo traje caro e da moda, e vista-se com simplicidade e economia.

Um homem pode fracassar nos negócios sem culpa própria. Mas, se você deixar de tornar-se um cristão verdadeiro, ninguém mais terá a culpa. Os fracassos alheios não podem fazê-lo fracassar, a menos que você o permita. Quer os outros cheguem ao fim, quer não, você pode converter-se solidamente a Deus, se quiser. O Reino dos Céus está aberto diante de você, e você é cordialmente convidado a entrar. Nenhum homem tem o poder de excluí-lo. Tudo depende da decisão que você tomar e da ação que empreender. O seu destino está posto em suas próprias mãos. Deus o chama a decidir. Não pare em meias medidas. Faça obra completa. Comprometa-se do modo mais público e mais positivo. Entregue-se inteiramente a Deus. Ore em nome de Jesus até obter a evidência, clara como um raio de sol, de que os seus pecados estão perdoados e de que você é filho de Deus.

59. Cristianismo e anticristianismo

O falso cristianismo une-se com muita facilidade ao anticristianismo. Nada na terra é mais liberal que o pecado; nada mais intolerante que a verdadeira santidade. A luz não tem afinidade com as trevas: em toda parte é sua opositora ativa. O pecado e a santidade nunca fazem trégua, muito menos paz. O conflito entre eles só termina com a morte de um ou de outro. Onde quer que os dois existam, haverá toda a comoção própria de um estado de hostilidade ativa. O que se chama paz entre a igreja e o mundo é, na verdade, a rendição da igreja ao mundo. Alguns reis, no cativeiro, viveram mais faustosamente do que quando livres, suportando as privações do acampamento e os perigos do campo de batalha. Assim a igreja, levada cativa pelo mundo, pode ostentar as suas galas, dançar à sua música e banquetear-se com as suas iguarias; mas o seu belo traje é o da vítima destinada ao matadouro, e a sua dança é a dança da morte eterna.

Ainda que os grilhões sejam de ouro, recuse-se a usá-los; ainda que a sua prisão seja um palácio, prefira como teto o amplo dossel de Deus. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se submetam de novo a um jugo de escravidão.” (Gl 5.1)

60. O espírito do Natal

A melhor maneira de celebrar a vinda do Príncipe da Paz é haver, no que depender de nós, paz na terra e boa vontade para com os homens (Lc 2.14). Alguém nos fez mal? Devemos perdoar. Alguém tem queixas contra nós? Devemos ser bondosos e conciliadores, prontos a fazer quaisquer concessões e tudo o que nos cabe para restaurar o bom sentimento. A inveja, o ciúme e a animosidade não fazem parte do caráter cristão. O Reino de Deus é reino de amor. Onde Cristo reina, prevalecem a amizade e a bondade fraternal. Se você quer que Cristo entre em seu coração, precisa lançar fora dele todo sentimento cruel para com os outros. Não se pode amar a Deus sem amar o irmão (1Jo 4.20-21).

61. Presentes de Natal

É costume desejar aos amigos um “Feliz Natal” — no inglês, “Merry Christmas”, um Natal “alegre”. Não gostamos exatamente da palavra “merry” nessa ligação; mas desejamos aos nossos leitores tudo o que ela significa em seu melhor sentido. O apóstolo Tiago associa a alegria ao cantar louvores: “Está alguém alegre? Cante louvores.” (Tg 5.13) Essa espécie de alegria não degenera em leviandade. Não entristece o Espírito.

Se você quer um Natal agradável, o seu prazer virá mais do que você fizer pelos outros do que do que os outros fizerem por você. “Mais bem-aventurado é dar do que receber.” (At 20.35) Procure fazer os outros felizes ao longo de toda a vida, para que, olhando para trás, possa dizer:

“A lembrança dos meus anos passados gera em mim
perpétua bênção.”

Cristo nos amou e se entregou por nós; e ele quer que manifestemos o nosso amor por ele fazendo o bem aos outros.

62. A igreja de Jesus Cristo

“Dedicação de uma igreja?” Você se engana. Não é a forma, nem a magnificência, nem o custo de um edifício que o constitui igreja de Jesus Cristo. Um prédio de aparência muito eclesiástica, perto de nós, é — segundo nos dizem — devotado exclusivamente aos usos das lojas maçônicas!

O evangelho de Jesus Cristo é pregado aos pobres. Um edifício de que os pobres são excluídos pela venda ou aluguel dos assentos, e pelo ar aristocrático e exclusivista que o permeia; um edifício em que a natureza e as condições da salvação oferecida por Jesus Cristo não são expostas e sustentadas; em que os hinos são cantados por um coro sem Deus, e os atos de culto em geral são realizados por procuração; um edifício em que se providenciam cozinha e salões para atrair aqueles “cujo deus é o estômago” (Fp 3.19) — isso não é igreja de Jesus Cristo. Os que ajudam a sustentá-lo, pensando que é, estão grosseiramente enganados. É um templo de Mamom!

Extratos 63–73 · A igreja: riquezas, vida, poder, membresia, organização e governo+

63. A igreja e as riquezas

A professa igreja de Jesus Cristo está passando rapidamente da dispensação do Espírito Santo para a dispensação das riquezas mundanas. “Graças a Deus”, ouvimos um doutor em divindade dizer num sermão, “chegou o tempo em que a piedade dos homens não se mede pelo que professam, mas pelo que dão.” Não importa como conseguiram as riquezas — sobre isso ele nada tinha a dizer. Podem ter sido adquiridas no jogo de bolsa, na cervejaria, no comércio atacadista de bebidas; mas, se derem com liberalidade às instituições da igreja, sua liberalidade há de ser louvada, e sua piedade não deve ser posta em questão! Ouçam a palavra do Senhor: “Atenção, ricos! Chorem e gritem por causa das desgraças que virão sobre vocês. As suas riquezas estão apodrecidas, e as suas roupas estão comidas pelas traças. O ouro e a prata de vocês estão enferrujados, e a ferrugem deles servirá de testemunho contra vocês e devorará a carne de vocês como fogo. Vocês acumularam tesouros nos últimos dias. […] Vocês viveram no mundo em meio a luxo e prazeres. Vocês engordaram o coração como num dia de matança.” (Tg 5.1-3,5)

64. A igreja precisa ter vida

Um animal pode ser nobilíssimo; mas de pouco vale, se não tem vida. Se está de todo morto, não serve senão para ser consumido. “Melhor é um cachorro vivo do que um leão morto.” (Ec 9.4) Uma organização pode ser perfeitíssima; mas, se não se lhe infunde vida, nenhum bem realizará. Cremos firmissimamente em igrejas livres. Todo assento de toda igreja cristã deve ser gratuito para quem quiser vir ali adorar a Deus. Vender ou alugar bancos numa casa dedicada ao culto de Deus é contrário à letra e ao espírito do Novo Testamento. Contudo, gente viva numa igreja de bancos alugados — se tal coisa é possível — fará mais bem do que gente morta numa igreja de assentos livres. Nossa dependência deve estar, não em sistema, regras ou organizações, mas no Deus vivo. Nossa organização é boa; mas precisamos estar vivos para torná-la eficiente. Do que precisamos, acima de tudo, é daquilo que Cristo veio comunicar: vida em abundância (Jo 10.10).

65. A igreja progride pelo poder

A Igreja Metodista Livre progride não pela popularidade, mas pelo poder. Onde o pregador e o povo procuram torná-la popular, conformando-se aos costumes das igrejas mundanas, logo definham. Mas onde se plantam firme e plenamente na plataforma da Bíblia, cuidam de manter a vida santa e conservam entre si o poder do Espírito Santo, fazem progresso constante. Todas as igrejas ao redor podem coligar-se contra eles; mas Deus está ao seu lado, pecadores são convencidos e convertidos, e a obra avança em face de preconceitos que parecem quase intransponíveis.

E assim deve ser. Já há igrejas orgulhosas, formais e mortas que bastem. Se não pudermos ser diferentes delas nesses aspectos, melhor seria nem existir. Deus nos chamou para fora, para sermos um povo simples, piedoso e peculiar. Obedeçamos ao chamado.

66. Não se busque a membresia por fins seculares

Nenhum cristão deve pertencer a uma denominação religiosa sem crer conscienciosamente nas doutrinas que ela ensina e nos princípios que sustenta. A falta de sinceridade evidencia, com certeza, a falta de graça salvadora. Quem está numa igreja pelas oportunidades que ela oferece de promover seus interesses seculares, ou seus planos ambiciosos, engana-se muito se pensa estar em estado de salvação. Cristo exige honestidade de todos os seus discípulos.

O dr. Stephen Olin, um dos maiores e mais generosos homens que já pertenceram à Igreja Metodista Episcopal, diz: “O melhor metodista — e, sendo metodista, creio que o melhor cristão — é aquele que respeita e segue plenamente os nossos métodos estabelecidos de receber e fazer o bem. Frequenta pontual e conscienciosamente os meios de graça públicos e os mais privados e sociais. Está sempre em sua classe, na reunião de oração e na festa de amor. Aprova e sustenta as instituições, formas e usos de sua própria igreja, pouco se importando se acaso outros não gostem deles. Se os laços denominacionais devem ser fortes, os preconceitos sectários nunca serão fracos ou poucos demais; e eu me alegraria de saber que nunca uma palavra é dita, neste ou em qualquer outro púlpito metodista, para excitá-los ou fortalecê-los.”

67. Convide os convertidos a unir-se à igreja

Se almas se convertem sob o seu trabalho, abra a porta da igreja e convide-as a entrar. Não espere para ver se perseverarão. Ajude-as a perseverar. Quanto mais nova a criança, mais precisa da mãe. Se alguma vez as pessoas precisam estar dentro das muralhas protetoras da igreja, é quando acabam de começar no serviço de Cristo. Satanás as persegue com todas as suas artes e toda a sua malignidade. Os velhos companheiros de pecado procurarão puxá-las de volta.

Se alguém hesita em unir-se à igreja, visite-o em casa; faça-lhe convite pessoal; converse francamente; deixe-o saber que será bem-vindo; e remova as objeções que apresentar. Não tenha receio de “proselitizar” os seus próprios convertidos. Esteja certo de que os pregadores de outras denominações não terão tais escrúpulos. Irão avidamente atrás de qualquer um que possa fortalecer a sua igreja. Novos convertidos, cheios de amor e zelo, são muitas vezes atraídos para igrejas mortas ao ouvirem quanto “a sua ajuda é necessária”, quanto bem “você pode fazer entre nós” e “quanto precisamos da sua influência para nos despertar”.

O caso não seria tão grave se não fosse geralmente certo que, depois de se unirem a uma igreja popular, fazem-se tentativas hábeis e bem-sucedidas de amortecer seu ardor, embotar sua consciência e arrastá-los a uma conformidade pecaminosa com o mundo. Ficam com a sombra e desprezam a substância; acomodam-se na forma e negam o poder. Muitos convertidos promissores são mortos assim. Não deixe de batizar os seus convertidos. Conduza-os a assumir a plena responsabilidade da profissão cristã. Torne-lhes o desvio tão difícil quanto puder. Cerque-os de toda proteção possível contra os assaltos do mundo. Leve-os a passar por inteiro para o lado do Senhor.

68. Nenhuma comunhão com as igrejas da moda

Ló conservou sua religião em Sodoma. Como o conseguiu? “Atormentava a sua alma justa, dia após dia, com as obras iníquas deles.” (2Pe 2.8) Ele não transigiu. Não aderiu a nenhuma das suas más práticas. Não adotou seus modos de culto nem se uniu aos seus serviços religiosos.

Se queremos permanecer salvos em meio às igrejas da moda, devemos adotar rumo semelhante. Não devemos ter comunhão nem associação com elas. Por esplêndidas que sejam as suas exibições, nossa oração deve ser: “Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade, e vivifica-me no teu caminho.” (Sl 119.37) Logo aprendemos a saborear aquilo que contemplamos com admiração. O gosto perverte-se facilmente. Devemos condenar o que sabemos ser errado, ou logo cairemos em tal escuridão moral que já não veremos que é errado. Diz Joseph Cook: “As igrejas de hoje se importam mais com as flores diante do púlpito do que com a sã doutrina dentro dele. O amor ao certo é o ódio ao errado. A nova luz crê no amor, não na consciência, e faz do Deus das Escrituras hebraicas um tirano. Assim como a majestade do púlpito se rebaixa quando se abre mão da soberania divina, também a sua ternura se perde quando se abre mão da expiação de Cristo. A expressão ‘a expiação exagerada’ toca o dobre fúnebre do púlpito. Pouco a pouco, os leigos vão abrindo mão do Antigo Testamento, dos escritos dos apóstolos, e chegam a dizer que Cristo às vezes errava e não sabia tanto quanto os seus críticos alemães.”

69. A igreja e o mundo

A igreja está a caminho de ser completamente capturada pelo mundo. A distinção entre as duas está se apagando rapidamente. Diz o Presbyterian:

“Há mais de um quarto de século, o dr. James W. Alexander escreveu com grande firmeza sobre influências então em ação. Disse ele: ‘A porta por onde entram as influências que anulam a instrução e o exemplo dos pais está cedendo, estou persuadido, aos costumes da boa sociedade. Pelo vestuário, pelos livros e pelos divertimentos, forma-se uma atmosfera que não é a do cristianismo. Mais do que nunca sinto que as nossas famílias devem manter uma oposição bondosa, porém decidida, às modas do mundo, enfrentando as ondas como o farol de Eddystone. E ainda não encontrei nada que exija mais coragem e independência do que elevar-se um pouco, mas decididamente, acima da média do mundo religioso que nos cerca.’ Se isso era verdade em seus dias, há de reconhecer-se que é mais inegável e tristemente verdadeiro em nosso tempo. As incursões de influências e costumes estranhos no território sagrado da igreja têm crescido de modo cada vez mais marcado, talvez por serem cada vez menos resistidas com fervor.”

Devemos manter uma atmosfera de piedade em todas as nossas famílias. Se você veste os seus filhos como o mundo e os manda a escolas dominicais mundanas, deve esperar que cresçam mundanos. Saiamos e sejamos separados (2Co 6.17).

70. Entretenimentos de igreja

É semelhante a Cristo alimentar os famintos. Em duas ocasiões, Cristo realizou grande milagre para dar comida aos esfaimados. Ele nos diz que esse é um dos frutos da piedade genuína que será examinado no dia do juízo (Mt 25.35). Mas não é para alimentar os famintos que se constroem cozinhas nas igrejas da moda. De modo algum. Os que passam fome não vão lá buscar socorro. Essas cozinhas de igreja são construídas para divertir os que moram em boas casas e têm fartura à mesa. Há um sentimento instintivo de que quem vai à igreja deveria sair mais forte para resistir ao mal e fazer o bem. Mas o púlpito da moda não serve alimento sólido às almas famintas. Até o pouco leite adoçado que distribui é tão diluído que repugna ao paladar sadio. Para alimentar criancinhas, não vale mais que uma mistura de giz, açúcar e água. Assim, enquanto a natureza espiritual passa fome, mantém-se o interesse pela igreja servindo à natureza animal. As ostras que boiam numa tigela de sopa de igreja podem ser poucas, mas são genuínas; não são imitações de papel. A igreja, na cozinha, põe de lado os fingimentos e lida com realidades. É verdade que suas realidades não são muito elevadas; mas, afinal, não são tão degradantes quanto a hipocrisia e o engano. Comer as iguarias de que gostam desmoraliza menos as pessoas do que unir-se a devoções que, no coração, sentem ser puro escárnio. Por isso a cozinha vai se tornando popular na igreja da moda. Se a reunião de classe é negligenciada, compensa-se a noite com a grande frequência às festanças da igreja. Se o pastor fracassa como avivalista, tem êxito como banqueteiro. Mas é lamentável que tal coisa seja impingida aos crédulos como cristianismo! É uma recaída parcial no paganismo!

71. Organização da igreja

Há perfeita harmonia entre a natureza e a revelação. Ensinam-nos, por modos diferentes, a lei do único Deus. Ilustram-se mutuamente. Nem a natureza nem a revelação pregam o evangelho da anarquia. Onde quer que você encontre vida na natureza, encontrará organização. A forma mais baixa de vida, vegetal ou animal, tem seus órgãos, cada qual com funções próprias a desempenhar. Os animais e as aves úteis andam em manadas e bandos; as feras e as aves de rapina vagueiam sós e independentes. Nos tempos do Novo Testamento, quando um cristão não encontrava igreja fora, estabelecia uma em sua própria casa. Pertencer à igreja, ele havia de pertencer. Os santos primitivos não tinham tanto medo do sectarismo que cada um formasse uma seita por si mesmo. Estavam unidos em amor. Tão estreita era a união que, “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Co 12.26). Se você é cristão, portanto, não tenha medo da igreja. Encontre um ramo dela a que pertencer e una-se a ele, ainda que precise viajar mil milhas para isso.

72. Oficiais da igreja devem ter espírito humilde

Mesmo nos tempos apostólicos, quando o evangelho era ensinado em sua simplicidade e nenhuma consideração mundana levava os homens a buscar cargos na igreja, era difícil obter bons oficiais. “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem.” (1Tm 5.17) Isso dá a entender que poucos presbíteros presidiam bem. Alguns, sem dúvida, eram incompetentes; alguns, parciais; a alguns faltava discernimento; a outros, sabedoria prática. Os mesmos defeitos, com outros de acréscimo, existem hoje nos homens chamados a dirigir os negócios da igreja. Requer-se boa medida de graça, naqueles a quem se confia o governo na igreja, para exercer a autoridade “não como dominadores dos que lhes foram confiados, mas tornando-se modelos do rebanho” (1Pe 5.3). Mas requer-se ainda mais graça, em muitas pessoas, para submeter-se ao exercício legítimo da autoridade. Anda solto um espírito de insubordinação que, sutil como o ar, penetra em toda parte. Manifesta-se na família, na escola, no Estado e na igreja. A liberdade degenera em rebeldia. Onde falta o espírito de submissão, falta a graça salvadora. O discípulo de Cristo é alguém que aprendeu a obediência.

73. O poder de governo na igreja

Nem os apóstolos podiam cuidar de tudo. Precisaram de auxiliares para os assuntos temporais. Se tivessem considerado o ministério como o poder governante da igreja, eles mesmos teriam nomeado esses auxiliares. Mas não fizeram nada disso. Expuseram o assunto “à multidão dos discípulos”. Os discípulos, evidentemente, não pensaram que deviam adotar o plano só porque os apóstolos o haviam proposto; pois está escrito: “E a proposta agradou a toda a multidão.” E eles — toda a multidão — escolheram sete homens para esse trabalho especial (At 6.1-5). Que as mulheres estavam incluídas na “multidão toda”, não pode haver dúvida; pois se diz: “E crescia cada vez mais o número de crentes, tanto homens como mulheres, que aderiam ao Senhor.” (At 5.14) E esses auxiliares foram pedidos para garantir distribuição justa e igual às viúvas (At 6.1).

A escolha de “toda a multidão” dos crentes não foi condicional, mas final. A palavra traduzida no versículo 3 por “nomearemos” está, no original, em muitos dos melhores manuscritos, no modo indicativo: nomearemos, de fato.

Vemos, pois, que na igreja primitiva o poder de governo estava: primeiro, no povo; segundo, que as mulheres partilhavam desse poder em igualdade com os homens. É tempo de a igreja cristã superar os preconceitos pagãos.

Extratos 74–85 · Construção de templos, administradores, classe, transigência+

74. A construção de templos

Em regra, não é bom construir uma casa de culto numa localidade, a menos que haja ali interesse bastante para levar o povo a pagá-la. As cidades, onde os imóveis custam caríssimo, podem ser a exceção. Nas cidades, os pobres estão praticamente excluídos das igrejas aristocráticas e abandonados a vagar como ovelhas sem pastor. A cobrança pelos assentos, e o traje custoso necessário para aparecer em companhia de membros ricamente vestidos, excluem os pobres com bastante eficácia. Se estes se dispõem a construir para si uma casa de oração, onde possam reunir-se e esperar em Deus com simplicidade e sinceridade, merecem toda a ajuda que se lhes possa dar.

Mas, em circunstâncias comuns, não se deve tentar construir um templo, a menos que o povo da vizinhança manifeste disposição de arcar com a despesa necessária. Eles conseguem construir casas para si mesmos morarem; e, se não têm amor a Cristo bastante para construir uma casa em que possam reunir-se em seu nome, então é melhor que não se construa. Um navio precisa de tripulação; um forte, de guarnição; e uma igreja precisa de membros vivos no amor de Deus e cheios de zelo pela salvação das almas. Onde Cristo tem tais discípulos, eles arranjarão algum lugar em que se encontrar com o Mestre; onde não há nenhum, não é preciso lugar. Uma igreja é um campo de batalha em que a guerra contra o reino de Satanás deve ser travada com vigor; mas soldados patriotas, disciplinados e corajosos valem mais que quaisquer fortificações: onde houver ocasião, eles farão do lugar um campo de batalha. Assegure os convertidos, e o templo virá. Dirijam-se, pois, os nossos principais esforços a promover reavivamentos da religião — a converter pecadores e a levar os crentes a buscar aquela santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). Depois, construam-se templos onde houver real necessidade deles.

A despesa da construção de qualquer templo deve caber nos recursos do povo que o constrói. Devem-se adotar planos que se possam levar a cabo sem aflição. Ninguém deve colocar-se em posição de ter de apelar ao público, pelos jornais, por socorro. Tal proceder é errado. Não temos o direito de solicitar dinheiro para fins religiosos e depois pôr em risco tudo o que foi pago, endividando-nos temerariamente.

Se você não tem meios para terminar o templo, feche-o em estrutura e use-o assim até levantar os meios de terminá-lo. É melhor levar três anos construindo um templo, e tê-lo pago, do que construí-lo em três meses e vê-lo vendido em execução de hipoteca.

Uma de nossas conferências realizou-se neste outono onde a sociedade construiu primeiro uma casa de culto de torrões de terra. Foi o lugar de nascimento de muitas almas. Por um tempo, foi o único edifício público naquela parte do território: até os tribunais dos Estados Unidos funcionaram nela. Hoje têm um bom templo de madeira, e Deus abençoa os seus labores.

75. Não tomem emprestado para construir

Não vá ao banco, nem a lugar nenhum, tomar dinheiro emprestado para construir um templo, contando com a subscrição de quem quer que seja além da sua. É muito mais fácil coletar dinheiro para construir um templo do que coletar dinheiro para pagar uma nota bancária. Se não consegue o dinheiro para começar, espere até conseguir. Seja prudente nessas coisas. Não se envolva em obrigações financeiras além do que possa suportar sem afligir a si mesmo ou à família. Melhor não construir templo algum do que construí-lo e desviar-se por causa dele. Os católicos romanos administram melhor essas coisas: levam o povo a pagar tanto por semana para a construção, e vão erguendo o edifício à medida que o dinheiro entra. Nas despesas da igreja, como nas pessoais, seja o seu lema: “Pague à vista.” As dívidas de igreja devem ser evitadas, pois não é vocação da igreja ganhar dinheiro.

76. O título de propriedade deve estar limpo

Em alguns lugares estamos tendo problemas com o título de propriedade de nossos templos. Deve-se exercer maior cuidado nesse aspecto.

Adote como regra nunca levantar dinheiro, nem pagar soma considerável, por um templo, escola ou casa pastoral metodista livre, sem estar seguro de que um bom título foi dado, ou será dado, à Igreja Metodista Livre sobre a propriedade. Faça lavrar a escritura em concordância substancial com o modelo dado em nosso livro de Disciplina. Não gaste dinheiro em propriedade da qual não tem título. Se por alguma razão a escritura não puder ser passada de imediato, tome um contrato de compromisso, como exige a nossa Disciplina, e pague ao menos um dólar sobre o contrato para torná-lo vinculante. Não aceite, em tais assuntos, a promessa verbal nem do melhor homem da terra: ele pode morrer de repente, e seus herdeiros podem pensar de outro modo. O título de propriedade é regido pela lei, e devemos ter o cuidado, em tudo isso, de proceder conforme a lei. Um pouco de prudência e firmeza no princípio pode poupar muito transtorno e despesa depois. Mas, acima de tudo, conserve limpo o seu título para o céu.

77. Templos custosos e templos simples

A Disciplina Metodista Episcopal de hoje diz: “Sejam todos os nossos templos construídos simples e decentes, com assentos livres onde for praticável, e não mais custosos do que for absolutamente inevitável.” Na prática, a regra parece ser construir tão custosamente quanto as circunstâncias permitam. Não é isto “deter a verdade pela injustiça” (Rm 1.18)?

O New York Tribune diz de um dos bispos da Igreja Episcopal: “O bispo Huntington sustenta que uma congregação urbana rica não tem o direito moral de adorar num templo luxuosamente aparelhado, enquanto deixa os membros mais pobres adorarem numa capela missionária barata. Se esse princípio fosse aplicado com rigor, nunca haveria templos custosos; pois sempre há igrejas pobres e simples em alguma parte do país, que se tornariam assim o modelo e o padrão do culto religioso do país.”

Mas gente apegada aos seus ídolos não quer “padrão de culto religioso”. Quer que a deixem em paz. O número dos que abraçam honestamente a verdade religiosa, quando a veem, é extremamente pequeno.

78. O dever dos administradores

Os administradores (trustees) dos templos são agentes da sociedade. Não têm, sobre a propriedade da igreja confiada aos seus cuidados, direito pessoal algum acima de qualquer outro membro da sociedade. Cabe-lhes propriamente a guarda dos fundos levantados para construir, reparar ou mobiliar templos e casas pastorais. A guarda de todos os demais assuntos financeiros pertence à junta oficial. É dever dos administradores executar a vontade da sociedade. Não devem dar passo algum para construir, reparar, demolir ou vender propriedade da igreja sem o consentimento da sociedade, expresso de modo justo em reunião devidamente convocada para manifestar sua vontade no assunto.

Nossos administradores devem ser homens de Deus e homens de juízo. Devem ser homens que saibam fazer negócios, e cujo único alvo, ao fazer negócios para a igreja, seja promover os seus melhores interesses e executar a vontade da sociedade da melhor maneira. Nunca deve haver conflito entre a junta de administradores e a junta oficial. Geralmente há tantos homens comuns às duas juntas que o conflito é quase impossível. Mas, seja assim ou não, ambas devem trabalhar em suas respectivas esferas para promover o bem-estar da igreja, de modo que haja perfeita harmonia entre elas.

79. Civilidade com os forasteiros

Quando forasteiros assistirem às suas reuniões, tratem-nos com civilidade. Embora os seus assentos sejam livres, eles podem não sabê-lo; se os vir procurando lugar, ajude-os a achar um bom. Incomode-se para acomodar os outros.

Se forasteiros falarem em suas reuniões e não estiverem vestidos com a simplicidade devida, ou se o seu testemunho não for tão claro e explícito como deveria, não os assaltem. Isso não pode fazer bem algum, e pode fazer muito mal. Se possível, travem conhecimento com eles, ganhem sua confiança, ponham-se em simpatia com eles e façam-lhes bem. O que ganha almas é sábio (Pv 11.30); mas o que as afugenta, para além do alcance de sua influência, com juízos sem caridade e linguagem provocadora, está muito longe de ser sábio.

80. Frequência à reunião de classe

A reunião de classe é um bom lugar para tomar o pulso espiritual da igreja. Um reavivamento que não resulta em maior frequência às reuniões de classe dificilmente acrescentará força permanente à igreja. Se há vida na alma dos membros, há interesse pela reunião de classe. Quem tem experiência da graça salvadora gosta de falar dessa experiência. Quem tem algum conhecimento das coisas divinas deseja mais instrução nas coisas divinas.

Os que preferem a rebeldia à disciplina espiritual não gostam de reuniões de classe. Se não podem ser dirigentes, preferem que não haja dirigentes. Numa igreja metodista espiritual, disciplinada e eficiente, as reuniões de classe são bem frequentadas. Ali os fracos são fortalecidos, e os fortes se tornam mais fortes. Ali os desviados são restaurados, os pecadores convertidos e os crentes santificados. Leitor, você frequenta regularmente a reunião de classe?

81. Todos os mandamentos devem ser guardados

Devemos ser cristãos não apenas em alguns aspectos, mas em todos. O homem que ganha seu dinheiro falsificando moeda não é honesto, ainda que pague todas as dívidas e se porte, nos demais aspectos, como cidadão íntegro. Assim, quem faz habitualmente o que Deus proíbe, ou negligencia o que Deus manda, não pode estar em estado de aceitação diante dele. A Bíblia torna isso claríssimo. Que pode ser mais claro que as palavras de Cristo: “Portanto, aquele que violar um destes mandamentos, ainda que seja um dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus”? (Mt 5.19) O dr. Adam Clarke diz que isso significa que tais pessoas não entrarão no céu. É o que parece ensinar São Tiago: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos.” (Tg 2.10) Se reivindicamos o direito de escolher que mandamentos guardaremos e quais desprezaremos, como negar esse direito aos outros? E a que equivale isso senão à rejeição prática da Bíblia inteira?

82. A escolha de um comentário

Um comentário da Bíblia é necessidade para todo pregador. Quanto mais instruído ele for, mais sentirá a necessidade de um comentário. Quanto mais piedoso — e, portanto, mais consciencioso —, mais receio terá de dar construção errada ao seu texto e de ensinar ao povo doutrina falsa. Muitos perguntam: “Qual é o melhor comentário?” Demos ao assunto a atenção que pudemos, e dizemos com franqueza que preferimos de longe o do dr. Adam Clarke a qualquer outro que examinamos. Adam Clarke foi um dos homens mais eruditos do seu tempo. As grandes sociedades científicas e literárias da Grã-Bretanha consideravam honra própria ter o seu nome inscrito entre os membros. Sua piedade era profunda, fervorosa e do tipo mais completamente evangélico. Seus comentários não são críticas secas e acadêmicas, como as que um erudito inconverso poderia fazer; ele traz à luz o profundo significado espiritual do texto. Seu comentário é útil não só ao pregador, mas ao cristão devoto que busca a reta compreensão da Palavra de Deus.

83. Queixas — não as publique

Um jornal não é tribunal para o julgamento de ministros nem de membros. Portanto, se você tem queixas contra um pregador ou membro, não corra a publicá-las. Obedeça, em tais casos, ao mandamento de Cristo: “Vá argumentar com ele em particular.” (Mt 18.15) Feito isso no espírito pretendido, geralmente o assunto se encerra. Faça um esforço honesto para reconduzir o irmão ao seu dever; em geral você terá êxito — terá ganhado o seu irmão. Mas cuide de manter-se cheio do espírito do amor humilde. O que foi dito em letra impressa é justo examinar em letra impressa, contanto que se faça com candura. Mas o que se alega ter sido dito ou feito em particular — a menos que seja ofensa flagrante — não deve ir aos jornais para opróbrio da pessoa envolvida.

84. Transigir pode ser fatal

Você comete um erro grande — e talvez fatal — se transige nos princípios sob qualquer pretexto que seja. É claro que não poderia fazê-lo por ganho mundano e ainda pretender-se cristão. Mas você corre perigo de transigir por outra razão. Um aparente anjo de luz sugere que, se você não fosse tão estrito, poderia fazer mais bem. Se se vestisse só um pouquinho como o mundo, o mundo o ouviria com mais boa vontade. Se entrasse para uma loja, poderia alcançar os maçons. É um artifício sutil pelo qual Satanás arrasta muitas almas à perdição. Ceda a ele por sua conta e risco. Se você se juntar ao mundo, descobrirá que sua influência sobre ele é menor do que nunca, a não ser em canal mundano. Podem amá-lo como companheiro, mas perderam a confiança em você como cristão. No coração, desprezam-no pelas mesmas concessões pelas quais o lisonjeiam. E o arrastarão, passo a passo, consigo pela estrada larga que termina na perdição.

85. O perigo da transigência

O cristianismo deste país vai se tornando pouco a pouco como o que prevalece nas igrejas estatais da Europa. As pessoas pertencem à igreja e bebem, juram, jogam, frequentam teatros e bailes. Em suma, agem como o mundo, vestem-se como o mundo, vivem como o mundo e vão ao mundo buscar seus prazeres — e ainda assim são membros zelosos da igreja e pagam generosamente pelo seu sustento. Poucas são as igrejas, e poucos os pregadores, que traçam a linha de separação onde Deus a traça na Bíblia.

Devemos vigiar para que esse espírito transigente não se insinue sobre nós. Há perigo em toda direção. Quando nos unimos a esses professos mundanos em reformas louváveis, corremos o risco de ceder aos poucos, até que nós também derivemos para o mundo em espírito. A única segurança é obedecer à direção divina: “Por isso, saiam do meio deles e separem-se.” (2Co 6.17)

Extratos 86–98 · Transigência, consciência, consagração, confissão, constância+

86. Nunca transija

Paz? Eu amo a paz. Mas quero a paz do tipo certo — a paz fundada na verdade, não na falsidade; nas realidades, não nos fingimentos; na união com Deus, não na união com o príncipe das trevas. A paz da sepultura é própria para os mortos. Mas os que estão cheios de vida preferem o estrondo da batalha à quietude da morte. “Que harmonia pode haver entre Cristo e Belial?” (2Co 6.15) Não são verdadeiros soldados de Cristo, mas traidores, os que fazem paz com Satanás. O conflito entre o pecado e a santidade não pode cessar enquanto um ou outro não for dominado e subjugado. Por pior que o tratem, por mais terrivelmente que o ameacem, não faça trégua, nem paz, nem acordo com o pecado. Tome sempre o partido do certo — isto é, de Deus —, e você sairá vencedor no fim.

87. Não deve haver transigência

Não podemos transigir nem um pouco com a verdade de Deus. Nosso ofício é proclamá-la, com toda a humildade e amor, e ainda assim com toda a ousadia e fidelidade. Ela provocará oposição — não há remédio para isso. Devemos aceitá-la com toda a mansidão e firmeza; mas nunca devemos, para agradar aos mundanos, tornar as condições da salvação mais fáceis do que o nosso Senhor as fez. Devemos sustentar plenamente o padrão da Bíblia.

88. As condições da salvação devem ser pregadas

Pregar o evangelho inclui apresentar com clareza as condições sob as quais o evangelho oferece a salvação ao homem. Quem assegura aos ouvintes que, para se tornarem cristãos, basta crer que Cristo os aceita, pode fazer muitos convertidos; mas os está enganando para sua ruína eterna. Professos leitores de romances, fumantes de charuto, conformados ao mundo, não são discípulos de Cristo. “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33) Isso certamente inclui os charutos e os enfeites do vestuário. Escreveu John Wesley: “Basta que um animal atrevido e presunçoso, sem juízo nem graça, uive alguma coisa sobre Cristo, ou seu sangue, ou a justificação pela fé, e os ouvintes exclamam: ‘Que belo sermão evangélico!’ Certamente não foi assim que os metodistas aprenderam a Cristo! Não conhecemos evangelho sem salvação do pecado.” Recebem este evangelho os que hoje se chamam metodistas?

89. A consciência deve ser sensível

Uma consciência sensível deve ser cuidadosamente cultivada e zelosamente guardada. Se você consegue sentir-se perfeitamente tranquilo vivendo em desobediência habitual a mandamentos claros de Deus, tem grande razão para alarmar-se. Sua condição é extremamente perigosa. A insensibilidade que vai se apoderando de você é precursora certa da morte espiritual e eterna.

Cuidado, pois, com o violar a sua consciência. Atenda às suas exigências, até no menor pormenor. Seu fio agudo embota-se facilmente. Sua voz mansa e delicada é prontamente silenciada. Suas advertências fiéis, desatendidas, deixam de repetir-se. Você ficará ao sabor das circunstâncias: bússola sem agulha, navio sem leme.

90. Consagração equivocada

O homem mais evidentemente possuído por um espírito maligno, de todos os que já vimos, era o que mais frequentemente caía prostrado nas reuniões. Raramente fazia uma reunião sem cair; às vezes caía meia dúzia de vezes na mesma reunião. Ninguém pensava que fosse fingimento: era claro que um poder superior operava nele. Era homem forte, física e intelectualmente — homem prático, de bom juízo —, um dos últimos de quem se esperaria o desvio. Fora claramente convertido e santificado. “Consagrei”, disse ele numa reunião, “as minhas ferramentas a Deus, para nunca mais trabalhar um dia em minha vida.” Chamamo-lo à parte e lhe dissemos que tal consagração não era a Deus, mas ao diabo. “Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra.” (Êx 20.9) Paulo — e ninguém pode ser mais inteiramente consagrado a Cristo — disse: “Estas mãos serviram para suprir as minhas necessidades e as necessidades dos que estavam comigo.” (At 20.34) Ele não se envergonhava de trabalhar para viver, quando necessário. Daí em diante, esse homem foi de mal a pior; e, contudo, teve no princípio bom número de seguidores. Cumpriu pena de cadeia pela sedução de uma jovem, que persuadira a sair com ele para dirigir reuniões. Isso abriu os olhos dos outros; mas os dele continuaram cegos como sempre. Tornou-se um andarilho religioso e foi para longe, entre estranhos. Seu ar de santidade deu-lhe, por um tempo, acesso à gente religiosa; mas, à medida que o descobriam, ele partia para novos campos, em busca de novas vítimas. O que fez esse homem cair? “O demônio o derrubou.” (Lc 9.42)

91. A consagração a Deus é o melhor caminho

Os extremos se tocam. Os pobres lutam para ganhar a vida; os ricos lutam para viver. Os pobres saem à procura de trabalho; os ricos viajam para fugir dos cuidados, do trabalho e da inquietação. Deixam um lar finamente mobiliado por um hotel apinhado nalguma estância de águas ou balneário, na esperança de melhor saúde. Experimentam a cidade e experimentam o campo; experimentam a montanha e o vale; experimentam as fontes magnéticas e as fontes termais; mas nada parece convir-lhes de todo. Assim, para eles, como para os pobres, a vida é uma contínua batalha pela existência. O melhor caminho é apresentar o corpo como sacrifício vivo a Deus (Rm 12.1), e cuidar dele e usá-lo como ele ordena. Só está sempre seguro aquele que “busca em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33). A liberdade do cuidado que consome só se encontra quando lançamos sobre Deus toda a nossa ansiedade (1Pe 5.7). Os dias iluminados pelo sol constante do favor de Deus, e preenchidos com atos de bondade, deixam de ser pesados: são gozo e delícia.

92. A importância dos exercícios devocionais da conferência

A prosperidade da nossa obra depende muito das nossas conferências. Se forem ocasiões de proveito espiritual, e todos forem batizados de novo pelo Espírito Santo num amor maior pelas almas, é provável que a obra tome novo impulso entre nós. Mas, se prevalecer um espírito de interesse próprio ou de divisão, a obra sofrerá.

Deve haver muita oração pelas nossas conferências e nas nossas conferências. É grande ajuda haver derramamento do Espírito nos exercícios devocionais da abertura das sessões diárias. Temos notado que alguns ministros que abandonaram a obra começaram a decair, tanto quanto pudemos ver, abandonando os exercícios devocionais. Erra o alvo quem mira estar fora na oração e presente na chamada. É muito mais provável que ajamos juntos quando somos abençoados juntos.

As duas pontas do ferro precisam chegar ao rubro para serem soldadas. Façamos das sessões de nossas conferências temporadas de reavivamento.

93. Confissão

Deus promete perdoar os nossos pecados, se os confessarmos. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9) Mas a confissão deve ser sincera. Não deve haver encobrimento, nem transferência de culpa para os outros. Foi isso que viciou a confissão de Adão: ele lançou a culpa sobre a mulher e, indiretamente, sobre Deus. Se pecamos, a culpa dos nossos pecados repousa só sobre nós. Outros podem ter sua responsabilidade no caso; mas, façam o que fizerem, isso não pode nem condenar-nos nem escusar-nos. Podemos ceder ao pecado, mas não podemos ser forçados a pecar. Sem o consentimento da vontade numa ação, não há pecado na ação. Por isso, ao confessarmos os nossos pecados, não é necessário confessar os pecados alheios; mas devemos reconhecer o mal que nós fizemos. Devemos humilhar-nos, cuidando, porém, de que a transação não se vicie pela tentativa de humilhar outrem. O espírito verdadeiramente penitente e o espírito acusador não andam juntos.

Um mal feito a qualquer ser humano é pecado contra Deus. Se se causa dano deliberado ao caráter, à reputação ou à propriedade de alguém — o mais humilde da família humana —, a lei, igualmente obrigatória para todos, é transgredida, e Deus é ofendido. A alma está sob condenação. Para obter perdão, o mal deve ser reconhecido, e a reparação, feita na maior medida possível. Isso é necessário, mas não basta. Pecou-se contra Deus; e o pecado deve ser confessado a Deus, e o seu perdão, buscado. É preciso implorar o seu perdão, se a alma quer achar paz e ver remitida a pena do pecado. Assim, se o seu coração está carregado de culpa, vá com ele a Deus. Peça-lhe que o perdoe por amor de Cristo, que “carregou em seu corpo, no madeiro, os nossos pecados” (1Pe 2.24). Mas você não precisa ir a nenhum outro ser além de Deus — e daquele a quem prejudicou. Pregador ou sacerdote nada têm que ver com o assunto. Podem indicar-lhe a condição, mas podem indicá-la errado; faça, pois, como a Palavra ordena e venha você mesmo a Deus. Os homens podem perdoar os males que lhes são feitos, mas não podem perdoar os feitos a outros; e só Deus pode perdoar pecados. Esta é prerrogativa exclusivamente sua; o direito de exercê-la jamais foi delegado a ser humano algum. A culpa de uma transgressão cometida contra Deus só pode ser removida pelo próprio Deus.

94. Seja atencioso

Uma parte da nossa religião deveria ser dar aos outros o mínimo de trabalho possível. Devemos ser atenciosos. Em vez de aumentar os fardos alheios — especialmente dos já sobrecarregados —, devemos procurar aliviá-los. Devemos governar-nos pela regra: “Levem as cargas uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo.” (Gl 6.2) Devemos ser muito cuidadosos, quando alguém nos faz um favor, em tornar o favor tão pouco oneroso quanto possível. O que tomamos emprestado deve ser devolvido em condição tão boa quanto o recebemos.

Pregadores de cuja piedade não podemos duvidar escrevem-nos esperando resposta — e não dão o endereço. Interpelados, justificam-se: “O senhor tem meu endereço nos livros de correspondência do escritório.” Se refletissem, veriam que isso não justifica a omissão. Os livros estão em outra sala, aos cuidados de outra pessoa. Temos de interromper nosso trabalho para ir indagar; ela tem de interromper o dela para procurar. Somando tudo, consome-se muito mais tempo do que o necessário para você dar as indicações devidas. Não mostram tais descuidos que ainda há egoísmo no coração? Irmãos, sejam atenciosos.

95. Consideração pelos outros

Os inclinados a assentar-se em juízo sobre os irmãos deveriam ler com cuidado Romanos 14. Somos ensinados a acolher o que é fraco na fé, mas não para discutir com ele sobre coisas a respeito das quais os cristãos podem legitimamente ter opiniões diferentes. As questões não decididas pela Palavra de Deus devem ser deixadas para cada um resolver com a própria consciência. Não devemos julgar uns aos outros. Nem, por outro lado, devemos prosseguir ostensivamente num caminho que julgamos certo, mas que nossos irmãos julgam errado. Devemos estar dispostos a sacrificar a nossa conveniência às convicções dos outros. Nosso amor pelos irmãos deve ser mais forte que o nosso apego a qualquer coisa que comamos ou bebamos, ainda que estejamos convencidos de que é perfeitamente inofensiva. Devemos importar-nos menos conosco e mais com os outros.

“É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer coisa que leve o seu irmão a tropeçar.” (Rm 14.21)

96. Vida coerente

Se os membros e ministros da Igreja Metodista Livre desejam a sua prosperidade, cada um pode contribuir para ela vivendo vida santa e coerente. Todos os ataques dos nossos inimigos não nos ferem tanto quanto as nossas próprias incoerências. Se estamos de fato mortos para o pecado e cheios de amor manso, humilde e gentil; se somos santos na conversa e prudentes na conduta; em suma, se Cristo habita constantemente em nossos corações, cresceremos e prosperaremos. A melhor defesa que se pode fazer de nós é a impressão que causamos nos outros de que levamos vidas santas e morremos felizes em Deus. Se os nossos membros, em qualquer localidade, estão cheios de vida divina, “cheios do Espírito, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais” (Ef 5.18-19), o lugar em que se reúnem se encherá de gente. Mas, se são contenciosos e amargos, por eloquente que seja o seu pregador, serão deixados a sós.

97. Constância

O tempo varia, mas o sol é invariável. Está sempre em seu lugar.

Em certos dias o vemos; em outros, não. Mas, quer o vejamos, quer não, ele está sempre em seu lugar, exercendo sua influência silenciosa, porém poderosa. Nossa alegria pode variar; mas a nossa justiça, como o sol, nunca deve variar. Exultantes ou abatidos, bradando do cume do monte ou contristados por várias provações, devemos seguir em frente na linha do dever. Venha o que vier, devemos fazer o certo em todas as circunstâncias. Nunca nos deixemos desviar da senda da retidão por influência de dentro ou de fora. Nem a lisonja nem as ameaças devem fazer-nos desviar do reto. Devemos obrigar os nossos inimigos a dizer de nós o que um inimigo disse de um velho romano: “Seria mais fácil desviar o sol do seu curso do que Fabrício da senda da honestidade.”

98. O contentamento com a piedade é grande lucro

Um homem que tem milhões não dorme, ao mesmo tempo, senão numa cama, não come senão uma refeição, não veste senão um terno. É duvidoso que tudo isso lhe dê mais gozo físico do que o trabalhador temperante e frugal tira do seu passadio mais simples. O absurdo de os homens adquirirem grandes fortunas foi mostrado com clareza por um poeta romano, nos dias da riqueza e do luxo de Roma:

“Que importa que você debulhe mil sacas de trigo?
Seu estômago não comporta mais que o meu.
O escravo que carrega o fardo de pão não comerá
mais do que aquele que nunca sentiu o peso.
Ou diga: que diferença faz, se vivemos contidos
nos limites que a lei da natureza assinala,
lavrar mil acres de domínio
ou cem apenas, se rendem trigo que baste?”
— Horácio, Sátiras, I, 1.

O maior gozo que este mundo oferece encontra-se numa vida de piedade. “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento.” (1Tm 6.6)

Extratos 99–111 · Polêmica, conversão, convicção, coragem, cortesia+

99. O espírito polemista deve ser evitado

Evite o espírito polemista. Não é o espírito de Cristo. Dele foi dito: “Não disputará, nem gritará, nem alguém ouvirá a sua voz nas praças.” (Mt 12.19) É negócio perigoso, para quem goza da religião, viver atacando os irmãos. Se insistir nisso, com certeza se desviará. Somos tardios em pegar em armas contra os que amamos. Se você tem algo a dizer numa reunião religiosa, não o diga de modo que recaia sobre alguém que já falou. Se tem algo a dizer pela imprensa, diga-o de modo independente, e não como crítica aos escritos de outrem.

Tire sua inspiração do Senhor, e não dos outros que escrevem. Sempre há ocasião de criticar qualquer coisa dita ou escrita. Pode-se dar à linguagem uma construção que não foi pretendida. Mas, mesmo quando uma afirmação, interpretada com justiça, está errada, o melhor modo de corrigi-la é geralmente fazê-lo por via indireta, e não por contradição frontal. No escrever e no falar, como na guerra, o êxito depende muitas vezes da habilidade nos movimentos de flanco. O modo de expulsar as trevas de um quarto é inundá-lo de luz. Assim, o modo de derrubar o erro é levantar a verdade. Deixe a sua luz brilhar. Não se ocupe das trevas do outro: elas não farão estrago no círculo cheio de luz. Dê ao que ouve e lê a melhor construção que a justiça permitir. “Mas, se vocês mordem e devoram uns aos outros, cuidado para que não sejam mutuamente destruídos.” (Gl 5.15)

100. A conversão, um milagre

A conversão de pecadores atrai pecadores. Pode ser tarde da noite; mas, se pecadores estão se convertendo, a congregação fica para ver o desfecho. E não admira. O grande objetivo das reuniões religiosas é a salvação das almas. Alcançado esse objetivo, o povo, naturalmente, se interessará. Uma conversão genuína é um milagre genuíno; e os milagres sempre despertam atenção. O pregador que se entrega à obra de salvar almas não pode ser malsucedido. Pode não ser talentoso; mas, se traz no coração o fardo das almas, despertará atenção. Um rio nunca sobe mais alto que a sua nascente — geralmente nem tão alto. O pregador, por mais que vocifere, não pode esperar despertar na congregação sentimentos mais profundos que os seus próprios. Se quer que cuidem de suas almas, ele mesmo deve cuidar delas. Quem quer um reavivamento entre o seu povo deve tê-lo primeiro no próprio coração. Onde há material combustível, o fogo se espalha. Uma chama acende facilmente outra chama. Leitor, você está trabalhando para ganhar almas?

101. As conversões devem ser completas

O modo popular e fácil de converter pecadores está exercendo má influência sobre nós como povo. Antigamente, quando os pecadores vinham à frente para receber oração, orávamos por eles com toda a seriedade. Os santos, de comum acordo, clamavam a Deus em alta voz; os penitentes se uniam, e a voz da súplica chegava até o céu. Parecia quase impossível alguém ir à frente sem ficar inteiramente quebrantado. Havia bastante ruído, mas raramente confusão. Era como o bramido do Niágara: em perfeita harmonia com a ocasião. Geralmente os que vinham à frente eram poderosamente convertidos, e saíam exultando e louvando a Deus. Vimos altares cheios, um após outro, convertidos na mesma noite, e a obra prosseguir a noite inteira.

Os pregadores populares não queriam os nossos convertidos. Não saberiam o que fazer com eles, se os tivessem. Não conseguiriam contê-los nem impedi-los de dar claro testemunho e de ser abençoados em suas reuniões formais e comportadas. Isso convenceria outros do pecado.

Mas agora, tragam-se pecadores à frente, e os professos se aglomeram ao redor: oram um pouco, mas conversam com eles e lhes cantam demais. Há, com demasiada frequência, muito pouco de súplica fervorosa e unida a Deus por eles. Dizem-lhes que creiam e professem amar a Cristo, sem que haja aparência alguma de terem experimentado mudança. São curados superficialmente. Se mantiverem a profissão, provavelmente se unirão a alguma igreja popular — pois tudo o que receberam foi a religião popular. Irmãos, o caminho antigo é melhor. Abandonemos imediatamente, e para sempre, um modo de trabalhar que resulta em mais autoenganos que conversões. Façamos obra completa para Deus. Não basta apresentar a verdade com toda a clareza: façamo-la valer, e insistamos em que seja praticada em todas as nossas reuniões.

102. Conversões superficiais

Muitos que professam conversão não foram biblicamente despertados. Foram atraídos à igreja por atenções pessoais e apelos ao seu amor ao prazer. Não foram advertidos a fugir da ira vindoura. Não se viram em perigo.

103. Os convertidos devem afastar-se do pecado

Os oficiais de recrutamento estão ávidos por recrutas. Mas, antes de mandá-los para o front, submetem-nos a exame rigoroso. Não receberão crédito nem dinheiro pelos alistados inaptos para o serviço. Seus superiores não se deixam enganar.

De Deus não se zomba (Gl 6.7). De nada serve trazer para a sua igreja grande número de convertidos que não se voltaram do pecado para a justiça, na expectativa de que ele os reconheça. Não importa quão zelosos sejam pela igreja, se continuam pecando. Podem ser o que o pregador chama “meus membros mais úteis”; mas Cristo os desconhece. Sua linguagem é: “Nunca os conheci. Apartem-se de mim, vocês que praticam a iniquidade.” (Mt 7.23) Muitos vivem e morrem em sua igreja, orgulham-se de sua grande utilidade, e despertam na eternidade para descobrir que estão perdidos para sempre, porque consentiram em contentar-se com algo aquém da obra do coração — de uma conversão completa a Deus! Oh, é coisa terrível viver e morrer enganado! Leitor, o seu coração está certo com Deus?

104. Os convertidos devem ser convidados a unir-se

Aníbal, o cartaginês, e o rei sueco Gustavo Adolfo foram os maiores guerreiros dos seus dias, mas parece que não sabiam tirar das vitórias o melhor proveito. Assim acontece com alguns pregadores. Pregam bem, têm boas congregações e bons reavivamentos; mas não deixam seus circuitos mais fortes do que os encontraram. Pescam os peixes, e outros os enfiam no cordel e os levam embora. São modestos demais. Têm tanto medo de proselitismo que os convertidos sob os seus labores não sabem se eles querem ou não que se unam à sua igreja. Mas o pregador vizinho não tem tais escrúpulos. Visita cada convertido desejável, diz-lhe quanto interesse sente por ele, quanto precisa de sua ajuda, faz insinuações desfavoráveis contra os metodistas livres e o convida para a sua igreja. E insiste até conseguir o seu nome.

Irmãos, não basta ceifar o trigo e atá-lo em feixes: é preciso recolhê-lo. Seu dever para com as pessoas não termina quando se convertem; você deve recebê-las na igreja e edificá-las na fé e na santidade.

105. A convicção, uma evidência

Ninguém vai à frente num altar metodista livre porque isso seja popular. Em regra, quem vai, vai porque tem convicções profundas. É um passo que exige não pequena coragem. Seja quem for que venha aos nossos altares, devemos presumir que deseja ardentemente a salvação, e agir sobre essa presunção. Não devemos desanimá-los, nem enfraquecer a nossa própria fé, com palavra alguma que pareça pôr em dúvida a sua sinceridade. Os que vêm à frente devem receber o que vieram buscar. Essa deve ser a regra, não a exceção. O dirigente da reunião deve fazer tudo contribuir para esse único resultado. Não deve esperar decepção em caso algum. Todos os que trabalham junto ao altar devem unir-se em fé pela salvação de cada um que veio à frente, sem se contentar com nada menos. Anima muito os outros a vir, quando os que vêm recebem o que buscam.

106. A convicção deve ser atendida

A convicção pode ser profunda e avassaladora; mas nunca é irresistível. Quem quer, sempre pode resistir ao Espírito Santo. Santo Estêvão disse aos seus ouvintes que eles sempre resistiam ao Espírito Santo (At 7.51). E, contudo, não admitiam que o fizessem. Talvez não o soubessem: o hábito de resistir ao Espírito tornara-se neles segunda natureza. Se você espera um dia acertar-se com Deus, ceda agora aos suaves apelos do alto. Provavelmente nunca serão mais fortes. Mas, cada vez que você lhes resiste, o poder de resistência se fortalece muito. Ceda, pois, agora. Deus está operando dentro de você: comece você a operar por fora. Faça toda confissão que se sentir levado a fazer. Consagre-se plenamente, à altura de toda a luz que Deus lhe dá. Em suma, comece desde este momento a obedecer ao Espírito Santo.

107. Coragem

O verdadeiro cristão deve ter verdadeira coragem. Não há lugar para covardes no Reino dos Céus. Entre os gregos e romanos, a virtude era a coragem. Em nossa própria língua, o sentido primário de valor é valia. É dever de todo filho de Deus ser valente. Um coração certo com Deus é um coração forte para fazer e ousar, e forte para suportar. Para combater o bom combate da fé, devemos ter coração valoroso. Não devemos temer os inimigos da cruz de Cristo, seja qual for o poder que possuam. “Não temam os que matam o corpo” (Mt 10.28) é a ordem do nosso Capitão. O apóstolo clama: “Vigiem, permaneçam firmes na fé, sejam homens de coragem, sejam fortes.” (1Co 16.13) A covardia é fraqueza. Devemos guardar-nos dela como quem foge do inferno. “Quanto aos covardes […], a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.” (Ap 21.8) Pise, pois, o medo sob os pés. Que ele não tenha domínio sobre você.

108. Falta coragem

Que hoste conquistadora seria a esta altura a Igreja Metodista Livre, se todos os que receberam luz e salvação entre nós tivessem sido fiéis às suas convicções e permanecido firmes em seus postos! Se assim fosse, já teríamos adquirido um ímpeto capaz de varrer da estrada todos os obstáculos. Os pusilânimes, os desanimados, os servidores do tempo, os agradadores de homens fazem mais mal do que todos os exércitos de opositores.

“Não queremos covardes em nossas fileiras,
que abandonem a sua bandeira;
chamamos homens de coração valente,
que não têm medo de morrer.”

Ninguém precisa de coragem tão alta e tão pura quanto o soldado de Cristo. Por mais tímidos ou retraídos que sejamos por natureza, o grande Capitão, se mantivermos os olhos nele, nos encherá de nobre ousadia. Avancemos de vitória em vitória. Lutemos até o fim. Acrescente à sua fé a coragem.

109. Orando por coragem

“Por que você está no altar?”, perguntamos, numa reunião campal, a um dos nossos jovens pregadores, que, tínhamos toda razão de crer, gozava da bênção da santidade.

“Por mais coragem”, foi a resposta.

Era um jovem inglês que desembarcara em nossas praias durante a guerra e se alistara no exército da União no dia em que chegou. Estranho a todos os nossos oficiais e soldados, abriu caminho pela bravura até o posto de capitão antes do fim da guerra. Depois da guerra, converteu-se, foi santificado a Deus e chamado a pregar. E agora esse veterano de muitas batalhas, em que homens caíam mortos ao seu redor, estava no altar buscando coragem para cumprir todo o seu dever como ministro de Jesus Cristo! Ele a recebeu, e pregou com fidelidade, não só do púlpito, mas às multidões nas ruas.

Um ministro covarde, quaisquer que sejam os seus talentos, será um fracasso. Será maravilha e misericórdia se não deixar de alcançar o céu por deixar de anunciar todo o conselho de Deus. Irá mal, no dia do juízo, aos homens que, por amor da popularidade, do salário ou da posição, ou por falta de coragem, transigem com a verdade de Deus. “Quanto aos covardes […], a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.” (Ap 21.8)

110. Seja cortês

Você deve ser sincero em toda a sua conversa com o próximo; mas isso não significa que deva ser rude nos modos ou cruel nos sentimentos. Muito pelo contrário. O cristianismo é amor a Deus e amor ao homem. “Pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.” (1Jo 4.20) Mas, se realmente amamos os outros, seremos bons para com eles, pacientes com suas faltas, honestos e perseverantes nos esforços por fazer-lhes bem. O verdadeiro amor nos torna prontos a ajudar-nos mutuamente de todo modo próprio. Um dos maiores prazeres da vida é negar-nos a nós mesmos pelos que amamos. Não pense, pois, que está transigindo por ser bondoso e amigável. Cristo diz: se eu dou a minha vida por vocês, vocês também devem dar a vida uns pelos outros (1Jo 3.16). Mas que loucura falar em dar a vida uns pelos outros, se não estamos dispostos a ceder um assento uns aos outros, ou a ajudar-nos, no que pudermos, a carregar os fardos da vida! A boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34). Sejam quais forem as vantagens de alguém, ou a falta delas, se realmente amamos os outros, falaremos com eles com bondade e agiremos com eles com bondade. Se os deixamos em paz e à própria sorte, tratamo-los exatamente como somos mandados tratar o diabo. E você chama a isso um proceder ditado pelo amor?

111. Críticos, perturbadores de Sião

O cristão ama a verdade. Não dará apoio consciente ao erro. Mas não tem medo dele. Não se sente chamado a corrigir todo aquele que, em sua própria igreja, escreve ou diz algo capaz de uma construção que ele não pode aprovar. O ministro de Deus é atalaia, que ouve a palavra da boca de Deus e a anuncia da parte dele. Mas não é cão de guarda, latindo para todo aquele que passa, seja amigo ou inimigo. Um só crítico desses numa igreja pode matar a reunião social.

De todos os perturbadores de Sião, ele é o mais difícil de manejar. Se lhe fazem oposição, posa de mártir, desperta simpatia e levanta um partido para apoiá-lo. Em regra, a única coisa a fazer com ele é deixá-lo em paz. Com o tempo, ele se tornará tão intolerável que até os que simpatizam com algumas de suas ideias o abandonarão como estorvo que não deve ser tolerado.

Extratos 112–126 · Crítica, morte, dívidas, engano, ilusão, desenvolvimento+

112. Não seja criticador

A abelha colhe alimento das flores, mas não fere as flores. As nocivas e inúteis, ela as deixa em paz. Não desperdiça tempo e força tentando destruí-las. Os cristãos deveriam fazer o mesmo com os sermões que ouvem e os artigos que leem. Se há neles algum bem, aproveite-o; se há o que é inútil ou nocivo, deixe-o de lado. Essa deve ser a regra. Há exceções, é claro; mas a exceção não deve virar regra. Quem gasta o tempo em ataques aos artigos de que não gosta, e às pessoas de que não gosta, não terá tempo para muito mais. É melhor andar colhendo mel do que andar ferroando. Há grande diferença entre a abelha e a vespa — entre o cristão humilde e o crítico azedo.

113. O espírito de crítica é destruidor

Há poucos anos havia aqui uma florescente sociedade cristã. Os membros eram ultrarradicais. Não havia entre eles nada que parecesse espírito de transigência. Enquanto dobraram suas energias para salvar os outros, prosperaram. Mas um espírito de crítica insinuou-se entre eles. Fortaleceu-se com o exercício, e logo começaram a corrigir uns aos outros. Seguiu-se um longo e acirrado processo eclesiástico. Um membro foi expulso, outros se retiraram, e a obra de “purificação” prosseguiu, até que hoje restam apenas seis membros. Estes, originalmente da mesma facção, andam brigando entre si. Estão evidentemente à beira da extinção. “Se vocês mordem e devoram uns aos outros, cuidado para que não sejam mutuamente destruídos.” (Gl 5.15) “Começar uma briga é como abrir brecha num açude; desista, pois, antes que estoure a contenda.” (Pv 17.14) É o único caminho seguro. Evite a contenda. Fuja das brigas como fugiria do diabo.

114. Triunfo na morte

O fato de alguém morrer em paz não é evidência de que morre em estado de salvação. Parece ter sido verdade quanto aos ímpios, já nos dias do salmista, que “não há dores na sua morte” (Sl 73.4). Sua consciência está cauterizada; não têm senso de culpa. Estão completamente insensíveis às coisas da eternidade.

Mas os ímpios não triunfam na morte. O máximo que se pode dizer deles é que morrem como morre o animal.

Os santos, às vezes, têm duros conflitos na hora da morte. O inimigo os golpeia com força. Como o Salvador, podem exclamar: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Mt 27.46) Mas essas são as exceções. Usualmente, uma vida piedosa se encerra com uma morte feliz. Disse John Knox pouco antes de partir: “Louvo a Deus por aquele som celestial.” Pouco depois: “Agora chegou” — e expirou.

Disse William Kendall, ao fazer a travessia: “Há dois dias nado nas águas da morte, e elas são como doce incenso sobre mim.” E depois repetiu:

“Anjos brilhantes da glória vieram;
rodeiam meu leito, estão no meu quarto;
esperam para levar meu espírito ao lar.
Tudo está bem.”

“Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o dele.” (Nm 23.10)

115. Não se endivide

Ninguém pode ser feliz vivendo além dos seus meios. A mesa pode ser boa, mas os presságios sombrios lhe roubam o sabor. A comida de João Batista era “gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3.4), mas ele era feliz, pois andava com Deus. Os jornais noticiam que um pregador popular foi processado por uma nota de trezentos dólares e deixou correr o julgamento à revelia. Quando os oficiais da igreja examinaram o caso, descobriram que ele devia, aqui e ali, em dinheiro emprestado, dezoito mil dólares! E tinha um salário de três mil e quinhentos dólares, pago pontualmente.

Seja qual for a renda de alguns, eles conseguem facilmente gastar mais. O apetite por luxos cresce com aquilo de que se alimenta. O modo simples de viver é o modo mais feliz de viver. Os desejos desordenados devem ser arrancados, não satisfeitos. Basta pouco para suprir as nossas necessidades reais.

116. Pregadores não devem endividar-se

Confiamos que todo o nosso povo cuidará de que seus pregadores não se endividem. Que não haja necessidade disso. Se não têm dinheiro para pagar o frete de sua mudança, não o emprestem a eles: saiam e levantem-no para eles. Se não há casa pastoral, que a junta oficial alugue uma casa e se responsabilize pelo aluguel. Cuidem de que as necessidades da família do pregador sejam supridas.

Se o pregador quiser tomar dinheiro emprestado de você, pergunte o que pretende fazer com ele. Se é para adquirir o necessário à vida, providencie que lhe seja pago pelos seus labores de amor. Se é para entrar em negócios, não lhe empreste, nem deixe que outros o façam. Se emprestar, a probabilidade é que você perca o seu dinheiro, e ele, o seu crédito. Ele corre o risco de desviar-se por gastar o seu dinheiro, e você, por perdê-lo. Não corra riscos dessa espécie: costumam terminar desastrosamente para todos. Bons pregadores são maus fazendeiros. O inverso não costuma ser verdadeiro.

117. A dívida não é desculpa para não dar

De onde tira alguém a noção de que não deve dar para a causa de Deus enquanto está endividado? Se estar endividado fosse desculpa válida para não dar, tememos que alguns ficassem endividados todos os seus dias. De fato, ficam: assim que acabam de pagar uma fazenda, compram outra. Não; se você deve aos homens, deve ainda mais a Deus. Atenda às exigências que ele lhe faz, com prontidão e alegria. Você não sairá das dívidas sem a ajuda dele. Dar é um dos meios que Deus designou para assegurar a sua ajuda. “Tragam o dízimo todo à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provem-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não abrir para vocês as janelas do céu e derramar sobre vocês bênção sem medida.” (Ml 3.10) Provem-no com quê? Com todos os dízimos. Quem fará a prova?

118. As dívidas devem ser pagas

A melhor coisa, depois de não se endividar, é pagar as próprias dívidas. Seja pontual nisso; pois está em jogo não só o seu crédito, mas também o crédito da igreja a que você pertence. Se lhe for impossível pagar como esperava, apresse-se a informar o credor, para que não conte com o pagamento, e peça prorrogação. O cristão deve ter integridade em tudo. A frouxidão nos negócios implica frouxidão nos princípios religiosos. Quem não é estritamente honesto não pode ser verdadeiramente piedoso. Melhor passar fome do que endividar-se por luxos; melhor andar em farrapos do que vestir roupa fina pela qual se está retendo o pagamento de alguém. Melhor não prometer ajuda a alguma causa religiosa ou benevolente do que prometer e não pagar. Disse o salmista: “Preservem-me a integridade e a retidão.” (Sl 25.21) Elas são preservativos igualmente poderosos nos dias de hoje. Um pequeno vazamento pode afundar um navio; um pequeno ato de desonestidade abre uma torrente de tentação que pode ser avassaladora em suas consequências. A regra da Escritura, da qual não é seguro desviar-se, é: “Esforcem-se por fazer o bem diante de todos.” (Rm 12.17)

Quando um homem que, em sua carreira de pecado, endividou-se profundamente, professa conversão, mas abandona as dívidas e julga que deve devotar todo o seu tempo “à obra do Senhor”, sendo nela sustentado, o seu caso parece suspeito. Ele deve ser animado a trabalhar com as mãos, pagar as dívidas e juntar dinheiro para comprar livros — e cavalo e charrete, se necessário. Poderia então vir com confiança a Deus em busca da bênção; teria ousadia diante dos homens; e a probabilidade de perseverar até o fim ficaria muito fortalecida.

119. O perigo de estar enganado

Estar enganado quanto ao próprio estado espiritual é espécie perigosíssima de engano. E, contudo, muitos professos, e até ministros, estão assim enganados. Cristo nos disse que assim será até o fim.

120. Almas enganadas

É coisa terrível uma alma estar enganada. E, contudo, multidões estão. A descrição que Bunyan faz do Falador aplica-se a muitos: “Ele fala de oração, de arrependimento, de fé e do novo nascimento; mas só os conhece para falar deles. Estive em sua casa e o observei, em casa e fora dela; e sei que o que digo dele é a verdade. Sua casa é tão vazia de religião quanto a clara do ovo é vazia de sabor. Ali não há oração, nem sinal de arrependimento do pecado; até o bruto, à sua maneira, serve a Deus muito melhor que ele. Ele é a própria mancha, o opróbrio e a vergonha da religião para todos os que o conhecem; por causa dele, a religião mal consegue ter bom nome no bairro em que mora. Assim diz o povo comum que o conhece: ‘Santo na rua, diabo em casa.’ Sua pobre família o sente. Os que têm negócios com ele dizem: ‘Melhor negociar com um turco do que com ele, pois teriam mãos mais justas.’”

Leitor, você está enganado? Se você tem o Espírito, deve produzir os frutos do Espírito.

121. O engano

O engano pode, por um tempo, ser praticado com êxito sobre os homens; mas não sobre Deus. Ninguém é astuto bastante para enganar a Deus, quer quanto às ações, quer quanto aos motivos. Seu olho penetra a mais profunda obscuridade, e as coisas ocultas das trevas ele trará à luz. “Porque os olhos de Deus estão sobre os caminhos de cada um, e ele vê todos os seus passos.” (Jó 34.21) Diz Secker: “O homem pode dourar as folhas de uma vida borrada com a profissão de santidade; mas Deus pode desmascarar a Jezabel pintada da hipocrisia e expô-la, nua, à sua própria vergonha.”

122. Devemos ser definidos

Nunca teremos êxito como cristãos enquanto não aprendermos a ser definidos.

Se você quer o perdão, deve buscá-lo distinta e definidamente. A santidade deve ser buscada do mesmo modo. Anseios indefinidos por ela não a trazem para mais perto.

123. Um exemplo de demora

Devemos ser prudentes; mas a prudência levada ao excesso já não é prudência — pode tornar-se covardia.

Indo a um ponto de pregação em nosso circuito, em outros anos, passávamos por uma fazenda em que havia uma velha casa de troncos. O dono ocupava-se, todos os invernos, em preparar-se para construir uma nova. Num inverno, cortou a madeira. Carrear os troncos e serrar as tábuas levou mais dois ou três invernos. Outro inverno ou dois se gastaram fazendo telhas. E assim os anos rolaram. Antes de terminados os preparativos, a madeira apodrecera. Era preciso recomeçar o processo. A última notícia que tivemos dele é que ainda morava na casa velha — escorada para não cair. Assim alguns pecadores desperdiçam o tempo preparando-se para se tornarem cristãos, e alguns cristãos, preparando-se para serem santificados por inteiro. O melhor é agir prontamente. Quem há de arrepender-se está tão pronto a arrepender-se agora quanto jamais estará; quem há de consagrar-se inteiramente a Deus não precisa de preparação adicional para fazê-lo.

124. O perigo da ilusão

Quando alguém dá às suas direções interiores e espirituais autoridade maior do que aos claros ensinos da Bíblia, expõe-se a toda ilusão do diabo. É quase certo que será desencaminhado. Somos ensinados com toda a clareza que a Palavra escrita de Deus é superior a quaisquer revelações interiores que até os mais santos do povo de Deus aleguem ter. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem conforme esta palavra, jamais verão a alva.” (Is 8.20) E, contudo, podem alegar que estão cheios de luz. Todas essas alegações devem ser rejeitadas. São Paulo é explícito: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu anuncie a vocês um evangelho que vá além do que lhes anunciamos, que seja amaldiçoado.” (Gl 1.8) Na exata medida em que alguém se afasta da Bíblia, afasta-se de Cristo. Se inclinado ao rigor, arrisca-se a virar fariseu; se à frouxidão, pode aderir a alguma das várias formas de espiritismo. Em ambos os casos, corre perigo de perder a alma. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que a pessoa que é de Deus seja perfeita e perfeitamente habilitada para toda boa obra.” (2Tm 3.16-17)

125. Manifestações políticas e religiosas

Protestamos contra que os políticos, depois disto, achem defeito nas reuniões religiosas barulhentas. Se algum dia tiveram esse direito, perderam-no por completo. Já estivemos em reuniões religiosas tão barulhentas quanto as que costumam acontecer. Nunca presenciamos nenhuma que se comparasse às manifestações políticas feitas ultimamente. Não fomos a comícios na última campanha, mas era impossível estar numa cidade e escapar ao barulho. Ruas principais ficaram bloqueadas por passeatas políticas durante horas, sem que bondes ou carruagens pudessem passar. Mas a polícia não fez prisões por isso. Os jornais não apresentaram protestos.

Um respeito decente pelos direitos dos cristãos deveria impedir que nossas cidades e vilas prendessem um pequeno bando de peregrinos que percorre as ruas cantando de modo ordeiro e marchando sem causar obstruções sérias. Se mais prisões dessas forem feitas, todos os jornais do país deveriam clamar contra elas. As coisas eternas são de muito maior importância que quaisquer eleições. Não lemos que os habitantes do mundo celestial se interessem por assuntos políticos; mas lemos que “há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10).

126. O desenvolvimento é sempre possível

Você pode estar em “circunstâncias apertadas”, mas não precisa faltar-lhe espaço para expansão e desenvolvimento. Por mais cercado que esteja, sempre há espaço para cavar fundo e construir alto. Perto de nós, em Chicago, há um edifício novo que acaba de subir à altura de treze andares completos. O lote em que está é comparativamente pequeno, mas no edifício há muitas salas. Assim, se a sua esfera de trabalho é limitada, você pode elevar a sua obra à altura que quiser. Foi numa paróquia pequena, entre gente rude dos vales estreitos dos Alpes, que trabalhou o pastor Oberlin; mas seus labores fervorosos e abnegados fizeram sua influência ser sentida em terras distantes. Qualquer circuito é grande o bastante para oferecer a um pregador oportunidades de ganhar uma coroa imperecível. Não os que são ouvidos com aplausos arrebatados por milhares ávidos, mas “os que a muitos conduzem à justiça brilharão como as estrelas, para todo o sempre” (Dn 12.3).

Extratos 127–138 · Devoção, discipulado, disciplina, discernimento, vestuário+

127. O fogo da devoção deve ser mantido aceso

Quando a água está baixa na caldeira, ou o querosene está baixo na lamparina, há perigo de explosão. Assim, quando a piedade está baixa no coração, não se sabe que estrago pode fazer alguma paixão que irrompa de repente. As perspectivas da vida podem murchar, a paz de uma família pode ser perturbada, a esperança do céu pode ser destruída. Cuide, pois, de não declinar na piedade. Use todos os meios necessários para manter aceso no coração o fogo da devoção. Antes de sair do quarto, busque a bênção do Senhor em oração séria e fervorosa. Que a primeira leitura da manhã seja uma porção das Escrituras. Se tem família, mantenha o culto doméstico com perfeita regularidade. Seus filhos precisam da influência do culto no lar. Que o lar seja para eles uma casa de Deus. Seja abençoado com a sua família, e a sua família será uma bênção para você.

128. As condições do discipulado

A experiência muitas vezes ilustra a Bíblia, mas nunca toma o seu lugar. Seu relógio pode dizer-lhe quando esperar o nascer do sol, mas nunca o regula. Diga o que disser o relógio, o sol nasce do mesmo modo, à hora marcada.

Pessoas aparentemente convertidas podem divergir muito ao contar como se converteram; mas as condições do discipulado permanecem as mesmas. Um pode dizer que teve de abandonar a loja maçônica, e outro declarar que não precisou; mas continua verdadeiro que “todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33). Por alta que seja a profissão de fé, e eloquente o discurso de um pregador maçom, nada disso enfraquece a força do mandamento divino: “Por isso, saiam do meio deles e separem-se, diz o Senhor.” (2Co 6.17)

Pregadores mundanos e servidores do tempo podem dizer: “Não faz diferença como alguém se veste; uma senhora da moda pode ser cristã tão devotada quanto a que se veste com simplicidade.” Uma devota da moda, em tons fervorosos, com gestos que fazem faiscar a luz de sua mão enfeitada de joias, pode contar sua maravilhosa conversão e como “descobriu que a busca do prazer não atrapalha sua arrebatada comunhão com o querido Salvador”; mas nada disso revoga o mandamento “Não vivam conforme os padrões deste mundo” (Rm 12.2), nem desfaz a força destas palavras enfáticas: “Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.” (1Jo 2.15) Não nos deixemos afastar do claro ensino da Bíblia. “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu anuncie a vocês um evangelho que vá além do que lhes anunciamos, que seja amaldiçoado.” (Gl 1.8)

129. A disciplina deve ser sustentada

Membros da igreja culpados de imoralidade flagrante devem ser excluídos da igreja. Seu exemplo deve servir de advertência aos outros. Mas temos ficado surpresos de ver como, em tais casos, gente boa se deixa arrastar pelas simpatias e fica ao lado de quem perdeu todo direito ao caráter cristão.

Há alguns anos, veio a nós um pregador de outra denominação. Professava plena simpatia por nossos princípios. Por vários anos houve problemas com ele em cada sessão da conferência. Queixavam-se de que usava fumo. Ele reconhecia que usara, mas declarava do modo mais solene que o abandonara. Depois da conferência, voltava a usá-lo. Por fim, foi excluído por conduta grosseiramente imoral e perversa. A prova de sua culpa era conclusiva. Em poucos meses tornou-se um bêbado comum, um pária. Contudo, tantos membros da igreja em que ele por último servira ficaram ao seu lado, e tomaram partido contra a decisão da conferência que o expulsou, que a sociedade foi totalmente destruída. Nunca mais houve outra naquele lugar. E, no entanto, era gente excelente.

É perigoso tornar-se partidário. Nunca fique ao lado de ninguém no erro. Podemos sentir compaixão dos que erram, ser bondosos com eles e procurar ajudá-los; mas não devemos fazer nada que pareça simpatia pelo erro. Não devemos deixar a igreja porque membros indignos são excluídos.

130. A disciplina deve ser exercida com brandura

Não conseguimos ver como é possível alguém estar ansioso por expulsar pessoas da igreja e, ao mesmo tempo, amar as suas almas. Suponha que não estejam bem: terão mais chance de acertar-se fora da igreja do que dentro dela? Lemos que a bondade de Deus conduz ao arrependimento (Rm 2.4); mas não lemos que a severidade da igreja tenda a produzir esse efeito. Poucos processos eclesiásticos são conduzidos com tanta justiça que os excluídos não saiam com o sentimento arraigado de que se lhes fez injustiça. Eles têm amigos de fora que os apoiam. A influência sobre a comunidade é tal que se torna dificílimo haver reavivamento naquela igreja por anos. Sabemos de uma igreja da qual, há poucos anos, foram excluídos cerca de meia dúzia dos que eram geralmente tidos por bons membros. Perguntamos a alguém que fora ativo na acusação por que haviam sido excluídos, e só num caso obtivemos algo definido. Bons pregadores passaram por aquele circuito desde então, mas mal conseguem manter o que têm. Um reavivamento extenso parece fora de cogitação. A Igreja Metodista Livre não é tão popular que as pessoas em geral façam questão de nela permanecer, a menos que tenham ao menos desejo de salvação. Talvez outro pregador possa ajudar aqueles a quem você não consegue influenciar para o bem. Dê-lhes uma chance.

131. Disciplina versus salvação

Um presidente distrital da conferência do Kansas, há alguns anos, ao apresentar um de seus pregadores, disse: “Ele não tem muita salvação a oferecer, então pega pesado na disciplina.” Não está aí a verdadeira raiz da dificuldade dos pregadores que têm muito mais zelo e êxito em tirar pessoas da igreja do que em levá-las a unir-se a ela? Não têm muita salvação a oferecer. Conseguem ver a doença, mas não fornecem o remédio. Quem está com dor de dente não fará mais caretas se você lhe cortar a cabeça — mas será esse o melhor tratamento? Destruir uma igreja não é o melhor modo de promover a sua pureza. Piedade, prudência e paciência irão mais longe em preparar as pessoas para o Reino de Deus do que um zelo furioso por expulsá-las da igreja. Antes de iniciar procedimentos para excluir membros, leia o capítulo sobre disciplina em Pescadores de Homens. Acima de tudo, leia Mateus 18.15-17. Depois ore por eles, até que o seu coração se encha de amor profundo e terno pelas suas almas. Ao proceder contra eles, aja exatamente como agiria se o acusado fosse seu próprio irmão ou filho. Lembre-se de que o grande objetivo a alcançar é a salvação da alma.

132. Discernimento

Todos os cristãos deveriam ter boa medida de discernimento espiritual. Deveriam ter olhos para ver. Isso é especialmente verdadeiro dos ministros do evangelho. Não devem ser desconfiados, de um lado, nem facilmente ludibriados, de outro. É esse discernimento espiritual necessário que Cristo prometeu aos discípulos ao dizer: “Se de alguém perdoarem os pecados, esses são perdoados; se os retiverem, são retidos.” (Jo 20.23; ver também Mt 18.18) Terão tal discernimento que, pelas evidências dadas, saberão dizer se alguém está verdadeiramente convertido e apto para a comunhão da igreja, ou não. Assim como outrora, no caso da lepra, literalmente, o sacerdote o declarava imundo; ou, com outras evidências diante de si, o sacerdote o purificava, isto é, o declarava limpo (Lv 13.8,13). Em ambos os casos é Deus quem faz a obra; mas ele dá aos seus servos discernimento para reconhecer quando ela foi feita. Um guia cego é um condutor perigoso.

133. Um remédio para o descontentamento

Muitos cristãos professos são vítimas do descontentamento e da inquietação. Os velhos como os moços — os que nada lhes falta em conforto do corpo, como os pobres — são assim atormentados. Buscam alívio mudando de circunstâncias e de companhias; mas, especialmente se avançados na vida, raramente o encontram — só na sepultura. Parecem não ter aprendido que

“A mente é o seu próprio lugar e, em si mesma,
pode fazer do inferno um céu, e do céu um inferno.”

A causa desse descontentamento é às vezes o orgulho, às vezes a consciência de levar uma vida inútil. O tempo pesará nas mãos dos que se retiraram da vida ativa, a menos que estejam fazendo algo para tornar melhores e mais felizes os que os cercam.

O evangelho tem remédio para toda essa inquietação de espírito. “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim”, diz Jesus, “e vocês acharão descanso para a sua alma.” (Mt 11.29) O jugo é o símbolo do trabalho. Se, pois, você quer estar contente e feliz, esqueça-se de si mesmo e viva para fazer o bem aos outros. Não achará tão difícil confiar em Jesus, se estiver ativamente empenhado no seu serviço. Ao abençoar os outros, Deus o abençoará de muitas maneiras. Pare de queixar-se e vá visitar os doentes. Leve alívio àquele sobrecarregado, e o alívio virá a você. Ao ajudar a carregar os fardos alheios, você achará fácil lançar todo o seu cuidado sobre o Senhor, e descobrirá que ele cuida de você.

134. A discriminação é necessária

Há muitas coisas numa flor de trevo branco de que a abelha não gosta. Mas ela não sai a brigar e ferroar essas coisas para pô-las ao seu gosto. A flor tem mel escondido em suas profundezas. A abelha o descobre e trata de apropriá-lo para seu uso. Do que não gosta, deixa em paz. Devemos aprender a tratar assim os livros, os periódicos e os sermões. Não devemos engolir tudo, assim como a abelha não engole os estames e pistilos das flores que lhe fornecem alimento. Devemos discriminar com cuidado. O que é bíblico e nos fará bem, recebamos; o que é nocivo ou inútil, rejeitemos. Muitos são instáveis e doentios porque devoram tudo o que se lhes põe diante.

135. Fazendo ou duvidando

Muitos vivem em dúvida sobre a sua experiência interior porque fazem pouco demais pelos outros. Se um corpo vivo não recebe alimento de fora, alimenta-se de si mesmo. Assim, se uma pessoa verdadeiramente convertida não está fazendo pelos outros, anda atribulada consigo mesma. A razão por que sente falta de graça é que não usou a graça que tinha. Como a água tirada de um poço é reposta por fontes invisíveis, assim, à medida que a graça é dispensada aos outros, a graça se multiplica — como os pães de cevada que os discípulos distribuíam à multidão. Ajudando os outros, ajudamo-nos a nós mesmos. Carregando os fardos uns dos outros, os nossos ficam mais leves. Qualquer discípulo de Cristo que precise da nossa ajuda está, para nós, no lugar de Cristo. “O Rei responderá: Em verdade lhes digo que, sempre que vocês fizeram isso a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mt 25.40)

136. Conformidade mundana no vestir

Pôr ouro para adornar a pessoa, da parte de quem já teve experiência clara, é indicação de que se desviou de Deus. Tanto quanto sabemos, todas as Disciplinas metodistas concordam em dizer que pôr ouro e trajes custosos é “fazer o que se sabe não ser para a glória de Deus”, algo que não pode fazer quem tem o “desejo de fugir da ira vindoura e de ser salvo dos seus pecados”. Por mais que os diferentes ramos da igreja metodista divirjam, todos concordam, em sua posição publicada, quanto a esses pontos. Está em sua constituição impressa. É também o claro ensino da Bíblia: “Não vivam conforme os padrões deste mundo.” (Rm 12.2) O que quer que mais se inclua nessa proibição geral, ela certamente inclui tudo o que a Bíblia proíbe nominalmente. Assim, se você vai aos poucos pondo coisas que antes não podia usar, é sinal certo de que está se desviando de Deus. Está escorregando para longe dele, gradual e silenciosamente. Muitas coisas o indicam aos outros, embora você mesmo não o veja. Você já não está tão pronto a dar testemunho como antes. Ele já não é claro, definido e tocante. Você pode dizer num vestido da moda as mesmas coisas que dizia num vestido simples, mas já não soam do mesmo modo. Falta o endosso do Espírito. Suas palavras estão sem poder. Sua aparência contradiz o seu testemunho. Consinta em ver e reconhecer que está desviado. Volte para o SENHOR, e ele voltará para você (Ml 3.7).

137. Ornamentos supérfluos outrora proibidos

Anos atrás, os metodistas não conseguiam entrar em suas festas de amor sem um bilhete dado pelo pregador encarregado do circuito. A regra da Disciplina que o governava dizia: “Não dê bilhete a ninguém que não tenha abandonado os ornamentos supérfluos. Não admita caso isento, nem mesmo o de mulher casada. Melhor que uma sofra do que muitas. Não dê bilhetes a quem use penteados altos, chapéus enormes, rufos ou anéis.”

Se essa regra fosse aplicada hoje, quantas irmãs teriam eles em suas festas de amor? Eram fanáticos então, no assunto do vestuário, ou estão desviados agora? Os tempos podem mudar, mas Deus não muda. Sua Bíblia não muda. Ela ainda diz: “Que o enfeite de vocês não seja o exterior, como frisado de cabelos, adornos de ouro ou vestidos luxuosos, mas o ser interior do coração, com o adorno incorruptível de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus.” (1Pe 3.3-4)

138. O vestir mundano, um estorvo

Na busca de chegar ao Senhor, a tesoura muitas vezes pode ser usada com proveito. Deus tem uma ordem pela qual opera, tanto no mundo espiritual quanto no natural. Se queremos que ele se aproxime de nós, devemos aproximar-nos dele. E isso fazemos pondo de lado tudo o que ele proíbe. Se você quer que ele tire o orgulho do seu coração, você deve tirar toda aparência dele da sua pessoa. Deus não tirará as fitas enfunadas do seu chapéu — isso você mesmo pode fazer. Em algumas das reuniões campais a que fomos este ano, a tesoura foi usada livremente. O efeito foi bom. Tirar as superfluidades abre o canal pelo qual a água da vida flui para a alma. Se você quer ser abençoado como antes, e ter o poder que tinha, vista-se com a mesma simplicidade de então. Não se pode pôr o mundo, por pouco que seja, sem perder na alma. No grau em que você se conforma ao mundo, nesse mesmo grau perde do coração o poder transformador do Espírito de Deus. Para ser salvo, você saiu do mundo; para permanecer salvo, deve manter-se separado.

Extratos 139–152 · Vestir, dever, educação, inimigos, evangelista, evolução+

139. O mandamento sobre o vestir deve ser observado

O direito de desprezar um mandamento da Bíblia implica o direito de desprezar qualquer outro. Todos possuem a mesma autoridade. Repousam sobre a mesma base: a soberania absoluta de Deus. Quanto menor a tentação de quebrar determinado mandamento, maior perversidade de coração há em quem o quebra. Quem rouba para não morrer de fome talvez não seja criminoso voluntário; mas quem rouba sem que nenhuma necessidade o aguilhoe, fá-lo porque é ladrão. Pergunte aos cristãos professos que violam um preceito claro da Bíblia, e que encorajam a extravagância da época usando ouro e trajes custosos, por que o fazem, e dirão que não é porque se importem com isso — que tanto faz vestir-se com simplicidade. Por que não obedecer, então, a Deus, e “não viver conforme os padrões deste mundo” nas coisas que Deus proíbe? Por que professar-se cristão vivendo em desobediência aos claros mandamentos de Deus? “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lc 6.46)

140. O vestir deve ser simples

Se você se consagrou ao Senhor para vestir-se com simplicidade, como ele ordena, leve isso a cabo em todos os pormenores. Não deixe que o alto preço do tecido do seu vestido compense ao seu orgulho a simplicidade do feitio. Não pague mais por uma peça de pano, por parecer melhor, do que pagaria por outra igualmente útil. Seja coerente do princípio ao fim. Se não põe ouro nem pérolas, não ponha imitação de ouro ou de pérolas. Não apenas evite o mal, mas evite a aparência do mal (1Ts 5.22). Se você deixou a gravata, não abotoe o colarinho com um grande botão de latão que parece ouro. Se abandonou os charutos, não ponha na cabeça um boné de fumante janota. Se uma moça não pode usar pluma no chapéu, também não deve amontoar fitas para fazer as vezes dela. Se você renunciou ao diabo, renuncie aos substitutos do diabo. Se é filho de Deus, vista-se como filho de Deus. Antigamente, descreviam-se os hipócritas como os que “roubam a libré do céu para nela servir ao diabo”. Agora a ordem se inverteu, e santos professos roubam a libré do diabo para nela servir a Deus. Não faça nem uma coisa nem outra. Apresente-se em suas verdadeiras cores: um humilde santo de Deus, revestido de humildade, perfeitamente transparente, carta viva, conhecida e lida por todos (2Co 3.2).

141. Os ornamentos do cristão

As mulheres do mundo raramente se encontram sem ornamentos. Em casa ou fora, estão adornadas para a ocasião. Usam anéis na cozinha e na tina de lavar.

Os cristãos deveriam usar sempre os seus ornamentos. Estranhos e amigos, empregados e filhos deveriam encontrá-los sempre trajados com os seus adornos próprios. Seus ornamentos são, no juízo dos melhores avaliadores, os mais valiosos do mundo. Pesam mais que o ouro em valor; excedem de longe os diamantes em brilho e preço. A fortuna do maior milionário não bastaria para comprar o menor deles.

São Pedro põe como principal entre eles “o adorno incorruptível de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.4).

Você tem esse ornamento? Ele vem de um único país — o céu. Só Deus pode concedê-lo. Sem ele, você jamais poderá apresentar-se em sua corte.

142. O traje dos clérigos

Não lemos, nos Atos dos Apóstolos, que o alfaiate tivesse parte alguma no equipamento dos primitivos arautos da salvação. Não se faz a mais leve menção do feitio das vestes que deveriam usar ao conduzir os cultos. As Epístolas são igualmente silenciosas. Tanto quanto podemos colher do Novo Testamento, os primeiros ministros do evangelho usavam as roupas que usavam os demais de sua nacionalidade. Menciona-se, em 2Tm 4.13, a capa de Paulo; mas o dr. Adam Clarke pensa que era algo como um saco ou maleta de viagem. É evidente que nada tinha que ver com a sua pregação.

O traje usado pelos sacerdotes romanos, e as imitações dele usadas pelo clero da Igreja da Inglaterra na condução do culto, foram copiados dos usados pelos sacerdotes judeus e pagãos. Essa prática não tem o menor apoio no Novo Testamento. É um fragmento de usurpação sacerdotal a que os cristãos não devem dar guarida.

143. A convicção do dever

Para ser cristão verdadeiro, você deve ser governado pela convicção do dever. Se andar por impulso, será flutuante e instável. Diz Bramwell: “Qual é o meu dever? Eis o ponto, sem a menor consideração pelas consequências. Por essa razão, retire-se de toda companhia, por mais amigável que seja, várias vezes ao dia. Não se importe com os olhares ou palavras que receber; não permaneça em lugar algum onde não possa fazer isso. Não vá a festas sem antes conhecer as pessoas e o que provavelmente acontecerá. Reivindique a sua liberdade, jamais consentindo contra o são juízo. Que nada impeça a plena salvação.”

144. Levantar cedo

Deus fez a luz para o olho e o olho para a luz. Visto com candura, parece uma afronta à sua sabedoria que alguém, sem ocasião especial, fique acordado até tarde da noite, dependendo de luz artificial, e depois fique na cama até tarde da manhã, quando a gloriosa luz do sol de Deus inunda a terra. Os grandes santos foram madrugadores. Law, em seu Chamado a uma Vida Santa, diz: “Dou por certo que todo cristão com saúde está de pé cedo pela manhã; pois é muito mais razoável supor alguém de pé cedo por ser cristão do que por ser trabalhador, comerciante ou criado, ou por ter negócios que o reclamem. Pois, se é censurável como zangão preguiçoso aquele que prefere a indulgência ociosa do sono a cumprir sua devida parte dos negócios do mundo, quanto mais repreensível é o que prefere ficar enrolado numa cama a elevar o coração a Deus em atos de louvor e adoração.” Diz o salmista: “Quero acordar a alva.” (Sl 57.8)

145. Educação

É grande erro alguém pensar que, por ser instruído, está por isso chamado e habilitado a ensinar o povo de Deus. Mas é erro igual concluir que, por ter pouca instrução, alguém está por isso chamado a ser mestre em Israel. “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1Co 1.27); mas daí não se segue, de modo algum, que todos os loucos e todos os fracos sejam escolhidos. E os assim escolhidos não permanecem loucos e fracos. Não demonstram o seu chamado declamando contra a educação, desprezando o senhorio e difamando autoridades (Jd 8). É no cumprimento da promessa de Cristo que sua pretensão se comprova: “Porque eu lhes darei boca e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos quantos se opuserem a vocês.” (Lc 21.15) John Bunyan era homem sem letras, mas abriu caminho ao reconhecimento por declarações tão simples e sublimes que instruíram e encantaram todas as classes da humanidade. Benjamin Abbott não tinha educação, mas sob seus poderosos apelos homens fortes caíam como árvores diante do vento.

Mostre-se um John Bunyan ou um Benjamin Abbott, e os metodistas livres de toda parte o ouvirão com alegria. Precisam muito de tais homens, e lhes dariam calorosa acolhida.

146. Cristo nos manda amar os inimigos

Nunca devemos perder de vista que Cristo nos manda amar os nossos inimigos. A conduta deles pode ter sido ultrajante ao extremo; mas devemos deixá-los com Deus. A vingança pertence a ele. Não convém, a quem pensa em ir para o céu, guardar velhos rancores contra quem quer que seja. Se outros pecaram contra você, isso não é razão para você pecar contra Deus. Se você foi defraudado ou lesado, ainda que por um irmão, o Senhor prometeu ser o seu vingador (1Ts 4.6). Deixe-se nas mãos dele. Tenha espírito perdoador. Vigie pela emenda deles com a solicitude de um pai por um filho que erra. Se há alguma mudança para melhor, esteja pronto a encorajá-la. “O amor tudo espera.” (1Co 13.7) Devemos estar dispostos a perdoar a todos quantos o Senhor perdoar. “Assim, como eleitos de Deus, santos e amados, revistam-se de profunda compaixão, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem uns aos outros, perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros.” (Cl 3.12-13)

147. A cura da inveja

O amor é a cura da inveja. A prosperidade de alguém a quem você ama não o perturba. Você tem interesse em tudo o que lhe diz respeito, e o êxito dele é, em certa medida, seu também.

148. Sabedoria no trato com os erros

Jesus não tinha por alvo derrubar, mas edificar. Suplantou a igreja judaica, mas não a atacou. Dissipou as trevas trazendo a luz. O falso ensino dos escribas e fariseus, refutou-o expondo claramente a verdade. Não veio destruir a vida dos homens, mas salvá-la. Se queremos fazer o bem, devemos seguir seu exemplo. Raramente os erros são removidos por esforços diretos de refutá-los. Palavras de graça vão mais longe na reforma dos homens que palavras de censura. Os que estão arraigados e alicerçados na verdade não são propensos a beber o erro. Se uma árvore dá mau fruto, nossos esforços devem dirigir-se não tanto a destruir o fruto quanto a tornar boa a árvore. Pregar contra males e mesquinharias não é necessariamente pregar o evangelho. Quando levamos alguém a lançar fora uma falsa esperança, devemos fazê-lo trazendo-lhe uma melhor. O formalismo morto se remove chegando ao povo com a vida e o poder.

149. A obra do evangelista

A obra especial do evangelista é levar o evangelho aos não salvos. Sua missão é ir aos destituídos dos meios de graça e oferecer a salvação aos perdidos. É o que em nossos dias se chama missionário. Os evangelistas não devem passar a maior parte do tempo, nem muito do seu tempo, com as sociedades antigas; devem ir aonde não há sociedades e levantar sociedades. Para isso há oportunidades de sobra. Em toda parte há necessidade de que as massas sejam evangelizadas. Nessa obra tão necessária, todos os pregadores devem tomar parte. Foi a um bispo que Paulo escreveu: “Faça o trabalho de um evangelista.” (2Tm 4.5) Não bastava cuidar da obra já estabelecida: ele devia plantar igrejas em outros lugares. Irmão, olhe para as multidões que perecem ao seu redor. Vá a elas e procure levá-las à salvação. “Faça o trabalho de um evangelista.”

150. A maledicência

Diz John Wesley que o cristão “não pode falar mal do próximo, assim como não pode mentir”. Não é exagero. A Bíblia sustenta a afirmação. O homem que habitará no santo monte de Deus é o “que não difama com a língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho” (Sl 15.3). De nada adianta falar e cantar sobre o céu enquanto você anda falando dos seus vizinhos. Você nunca chegará ao céu se é dado à maledicência. Uma língua não santificada é arma perigosa manejada por um coração não santificado. Você pode ferir os outros — e sem dúvida ferirá — falando mal deles; mas ferirá mais a si mesmo. Pode impedir a promoção deles; mas impedirá a sua própria salvação.

151. Argumento contra a evolução

Alguns escritores supõem que o homem, originalmente, estava pouco acima dos brutos e que se elevou por esforço próprio ao presente estado de civilização. Os fatos estão contra essa teoria. Não conhecemos um só caso de nação que se tenha elevado sem ajuda de influências externas. A tendência é na direção oposta: as nações degeneram e descem da civilização à barbárie. Os casos abundam. O Egito foi outrora a nação mais civilizada do mundo; hoje é uma das mais degradadas. “O rev. S. Macfarlane, que há vinte e oito anos funda igrejas, treina professores e traduz as Escrituras nos mares do sul, diz que os nativos da Nova Guiné não subiram de uma barbárie original, mas descenderam claramente de uma antiga civilização. Saíram, diz ele, de um esclarecimento passado, e possuem uma língua em que há traços linguísticos de superioridade oriental.” É tão verdadeiro das nações quanto dos indivíduos: “Se a luz que está em você são trevas, que grandes trevas serão!” (Mt 6.23)

152. A doutrina da evolução tem pouca prova

Os homens de saber parecem deixar-se levar pelas modas dominantes quase tão prontamente quanto os homens comuns. A doutrina da evolução quase não tem outro título à crença senão o de estar na moda. Os registros mais antigos que temos da família humana mostram alto estado de civilização. Rawlinson, em sua história do Egito antigo, falando de Seti, que reinou no Egito cerca de 1400 anos antes de Cristo, diz: “Os triunfos militares de Seti foram superados e eclipsados por suas grandes obras. O grandioso ‘Salão das Colunas’ no templo de Karnak — a glória principal daquele magnífico edifício —, sustentado por cento e sessenta e quatro maciças colunas de pedra, e cobrindo área maior que a catedral de Colônia, foi projetado em sua totalidade, e em grande parte construído, por ele; e, se estivesse sozinho, bastaria para colocá-lo na primeira fileira dos construtores. É obra-prima da mais alta classe: tão vasta que subjuga a mente do espectador; tão profusamente ornamentada que lhe excita o assombro e a admiração; tão belamente proporcionada que satisfaz as exigências do gosto mais refinado; tão inteiramente em harmonia com o seu entorno que agrada até ao mais ignorante. O poder arquitetônico egípcio culminou nesse edifício maravilhoso — seu esforço supremo, sua coroa e orgulho, sua maior e mais grandiosa realização; e só restou às eras posteriores reproduzir cópias débeis da obra maravilhosa de Seti, ou escapar à comparação realizando obras de descrição inteiramente diversa. O ‘Salão das Colunas’ de Karnak não é apenas o mais sublime e belo de todos os edifícios ali agrupados de modo a formar um único e inigualável templo: é o mais alto esforço do gênio arquitetônico egípcio, e está entre as oito ou dez mais esplêndidas de todas as construções arquitetônicas conhecidas.”

Extratos 153–163 · Exortação, experiência, fé e obras, restauração de faltosos+

153. O direito de exortar, privilégio comum

Para ter o direito de exortar, não é necessário ter licença de exortador. A direção é geral: “Pelo contrário, exortem-se mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama ‘hoje’, para que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado.” (Hb 3.13) Isso deve ser feito não apenas uma vez por semana, mas diariamente. No devido cumprimento desse dever há duplo benefício: tanto os que exortam quanto os exortados são guardados do endurecimento. São assim preservados de um “coração mau e incrédulo”. Por infrutífero que esse trabalho pareça, ele sempre beneficia aquele que, com terna solicitude, exorta os outros. Ló tinha por auditório os réprobos de Sodoma; mas guardou-se de cair nos seus pecados porque “atormentava a sua alma justa, dia após dia, com as obras iníquas deles” (2Pe 2.8). Exorte, pois, com toda a longanimidade e doutrina (2Tm 4.2).

154. Experiência fresca

O ramo da videira pode estar firmemente unido ao tronco; pode estar são e sadio; mas, se não lançar madeira nova, não dará fruto. Uvas nunca crescem em madeira velha. Assim, se você quer ajudar a promover um reavivamento da religião, precisa obter uma nova experiência. Não importa há quanto tempo você se converteu e foi santificado: precisa receber nova bênção, se quer fazer bem aos outros. Do contrário, sua fala e suas orações podem ser boas, mas serão secas. Você atrapalhará onde queria ajudar. Um novo convertido, que sabe pouco do caminho da salvação em comparação com você, e cuja linguagem não é tão boa quanto a sua, fará mais bem. A razão: embora tenha menos experiência, ela é fresca. Seu potezinho de maná foi colhido hoje, e por isso o povo o comerá com ele. O seu, guardado e cuidadosamente conservado, é lembrança de outros dias, quando o maná caía em chuvas. Mas foi guardado tempo demais para o uso presente. Amados, sejamos renovados dia a dia (2Co 4.16).

155. Extremistas

Quando o diabo já não consegue manter as pessoas adormecidas, esforça-se por empurrá-las aos extremos. Para ele, vale qualquer coisa que atrapalhe a obra de Deus. Quando alguém consente em ser guiado pelo Espírito, Satanás procura fazê-lo pensar que é guiado infalivelmente. Quem dá ouvidos à sugestão logo chega a tal estado que não quer que ninguém o ensine. É, na própria estimativa, tão ensinado por Deus que não pode errar. Aos que concordam com ele e o endossam por completo, dá comunhão; aos que não, condena. Diz o presidente Edwards: “Esse erro defenderá e sustentará todos os erros. Enquanto uma pessoa tem a noção de que é guiada por direção imediata do céu, isso a torna incorrigível e inexpugnável em toda a sua má conduta; pois de que serve a pobres e cegos vermes do pó argumentar com um homem, e tentar convencê-lo e corrigi-lo, se ele é guiado pelos conselhos e mandados imediatos do grande Jeová?” (Obras, vol. 3, p. 365.) Cuidemos de ter sempre um espírito humilde e ensinável.

156. Fé obediente

Que somos salvos mediante a fé é doutrina bíblica. Mas a fé, quando genuína, resulta sempre nas obras que lhe correspondem. Tudo o que passa por fé, mas não conduz à obediência cordial aos mandamentos de Deus, é pura presunção. “Você quer saber, ó homem insensato, que a fé sem as obras é inoperante?” (Tg 2.20) Muitos não querem conhecer essa grande verdade fundamental. Fecham-se à luz que Deus lhes daria, e às vezes pagam grandes salários a pregadores para confirmá-los em suas ilusões. Contudo, nada se ensina com mais clareza na Bíblia do que a total inutilidade de uma fé inoperante. Que pode ser mais claro que estas palavras de Cristo: “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lc 6.46) Por que professam ser meus discípulos e não me obedecem?

Por maior que seja a força física de um homem, no momento em que morre ele fica impotente. O corpo morto nada pode fazer. “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta.” (Tg 2.26) Não tem valor algum. E, contudo, com que tenacidade muitos se agarram à sua fé morta! Leitor, você tem uma fé que opera?

157. Fé salvadora

Muito do que passa por fé é apenas a fé dos demônios. É precisamente da mesma qualidade da fé que os demônios têm. Não há verdade do evangelho em que os demônios não creiam. Não têm dúvidas sobre a divindade de Cristo, nem de que Deus responde à oração. Se a nossa fé não for algo mais que o assentimento do entendimento às verdades da Bíblia, ela não nos salvará. A fé que salva vai além do intelecto. Toma posse firme dos afetos e da vontade, “porque com o coração se crê para justiça” (Rm 10.10). A fé salvadora é a confiança voluntária da alma em Cristo. O elemento da confiança entra nela em larga medida. Podemos crer numa pessoa e, por várias razões, não querer confiar nela. Mas a fé cristã é, como bem diz o dr. Horace Bushnell, “a fé de uma transação. É o ato de confiança pelo qual um ser, o pecador, se entrega a outro ser, o Salvador. Não é a mente lidando com noções ou verdades abstratas. É aquilo que não pode de modo algum ser uma proposição: é um ser confiando-se a outro ser, e tornando-se assim outro e diferente, por uma relação inteiramente transacional.” Dizer às pessoas que estão convertidas porque creem que “Jesus Cristo é o Filho de Deus” só tende a enganá-las para sua ruína eterna. É assumir uma responsabilidade terrível.

Amados, vocês precisam, para ser salvos, depositar em Cristo tal confiança que dependam só dele para a salvação. Devem sacrificar-lhe posição, propriedade e reputação, e olhar para ele em busca de tudo o que precisam para o tempo e para a eternidade. “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)

158. Fé e obras

Obras feitas por motivos egoístas, e por quem não nasceu do Espírito, nada têm de salvador em seu caráter. Tais eram as obras do fariseu vanglorioso. Ficamos com tanto medo delas que quase perdemos de vista a grande verdade, tão claramente ensinada na Bíblia, de que a nossa salvação eterna depende — não apenas do que cremos —, mas das nossas ações e motivos. Não é aos que vivem e morrem na igreja que a salvação eterna é prometida, mas aos que a buscam com “perseverança em fazer o bem” (Rm 2.7).

Paulo tem muito a dizer sobre a salvação pela fé; mas, em harmonia com os demais escritores inspirados, faz a nossa salvação eterna depender das obras da fé, e não de qualquer profissão de fé ou mera crença intelectual em doutrinas.

Não parece possível entender mal as palavras de Cristo: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt 7.21) Quando a profissão e a prática não concordam, o caso se decide pela prática. Se, pois, você quer ganhar o céu, cuide não apenas de professar Cristo diante do mundo, mas de fazer a vontade de Deus em sua conversa, na disposição do seu tempo e no uso que faz de seus bens. Não se engane: os avarentos, por mais religião que aleguem ter, não herdarão o Reino de Deus (1Co 6.10).

Leia a sua Bíblia com cuidado sobre este assunto. Tome uma concordância e procure as passagens que tocam neste ponto, e você se surpreenderá com o número das que ensinam que o nosso destino eterno depende das nossas obras.

No último capítulo do Apocalipse lemos: “Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestes no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas.” (Ap 22.14)

Note com que clareza Cristo ensina que a nossa vida eterna — ou, por outro lado, a nossa condenação final — depende das nossas obras: “Não se admirem com isso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.” (Jo 5.28-29)

Leitor, a sua vida está consagrada a fazer o bem?

159. Terra alqueivada

Quando fizemos a nossa horta, há alguns anos, éramos econômicos com o terreno. Tínhamos só uns quatro acres, e cerca de três quartos estavam ocupados pelo pomar e pelas construções. Assim, cavamos o chão e plantamos videiras ao longo da grama. Algumas vingaram, mas nunca colhemos uvas delas. Vendo que, com todo o nosso cuidado, não prosperavam, plantamos, uns dois anos depois, outras videiras dentro da horta. O solo não era melhor, mas estava sob cultivo. Essas videiras nos deram colheita abundante de uvas no outono passado. Do mesmo modo, nossos pessegueiros na grama mal sobreviveram; mas os da horta se tornaram árvores grandes e nos deram belos pêssegos.

Vemos resultados semelhantes nas coisas religiosas. Alguns tomam as doutrinas mais importantes e as promessas mais preciosas e as lançam num coração todo coberto pelo gramado da mundanidade — e se admiram de não colher messe mais rica de paz e alegria. A falha não está nas doutrinas nem nas promessas, nem em não serem devidamente cridas, mas em não serem recebidas num coração quebrantado e contrito.

Amados, lavrem o campo de vocês, que está sem cultivo, e não semeiem entre espinhos (Jr 4.3).

160. Como tratar quem caiu em falta

As direções dadas para o caso de alguém ser surpreendido numa falta devem ser seguidas com cuidado. O grande alvo é restaurá-lo — não é tirá-lo da igreja. Apesar da falta, ele tem uma alma a salvar, e os que se dispuseram a ajudá-lo não devem desistir tão facilmente. Se desistirem, ele ficará mais propenso a entregar-se ao desespero. É verdade que ele desonrou a igreja; mas lançá-lo fora da igreja, para morrer, não removerá a desonra. Salvar almas é de maior consequência do que tentar salvar a reputação da igreja deixando almas perecerem por negligência.

Os espirituais devem encarregar-se de restaurá-lo (Gl 6.1). Os outros dificilmente tentarão; e, se tentassem, só resultaria em fracasso. Deve-se deixar que os espirituais façam essa obra. Não devem ser estorvados enquanto obedecem às Escrituras. Se acharem necessário tirá-lo da igreja para restaurá-lo, então que seja tirado da igreja. Mas, para restaurá-lo, não basta que os espirituais se ponham à obra de boa-fé: devem fazê-la de maneira adequada. Devem restaurar o tal com espírito de mansidão. Devem ter um sentimento de simpatia por aqueles a quem querem beneficiar. O ressentimento repele; o amor atrai e vence.

161. As faltas devem ser reconhecidas diante de Deus

Para que alguém que perdeu a graça volte ao Senhor, é necessário que veja a sua falta e a reconheça. Mas todo pecado é cegador por natureza. É especialmente o caso do pecado da cobiça. Por isso acontece, às vezes, que em questões de negócios alguém pensa estar certo quando toda pessoa imparcial que conhece os fatos sabe que está errado. É condição perigosíssima. Os médicos mais hábeis, quando adoecem, chamam outros médicos para tratá-los. Assim, quando alguém está em tal estado moral que chama de certo — onde estão em jogo os seus interesses temporais — o que os espirituais chamam de errado, deve aceitar a decisão deles e seguir o seu conselho. Ele precisa de ajuda; deve buscá-la e aceitá-la. Deve abrir os olhos à sua falta, fazer confissão e restituição, e orar, e pedir que os espirituais orem, pela sua restauração. Porque um homem errou numa coisa, não há razão para que erre em tudo e perca por fim a alma. Ele deveria estar mais ansioso pela sua recuperação do que um doente por sarar. Mas tudo o que os outros fizerem por ele não o salvará, se ele não cumprir o seu dever. Para o seu próprio Senhor está em pé ou cai (Rm 14.4).

162. As faltas devem ser corrigidas do modo certo

Se você acha que algum irmão fez algo errado, tenha a coragem de ir a ele e mostrar-lhe a falta em particular e com ternura. É este o mandamento de Cristo. Obedeça-lhe na maneira, tanto quanto na matéria. Não basta apontar-lhe a falta. A palavra de Cristo é explícita: “Vá argumentar com ele em particular.” (Mt 18.15) Você viola grosseiramente esse mandamento se lhe aponta a falta publicamente, na congregação. Fazendo-o, desobedece a Cristo. Você não tem o direito de contá-la a ninguém antes de tratá-la a sós com o ofensor. Não tente humilhá-lo diante dos outros; dê-lhe a oportunidade de humilhar-se a si mesmo. Frequentemente, os que deram um passo errado são impedidos de acertar-se pelo tratamento imprudente que recebem. São acusados de muito mais do que fizeram; e o medo de que se espalhe que confessaram tudo o que se diz deles os impede de fazer qualquer confissão. Sua salvação é estorvada, e faz-se grande mal. Alguns se congratulam pela fidelidade em expor o pecado quando, na realidade, são culpados de covardia. Exige muito mais coragem ir ao ofensor do que denunciar a ofensa em público.

163. Como tratar as faltas alheias

É grande defeito não saber tratar das faltas alheias com franqueza sem manifestar mau espírito. Em todas as circunstâncias devemos falar a verdade em amor (Ef 4.15). Devemos ser decididos, sem que o coração se agite de ira. “Lembre-se”, diz Fénelon, “de que a firmeza real é gentil, humilde e serena. Qualquer firmeza áspera, dura e inquieta é indigna da obra de Deus. Diz-se que a sabedoria ‘ordena todas as coisas suavemente’: faça você o mesmo; e, se alguma vez for traído a agir com rudeza, humilhe-se sem reservas. Confesse que erra muitas vezes na maneira, e, na substância, mantenha-se em sua regra. Quanto ao mais, nunca será obsequioso ou assíduo demais. Não há leitura nem oração que lhe ensine tanta renúncia própria quanto essa sujeição.”

Aprendamos a ser intransigentes sem manifestação alguma de rudeza ou vontade própria.

Extratos 164–175 · Criticadores, formalismo, perdão, igrejas livres, maçonaria+

164. Espreitar faltas

Todos desejamos comida e bebida puras. Mas morreríamos todos de fome se usássemos um microscópio de grande poder de ampliação para examinar o que comemos e bebemos, e nos recusássemos a tomar qualquer coisa que não se mostrasse pura. A igreja deve ser pura. Mas o pregador que examina seus membros sob um microscópio potente, e descarta todos aqueles em que se acham defeitos, logo se verá sem membros. É melhor usar mais o telescópio e menos o microscópio. Entregar a atenção a espreitar as faltas alheias é mau negócio. Leva a grandes incoerências. Os que coam o mosquito logo chegam a engolir o camelo (Mt 23.24). Há homens que deixam a Igreja Metodista Livre por causa de pequenas coisas de que não gostam, e se unem a uma igreja cuja posição, em questões vitais, veem claramente ser radicalmente errada. Alguns dos nossos pregadores mais estritos foram parar nas mais largas das seitas.

165. O criticar por criticar

As críticas mais cruéis aos que trabalham na causa de Deus são feitas pelos homens e mulheres que negligenciam o próprio dever. Estão sempre prontos a ampliar cada erro, real ou imaginário, dos que trabalham; a diminuir seus êxitos e a exagerar seus aparentes fracassos. Pregadores que nunca têm reavivamentos não se cansam de apontar tudo o que é censurável nos métodos dos que têm reavivamentos poderosos. Homens que retêm dinheiro que deveriam dar a escolas, missões e outras agências salutares criticam sem misericórdia o modo como essas agências são administradas. Mas não são eles que arregaçam as mangas para ajudar numa administração melhor. Não aprenderão que o maior de todos os erros é ficar parado sem fazer nada? Meroz foi amaldiçoada, não porque carregasse a espingarda no ombro errado, mas porque não a carregou de modo algum: ficou em casa quando devia ter ido à batalha (Jz 5.23). O homem do único talento foi lançado nas trevas de fora, não porque tivesse feito um investimento infeliz do dinheiro do seu senhor, mas porque não fez investimento algum (Mt 25.30). Ó criticadores, cuidado, para que, quando o seu Senhor vier, não sejam achados espancando os conservos, em vez de trabalhar com eles!

166. Não se deve dar ouvidos aos criticadores

Nunca se ergueu edifício algum com parte das equipes trabalhando conforme a planta e a outra parte derrubando os andaimes sobre os quais os demais trabalham. A reputação de um ministro é o seu andaime. Destrua-a, e ele não terá de onde construir. Os criticadores crônicos são pecadores crônicos. Podem vestir a farda de soldados leais, mas são guerrilheiros de Satanás. Cortam os suprimentos e tornam mais penosa e perigosa a marcha dos que travam as batalhas do Senhor.

Grant entrou no exército como capitão; terminou a guerra como general de todos os exércitos do seu país. Subiu, não criticando nos jornais os colegas oficiais, mas mostrando habilidade e coragem superiores em vencer o inimigo. Não faltou quem o criticasse; mas Lincoln teve o bom senso e a coragem de sustentá-lo, apesar da crítica adversa, ao ver que fazia trabalho eficaz.

Assim, se o seu pregador é fiel a Deus e diligente em sua vocação, dê-lhe apoio e cooperação de coração. Não empreste os ouvidos aos que querem mutilar a influência dele, rebaixando-o na sua estima.

167. O formalismo na religião

O grande perigo para o cristianismo neste país não vem da incredulidade, mas do formalismo. Os homens, para viverem em paz uns com os outros, precisam de alguma forma de religião — algo que os refreie quando o olho do oficial de justiça não está sobre eles. O ateísmo é desolado e sombrio demais para satisfazer os anseios do coração humano. As perspectivas que o cristianismo oferece para o futuro são cativantes demais para serem facilmente postas de lado. A objeção que o mundo faz não é à vida eterna, mas às condições sob as quais ela é prometida. Assim, quando essas condições são, em substância, postas de lado, e a bem-aventurança do céu é prometida às pessoas nos termos delas — quando o povo se convence de que a religião não atrapalhará seus negócios nem seus prazeres —, então todo mundo está disposto a ser religioso.

168. O valor das formas religiosas

Todos os esforços por espiritualizar o cristianismo a ponto de dispensar as formas têm sido fracassos completos. Esta terra é material demais para a morada prolongada de algo totalmente espiritual. Quando um ser humano toma a forma de espírito, deixa este mundo. Todos os nossos sentidos exigem algo tangível, ainda que seja apenas um meio pelo qual o intangível possa operar. A eletricidade difusa passa despercebida; mas, concentrada, leva nossas mensagens com a velocidade do relâmpago, ilumina nossas ruas e impulsiona nossos bondes. “Porque o Reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder.” (1Co 4.20) Mas ainda assim é um reino, regularmente organizado — e não anarquia. A vida espiritual, incorporada nas formas devidas, multiplica-se e perpetua-se, e torna-se bênção para os outros; desencarnada, desaparece e, tanto quanto se pode ver, pouco bem realiza. Se, como dizemos, o braço adormece, não o cortamos fora: movemo-lo e restauramos a circulação. Assim, se alguma das formas de religião que Cristo estabeleceu parece seca e morta, ponha nova vida nela, e ela voltará a ser-lhe útil. “Mantenha o padrão das sãs palavras que você ouviu de mim, na fé e no amor que há em Cristo Jesus.” (2Tm 1.13)

169. As formas devem ser conservadas

As formas na religião são necessárias. Se adoramos e cultuamos o nosso Criador, haverá algum modo de expressar a nossa adoração e o nosso culto. Nem o fogão nem a lareira nos aquecem; mas, numa casa, precisamos de um ou de outra para acender o fogo que nos aquecerá. A mesa e a louça não nos alimentam; mas precisamos delas para pôr o alimento que nos sustentará. Ajoelhar-se e repetir palavras não nos abençoa; mas, se não nos ajoelhamos diante do Senhor e usamos a linguagem da súplica, não recebemos a sua bênção sobre a alma. Não confiarmos nas formas não é razão para rejeitar e desprezar as formas que Deus ordenou como meio de graça. “Mantenha o padrão das sãs palavras.” (2Tm 1.13)

170. O espírito de perdão deve ser mantido

Para permanecer salvos, devemos manter o espírito de perdão. Ajam os outros como agirem, devemos sentir bondade para com eles e não acalentar nada que se pareça com ressentimento pelos seus malfeitos. Pode ser

“duro sentir o escárnio do estranho,
duro ver os velhos amigos se afastarem,
duro aprender a perdoar!
Mas o Senhor recompensa os seus,
e o seu amor se une ao deles —
quente, fresco e vivo.”

Alimentar animosidades é negócio perigoso para quem deseja um dia entrar no céu. Não é preciso ser cristão para sentir bondade pelos que fazem o bem. “Sejam uns com os outros bondosos, compassivos, perdoando-se mutuamente, como também Deus, em Cristo, perdoou vocês.” (Ef 4.32) Perdoar alguém implica que julgamos que ele errou. Onde sabemos que é o caso, ainda assim devemos ser perdoadores e compassivos para com ele.

171. Espírito perdoador

O cristão não pode guardar rancor. Devemos ter espírito perdoador. Ao tratar com dureza os que se desgarraram, podemos dizer que não lhes damos mais do que merecem. Pode ser verdade — e pode não ser. Pode haver animosidade aninhada no coração, cuja presença ainda não descobrimos. Mas, mesmo que não haja, devemos deixá-los, tanto quanto for compatível com o nosso dever, nas mãos de Deus. Ele é o juiz.

Devemos ser tardios em condenar.

“Embora a justiça seja o teu apelo, considera isto:
que, a rigor de justiça, nenhum de nós
veria a salvação. Oramos pedindo misericórdia,
e essa mesma oração nos ensina a todos a praticar
as obras de misericórdia.”

As palavras do nosso Salvador devem ser cuidadosamente estudadas: “Assim também o meu Pai celestial fará com vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.” (Mt 18.35)

172. Precisam-se igrejas livres

Igrejas livres são muito necessárias em toda cidade. Todo assento de toda igreja de Jesus Cristo deveria ser gratuito. O sistema de alugar ou vender bancos nas casas de culto é inteiramente errado. Está em conflito direto com o mais claro ensino da Palavra de Deus. Traz para a igreja alguns orgulhosos, elegantes e abastados, e exclui as massas. Fomenta a mais vil de todas as aristocracias: a fundada no dinheiro. Produz hipócritas e professos enganados, em vez de santos.

Diz o Detroit Evening News: “As classes mais pobres — o grosso do povo — são notáveis pela ausência nas igrejas mais elegantes. Assim, essas supostas instituições educativas são dirigidas pelos já educados e no interesse deles; pois, que um sujeito mal vestido se apresente à porta de uma igreja, e é logo recebido por um porteiro bem alimentado e bem vestido, que faz do candidato um inventário mental, mais ou menos como o recepcionista de hotel faz de um hóspede, e prontamente o despacha para um banco do fundo, que, por sua má posição, é ‘gratuito’. Enquanto isso, ao estranho bem vestido dá-se o melhor lugar, entrega-se-lhe um hinário e, no fim do culto, os diáconos e o ministro o rodeiam e o convidam a voltar. O pobre sai despercebido e, na medida em que tem algum respeito próprio, não volta mais àquela igreja. Vê que ‘a igreja’ é sustentada por gente de outra classe que não a sua, e reconhece de imediato que ali não passará de um intruso.

“Não só a maioria das igrejas e o povo estão se afastando uns dos outros, mas o número de convertidos, em proporção ao dinheiro gasto, é tão ridiculamente pequeno que, se esses estabelecimentos fossem geridos por princípios comerciais, iriam à falência. Alguns desses convertidos custam mil dólares cada um; alguns, mais; outros, menos. Sem dúvida uma alma não tem preço e, portanto, nenhum custo é alto demais; mas, quando uma igreja salva uma alma e, por causa do seu exclusivismo e do seu desvio dos ensinos de Jesus, afasta uma dúzia do cristianismo, não seria melhor que fechasse as portas? E é isso o que muitas fazem.”

Deus levantou a Igreja Metodista Livre para remediar esses males. Mas é mais fácil denunciar práticas erradas do que corrigi-las. Achamos dificílimo firmar pé em nossas cidades. Os imóveis custam caro. Comprar o terreno para construir um templo simples exige bastante dinheiro. Os que endossam os nossos princípios, e creem que as igrejas da moda estão todas erradas, parecem contentar-se em dar-nos o endosso — e às igrejas da moda, o dinheiro. E depois se admiram de que os metodistas livres não cresçam mais depressa!

173. Igrejas livres nos dias de Wesley

As igrejas livres são parte essencial do metodismo. Uma aristocracia religiosa, que na prática exclui os pobres, não tem o direito de intitular-se igreja metodista. John Wesley, em seus Pensamentos sobre o Metodismo, diz: “Desde o princípio, homens e mulheres sentavam-se separados, como sempre se fez na igreja primitiva; e a ninguém se permitia chamar de seu um lugar qualquer: os primeiros a chegar sentavam-se primeiro. Não havia bancos privados; e todos os bancos, para ricos e pobres, eram da mesma construção.” O sr. Wesley começava o culto com uma oração breve; depois cantava um hino e pregava (geralmente cerca de meia hora); cantavam-se então alguns versos de outro hino, e concluía-se com oração. Sua pregação constante era: a salvação pela fé, precedida pelo arrependimento e seguida pela santidade.

174. O efeito da venda de bancos

Vender o direito de ocupar um assento numa casa dedicada a Deus é destruir o fundamento de todo culto espiritual naquela casa. É a inauguração formal de Mamom como mestre de cerimônias. O Espírito de Deus é posto sob restrição: já não pode ter ali curso livre. Nada deve acontecer que possa ofender o gosto dos que têm dinheiro para comprar os assentos. Eles compraram o direito de ditar como Deus será adorado ali; e seus desejos são geralmente antecipados antes mesmo de expressos. Toma-se grande cuidado para que os pecadores ricos e influentes, que condescenderam em dar seu patrocínio à casa de Deus, não tenham motivo de queixa. Como geralmente afetam refinamento, possuam-no ou não, o canto deve ser artístico. Os santos sem cultivo devem calar-se; e homens e mulheres treinados no canto de ópera executam essa parte do culto público sob a inspiração do dinheiro ou da vaidade.

As declarações do púlpito também devem ser amaciadas para agradar aos ouvidos de homens não salvos. Uma declaração fiel de todo o conselho de Deus está fora de cogitação. Os pecados populares devem ser ignorados, e só devem apresentar-se as verdades de natureza a não ofender ninguém.

“Quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?” (Sl 11.3) Deixar o edifício por completo é o único remédio que resta. “Afaste-se desses.” (2Tm 3.5)

175. A maçonaria, inimiga do cristianismo

Quem não conhece a localização das rochas no canal por onde deve passar não serve para piloto; assim, quem não sabe o que se opõe à obra de Deus não serve para liderar e dirigir a obra de Deus.

Qualquer pessoa disposta a aprender pode facilmente verificar que a maçonaria é rival e inimiga mortal da religião cristã. Está provado, tão claramente quanto qualquer fato pode estar, que a maçonaria é uma religião, com seus sacerdotes, seu batismo e seu ritual; que promete salvar do pecado nesta vida e salvar a alma na vida por vir; que rejeita Cristo e põe a Bíblia no mesmo nível dos livros sagrados dos pagãos; e, por fim, que oferece salvação pelas obras.

A ignorância neste assunto é sem desculpa.

Extratos 176–186 · Maçonaria, a Igreja Metodista Livre, o jornal, rabugice+

176. A maçonaria é anticristã

Ficou demonstrado com certeza que o sistema da maçonaria, como praticado neste país, é uma religião anticristã. Contudo, muitos que professam ser cristãos, e até ministros cristãos, pertencem às suas lojas. Reconhecem a validade dos seus juramentos horrendos e bárbaros. Muitos mais, que não pertencem a ela, recusam-se por completo a examinar o seu caráter. Sustentam pregadores maçons, recebem o sacramento das mãos deles e permanecem ligados a igrejas tão controladas pela influência da maçonaria que não ousam dar testemunho contra ela. Se a maçonaria é o que Bernard e Stearns, Finney e Ronayne e Blanchard, entre outros, provaram que é, então ninguém que deseje ser cristão verdadeiro deve manter ligação, ou qualquer comunhão, com igrejas que abrigam e alimentam esse poderoso e insidioso inimigo da religião de Cristo. Podemos unir-nos a tais pessoas para fechar tabernas, levantar celeiros e consertar estradas — mas não para realizar reuniões com o fim de converter pecadores a Deus. Nunca. Essas pessoas é que precisam converter-se a Cristo. Que harmonia pode haver entre Cristo e Belial? (2Co 6.15)

177. Maçons e mórmons comparados

A maçonaria é uma religião tão completamente anticristã quanto o mormonismo. A primeira tem uma Bíblia sobre a mesa da loja? O segundo tem uma sobre o púlpito do seu templo em Salt Lake, e seus pregadores muitas vezes tiram dela o texto de suas pregações. O segundo pratica a poligamia? A primeira só provê a proteção da virtude das mães, esposas e filhas dos membros da fraternidade — todas as demais mulheres ficam desabrigadas dos seus juramentos.

Os maçons estão ligados a igrejas cristãs, ocupam púlpitos cristãos, alimentam preconceitos cristãos e florescem com salários pagos por gente cristã? Sem dúvida os mórmons fariam o mesmo, se a sua causa fosse popular o bastante para permiti-lo.

Os maçons reivindicam uma antiguidade que remontaria aos dias de Salomão? Os mórmons alegam que a poligamia teve origem na infância da raça humana.

Os mórmons aceitam formalmente a Cristo; mas grandes lojas maçônicas decidiram judicialmente que orações feitas na loja em nome de Cristo são antimaçônicas. Nos rituais maçônicos, o nome de Cristo é expurgado das passagens do Novo Testamento que citam. O cristão, portanto, não tem mais direito, como cristão, de sustentar um pregador maçom do que um mórmon.

178. Avivalistas maçons não devem ser ajudados

Se maçons estão conduzindo reavivamentos, ou realizando reuniões religiosas, você não deve ter nada com eles. Não precisa indagar mais. A obra que fazem há de ser superficial. Podem fazer muitos convertidos; mas curam superficialmente. Você ajuda tal obra por sua conta e risco. “Você devia ajudar o perverso e amar aqueles que odeiam o SENHOR? Por isso a ira do SENHOR caiu sobre você.” (2Cr 19.2)

Você pode ajudar um pregador maçom — se ele lhe permitir ajudá-lo — a chegar ao Senhor. Antes de tentar converter os outros, ele mesmo deveria converter-se. Você não deve reconhecê-lo como ministro de Jesus Cristo enquanto ele não tiver “rejeitado as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem falsificando a palavra de Deus” (2Co 4.2). Isso tirará — e manterá — qualquer homem fora da loja. Se você apoiar transigentes, tornar-se-á você mesmo um transigente. Lembre-se de Ananias e Safira (At 5).

179. A Igreja Metodista Livre, amiga dos pobres

A Igreja Metodista Livre é amiga dos pobres. Ensina que a graça de Deus, que traz salvação, é gratuita para todos. Exige que todos os assentos, em todas as suas casas de culto, sejam livres — tão livres quanto a graça que ela prega. Não conhecemos outra igreja, exceto os Amigos (quacres), que, por princípio, exclua toda casta de suas casas de culto. A maioria das denominações tem algumas igrejas livres por conveniência. Outras têm alguns assentos gratuitos; mas os moradores do lugar raramente se dispõem a anunciar sua pobreza, ou sua sovinice, ocupando com regularidade esses assentos gratuitos. Muita gente não vai à igreja por não poder vestir-se na moda. Não conseguem apresentar-se como a congregação em geral, e por isso ficam longe. A Igreja Metodista Livre exige que todos os seus membros se vistam com simplicidade. Assim, as pessoas simples não precisam ter receio de frequentar a igreja com eles. Cristo disse: “Aos pobres está sendo pregado o evangelho.” (Mt 11.5) Se eles não ouvem o evangelho onde os metodistas livres têm igrejas, a culpa é deles. Não precisam ficar longe por não quererem alugar um assento, nem por não poderem vestir roupas finas. Venham como estão. Serão cordialmente bem-vindos.

180. A Igreja Metodista Livre deve guardar o caminho antigo

Deus chamou a Igreja Metodista Livre para manter viva entre os homens a lembrança dos dias de simplicidade, singeleza e poder espiritual. Devemos ser fiéis à nossa vocação. Embora haja muita atividade nas igrejas, ela se dá, na maior parte, na linha da civilização, e não na do cristianismo. Pouco se faz que o homem natural não possa fazer. Confia-se em esquemas mundanos e política mundana para garantir a prosperidade da igreja. E eles conseguem erguer uma organização mundana que se intitula igreja de Deus. Mas poucos dos assim chamados convertidos foram sequer biblicamente despertados. Não nos deixemos atrair, pelo seu aparente êxito, para nenhum desses planos de política mundana. Apeguemo-nos à obra do evangelho e aos métodos do evangelho. Nunca nos unamos em esforços de reavivamento com quem não faz para Deus um trabalho limpo.

181. O pregador metodista livre deve ter convicções firmadas

Um pregador metodista livre que não tem convicções firmadas de que as verdades a que damos ênfase especial são verdades importantes da Bíblia não tem o que fazer entre nós. Far-nos-á mais mal que bem. Os fracos ficarão ainda mais vacilantes sob os seus labores. Se fizer convertidos, a maioria irá para outras igrejas. Se ele crê que os homens podem ser bons cristãos e pertencer à loja, e que as mulheres podem ser santas e adornar-se como o mundo, deve estudar a Bíblia e buscar a ajuda do Espírito até firmar-se na verdade. Deve então sustentá-la com tanta clareza e força que os que o ouvirem pregar entendam que não se pode servir a Deus e amar o mundo ao mesmo tempo. Se tem convicções, seja fiel às suas convicções. Mas, se ele pende para o cristianismo popular da época, mais cedo ou mais tarde cairá para o lado a que pende; e, quanto mais cedo, melhor para todos. Teria sido melhor que Judas abandonasse Cristo assim que descobriu que o seu reino não era deste mundo. Quem busca a religião pelas vantagens mundanas deve ir à igreja mais rica e mais mundana que encontrar.

182. O preconceito contra o nome “metodista livre”

É surpreendente até que ponto os maus sentimentos de alguns se agitam com a expressão “metodista livre”. Vê-la ou ouvi-la parece operar mudança instantânea em seu espírito. Querem os filhos convertidos — mas não numa reunião metodista livre. Uma viúva tirou o filho, um jovem ímpio, do altar de uma de nossas igrejas. Ele foi de mal a pior e logo foi parar na penitenciária.

O mesmo grau de poder espiritual que muitas vezes se manifesta em nossas reuniões, sem que ninguém se deixe persuadir a dar o primeiro passo rumo ao Reino, resultaria, em outras igrejas, na ida à frente ou no levantar-se de grande número. Isso se deve em parte ao preconceito, e em parte ao sentimento de que se pode obter a salvação em termos mais fáceis em outras igrejas do que na Metodista Livre. Devemos insistir, com mais clareza e mais força, em que Cristo fez as condições da salvação as mesmas para todos, e as mesmas em todos os lugares. Isso que homens e mulheres recebem nas igrejas populares sem abandonar os pecados e sem renunciar ao mundo — seja lá o que for — não é a graça salvadora de Deus.

183. Os metodistas livres, um povo separado

Os metodistas livres são uma nação à parte. Deus os levantou para isso. Onde quer que sejam fiéis à sua vocação, prosperam. Quando tentam ser como os outros, são engolidos. Na exata medida em que as outras igrejas se conformam ao mundo, devemos manter-nos afastados delas.

Os verdadeiros cristãos não são do mundo. “Vocês, porém, são raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamarem as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Vocês antes não eram povo, mas agora são povo de Deus.” (1Pe 2.9-10) Que seja esse o caráter das igrejas populares, só um cego completo pode alegar. Diz Spurgeon:

“Às vezes temo que a única época a que podemos ser comparados com verdade seja o tempo antes do dilúvio, quando os filhos de Deus se casaram com as filhas dos homens e deixou de haver distinção entre a igreja e o mundo. É pura candura reconhecer que há hoje tal mistura, tal transigência, tal dar e receber de ambos os lados nas questões religiosas, que somos como uma massa levedada, misturada e unida. Tudo isso é errado; pois Deus sempre pretendeu que houvesse distinção entre os justos e os ímpios, tão clara e palpável quanto a distinção entre o dia e a noite.”

184. Sugestões aos colaboradores do The Free Methodist

A excelência do nosso jornal deve-se em grande parte aos excelentes artigos contribuídos semana após semana. Vêm de homens e mulheres que sentem o fogo arder no coração. São fervorosos e escrevem com fervor. Esperamos que continuem fazendo o bem. E outros, que não escrevem, poderiam ajudar a causa escrevendo artigos curtos e incisivos, cheios do Espírito Santo e de fogo.

Não podemos publicar tudo o que nos mandam, porque nem tudo julgamos adequado às nossas colunas. Podemos errar no que admitimos e no que rejeitamos, pois não reivindicamos infalibilidade. Simplesmente usamos o juízo que Deus nos dá.

Arriscamos algumas sugestões aos nossos escritores, cuja observância ajudará a garantir a admissão dos seus artigos:

1. Esteja certo dos seus fatos. Se forem discutíveis, cite a fonte. Não se pode presumir que seja verdade tudo o que se vê nos jornais: corre por aí muita deturpação. 2. Evite toda personalidade ofensiva. A maioria das pessoas é muito sensível ao que vê num jornal em seu desfavor. 3. Não use gírias. Um jornal deve educar os leitores no uso de uma linguagem pura. 4. Escreva curto. Corte tudo o que puder ser cortado sem obscurecer o sentido. 5. Verifique as suas citações das Escrituras e dê a linguagem exata dos textos citados. Se procura provar suas posições com citações de terceiros, indique onde a citação pode ser encontrada, para que quem quiser possa verificá-la. 6. Evite o espírito polemista. Não é necessário rebater toda afirmação que você não pode aceitar. Geralmente, o melhor é expor a verdade e deixar que a verdade corrija todos os erros a que se opõe. As Escrituras são notavelmente livres de escritos polêmicos. 7. Escreva sobre assuntos de importância prática — assuntos que ajudem almas a chegar ao céu. O nosso é um jornal religioso; queremos que seja intensamente religioso; por isso, muitos assuntos práticos não convêm às nossas colunas. Mas há tópicos religiosos de grande importância e alcance prático que bastam para ocupar todo o nosso espaço. Restrinja-se a eles. “Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Ef 4.13) Então poderemos permitir-nos especulações. Escreve um dos nossos pregadores dedicados e fervorosos:

“Hoje poucos leem esses longos artigos em série sobre o milênio. Não passam de opiniões, e nada provam; de que servem, então? Não porei em dúvida a piedade desses irmãos. Mas a teoria milenar, tal como ventilada, nos ajudará a consolar os doentes e aflitos ao nosso redor? A ideia de um Cristo que venha mil anos mais cedo, ou mais tarde, nos ajudará a conduzir almas ao Cristo que veio há 1888 anos?”

185. A rabugice desanima

“Não se irrite por causa dos malfeitores.” (Sl 37.1) Se não por causa dos malfeitores, por causa de quem, então, poderíamos irritar-nos? Iremos irritar-nos por causa dos que fazem o bem? Seria justo? Os que fazem o melhor que podem não têm direito a bom tratamento? Se lhes damos censura quando merecem louvor, não os desanimamos? Não somos culpados de injustiça? Muitas vezes dói mais a uma pessoa ser roubada do seu bom nome do que do seu dinheiro. Há crianças levadas ao desespero pela rabugice de um pai ou de uma mãe. Ficam tão cansadas de ser constantemente censuradas em pequenas coisas que procuram pôr-se fora do alcance da língua atormentadora. Um patrão rabugento dificilmente terá bons empregados.

186. A rabugice deve ser abandonada

Se a rabugice não faz bem algum — se não tem a seu favor nem a razão nem a revelação —, então todo filho de Deus deve abandoná-la, agora e para sempre. “Deixe a ira, abandone o furor; não se irrite, pois isso só leva ao mal.” (Sl 37.8) Em sua forma mais branda, a ira é errada. Homens e mulheres rabugentos vão gastando aos poucos a própria vida.

Se você caiu nesse mau hábito, determine-se a curar-se dele. Tome resolução contra ele; lute contra ele; ore contra ele. Encha o coração de amor humilde. Interesse-se pessoalmente por cada um com quem tiver de lidar, especialmente pelos que lhe prestam algum serviço. Considere-os, enquanto durar o contato, como pertencendo em certa medida a você. Procure fazer-lhes bem, fazê-los sentir-se bem — torná-los mais felizes no tempo e na eternidade por terem cruzado o seu caminho.

Extratos 187–198 · Amizade, mansidão, dons, dar, provisão, o evangelho aos pobres+

187. Os laços de amizade não devem romper-se

Se você anda tentado a respeito de um irmão, naturalmente concluirá que ele anda tentado a seu respeito. Para quem olha por lentes verdes, tudo parece verde. Bola solta de leve, quica de leve. Um toque frouxo no aperto de mão é respondido com um toque frouxo. Se você evita um irmão, especialmente um pregador, numa reunião pública em que muitos lhe tomam a atenção, o diabo tentará fazê-lo pensar que é ele quem o evita. Se ele soubesse das suas tentações, talvez fizesse questão de falar com você; mas não sabe — e assim, sem que ele o pretenda, nenhuma palavra se troca entre vocês, e as suas suspeitas de que ele tem algo contra você se fortalecem. Se você se desse ao trabalho de verificar, descobriria que o problema está todo em você mesmo. “Quem tem amigos deve mostrar-se amigável.” (Pv 18.24) Um espírito amigável, manifestado em palavras e atos, faz amigos. Experimente. Um espírito egoísta, desconfiado e invejoso afasta os amigos. Não experimente.

Nossas aquisições terrenas mais valiosas são os nossos amigos. Eles multiplicam as nossas alegrias e dividem as nossas tristezas. Acrescentam à nossa felicidade e à nossa utilidade. Ajudam a suster-nos nos lugares escorregadios e nos animam a ser verdadeiros e íntegros. Não podemos dar-nos ao luxo de perder um sequer. Até os amigos de Jó, errados como estavam em suas teorias, e por isso consoladores molestos, arrancaram dele algumas das declarações mais sublimes que já saíram de lábios humanos, e sem dúvida contribuíram para a virada do seu cativeiro. Prenda os seus amigos a você com as cordas, diariamente reforçadas, dos atos de bondade. O grande preventivo da alienação desnecessária dos amigos é o amor que não pensa mal (1Co 13.5).

188. Mansidão

A ternura de Paulo não era fingida para causar efeito: brotava de um amor profundo e genuíno, que atraía para ele, em forte afeição, o coração dos cristãos. Aos tessalonicenses escreveu: “Mas nos tornamos amáveis entre vocês, como a mãe que acaricia os próprios filhos. Sendo-lhes tão afeiçoados, gostaríamos de entregar a vocês não somente o evangelho de Deus, mas igualmente a nossa própria vida, por isso que vocês se tornaram muito amados por nós.” (1Ts 2.7-8) Foi esse espírito que habilitou Paulo a ir por entre os inimigos da cruz e pregar o evangelho sem dotação nem respaldo financeiro algum. Seu efeito, em nossos dias, será semelhante. A compaixão no pregador tocará as cordas da simpatia nos ouvintes. O caminho pode parecer escuro por um tempo; mas, se ele for fiel a Deus, as nuvens cederão e virá o livramento. Como Paulo, poderá estar às vezes “em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.27). Mas, se permanecer fiel, Deus moverá alguns dos seus servos a mandar socorro; e ele poderá dizer: “Recebi tudo e tenho abundância; estou suprido, desde que Epafrodito me entregou o que vocês enviaram, como aroma suave, sacrifício aceitável e aprazível a Deus.” (Fp 4.18) O homem que dá ao povo sermões mortos e exortações secas, por mais alto que as pronuncie, pode esperar o abandono; mas “o que der de beber também será dessedentado” (Pv 11.25).

189. A grandeza da mansidão

Palavras fortes e expressões exageradas não fornecem prova alguma de profundidade incomum de piedade. Não é o cão que ladra mais alto que morde mais fundo.

Diz o salmista: “A tua clemência me engrandeceu.” (Sl 18.35) Não é comum a mansidão que Deus comunica. Davi lhe atribui um poder de elevar superior ao do talento e da coragem sem ela. O padrão de grandeza de Deus não é o geralmente reconhecido entre os homens. O homem grita:

“Vede, chega o herói conquistador!
Soem as trombetas, rufem os tambores!”

Mas Deus declara: “Melhor é o longânimo do que o herói de guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que conquista uma cidade.” (Pv 16.32)

Seja manso — manso com os perversos, manso sob provocação. Não se deixe levar pelos que falam forte mas mostram espírito errado. “Estes são murmuradores, descontentes, andando segundo as suas paixões. A sua boca vive propalando grandes arrogâncias; são aduladores dos outros, por motivos interesseiros.” (Jd 16)

190. Experiência genuína

Madeira inferior serve para móveis de sala que serão folheados, guardados sobretudo para exibição e usados com cuidado; mas, quando se quer material para serviço pesado, como a haste de um arado ou a quilha de um navio, exige-se madeira boa, sólida e sã. Em madeira para tais usos, a facilidade de receber polimento não compensa a incapacidade de suportar esforço. Assim, uma piedade superficial habilita alguém a apresentar-se respeitavelmente nos cultos ordinários conduzidos de um púlpito elegante, e a tomar parte ativa nas festividades do salão da igreja popular. Mas, quando chegam os deveres severos da vida, e as realidades mais severas da hora da morte, é preciso outra espécie de piedade. Nada servirá bem a esses fins senão a religião antiga da Bíblia, que vai desaparecendo depressa. Alguns atritos duros da vida real deixam a piedade folheada com aparência gasta e sem valor. Não vale o conserto, embora se desperdice muito trabalho remendando-a. É muito melhor obter uma experiência genuína.

191. Os dons de Deus imitados

Uma prova notável de que Deus responde à oração para a cura dos seus filhos, como prometido nas Escrituras, é a diligência com que Satanás monta as suas imitações. Para um Moisés, havia vários magos. Elias ficou sozinho por Deus, enquanto os profetas de Baal eram quatrocentos e cinquenta. O mormonismo, o espiritismo e, por último, a “Ciência Cristã”, falsamente assim chamada, professam, cada um por sua vez, curar os enfermos. Todos tiram o seu poder da mesma fonte dos magos que resistiram a Moisés: do inimigo de toda justiça. Vivemos nos dias preditos pelo vidente do Apocalipse, e os “espíritos de demônios, operadores de sinais, vão ao encontro dos reis do mundo inteiro com o fim de ajuntá-los para a peleja do grande Dia do Deus Todo-Poderoso” (Ap 16.14). Mas nós, firmes na fé, resistamos a todas essas influências de Satanás, sem abrir mão de uma só verdade da Bíblia por causa das falsificações do diabo; e não nos deixemos empurrar por ele a nenhum extremo sem apoio na Palavra de Deus. Que essa autointitulada “Ciência Cristã” é parenta próxima das feitiçarias de Simão, o mago, é evidente à primeira vista; pois seus defensores não apenas pensam, mas ensinam abertamente, que “o dom de Deus se adquire por dinheiro” (At 8.20). Formam classes e se propõem a ensinar, por soma estipulada e generosa, a arte de curar pelo poder divino, a todos os que pagarem o preço combinado.

Amados, fujam de todos esses enganadores mercenários como fugiriam do diabo. Não tenham negócios com eles. Não se deixem, no menor grau, cair sob a influência dessas “ondas furiosas do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre” (Jd 13). Deus concede os seus dons segundo a sua vontade soberana. “Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar.” Esses dons não são ensinados por homens ou mulheres a troco de dinheiro. “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente.” (1Co 12.8-9,11)

192. Regra para o dar

Devemos dar generosamente para a causa de Deus. Os judeus davam o décimo. Muitos dos primeiros cristãos deram tudo. A regra para cada cristão é dar “à medida que foi prosperado” (1Co 16.2). O que se dá por amor a Cristo não pode deixar de ter a sua recompensa.

193. Deleite em Deus

O santo não se deleita em seus dons ou graças, mas em seu Deus. A linguagem do seu coração é: “Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria com a tua presença.” (At 2.28)

“E enquanto sorris para mim,
Deus de sabedoria, amor e poder,
inimigos podem odiar-me, amigos abandonar-me:
mostra a tua face, e tudo é claro.”

“Os verdadeiros santos”, diz o presidente Edwards, “têm a mente, em primeiro lugar, inexprimivelmente satisfeita e deleitada com as doces ideias da natureza gloriosa e amável das coisas de Deus. E essa é a fonte de todas as suas delícias, e a nata de todos os seus prazeres; é a alegria da sua alegria. Esse entretenimento doce e arrebatador que têm na contemplação da natureza bela e deleitosa das coisas divinas é o fundamento da alegria que depois sentem ao considerar que elas lhes pertencem.”

Ainda que a fome encarasse de frente um dos antigos profetas, ele declarou: “Todavia, eu me alegrarei no SENHOR, exultarei no Deus da minha salvação.” (Hc 3.18)

194. A capacidade de Deus de prover

Deus, ao dirigir-se ao seu povo, frequentemente se intitula o SENHOR Todo-Poderoso. Devemos ter elevada opinião do seu poder. Ele é capaz de abater não apenas um inimigo, mas todos os inimigos. Um rei, ou mil reis coligados contra ele, não podem subsistir diante dele. No seu próprio tempo, e à sua própria maneira, ele os remove do campo de ação. Reduz à desolação a mais poderosa nação que se exalta contra ele. O terreno sobre o qual se erguia a grande Babilônia ficou, por séculos, desconhecido. Seus palácios orgulhosos foram sepultados sob as areias do deserto.

Quem faz do Senhor o seu refúgio nada tem a temer. Os recursos do Todo-Poderoso são ilimitados. Ele pode alimentar o seu povo no deserto tão bem quanto na terra da promessa. O único cuidado deles deve ser ouvir e obedecer aos seus mandamentos. Elias, enviado ao deserto pelo Senhor, é alimentado pelos corvos; enviado à cidade, a viúva, ela mesma à beira da fome, acha fartura ao cuidar do servo do Altíssimo (1Rs 17).

195. A mensagem de Deus deve ser entregue

Aquele a quem Deus envia com uma mensagem deve sempre entregar a mensagem. Ela pode alcançar o fim pretendido, e pode não alcançar. Por isso o mensageiro não é responsável. Mas é responsável pela sua fiel entrega. Ela pode ser “cheiro de vida para vida” ou “de morte para morte” (2Co 2.16). Isso depende de como for recebida. Paulo e Barnabé disseram aos judeus: “Mas, visto que vocês a rejeitam e a si mesmos se julgam indignos da vida eterna, agora nos voltamos para os gentios.” (At 13.46) Mas isso não provou que Deus não os tivesse enviado aos judeus. Cumpriram fielmente o seu dever, e em espírito reto, e então Deus os enviou a campo mais promissor.

Diz o dr. Adam Clarke: “Deus nunca envia um homem com uma mensagem sem lhe dar direções tais que previnam todos os erros e malogros, se simples e implicitamente seguidas.”

196. A ordem de Deus é a melhor

Ele veio para o Dakota e tomou terras para os filhos. Tinha boa fazenda e bom rebanho; mas os rapazes cresceram e não querem tocar a fazenda. Preferem lecionar ou trabalhar na cidade. Agora ele está só, com uma grande fazenda nas mãos, sem saber o que fazer com ela. Não consegue vendê-la com vantagem. Se contrata homens para tocá-la, eles pouco produzem, a menos que ele esteja junto. Ele gostaria de dedicar o tempo à pregação, para a qual Deus o chamou quando jovem; mas não sabe como começar. Se atende pontos de pregação como pregador local, gasta cerca de um terço da semana em idas e vindas. Enquanto isso, os dias e as semanas passam, a obra da sua vida fica por fazer, e outro está tomando a sua coroa.

É fácil sair da ordem de Deus. É difícil entrar nela de novo. As dificuldades se multiplicam, as oportunidades passam, e a vida se vai. Oh! quem seguirá o Senhor plenamente até o fim?

197. Vidas piedosas, fonte de convicção

Há poder nas vidas piedosas dos santos, que impõe aos pecadores a convicção da verdade do cristianismo. Podem resistir, mas ficam convencidos.

O dr. Chamberlain, médico cristão na Índia, conta que um hindu nativo, alto em casta, riqueza e posição social, mandou chamá-lo para tratar de um mal. O mal era insignificante, e ele percebeu que fora chamado, na verdade, para conversar sobre o cristianismo. No curso da conversa, disse o dignitário: “Senhor, não sou cristão. Ainda sou tido por hindu devoto. Ainda cumpro serviços hindus bastantes para evitar suspeitas. Mas, no coração, não ouso negar as reivindicações da Bíblia. Vejo o poder de Jesus Cristo na vida dos seus seguidores tão distintamente que não posso negar a sua divindade. Ele ainda não é meu Salvador. A casta, a riqueza, a família, a posição — tudo me retém. Mas, já agora, nunca permito que falem contra ele em minha presença. Há muito leio a Bíblia em segredo. Quanto mais leio sobre Cristo e pondero sua vida e seus ensinos, e o poder de vencer o pecado que vem de abraçar a sua religião, mais sinto que no fim terei de aceitá-lo, custe o que custar, como meu Salvador pessoal. Mas como fazê-lo e trazer ruína sobre a minha família?”

Irmão, irmã: você vive de tal modo que mantém sob convicção os que o cercam?

198. O evangelho para os pobres

Quando João mandou perguntar se Jesus era o Messias, seus discípulos ouviram: “Vão contar a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho.” (Mt 11.4-5) Os sistemas humanos buscam o patrocínio dos ricos; a prova coroadora da origem divina do evangelho é o fato de ser pregado aos pobres. O dr. Stephen Olin, um dos maiores pregadores do seu tempo, disse: “O evangelho é pregado aos pobres — às massas. Foi feito para eles — convém a eles. Não é para os ricos, para os cultos, para os intelectuais? Não enquanto tais. Eles devem tornar-se como os pobres — como criancinhas — como loucos. Devem descer à plataforma comum. Devem ser salvos exatamente como tantos lavradores ou diaristas comuns. Devem sentir-se pecadores — arrepender-se — confiar em Cristo, como mendigos, como publicanos. Às vezes ouvimos homens tagarelar sobre ‘pregação que serve para a gente comum, mas não vale nada para os refinados e educados’. Isso é heresia condenatória. É ilusão ruinosa. Todos respiram o mesmo ar. Todos são de um só sangue. Todos morrem. Há precisamente um só evangelho para todos; e é o evangelho que os pobres têm pregado a si. Os pobres são os favorecidos. Eles não são chamados a subir. Os grandes são chamados a descer. Podem vestir-se, alimentar-se, andar de carruagem e viver como escolherem; mas, quanto a chegar ao céu, há somente o caminho de Deus — o caminho dos pobres. Podem banquetear-se regaladamente todos os dias, mas há um só tipo de maná.”

Extratos 199–209 · Evangelho aos pobres, graça, cura, desânimo, o inferno na terra+

199. O evangelho para os pobres — igrejas livres

O evangelho de Jesus Cristo é um evangelho para os pobres. Foi dado a eles. Foi feito para eles. Cristo diz: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados.” (Mt 11.28) Nunca dirige convite semelhante aos ricos. Ao contrário, declara: “Em verdade lhes digo que dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus.” (Mt 19.23)

Então, o edifício em que o evangelho é pregado deve ser construído com simplicidade, e com todos os assentos livres, com especial atenção às necessidades dos pobres. O bispo Morris, da Igreja Metodista Episcopal, um dos homens piedosos da geração passada, diz: “Onde se constroem templos em estilo custoso, com bancos para alugar ou vender, os pobres, que não podem construir, comprar nem alugar, ficam praticamente excluídos das casas de culto, e têm de adorar sem os meios de graça, ou adorar ao ar livre, ou reunir-se em pequenos grupos em suas próprias moradas. As igrejas de bancos privados destinam-se a acomodar congregações seletas; e uma casa pouco frequentada é, portanto, parte natural, senão necessária, do sistema. Ele começa, progride e termina em aristocracia.” Portanto, não dê apoio nem aprovação a igrejas em que se vendem ou alugam bancos.

200. O progresso do evangelho é lento

Quando o evangelho é pregado em sua pureza, faz progresso lento no princípio. Assim foi na igreja primitiva. Assim foi entre os primeiros metodistas. De Fredericktown, Virgínia, observou o bispo Asbury: “Por fim, depois de mais de trinta anos de labor, os metodistas têm aqui uma casa de culto e trinta almas em comunhão.” Chegando a Holstein, Tennessee, e encontrando um gracioso reavivamento em curso, escreveu: “Catorze ou quinze vezes atravessei penosamente as poderosas montanhas, e por quase vinte anos trabalhamos em Holstein; e eis que a fúria dos selvagens — brutos e ‘cristãos’ — está domada, e Deus glorificou a si mesmo.”

Mas, quando o padrão é rebaixado e as porteiras são abertas, o mundo entra de roldão. Ministros sem Deus se alegram, o inferno triunfa, e os anjos choram. Erguem-se esplêndidos edifícios eclesiásticos, admitem-se instrumentos de música, inauguram-se quermesses e festivais, e a diversão e a farra são a ordem do dia. Entretêm os ímpios — mas assassinam almas! “Não entre a minha alma no conselho deles; com a assembleia deles não se una a minha glória.” (Gn 49.6)

201. A graça mediante a fé

Somos salvos por Deus. Só ele pode livrar-nos do poder e da penalidade do pecado. Quando um réu é julgado e achado inocente, o juiz o põe em liberdade, porque merece a liberdade: deve o seu livramento à administração da justiça. Quando um criminoso condenado é perdoado pelo governador, deve a liberdade ao exercício da misericórdia. Assim somos salvos pela graça. Pedimos a Deus que apague as nossas transgressões “segundo a multidão das suas misericórdias” (Sl 51.1). O fariseu foi embora sem perdão — confiava na própria bondade; o publicano desceu justificado para sua casa — confiava na misericórdia de Deus.

Ao usar a oração do Senhor, o apelo é por perdão. A única pretensão que fazemos a algo que se possa chamar mérito é que nós mesmos mostramos misericórdia: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” (Mt 6.12) Isso não requer saber, nem talento, nem força, nem riqueza. O mais pobre e o mais fraco podem ser misericordiosos, perdoadores e penitentes. Os sacrifícios de Deus — isto é, os sacrifícios que ele preza acima de todos — são o espírito quebrantado e o coração contrito (Sl 51.17). Esses, o mais pobre e o mais fraco podem trazer.

Assim, embora sejamos salvos pela graça mediante a fé, a fé que salva não é infrutífera. Cada passo dado em direção a Deus, na fé, deixa atrás de si um rastro claro, visível a todos. Aos que pareciam buscar a Deus, João Batista bradou: “Produzam, pois, frutos dignos de arrependimento.” (Mt 3.8)

202. A graça posta à prova

Nunca lemos que boiadeiros sejam roubados a caminho do mercado com o gado; mas, quando recebem o dinheiro da venda, às vezes são seguidos por centenas de milhas por bandidos à espreita de oportunidade para roubá-los. Um homem, seguido por dois dias e duas noites no trem, foi por fim derrubado da plataforma, ao passar no escuro de um vagão a outro, e roubado. Assim Satanás segue os que foram ao Senhor e receberam de suas mãos grandes bênçãos espirituais, para roubá-los, se possível, de suas bênçãos. Foi maravilhoso penhor do favor de Deus a voz vinda do céu, dizendo a Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.” (Mt 3.17) Mas logo em seguida Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Experiência semelhante espera os seus discípulos. Os pregadores correm perigo especial depois que Deus abençoou notavelmente os seus labores. Um grande reavivamento às vezes termina com o terrível desvio do homem por cujos labores foi principalmente conduzido. Precisamos vigiar e orar sempre — mas, acima de tudo, depois de grandemente abençoados com um batismo do Espírito. Satanás nos atacará; mas, se lhe resistirmos com firmeza, ele fugirá de nós (Tg 4.7).

203. A graça transforma

Só crescemos para fora do eu à medida que crescemos para dentro de Cristo. Mudanças em qualquer outra direção são apenas mudanças de uma forma de depravação para outra. O ferro pode ser transformado em aço, capaz de receber polimento tão alto quanto a prata. Mas nunca poderá converter-se em prata. A natureza humana pode ser altamente refinada; mas é só ao tornar-se participante da natureza divina (2Pe 1.4) que ela passa pela transformação que a faz verdadeiramente santa.

204. Teimosia versus graça

Disse um pregador, brandamente interpelado por um de seus membros por suas expressões denunciatórias do púlpito: “Quero que você entenda que eu vou até o fim na raça.” Em pouco tempo, ele foi mesmo — atravessou o púlpito e atravessou a igreja. Tomou lugar entre os que não fazem pretensão alguma à graça. O veio da teimosia não parece ser muito espesso. Um homem voluntarioso logo o atravessa; e então se acha no “charco horrendo de lodo” (Sl 40.2). Quanto mais se debate nele, mais fundo afunda, até cair por fim no poço sem fundo de que ninguém escapa. Amados, não confundam consagração à própria vontade com consagração a Deus; não pensem que são guiados pelo Espírito de Deus quando é claro aos outros que são movidos por espírito de ressentimento.

205. Crescimento na graça

Ninguém deve satisfazer-se com o que já alcançou. Cristo é a porção do seu povo, mas ele só continuará a satisfazer-lhes o coração enquanto continuarem a crescer na graça e no conhecimento da verdade (2Pe 3.18). Vida e crescimento são essenciais à frutificação. Árvores mortas não têm folhagem nem fruto. A figueira infrutífera foi amaldiçoada. Cuidemos de dar muito fruto: assim seremos seus discípulos (Jo 15.8).

206. Os hábitos dos grandes homens não devem ser imitados

Os jovens que, lendo relatos dos hábitos de alguns dos nossos grandes generais, se sentem tentados a beber e fumar, fariam bem em lembrar que foi em consequência desses hábitos que esses mesmos generais desceram prematuramente à sepultura. Sabendo disso, surpreende que os literatos gostem tanto de desfilar diante dos leitores os hábitos fatais dos heróis que celebram. Os dois maiores dos nossos generais, que saíram ilesos das batalhas mais duras da nossa Guerra Civil, morreram em pleno gozo dos louros conquistados, das doenças provocadas pelo fumo e pelos hábitos de convívio etílico. Os jovens desta geração deveriam atender à advertência que fala, silenciosa e solene, da morte prematura de muitos dos nossos grandes homens. Se o veneno do charuto e da taça de vinho leva os de constituição forte, endurecida pelo trabalho e pela intempérie, como esperarão escapar impunes os que levam vida comparativamente sedentária?

207. A oração da fé pelos enfermos

Do fato de os enfermos serem às vezes curados em resposta à oração, não se segue que sempre serão curados por esse meio. Embora seja verdade que “a oração da fé salvará o enfermo” (Tg 5.15), ninguém pode, à vontade, oferecer a oração da fé. Essa espécie de oração é especialmente inspirada pelo Espírito, sempre que é oferecida. Nem Paulo podia oferecê-la quando quisesse, ou não teria deixado Trófimo doente em Mileto (2Tm 4.20). Entre os dons espirituais que Deus distribui a cada um, individualmente, como lhe apraz, está o dom de curar (1Co 12.11). Quem faz orações formais pode orar conforme lhe pedem. Mas quem ora no Espírito deve orar conforme o Espírito lhe concede. Assim, quando é da vontade de Deus, em algum caso particular, curar o enfermo, ele dará a alguém que vive no Espírito o orar a oração da fé. Dorothea Trudel, a moderna apóstola da cura pela fé, em resposta a cujas orações centenas foram curados, morreu de joelhos, orando, com apenas uns trinta e oito anos.

Se uma pessoa que professa ter fé em Deus para o corpo adoece e morre sem médico, que alarde se faz! Corre por todos os jornais; e parece presumir-se que morreu por falta de assistência médica. Por que não se levanta clamor igual pelos que morrem nas mãos do médico? Os casos são muito mais numerosos e ilustres. Há poucos anos, a filha do secretário Bayard apanhou um resfriado comum, por usar um vestido da moda numa recepção da moda. O pai chamou prontamente os médicos de sua maior confiança; mas nas mãos deles ela murchou como flor tocada pela geada. Pouco depois, o sr. Rice, milionário, no vigor da idade, recém-nomeado ministro na Rússia, foi atacado de inflamação na garganta. Estava em sua casa em Nova York, e empregou-se a melhor perícia médica do país; mas em poucos dias morreu. Recentemente, o filho do secretário Blaine, no vigor da mocidade, morreu aos cuidados dos médicos de Washington. Casos semelhantes ocorrem constantemente. Por que não são apresentados como prova da loucura de ter fé em médicos?

Uma senhora de bom senso, em circunstâncias abastadas, teve muita doença na família. Experimentou médicos eminentes, de perto e de longe. Há pouco nos disse: “Perdi a fé nos médicos tão completamente que agora, quando alguém da família adoece, nem me passa pela cabeça chamar um médico. Não penso neles, como se médicos não existissem.”

Quem pode dizer que a fé firme em Deus, o cuidado atento, os remédios simples e o descanso necessário não são mais eficazes para restaurar a saúde do que médicos e drogas? Contudo, depois de fazer o melhor que pode, se o alívio não vem, não podemos dizer que você não deva chamar um médico.

Devemos observar com cuidado as regras da saúde, e assim evitar a doença. Devemos ter fé constante em Deus para a alma e para o corpo, para as bênçãos temporais e espirituais. Mas não devemos, sem necessidade, colocar-nos sob servidão. Não devemos dizer que nunca chamaremos médico nem tomaremos remédio. Devemos, em todas as circunstâncias, permanecer livres para agir segundo a luz que Deus nos dá para a ocasião.

208. Exame de coração para pregadores desanimados

Lamento que você encontre as coisas em condição tão desanimadora: a igreja fria, alguns membros desviados, os pecadores indiferentes, as congregações pequenas e pouco interesse pela religião. É triste estado de coisas, mas de modo algum incomum. Não é novidade cristãos se desviarem. Alguns voltaram aos rudimentos miseráveis do mundo nos dias do apóstolo, e a moda fatal tem tido seguidores desde então.

Por más que estejam as coisas, não estão sem esperança. Deus ainda vive. Sua Palavra não perdeu nada da eficácia. Ainda é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes (Hb 4.12). Experimente-a. Comece pelo seu próprio coração. Sonde-o a fundo. Veja se você não transigiu, se não faltou em abnegação, se não recebeu honra de homens. Por mais que procure disfarçar, quem antes tinha êxito em salvar almas, mas agora fracassa, mês após mês, está, em maior ou menor grau, desviado de Deus. Seu poder se foi. Se é o seu caso, reconheça-o para si mesmo. Não atribua o fracasso às circunstâncias. Atribua-o à sua verdadeira causa: a sua falta de graça. Então, faça o que fizer, obtenha a graça que o fará vencedor. Humilhe-se diante de Deus. Peça até receber o batismo do Espírito Santo e de fogo! Depois derrame a verdade em brasa sobre a consciência dos cristãos professos. Leve-os ao quebrantamento e à confissão. Então Deus manifestará entre vocês o seu poder de salvar. O povo se ajuntará. Deus lhe dará amor pelas almas. Dê a cada um a porção a seu tempo. Proclame a lei de Deus e vindique os seus direitos. Pregue a Cristo, advertindo a todos e instruindo a todos em toda a sabedoria, para apresentar todo homem perfeito em Cristo Jesus (Cl 1.28). Você não pode tomar esse rumo e fracassar. Deus estará com você. Há almas honestas que receberão a verdade. Quando todos os que querem forem salvos num lugar, vá a outro. Dê um golpe ousado pela salvação. Tenha fé em Deus e viva inteiramente para ele, e o fracasso estará fora de cogitação. Suas necessidades temporais também serão supridas. Os recursos infinitos do Salvador Todo-Poderoso estão empenhados nisso. Ele alimentou Elias pelos corvos — aves imundas — e pode fazer que cuidem de você até os que ainda não são salvos. “Busquem, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas.” (Mt 6.33)

209. O inferno na terra

Tempos perigosos estão sobre nós. Os jornais registram os crimes mais revoltantes e inauditos. Ir para o inferno? Ora, o inferno é que está vindo para a terra. Já está aqui. Demônios do abismo, em figura humana, mal pareceriam capazes de atrocidades maiores que as cometidas por homens criados ao alcance das melhores e mais elevadas influências. Os pregadores queriam abolir o inferno; Satanás lhes está mostrando que não se pode. O inferno se alargou e vai estendendo as suas fronteiras até o meio deles. É tempo de o povo de Deus clamar. Discursos macios e frases bonitas devem ser postos de lado. Exigem-se as expressões mais enérgicas, a linguagem mais despertadora. Um fervor tremendo, de todos os pregadores e de todo o povo de Deus, é o que agora convém. Onde estão os filhos do trovão? Onde estão os que choram entre o pórtico e o altar? (Jl 2.17)

Extratos 210–223 · A santidade: pela fé, prática, pregada, real+

210. Santidade pela fé

Em Denver, Colorado, enquanto esperávamos o trem, conversamos com um jovem que fora a Fountain assistir à conferência. Sabíamos que ele andava buscando a bênção da santidade. Perguntamos, pois:

“Que bênção você recebeu?” “Mal sei dizer”, respondeu; “fui muito abençoado.” “Você estava claramente justificado quando foi à frente?” “Sim.” “O que você pediu?” “A bênção da santidade.” “E recebeu alguma coisa?” “Sim, uma grande bênção; mas tenho medo de dizer que é a bênção da santidade, para não me enganar.”

“Se você pedisse açúcar ao seu vendeiro e lhe pagasse o preço, não hesitaria em dizer que o tem, ainda que não o visse ser embrulhado. Cristo diz: ‘Tudo o que pedirem em oração, creiam que receberam, e assim será com vocês.’ (Mc 11.24) Creiam que receberam — não outra coisa, não uma imitação, mas exatamente aquilo que pediram. Quando, pois, estando claramente justificados, oramos pela santidade e recebemos uma grande bênção, devemos crer que recebemos o que pedimos. Desonramos a Deus duvidando disso. Se formos indefinidos na profissão, logo estaremos incertos na experiência.”

“Estou vendo!”, exclamou ele. “Tenho a bênção da santidade! Deus me santifica de fato por completo. Sinto-a como fogo elétrico por todo o corpo, até as pontas dos dedos.”

Ele louvou o Senhor ali na estação e seguiu o seu caminho, cheio de alegria.

Muitos duvidam até perder a bênção que recebem em resposta à oração, e formam tal hábito de duvidar que lhes parece quase impossível reter o que Deus faz por eles. Tenham fé em Deus.

211. A santidade odeia o errado

A verdadeira santidade implica, entre outras coisas, ódio a todo o mal. Nisso difere da mera amabilidade. Uma das direções do apóstolo aos irmãos, dada depois de rogar-lhes que apresentem os corpos como sacrifício vivo a Deus, é: “Detestem o mal.” (Rm 12.9) E ainda: “Vocês que amam o SENHOR, odeiem o mal.” (Sl 97.10) Ninguém pode fazer isso e ser popular. Que um sacerdote católico romano odeie a taberna e lhe mova guerra vigorosa, e nenhuma paróquia o quererá. Alguns pregadores metodistas episcopais, capazes e piedosos, enfrentaram a maçonaria, essa grande rival do cristianismo; mas suas nomeações foram piorando, até que se sentiram forçados a deixar o trabalho regular do ministério. A verdadeira santidade é inimiga ativa e intransigente de todo o mal. A falsa santidade só se opõe àquilo a que é popular opor-se. Depois que a batalha contra o mal foi travada e vencida, ela denuncia o mal com grande vigor. A verdadeira santidade toma parte na batalha — e não se dá a jactâncias quando a vence.

212. A santidade espúria não combate o mal

Uma santidade que não toma posição clara e decidida contra os pecados populares não é a santidade da Bíblia. Pode ter muitos traços louváveis. O latão bem polido, para quem ignora os valores, parece valer mais que o ouro. Assim, a santidade espúria tem mais curso no mundo, e entre os professos mundanos, do que a genuína. Ela não incomoda tanto. Negocia em elogios, quase nunca em repreensões. Cala diante das práticas anticristãs que são populares. Se fala contra a conformidade mundana, é de modo tão indefinido, e em termos tão gerais, que ninguém é convencido do pecado. Se dá testemunho contra a loja maçônica, é com tanta brandura que ninguém se ofende.

A Palavra de Deus diz: “Detestem o mal.” “Vocês que amam o SENHOR, odeiem o mal.” O santo de Deus exclama: “Odeio e abomino a mentira; porém amo a tua lei.” (Sl 119.163)

Leitor, toda a sua influência está lançada contra aquilo que você sabe que é errado?

213. A santidade deve ser recomendada pela vida

Se você quer recomendar aos outros a causa da santidade, cuide de recomendá-la pela vida. Professe abertamente tudo o que Deus faz por você. “Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 10.10) Mas esteja em condições de apelar, como o apóstolo, para aqueles entre os quais vive, a fim de que testemunhem que a sua vida está em harmonia com a sua profissão. “Vocês e Deus são testemunhas do modo santo, justo e irrepreensível com que nos portamos em relação a vocês, que creem.” (1Ts 2.10) Que todos com quem você negocia sintam que podem depositar em você a máxima confiança. Diz um velho escritor: “O pecado tolerado num crente é como um rasgão numa veste ricamente bordada, ou como uma rachadura num sino de prata. A mancha se percebe mais depressa no pano mais fino. O mundo desculpará antes as próprias enormidades do que as suas fraquezas.”

214. A profissão de santidade sofre oposição

Embora devamos recomendar a santidade pela vida, não devemos cometer o erro de supor que a santidade verdadeira nos garantirá recomendação geral. Alguns santos poderão dar-nos aprovação qualificada; mas o mundo, e os professos mundanos, geralmente se oporão a nós. É o que nos ensinam a Escritura e a razão. “Ai de vocês, quando todos os elogiarem! Porque assim os pais deles fizeram com os falsos profetas.” (Lc 6.26) “Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram?” (At 7.52) “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Tm 3.12)

É o tratamento que se esperaria para uma pessoa verdadeiramente santa, quando se consideram duas coisas: primeira, em toda parte abundam o pecado e a injustiça; segunda, a pessoa verdadeiramente santa deve, de todo modo apropriado, dar seu testemunho e lançar sua influência contra o pecado e a injustiça. Assim fez Cristo. Assim fez Paulo. Assim fizeram os santos mártires. Isso lhes trouxe tribulação. Rumo semelhante trará tribulação, nos dias de hoje, ao homem ou à mulher mais amorosos, gentis e prudentes. Por isso muitos que começam a levar vida santa recuam, e depois se acomodam aos poucos na santidade popular — tão diferente da genuína quanto o latão é diferente do ouro que ele é polido para imitar, quanto uma vareta de tília é diferente de uma lima do mais duro aço.

215. Santidade prática

A verdadeira santidade se manifestará, talvez com mais clareza, ao fechar um negócio do que ao fazer uma oração. Ela leva o seu possuidor a zelar pelos interesses do outro tanto quanto pelos seus. Não tira proveito da fraqueza ou da ignorância alheia. Trata com tanta honradez uma mulher ou uma criança quanto um homem de negócios arguto e experiente. Jó, ao sustentar diante dos homens a sua integridade, diz: “Eu era os olhos do cego e os pés do coxo.” (Jó 29.15) Quando alguém com quem negociava não conseguia ver uma vantagem que de direito lhe pertencia, e Jó a via, ele a apontava. A santidade que não conduz à mais estrita integridade em todos os negócios não tem valor algum, no que toca à salvação da alma. É inteiramente espúria. Não traz o selo de Deus. Quem tem a santidade verdadeira traz entranhada no próprio ser a regra estabelecida pelo nosso Salvador: “Tudo quanto vocês desejam que os outros façam a vocês, façam também a eles; pois esta é a Lei e os Profetas.” (Mt 7.12)

216. Ninguém pode ter santidade e perder a cabeça

Se você se enfurece, perdeu a bênção da santidade — se é que algum dia a teve. Nada pode ser mais claro. Você pode ser, por natureza, de gênio pronto: não faz diferença. O próprio desígnio da graça divina é corrigir o que há de errado em nossas disposições. Se ela não faz isso, não faz nada por nós. Estamos enganados ao supor que a temos. Ficamos com uma imitação sem valor, oferecida em condições mais fáceis do que as exigidas para obter a genuína.

O amor tudo sofre, tudo suporta. O amor não se exaspera. É o que diz a Bíblia. A palavra “facilmente”, que aparece em versões antigas (1Co 13.5), não está no original. Se você não tem, pois, essa graça que o guarda de enfurecer-se, a sua religião vale pouco. Não o levará ao céu. Por altas que sejam as suas profissões, e por bem que fale, você não passa de “bronze que soa ou címbalo que retine” (1Co 13.1). É coisa terrível estar enganado.

217. A santidade deve ser pregada com clareza

O pregador não pode conservar-se claro na bênção da santidade se não prega a santidade com clareza. A uma luz que brilha é preciso deixar brilhar. Cubra-a, e ela se apaga. A água se conserva pura correndo. O trabalhador se conserva forte trabalhando. A um dos seus jovens pregadores escreveu John Wesley: “Enquanto você se entregar a Deus sem reservas, pode estar certo de que ele lhe dará a sua bênção. Na verdade, você já recebeu mil bênçãos; mas a maior de todas ainda está adiante — Cristo num coração puro e sem pecado, reinando como Senhor de cada motivo que ali habita. É bom que você retenha o que já alcançou e aspire continuamente a isso; e você nunca achará mais vida em sua própria alma do que quando estiver exortando fervorosamente os outros a prosseguir para a perfeição. Muitos o censurarão por fazê-lo; não se importe; avance por honra e por desonra. ‘Uma coisa faço’ — seja este o seu lema. ‘Salvo a minha própria alma e os que me ouvem.’”

218. A santidade deve ser pregada com precisão

Todos os nossos pregadores devem pregar a santidade clara e definidamente. Não basta pregá-la de modo geral. Sermões inteiros devem ser dedicados ao assunto. Cada pessoa da congregação deve ser levada a ver a sua obrigação de ser santa. O tema deve ser apresentado doutrinária, experimental e praticamente, em todos os seus aspectos bíblicos.

John Wesley, escrevendo a uma de suas pregadoras, diz: “Você nunca poderá falar forte ou explicitamente demais sobre o tema da perfeição cristã. Se falar apenas fraca e indiretamente, ninguém se ofenderá e ninguém se aproveitará. Mas, se falar às claras, embora alguns provavelmente se irritem, outros logo acharão o poder de Deus para a salvação. Fale a todos, e não poupe ninguém. Insista a tempo e fora de tempo; e ore sempre, com toda a perseverança.”

Se você não pode falar do assunto a partir de uma experiência presente, então obtenha a experiência. Ponha-se a isso com fervor, imediatamente.

219. O padrão não deve ser posto alto demais

Tanto faz não pregar a santidade ou colocar o padrão mais alto do que Deus o colocou. Melhor poupar a munição do que atirar no sol. Deus exige que sejamos homens e mulheres cristãos, não anjos. Nunca solte um degrau da escada do céu antes de firmar-se noutro degrau acima. Muitas quedas duras vieram de agarrar o que estava fora do alcance.

220. O padrão deve ser mantido

É pior que inútil tentar tornar popular a verdadeira santidade. É como tentar fazer flores desabrocharem ao ar livre, no inverno, numa região ártica: perdem-se as flores e perde-se o trabalho. Tornar a santidade popular entre os mundanos é destruí-la. O gelo aquecido não continua gelo; a santidade rebaixada ao gosto dos ímpios já não é santidade. O açúcar e o álcool compõem-se dos mesmos elementos. Há pequena diferença nas quantidades desses elementos nas duas substâncias — mas vasta diferença nas substâncias que resultam. Assim, ponha na santidade um pouco menos de abominação ao mal, um pouco mais de conformidade mundana e um pouco mais de disposição para desculpar o erro, e você terá uma espécie de jesuitismo tão diferente da santidade quanto o álcool é diferente do açúcar.

Levante o padrão da santidade onde Cristo o colocou, e não tente torná-lo popular.

221. Recuperando a bênção da santidade

Se você perdeu a bênção da santidade, há um só caminho para recuperá-la: o arrependimento, a confissão e a fé no Senhor Jesus Cristo. Você nunca a recuperará por nenhuma reforma de conduta. Pode agir corretamente daqui em diante, como se nunca a tivesse perdido; mas não a recuperará assim. Deve confessar ao Senhor a sua perda e pedir-lhe que lhe restitua a alegria da sua salvação (Sl 51.12). Não basta buscar mais poder — isso pouco adiantará. É preciso dispor-se a humilhar-se diante de Deus e reconhecer que entristeceu o seu Santo Espírito. Qualquer confissão que ele lhe mostre que você deve fazer a alguém, ou em público, faça-a humildemente. O caminho bíblico para subir é descer. “Quem a si mesmo se humilhar será exaltado.” (Lc 14.11)

222. Santidade e céu

O céu é uma realidade, o inferno é uma realidade, a santidade é uma realidade. Se você fosse para um céu imaginário, ou um inferno imaginário, talvez servisse uma santidade imaginária. Mas o céu é lugar real, mundo sólido e substancial, habitado por seres santos que nunca morrem e nunca se depravam. Se você quer ir para lá, deve tornar-se como eles. Seu caráter deve estar em harmonia com os habitantes do céu, ou você não poderia ser feliz na companhia deles. Rutherford, devoto presbiteriano escocês, disse: “Esta cruz me fez ver que o céu não fica na porta ao lado, e que é castelo que não se toma depressa. Vejo também que não é dor nem arte fazer o papel de hipócrita.” E ainda: “Faça obra firme no casco, e o seu navio resistirá a todas as tempestades — se, além disso, a sua âncora estiver firmada em bom fundo; quero dizer, do lado de dentro do véu.” Seja esta a sua oração: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (Sl 51.10) E espere que a oração seja respondida.

223. Santidade real

A santidade que Deus exige é real, e não imaginária. Não consiste em crer que, porque Cristo é santo, e nós cremos nele, Deus nos considerará santos embora sejamos positivamente ímpios. Essa doutrina ilusória, porém condenatória, é bastante popular. O pecado não é ficção: será punido em todo aquele em quem for achado. A santidade não é atributo imaginário, mas real, dos filhos de Deus. Com que clareza o expressa o apóstolo! “E a si mesmo se purifica todo aquele que nele tem esta esperança, assim como ele é puro.” (1Jo 3.3) Isso não admite uma única exceção. Todo aquele: inclui cada um que professa ter esperança em Cristo, seja qual for o seu credo ou a sua igreja! Se a esperança é bem fundada, resulta em pureza pessoal. Leitor, você tem essa esperança?

Extratos 224–236 · Santidade falsificada, o Espírito Santo, honestidade, humildade+

224. A santidade falsificada

Devemos ter sempre em mente que a verdadeira humildade é elemento essencial da verdadeira santidade. Não podemos ser orgulhosos e santos ao mesmo tempo. As duas qualidades não são apenas antagônicas: como a luz e as trevas, uma destrói a outra. Se o orgulho prevalece, a santidade morre; se a santidade prevalece, o orgulho morre. A santidade que advoga o orgulho é oca e sem valor. Não é a santidade bíblica. É uma falsificação — mais atraente ao mundo e aos professos carnais, talvez, do que o artigo genuíno; mas, ainda assim, uma falsificação que jamais terá entrada no céu. De alguns anos para cá, a causa da santidade tem subido na estima pública; e por isso circulam falsificações perigosas. Devemos estar em guarda contra elas. Provemo-las pela Palavra. Se algo que passa por santidade não tem todas as marcas que as Escrituras lhe atribuem, então nada vale. Rejeite-o.

225. Sejam santos

Quando você vê um homem que não se importa em aprender, pode estar certo de que vê um homem que nunca aprendeu muito. O conhecimento gera desejo de conhecimento. Assim a graça gera desejo de graça. Não querer ser santo é sinal claríssimo de que se está destituído da graça salvadora. Diz Caughey: “Não seria preciso muito argumento para provar que os metodistas que não gozam da santidade, nem se empenham em alcançá-la, ou nunca se converteram, ou caíram do estado de justificados; e, mais, que estão em perigo daquela ameaça: ‘Assim, porque você é morno e não é quente nem frio, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.’ (Ap 3.16)”

Leitor, você está fazendo da busca da santidade o principal negócio da sua vida? Se não, tem justa razão de preocupar-se. Comece imediatamente a buscar um coração santo. O mandamento de Deus é: “Sejam santos.” (1Pe 1.16)

226. O Espírito Santo: a primeira necessidade na tribulação

As influências espirituais são invisíveis aos olhos mortais, mas são poderosas. Precisamos do Espírito de Deus mais do que precisamos de dinheiro, mais do que precisamos de saber. Ele nos é apresentado na Bíblia logo no princípio da história da criação, como o agente todo-poderoso pelo qual a ordem foi tirada da confusão. “A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre as águas.” (Gn 1.2)

Se há tribulação e confusão na igreja, e tudo parece escuro e desanimador, a primeira coisa de que você precisa não é um processo eclesiástico, mas o mover do Espírito de Deus sobre o coração do povo. Consiga isso, e cessarão as dissensões, a luz banirá as trevas, e cada pessoa começará, como por instinto, a tomar o seu devido lugar.

227. O Espírito Santo é necessário

A música instrumental não é necessária para atrair as massas. Podem-se ajuntar multidões sem pífaros, tambores, rabecas ou címbalos. Os primeiros cristãos não adotaram meios dessa espécie para reunir congregações. Tinham algo mais atraente. Não era eloquência — era um som: um som produzido pelo Espírito Santo nos homens. “Quando este som se fez ouvir, afluiu a multidão.” (At 2.6) Foi esse som que os atraiu. Esse era o segredo.

Há algo maravilhosamente atraente nesse som ainda hoje. Em qualquer igreja em que se ouça, haverá congregação. O ministro pode ser douto ou ignorante; eloquente ou tardo de fala; isso parece ter pouco a ver com o caso. O pregador pouco tem a ver com isso, a não ser na medida em que ministra o Espírito aos outros. Se o povo de Deus estiver cheio do Espírito Santo, a sala logo se encherá de gente. Mas não pode haver encenação. Tudo deve ser real. O barulho feito pelo barulho é, em geral, repulsivo. Mas, quando o Espírito Santo enche o coração do povo de Deus de “alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8), ou quando os capacita a orar “com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26), há algo que enche de reverência até os mais mansos e os atrai ao lugar onde os santos estão reunidos.

228. Não há substituto para o Espírito Santo

O pregador não pode, de modo algum, encontrar substituto para o Espírito Santo. Não adianta nem tentar. A eloquência e o argumento, a anedota e o gracejo podem entreter e até convencer o intelecto; mas não podem produzir convicção de pecado. Se você quer almas verdadeiramente convertidas a Deus sob os seus labores, precisa ter Deus consigo. Conta-se que um chefe africano, pagão, depois de ouvir o bispo Taylor, saiu dizendo: “Ele é homem de Deus, com certeza.” É essa a impressão que todo ministro do evangelho deveria causar. Pensem o que pensarem dele, as pessoas devem sentir que Deus está com ele. Os que amam verdadeiramente a Deus serão atraídos a ele; os que odeiam a Deus o odiarão. Irão embora falando dele — mas voltarão para ouvi-lo. Talvez não haja tantas profissões de fé sob os seus labores quantas costuma haver sob os de quem transige e trabalha por conveniência; mas mais homens e mulheres serão verdadeiramente nascidos do Espírito e preparados para o céu.

229. A restrição do Espírito Santo

Os ímpios não estão totalmente destituídos do Espírito de Deus. Maus como são, seriam muito piores não fosse a sua influência refreadora. Muita mão erguida para matar foi detida pelo poder invisível do Espírito divino. Homens que nunca ouvem um sermão, nem leem um bom livro, ouvem muitas vezes uma voz mansa e delicada que procura persuadi-los a abandonar os pecados e levar vida melhor. Foi aos irremediavelmente perversos que Deus disse: “O meu Espírito não agirá para sempre no ser humano.” (Gn 6.3) Quando ele cessou de agir neles, súbita destruição veio sobre eles. Não tenha medo, pois, de ir aos muito ímpios com palavras de advertência e ofertas de misericórdia. O Espírito de Deus foi adiante de você e preparou o caminho. Ganhe a confiança de um homem ímpio, para que fale livremente com você, e você se espantará ao descobrir quanto Deus tem falado com ele. O Espírito estava agindo nele quando os que o conheciam o supunham totalmente endurecido.

230. Honestidade

A honestidade está no fundamento do caráter cristão. Não importa o que alguém creia; não importa quão zeloso seja pela igreja, e quanto pague pelo seu sustento; não importa quão altas sejam as suas profissões: se não é inteiramente honesto no coração e nos negócios, a sua religião é absolutamente sem valor. A integridade é parte da justiça que Deus exige de todo ser humano. Pequenos atos de desonestidade entristecem o Espírito, e quem os comete, deixado sem amparo, cai em pecados graves. Ao examinar os nossos livros, chamou-me a atenção o fato de que a maioria dos pregadores que “saíram de nosso meio, para que ficasse manifesto que nem todos eram dos nossos” (1Jo 2.19) tem conta por pagar. Em alguns casos, contas bem grandes. Outra coisa notamos: recebemos com frequência cartas de pessoas que nos deviam há anos pela assinatura do Earnest Christian, com o pagamento incluso. Dizem-nos que o Senhor as restaurou e abençoou, e que foram levadas de imediato a pagar as suas dívidas. Não tenha nunca medo de direções assim: são sempre do Senhor. Seguindo-as, você jamais se desviará. Seja honesto com Deus, honesto com o seu pregador, honesto com o seu editor, com os vizinhos e com todos com quem tiver transações. Por mais que alguns odeiem a religião, obrigue-os a dizer que você é honesto.

231. Devemos poder provar a nossa honestidade

“Esforcem-se por fazer o bem diante de todos.” (Rm 12.17) É uma das direções práticas que o apóstolo dá àqueles a quem exortou a apresentar “o corpo como sacrifício vivo” a Deus. Uma experiência religiosa genuína e profunda torna-nos mais cuidadosos e conscienciosos em todos os assuntos da vida. Devemos não apenas ser honestos, mas tomar providências para que, se necessário, se possa mostrar a todos que somos honestos. Devemos não só agir corretamente nos negócios, mas poder provar que agimos corretamente. Especialmente quando fazemos negócios por outros. Se você paga dinheiro por outra pessoa, ou por uma sociedade, tome sempre recibo. Ajudará muito a causa de Deus que os cristãos façam negócios de tal modo que a sua honestidade não possa ser posta em dúvida com êxito.

232. Honestidade na religião

A honestidade na religião, como a honestidade nos negócios, é exigida de todo cristão. Os homens podem conseguir dinheiro sob falsos pretextos; mas não podem ganhar o céu desse modo. Não deve haver enganos, nem fingimentos, nem aparências sem lastro na realidade. Não devemos dar adesão pública a doutrinas em que não cremos de coração. Se somos arminianos, não devemos unir-nos aos calvinistas, por maiores que sejam os salários prometidos — a menos que queiramos que Deus nos condene. Não que os homens sejam condenados por ser calvinistas; mas serão condenados por viver uma mentira. Enquanto o nosso nome está numa igreja, o nosso coração deve estar com ela; e devemos trabalhar para edificá-la, e não apenas para nos edificarmos sobre ela, e à sua custa.

Se cremos que a maçonaria é religião anticristã, não devemos sustentar pregadores maçons, ainda que sejam eloquentes e aparentemente zelosos pela igreja.

Deus requer a verdade no íntimo (Sl 51.6).

233. A honestidade caracteriza o verdadeiro cristão

A honestidade não é religião; mas a religião do tipo certo torna honestos todos os que a possuem. O verdadeiro cristão leva uma consciência sensível a todos os assuntos de negócios. Não deturpa, não exagera, não oculta, por nenhuma vantagem pessoal. Pode-se confiar na sua palavra. É o claro ensino da Bíblia, que põe a maior ênfase no princípio da honestidade. “Quem é injusto no pouco também é injusto no muito.” (Lc 16.10) Nossa Disciplina dá o devido peso a esse princípio ao proibir contrair dívidas sem probabilidade de pagamento. É melhor virar uma roupa velha do avesso e de cabeça para baixo, cerzi-la e remendá-la, do que endividar-se por uma nova. Cuidemos de ter “sempre a consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens” (At 24.16).

234. Honestidade de coração

Um homem pode ser honesto sem ser cristão; mas não pode ser cristão sem ser honesto. Os credos podem divergir; mas todos os que têm justo direito ao nome cristão são iguais em ser governados, em todos os negócios, pela integridade cabal.

O bispo Thomas Wilson, da Inglaterra, escreveu há cento e cinquenta anos: “O homem que toma emprestado dinheiro que sabe não poder devolver claramente se aproveita da ignorância do credor quanto às suas circunstâncias. É provável que se julgue menos culpado do que se tivesse furtado outro tanto, ou o tivesse tomado à força; mas não pensaria assim se as leis tivessem tornado esses dois crimes igualmente puníveis — como são, de fato, igualmente injustos aos olhos de Deus e dos homens.”

Um irmão que, nos últimos vinte anos, publicou livros e periódicos religiosos, contou-nos outro dia que foi obrigado a parar de publicar porque a gente religiosa lhe deve tantos milhares de dólares, em pequenas quantias, que ele não consegue cobrar.

Seja qual for a profissão, se a religião de um homem não o torna honesto, não o salva. Ele continua filho da ira — herdeiro do inferno.

235. O princípio da honestidade

Nenhuma soma de orações, nenhum excesso de zelo pelas sãs doutrinas, expiará práticas desonestas. Quem lesa o próximo peca contra Deus. Quem obtém dinheiro por falsas declarações é, se professa ser cristão, um falso pretendente. O princípio não é afetado pelo montante que se busca ganhar. Nosso Salvador estabelece o princípio nestas palavras: “Quem é injusto no pouco também é injusto no muito.” Isso não desculpa os que fogem com milhares de dólares alheios confiados aos seus cuidados; mas põe na mesma classe o homem que defrauda outro de alguns dólares ou de alguns centavos. Em todas as transações, o verdadeiro cristão é estritamente consciencioso. O apóstolo nos ensina que se deve pagar aos outros não só o dinheiro que lhes pertence, mas o respeito a que a sua posição ou a sua idade lhes dá direito. Esta é a regra como ele a estabelece: “Paguem a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” (Rm 13.7) Pague os seus impostos; não defraude o governo contrabandeando mercadorias; preste a devida deferência aos que ocupam posição oficial; e seja respeitoso para com todos.

O costume de algumas boas pessoas de não tirar o chapéu diante de ninguém pode ter sido, em seu tempo, um testemunho contra o curvar-se servil à autoridade régia; mas neste país não tem significado. Não tem a seu favor nem a Escritura nem a razão. Ao contrário, viola claramente o mandamento: “Tratem todos com honra.” (1Pe 2.17)

236. Humildade

Cincinato mostrou a magnanimidade de sua alma não tanto nos livramentos que operou pela pátria quanto na sua lealdade e patriotismo inabaláveis depois de retirado à vida privada. Para ser fiel à pátria, ele não precisava estar no cargo, nem esperar um cargo. Assim, se alguém é cristão verdadeiro, o princípio pesará mais que quaisquer considerações pessoais. Não serve para dirigente de classe quem deixa a igreja por não ter sido feito dirigente de classe. Foi um anjo caído que declarou ser

“melhor reinar no inferno
do que servir no céu”.

Nosso Senhor diz: “Mas o maior entre vocês será o servo de vocês. Quem a si mesmo se exaltar será humilhado, e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.” (Mt 23.11-12) Mas não pode haver humildade fingida.

Extratos 237–249 · Humildade, pressa, hipocrisia, impaciência, incredulidade, inocência+

237. Os humildes asseguram a presença de Cristo

A presença de Cristo numa congregação reunida para o culto não depende do lugar em que se reúne. O caráter do edifício nada tem a ver com isso. O lugar pode ser um cenáculo, uma casa de troncos, uma catedral: isso não tem a menor influência em assegurar a presença de Cristo. O sol dentro de uma casa depende, não da sua construção, mas da oportunidade que o sol tem de entrar. Assim, a presença manifesta de Cristo numa reunião depende das almas humildes e consagradas dispostas a recebê-lo. Ele vem como Rei, para reinar — se vem para ficar. Como tal deve ser recebido. Dos orgulhosos e voluntariosos ele se afasta com tristeza. Com formalistas e hipócritas não tem mais simpatia do que tinha quando denunciou, em palavras tão ardentes, os escribas e fariseus — os homens das maiores pretensões literárias e das maiores pretensões religiosas. Ele faz morada com os humildes de espírito e os puros de coração.

238. A necessidade de humilhar-se

Se a obra de Deus não avança em seu circuito com o poder devido, e você já fracassou no uso de outros meios, experimente um que nunca vimos falhar: humilhar-se, com o seu povo, diante do Senhor. “Os sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado.” (Sl 51.17) Esses sacrifícios ele sempre aceita. Quando são postos sobre o seu altar, ele responde com fogo. O Espírito Santo cai sobre os que os oferecem. Outros são tocados, e a obra irrompe de novo.

Sob a pregação de Wesley, a obra em Londres, certa vez, estagnou. Diz ele: “Reunimo-nos em Fetter Lane para nos humilhar diante de Deus e reconhecer que ele, com justiça, retirara de nós o seu Espírito por nossas múltiplas infidelidades. Reconhecemos tê-lo entristecido por nossas divisões — um dizendo ‘eu sou de Paulo’, outro ‘eu sou de Apolo’; por nos inclinarmos de novo às nossas próprias obras, confiando nelas em vez de em Cristo; por descansarmos naqueles pequenos começos de santificação que lhe aprouvera operar em nossas almas; e, acima de tudo, por blasfemarmos da sua obra entre nós — atribuindo-a à natureza, à força da imaginação e dos espíritos animais, ou até à ilusão do diabo. Naquela hora achamos Deus conosco como no princípio. Alguns caíram prostrados por terra; outros irromperam, como de comum acordo, em alto louvor e ação de graças; e muitos testificaram abertamente que não houvera dia como aquele desde o 1º de janeiro anterior.” (Obras, vol. 3, p. 140.)

Um espírito de divisão detém os reavivamentos mais promissores. Assim, se você abraçou algo sobre o que os santos podem legitimamente ter opiniões diferentes, e o levou a tal ponto que pôs o povo a discutir e a tomar partido, consinta em ver o seu erro, convoque uma reunião da sociedade e faça a sua confissão com tanta humildade e sinceridade que os outros apanhem o mesmo espírito, e a obra de Deus entre vocês irromperá de novo. Oh, como é difícil descer — e permanecer embaixo, onde Deus pode usar-nos o tempo todo!

Quantas vezes, até entre nós, a obra de Deus é estorvada por ser atribuída “à natureza” ou “à ilusão do diabo”! Boas sociedades já se desfizeram assim. Que importa que alguns achem defeito porque alguns santos são abençoados e agem de modo peculiar? Quando você reduz tudo a uma respeitabilidade morta, para agradar a uns poucos que afetam refinamento superior, essas mesmas pessoas não chegarão perto das suas reuniões. Não quererão nada com você. Não se importam com os seus belos sermões. Elas não sabiam o que as atraía aos seus cultos; mas era o Espírito de Deus — que você entristeceu e afugentou, perseguindo os que se entregaram a segui-lo aonde ele conduz. Oh, em quantos lugares é necessária uma confissão de Fetter Lane! Examine o caso com candura e veja se não há socorro nessa direção.

“Que são as nossas obras senão pecado e morte,
até que sopres o teu Espírito vivificador?”

Busquemos imediatamente o Espírito vivificador em todos os nossos termos.

239. Evite o espírito apressado

Não se deixe atropelar. Que os seus pés e as suas mãos se apressem, se necessário; mas que o seu espírito esteja calmo e quieto. Se perceber que está se atropelando, pare de vez, esfrie e trate das coisas com deliberação. O que se faz às pressas, muitas vezes se faz mal — e frequentemente tem de ser refeito. Às vezes se perde quase um dia por causa da pressa. Pior: perde-se um amigo valioso por palavras precipitadas, ditas de modo precipitado. Pior de tudo: às vezes alguém perde a própria religião por dar lugar a um espírito precipitado. Se sentir palavras mordazes lutando por sair, contenha-as como com freio e cabresto. Apague os fogos profanos enquanto ainda ardem em brasa. Se os deixar irromper, logo fogem ao controle.

240. Hipócritas

Hipócrita é quem finge ser o que sabe que não é. Os hipócritas não se confinam às igrejas: encontram-se em toda parte.

Há muitos hipócritas de negócios — homens que assumem toda a aparência de honestos enquanto planejam secretamente roubar o próximo. Conhecemos vários casos de homens que por anos tiveram tal reputação de honestidade que muitos, tendo dinheiro sem uso imediato, o punham em suas mãos para guarda, de preferência a depositá-lo nos bancos. Com o tempo, quebravam, ou fugiam para o Canadá com o dinheiro. Vinham à tona fatos que mostravam claramente que tinham sido desonestos o tempo todo. Há homens de integridade comercial cabal. Talvez não prosperem tão depressa quanto outros; mas a sua prosperidade é muito mais duradoura. E não termina em destruição. “O bem-estar dos insensatos os destruirá.” (Pv 1.32)

241. O hipócrita religioso

O hipócrita religioso é o pior de todos. Quase toda semana os jornais dão notícia de alguém que fugiu do país levando consigo a mulher de outro homem e o dinheiro que lhe fora confiado por um banco, pelo condado, pela cidade ou por algum patrão confiante. Em alguns casos, esses homens pertencem à igreja e são obreiros ativos na escola dominical. O homem ou a mulher que vive secretamente em adultério ou furto, e ainda professa piedade, tem boa razão para temer todos os horrores de uma dupla condenação. Em muitos casos começam a sentir, já aqui, os tormentos dos condenados. As roeduras do verme que não morre (Mc 9.48) tornam-se tão intoleráveis que divulgam o seu segredo culpado na esperança de achar alívio.

“Agora a consciência desperta o desespero
que dormia; desperta a amarga memória
do que ele foi, do que é e do que há de ser.”

A palavra do Senhor a todos esses é: “O inferno, lá de baixo, agitou-se por sua causa, para sair ao seu encontro na sua chegada. […] Como você caiu do céu, ó estrela da manhã, filho da alva!” (Is 14.9,12)

“Lúcifer” significa portador de luz, de lux, luz, e fero, levar, carregar. Isso se aplica com intensíssima força aos ministros desviados.

242. Impaciência

A incapacidade de governar o gênio é evidência indubitável de falta de graça. O cristão nunca deve ceder à ira. “Todo aquele que ficar irado contra seu irmão estará sujeito a julgamento.” (Mt 5.22) As palavras “sem motivo”, encontradas em versões antigas, não estão nos melhores manuscritos originais; devem ser omitidas. “O amor não se exaspera.” (1Co 13.5) A palavra “facilmente” não se encontra no original e não tem lugar em nossa tradução.

Diz Upham: “É importante distinguir entre a tristeza e a impaciência. Podemos sentir tristeza sem pecado; mas nunca podemos sentir impaciência sem pecado. A impaciência envolve sempre uma falta de submissão; e quem falha na submissão, ainda que no menor grau, não é perfeito diante de Deus.” O Espírito de Deus, habitando em nós, torna-nos longânimos.

243. A pergunta importante

Que você se torne um cristão sincero é, para você, o assunto de maior importância. Nenhum outro interesse se compara aos interesses da sua alma. A questão a resolver não é de credos e cerimônias, mas de salvação ou condenação. Tão certo como você é uma alma vivente, o dia da ira virá; e então, se estiver fora de Cristo, ficará sem refúgio.

244. Como discernir o caráter das impressões

Um modo de saber se uma impressão que não conflita com a Bíblia vem de Deus ou não, é este: se vem de Deus, ao pensar em obedecer-lhe você se sentirá animado; terá luz mais clara, e o seu amor arderá com fervor crescente. Por difícil que seja, parecerá fácil a você. Mas, se vem de Satanás, você se sentirá deprimido e desanimado. Parecerá que um dia terá de desistir — e que tanto faz desistir agora. Os que esperam no Senhor, para conhecer a sua vontade, renovam as suas forças; os que esperam em Satanás tornam-se fracos e débeis. Ao tomar a cruz de Cristo, ela o levanta; ao carregar os fardos de Satanás, eles o esmagam.

245. Indiferença religiosa

Um grande despertamento religioso é a grande necessidade deste país. A morte reina. A condição prevalecente do povo é de indiferença religiosa. A multidão marcha despreocupada para o inferno. “Deem-nos dinheiro; deem-nos prazer!” é o grito quase universal. A igreja mantém acirrada rivalidade com o mundo no prover entretenimentos aos que são “mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus” (2Tm 3.4). Alguns edifícios de igrejas populares são equipados com cozinhas para servir banquetes àqueles “cujo deus é o estômago”. Muitas das marcas dos últimos dias estão sobre nós. Amado, você está desperto para os vastos interesses da eternidade? Se não, desperte imediatamente. Não deixe o espírito de indiferença amarrá-lo. Sacuda o sono mortal e ponha-se a despertar os outros.

246. A indiferença espiritual condena

A perda de interesse pela causa de Cristo é uma das marcas do desviado. Quem ama a Cristo ama as almas pelas quais Cristo morreu. Toda pessoa convertida quer ver outros convertidos. Trabalha pela sua conversão; contribui com os seus recursos, segundo a sua capacidade, para sustentar os ministros de Cristo. O membro de igreja que retém o sustento do homem de Deus que lhe ministra as coisas espirituais está desviado. O espírito maligno da cobiça começou a apossar-se dele. Se não se livrar dele, esse espírito cobiçoso o arrastará à perdição. A indiferença na causa de Cristo condena. A falta de zelo é falta de piedade. Quem deixa de fazer sacrifícios pela causa de Cristo já não é cristão, a não ser de nome. “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)

247. A credulidade do incrédulo

A maior colheita mental é produzida pela mistura de um pouco de ciência com uma boa dose de incredulidade. Falamos apenas da abundância, não do valor da colheita. Tal mistura produzirá quantidade prodigiosa de vaidade, presunção, credulidade e desprezo por todos os que creem em Deus e na Bíblia. Dê a uma pessoa dessas algumas relíquias dos habitantes das cavernas, e ela passa a demonstrar que o relato bíblico da criação é ficção e que o homem evoluiu de um macaco! O fato de que os monumentos mais antigos da raça humana — as pirâmides e ruínas do Egito, e os maravilhosos restos de Babilônia e Nínive — provam incontestavelmente uma ordem superior de intelecto e alto grau de cultivo, nada pesa para ela. Insiste em que o homem civilizado saiu das profundezas mais baixas da selvageria por esforços próprios. A fé do cristão mais devoto não tem comparação, em magnitude, com a credulidade do incrédulo!

248. A incredulidade não aproveita

Rejeitar a Bíblia não dará alívio algum à consciência culpada. O incrédulo tem “certa expectativa horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.27). Até Voltaire chamou por um sacerdote na hora da morte. Exclamou: “Este Deus que neguei não me salvará também? A misericórdia infinita não pode estender-se a mim?” Ao seu médico disse: “Doutor, dou-lhe metade do que possuo, se me der seis meses de vida.” O médico respondeu: “Senhor, o senhor não viverá seis semanas.” Voltaire replicou: “Então irei para o inferno, e o senhor irá comigo.”

O melhor que a incredulidade pode fazer por um homem é tirar-lhe os consolos espirituais na vida e a esperança na morte. O corpo não prospera só por não comer comida ruim; e a mente não tira consolo nem força de meras negações.

“Tenham fé em Deus.” (Mc 11.22)

249. A inocência deve ser preservada

O pecado pode ser perdoado; mas a inocência, uma vez perdida, jamais se recupera. O ladrão pode restituir o dinheiro furtado e achar o perdão de Deus e dos homens; mas nunca conseguirá perdoar-se de todo. Pode obter a graça que lhe dará vitória sobre a tentação por todo o tempo vindouro; mas levará consigo até a sepultura certo sentimento de degradação. Pode ganhar poder espiritual e tornar-se útil ao próximo; mas nunca será o que poderia ter sido se tivesse mantido a integridade desde a infância. Jogadores, ladrões, bêbados e libertinos podem, se verdadeiramente se arrependerem, converter-se e, pelo poder do Espírito, ser transformados em santos; mas dificilmente darão Martinho Luteros ou John Wesleys. Uma ferramenta de corte com falha oculta pode parecer tão boa quanto qualquer outra, e funcionar tão bem quanto qualquer outra por um tempo; mas por fim, num momento crítico, quando mais necessária, ela cede. Disse o salmista: “Preservem-me a integridade e a retidão.” (Sl 25.21) Meninos, meninas: preservem a sua inocência a qualquer risco. Percam a vida antes que a pureza. Decidam deliberadamente que nunca mentirão, nem furtarão, nem beberão, nem cometerão ato impuro, em circunstância alguma. Mantenham essa determinação a todo custo.

Extratos 250–263 · Instrução, integridade, bondade, letra e espírito, brevidade da vida+

250. Instrução provida para todos

A Igreja Metodista Livre faz provisão especial para a salvação dos pobres e dos ignorantes. Suas casas de culto estão abertas a todos os que queiram vir e portar-se com ordem. O rico e o pobre podem reunir-se livremente, pois todos os assentos de todos os nossos templos devem ser, para sempre, gratuitos. Mas não nos propomos a dar encorajamento algum à ignorância. Nossos periódicos estão cheios de instrução sobre assuntos práticos ligados à vida cristã de cada dia. Quem os lê crescerá em conhecimento, e deverá crescer em graça. São excelentes educadores dos que se dispõem a receber instrução. Nossos colaboradores, em regra, fornecem a informação mais confiável: a colhida da experiência. Para a nossa mocidade estamos provendo boas escolas cristãs, plenamente à altura das exigências.

251. O valor da integridade

Nunca se ponha em poder de outrem. Trate os seus inimigos de modo que possam tornar-se seus amigos; trate os seus amigos de modo que, se se tornarem seus inimigos, ainda sejam obrigados a reconhecer a sua integridade.

Paulo ordena a certa classe que “aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria casa” (1Tm 5.4). É boa regra para todos. Conduza os seus negócios de modo que os familiarizados com a sua vida diária não tenham mal algum a dizer de você. “Quem anda em integridade anda seguro, mas o que perverte os seus caminhos será descoberto.” (Pv 10.9) O único caminho seguro é, pois, fazer exatamente o certo em todas as circunstâncias. Una-se de coração à oração: “Preservem-me a integridade e a retidão, porque em ti espero.” (Sl 25.21)

252. O interesse pelos outros deve ser genuíno

É dificílimo manifestar um interesse que não se sente de verdade. Só um ator dotado e habilidoso o consegue. Alguns deles disseram que, no momento, realmente pareciam a si mesmos ser as personagens que representavam: para enganar os outros, precisavam primeiro enganar-se a si mesmos. Geralmente, quando o pregador não sente interesse profundo pelas almas, o fingimento é visto como mera afetação. Mas, quando alguém sente, faz os outros sentirem. Eles não conseguem evitá-lo. Podem resistir; mas, ao menos por um tempo, sua dureza cede, e influências melhores os alcançam. Portanto, irmãos, quando quisermos despertar interesse nos outros, comecemos por nós mesmos. Despertemos o nosso próprio coração a apegar-se a Deus. Elevemo-nos ao padrão a que queremos que os outros cheguem. Sintamos mais do que expressamos.

253. As questões devem ser levantadas com juízo

Evite, em regra, levantar controvérsias numa reunião social religiosa. Uma pessoa pode ser verdadeiramente convertida e, ainda assim, ter algumas noções erradas. Se, ao dar o seu testemunho, deixa escapar algumas dessas noções, não as apanhe no ato para tentar corrigi-las em espírito de polêmica. O lavrador impede o mato de crescer semeando trigo ou outro grão. Se fizesse do combate ao mato o seu único negócio, provavelmente morreria de fome. Matar ervas daninhas é obra louvável — mas o método do lavrador prático é o melhor. Mantenha fora o erro semeando as sementes da verdade. Expulse as trevas deixando entrar a luz. Afaste a doença conservando a saúde e o vigor. Se uma impressão errada foi causada, e é preciso removê-la, não tenha pressa: olhe para o Senhor em busca de direção quanto ao melhor tempo e modo de fazê-lo. Requer grande cuidado, ensina-nos o Senhor, o arrancar do joio, para que não se arranque com ele o trigo (Mt 13.29).

254. O gracejo é danoso

O apóstolo diz que “conversas tolas e piadas grosseiras” não convêm aos santos (Ef 5.3-4). Com essa opinião concordam, de modo geral, os pecadores sensatos. Enquanto parecem apreciar as piadas dos pregadores, dizem com toda a liberdade, na ausência deles, que não fazem grande conta da sua religião.

Muitos, pensando apenas em fazer-se agradáveis, são levados longe demais pela corrente da leviandade, entristecem o Espírito Santo e perdem o poder. Alfred Cookman conta que perdeu assim a bênção da santidade: “Veio a conferência; achei-me no meio de irmãos amados; esquecendo quão facilmente o infinitamente Santo Espírito pode ser entristecido, deixei-me levar pelo espírito da hora; e, depois de me permitir gracejos tolos e contação de casos, percebi que sofrera perda séria. Parti para o meu próximo campo de trabalho com poder espiritual conscientemente diminuído.” Que a nossa alegria não tenha mistura de leviandade; que o nosso espírito sério, as nossas palavras fervorosas, ou o nosso silêncio devoto, imprimam em todos com quem convivemos a certeza de que vivemos como na presença sensível de Deus.

255. Os jesuítas e a moralidade

Os jesuítas são perigosos para qualquer comunidade em que firmem pé. Insinuam-se em toda parte. Querem que sua influência seja sentida. Trabalham em segredo. É uma de suas máximas que “o fim santifica os meios”.

O ensino dos jesuítas é uma das causas do grande declínio da moralidade comercial neste país.

256. Bondade

A bondade é traço marcante no caráter de todo cristão verdadeiro. O homem verdadeiramente convertido leva consigo, aonde quer que vá, um espírito de bondade. Um pregador pode, pela exibição de um espírito azedo e odioso, matar a influência dos melhores sermões. Diz Faber: “Cada ação bondosa isolada que se pratica, no mundo inteiro, trabalha ativamente em sua própria esfera para restaurar o equilíbrio entre o certo e o errado. A bondade converteu mais pecadores do que o zelo, a eloquência ou o saber; e estes três nunca converteram ninguém, a menos que fossem também bondosos. O senso contínuo que um coração bondoso tem da própria necessidade de bondade o conserva humilde. Talvez um ato de bondade nunca morra, mas estenda as ondulações invisíveis da sua influência pela largura dos séculos.”

257. Trabalho e descanso

Nos escritos de Paulo há muito que parece contraditório. Isso está de acordo com a natureza. Que pode ser mais contraditório do que o ar macio e balsâmico de um dia calmo e o poder irresistível do ciclone? Contudo, analise-os, e os elementos são precisamente os mesmos: a única diferença é de movimento. Paulo evidentemente se incluía quando escreveu: “Nós, que cremos, entramos no descanso.” (Hb 4.3) Como podia descansar um homem tão abundante em labores? Era o estar constantemente em estado de descanso que o habilitava a ser tão incessantemente ativo. Era a sua habitual quietude de espírito que o impedia de gastar-se. A inquietação mata mais que o trabalho. Ele estava “em fadigas, muitas vezes”; mas um descanso delicioso o fazia esquecer a fadiga. As ansiedades das vidas comuns — sobre o que comer, beber e vestir — não o perturbavam. Seus recursos estavam em Cristo, seu lar estava no céu, e o seu único negócio era converter os homens das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus. O excesso de trabalho não pôde matá-lo — ele morreu mártir, em seu posto.

258. A parte vindicatória da lei

Blackstone diz que uma lei consta de quatro partes. De uma delas afirma: “A parte vindicatória indica que castigo incorrerão os transgressores; e nela consiste a principal força e vigor de uma lei.”

Os pregadores que não gravam em seus ouvintes que o castigo que Deus pronunciou contra os violadores da sua lei moral será certamente aplicado contribuem muito para expor essa lei ao desprezo. Roubam-lhe a sua “principal força e vigor”. Quem se importa com uma lei que pode violar impunemente? Ninguém pode pôr em dúvida que o Sermão do Monte obriga tanto quanto sempre obrigou. E, contudo, com que clareza Cristo aponta as penas em que incorrerão os que desprezarem os preceitos e proibições que ele estabelece com autoridade nesse maravilhoso discurso! Essa religião acomodada, que dá a entender ao povo que se pode viver mais ou menos como se quer e ir para o céu, contanto que se pertença à igreja, não faz senão conduzi-lo ao inferno. Supor que a fidelidade a uma igreja possa compensar os pecados contra Deus é ilusão perigosa e condenatória.

259. Direções equivocadas

Requer grande vigilância, da parte dos que trabalham na obra do Senhor, que aquilo que começou no Espírito não termine na carne. A tendência constante é descer do sobrenatural para o natural. Há perigo de que os que, no principal, são guiados pelo Espírito de Deus deem lugar, nalgumas coisas, ao diabo. Quando se lhe permite alguma influência, é muito provável que ele acabe no controle.

Uma mulher tomou parte num reavivamento que resultou na salvação de vários jovens. Professava ser guiada pelo Espírito de Deus; mas apossou-se dela um espírito que não tolerava controle. Isso era prova de que não era o Espírito de Deus. Seus exercícios tornaram-se violentos. Caía com frequência. Depois, tomou a si a tarefa de casar os jovens. “O Senhor lhe mostrava”, dizia ela, “que este rapaz devia casar-se com esta moça.” E parecia grandemente sobrecarregada até alcançar os seus fins.

Obra assim não é de Deus. Um dos livros mais interessantes da Bíblia é o dos Atos dos Apóstolos; mas nada dessa espécie se registra entre os seus atos. Lemos bastante, no Novo Testamento, sobre os cristãos tomarem a sua cruz; mas não há a menor sugestão de tomar a cruz para casar-se. Ninguém jamais deveria casar-se quando casar-se é uma cruz. Aqueles que Deus quer unir não precisam de compulsão alguma de terceiros para se unirem. Os “intrometidos em negócios alheios” (1Pe 4.15) não deveriam atribuir sua conduta impertinente ao Espírito de Deus.

260. A letra e o espírito

Uma das heresias mais condenáveis do dia é o ensino de que podemos guardar o espírito dos mandamentos de Deus enquanto violamos, deliberada e desnecessariamente, a letra. É verdade que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Co 3.6). Mas isso não significa que não devamos atentar para a letra — e sim que não devemos parar nela. Devemos observar a letra e alcançar o espírito da coisa. Adam Clarke diz sobre isso coisas excelentes, que transcrevemos: “O evangelho tem a sua letra e o seu espírito; e multidões de cristãos professos, por pararem na letra, não recebem a vida que ela é destinada a comunicar. A água, no batismo, é a letra que aponta a purificação da alma; os que param nessa letra ficam sem essa purificação e, morrendo nesse estado, morrem eternamente. O pão e o vinho, no sacramento da Ceia do Senhor, são a letra; a eficácia expiatória da morte de Jesus, e a graça por ela comunicada à alma do crente, são o espírito. Multidões param nessa letra, recebendo apenas os símbolos, sem referência à expiação nem à sua culpa; e assim perdem o benefício da expiação e a salvação de suas almas. […] Pode-se afirmar com segurança que os judeus, em nenhum período de sua história, pararam mais na letra da sua lei do que a vasta maioria dos cristãos está parando na letra do seu evangelho. A multidões de cristãos pode Cristo dizer com verdade: ‘Vocês não querem vir a mim para terem vida.’ (Jo 5.40)”

261. Liberalidade para com Deus

Muitos sofrem perda, temporal e espiritual, porque não são liberais para com Deus. Far-nos-ia bem considerar a palavra do SENHOR que veio ao profeta Ageu: “Será que já chegou o tempo de vocês morarem em casas com forro de madeira, enquanto esta casa permanece em ruínas? Agora, assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerem o seu passado. Vocês têm semeado muito e recolhido pouco; comem, mas não chegam a ficar satisfeitos; bebem, mas não conseguem matar a sede; vocês se vestem, mas ninguém consegue se aquecer; e o que recebe salário, recebe-o para pô-lo num saquinho furado.” (Ag 1.4-6) Se provermos a causa de Deus, Deus proverá a nós. Ele nos conduzirá, nas coisas temporais, pelo caminho da prosperidade. Se pusermos os nossos interesses em primeiro e principal lugar, seremos deixados a nós mesmos, e o nosso trabalho e as nossas canseiras pouco valerão. Não trarão nem paz nem prosperidade. E a alma morre por dentro.

262. Liberdade não é rebeldia

Muitos dos estrangeiros que vêm ao nosso país tornam-se bons cidadãos. A esses damos cordial boas-vindas. Mas alguns têm ideias estranhas de liberdade. Parecem pensar que liberdade é ausência de lei, que ser livre é viver na anarquia. Vêm geralmente de países esmagados pelo despotismo. Falam muito de “direitos pessoais” — e entendem por isso o direito de manter tabernas, o direito de fazer bêbados, o direito de abolir o dia do Senhor transformando-o em dia de bebida, orgia e farra, com perturbação do culto religioso e incômodo de todos os bons cidadãos. Deveriam saber que as nossas instituições civis se fundam na Bíblia; que devemos a liberdade de que gozamos à influência da Bíblia e à bênção de Deus sobre os nossos pais, enquanto obedeciam aos seus mandamentos. Se não gostam das nossas instituições, o caminho está aberto para voltarem às terras de onde vieram. Nosso país pode passar sem eles. Se ficarem, que sejam levados a obedecer às nossas leis.

263. A brevidade da vida

“Poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida”, disse Jacó a Faraó (Gn 47.9). E, contudo, tinha cento e trinta anos. Começou a vida pobre e tornou-se rico. Foi o pai honrado de uma grande família de filhos obedientes e inteligentes. E, no entanto, como a vida lhe pareceu curta, olhando para trás! Que pequena estima teve da sua grande prosperidade!

“Pois que é a vida? No melhor, um breve deleite;
um sol que mal clareia e já mergulha na noite;
uma flor, fresca de manhã, murcha ao meio-dia;
um rio quieto e rápido, deslizando para a sombra.”

O homem foi feito para a eternidade. A mais longa existência terrena é curta demais para os seus anseios imortais. Seus prazeres não satisfazem; suas honras são vazias e passageiras. Quem vive para o presente vive para nada: apenas desperdiça oportunidades de ouro, caçando fantasmas vazios que muitas vezes escapam à perseguição e sempre se dissolvem quando agarrados.

Leitor, apodere-se da vida eterna! (1Tm 6.12)

Extratos 264–277 · Vida espiritual, luz, bebida, amor, mornidão, casamento+

264. A importância da vida espiritual

De que valem as nossas doutrinas peculiares, se estamos espiritualmente mortos? Podemos levantá-las e defendê-las, mas nada disso salvará uma só alma. Continua verdadeiro que “a vida era a luz dos homens” (Jo 1.4). Tudo o que você diz pode ser verdade; mas, se não houver vida nisso, ninguém será convencido do pecado. O pregador mais talentoso e mais instruído é inútil para a causa de Deus, se está morto. Pode encher a igreja com a sua eloquência — e daí? Ele recebe o salário, as despesas são pagas, mas pregador e povo descem, sem despertar, para a noite eterna.

Mas um homem ou uma mulher vivos causarão despertamento entre os mortos. Podem não ser dotados nem instruídos, mas produzirão comoção. A vida gera vida. “Melhor é um cachorro vivo do que um leão morto.” (Ec 9.4) Um menino ou uma menina cheios de vigor podem mais do que um gigante adormecido nos braços da morte.

265. A luz da graça de Deus

A graça de Deus, como o sol, brilha em toda parte. Para os que acolhem a luz que Deus envia à alma, e têm coragem de andar nela, a luz brilha com claridade crescente.

Um professor católico romano da Universidade de Paris, antes dos dias de Lutero e da Reforma, escreveu o seguinte: “A religião tem um só fundamento, um só fim, uma só cabeça: Jesus Cristo, bendito para sempre! Só ele pisou o lagar. Não nos chamemos, pois, pelo nome de São Paulo, ou de Apolo, ou de São Pedro. Cristãos são somente os que amam Jesus Cristo e a sua palavra. Que tudo seja iluminado com a sua luz! Por ela pode haver um retorno de tempos como os daquela igreja primitiva que devotou a Jesus Cristo tantos mártires! Que o Senhor da seara, prevendo nova colheita, envie novos e diligentes trabalhadores!”

Sem o saber, ele foi um dos que prepararam o caminho para a Reforma.

266. Acolha a luz e ande nela

O fato de você estar sob convicção não é sinal de que sempre esteve enganado. Para tornar-se verdadeiramente piedoso, não é preciso tornar-se mais perverso. A um ministro desviado disse o Espírito: “Fique atento e fortaleça o que resta e que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as suas obras na presença do meu Deus.” (Ap 3.2) O modo de fortalecer não é desistir e voltar de vez ao mundo, mas lembrar a luz outrora recebida, apegar-se a ela e arrepender-se diante de Deus por não ter andado nela. Você ouve um sermão penetrante, e nova luz irrompe sobre você — ou a luz antiga volta com poder redobrado. Tome-a e siga adiante; mas não negue nada do que Deus já fez por você. Se negar, ficará confuso; e talvez seja deixado a duvidar de que exista experiência religiosa confiável.

Os conscienciosos tendem a abrir mão da sua experiência com demasiada facilidade. Os presunçosos seguram a sua profissão em face da mais clara evidência de que ela não é genuína.

267. Luz interior

Uma pequena chama, onde tudo é escuro, atrai a atenção. Os homens são instintivamente atraídos ao fogo. Todo ministro de Jesus Cristo deve ser luz que arde e ilumina. A raiz da questão deve estar nele. Ele deve não apenas ser iluminado, mas ser luminoso. O mandamento de Cristo é: que a sua luz brilhe (Mt 5.16) — ponha-se a ênfase no “sua”. Muitos púlpitos resplandecem com a luz de historiadores, cientistas e poetas, enquanto o próprio pregador está envolto em trevas egípcias. O mandamento pressupõe que temos luz. Toda pessoa verdadeiramente convertida tem luz interior. Mas ela pode perder-se — e muitas vezes se perde. O único modo de conservá-la é andar nela e deixá-la brilhar. Pregadores batizados com fogo estão em grande demanda entre nós. Pregadores secos e mortos, por maiores que sejam o talento e o saber, são fardo penoso. Irmão, acenda-se antes de subir ao púlpito.

268. O comércio de bebidas é uma desonra

O comércio de bebidas é uma desonra para a nossa civilização; é um opróbrio para o nosso cristianismo. Custa mais que as escolas e as igrejas — mata mais que a peste, a guerra e a fome. Um vendedor de rum faz mais mal do que cem missionários podem desfazer. A grande praga do mundo é a bebida forte; e a sua fabricação e venda deveriam ser suprimidas pelas leis mais rigorosas.

Copiamos do Missionary Herald o apelo que um chefe nativo fez a um oficial inglês na África do Sul:

“Temo menos Lobengula do que o conhaque. Lutei contra Lobengula quando ele tinha os grandes guerreiros de seu pai, vindos de Natal, e o fiz recuar, e ele nunca mais voltou; e Deus, que me ajudou então, me ajudaria de novo. Lobengula nunca me deu uma noite de insônia. Mas lutar contra a bebida é lutar contra demônios, e não contra homens. Temo a bebida do homem branco mais do que todas as azagaias dos matabeles, que matam o corpo dos homens, e logo passa; mas a bebida põe demônios dentro dos homens e destrói para sempre a sua alma e o seu corpo. Suas feridas nunca saram.”

269. O amor é abnegado

O amor genuíno é atencioso e abnegado. Os que amam a Cristo fazem, por amor a ele, tudo o que podem para promover a sua causa. Para obter a sua ajuda, não é preciso apelar a outro motivo senão o amor a Cristo.

William Cobbett foi célebre escritor inglês da geração passada. Era devotado à esposa. Certa vez, quando moravam em Londres, ela adoeceu — às portas da morte. O médico disse que, se ela conseguisse dormir, poderia viver. E ela não conseguia dormir, a menos que a rua ficasse em silêncio. William Cobbett calçou meias de lã e, só de meias, andou pela rua a noite inteira, para mantê-la quieta. Ela dormiu e sarou.

O amor tudo sofre. É loucura alguém professar amor a Cristo e estar pronto a abandonar a sua causa porque algum ministro ou membro não o trata como devia. Os maus-tratos do marido não fazem a mãe deixar de amar o filho.

270. O amor a Deus, o essencial

Toda a nossa religião de nada vale, se não amamos a Deus. A pregação pode recomendar-se aos homens pela eloquência e pelo fervor; mas Deus não aceita o pregador que tira a sua inspiração de outro motivo que não o amor a Deus e ao próximo. Há doutrinas verdadeiras, há doutrinas meio verdadeiras e há doutrinas falsas; mas a crença mais cordial nas doutrinas mais sãs não pode salvar ninguém que não ame a Deus de todo o coração e com todas as forças. Nenhum culto, por custoso e atraente, ou por simples que seja, é aceitável a Deus sem que o coração esteja nele. Foi da frequência estrita ao culto divino que disse o nosso Salvador: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.” (Mt 15.8-9)

271. O amor não exagera

Há algo defeituoso na santidade que não consegue expor fatos sem exagero. Nunca deveria parecer necessário fazer desconto do que uma pessoa santa escreve ou diz. Deveríamos poder confiar nos seus fatos, ainda que obrigados, num caso ou noutro, a questionar a sua lógica. Deveríamos sentir que podemos fiar-nos nas suas descrições, mesmo sem assentir às suas inferências. Exagerar ou colorir fatos para pôr os nossos labores em melhor luz cheira a vaidade; fazê-lo para depreciar os labores alheios é indício de que dentro reinam o preconceito ou a inveja. Reconheçamos os nossos defeitos sem desculpá-los; busquemos, com toda a sinceridade e fervor, o remédio do evangelho: o amor humilde.

272. A mornidão, grande inimiga

Corremos maior perigo da indiferença e da mornidão do que do preconceito e da perseguição. A indiferença e a mornidão são as nossas maiores inimigas, e as mais temíveis. Insinuam-se no indivíduo e na igreja tão silenciosamente quanto o rastejar da serpente. Não dão aviso; não despertam temores. Não acarretam opróbrio. É esse o grande elemento de perigo a que a mornidão nos expõe. Ela não nos traz o opróbrio da transgressão aberta. Ao contrário, eleva-nos na estima dos mundanos. Eles começam a falar bem de nós. Membros desviados nos recebem em sua comunhão. Concluímos que fomos “exigentes demais”, que não há necessidade de ser “tão dedicados” às coisas da religião. Assim, torna-se dificílimo despertar alguém do estado morno. Ele está contente demais. Compara-se com os outros e conclui que, se eles vão para o céu, ele também irá. E segue dormindo.

Quando uma só pessoa se conserva viva numa sociedade, mantém as demais sob convicção. Por ela podem ver o quanto declinaram em espiritualidade. Nas reuniões, ela traz o Espírito consigo e o ministra aos outros. Mas, onde todos se desviaram, o caso é mais desesperador. É dificílimo despertá-los. Não há nada visivelmente errado em suas vidas — e, contudo, a vida inteira deles está errada. Cumprem as formas do culto religioso, mas falta-lhes aquele amor de Deus, aquele fervor de espírito, que é o único que torna qualquer culto aceitável à sua vista. Os sermões mais penetrantes parecem não surtir efeito neles. Não dão atenção às verdades adequadas à sua condição e necessárias para despertá-los ao senso do seu perigo. Se estivessem abertamente desviados, poderiam ser alcançados; mas, como é quase impossível fixar convicção num morno, Cristo lhe diz: “Quem dera você fosse frio ou quente!” (Ap 3.15)

273. A mornidão leva à perda da alma

A mornidão, comum como é, e despercebida como geralmente é, resultará, se persistir, na perda da alma. A um ministro morno disse Cristo: “Estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3.16)

Tal homem não agrada mais a Cristo hoje do que agradava então. Seu único meio de segurança é: “Seja zeloso, pois, e arrependa-se.” Mas dificilmente o fará, porque não vê que está morno. Não o admite. Professa alto estado de graça. Diz: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma.” Quão diferente é a opinião de Cristo a seu respeito: “E nem sabe que você é infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Ap 3.17)

Leitor, você está nessa condição terrível? Se está, consinta em vê-lo. Não se ire; deixe-se advertir. Quebrante-se diante de Deus. Venha a Cristo em busca de luz, vida e salvação.

274. A mornidão ofende a Deus

Para servir a Deus aceitavelmente, devemos ser zelosos no seu serviço. Se não somos cristãos fervorosos, não somos cristãos. A mornidão ofende a Deus. O amor que ele pede é todo o amor de que somos capazes. Amá-lo com coração dividido é reconhecer que ouvimos com prazer os galanteios dos seus rivais. O que se faz no seu serviço sem ser por amor a ele, não é feito para ele. O sacrifício que ele aceita é o coração quebrantado e o espírito contrito. Uma exibição de orgulho no seu serviço pode ser admirada pelos homens, mas é abominação para Deus. Nenhum sacrifício que ele exige parece duro a quem está de coração empenhado no seu serviço. “Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24)

275. Casamento — advertência às jovens

Não admira que homens ímpios gostem de conseguir esposas cristãs. Nelas se pode confiar. Não são governadas pelo orgulho, pela ambição ou pelo impulso, mas por princípios. Mas, irmã, você corre um risco terrível ao casar-se com um homem destituído de princípios cristãos. Se ele não tem o temor de Deus, é provável que lhe dê tribulação. Sua vida, com toda a probabilidade, será de sofrimento. Ele procurará, aos poucos, afastá-la de Cristo. Se não o conseguir, poderá passar a opor-se e a persegui-la. Dificuldades a confrontarão a cada passo do seu progresso na vida divina. Por mais atraente que você lhe seja agora, pode esperar que ele ache outra mulher mais atraente nos anos por vir; e a própria vida lhe será esmagada quando se lhe impuser a triste convicção de que aquele a quem você deu tudo se alienou de você em sua afeição e deu o seu amor a outra. Irmãs, atendam às admoestações da santa Palavra de Deus: “Não se ponham em jugo desigual com os incrédulos.” (2Co 6.14)

276. Casar com bêbados

Numa das províncias da Alemanha, as autoridades estão proibidas de emitir licença de casamento a homem sabidamente beberrão. E assim deve ser. Mas as mulheres não deveriam tornar necessária tal lei. Nenhuma mulher deveria confiar a vida a um homem que se entrega ao uso de bebida embriagante. Ele pode prometer emendar-se; mas, se não se emenda antes de obter esposa, dificilmente se emendará depois de obtê-la. Nenhuma mulher solteira está tão mal que não fique pior unida a um marido bêbado.

277. Reuniões prejudicadas pelo espírito de leviandade

Já vimos, algumas vezes, uma boa reunião grandemente prejudicada por um espírito de leviandade que se insinuava no coração dos santos, até controlá-los por algum tempo. O Espírito Santo era entristecido, e a congregação perdia a seriedade. William Kendall tinha, com frequência, reuniões vivas. Ele mesmo era muito abençoado, e o povo era abençoado, com gloriosas vitórias na conversão de pecadores e na santificação de crentes. Mas ele guardava cuidadosamente contra o espírito de leviandade. Assim que via sintomas de alguém sendo levado longe demais nessa direção, opunha-se — sem criar caso: no Espírito, puxava um dos velhos e solenes hinos metodistas. Isso não feria ninguém, mas trazia a reunião de volta ao canal certo. Ele não poderia tê-lo feito se não estivesse, ele próprio, cheio do Espírito. Tal proceder está de acordo com a direção do apóstolo: “Está alguém alegre? Cante louvores.” (Tg 5.13) Que não puxe uma cantiga ligeira, mas cante um bom e sólido salmo, ou hino. Mas que os mortos não façam disso desculpa para se opor aos santos quando estes são abençoados. “Não danifique o azeite e o vinho.” (Ap 6.6)

Extratos 278–290 · Reuniões, membros, membresia, mente e moderação+

278. A abertura das reuniões

O tempo que se pode dar a uma reunião religiosa é necessariamente limitado. O responsável deve cuidar que nenhum tempo se perca. Deve abrir pontualmente. Os hinos e a passagem da Escritura devem estar escolhidos de antemão, sem deixar o povo esperando enquanto ele os procura. Toda consulta necessária deve ser feita com antecedência.

Em regra, faça breves os exercícios de abertura. É vergonhoso um ministro levar meia hora para abrir uma festa de amor e depois exortar o povo a “falar pouco”.

Se você vai pregar, apresente-se diante da congregação cheio de conteúdo. Nada de desculpas, nada de demoras. Mergulhe de uma vez no mérito do assunto. Fale palavras claras e diretas. Tenha ideias nítidas do tema e apresente-as de modo claro e vigoroso. Quando terminar, pare. Não deixe a serra correndo depois de serrada a tora. Procure pôr alguns sob convicção e dê-lhes a oportunidade de chegar ao Senhor e ser abençoados.

279. Reuniões prolongadas

Não tenha pressa demais em encerrar as suas reuniões prolongadas. Persevere até ver grandes resultados. Se há interesse, e os não salvos comparecem, mantenha as reuniões, ainda que os pecadores não deem passo algum para a salvação. Paciência e perseverança são muito necessárias para levar avante com êxito a obra de Deus. Quebrante-se você mesmo, de novo, diante de Deus. Obtenha amor mais profundo e mais terno pelas almas que perecem. Faça os seus membros ativos serem batizados de novo com o Espírito Santo. Enterre mais fundo o arado. Tenha fé mais forte em Deus. Espere o êxito. Não ralhe. Não fale desânimo. Comece as reuniões pontualmente. Encerre em boa hora, para que você e o povo não fiquem exaustos. Esteja decidido a ter vitória completa, e a terá. Deus o abençoe.

280. Forasteiros em nossas reuniões

As pessoas vêm às igrejas metodistas livres em busca de ajuda para a alma. Devemos, portanto, estar em condição de ajudá-las. Se se serve alimento bom e substancial, ele será saboreado, por simples que sejam os vasos em que vem — contanto que estejam limpos. As almas famintas, se ainda não perderam a sensibilidade, querem o pão da vida. Apedrejá-las é crueldade: afugenta-as, fere-as — e fere quem as apedreja.

Devemos tratar com fidelidade os que erram, mas sempre em amor. Se conhecêssemos todas as circunstâncias dos que censuramos, muitas vezes teríamos tanta compaixão quanto reprovação. A bondade pode ser imerecida, mas raramente deixa de render melhores frutos que a severidade. Os forasteiros que visitam as nossas reuniões devem ser sempre bem tratados. Nada nos habilita a trabalhar pelos outros como o amor perfeito. Ele nos dispõe a fazer o bem e nos leva instintivamente a adotar os meios próprios de realizá-lo. A sabedoria vale mais que a sagacidade; a simpatia, mais que o sarcasmo.

281. Reuniões unionistas

Ministros que apelam ao amor do prazer para promover a religião abnegada da cruz adoram obter até um aparente endosso do seu rumo ímpio da parte de um pregador de santidade. Por isso, embora se oponham a você em segredo e falem contra você, ficam ansiosos por tê-lo unido a eles em reuniões unionistas. Não querem a sua religião, mas a sua influência. O povo começou a confiar na sua piedade, e esses pregadores transigentes desejam, tanto quanto possível, converter isso em proveito próprio. O papel deles já não tem crédito; o seu tem, e eles querem o seu endosso. Fique em guarda. Muito homem sólido já se arruinou endossando os outros.

Não tenha parte alguma em sustentar reuniões em que se faz obra superficial. Se os homens são animados a crer-se convertidos enquanto se agarram à loja secreta e ao seu fumo, e as mulheres, enquanto ainda se exibem em joias e enfeites — então não tenha nada com tal “reavivamento”. Ele faz prosélitos para a igreja, em vez de convertidos para Deus. Resulta em autoengano fatal. Conduz almas do altar de Deus, da mesa sacramental, para o inferno.

Não dê apoio a nenhuma reunião religiosa em que você não possa fazer para Deus obra completa. Se quer prosperidade na igreja, deve — como na vida particular — cuidar do que é seu.

282. Paciência com os membros

Não se deixe tentar contra os seus membros antigos, se eles não se lançam nas reuniões de reavivamento com o zelo que você acha que deviam ter. Eles não estorvarão a obra — a menos que você mesmo dê ocasião, irritando-se com eles, atirando neles do púlpito e atraindo sobre eles a atenção pública. Eles sustentaram a obra com bravura quando outros abandonaram o campo e fugiram; e a sustentarão quando alguns, que agora parecem arder de zelo, já tiverem ardido por completo e sido soprados para longe. Deixe-os trabalhar à maneira deles. Se sentir que deve dizer-lhes coisas duras, não as diga em público: chame-os à parte, visite-os, ore com eles, sejam abençoados juntos — e você se sentirá disposto a suportá-los. Não é jeito de promover reavivamento dizer em público coisas que tendem naturalmente a minar a confiança dos ouvintes na piedade dos seus membros. Se os pregadores frequentassem mais as reuniões de classe e fizessem visitação pastoral mais fiel, teriam menos ocasião de fazer ataques periódicos aos seus membros em público.

283. Os pregadores devem respeitar os direitos dos membros

A Igreja Metodista Livre não é um despotismo eclesiástico. O poder de governo na igreja não está investido exclusivamente nos pregadores. Eles têm a sua parte no governo, mas só podem exercê-la em conjunto com os membros. O pregador não admite membros, nem os despede. Esse poder pertence aos membros. O pregador pode presidir a reunião da sociedade que admite membros, mas é o voto da sociedade que os admite. Por outro lado, ele não tem o direito de riscar membros. Não é assim que se resolve. A menos que morram, se retirem ou se mudem, não podem ser tirados da igreja sem julgamento conforme a Disciplina. Nossos membros têm direitos que os pregadores são obrigados a respeitar. Os que querem dominar a herança de Deus deveriam procurar lar noutro lugar que não a Igreja Metodista Livre.

284. Deve-se dar trabalho aos membros

Nossos pregadores falham, muitas vezes, em pôr a trabalhar membros de suas sociedades que têm coração para o trabalho e capacidade de trabalho eficiente. Só quando alguma outra organização arrebata esses membros desocupados é que tais pregadores percebem a perda que sofreram. Em alguns lugares, o Exército da Salvação foi guarnecido quase inteiramente por metodistas livres. E que multidões atraíam! Não possuíam mais talento do que antes — mas tinham alguém que os pusesse a trabalhar.

O pregador é um oficial. Se não sabe conduzir os outros ao combate, deve renunciar. Quem não sabe dirigir os outros deve tomar o seu lugar nas fileiras. Em cada vizinhança há uma grande batalha a travar pela santidade e pela justiça. Todo aquele que é capaz de servir deve ser alistado. Deve-se-lhe designar o trabalho e dar-lhe oportunidade de fazê-lo. Ponha à frente os modestos e retraídos. Grandes vulcões às vezes irrompem numa planície. Os que nunca foram tidos por dotados às vezes, quando ficam cheios do Espírito, assombram os conhecidos com as suas exortações poderosas e oportunas.

285. A mera membresia não salva ninguém

Boa parte da pregação de hoje dá por certo que os membros da igreja em boa situação estão, por esse mesmo fato, em estado de salvação. Nesse ponto há pouca diferença entre os pregadores de todas as denominações. Em muitos casos, é presunção fatal. Não deve haver esforço para converter as pessoas ao nosso modo de pensar em coisas indiferentes; mas devemos levantar com clareza o padrão neotestamentário de salvação. Muito da pregação, e a maioria das advertências da Bíblia, dirige-se ao povo professo de Deus. Foi à “igreja de Deus”, aos chamados “santos”, que Paulo escreveu estas palavras: “Examinem-se a si mesmos para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos. Ou será que vocês não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês? A menos que vocês sejam reprovados.” (2Co 13.5) E foi a um ministro em boa situação que o amado e amoroso João escreveu: “Porque você diz: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabe que você é infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Ap 3.17)

286. Os homens verdadeiros devem ser reconhecidos

A todo homem se devem conceder todas as vantagens a que os seus talentos, o seu preparo e a sua boa conduta lhe dão direito. Essas qualidades têm valor comercial. São propriedade sua tanto quanto a casa que comprou com a sua indústria e economia. As organizações que o roubam dessas vantagens não são menos culpadas do que as que o roubam do seu dinheiro.

A tendência do espírito partidário forte é pôr à frente transigentes e servidores do tempo, onde se precisa de homens de princípios.

“Deus nos dê homens. Um tempo como este exige
mentes fortes, grandes corações, fé verdadeira e mãos prontas;
homens a quem a cobiça do cargo não mate;
homens a quem os despojos do cargo não comprem;
homens que possuam opiniões e vontade;
homens que tenham honra — homens que não mintam.”

Devemos saber reconhecer tais homens e estar dispostos a fazer o que pudermos para ajudá-los a ocupar a sua verdadeira posição. Esta é a direção de Deus: “Paguem a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” (Rm 13.7)

287. O poder da mente sobre o corpo

A mente tem grande poder sobre o corpo. Os maus sentimentos crescem quando alimentados e acalentados. Já se demonstrou repetidas vezes que uma pessoa sã pode adoecer por ser levada a crer que está doente. Somos salvos pela esperança — física, tanto quanto espiritualmente. Disse o salmista: “Não morrerei; pelo contrário, viverei e contarei as obras do SENHOR.” (Sl 118.17) E não morreu. Se você é tentado, não fale disso, a não ser com alguém que possa ajudá-lo. Se não se sente bem, siga o mesmo rumo.

“Alguns empregam a saúde — feio costume —
em contar quantas vezes estiveram doentes,
e nos dão, em recitais de enfermidade,
o trabalho do médico, mas sem os honorários.”

A verdadeira fé em Deus gera um espírito decidido e, muitas vezes, mantém longe a doença. Bênçãos que valem a pena ter, valem a pena lutar por elas. Muitos não vivem os seus dias contados porque desistem com demasiada facilidade. O espírito de enfermidade os domina. Mas um espírito forte governa um corpo fraco.

288. A mente deve ser expandida

Para crescer na graça, você deve crescer em conhecimento. Se a mente é contraída, os pensamentos correm sempre no mesmo sulco, e usam-se as mesmas formas de expressão. A religião degenera em formalidade. As palavras podem ser boas, mas ficam sem poder. Matéria estereotipada não interessa nem a quem fala nem a quem ouve. Para expandir a mente, para crescer em conhecimento, você deve ler, deve estudar. Talvez pense que não tem tempo — engano seu. Elihu Burritt, ferreiro, enquanto trabalhava no ofício, tornou-se um dos homens mais eruditos da sua era. Entendia mais línguas do que qualquer outro homem deste país. Enquanto as aprendia, trabalhava as horas regulares de cada dia no seu ofício — e não arruinou a saúde com o trabalho e o estudo. Você pode ter um circuito grande e muito que fazer; mas, se tiver disposição para estudar, pode, por aplicação sistemática, realizar maravilhas. A devoção a Deus o fará ansioso por equipar-se do melhor modo possível para a sua obra.

289. Mente sã (moderação)

O Espírito de Deus dá sabedoria e direção aos filhos de Deus. Mas eles não devem jogar fora o bom senso. Devem usar todo o que têm — e obter mais. O bom senso é um dos dons de Deus. Diz Paulo: “Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.” (2Tm 1.7) Uma locomotiva acesa é utilíssima enquanto se mantém nos trilhos; mas, se sai dos trilhos, faz grande estrago. O espírito “de poder e de amor” é muito necessário ao cristão: sem ele, é locomotiva sem vapor. Mas, se com ele não tiver a moderação, arrisca-se a fazer mais mal do que bem. Torna-se positivamente perigoso. O que se deve fazer não é fazer-lhe as vontades e embarcar no seu trem, mas pô-lo de volta nos trilhos, o quanto antes e com o menor dano possível. Você lhe faz mal encorajando as suas tendências erráticas. Guarde estas graças trinas: poder, amor e moderação. Qualquer uma sem as demais resultará em dano. Cuide de ter as três. Elas são “recebidas” — portanto, você pode vir a Deus buscá-las. É tempo de pôr de lado a insensatez. A fraqueza cura-se pelo “poder”; a impaciência e a rabugice, pelo “amor”; a tolice, pela “moderação”. Você as recebeu? Se não, quer recebê-las?

290. O convite a ministros de outras denominações

Um pregador de outra denominação nos escreve dizendo que foi especialmente convidado a assistir a uma reunião campal metodista livre. Diz que foi, trabalhou, partiu — e nunca lhe ofereceram pagar a passagem de trem. Nada sabemos da reunião — não estivemos presentes e nada tivemos com a ida dele; mas ele nos escreve como se fôssemos culpados do tratamento que recebeu. Talvez sejamos. Nossos pregadores e nosso povo deveriam ser mais atenciosos. Deveriam ter melhores maneiras. Se você convida especialmente alguém para vir trabalhar numa reunião, faça questão de pagar as despesas de viagem e de cuidar bem dele. “O trabalhador é digno do seu salário.” (Lc 10.7)

Em regra, não é bom convidar ministros de outras denominações para trabalhar em nossas reuniões. Eles não podem entrar de coração e conscienciosamente na nossa obra. Se pudessem, seriam dos nossos. Tendem a semear as sementes da insatisfação e da mundanidade. Deixam uma influência que trabalha insidiosamente contra nós. Melhor cuidarmos do que é nosso e fazermos a nossa própria obra.

Extratos 291–304 · Erros, dinheiro, monopólios, motivos, Ano-Novo, obediência+

291. Os erros devem ser reconhecidos

Um dos maiores meios de graça é a prontidão em reconhecer os nossos erros com franqueza e sem esforços de autodefesa. O “velho homem” morre com dificuldade. Quando entra para a igreja, e especialmente quando professa santidade, torna-se vigilantíssimo sobre a sua reputação de inteligência e coerência. Se não professa infalibilidade em termos gerais, tampouco se conhece um caso particular em que admita com candura que se enganou. Falta algo na experiência dessas pessoas. Faltam-lhes a maturidade suave, a mansidão sob provocação e a unção do Espírito Santo. Nunca deveríamos chegar ao ponto de não poder obedecer ao mandamento: “Confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para serem curados.” (Tg 5.16)

292. Os erros devem ser confessados

É artifício sutil de Satanás fazer um santo crer que nunca deve confessar quando errou no juízo ou tomou o lado errado de uma questão. Quando fizemos o mal, ainda que pelos melhores motivos, devemos estar prontos a reconhecê-lo. Jeremy Taylor, em suas Regras para a Vida Santa, diz: “Não esteja sempre pronto a desculpar cada descuido, indiscrição ou má ação; se for culpado, confesse-o claramente; pois a virtude despreza a mentira como cobertura, e esconder um pecado com ela é como uma crosta de lepra estendida sobre uma úlcera. Se não for culpado (a menos que o caso seja escandaloso), não se afadigue demais em desfazer a acusação; use-a antes como argumento para castigar toda grandeza de fantasia e de opinião em você mesmo; e acostume-se a suportar a repreensão com paciência e contentamento, e as palavras duras dos inimigos — sabendo que a ira de um inimigo é melhor conselheira, e nos apresenta as nossas faltas, ou nos admoesta do nosso dever, com mais franqueza do que a bondade ou o bálsamo precioso de um amigo.”

293. O dinheiro não deve ser entesourado

Por que você haveria de querer deixar aos seus filhos tanta propriedade que não precisem trabalhar para viver? Pensa que estarão melhor neste mundo? Os homens ao seu redor, que ocupam posições influentes, começaram a vida com uma fortuna à disposição? Em regra, não começaram por baixo e subiram pelo próprio esforço? Seus filhos terão mais probabilidade de se tornarem bons cristãos, se ficarem em condição de se banquetear regaladamente todos os dias? Você sabe que a probabilidade é que sejam como o mundo.

Use, pois, o seu dinheiro para a promoção da causa de Deus, e não o entesoure para os seus filhos.

294. Sabedoria no manejo do dinheiro

Ao manejar fundos alheios, devemos não apenas ser estritamente honestos, mas esforçar-nos para tornar a nossa honestidade evidente a todos. Não deve haver o menor fundamento para suspeita. Devemos ter à mão os meios de silenciar as acusações da inveja e do ódio. Veja como Paulo foi cuidadoso quando levantou em Corinto uma contribuição para o socorro dos santos pobres e perseguidos de Jerusalém. Não quis levá-la sozinho: fez as igrejas nomearem pessoas capazes e de confiança para irem com ele e verem que as contribuições fossem devidamente administradas. E deu a razão: “evitando, assim, que alguém nos acuse em face desta generosa dádiva administrada por nós; pois o que nos preocupa é sermos honestos, não só diante do Senhor, como também diante dos homens.” (2Co 8.20-21) Ele podia suportar qualquer quantidade de perseguição; mas não podia expor-se desnecessariamente a acusações falsas.

Diz bem o dr. Paley: “Ele professa repetidamente que deviam associar-se a ele, na administração da bondade pública, não colegas de sua própria nomeação, mas pessoas eleitas pelos próprios contribuintes.”

O ministro do evangelho deve ser um homem cuja integridade não possa ser posta em dúvida com êxito.

295. Os monopólios caracterizados

No evangelho não há classe privilegiada. Na medida em que a influência do evangelho prevalece nos negócios civis, os direitos de todos são respeitados. Os monopólios são inteiramente subversivos dos direitos do povo. Roubam a muitos para enriquecer a poucos.

Cromwell escreveu de Dunbar, onde ganhou sua última vitória decisiva sobre os realistas: “Aliviai os oprimidos; ouvi os gemidos dos pobres prisioneiros. Dignai-vos reformar os abusos de todas as profissões. Se há alguém que faz muitos pobres para fazer poucos ricos, isso não convém a uma república.”

Palavras nobres! Nossa nação precisa de um Cromwell. A conspiração é a ordem do dia. Os negócios do país vão sendo conduzidos, mais e mais, por princípios satânicos. O homem que o coloca em posição tal que só ele pode suprir as suas necessidades, e então exige preço extorsivo para fazê-lo, age pelo mesmo princípio do salteador que, com o revólver carregado e engatilhado à sua cabeça, exige a bolsa ou a vida.

296. Os padrões morais devem ser mantidos

À medida que a igreja rebaixa o padrão da salvação, o mundo, observando, rebaixa o padrão da moralidade. O jogo nas quermesses da igreja, o jogo de bolsa pelos membros da igreja, torna o jogo respeitável e popular. O voto de membros da igreja pela licença de venda de bebidas torna os taberneiros ousados e desafiadores. O pecado precisa de pouco encorajamento para romper todos os limites e afirmar o seu direito de dominar.

297. Um só padrão de moralidade para todos

Deus tem um só padrão de moralidade para todos. “Não furte” obriga tanto o não professo quanto o professo. Assim são todos os mandamentos de Deus. Quem é desobediente e rebelde não terá ânimo de dizer, no dia do juízo: “Senhor, eu nunca professei religião.” Tal desculpa de nada valerá. A rebelião aberta não condena menos que a hipocrisia secreta. Diz Spurgeon a quem se orgulha de não fazer profissão de fé: “Você imagina que, ao comparecer diante de Deus, se lhe disser: ‘Senhor, nunca professei amar-te, nunca fingi servir-te’, Deus aceitará a sua insolência como honestidade — que verá na sua presunção uma sinceridade! Ora, senhor, você não pode estar falando sério; deve ter-se enganado terrivelmente, se está. A sua honestidade em declarar-se escravo de Satanás! O seu descaramento em proclamar que está mergulhado até a garganta no pecado — será isso desculpa para o seu pecado? Ó homem, tenha mais juízo!”

298. Motivos

Não iremos longe na tentativa de seguir a Cristo, se a questão de lucros e perdas determina o serviço que lhe prestaremos. Considerações mercenárias não devem ter peso algum na decisão da posição cristã que nos dispomos a ocupar. Tal motivo é parente do que moveu Judas quando traiu o seu Mestre por trinta moedas de prata.

Nossa pergunta deve ser: “Senhor, que queres que eu faça?” A resposta a isso deve decidir a nossa escolha. Pode envolver uma vida inteira de serviço abnegado. E daí? Tanto maior será a recompensa no mundo eterno. Cristo não morreu rico. Os apóstolos não morreram ricos; e, contudo, como triunfaram sobre a pobreza! “Como pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.” (2Co 6.10) Que milionário jamais se sentiu assim?

299. Motivos mundanos são fatais na escolha de Cristo

O crime de Judas não consistiu na soma que recebeu por trair a Cristo, mas no fato mesmo de o ter traído.

O dr. Stephen Olin tinha razão quando disse: “Quem para a fim de indagar se ser cristão lhe custará sacrifícios, com qualquer intenção de hesitar em caso afirmativo, já admitiu uma consideração inteiramente incompatível com tornar-se cristão. Quem escolhe o seu credo ou a sua igreja com qualquer referência, por mínima que seja, à honra, à comodidade ou ao proveito que possam dar ou negar, vicia por completo, com essa admissão, toda pretensão de ter parte ou sorte na piedade salvadora. Não falo dos que, consciente e deliberadamente, fazem dessas coisas o principal fundamento da sua preferência; mas afirmo que é inteiramente anticristão, e um insulto ao Salvador crucificado, dar qualquer lugar, o menor que seja, a motivos mundanos na escolha da posição cristã que ocuparemos. Que Cristo e a consciência decidam. ‘Revistam-se do Senhor Jesus Cristo e nada disponham para a carne, no tocante às suas paixões.’ (Rm 13.14) O evangelho não admite acordo aqui. É o seu ponto de honra, do qual não pode nem quer ceder um só iota. Sinto-me chamado a usar linguagem de denúncia sem medida contra um erro tão frequentemente fatal aos começos promissores na religião — tantas vezes fatal às perspectivas religiosas dos moços.”

Este é o cristianismo tal como o aprendemos quando jovens. Ele não mudou. A pessoa cujos princípios religiosos estão à venda não tem direito ao nome de cristão. Falta-lhe o elemento primário do caráter cristão.

300. Um feliz Ano-Novo

Desejamos um feliz Ano-Novo a todos os nossos leitores! Que as mais ricas bênçãos do Pai das misericórdias repousem sobre vocês! Em grande medida, a nossa felicidade depende de nós mesmos. Se a consciência não está em paz, não existe felicidade. E você não pode ter boa consciência enquanto não tiver, tanto quanto possível, corrigido todos os males, e tido, pelo sangue expiador, o coração “purificado de má consciência” (Hb 10.22). Entregue-se de uma vez a Deus, para acertar-se a qualquer custo. A saúde e a felicidade andam ligadas. Pela obediência às leis naturais de Deus, a saúde se conserva. Se foi arruinada pelo pecado, venha a Deus com arrependimento, reforma e fé, e empenhe-se por assegurar a promessa: “Porque eu farei vir a sua cura.” (Jr 30.17) Mas, acima de tudo, se quer ser feliz, precisa ter o Consolador habitando com você para sempre. E isso não terá, a menos que ande bem perto do Senhor. Ele pode sustentá-lo nas provações e aflições, torná-lo paciente na tribulação, guiá-lo com acerto em todos os negócios da vida, iluminar o vale da sombra da morte e ministrar-lhe entrada abundante no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O que quer que você tenha nesta abertura de ano, esteja decidido a ter o Espírito que habita em nós.

301. O anti-sectarismo sectário

Uma convivência de quarenta e cinco anos com membros de igrejas pôs-nos em contato com algum sectarismo e fanatismo eclesiástico. Mas nunca encontramos o sectarismo puro e sem mistura em nenhuma das igrejas. Na igreja há, junto com ele, alguma caridade para com os de outras denominações.

Mas, para achar o sectarismo genuíno e sem adulteração — o fanatismo feroz e sem mitigação, que não tolera opinião dissidente, que vai até onde a lei permite nos seus esforços de liquidar aqueles que pretende controlar mas não se submetem ao seu ditame —, é preciso ir a um líder de uma seita do “sem-seita”. Ali o encontramos em forma pura, sem o freio de nenhuma das amenidades da vida, sem a guia de princípio algum. Se você colidir com ele, ele assumirá como fato tudo o que desejar crer a seu respeito, e passará a anatematizá-lo “com sino, livro e vela”, tão cordialmente como se a sua condenação tivesse sido pronunciada por tribunal infalível. O anti-sectarismo é criador prolífico de sectarismo. É o solo em que o fanatismo prospera.

302. A obediência exigida

Se amamos a Deus, obedecer-lhe-emos não só em algumas coisas, mas em todas. Guardaremos os seus mandamentos porque são mandamentos dele. Quem faz algo porque está na moda obedece, na verdade, à moda, ainda que o que faz esteja de acordo com a vontade de Deus. A coisa feita pode ser certa, mas o mau motivo a despoja da sua virtude. Um soldado que se dispusesse a obedecer apenas às ordens que escolhesse não seria tolerado. A verdadeira prova da obediência está na nossa disposição de fazer o que sabemos ser certo quando é contrário às nossas inclinações. O milagre, no caso das vacas que, atreladas ao carro e deixadas à própria direção, tomaram o caminho da terra de Israel (1Sm 6), consistiu em que foram para longe de casa e para longe dos próprios bezerros. Quando você faz pela sua religião apenas o que está na moda, ou o que parece ser do seu interesse, não faz mais do que qualquer mundano. Publicanos e pecadores fazem o mesmo. Qualquer um que possa pagar usa roupas finas para ir à igreja. Mas vestir-se com simplicidade porque Deus o ordena manifesta o desejo de agradar a Deus. “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lc 6.46)

303. A obediência, prova de amizade por Cristo

A liberdade do Espírito não é espírito de insubordinação. Disse um filósofo grego: “A glória de um espartano está em saber obedecer bem.” Por isso os espartanos fizeram um registro sem igual na história do mundo: trezentos deles, sob Leônidas, 480 anos antes de Cristo, nas Termópilas, um desfiladeiro estreito nas montanhas, detiveram um exército de cerca de um milhão sob Xerxes, rei da Pérsia. Cristo faz da obediência universal a prova da amizade: “Vocês são meus amigos, se fazem o que eu mando.” (Jo 15.14) Uma religião que faz grandes profissões de amor a Cristo, mas não dá atenção a nenhum dos seus mandamentos senão aos que, no momento, são populares, não é a religião de Cristo. O verdadeiro cristão obedece a Cristo à custa de todas as coisas. Prova genuína a sua fé pela obediência, quando a obediência traz escárnio e opróbrio, perda de posição e perda da vida, se necessário. Ele tem o espírito do mártir. Não devemos esperar que nada menos que isso nos leve à glória.

304. A obediência aos mandamentos, marca do cristão

Ninguém tem o direito de dizer-se filho de Deus se não obedece a Deus. A Palavra de Deus não precisa, para garantir a obediência dos seus filhos, de endosso algum da opinião popular ou do ministro. “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor do que a gordura de carneiros.” (1Sm 15.22)

A velha declaração e promessa ainda valem: “Vejam que hoje eu ponho diante de vocês a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerem aos mandamentos do SENHOR, seu Deus, que hoje lhes ordeno; a maldição, se não obedecerem aos mandamentos do SENHOR, seu Deus.” (Dt 11.26-28)

Cristo dá a obediência universal aos seus mandamentos como a marca que distingue os seus amigos dos seus inimigos. Declara que os que não lhe obedecem não têm direito de professar-se seus servos: “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lc 6.46) Essa religião sentimental, que faz grande conta das ordenanças e festas cristãs e não dá atenção ao que Cristo diz sobre a abnegação e a vida devotada ao bem dos outros, não tem eficácia salvadora alguma. Engana para a perda da alma.

Extratos 305–318 · Obediência, ordem, oposição, pais e filhos, pastoral, paciência+

305. Obediência aos nossos superiores

Como cristãos, devemos não apenas obedecer a Cristo, mas prestar a devida obediência àqueles que Cristo, em sua providência, colocou sobre nós. O apóstolo estabelece a ordem com toda a clareza: “Obedeçam aos seus guias e sejam submissos a eles, pois eles velam pela alma de vocês como quem deve prestar contas, para que façam isso com alegria e não gemendo; porque isso não seria vantajoso para vocês.” (Hb 13.17) Aos coríntios escreveu: “Foi também para isso que escrevi a vocês: para pôr vocês à prova e ver se são obedientes em tudo.” (2Co 2.9)

A obediência deve ser, em todos os casos, no Senhor. Se os nossos governantes espirituais, ou mesmo civis, nos exigem algo que conflite claramente com os mandamentos de Cristo, o nosso dever é claro. Sempre que há conflito de autoridade, “importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). Mas deve estar claro que existe tal conflito. Não devemos confundir os ditames do nosso orgulho ou da nossa vontade própria com espírito de obediência.

306. A ordem é essencial

Pode haver poder sem ordem, mas ele é muitas vezes inútil e às vezes danoso. Há poder no ciclone — mas ele deixa ruína pelo caminho. É a brisa constante que leva o navio, alegre, ao porto. Há poder na torrente em que às vezes se transforma um riacho insignificante; mas ela carrega desolação consigo. Os rios constantes movem os moinhos e flutuam os navios. O apóstolo nos manda estar cheios do Espírito, mas no mesmo fôlego nos ordena o domínio próprio. Pode haver tanto sistema em nossas reuniões que se tornem mecânicas; pode haver tão pouco que elas se esgotem, sem deixar outro resultado senão energias desperdiçadas e esperanças frustradas. Uma turba desorganizada, por maior que seja o seu número, e por selvagem e desesperado que seja o seu valor, não é páreo para uns poucos soldados bem disciplinados, bem comandados e unidos.

307. Ordem e poder

Uma reunião não pode ser conduzida com êxito, a menos que o responsável tenha a capacidade e a habilidade de dar-lhe a devida direção e mantê-la bem nas mãos. Homens que não sabem submeter-se ao controle nunca estão aptos para o controle. O zelo sem lei pode excitar a admiração de alguns, mas não converte pecadores em santos, nem reforma a sociedade. Um cometa pode atrair mais atenção que o sol, mas não faz o milho crescer, nem os botões se abrirem em flores, nem as flores amadurecerem em fruto. Uma igreja bem organizada, ainda que com pouca vida aparente, durará mais e fará mais bem do que uma mera associação que parece pronta a conquistar o mundo pela exuberância de vida. Alguns morreram prematuramente porque não tinham corpo bastante para a alma. Se queremos trabalhar com êxito na causa de Deus, tomemos por lema: ordem e poder.

308. Os piedosos podem sofrer oposição

Jonathan Edwards foi um dos homens mais piedosos do seu tempo. É geralmente tido como um dos maiores teólogos de todas as eras. Diz o seu biógrafo: “Por muitos anos o sr. Edwards foi muito feliz no amor e na estima do seu povo, e havia, durante esse período, a maior expectativa de que assim vivesse e morresse. De fato, ele era quase o último ministro de toda a Nova Inglaterra de quem se pensaria que viria a sofrer oposição do seu povo. Contudo, depois de trabalhar com maravilhoso êxito em Northampton por vinte e quatro anos, foi ignominiosamente demitido pelo seu povo, porque sustentava que ninguém deveria ser admitido à Ceia do Senhor ‘sem fazer profissão de cristianismo real’.” Continuando a residir na cidade por alguns meses após a demissão, eles, embora sem pastor, recusaram-se a deixá-lo ocupar o púlpito que ele preenchera com tão marcada capacidade e êxito. E, no entanto, era homem amável e prudente, disposto a conceder tudo o que não implicasse rendição dos princípios cristãos. Foi depois escolhido presidente do Colégio de Nova Jérsei, cargo que exerceu com grande capacidade e satisfação geral.

309. Firmeza diante da oposição

Não se deixe intimidar pela oposição. Ela não pode feri-lo, se você permanecer firme. A árvore constantemente sacudida pelos ventos aprofunda as raízes. Se resta uma centelha de fogo num tição, corra com ele contra o vento, e você terá uma chama. Assim, se há alguma graça adormecida em sua alma, tome posição contra o vício e a tolice da moda — em você, em sua família e em sua igreja —, e logo sentirá

“aquela chama de fogo vivo
que brilhou tão clara nos santos de outrora”.

Deite-se em sossego, e o fogo divino se apagará por completo.

Onde os demônios se apressam ao assalto, os anjos se apressarão ao socorro. Cristo não lhe prometeu isenção de perseguição, mas prometeu alegrias indizíveis, no mundo por vir, aos que a suportam com bravura por amor dele. Fique firme, pois, ainda que homens perversos e demônios se enfureçam.

Nenhuma conversão dos nossos tempos é mais clara ou mais completa do que foi a de Saulo de Tarso. Contudo, ele não pensou que, por ter sido convertido sobrenaturalmente, a sua salvação eterna estivesse por isso garantida. Sentia exatamente o contrário. Depois de anos de ministério bem-sucedido, escreveu: “Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como golpeando o ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” (1Co 9.26-27) Note! Ele não corria e lutava e subjugava o corpo apenas para ser mais útil e não expor a causa de Deus ao opróbrio — mas para não perder a própria alma!

A salvação de nós, que pregamos o evangelho, não está garantida por esse fato. Pode-se cair do púlpito no abismo. Quem persuadiu outros a vir a Cristo pode perder do coração o Espírito de Cristo.

310. Devemos conhecer-nos a nós mesmos

Doenças ocultas são, muitas vezes, doenças perigosas. Uma pessoa pode julgar-se com saúde até estar além de socorro. Assim também alguém pode julgar-se em boa condição espiritual até despertar na eternidade e descobrir que se enganara, pensando estar todo certo quando estava todo errado. É coisa difícil conhecer-se a si mesmo. Só à luz do Espírito Santo podemos ver a nossa verdadeira condição espiritual. O salmista pergunta: “Quem pode discernir os próprios erros?” Entendemos muito mais prontamente os erros dos outros do que os nossos. O homem que escreve e fala com mais amargura contra outro pode ser realmente culpado da própria ofensa de que o outro é apenas acusado — sendo, na verdade, inocente. Muitas vezes se condena no outro o que se desculpa em si. Adotemos a petição: “Absolve-me das faltas ocultas.” (Sl 19.12)

311. Pais e filhos — a formação certa

Pais cristãos deveriam ter filhos cristãos. É o que naturalmente se espera. Pais maometanos nunca esperam que os filhos sejam outra coisa senão maometanos. Os romanistas cuidam de que os filhos sejam romanistas. Os verdadeiramente piedosos não deveriam poupar esforços para criar os filhos nas veredas da piedade. Deus o exige. A felicidade dos filhos exige que sejam criados no serviço de Deus. A sua salvação eterna o exige! Pais cristãos que se opõem aos filhos nos seus esforços de levar vida cristã devotada assumem responsabilidade temível. Diz Cristo: “Qualquer, porém, que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar.” (Mt 18.6) O caso se agrava quando o pequenino desviado do caminho é filho daquele que o faz tropeçar.

312. A superproteção é crueldade

A excessiva ternura de alguns pais pelos filhos é grande crueldade contra os filhos. “Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade.” (Lm 3.27) O jugo torna a pessoa útil. É dano grande e permanente, para qualquer criança, ser criada em hábitos de ociosidade. Disse um obreiro cristão: “Quando jovem, trabalhei de empregado por mês; e fui à faculdade; e até hoje não sei qual das duas coisas me fez mais bem. Trabalhando fora, formei hábitos de aplicação e de submissão, e a minha constituição física tornou-se forte e capaz de suportar labuta e privação.” Assim, porque você está num circuito e tem meninos capazes de trabalhar, não julgue necessário comprar ou arrendar uma fazenda para lhes dar ocupação. Que aprendam um ofício, ou empregue-os com um bom irmão para trabalhar na lavoura.

313. Os pais não devem transigir

Se você não consegue converter os seus filhos a Deus, não deixe que eles o convertam ao mundo. É triste ver uma mãe que era intransigentemente fiel a Deus, simples no vestir e nos hábitos, quando os filhos eram pequenos, tornar-se, quando crescidos, conformada ao mundo para agradá-los. Ela pode pensar que assim conservará o seu ascendente sobre eles e os levará à salvação; mas o provável é que eles a arrastem consigo para a perdição. Os pais nunca ganham influência religiosa real sobre os filhos transigindo. Se você permanecer sobre a rocha, terá muito mais chance de erguê-los até você, estendendo-lhes a mão, do que de empurrá-los para cima descendo você mesmo até eles, entre as ondas e vagalhões do mundo. Além disso, as vantagens mundanas que você lhes granjearia com tal proceder dificilmente se realizarão. Onde a promoção parece tão fácil, há competições, contendas e invejas com que você nem sonha. A filha que você queria casada com um próspero homem de negócios pode casar-se com um libertino irresponsável. Onde ela espera achar um lar, pode achar um inferno. É melhor casar no Senhor do que no mundo. E, ainda que as vantagens mundanas se realizem, paga-se caro demais por elas, se para obtê-las se perde a alma. Não valem o preço. Portanto, mãe: não se enfeite como mundana para agradar aos filhos. Não fique, ao aproximar-se da eternidade, tão míope que deixe de ver os tremendos interesses em jogo. Na primeira grande batalha da vida você foi vitoriosa; mantenha-se com coragem firme, e seja vitoriosa até o fim.

314. A propriedade da casa pastoral

Torne o lugar onde mora mais agradável e atraente pelo fato de você morar nele. Nunca moramos numa casa pastoral sem lhe fazer reparos e deixá-la em condição melhor do que a encontramos. Sabíamos que ficaríamos no máximo dois anos, mas plantamos árvores frutíferas com o propósito expresso de que outros gozassem do fruto. Todos devemos estar dispostos a conferir benefícios aos outros, mesmo quando não saibam quem é que os abençoa. Deus sabe, e nos assegura que, pelos benefícios que conferimos aos outros em segredo, ele nos recompensará abertamente. Se você crê nisso, aja de acordo. Se deixa a propriedade da casa pastoral degradar-se, as cercas caírem e a horta encher-se de mato, porque não espera ficar no circuito mais de um ano ou dois, então não professe santidade; não professe religião. A verdadeira santidade nos torna atenciosos com os outros. Leva-nos a cuidar do seu bem-estar. “Que cada um não cuide somente dos seus próprios interesses, mas também dos interesses dos outros.” (Fp 2.4)

315. Visitação pastoral

Pregadores que se acomodam num pequeno circuito e se contentam com pregar duas vezes no domingo e fazer, de vez em quando, uma visita social, não podem admirar-se de não serem sustentados. Semeiam pouco, e é ordem de Deus que colham pouco. Sua direção é: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2Ts 3.10) O pouco que fazem mal se pode chamar trabalho. Quem trabalhasse no seu ofício como eles na sua vocação logo ficaria sem serviço: ninguém o empregaria.

Irmão, levante-se de manhã, despache as suas tarefas e faça para Deus um bom e honesto dia de dez horas de trabalho — e veja se não será sustentado! Se não tem membros bastantes para ocupá-lo com visitas, vá visitar os pecadores. Converse com eles, ore com eles, e faça de três a dez visitas pastorais cada tarde. Marque pregações nas noites de dias úteis, nas escolas da redondeza, e desperte o povo a buscar a Deus. Entregue-se por inteiro à obra de salvar almas.

316. Sustento pastoral e visitação

Geralmente uma questão tem dois lados. Se um pregador não foi devidamente sustentado, talvez não tenha cumprido fielmente o seu dever. O povo, se pudesse ser ouvido, talvez se queixasse de que o pregador deixou de visitar os membros da congregação; de que manifestou pouco interesse pela salvação das almas; de que, no melhor dos casos, cumpriu os seus deveres de modo oficial, formal e burocrático. Antes de culpar os outros, consideremos com cuidado se não somos, ao menos em parte, culpados.

317. A paciência, graça utilíssima

A paciência é uma das mais úteis graças cristãs. Mal passa uma hora do dia sem que haja ocasião de exercê-la. O crescimento na graça é sempre marcado pelo crescimento na paciência. Devemos estar tão cheios de amor humilde que possamos suportar provocações sem nos provocar. Devemos ter paciência com os nossos próprios tropeços, tanto quanto com os erros e perversidades alheios.

318. A paciência terá a sua recompensa

Um lavrador plantou um grande pomar de pereiras. As árvores cresceram vigorosas, mas não deram fruto por vários anos. Cansado de esperar, o dono cortou a maior parte. No ano seguinte, as que restaram produziram tão abundantemente, e fruto tão escolhido, que ele foi amplamente recompensado por todo o seu trabalho. Arrependeu-se, então, de não ter esperado mais.

Bons cristãos às vezes esquecem que “fomos salvos na esperança” (Rm 8.24). Privam-se de muito consolo por olhar sempre para o lado escuro. Antecipam o pior, e os seus temores às vezes lhes trazem as calamidades que temem.

“Tenha esperança, bom ânimo. A fé trará
uma alegria viva a você,
e fará da sua vida um hino de louvor,
livre de dúvidas e murmúrios;
e, como o raio de sol, você abençoará
e levará felicidade aos outros.”

Na mais espessa escuridão, devemos exortar-nos como o salmista: “Por que você está abatida, ó minha alma? Por que se perturba dentro de mim? Espere em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” (Sl 42.11)

Extratos 319–332 · Amor perfeito, perseguição, perseverança, piedade, política+

319. Amor perfeito

Amor perfeito é termo bíblico. Significa o mesmo que inteira santificação, ou santidade. Mas nós o preferimos, porque, se alguém professa o amor perfeito, verá mais prontamente a sua incoerência, se manifestar qualquer gênio contrário ao amor. Além disso, ver-se-á mais facilmente que é alcançável. Quem tem consciência da própria ignorância e imperfeição hesita em falar de si como santo; mas qualquer um pode amar; e ser-lhe-á difícil dar uma razão pela qual não possa amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo. É também termo abrangente. Diz Wesley: “O amor perfeito implica: primeiro, inteira humildade; segundo, absoluta renúncia própria; terceiro, resignação sem reservas; quarto, tal união da nossa vontade com a divina que faz do cristão um só espírito com Deus.” Leitor, você goza do amor perfeito? Manifesta-o na família? Para com os que se opõem a você?

320. O amor perfeito é essencial

Se você pretende chegar ao céu, deve buscar ser aperfeiçoado no amor. Pode ser livre, destemido, forte e intransigente; mas, se não obtiver o amor que tudo sofre, você se indisporá com alguém, dará lugar a ressentimentos e se desviará. Poderá manter a profissão por um tempo, mas logo chegará ao ponto de endossar o que antes condenava sem reservas. Não há dificuldade em fazer um saco ficar de pé, se está cheio de trigo e bem amarrado; mas o saco vazio cai, se não o seguram. Se você quer manter-se sempre reto para Deus, conserve-se cheio de amor manso. Alguns dos maiores lutadores que já conhecemos, mas a quem faltava o “amor que jamais acaba” (1Co 13.8), passaram por fim para o lado daqueles a quem a vida inteira se haviam oposto. Chegaremos a lugares, em nossa experiência, onde fracassaremos, se não tivermos o amor dado por Deus, que “tudo sofre” e “tudo suporta”.

321. Perseguição

O maior livro religioso não inspirado foi escrito na cadeia. Nenhum outro livro, exceto a Bíblia, foi publicado em tantas línguas quanto O Peregrino. O crime pelo qual John Bunyan foi mandado à cadeia por cristãos professos foi pregar a Cristo. Tentaram limitar a sua influência, mas Deus fez disso a ocasião de dar-lhe uma influência sem limites de tempo ou espaço. Ofereceram-lhe a liberdade, se prometesse não pregar. Sua nobre resposta foi: “Estou resolvido a ficar aqui até que o musgo cresça sobre as minhas sobrancelhas, antes que prometer não declarar o que Deus fez pela minha alma.” A língua foi silenciada por uma estação, mas a pena ficou livre, e as suas palavras de sabedoria foram até os confins do mundo.

Sejamos, pois, destemidos por Cristo. A perseguição pode abrir-nos um campo de utilidade mais amplo do que a prosperidade abriria. Que o nosso cuidado seja manter a integridade, e Deus cuidará da nossa influência.

322. Firmeza sob perseguição

Nunca se desvie da fidelidade a Cristo. Você pode ser perseguido; mas seja firme e verdadeiro, e ou será liberto, ou ganhará a coroa de mártir. Além disso, a sua firmeza sob perseguição pode ser o meio de ganhar outros. Eusébio registra o seguinte sobre Tiago, o irmão de João, a quem Herodes matou à espada: “A respeito deste Tiago, Clemente, no sétimo livro de suas Instituições, relata uma história memorável, falando conforme ouvira dos seus predecessores. Diz ele que aquele que o acusou perante o tribunal, vendo-o testemunhar e declarar aberta e voluntariamente a fé de Cristo, comoveu-se e professou que também ele era cristão. ‘E assim’, diz, ‘foram ambos levados juntos ao suplício. E, no caminho, ele rogou a Tiago que o perdoasse; o qual, depois de breve reflexão, disse: “A paz seja contigo”, e o beijou; e assim foram ambos decapitados juntos.’”

323. Perseguir a Cristo em seus discípulos

Perseguir os discípulos de Cristo é perseguir a Cristo. Saulo de Tarso disse: “Persegui este Caminho até a morte, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres.” Quando Cristo lhe apareceu, ele não o reconheceu e perguntou quem era. A resposta foi: “Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem você persegue.” (At 22.8) E, contudo, não há evidência de que Saulo tivesse visto Jesus antes. Pessoalmente, Jesus estava além do alcance da perseguição. Mas a perseguição aos seus discípulos, ele a contava como perseguição a si mesmo. Ainda é assim. Toda indignidade feita a um seguidor de Cristo, por pertencer a Cristo, é indignidade feita ao próprio Cristo. Lembrem-se disto, vocês que tratam com escárnio e desprezo os humildes que se esforçam por seguir a Cristo plenamente. Quando ele se assentar no seu trono, julgando a humanidade segundo as suas obras, dirá a vocês: “Sempre que fizeram isso a um destes mais pequeninos, foi a mim que o fizeram.” (Mt 25.40)

324. Perseverança

A perseverança é tão necessária quanto o valor a um soldado da cruz. Não importa quão valentemente você lute: não será coroado, se fugir antes de terminada a guerra. Não havia homem mais bravo em nosso exército revolucionário do que Benedict Arnold. Mas a sua traição estragou tudo. É aos que, “perseverando em fazer o bem, buscam glória, honra e incorruptibilidade” que Deus dará a vida eterna (Rm 2.7). Muito reavivamento que começa com grande promessa deixa de produzir resultados gloriosos por falta de perseverança dos que o conduzem. Desanimam-se com demasiada facilidade. Uma pequena privação e um pequeno incômodo os vencem. Não gostam do frio — que soldado já gostou? Mas os soldados valentes se importam com o frio? Não gostam de ficar fora à noite. E, no entanto, antes de convertidos, talvez ficassem fora até mais tarde, no serviço do diabo. Mantenhamo-nos firmes na obra até ganhar a coroa.

325. A perseverança garantirá a recompensa

Para ganhar o céu, devemos perseverar até o fim. Esforços perseverantes, e não espasmódicos, ganham o prêmio. Uma boa planta é um bom começo de casa; mas, se não passa disso, não dará abrigo. Diz Secker: “Não tem louvor o marinheiro que afunda o navio antes de chegar ao porto; não alcança glória o soldado que depõe as armas no calor da batalha. Dizem que o crisólito, de cor dourada pela manhã, perde o brilho antes do entardecer: tais são as exibições reluzentes dos hipócritas. Embora meteoros de fogo caiam à terra, as estrelas fixas permanecem no céu.”

Os trens mais velozes sofrem os piores desastres quando saem dos trilhos. “Assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, andem nele, nele radicados e edificados, e confirmados na fé, tal como foram instruídos, transbordando de gratidão.” (Cl 2.6-7)

326. A maneira do trabalho pessoal

Se você tem um dever a cumprir para com a igreja, não o cumpra diante do mundo. Alguns pregadores, em sermões sobre os seus membros, especialmente nas reuniões campais, dão a impressão de que todos são um bando de hipócritas. A isso chamam “talhar na linha”. É pura calúnia por atacado. Tais sermões fazem mal. Pregadores que falam assim não devem admirar-se de ter congregações pequenas. Destrua a confiança do mundo na sua igreja, e os pecadores dirão: “Converta primeiro os seus membros, e depois venha pregar para nós.” Exige mais graça e coragem ir pessoalmente aos seus membros e dizer-lhes o que você julga errado no seu espírito e conduta, do que denunciá-los publicamente; mas fará muito mais bem a você e a eles. Pense nestas coisas e peça a Deus a sabedoria que vem do alto.

327. O apelo à “liberdade pessoal” é subterfúgio

Onde há vergonha, ainda há esperança. Quem se envergonha do seu modo de vida pode abandoná-lo.

Isso faria parecer que há esperança no caso dos advogados pagos da taberna. Eles nunca defendem a taberna. Nunca falam diretamente a seu favor. Não a mencionam. Ignoram a sua existência. A batalha pela taberna é chamada batalha pelo “respeito próprio e pela liberdade”. Os campeões da taberna são chamados “cidadãos amantes da liberdade, cumpridores da lei, absolutamente temperantes, nativos e adotivos”. Os defensores da proibição são chamados “maníacos”, e deles se diz: “Quando se tornarem maioria, será tempo de a gente decente emigrar para um despotismo mais simpático — a Rússia, por exemplo.”

Se tal linguagem é usada por vergonha, pelos que se venderam para advogar o interesse da bebida, então há esperança no seu caso. Mas tememos que seja adotada não por vergonha, mas por conveniência. Sabem que enfrentar a verdadeira questão seria cortejar a derrota. Por isso se põem a defender aquilo que nenhum proibicionista atacou: a “liberdade pessoal”.

328. O trabalho pessoal recomendado

Harlan Page foi um grande ganhador de almas. Era apenas membro comum da igreja; nunca se sentiu chamado a pregar, e nunca tentou pregar. Mas foi o instrumento da conversão de milhares, e levantou muitas igrejas fortes. Morreu aos quarenta e três anos. No leito de morte, disse:

“Considero a conversa pessoal e a oração com os indivíduos entre os meus esforços mais bem-sucedidos, e espero ter feito algum bem. Mas não sou eu. É tudo graça, em Cristo.” No começo da sua vida cristã, ele “resolveu, sempre que possível, falar aos irmãos e irmãs sobre os interesses da eternidade, e esforçar-se por despertar, neles e em si mesmo, diligência e empenho na grande obra de salvar almas”. Leitor, não seria bom você tomar resolução semelhante?

329. A piedade é um poder

A piedade de uma igreja é a medida do seu poder espiritual. Seu poder político costuma estar na proporção inversa da sua piedade. Nas votações, prevalecem os números; nas intercessões junto a Deus, prevalecem a fé e a vida santa. Um Abraão pesa mais, na balança de Deus, do que uma dúzia de Sodomas com todos os seus milionários. Stephen Olin, homem de grande intelecto e profunda piedade, disse: “Um bando de cem, ou de cinquenta, ou mesmo de dez cristãos vivos, fortes na afeição e confiança mútuas, e inteiros na sua devoção a Cristo e à salvação das almas, exerceria, estou certo, uma soma de influência religiosa imensuravelmente maior do que a normalmente exercida pelas nossas maiores e mais florescentes igrejas.” Era a opinião ponderada de um homem competente para julgar.

Por que não pode cada sociedade metodista livre ser um bando assim? Pode ser; deve ser. Leitor, você fará o possível para que a sua sociedade seja um bando assim?

330. Professos amantes dos prazeres

Paulo dá como uma das marcas dos últimos dias que os professos de religião serão “mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus” (2Tm 3.4).

Que esses dias estão sobre nós, muitas evidências inconfundíveis o mostram claramente. Vai virando moda construir templos com salas especialmente preparadas para satisfazer o amor à indulgência própria. Cozinhas, salões de jantar e salas de estar são acabados e mobiliados em casas de culto erguidas por uma denominação que diz ter sido levantada “para espalhar a santidade bíblica pela terra”. E são usados, não para alimentar os famintos, mas para prover entretenimento aos santos e pecadores da congregação. Diz o Holston Methodist: “Metodistas, batistas, presbiterianos e episcopais que bebem, dançam e jogam cartas estão fazendo mais para desacreditar o cristianismo do que toda a coorte de incrédulos do país.” Não há dúvida de que o grande estorvo à difusão do evangelho é a falta de graça salvadora na grande massa dos cristãos professos. Devemos ter cuidado para não encorajar em suas ilusões os que se julgam cristãos quando dão boa evidência de que não o são.

331. Prazer e piedade

As igrejas populares parecem estar entrando em grande escala no negócio dos divertimentos. No inverno, providenciam-se festanças de igreja, mundanas e sensuais o bastante para satisfazer qualquer pecador decente. No verão, montam-se balneários à beira do oceano e dos lagos, onde piedade e prazer podem combinar-se, por santos e pecadores, ao gosto de cada um. Até um povo tão sóbrio como têm sido os batistas do livre-arbítrio está sendo arrastado para esse redemoinho insaciável, em que tantos navios firmes de Sião vêm naufragando. Compraram um terreno à margem do lago Keuka, no centro de Nova York, para um balneário denominacional de verão.

Tudo indica que estamos nos últimos dias de que falou o apóstolo, quando os homens serão “mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Leitor, você está ligado a uma igreja assim? Se está, o mandamento de Deus para você é: “Afaste-se desses.” (2Tm 3.5)

332. Política e espiritualidade

Quando a agitação política sobe alto, os que querem salvar a alma devem vigiar e orar, ou serão arrastados por ela. Ninguém pode absorver-se na política e conservar a espiritualidade. Embora o filho de Deus deva ter o devido interesse pelos negócios civis, não pode deixar-se engolfar neles sem pôr em perigo a própria salvação. Como o Reino de Cristo não é deste mundo, os seus servos não podem travar batalhas políticas com armas comuns e carnais. Se dizem algo sobre assuntos políticos, deve ser de modo sereno e com a máxima candura. O santo deve apegar-se à verdade. Mas nos assuntos políticos há tanta deturpação e exagero que muitas vezes é difícil saber o que é verdade. Seja qual for o interesse que sintamos pela eleição de alguém, devemos ter interesse mais profundo em confirmar a nossa própria vocação e eleição (2Pe 1.10).

Um dos melhores obreiros que já conhecemos fora do ministério desviou-se por completo por meter-se na política, e morreu desviado. Era homem de boa capacidade. Suas convicções eram profundas, e ele tinha coragem de sustentá-las. O máximo que a perseguição pôde fazer não o induziu a tomar partido contra os que se esforçavam por promover a obra da santidade bíblica. Ele os defendia com a língua, a pena e os recursos. Em todos os seus conflitos, esteve com eles ombro a ombro. Era o tempo em que a questão da escravidão estava diante do povo. Ele tomou o lado dos oprimidos. Seu zelo e capacidade o tornaram proeminente. Foi atraído aos poucos para a política e posto num cargo. Conservou as convicções religiosas, mas perdeu a experiência. Na última vez em que o vimos, disse que não gozava de religião alguma. Mas, apertando-nos a mão calorosamente, com os olhos cheios de lágrimas, exclamou: “Ó irmão Roberts, fiquem firmes. Se os metodistas livres fraquejarem, não sei o que será do resto de nós.” Não muito depois, foi, por acidente súbito, chamado ao mundo dos espíritos.

Extratos 333–345 · Posição, calvinismo, poder do alto, louvor dos homens, oração+

333. A posição não deve ser buscada

Os esforços que muitas vezes se gastam na disputa por posição, se empregados em fazer bem os deveres presentes, teriam muito mais probabilidade de assegurá-la.

334. O erro fatal no ensino das igrejas populares

O calvinismo, em seus traços mais repulsivos, pode ter tido o seu dia. Mas a sua parte mais insidiosa e perigosa — a salvação final e incondicional dos crentes, isto é, dos eleitos — ainda está em voga. Duvidamos que jamais tenha tido maior curso, ou efeito mais terrível, do que no presente. Geralmente, nas igrejas populares, o pregador dá por certo que os que pertencem à igreja são todos crentes, no sentido neotestamentário. E, sendo crentes, ensina-se-lhes que não devem duvidar de que a sua salvação eterna está assegurada. Nenhuma indagação se faz sobre se algum dia nasceram do Espírito. Nenhuma nota se toma do fato de que nunca cumpriram as condições da salvação estabelecidas por Cristo, e de que continuam, como sempre, conformados ao mundo. Se se desviarem por completo, não precisam alarmar-se, pois certamente serão trazidos de volta a Deus — como ensina um hino muito cantado:

“Se eu o esquecer e me desgarrar,
bondoso ele me segue aonde quer que eu vá;
de volta aos seus braços queridos e amorosos eu fujo,
quando me lembro de que Jesus me ama.”

Essa doutrina está iludindo milhares para a sua ruína eterna. Está mandando multidões, das igrejas, para o inferno! Não: é perigoso esquecer a Deus e desgarrar-se dele, por pouco que seja. Os corpos em queda ganham velocidade enquanto caem. A cada minuto é preciso mais para detê-los. Os crentes ainda precisam atender à advertência que Davi fez ao seu filho verdadeiramente convertido: “Se você o buscar, ele deixará que você o encontre; mas, se o abandonar, ele o rejeitará para sempre.” (1Cr 28.9)

335. O poder, dom de Deus

O apóstolo declara que o Reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder (1Co 4.20). Credos são palavras; portanto, a crença num credo, por correto que seja, não constitui por si mesma um cristão. Profissões são palavras; portanto, profissões não provam que alguém esteja em estado de salvação. Se somos salvos, temos poder — poder sobre o nosso gênio, sobre os nossos apetites e paixões, sobre todo o poder do diabo, sobre o pecado em todas as suas formas. Isso é de maior importância do que a capacidade de fazer orações fluentes e pregar belos sermões. Você tem esse poder? Ele não se obtém pela leitura. Nenhuma soma de erudição o produz. É dom de Deus. É concedido em resposta à oração perseverante e penitente. “Melhor é o longânimo do que o herói de guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que conquista uma cidade.” (Pv 16.32)

336. O poder de Deus exibido

Quando Herodes pôs Pedro na prisão, os santos tinham pouca esperança pela sua vida. O rei matara Tiago e, vendo que isso agradava ao povo, pretendia aumentar a sua popularidade matando também Pedro. Julgou ter-lhe tornado impossível a fuga. Meteu-o no cárcere. Prendeu cada uma de suas mãos à mão de um soldado, de modo que Pedro dormia com um soldado de cada lado. Guardas foram postados diante da porta da prisão, de noite e de dia. O grande portão de ferro acrescentava segurança. A fuga parecia impossível.

Mas, quando Deus se dispõe a livrar um homem, correntes, guardas e prisões de nada valem. As impossibilidades se desfazem como névoa diante do sol. As correntes mais fortes não passam de teias de aranha. As muralhas mais altas são como o pavimento mais liso. Os guardas não valem mais que estátuas. Ao toque do anjo, as correntes caíram das mãos de Pedro; os guardas continuaram dormindo, sem perturbação; a porta trancada e o maciço portão de ferro abriram-se por si mesmos; e o servo do Senhor foi conduzido para fora, à livre luz do céu (At 12).

Nada pode resistir ao poder de Deus. Ele é o Senhor Todo-Poderoso! Bem-aventurado o homem que nele confia.

337. Poder pela contenção

O poder resulta, em grande parte, das contenções. A pólvora espalhada rala pelo chão, e acesa, produz um clarão inofensivo; mas confine-a numa arma, atrás de uma bala, aponte certo e aplique a faísca, e ela faz execução mortal. Cubra uma encosta de uma milha de largura com água de uma polegada de profundidade, e ela apenas lava o solo e o deixa estéril; confine-a num canal estreito e ponha-a em contato com o maquinário necessário, e ela move o maior dos moinhos. Algumas pessoas que parecem honestas, e querem fazer o bem, desperdiçam a vida em vaporações ociosas, porque não suportam contenção. Podem pertencer a uma igreja a cujos princípios estão fortemente apegadas; mas, se uma conferência de homens tão piedosos quanto elas, e que entendem as Escrituras tão bem quanto elas, discorda delas quanto ao melhor modo de alcançar um resultado que todos visam, retiram-se prontamente e se estabelecem por conta própria. Tentando influenciar a todos, não influenciam ninguém. Depois de alguns clarões que excitam atenção momentânea, apagam-se, e nunca mais se ouve falar delas.

338. O revestimento de poder

A grande carência dos nossos pregadores é o revestimento de poder do alto. Oh, que consentissem em vê-lo! Mas é um dos traços lamentáveis da destituição do Espírito que os que estão sem ele não sabem que não têm toda a influência do Espírito Santo de que precisam. São como pessoas adormecidas que não sabem que dormem. A direção que Cristo dá a essa classe de pregadores é: “Unja os olhos com colírio, para que você veja.” (Ap 3.18) Até que isso se faça, tateiam no escuro, ignorantes da própria condição e da condição dos que lhes foram confiados. Julgam-se em ordem quando, na realidade, lhes falta o essencial.

Quem parte de viagem cuida de prover-se de tudo o que é necessário para a viagem. Por que, então, tentar fazer a viagem da vida sem tanto do bendito Espírito de Deus quanto torne a viagem alegre e o fim glorioso? Especialmente quando todo aquele que obedece a Deus pode ter a plenitude do Espírito.

Amados, não se apresentem ao povo com sermões secos, orações que pregam e exortações que ralham. Vão a Deus em oração fervorosa, até que ele envie sobre vocês a plenitude do Espírito. Fiquem no propiciatório até serem revestidos de poder do alto.

Aberturas longas de reuniões, orações longas, testemunhos longos e sermões longos são indicações infalíveis de falta do Espírito Santo. Não leva muito tempo pôr em marcha uma máquina quando o vapor está alto; uma bombeada num poço de uso constante traz água. Assim, não leva muito tempo, para quem está cheio do Espírito, pôr as coisas em movimento na congregação. Foi curto o sermão que Pedro pregou quando o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a palavra (At 10.44). Foi curta a oração que fez quando Jesus estendeu a mão e o levou em segurança, sobre as águas que cediam, até o barco. Ore mais em secreto, e não precisará orar tão longamente em público. Um homem pode martelar no escuro sem acertar prego algum — e, quando acerta, é mais provável que o estrague do que o crave; mas quem trabalha na luz pode, com um ou dois golpes, cravar o prego em lugar firme. Venha ao povo diretamente da comunhão com Deus, e então poderá falar pouco, e ao ponto, e com poder.

339. Poder para falar

Para falar com poder, é preciso ter poder. As escolas podem ensinar-nos palavras, e como dispô-las em boa ordem; mas não podemos usá-las de modo a silenciar os contradizentes e conquistar os sinceros, a menos que estejamos cheios do Espírito Santo. O dr. Adam Clarke, grande erudito, diz: “Quem é ensinado nas coisas espirituais por Cristo Jesus tem dom melhor que a língua dos doutos. Quem é ensinado na escola de Cristo falará ao ponto, e com inteligência também, embora as suas palavras possam não ter aquele polimento com que se deixam arrebatar os que preferem o som ao senso.”

A fala incoerente e ao acaso nunca é inspirada pelo Espírito de Deus. Os que falam no Espírito usam linguagem simples, mas apropriada à ocasião, e com poder convincente.

340. O louvor dos homens destrói

Se você quer o louvor dos homens, e não pode passar sem ele, abandone toda ideia de ser cristão. Não disse o Mestre: “Ai de vocês, quando todos os elogiarem”? (Lc 6.26) Quem, dentre os que serviram a Deus com fidelidade, foi o favorito da geração em que viveu? “Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram?” (At 7.52) Somos melhores que eles? Não transija, pois, com a verdade de Deus para agradar aos homens,

“mas fale em palavras de poder vivo;
elas caem como gotas de chuva escaldante
que respingaram antes que o aguaceiro ardente
varresse as cidades da planície.

“Então o Ódio carrancudo empalidece de morte,
então saltam as víboras meio enroscadas da Paixão
e, feridas através da sua malha leprosa,
golpeiam a torto e a direito, na esperança de picar.”

Se você for fiel a Deus e sustentar as suas convicções, sem dúvida será picado. Mas a ferida não será fatal. Uma aplicação do bálsamo de Gileade a sarará de imediato. E, no fim, você sairá vitorioso. As cicatrizes do vencedor contam-se por gloriosas, pois mostram quão duramente disputadas foram as batalhas que ele venceu. Seja, pois, tão simples no vestir e tão franco na linguagem quanto Deus quiser.

341. A maneira de orar

Quando as pessoas oram como exercício intelectual e moral, podem orar por regra. Um homem acostumado a isso pode fazer um discurso sobre qualquer assunto de joelhos, ou de pé com os olhos fechados, tão bem quanto de pé com os olhos abertos. Mas orar de verdade é outra coisa. Quem ora no Espírito deve orar como o Espírito conduz. Balaão, quando falou por inspiração, não pôde dizer o que o rei o contratara para dizer, ainda que ele próprio o quisesse. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8.26) Nada, pois, de programas para as orações. A reunião de oração deve ser o lugar em que as almas fervorosas têm audiência com a Divindade. Que não se converta em lugar de entretenimento. Que não se faça dela ocasião de trocar elogios ou de acertar velhas contas. Que seja o vestíbulo do céu, onde chegamos confiadamente “junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4.16).

342. A resposta à oração reconhecida

Nenhum interesse terreno se compara em valor com a salvação da alma. Esta vida é curta; a eternidade é longa. Comete um erro tremendo quem sacrifica os interesses eternos por qualquer coisa, ou por todas as coisas, que este mundo pode dar.

Uma mãe afligia-se grandemente pela salvação do filho, que fora elevado ao pináculo da grandeza terrena como superintendente das finanças da França, nos dias do seu poder e esplendor. Quando, depois de anos de prosperidade, ele foi preso, a piedosa mãe, ao sabê-lo, lançou-se de joelhos e disse: “Graças te dou, ó Deus; sempre orei pela salvação dele, e eis aqui o caminho para ela!” A mãe estava sã e sensata. O filho morreu na prisão, mas a venerável mãe teve boa razão de esperança na sua morte.

Leitor, você está fazendo tudo o que pode pela salvação da sua família e dos seus amigos? Cristo diz: “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.” (Mt 12.30)

343. A oração ardente, carência da igreja

Devemos não apenas crer em Deus, mas crer no que Deus diz. Devemos tomar as suas declarações, uma a uma, e depositar plena confiança em cada uma. Só podemos ser verdadeiramente felizes sendo felizes em Deus. Diz o poeta Young:

“Uma Divindade crida é alegria começada;
uma Divindade adorada é alegria avançada;
uma Divindade amada é alegria amadurecida.
Cada ramo da piedade inspira deleite;
a fé lança uma ponte deste mundo ao próximo,
sobre o abismo escuro da morte, e esconde todos os seus horrores;
o louvor, doce exaltação da nossa alegria,
exalta essa alegria e a torna mais doce ainda;
a oração ardente abre o céu, faz descer uma torrente
de glória sobre a hora consagrada
do homem em audiência com a Divindade:
quem adora o grande Deus, nesse instante se une
aos primeiros do céu, e põe o pé sobre o inferno.”

A grande carência de todas as igrejas do país é a oração ardente.

344. A falta de fervor na oração explicada

Os cristãos professos não oram tanto, nem tão fervorosamente, quanto deveriam. A causa disso é, sem dúvida, em boa parte, o materialismo dominante da época. Mas Deus tem sobre a matéria o mesmo controle que tem sobre a mente. Devemos, pois, ir a ele com todas as nossas necessidades. Cristo, quando na terra, não confinou os seus bons ofícios às almas dos homens: fez muito pelos corpos de muitos. O apóstolo não põe restrições quando diz: “Não andem ansiosos por coisa alguma; em vez disso, em tudo, pela oração e pela súplica, com ações de graças, apresentem seus pedidos a Deus.” (Fp 4.6) Seus pedidos nem sempre serão atendidos. Talvez não seja o melhor para você que o sejam. Mas seguir-se-á este resultado glorioso: a paz de Deus reinará no seu coração. Deus sabe o que nos fará mais bem. Quando entregamos tudo à sabedoria e à misericórdia de Deus, é mais fácil submeter-se com alegria às suas providências.

345. A oração não deve ser negligenciada

Quando o trabalho aperta, não deixe a oração afrouxar. Quanto mais temos a fazer, mais lúcidos devemos estar. Os movimentos falsos exaurem as forças mais que os movimentos bem dirigidos. Golpes mal apontados podem ferir quem os dá. Irritar-se com homens, meninos, parelhas ou ferramentas atrapalha o trabalho mais do que o culto doméstico. Uma parelha, para trabalhar bem, precisa de tempo para comer. Assim, se você quer que os negócios do mundo corram bem, cuide de que os seus negócios com Deus estejam bem feitos. Onde quer que arme a sua tenda, edifique ali um altar. Tome tempo para orar, para ler a Bíblia e para ser abençoado. Seja este o seu primeiro e mais importante negócio. “A bênção do SENHOR enriquece, e com ela ele não traz nenhuma tristeza.” (Pv 10.22)

Extratos 346–359 · Oração que prevalece, pregação definida e no Espírito+

346. Oração que prevalece

Se você quer ser homem de Deus, deve ser homem de oração. Depois que Jacó lutou a noite inteira em oração, o anjo lhe disse: “O seu nome já não será Jacó, e sim Israel, pois como príncipe você lutou com Deus e com os homens e venceu.” (Gn 32.28) Quem quer, como cristão, ter poder com os homens, deve ter poder com Deus. Se você prevalecer com Deus, vencerá todos os que se opuserem. Os gigantes ainda caem diante dos pequenos Davis que avançam, fortes no Senhor dos Exércitos. O combate mais eficaz que travamos é o travado de joelhos. As vitórias ganhas em nossos quartos de oração são precursoras das vitórias a ganhar no grande campo de batalha da vida. “A oração ardente abre o céu” — não só para nós, mas também para os outros. A pregação pouco realiza, se não for acompanhada de muita oração. É de poder divino que precisamos; e o poder divino vem em resposta à oração fervorosa, obediente e constante.

347. A oração de coração simples prevalece

As orações, públicas ou privadas, devem ser feitas a Deus, e não dirigidas aos ouvidos dos homens. Quando prevalecemos com Deus em nossas orações, os homens são movidos. Jacó teve poder com Deus, e Esaú foi desarmado. O orar bem-sucedido removeu a necessidade de lutar.

Vença a batalha de joelhos, e não precisará temer os seus inimigos. Não “fabrique” orações quando orar. Retórica e eloquência não valem coisa alguma diante do propiciatório. Diz Davi: “Deus ouviu o meu clamor.” As figuras de linguagem de nada valeram; mas a expressão mais simples da necessidade sentida no coração trouxe alívio imediato. Em linguagem simples, mas com fé forte, apresente os seus pedidos a Deus.

348. A oração sem Cristo não vale

Um velho sentia que ia morrer em breve, e não estava pronto para morrer. Levara o que se chama uma vida moral, mas viu que isso não bastava. Por muitos anos fora “maçom aceito”, mas isso não lhe assegurava a aceitação diante de Deus. Ficou verdadeiramente preocupado com a salvação da alma. Começou a orar. Parecia orar com grande fervor, mas a paz não vinha à sua alma. A esposa, cristã devotada, notou que ele nunca mencionava Cristo nas orações. Orava sempre ao “Pai nosso”. Ela lhe explicou o sentido das palavras: “Se vocês me pedirem alguma coisa em meu nome, eu o farei.” (Jo 14.14) Ele captou a ideia. Veio a Deus por meio de Cristo, achou perdão e paz, e morreu em santo triunfo.

“Até então”, disse a esposa, “eu não via mal algum na maçonaria. Agora vejo que é um laço destruidor de almas — uma armadilha bem iscada do diabo para apanhar almas.”

349. É preciso garantir tempo para a oração

Convém olhar a razão que os apóstolos deram ao pedir auxiliares. Não foi por terem demais a fazer e quererem facilitar as coisas. Não foi para escapar ao ódio em que quase necessariamente se incorre ao decidir entre interesses conflitantes. Nenhuma consideração egoísta os moveu a pedir ajuda. Foram inspirados simplesmente pelo amor às almas. Queriam devotar-se por inteiro ao trabalho espiritual, sem estorvo. “E, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra.” (At 6.4) Diz Adam Clarke: “Nem os apóstolos podiam viver sem oração; não tinham graças independentes; o que tinham não podia ser conservado sem aumento; e por esse aumento deviam orar e suplicar, dependendo continuamente do seu Deus. O ministro que não ora muito estuda em vão.”

A grande carência da igreja nestes dias são pregadores que oram. Os apóstolos puseram a oração em primeiro lugar. Não era pública, nem ocasional: era contínua. Os pregadores que seguem esse exemplo têm êxito na obra.

350. A importância de perseverar na oração

Muita oração em secreto abre caminho para orações curtas em público. Não leva muito tempo para chegar a Deus quem está acostumado a ir a Deus. Bomba de uso constante não precisa ser escorvada: poucas bombeadas trazem água. Se um pregador sobe ao púlpito desviado, é melhor que, antes de tentar pregar, ore até ser restaurado. Mas deveria tê-lo feito no quarto. Se falássemos mais com Deus, precisaríamos falar menos com os homens para persuadi-los à ação correta.

Escreveu Bramwell: “Ore! Ore! e persevere nisso; suplique nisso, chore nisso, gema nisso.” Cristo diz que “deviam orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1). Derrame livremente as suas queixas diante de Deus, e terá menos queixas a fazer aos homens. Mais trabalho de joelhos deixará menos trabalho para a cabeça. Quanto mais oração, menos perplexidade. Quando os mares se abrem e dão passagem, não é preciso ponte. A oração não só supre as necessidades: diminui as necessidades. Quem tem a Deus tem tudo.

351. Oração e prudência

Nenhuma soma de oração, e nenhuma certeza, por clara que seja, de que a nossa oração foi respondida, pode dispensar a necessidade de fazermos a nossa parte para alcançar o resultado desejado. Se o lavrador quer uma colheita de milho, orar não substituirá o arar. Paulo, nas mãos dos inimigos, recebeu uma visita do Senhor, que lhe disse: “Coragem! Pois assim como você testemunhou a meu respeito em Jerusalém, é necessário que testemunhe também em Roma.” (At 23.11) Mas, quando soube que os judeus haviam conspirado para matá-lo, tomou, para preservar a vida, os mesmos meios prudentes que naturalmente tomaria um homem sábio e corajoso sem garantia alguma de proteção divina.

352. A reunião de oração primitiva

Fazia-se pela igreja intensa oração por Pedro. Havia uma grande reunião de oração por ele na casa da mãe de João Marcos. Prolongou-se até alta noite. Parece que oravam com mais fervor do que fé. Pois, quando uma moça da companhia, que ouvira baterem ao portão e fora ver o que era, entrou e lhes disse que as orações estavam respondidas e Pedro estava ao portão, não puderam crer. Disseram que ela estava louca. Quando ela insistiu que tinha razão, que vira e ouvira o apóstolo e o deixara ao portão, disseram: “É o anjo dele.” (At 12)

Com que fidelidade imitamos a igreja primitiva nas dúvidas, já que não a imitamos no fervor! Oramos e, quando recebemos de modo inesperado aquilo por que oramos, achamos que deve ser outra coisa. Com toda a sinceridade pedimos ao Senhor que nos santifique por completo. Cai sobre nós uma grande bênção, mas concluímos que é só aparência, e não realidade! E assim a bênção se perde.

Outras vezes oramos pela saúde do corpo, ou por ajuda nos negócios, e recebemos aquilo por que oramos. Não podemos duvidar da realidade — e então começamos a duvidar de que veio em resposta à oração. Somos indignos de ter as orações respondidas, e concluímos que o resultado teria sido o mesmo sem oração. Assim Deus é desonrado, a fé paralisada, a espiritualidade atrofiada e a mundanidade encorajada.

Amados, quando receberem as coisas por que oram, creiam que vieram em resposta à oração, e deem glória a Deus. Tenham fé em Deus.

353. Pregue a verdade do evangelho

Alguns professos pregadores do evangelho evidentemente erraram de vocação. Manifestam o instinto de detetives, mais que o de homens de Deus. Seu faro para o mal alheio é sobrenaturalmente aguçado. Convivem familiarmente com os outros para, como o detetive disfarçado, montar um processo contra eles. Alguns rondam quintais e esquadrinham varais com olho crítico, a ver se encontram algo que convença a família de orgulho. Têm prazer em mostrar que os que, aos olhos dos demais, dão boa evidência de levar vida cristã abnegada estão, apesar disso, no caminho da morte. Quando pregam, é para acusar; quando escrevem, é para condenar. Se alguém objeta aos seus métodos, dizem que é porque não suporta a verdade. Amados, lembrem-se de que há muitas verdades que não são verdades do evangelho. Muito do que, nos tribunais de polícia, se prova verdadeiro não serve para o púlpito. Deem ao povo as verdades limpas e nítidas do evangelho, e em geral ele as receberá. Não é possível afirmá-las com força demais para os que são honestos. Mas as almas famintas, ansiosas por alimento, objetam com toda a razão a que se lhes sirva um prato de escândalo. Os que têm sede da água da vida afastam-se com repugnância da mistura tirada do esgoto, ainda que oferecida por um ministro do evangelho. Fique atento ao bem; o mal se manifestará por si, cedo e depressa, e você poderá corrigi-lo.

354. Pregue o evangelho constantemente

Deus chamou os pregadores metodistas livres para pregar o evangelho. Sejamos fiéis ao nosso chamado. Que nenhum zelo por reformas, por necessárias que sejam, nos leve a negligenciar no mínimo aquela obra do Espírito no coração humano que está na base de todas as reformas.

Se não conseguir congregação na igreja, vá, assim que chegar o tempo quente, a algum lugar adequado ao ar livre. Mas, aonde quer que vá, leve consigo “boas-novas de grande alegria para todo o povo” (Lc 2.10).

355. Pregação definida

Quando pregar, tenha algo a dizer. Não deixe os ouvintes vagando por um deserto de palavras, sem trazê-los à luz. Chegue a algum ponto. Se não tem nada a dizer, pare. Não fique matraqueando, tentando tirar água de poço seco. Melhor derreter neve, se houver alguma à mão. Se você está desviado, no coração ou na vida, confesse-o e volte a Deus. Largue a sua oração seca e estereotipada, quebrante-se diante de Deus e clame a ele de verdade, e você terá um novo começo. E as suas reuniões também. Outros apanharão o seu espírito fervoroso, e logo se verão manifestações de poder salvador. Um pregador vivo atrairá atenção em qualquer lugar, especialmente entre os espiritualmente mortos. Mas um povo há de estar muito cheio de vida para que um pregador morto não consiga fazer nele uma reunião morta.

356. Propósito definido na pregação

O pregador deve apelar à consciência, mas nunca deve tentar tomar o lugar da consciência. Não deve pretender entrar em todos os pormenores da vida privada. Seus sermões não devem compor-se de “generalidades reluzentes”, por um lado; nem, por outro, descer a cada minúcia. Os apóstolos não o faziam. Estabeleciam princípios gerais, ministravam o Espírito e deixavam que os ouvintes aplicassem à vida diária as verdades ouvidas.

Embora alguns pregadores errem por descer minuciosamente demais aos pormenores, o erro mais comum é ser indefinido demais. As afirmações de verdade que fazem são vagas e sem apoio; a consciência não é despertada; e a instrução dada causa pouca impressão. Isso nasce, em grande parte, da falta de um propósito definido a alcançar com o sermão. “O que desejo persuadir os ouvintes a fazer?” — eis a pergunta que o pregador deve fazer a si mesmo. Deve então adotar meios que tendam a produzir os resultados desejados. Tiros ao acaso podem fazer tanto mal quanto bem. Grande estrondo e matraca não ganham necessariamente a batalha. É preciso boa munição e pontaria certa, para que o trabalho não se perca.

357. Exige-se verdade fresca

Por melhor que seja o feno velho, as ovelhas o abandonam pelo pasto verde, por pobre que seja. O feno pode ser mais nutritivo, mas elas o deixarão para mordiscar o capim verde.

As ovelhas de Cristo agem de modo muito parecido. Afastar-se-ão de um sermão competente e seco para ouvir meninos e meninas que há pouco provaram as alegrias da salvação contarem o que o Senhor fez por suas almas. Tais preferências podem parecer teimosia, mas não há remédio. Nós, pregadores, teremos de submeter-nos. Nosso único meio de conservar a atenção do povo é ter algo bom e fresco para ele. Devemos nós mesmos avançar para os pastos verdejantes, e o povo prontamente nos seguirá até lá. O pregador que cresce constantemente em espiritualidade não se torna cansativo. Uma alma seca só pode ser seca na expressão. Quem mal suporta a si mesmo, por causa da própria morte espiritual, não deve admirar-se de que os santos não queiram ouvi-lo pregar. Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21.17).

358. O hipócrita que prega

Um dos melhores sermões que já ouvimos foi pregado por um homem irremediavelmente desviado de Deus. Ele preparara o sermão quando gozava da religião, e o pregara até se lhe tornar familiar. Tinha convicção bastante para dar-lhe sentimento, e a congregação pareceu, no momento, arrebatada por ele. Mais tarde foi para a penitenciária por crimes que já então cometia.

Diz Fletcher do hipócrita que prega: “Ele pode ter alguns sentimentos, mas eles acabam com o sermão ou a oração; algum calor pela igreja, como Jeú, porque é o seu partido. Mas o ministro cristão tem mais zelo no peito do que na língua. Como Elias, ‘a palavra do Senhor é como fogo em seus ossos’. Sua alma ‘chora em secreto’ pelos pecados que reprova em público. Ele pode escrever probatum est (está provado) sobre aquilo que prega; e o seu zelo tem larguíssima medida de amor evangélico: salva os outros enquanto consome a ele próprio.”

359. A pregação deve ser no Espírito Santo

Os homens podem aprender a pregar a verdade. O estudo da teologia os habilita a isso. Mas há uma coisa que nenhuma escola pode ensinar — e é o essencial para o êxito de toda pregação: pregar no Espírito Santo. Um pregador pode aquecer-se com o assunto; pode ter fortes qualidades sociais e saber tocar as simpatias alheias. Isso pode atrair os ouvintes a ele — mas não os atrairá à cruz. Pode fazê-los seus partidários — mas não os fará santos. Para ver almas salvas, você precisa do batismo do Espírito Santo. Ele porá fogo nas suas palavras. Os que o ouvirem serão compungidos no coração. Um e outro clamarão: “Que devo fazer para ser salvo?” (At 16.30)

Extratos 360–365 · O chamado ao ministério e a recomendação de pregadores+

360. Pregadores — evidências do seu chamado

Ser agente, nas mãos de Deus, para salvar almas do poder do pecado e elevá-las a uma vida divina é a obra mais nobre em que um ser humano pode empenhar-se. Deus chama os homens pessoalmente para esse serviço. “Ninguém toma esta honra para si mesmo, mas somente quem é chamado por Deus, como foi o caso de Arão.” (Hb 5.4) Mas como pode um homem saber que é chamado por Deus para a obra do ministério?

1. Ele ouvirá, na alma, o chamado do Espírito. Haverá em seu coração a impressão permanente de que essa há de ser a sua obra.

2. Os espirituais dentre o povo de Deus sentirão que ele tem uma obra a fazer para Deus, e o encorajarão nela.

3. Por iletrado que seja, Deus lhe concederá dons de graça tais que a sua linguagem, embora possa faltar-lhe exatidão e polimento, terá peso e poder. “Ao verem a ousadia de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, ficaram admirados; e reconheceram que eles haviam estado com Jesus.” (At 4.13) Todo homem sem instrução, chamado por Deus a pregar, causa impressão semelhante.

Numa cidade grande, sede de comarca, um cavalheiro nos disse: “Mais homens de profissão liberal — advogados e médicos — saem para ouvir o seu pregador do que para ouvir todos os outros pregadores da cidade.”

“E por quê? Ele é homem sem instrução, vindo há pouco da lavoura.”

“Fui ouvi-lo várias vezes, de propósito, para poder responder a essa pergunta. Cheguei à conclusão de que é porque ele prega por inspiração.”

4. Os santos serão edificados e os pecadores, convertidos sob a sua pregação. Ele pode despertar feroz oposição, mas fará o bem; edificará, e não derrubará.

Não é evidência de que um homem seja chamado por Deus para pregar o fato de conseguir agitar um mau espírito em homens maus e professos formais. Os pecadores fazem isso. Se Cristo está com um homem, ele pode não apenas agitar demônios: pode expulsá-los.

“Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto.” (Jo 15.5)

361. Pregadores — dons e graças

Se um homem não possui os dons naturais e da graça que, devidamente cultivados e usados, farão dele um ministro bem-sucedido, então é evidente que Deus não o chama para a obra do ministério. Diz o dr. Adam Clarke: “Sob a influência da graça de Cristo, tudo se converte em vantagem para o homem. Ao homem que ele chama para a sua obra, ele cuidará de dotar de toda qualificação necessária. E será demais dizer que Deus nunca chamou um homem para pregar o evangelho sem qualificá-lo de tal maneira que tanto o obreiro quanto a obra se mostrassem ser de Deus?” Mas o homem chamado por Deus a pregar nem sempre é, por si mesmo, juiz suficiente. Muitos julgam-se chamados por Deus sem dar disso evidência satisfatória aos outros, especialmente aos espirituais. Outros mal se dispõem a admitir que o chamado de Deus está sobre eles, quando os santos em geral sentem que Deus fala por seu intermédio e os chamou para a sua obra. Foi o caso de John Knox, de Whitefield, do dr. Redfield e de muitos outros.

362. Os chamados por Deus são, muitas vezes, lentos e acanhados

Alguns ministros muito capazes e corajosos foram lentíssimos em entrar na obra do ministério. A igreja teve de fazer de tudo para movê-los.

John Knox resistiu às mais fervorosas solicitações para pregar. Por fim, o ministro e a igreja lhe fizeram um chamado público. O ministro, depois de pregar um poderoso sermão sobre a autoridade da igreja para licenciar ministros, voltou-se para Knox e disse: “Irmão, em nome de Deus e de seu Filho Jesus Cristo, e em nome de todos os que presentemente o chamam pela minha boca, eu o conjuro a não recusar esta santa vocação; mas, como quem preza a glória de Deus, o crescimento do reino de Cristo e a edificação dos seus irmãos, tome sobre si o ofício público e o encargo da pregação, se quer evitar o pesado desagrado de Deus e deseja que ele multiplique as suas graças sobre você.” Depois, dirigindo-se à congregação, disse: “Não foi este o encargo que me deram? Não aprovam esta vocação?” Todos responderam: “Foi, e aprovamos.”

Knox não conseguiu falar; mas, desfazendo-se em lágrimas, retirou-se da congregação.

363. Negligenciar o chamado é perigoso

O homem a quem Deus chama para pregar deve pregar. Pode fazer outras coisas, mas não deve permitir que nada interfira com a sua pregação. Se permitir, é provável que entre em rota de colisão com as providências de Deus. Pode correr atrás do mundo, mas as rodas do seu carro se arrastarão pesadas. Pode contar com uma de duas coisas: ou perderá a alma, ou perderá a propriedade que adquiriu negligenciando a obra que Deus lhe deu — talvez ambas. Um homem não pode negligenciar habitualmente a obra a que Cristo o chama sem cair em condenação. Mas não há condenação para quem está em Cristo Jesus. Ele pode estar na igreja; mas, se não está em Cristo, é candidato à perdição. Nenhuma forma de religião, nenhuma reputação entre os homens, nenhuma soma de bens pode salvar quem vive em desobediência deliberada aos mandamentos de Cristo. Talento enterrado é talento mal usado. Quem não ajunta com Cristo espalha. É loucura um inútil desses sonhar com o céu. Cristo pronuncia a sua sentença: “E lancem o servo inútil para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes.” (Mt 25.30)

364. A recomendação de pregadores

Nossas conferências trimestrais devem exercer grande cuidado ao recomendar pregadores para a conexão itinerante. Sua recomendação não é formalidade. Carrega grande peso. Deve ser quase conclusiva. Pois se supõe que a conferência trimestral conheça intimamente cada pessoa que recomenda. Além disso, agem por si mesmas, tanto quanto pelos outros: o recomendado pode ser mandado de volta ao circuito como seu pregador.

Geralmente é uma provação, para quem é recomendado a uma conferência anual, não ser admitido. Nesse caso, ele muitas vezes sente que não se lhe fez justiça. Os que o conhecem bem, entre os quais talvez tenha vivido por anos, votaram nele; e agora, quando estranhos o rejeitam, tende a concluir que não foi representado nem tratado com equidade. Às vezes os recomendados fazem preparativos para entrar na conferência que envolvem sacrifícios pecuniários. Se não são recebidos, sentem-se lesados. Se não se desviam por causa disso, o seu gozo religioso fica perturbado e a sua capacidade de ser útil, diminuída.

Portanto, embora as conferências trimestrais devam encorajar todas as pessoas adequadas, devem ter muito cuidado de não recomendar senão os que são, em todos os aspectos, adequados para entrar na conexão itinerante.

Em particular, devem verificar que cada recomendado:

1. Possua as qualificações espirituais necessárias. Ele fará obra espiritual; deve, portanto, ser homem espiritual. Antes de tudo, deve ser homem de piedade comprovada. Se não conhece por experiência o caminho da salvação, não pode conduzir outros por esse caminho. Nenhum homem de piedade duvidosa deve jamais ser posto à frente na igreja de Jesus Cristo. Os pregadores do evangelho devem estar convertidos e santificados antes de começar a pregar. Sejam quais forem as outras qualificações, se alguém não vive a religião que professa, não deve ser recomendado por uma conferência trimestral.

2. Possua os dons necessários para a obra. Deve ter ideias corretas das verdades mais simples do evangelho. Ninguém pode ensinar o que não sabe. Deve ter o dom da palavra: ele há de declarar ao povo as palavras da vida eterna, e deve, portanto, saber expressar-se com clareza e força. O uso adequado pode fortalecer as faculdades, mas não pode criá-las.

3. Seja bem-sucedido na obra. Nem o Novo Testamento, nem a nossa Disciplina, contempla o lançar na obra responsável do ministério homens crus e inexperientes. Nosso Salvador chamou homens de suas redes de pesca para levar o seu evangelho ao mundo; mas deu-lhes um treinamento prático de três anos antes que entrassem plenamente na obra. E, mesmo depois disso, disse-lhes, antes que partissem finalmente para a sua missão: “Permaneçam na cidade, até que do alto sejam revestidos de poder.” (Lc 24.49)

São Paulo, falando dos que estavam prestes a assumir os deveres mais altos do ministério, escreveu: “Também sejam estes primeiramente experimentados.” (1Tm 3.10)

Nossa Disciplina, ao dar direções para o “exame dos que julgam ser movidos pelo Espírito Santo a pregar”, pergunta: “Têm fruto? Há quem tenha sido verdadeiramente convencido do pecado e convertido a Deus pela sua pregação?”

Não recomendem, pois, ninguém para ser recebido por uma conferência anual antes que tenha demonstrado, pelo zelo pela salvação das almas e pelo êxito em ganhá-las para Cristo, que Deus o chamou para ir diante dos homens como seu embaixador. Nosso povo deve empenhar o máximo cuidado em assegurar para si um ministério capaz e eficiente. E o lugar próprio de guardar esse ponto é a porta pela qual os homens são admitidos ao ministério, não aquela pela qual são enviados aos seus respectivos circuitos. Da primeira, o povo é o guardião próprio; a segunda, deixe-a aos que têm essa fidelidade confiada.

Algumas coisas menores também devem pesar na decisão de recomendar alguém para a conexão itinerante.

Tem saúde adequada? A vocação é trabalhosa. Faz grandes saques das energias físicas e nervosas. Tem família? Se tem, ela o ajudará, ou a sua influência tenderá a neutralizar os seus labores? Os metodistas primitivos da Inglaterra só admitem homens solteiros à sua conferência, e exigem que viajem quatro anos antes de casar.

Está endividado? Nossos pregadores recebem, no melhor dos casos, sustento apenas moderado, e não se deve recomendar ninguém que tenha dívidas pendentes que não possa pagar. O pregador que pede admissão a uma conferência deve ter também cavalo e sela, ou charrete, e um suprimento moderado de livros.

Se mais dos nossos homens entrassem no ministério mais bem preparados, nele permaneceriam por mais tempo. É grande estorvo à obra de Deus que homens abandonem o ministério justamente quando estão preparados para se tornarem mais eficazes.

Esperamos que cada membro das nossas conferências trimestrais considere cuidadosamente estas coisas e aja com inteligência e consciência na recomendação de pregadores.

365. A recomendação de pregadores — continuação

De novo chamamos a atenção das nossas conferências trimestrais para este assunto. A questão de conceder licenças de pregação, e de recomendar pregadores à conexão itinerante, é das mais importantes que chegam a uma conferência trimestral. É ato que deve ser praticado com grande cuidado, candura e consciência. O preconceito, o sentimento partidário e a simpatia pessoal devem ser cuidadosamente vigiados, sem que se lhes permita influência alguma na decisão de quem será licenciado a pregar e de quem será recomendado para a obra regular do ministério. O temor de Deus, e um amor ardente pela sua causa, devem governar o juízo nessas matérias. A causa de Deus pode sofrer perda séria por se manter fora do ministério aqueles a quem ele chamou para essa obra. Pode sofrer muito pela introdução de pessoas impróprias no ministério, ou pelo empurrar prematuro dos que são realmente chamados a pregar. Em regra, é melhor para o homem, e melhor para a obra, que ele entre mais tarde e permaneça mais tempo, do que comece cedo e desista cedo. Precisamos de todo o juízo de que dispomos, e de toda a sabedoria celestial que pudermos obter, para saber pôr à frente os homens certos no tempo certo.

Ao que já dissemos, desejamos acrescentar o seguinte: verifiquem que cada um que recomendarem seja não apenas verdadeiramente convertido e realmente chamado por Deus a pregar, mas também metodista livre nos princípios e nas práticas. Muita gente é chamada por Deus a pregar, sem ser chamada a pregar entre nós. Um pato pode ser ave tão útil quanto uma galinha, mas requer outro quintal. Um pregador, para desenvolver-se plenamente e fazer todo o bem de que é capaz, deve estar ligado ao povo a que propriamente pertence.

Antes de dar o primeiro passo para introduzir alguém no nosso ministério, devemos estar convencidos de que ele é, em suas convicções interiores, metodista livre. Se alguém pode sentir-se tão em casa noutra denominação quanto conosco, melhor que vá para lá desde o começo — pois provavelmente irá, depois de termos tido o trabalho e o custo de treiná-lo. Há tantas dificuldades na obra do ministro fiel do evangelho que quem não está plenamente convencido de estar no seu devido lugar tenderá a querer mudar de relações à primeira oportunidade favorável. Nosso povo, em regra, tem convicções religiosas profundas. Não visa tanto a edificar uma denominação quanto a espalhar o conhecimento da verdade como ela é em Jesus. Um pregador que não partilha dessas convicções tenderá a mostrar-se inaceitável aonde quer que seja enviado, sem razão aparente. Pode guardar as dúvidas para si, mas dificilmente terá êxito entre nós, seja qual for a sua capacidade, a menos que o seu intelecto, os seus afetos, a sua consciência e a sua vontade estejam na obra. Depois de enfraquecer, se não destruir, várias sociedades, provavelmente buscará relações mais afins.

Cuidemos, pois, de que alguém tenha convicções inteligentes e claras da verdade do evangelho, como a sustentamos, antes de enviá-lo a pregar entre nós.

Se há dúvida razoável no caso de alguém, geralmente é melhor deixá-lo viajar sob o presidente distrital até que essas dúvidas se removam. Se sentir que deve, poderá então retirar-se com menos dano à obra e menos descrédito para si do que se estivesse na conexão itinerante.

Portanto, que ninguém seja recomendado pelas nossas conferências trimestrais, a menos que haja probabilidade forte e razoável de que se fará pregador aceitável e útil entre nós.

Extratos 366–378 · Pregadores: licença, consagração, convicções, humildade, reverência+

366. O licenciamento de pregadores

Nem todo aquele que sabe falar e orar com fluência é chamado a pregar. E nem todos os que se sentem chamados a pregar são chamados a pregar entre nós. Deus nos deu, como povo, a nossa obra especial, e devemos apegar-nos a ela. Para isso, é da máxima importância que todos os nossos pregadores, evangelistas e mestres públicos sejam de um só coração e uma só mente nas coisas de Deus. Quando alguém se apresenta para licença, o presidente distrital deve instituir cuidadoso exame quanto às doutrinas. Sejam quais forem os dons de alguém, ele não deve ser licenciado a pregar, nem a dirigir reuniões entre nós, se não for são na fé. Se não está em pleno acordo conosco, que vá para outro lugar. Nosso povo é, com razão, muito exigente quanto ao que ouve. Suporta bastante sintaxe errada, mas não suporta doutrina errada. É extremamente rigoroso nesse ponto. Por tortas que sejam as frases, quer as doutrinas direitas. Que todos os que têm a ver com a concessão de licenças cuidem de não licenciar ninguém que traga outro evangelho além do que vocês receberam desde o princípio. Recusar pode doer; mas conceder a licença só criará problemas. Doerá mais retirá-la — como vocês serão obrigados a fazer — do que recusá-la no começo. Sejam bondosos, mas firmes.

367. Os pregadores devem estar consagrados ao trabalho

Alguns parecem pensar que não podem estar inteiramente consagrados a Deus, a menos que passem todo o tempo em reuniões. É grande engano. Deus pode chamar alguns a dedicar mais tempo às reuniões; mas comparativamente poucos são assim chamados. Até Paulo, incessante como era nos labores do evangelho, achava tempo para trabalhar no seu ofício, a fim de sustentar-se a si e aos que estavam com ele. O fato de Deus chamar um homem a pregar não é razão para que ele nunca trabalhe com as mãos. Em regra, trabalhar com as mãos algumas horas por dia o ajudará a pregar. Dar-lhe-á maior vigor de corpo e de mente. Num dos campos mais importantes, fortes e generosos que já tivemos, arranjamos outro cavalo, juntamo-lo ao nosso e carreamos a nossa lenha do ano. Serramos e rachamos no inverno. No verão, fizemos com as próprias mãos uma boa horta, que contribuiu materialmente para o nosso sustento. E, ainda assim, mantivemos, presumimos, em média uma reunião por dia ao longo do ano. Tínhamos pregações nas noites de dias úteis, nas escolas da redondeza. Deus nos deu reavivamentos poderosos. Não desabamos com isso: crescemos em graça e em força física. Espiritualidade e indústria andam bem juntas. Basta conservar a mente firmada em Deus, o olho único, os afetos postos nas coisas do alto, e o trabalho manual não prejudicará o seu gozo. Pode-se ser abençoado segurando o arado ou brandindo o machado, se se quiser.

368. O coração do pregador deve estar na obra

Se você trabalha por almas, precisa pôr o coração na obra, ou ela renderá pouco. Muito pregador cumpre o dever de modo geral; não se descobre nada que deixe por fazer, e contudo tudo parece render pouco. O máximo que se pode dizer é que a igreja não decai; mas não faz progresso sensível em trazer o mundo a Cristo. Há poucas conversões, e de caráter muito fraco. O problema é que o coração do pregador não está na obra. Todos os que estão sob a sua influência logo participam da sua indiferença. Pode haver orgulho em manter a aparência de prosperidade externa na igreja, mas a espiritualidade morre. Pregador e povo derivam quietamente para a perdição. Em toda parte há necessidade de obra de coração. Ponha o coração nos seus sermões, nas suas orações, nas suas exortações, no seu cantar e, acima de tudo, na sua visitação pastoral, e você logo verá mudança marcada na condição religiosa da sociedade. Mesmo sob a dispensação mosaica, com todas as suas formas, era no serviço de coração que Deus punha a ênfase: “…que hoje lhes ordeno: que vocês amem o SENHOR, seu Deus, e o sirvam de todo o coração e de toda a alma.” (Dt 11.13) É muito de temer que as palavras de advertência de Cristo se apliquem a muitos em nossos dias: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mt 15.8) Por vistoso e imponente que seja o culto de tal gente, Deus diz: “Em vão me adoram.”

369. Os pregadores devem ter convicções profundas

Cuidem de que cada um admitido a uma conferência anual seja metodista livre em suas convicções profundas e permanentes. Somos chamados a “batalhar, com todo o empenho, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3); e, se alguém está igualmente satisfeito com a fé das igrejas populares, não poderá de modo algum fazer a nossa obra. Far-nos-á mais mal que bem. A Igreja Metodista Livre não é escola primária para aprendizes praticarem até aprender a pregar, e depois irem para alguma igreja popular que pague salário maior. Queremos homens feitos da matéria de que se fazem os mártires — homens tão devotados aos princípios do Novo Testamento que estejam dispostos não só a suportar privações e labores por eles, mas a dar a vida em seu sustento. Esses são os homens que queremos por pregadores. Ainda se encontram homens assim; e Deus pode levantar outros. Alguns podem ser sem instrução — não importa: um homem chamado por Deus a pregar, e que o segue plenamente, desenvolve-se com rapidez assombrosa. Você se espantará ao ver quão cedo, com a devida aplicação, ele se tornará capaz de ocupar aceitavelmente qualquer púlpito de que se queira ouvir a verdade pregada. Que todos os nossos pregadores sejam pregadores metodistas livres.

370. Pregadores — homens de um só negócio

O pregador, para ter êxito, deve ter o coração na obra. Se está tomado pela lavoura, pela venda de livros, por labores literários ou por qualquer outra coisa, seja qual for a sua capacidade, fracassará como pregador. O que faz pode não ser em nada incompatível com a obra de um ministro do evangelho; mas, se lhe absorve a atenção, o estraga para a salvação de almas. Newton, perguntado sobre como fazia tão grandes descobertas, respondeu: “Pensando sempre nelas.” O pregador que põe a mente nas grandes coisas da salvação não pode deixar de fazer o que serão, ao menos para ele, novas descobertas nas coisas de Deus. Será capaz de fazer coisas não previstas nos formulários padronizados. Crescerá em conhecimento, como em graça, e não será estéril nem infrutífero.

371. Os pregadores são atalaias

Deus pronuncia as mais severas denúncias contra os ministros infiéis. “Os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; sonhadores preguiçosos, gostam de dormir. Tais cães são gulosos, nunca se fartam; são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância.” (Is 56.10-11) Por “cães mudos” entendem-se pregadores que não advertem o seu povo dos perigos que o ameaçam. São “atalaias cegos”, incapazes de ver mal algum em que pessoas que professam piedade se “adornem com ouro, pérolas e trajes custosos”, embora Deus o tenha expressamente proibido. São “atalaias ignorantes” os que dizem “nada sei de maçonaria”, e assim deixam de mostrar ao povo que há tanta incoerência em pertencer ao mesmo tempo à igreja e à loja quanto haveria em professar-se, ao mesmo tempo, cristão e maometano. A cada um dos seus ministros diz Deus: “Filho do homem, eu o constituí atalaia sobre a casa de Israel; você ouvirá da minha boca a palavra e os avisará da minha parte.” (Ez 3.17)

372. Os pregadores devem ser bons generais

Os pregadores devem ser bons generais. Nenhum general faz sozinho todo o combate. Ele planeja para os seus homens e os conduz à execução bem-sucedida dos planos. Assim, o pregador não deve tentar fazer todo o trabalho. Nem deve deixar o povo sem oportunidade de fazer algo nas reuniões e depois ralhar porque não trabalham. Na maioria das sociedades há pessoas com capacidade, se devidamente desenvolvida e dirigida, de conduzir reuniões interessantes e proveitosas. Deve-se ocupar terreno missionário e pôr tais pessoas a trabalhar. Deve-se abrir caminho para que tomem parte nas reuniões regulares. O pregador deve ser rápido em ver o que cada um dos seus membros pode fazer para ajudar a causa de Deus, pô-los nisso e mantê-los nisso.

373. Os pregadores devem sentir pelos perdidos

Alguém de larga observação entre lavradores, e com alguma experiência de lavoura, disse: “Não há fertilizante para uma fazenda como o cérebro — e é preciso manter o cérebro na fazenda.” O pregador que põe toda a alma na obra dificilmente deixará de ter êxito. Nada tempera um sermão como o interesse profundo pelas almas dos ouvintes. A fala clara raramente ofende quando brota do amor e é proferida de modo afetuoso. Os pregadores fracassam, em geral, mais por falta de sentimento do que por falta de saber. “Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.” (Sl 126.6)

374. Pregadores de justiça

Noé foi pregador de justiça. A grande necessidade de hoje são pregadores da mesma espécie. Deve-se insistir, em cada púlpito do país, em que nenhuma correção de credo compensa a falta de retidão na vida diária. Nada pode ser mais claro do que isto: “Filhinhos, que ninguém os engane; quem pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo.” (1Jo 3.7-8)

Pondere bem estas palavras de peso. Exprimem em termos claros o teor de todo o ensino do Novo Testamento. Não se acha uma só passagem que prometa o céu aos “religiosos”. É “aos que, perseverando em fazer o bem, buscam glória, honra e incorruptibilidade” que Deus dará a vida eterna (Rm 2.7). A sua religião, portanto, deve ser tão profundamente experimental que se torne intensamente prática. Cristo diz que não os membros de igreja, mas os justos, entrarão para a vida eterna.

375. Os pregadores devem ser fiéis a Deus

Diz o profeta: “Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxadamente.” (Jr 48.10) Embora dito da execução de juízos temporais sobre os que Deus condenara à morte, aplica-se aos que são chamados a declarar os juízos de Deus. Devem fazê-lo com fidelidade. A verdade que proclamam não é deles, mas de Deus. Não têm o direito de

“alisar o texto obstinado para ouvidos polidos,
e esconder comodamente a condenação da vista”.

Os pregadores do evangelho são embaixadores de Cristo. É traição a Cristo que tais homens façam alianças com os seus inimigos. Nem têm o direito de ditar termos de paz. Estes, Cristo os estabeleceu. Ele não se desvia deles nem um pouco, para acomodar o mais poderoso pecador que jamais pediu perdão. Exige de todos rendição incondicional. Não aceita nada senão a submissão inteira à sua vontade.

376. Os pregadores devem ser humildes

O orgulho espiritual é um dos perigos que nos assediam em cada estágio da experiência religiosa. Quanto melhor e maior a nossa experiência, maior o perigo dessa fonte. Diz o apóstolo: “O conhecimento envaidece, mas o amor edifica.” (1Co 8.1) É, pois, da maior importância que o nosso amor acompanhe o passo do nosso conhecimento. Se não acompanhar, corremos o risco de nos tornarmos orgulhosos e voluntariosos. Muitos pregadores perdem o poder de fazer o bem exatamente na época em que poderiam fazer mais bem, se se conservassem cheios de amor humilde. Mas sabem tanto, e insistem tanto em fazer as coisas ao seu modo, que Deus os deixa, e os irmãos os deixam, e eles se tornam inúteis, ou pior que inúteis, no período da vida em que, permanecendo humildes, poderiam ser mais úteis. “A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra.” (Pv 29.23)

377. Os pregadores devem ser ativos

Quem tenta pouco realiza pouco. O pregador que se acomoda com a família e apenas cumpre os seus compromissos, prega e reprega os velhos sermões e só faz visitas sociais, não pode senão fracassar na obra. Não ganha almas. Não espera ganhar; não tenta ganhar. É como cavalo cego numa nora.

Mas quem se aplica à sua obra, e espera ter êxito nela, tem êxito. Propõe-se a fazer algo, e adapta sabiamente os meios ao fim a alcançar. Seu trabalho não é vão no Senhor.

John Eliot, um dos primeiros missionários aos indígenas americanos, escreveu: “Oração e esforço, mediante a fé em Cristo Jesus, realizam qualquer coisa.” A fé que não produz oração e esforço é pura presunção. Se você tem fé para um reavivamento, então ponha-se a trabalhar para promover um reavivamento. Nas águas da salvação, a temporada de pesca dura o ano inteiro.

378. Reverência no púlpito

A profanidade está fora de lugar em toda parte, especialmente no púlpito. Os pregadores, mais que todos os homens, nunca deveriam tomar o nome de Deus em vão. Não deveriam proferi-lo sem necessidade. Deve ser sempre pronunciado com reverência. “E, orando, não usem de vãs repetições, como os gentios.” (Mt 6.7) Usar frequente e desnecessariamente o nome da Divindade é, com certeza, vã repetição. É terrível que um pregador fale de modo a provocar o comentário que uma criança ingênua fez ao sair da igreja: “Mamãe, por que aquele homem xingou tanto?”

Já ficamos chocados com linguagem que ouvimos do púlpito. Certa vez dissemos a um pregador que o seu sermão soava a blasfêmia. Ele se defendeu, recusou-se a corrigir-se, logo perdeu a influência e sumiu de vista. A linguagem que beira a profanidade não torna vigoroso um sermão. Expressões próprias em si mesmas, como “louvado seja Deus”, não devem ser ditas de modo banal e sem sentimento. Cuidemos de ter, na pregação e na oração, o Espírito Santo. Se o tivermos, teremos espírito de reverência. Nossas palavras e nossos modos não chocarão as sensibilidades mais delicadas.

Extratos 379–391 · Pregadores: desvantagens, pureza, recompensa, sustento, fidelidade+

379. Os pregadores trabalham em desvantagem

Nossos pregadores trabalham sob uma grande desvantagem. Não há como negá-lo; e, pior ainda, não parece haver como evitá-lo. Em toda parte eles são, para usar a expressão comum, “vendidos mais barato” pela concorrência. Oferece-se a salvação em termos mais fáceis do que os que eles ousam propor. As pessoas ficam convictas do pecado sob a sua pregação e depois são atraídas a uma igreja popular por algum cantor profissional contratado como isca — e ali se lhes oferece a salvação praticamente nos termos delas. O maçom não precisa abandonar a loja; os orgulhosos não precisam abandonar as joias; não se insiste na confissão de males feitos a outros, nem na restituição; basta “somente crer”, e são declarados convertidos. A reunião de reavivamento é adiada por causa da quermesse da igreja, e há uma mistura de diversão e fé que produz grandes resultados. Relata-se grande número de convertidos; espalha-se a notícia de um grande reavivamento. E, contudo, dentre os convertidos seria difícil achar um só que tenha renunciado a tudo para se tornar discípulo de Cristo.

380. Os pregadores nem sempre têm a mesma liberdade

O homem que prega por inspiração não terá a mesma ajuda em todos os momentos. Muito depende da vigilância e da oração; mas, ainda assim, “o vento sopra onde quer” (Jo 3.8), e a influência peculiar do Espírito que desejamos nem sempre está ao nosso comando. O mais cuidadoso e o mais orante podem ter uma estação estéril. Mas não devem condenar-se por isso.

O bispo Hamline era homem de Deus, que gozava e pregava a santidade. Escreveu o seguinte sobre um sermão que pregou em Trumansburgh, Nova York, em 12 de agosto de 1847: “Preguei esta manhã, a casa cheia, de toda mistura, sobre o ‘amor perfeito’. Boa atenção, mas nenhum sinal de sentimento. A gente destas bandas pensa; mas, se sente, sente por dentro e ‘como que em segredo’. É, contudo, um tempo de declínio.”

381. Pregadores dados à indulgência própria

O pregador deve ser homem de mãos limpas e coração puro. Seu corpo deve ser limpo; sua conversa, pura. Sem pureza moral, o pregador se perderá tão certamente como se estivesse em qualquer outro ofício. Sua popularidade como ministro, seu êxito como avivalista, não podem salvá-lo. Alguns dos melhores pêssegos que já comi, colhi-os de uma árvore que estava quebrada havia semanas. Um lado do tronco se mantivera unido e deixava circular seiva bastante para amadurecer a safra sob cujo peso a árvore quebrara. Mas ela nunca mais deu fruto. Assim, um pregador, depois de cair em pecado, pode prosseguir pelo impulso que ganhou quando estava certo com Deus, e ver almas convertidas. Mas não deve tomar isso por endosso de Deus sobre a sua alma. É simplesmente o endosso divino da verdade, e não de quem a profere. Alguém que se afasta da igreja pode indicar a outros o caminho para ela. Paulo foi pregador abnegado e devotado. E, contudo, depois de anos de heroica devoção à obra, escreve: “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” (1Co 9.27) Ele não diz “para que eu não mutile a minha influência”, nem “para que outros não tropecem em mim”, mas “para que eu mesmo não venha a ser desqualificado”. Paulo evidentemente cria que um ministro verdadeiramente convertido, santificado, trabalhador e bem-sucedido pode, no fim, perder-se pela indulgência própria. Leitor, como está você? É puro de coração e de vida? Está limpo dos pecados secretos?

382. Os pregadores não devem abandonar a vocação

Um pregador pode ter errado de vocação. Se errou, quanto mais depressa deixar o púlpito, melhor para ele e para a causa de Deus. Mas, se é verdadeiramente chamado por Deus a pregar, e Deus pôs o seu selo sobre o seu ministério, corre um risco temível quando deixa de pregar por algum emprego mais lucrativo. É bem provável que naufrague, para este mundo e para o mundo por vir. E será bom se não arrastar consigo a família para a ruína. Pregadores que se endividam por negligência dos deveres, por espírito de indolência e de indulgência própria, e deixam de pregar por um tempo para sair das dívidas, geralmente se atolam mais fundo. O único caminho seguro é o caminho do dever. “Seja a vida de vocês sem avareza. Contentem-se com as coisas que vocês têm; porque ele mesmo disse: ‘Não o deixarei, nem o abandonarei.’ Assim, podemos dizer com confiança: ‘O Senhor é o meu auxílio; não temerei. Que me poderá fazer o homem?’” (Hb 13.5-6)

383. Os pregadores fiéis serão recompensados

As maiores recompensas na vida por vir são prometidas aos ministros fiéis. “Os que a muitos conduzem à justiça brilharão como as estrelas, para todo o sempre.” (Dn 12.3) Haverá grande diferença a seu favor sobre os santos comuns que chegam à glória. E essa diferença durará por toda a eternidade. Mas note: não é apenas o pregador que será assim recompensado. Não é apenas o pregador ativo, ou o bem-sucedido segundo a estimativa comum do êxito. De fato, pode nem ser pregador. É aquele — pregador ou leigo — que conduz muitos à justiça. Isto é o essencial. Exige-se obra completa. Nenhuma nota se tomará das multidões que se levantam para pedir oração e se unem à igreja sem mudança marcada de caráter ou conduta. É preciso que sejam convertidas ao amor e à prática do que é reto — à temperança, à castidade, à honestidade e à veracidade, à indústria e à humildade. Devem ser refeitas de tal modo que sempre se achem do lado do certo. Devem ter todas as virtudes ativas incluídas naquela palavra abrangente: justiça. Pouquíssimos, dos muitos chamados convertidos, Deus conta como tais. Mas as recompensas serão distribuídas segundo a contagem dele.

384. Os pregadores devem chegar cedo aos seus circuitos

Se um pregador tem uma visita a fazer antes de assumir os deveres num circuito novo, melhor fazê-la antes da conferência do que depois. Às vezes a utilidade de um pregador por um ano inteiro fica diminuída por não chegar ao circuito a tempo. O povo sai para ouvi-lo e se decepciona, até que o interesse por ele morre. Outros ocupam campos de trabalho que ele poderia ter ocupado. Ele encontra um povo desanimado, quando poderia ter encontrado um povo cheio de coragem, se o tivesse encontrado a tempo. Chega tarde às reuniões prolongadas, tarde à visitação dos membros — e, ai, eles chegam tarde ao seu sustento. Começou atrás, e nunca alcança. Vai à conferência pregador desanimado, e o povo, muito naturalmente, quer mudança. Se você tivesse uma mina de ouro para lavrar, sentiria que não pode começar cedo demais. Se tivesse trigo para semear, quereria pô-lo na terra na estação certa. Se a sua alma arde pela salvação das almas confiadas ao seu cuidado, você quererá começar o seu ministério entre elas o mais cedo possível.

385. A recepção do pregador no circuito novo

Os pregadores são seres humanos; eles e as suas famílias têm os sentimentos e as necessidades de seres humanos. Se, quando chegam aos seus circuitos, vocês lhes dão recepção cordial, isso contribuirá muito para que sintam que estão no lugar certo, e os ajudará a ter a coragem e a fé de que precisam para serem úteis. Assim, quando vier o novo pregador, façam questão de cuidar das suas necessidades. Não deixem para os outros. Convidem-no à sua casa e façam-no sentir-se em casa. Providenciem a mudança; e não cobrem nada pelo transporte dos seus bens de ou para a estação. Abasteçam a casa pastoral com algo para a família começar a viver, e não os deixem sentir, logo de saída, que caíram num “circuito da fome”. Faça o tempo que fizer, saiam para ouvi-lo pregar; esperem ser abençoados; e, se ouvirem algo que os toque, soltem um bom e caloroso amém. Isso ajuda o pregador espantosamente. Em suma, deem ao seu pregador uma recepção cristã cordial. Ela fará aflorar o que há de bom nele.

386. As necessidades dos pregadores devem ser conhecidas

Nem sempre se pode confiar nas aparências. Contaram-nos, em Minnesota, de um irmão abastado que se sentiu impressionado a verificar como o pregador estava de mantimentos. Decidiu, pois, jantar com ele. A família do pregador não tinha absolutamente nada para comer. Mas, pouco antes da hora do jantar, um vizinho mandou um pão. Outro mandou um pedaço de carne fresca; outro, um pouco de manteiga. As crianças acharam um ninho cheio de ovos. A esposa do pregador preparou então excelente jantar e pôs à mesa tudo o que havia na casa para comer. O irmão apreciou o jantar, foi embora e relatou que as necessidades do pregador estavam abundantemente supridas — que viviam melhor do que ele.

Conclusões apressadas são, muitas vezes, conclusões erradas. Uma investigação paciente mostraria, com frequência, que as coisas são inteiramente diferentes do que parecem na superfície. Jó, ao repelir as falsas acusações dos amigos, deu como uma das manifestações da sua integridade: “A causa do desconhecido eu examinava.” (Jó 29.16) Mais da retidão de Jó nos faria menos apressados em nossas decisões.

387. O cuidado dos pregadores gastos na obra

Onde o povo tem religião verdadeira, cuidará dos seus pregadores — não só enquanto são eficazes, mas quando ficam incapacitados. Nenhum homem humano solta para morrer de fome o cavalo velho que o serviu com fidelidade. C. B. Edgar, do Brooklyn, diz num número recente do Christian Evangelist: “Em nossa igreja, o pastor jubilado pode literalmente morrer de fome, se for orgulhoso demais para mendigar tostões pelos jornais da igreja. Nunca soube de uma de nossas igrejas que pensionasse o seu pastor gasto na obra. Às vezes um pobre e velho pregador anda de igreja em igreja, sofrendo intempéries e desconforto, deixando uma espécie de tributo ao pregar um sermão velho — ou ao ameaçar pregá-lo, o que muitas vezes serve melhor ao seu propósito principal. Surpreende que os últimos dias de alguns dos nossos velhos pregadores sejam cheios de amargura? Quando penso em todo o tratamento cruel, egoísta e ingrato que já vi e conheci de igrejas para com ministros, persuado-me de que haverá um terrível ajuste de contas lá em cima. Se é verdade que as corporações não têm alma, sou às vezes levado a crer que algumas igrejas também não.”

Tais igrejas, chamem-se como se chamarem, não são igrejas cristãs. Tal gente precisa converter-se.

Leitor, você está cumprindo o seu dever para com o seu pastor?

388. Sejam bons para os seus pregadores

Sejam bons para os seus pregadores. Isso os ajudará a ser bons pregadores. Um homem cheio de coragem não parece o mesmo homem de quando está cheio de desânimo. Nas disputas de força física, dá-se muito peso à condição dos competidores. Assim, o êxito de uma sociedade depende em grande parte da condição do pregador. Se você está fazendo a sua parte para mantê-lo em boa condição, está fazendo mais do que imagina para promover a causa de Deus. Ajude-o materialmente: cuide de que ele e a família não passem necessidade. Ajude-o espiritualmente: ore por ele, mas não ore “contra” ele. Dê-lhe de vez em quando uma palavra de ânimo. Isso o ajudará muito.

389. Os pregadores devem estar em sintonia conosco

Nem todo aquele que é chamado a pregar é chamado a ser pregador metodista livre. Deus nos levantou para fazer uma obra que nenhuma outra denominação está fazendo. Somos um povo peculiar. Se algum dia deixarmos de sê-lo, deveremos deixar de existir. Nenhuma denominação tem direito à existência, a menos que seja essencialmente diferente das demais.

Ninguém, sejam quais forem os seus dons e graças, deve ser encaminhado a tornar-se ministro entre nós sem estar completa e conscienciosamente em sintonia conosco. Diz Richard Baxter: “Nenhum homem está apto a ser ministro de Cristo se não tem espírito público quanto à igreja; se não se deleita na sua beleza, nem anseia pela sua felicidade. Assim como o bem da comunidade deve ser o fim do magistrado, a felicidade da igreja deve ser o fim dos seus pastores. Devem alegrar-se no seu bem-estar e estar dispostos a gastar e deixar-se gastar por amor dela.”

Quem vem pregar entre nós porque julga mais fácil entrar no ministério conosco do que nalguma denominação mais antiga não deve receber encorajamento algum. Não devemos pôr um homem a ensinar o que ele não crê.

390. Os pregadores devem ser estimados pela sua obra

Devemos ter sempre em mente que as Escrituras fundam o direito dos pregadores à consideração não na sua posição, mas no seu caráter e conduta. As más qualidades só ficam mais visíveis quando postas no púlpito. Um pregador sem diligência não vale mais que um balconista ou empregado preguiçoso. “Agora, irmãos, pedimos que vocês reconheçam aqueles que trabalham entre vocês e que os lideram no Senhor e os admoestam. Tenham-nos no mais alto apreço, com amor, por causa do trabalho que realizam.” (1Ts 5.12-13) Nada aqui de nomes, títulos ou sucessão: a ênfase recai sobre a conduta. Trabalham entre vocês. Eles não se acomodavam na vida fácil; trabalhavam, e gastavam na sua vocação sagrada tantas horas por dia quantas os assalariados gastam na vocação secular. Visitavam — não onde havia bom agrado, mas onde a sua ajuda era necessária. Tratavam fielmente com as almas, advertindo e admoestando os que estavam fora do caminho. O povo gosta de ter pregadores diligentes. Gosta até que admoestem os outros; mas poucos suportam que o pregador os admoeste a eles. Por isso o apóstolo nos roga que tenhamos “no mais alto apreço, com amor, por causa do trabalho que realizam” aqueles que nos admoestam pessoalmente. Irmão, você cederá ao rogo do apóstolo neste particular?

391. Os pregadores fiéis dificilmente serão populares

Paulo disse aos seus ouvintes: “Porque jamais deixei de anunciar a vocês todo o conselho de Deus.” (At 20.27) Mas que tribulação isso lhe trouxe! Começou a pregar em Damasco logo depois de convertido. “Confundia os judeus que moravam em Damasco, provando que Jesus é o Cristo.” Quando os homens não conseguem responder à verdade, e não querem render-se a ela, resta-lhes enfurecer-se. “Decorridos muitos dias, os judeus resolveram, de comum acordo, matá-lo.” (At 9.22-23) Isso foi apenas o antegosto do tratamento que o assaltou em toda parte. Foi expulso de Antioquia; fugiu de Icônio; foi apedrejado em Listra; foi açoitado com muitos golpes em Filipos, lançado no cárcere, com os pés presos no tronco — e assim por diante, até que por fim morreu mártir, em seu posto.

Extratos 392–401 · Pregadores: tibieza, conflitos, preguiça, ciúme, inconversos+

(Conclusão do extrato 391)

E, contudo, Paulo era um dos homens mais prudentes. Mas nunca se tornou popular. Quem se decide a tratar fielmente com as almas, como Paulo tratou, deve pôr de lado todo pensamento de popularidade. Encontrará oposição e perseguição, até onde a lei permitir. Mas será tão sustentado pelo poder infinito que poderá dizer: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo.” (At 20.24) É verdade que “através de muitas tribulações nos importa entrar no Reino de Deus” (At 14.22).

392. A tibieza destrói a utilidade do pregador

A tibieza na obra destruirá a utilidade de qualquer pregador. Ele pode ser popular junto ao mundo; mas terá pouco poder para promover a salvação das almas. Na época em que, sob quase todos os aspectos, é capaz de fazer mais bem, faz menos. Sua falta de espiritualidade, de inteireza de coração na causa de Deus, pesa mais do que o conhecimento que ganhou dos livros e da experiência. A igreja sofre, o circuito sofre, a família sofre. Uma podridão seca, por dentro, vai-lhe comendo invisivelmente as forças, e nalguma emergência o seu caráter cristão se despedaça por completo. A catástrofe irrompe de repente — mas a preparação para ela vinha de longe.

393. Tal pregador, tal povo

Paulo, escrevendo aos santos, fala da obra feita entre eles pelos seus ministros e diz: “imitem a fé que eles tiveram” (Hb 13.7).

O povo é bastante inclinado a obedecer a essa direção apostólica. Vê no pregador o seu líder, e tende a segui-lo aonde ele conduz. Se ele vai à loja maçônica, alguns irão com ele. Se é dado aos prazeres mundanos, ele os levará a festivais e festanças. Se a sua fé é fraca, e ele cede aos desânimos, eles se desanimarão. Mas, se é verdadeiramente homem de Deus, cheio de fé e do Espírito Santo, tenderá a ter uma igreja viva, que se alegra na esperança.

Quando um pregador anda se queixando do povo, geralmente se descobrirá que o povo anda se queixando dele.

394. Pregadores em conflito com membros

Alguns pregadores parecem ter forte inclinação a entrar em conflito com membros antigos, confiáveis e sólidos. Tivemos certa vez trabalho duro para impedir que um pregador jovem e inexperiente desse passos para expulsar da igreja o melhor membro que ela tinha. Era uma das mulheres mais piedosas que já conhecemos, com bom senso e prudência acima do comum. Fora o instrumento da formação da sociedade e da construção do templo. E, contudo, o pregador tomou-lhe antipatia e parecia decidido a tirá-la da sociedade.

Se uma conferência descobre que tem homens assim, a comissão de nomeações não deve fazê-los pregadores encarregados até que estejam completamente curados. Não se lhes deve permitir continuar destruindo sociedades. Melhor ferir os sentimentos do pregador do que deixá-lo ferir seriamente a obra.

395. A indiscrição dos pregadores

Cristo tira muitas das suas melhores ilustrações das operações da lavoura. Uma fazenda fornece excelente treinamento para os mestres religiosos. Moisés, criado na corte de Faraó, teve depois os seus quarenta anos de treinamento numa fazenda, antes de estar apto a tornar-se o líder e legislador do povo de Deus. Um mês rachando lenha talvez fizesse a alguns jovens pregadores mais bem do que um seminário teológico no mesmo tempo. Não estou certo de que Abraham Lincoln pudesse ter conduzido esta nação, em triunfo, através da grande crise que lhe ameaçou a existência, se não tivesse aprendido a rachar lenha quando menino. Ele descobriu que, embora, para rachar um tronco, seja preciso fazer entrar a parte grossa da cunha, o melhor modo de o conseguir é fazer entrar primeiro o gume fino. Eis algo que alguns pregadores levam tanto tempo para aprender que parece que nunca aprenderão. Insistem, apesar de fracassos repetidos, em fazer entrar primeiro a parte grossa da cunha. Fazem disso questão de consciência. Julgam ser transigência não atacar de imediato o que quer que vejam de errado no outro — embora o atacado não veja mal nenhum naquilo, em comparação com outros males de que se sabe culpado. Em vez de atrair almas a Cristo, agitam-lhes os preconceitos e despertam-lhes as animosidades.

Irmãos, não estraguem as suas marretas tentando fazer entrar primeiro a parte grossa da cunha.

396. Pregadores preguiçosos

“Se há coisa que me repugna especialmente”, disse um leigo piedoso, cuja vida e cujos recursos estão consagrados à causa de Cristo, “é um pregador preguiçoso.”

Concordamos com ele. Um homem chamado por Deus para arrebatar almas do fogo eterno — vivendo no descanso, largado por aí, sem sentir preocupação, fazendo o mínimo possível pela salvação dos outros! Ora, deve faltar-lhe humanidade comum. Um homem a quem Cristo chamou para trabalhar na sua vinha, e a quem prometeu recompensar eternamente conforme for a sua obra, mal trabalhando na sua vocação um dia em sete — e, ainda assim, com tal falta de vida que daria no mesmo não trabalhar! Como pode tal homem crer numa só palavra do que Cristo diz? Se cresse em Cristo, não seria movido pelo temor de encontrar uma sentença como esta: “E lancem o servo inútil para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes”? (Mt 25.30)

O presidente Edwards tinha razão quando disse: “A indolência na causa de Deus condena tanto quanto a rebelião aberta.” Pode-se ir do púlpito para o inferno tão certamente quanto da taberna para o inferno. Nenhum lugar ou posição que se ocupe pode salvar. Uma das evidências da salvação é ocupar o nosso lugar para a glória de Deus.

O irmão referido disse: “Não mandem pregador preguiçoso para o nosso circuito.” Assim diz o povo em geral. Pregador preguiçoso não é aceitável em lugar nenhum. Por correta que seja a sua vida, ou grande a sua capacidade de pregar, o povo não o quer. Não há lugar para ele na terra, não há lugar para ele no céu — e, se for para o inferno, o diabo irá atrás dele logo de saída, para despertá-lo.

397. O declínio da vida espiritual nos pregadores

Espera-se sempre que o mestre do ofício faça trabalho melhor que o aprendiz. A essa regra, talvez o ministério forneça as exceções mais notáveis. Perguntamos por pregadores que, na flor da idade, estão tão secos e sem poder que nenhum circuito os quer, e nos dizem que, quando meninos no ministério, levavam tudo de vencida. Tinham reavivamentos aonde quer que fossem. Homens que combatiam as manifestações caíam sob o poder de Deus. Qual é o problema? Eles sabem mais do que sabiam. Pregam sermões mais sistemáticos. Mas não é essa a causa da sua presente ineficiência. O problema é que se desviaram de Deus no coração. Perderam o primeiro amor. E o pior é que não consentem em vê-lo.

Amado, você perdeu poder com Deus? Então pergunte-se: “Não há uma causa?” Descubra-a e remova-a.

398. Pregadores desviados

Uma das marcas do desviado é a perda de poder. “Mas receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo.” (At 1.8) É igualmente verdadeiro que você perderá esse poder, se o Espírito o deixar. Um pregador está todo entregue ao Senhor e, em consequência, cheio do Espírito e bem-sucedido na obra. Falam bem dele e cuidam bem dele. Ele se torna, aos poucos, espiritualmente orgulhoso, presunçoso e mundano. Vai para outro campo. O povo o vê à luz da sua experiência presente. A impressão que recebem é de que ele é formal e egoísta. Ele acha que não o apreciam — que são fanáticos e preconceituosos — e que não lhes pode fazer bem. Parece-lhe perda de tempo permanecer em campo tão pouco promissor. Nunca lhe ocorre que a verdadeira dificuldade está nele mesmo. Na realidade, está desviado de Deus e não o sabe. Prega com clareza, mas em amargura, e não em amor. Não ama o povo, e o povo o sente. Vão ouvi-lo algumas vezes, e depois o deixam só.

O remédio não é voltar ao campo antigo, mas recuperar a experiência antiga. “Lembre-se, pois, de onde você caiu, arrependa-se e volte à prática das primeiras obras. Se não, venho até você e moverei do seu lugar o seu candelabro, caso você não se arrependa.” (Ap 2.5)

399. Os pregadores não devem falar demais

Se os pregadores orassem mais longamente em seus quartos, e mais brevemente em público; se gastassem mais tempo estudando a Bíblia, e menos tempo falando dela, teriam mais êxito. O leite desnatado ocupa mais espaço que o creme, mas não faz tanta manteiga. Falas longas preenchem o tempo, mas não produzem os resultados desejados. Nunca fale para matar o tempo. Se não tem nada a dizer, não diga nada. O Espírito pode operar tanto no silêncio profundo quanto numa fala cheia de profundo vazio. Ministre o Espírito de tal modo que os ouvintes tenham algo a dizer, seja em confissão, seja em testemunho. Depois, dê-lhes tempo de tomar a parte que lhes cabe na reunião; e, se cumprirem o seu dever, você terá uma boa reunião. Mas muito pregador bem-intencionado mata as suas reuniões de tanto falar.

400. Advertência contra o ciúme

Moisés mostrou que era chamado por Deus pela sua disposição de que a obra de Deus prosseguisse por qualquer instrumento, ainda que outros levassem o crédito. Quando se queixaram de que Eldade e Medade profetizavam no arraial, e lhe pediram que os proibisse, a sua nobre resposta foi: “Quem dera todo o povo do SENHOR fosse profeta, e que o SENHOR pusesse o seu Espírito sobre ele!” (Nm 11.29) Se o Senhor usa um pregador local, um exortador ou um membro comum em grau incomum, o pregador encarregado não deve enciumar-se, mas encorajá-los e abrir-lhes caminho para fazerem todo o bem possível. Se tentar rebaixá-los com medo de que o eclipsem, certamente rebaixará a si mesmo aos olhos de Deus e dos homens. O povo tem discernimento agudo nessas coisas. “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado.” (Mt 23.12) As pessoas parecem ter prazer em derrubar quem evidentemente visa apenas à própria elevação. Quem mostra ciúme daqueles a quem Deus abençoa entristece o Espírito e mata a si mesmo.

401. Pregadores inconversos

É grande infortúnio, para um povo, ter um pregador inconverso ou desviado. Qualquer dos dois pode fazer grande mal. Quanto mais talentosos, instruídos, refinados e amáveis, mais perigosos se tornam: maior é o seu poder de enganar. Um pregador que nunca se converteu pode ser muito popular junto aos mundanos, mas tende a não conhecer a obra do Espírito. Para ele, uma obra genuína do Espírito parece fanatismo. Não a compreende. Ela o incomoda; então lhe dá um nome injurioso e procura sufocá-la. Pode ser zeloso por reformas e eloquente na defesa dos bons costumes, mas é tão ignorante do novo nascimento quanto o príncipe dos judeus que veio a Jesus de noite. Disse John B. Stainton, homem de Deus, ao bispo, sobre o seu pastor (um desses pregadores): “Ele não tropeçou sequer num tópico evangélico durante o ano inteiro.”

É coisa comuníssima, na Europa, educar homens inconversos para o ministério, exatamente como se educam para a advocacia ou a medicina. O costume cresce rapidamente entre nós. Talento e sagacidade estão em maior demanda para o púlpito do que piedade. As congregações pagam com muito mais liberalidade para serem entretidas do que para que se lhes aponte o caminho do céu.

Um homem como era Wesley, antes da conversão, seria tido em nossos dias por prodígio de piedade. Ele escreve: “Faz agora dois anos e quase quatro meses que deixei a minha terra natal para ensinar aos indígenas da Geórgia a natureza do cristianismo. Mas que aprendi eu mesmo nesse meio-tempo? Eis que (o que eu menos suspeitava) eu, que fui à América converter os outros, nunca fui eu mesmo convertido a Deus. ‘Não estou louco’ ao falar assim, mas ‘falo palavras de verdade e de bom senso’; para que acaso alguns dos que ainda sonham despertem e vejam que, como eu sou, assim são eles.

“São lidos em filosofia? Eu também era. Em línguas antigas ou modernas? Eu igualmente. São versados na ciência da divindade? Também eu a estudei por muitos anos. Sabem falar com fluência das coisas espirituais? O mesmo sabia eu. São abundantes em esmolas? Eis que eu dava todos os meus bens para alimentar os pobres. Dão do seu trabalho, além da sua substância? Trabalhei mais abundantemente que todos eles. Estão dispostos a sofrer pelos irmãos? Abandonei amigos, reputação, comodidade, pátria; pus a vida nas mãos, errando por terras estranhas; entreguei o corpo para ser devorado pelo mar, ressequido pelo calor, consumido pela labuta e pelo cansaço, ou pelo que quer que aprouvesse a Deus trazer sobre mim. Mas tudo isso (seja mais, seja menos, não importa) me torna aceitável a Deus? Tudo o que já fiz, ou possa conhecer, dizer, dar, fazer ou sofrer, justifica-me à sua vista? Ou o uso constante de todos os meios de graça (que é, contudo, próprio, reto e nosso estrito dever)? Ou o fato de que, quanto à justiça moral exterior, sou irrepreensível? Ou (para chegar mais perto ainda) o ter convicção racional de todas as verdades do cristianismo? Tudo isso me dá direito ao caráter santo, celestial e divino de um cristão? De modo algum. Sou filho da ira, herdeiro do inferno. Não tenho esperança senão esta: que, se eu buscar, acharei Cristo, e serei ‘achado nele, não tendo justiça própria, mas a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que vem de Deus, baseada na fé’ (Fp 3.9).

“Se se disser que tenho fé (pois muitas coisas dessas tenho ouvido, de muitos consoladores miseráveis), respondo: também os demônios a têm — uma espécie de fé; mas continuam estranhos à aliança da promessa. Também os apóstolos a tinham, já em Caná da Galileia, quando Jesus pela primeira vez ‘manifestou a sua glória’; já então, de certo modo, ‘creram nele’; mas não tinham ainda ‘a fé que vence o mundo’. A fé que eu quero é (a fé de um filho) ‘uma confiança firme e segura em Deus de que, pelos méritos de Cristo, os meus pecados estão perdoados, e eu, reconciliado com o favor de Deus’. Quero a fé que habilita todo aquele que a tem a exclamar: ‘Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.’ (Gl 2.20) Quero a fé que ninguém pode ter sem saber que a tem (embora muitos imaginem tê-la sem tê-la); pois quem a tem está ‘livre do pecado’; todo o ‘corpo do pecado está destruído’; está livre do medo, ‘tendo paz com Deus por meio de Cristo, e alegrando-se na esperança da glória de Deus’. E está livre da dúvida, ‘tendo o amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito Santo’ que lhe foi dado; o qual ‘Espírito testifica com o seu espírito que ele é filho de Deus’.”

Leitor, você está verdadeiramente convertido a Deus? Você pode ser pregador, pode falar de “aceitar Cristo” e tudo o mais, sem jamais ter nascido do Espírito. Você é nova criatura? As coisas antigas já passaram? Surgiram coisas novas? (2Co 5.17)

Extratos 402–413 · Pregadores: diligência, êxito, educação, estudo, preparo+

402. O pregador diligente terá êxito

Numa das nossas conferências recentes, um delegado — homem de Deus e, portanto, homem de palavra — disse aos pregadores: “Irmãos, vão para os seus circuitos, fiquem o ano inteiro e cuidem do seu trabalho de ministro como eu cuido do meu de lavrador; e então, se não conseguirem o sustento, eu cubro a diferença.” Ele tem meios de honrar a promessa, e sem dúvida a honrará, se houver necessidade. Mas haverá? Não há a menor probabilidade. O irmão está perfeitamente seguro. A conferência fica numa região agrícola rica. Os celeiros estão cheios de fartura. O povo é generoso e caloroso. Creem no cristianismo, embora muitos não sejam cristãos. Que um pregador vá entre eles cheio de fé e do Espírito Santo, e trabalhe tantas horas do dia, e vigie tantas horas da noite, pelo bem-estar espiritual deles, quantas o lavrador bem-sucedido gasta cuidando das suas plantações e do seu gado, e o povo não o deixará passar fome. Aqueles por quem ele sente e manifesta interesse logo manifestarão interesse por ele. Suas necessidades serão supridas. Cuidando dos outros, será cuidado; regando os outros, será ele mesmo regado.

403. Pregadores bem-sucedidos e malsucedidos

Um pregador mandado a um circuito decadente, para o qual os pregadores não queriam ir, chegou à conferência com o melhor relatório de todos. Houvera, durante o ano, grande acréscimo de membros; e ninguém recebera sustento melhor que ele. O que fez a diferença? O pregador. Os pregadores fazem grande diferença nos circuitos.

Um pregador cheio de fé e do Espírito Santo, trabalhando com diligência e discrição, provavelmente levantará qualquer circuito. Um pregador cheio de altas noções de si mesmo, preguiçoso, indiscreto, voluntarioso e dado à indulgência própria fará qualquer circuito decair em suas mãos. Não pode ser de outro modo. Se tal homem não quiser ser completamente salvo e corrigir as suas faltas, o melhor que pode fazer é renunciar ao seu cargo e ir trabalhar para cuidar de si e da família. Um homem chamado por Deus a pregar, e que trabalha como ele dirige, dificilmente deixará de encontrar êxito. Corações se abrirão para recebê-lo, a ele e à sua mensagem.

404. Pregador, você tem êxito?

Se você é pregador, é um pregador de reavivamento? Há almas salvas pelos seus labores? Se não, por que não? Para que você está pregando? Deus o chamou a pregar, ou você tomou sobre si o pregar, como modo distinto de ganhar a vida? Se é o segundo caso, é melhor desocupar o púlpito depressa. Se Cristo o põe no ministério, promete-lhe êxito — grande êxito. “Nisto é glorificado meu Pai: que vocês deem muito fruto.” (Jo 15.8) Mas Deus não é glorificado quando você fica malhando o fruto que outros colheram, até destruir a pouca vitalidade que há nele. Lance-se por sua própria responsabilidade. Desbrave terra nova. “Semeie com lágrimas”, e “com júbilo ceifará” (Sl 126.5). É declaração de Deus; não pode falhar. Empenhe-se de coração nisso, e você terá uma recompensa que causará regozijos no céu.

405. A educação dos pregadores

Se Deus o chama a pregar, não negligencie o chamado por não ser instruído. Você pode, se quiser, obter toda a instrução de que precisa para tornar-se ministro capaz e bem-sucedido do evangelho. Se o Senhor quiser que você vá à escola, ele pode abrir o caminho. Se já passou o tempo de ir à escola, e ele o chama a começar a pregar como está, ele pode dar-lhe o treinamento necessário na própria obra. Cremos nas escolas; mas, depois de tudo o que as escolas podem fazer, um homem aprende a pregar mais ou menos como aprende a nadar: pulando na água e tentando. Pode fazer movimentos desajeitados no começo, mas o estudo paciente e a prática lhe darão destreza.

O dr. Ormiston, um dos mais capazes e eruditos pregadores de Nova York, diz: “Um conhecimento completo das Escrituras, um conhecimento experimental do poder do evangelho e o pronto domínio da língua habilitarão um homem a tornar-se ministro capaz e pregador bem-sucedido do evangelho.” É a opinião ponderada de alguém bem familiarizado com todas as vantagens que a educação liberal pode conferir. E todas as qualificações de que ele fala, quem possui os dons e as graças necessários pode adquiri-las sem ir à escola.

406. Os pregadores devem estudar

Sejam quais forem o talento, o saber e a piedade de um pregador, ele deixará de ser útil se deixar de estudar. Wesley pregava incessantemente; mas era estudante aplicado. Adam Clarke, pregando mais sermões por ano do que o mais ativo dos nossos pregadores, tornou-se um dos primeiros eruditos do seu tempo.

Diz o dr. Stephen Olin: “Pode-se pôr como princípio primeiro que não pode continuar por muito tempo pregador útil, nem sequer popular, aquele que deixou de ser estudante. Ele mesmo perderá aos poucos todo o gosto pelo trabalho seco e enfadonho de memória e repetição a que se condena. Por mais que o hábito ou o temperamento o façam pregar com aparente calor e vivacidade, as suas declarações da verdade já não trazem, de fato, a sanção e o endosso das suas próprias convicções profundas e vivas; pois nem a razão, nem a consciência, nem a fé têm grande parte na reprodução. Se essa espécie de trabalho é desagradável ao pregador, logo se torna repugnante ao ouvinte, para quem tais exibições passam por mera rotina ou declamação. Um irmão no ministério me disse há pouco: ‘Conheço vários pregadores da conferência tal que não estudam há dez ou vinte anos.’ Tais ministros são apenas menos culpados do que os que não oram há dez ou vinte anos; pois é tão praticável ser bom pregador do evangelho sem orar quanto sem estudar.”

407. É necessário estudo árduo

Por bem-sucedido que seja um pregador nos primeiros esforços, não continuará pregador bem-sucedido se não devotar várias horas por dia ao estudo árduo. O lago que emite uma corrente de água deve receber água, ou secará. Diz o dr. Olin: “A igreja nunca tem mais razão de envergonhar-se do que de ministros que já não procuram pregar bem — que só vão ao gabinete ler jornais e periódicos, e não têm para o púlpito nada mais fresco e melhor do que os fragmentos secos e frios de banquetes já provados muitas vezes, ou as iguarias ainda mais rançosas e insalubres que as agitações turbulentas do momento conseguem galvanizar nalgumas das formas inferiores de vida. É espantoso que a menor centelha de piedade não detenha os homens de trazer ofertas tão baratas diante de Deus.” Não há dúvida de que alguns pregadores se desviam no coração porque negligenciam o estudo. Perdem o interesse pela pregação, metem-se em ocupações seculares e logo abandonam de vez o pregar. “Dedique-se à leitura” (1Tm 4.13) foi a direção que o apóstolo deu a um jovem ministro que tinha circuito enorme e as mãos cheias de trabalho.

408. O objetivo do estudo

Os pregadores devem estudar; mas para se tornarem mais eficazes em ganhar almas. Se visam a granjear reputação de eruditos, o conhecimento assim obtido tenderá a fazer-lhes mais mal do que bem. Nada do que um pregador possa adquirir dos livros compensa a perda de espiritualidade. Mas o estudo deve aumentar o poder espiritual — e aumentará, se se estuda por motivo certo, de maneira certa, e se se faz uso certo do que se aprende. Em sua tendência natural, “o conhecimento envaidece, mas o amor edifica” (1Co 8.1). Assim, quanto mais aprendemos, mais precisamos do amor que “não se vangloria, não se ensoberbece” (1Co 13.4). Uma exibição de ignorância, acompanhada de humildade genuína, não é tão ofensiva quanto a exibição ostentosa de saber.

409. Os pregadores jovens devem seguir um curso de estudos

Os pregadores jovens devem fazer a obra de evangelistas; mas não devem apressar-se em tornar-se evangelistas. Precisam do que muitos deles detestam: aplicação constante. Sem ela, correrão apenas por breve estação. Cansarão de ouvir a si mesmos dizendo as mesmas coisas, deixarão de pregar e irão fazer outra coisa. Os pregadores jovens precisam seguir um curso de estudos. Isso lhes ensinará ordem e método, e lhes dará pensamentos. Precisam pregar regularmente às mesmas congregações. Isso os obrigará a estudar os sermões e a adquirir variedade de temas e formas variadas de expressão. Devem escrever sermões — não para lê-los às congregações, mas para adquirir o poder de expressar-se corretamente e de dispor os pensamentos com método. Um estilo desconexo de pregação pode ser tolerado no fervor e no entusiasmo da mocidade; mas, quando estes se gastam, o povo logo se cansa dele. A luz perpétua que sempre ardia no tabernáculo antigo, emblema do Espírito Santo, era alimentada com “azeite puro de oliveira, batido, para o candeeiro, para que haja lâmpada acesa continuamente” (Êx 27.20).

410. Os pregadores jovens devem ler

Foi na era apostólica, quando o fogo caído do céu no dia de Pentecostes ardia em seu esplendor primitivo, que Paulo escreveu a um jovem pregador: “Dedique-se à leitura.” (1Tm 4.13) Se isso era necessário então, quando o Espírito era derramado sobre o povo de Deus a ponto de se operarem milagres, quanto mais agora, quando quase o menor grau de derramamento do Espírito é tachado de fanatismo e fogo estranho! Se era necessário a Timóteo, que “desde a infância conhecia as sagradas letras”, quanto mais aos que passaram a infância na ignorância das Escrituras e em crescente familiaridade com o pecado! Portanto, amados, “dediquem-se à leitura”. Nada de desculpas. Você não tem circuito mais duro que o de Timóteo. Ele estava entre o povo a que o apóstolo se referiu ao dizer: “Se, como homem, lutei em Éfeso com feras…” (1Co 15.32) Os livros eram muito mais raros e caros do que hoje. Comprar uma Bíblia custava então uma pequena fortuna; poucos a tinham. Você tem a Bíblia para estudar e pode facilmente conseguir outros bons livros para ler, se quiser. Poucos livros bons, lidos com cuidado, entendidos e lembrados, far-lhe-ão mais bem do que muitos lidos por alto. O homem que gosta de pescar pode não gostar de cavar, mas não deixará de cavar a isca necessária. Se você ama as almas, não terá aversão a ler os livros que o ajudarão a ganhá-las.

Todo pregador é mestre. Mas não podemos ensinar o que não sabemos. Para conduzir os outros no caminho da vida, devemos nós mesmos estar no caminho da vida. Para instruir os outros, devemos nós mesmos receber instrução. “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca se deve buscar a instrução, porque ele é mensageiro do SENHOR dos Exércitos.” (Ml 2.7) Viva, pois, onde possa receber comunicações diretas do céu. Siga o Espírito, e ele o guiará a toda a verdade. Mas isso se dará, muitas vezes, pelo estudo, e pelo esquadrinhar das revelações que Deus fez a outros. Se quiser crescer, ame a verdade. Vá ouvir pregar homens que têm a capacidade e a coragem de pregar a verdade. “Eu lhes darei pastores segundo o meu coração, que os apascentarão com conhecimento e com inteligência.” (Jr 3.15)

411. Estudo e trabalho não se opõem

Quem é chamado por Deus a pregar é chamado por Deus a estudar. E, se trabalha com Deus, os estudos não atrapalharão a pregação. Adam Clarke foi um dos maiores eruditos do seu tempo, e o seu imenso cabedal de saber foi adquirido no trabalho ativo do ministério. Pregava incessantemente. Duvidamos que haja entre nós quem pregue tantos sermões por ano quantos ele pregava enquanto seguia aqueles estudos e ganhava o conhecimento que o tornou famoso, pela erudição, entre os doutos do mundo. Nem o seu zelo se apagou com os anos. Com mais de setenta anos, escreveu ao presidente da conferência:

“Se não houver lugar aberto para mim aqui, prefiro viajar sob as rajadas cortantes, pelos montes, colinas e brejos de Derry e Antrim, a assentar-me como supranumerário em qualquer lugar da terra de Emanuel, em todo o seu comprimento e largura — ao menos por este ano.”

412. A preparação para o púlpito

Pregar sem anotações não significa pregar sem preparação. Um poço jorrante precisa de manancial maior do que aquele de que se tira água por bombeamento. O pregador que não escreve os sermões deve estudar mais do que o que escreve. Tem mais tempo. Deve entender a fundo o seu assunto. Deve sentir como Eliú: “Estou cheio de palavras; o meu espírito me constrange.” (Jó 32.18) Lyman Beecher, o maior dos Beecher, disse a uma turma de licenciandos: “Jovens, não fiquem diante do espelho ensaiando gestos. Encham-se do assunto até a borda, até não caber mais uma gota; depois arranquem o batoque e deixem a natureza correr solta.”

413. Os pregadores devem dividir o assunto

Paulo, escrevendo a um jovem ministro, manda-o apresentar-se como “obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Não devemos apresentar a verdade em bloco. Um pão é uma unidade. É todo bom — todo para ser comido. Mas não se apresenta inteiro aos que estão à mesa: corta-se em fatias. Assim, o sermão deve ter as suas divisões, claras e distintas. O povo pode apropriá-lo com mais proveito. Se você se atém ao texto, divida-o com naturalidade. Se prega sobre um assunto, divida o assunto. Faça afirmações claras. Se não sabe fazer a divisão adequada do texto ou do assunto, estude os capítulos onze, doze e treze do livro de Homilética do irmão Hogue, e pratique até aprender.

Depois, divida o discurso em sentenças. Evite todas as frases parentéticas ou explicativas longas. Use boa quantidade de sentenças curtas. Que cada sentença seja simples e distinta.

Divida as sentenças em palavras. Não deixe as palavras se atropelarem. Divida as palavras em sílabas. Pronuncie distintamente cada letra da palavra. Não obrigue o ouvinte a adivinhar o seu sentido. Faça-se entender.

Se Deus o chama a pregar, você pode, com o devido esforço, fazer-se pregador.

Extratos 414–426 · Saúde, esposas, presunção, orgulho, proibição, promessas+

414. Regras de saúde para pregadores

Os pregadores devem conservar boa saúde. Parte da comissão dos que Cristo envia diz: “Curem os enfermos.” (Mt 10.8) “E os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos.” (Lc 9.2) Para isso, precisam eles mesmos manter-se bem.

Perguntou Wesley: “Que razão se pode apontar para que tantos dos nossos pregadores contraiam desordens nervosas?

“Resposta: A razão principal, pelos princípios do dr. Cadogan, é a indolência ou a intemperança. Primeiro, a indolência: vários deles fazem exercício de menos — muito menos do que quando trabalhavam no seu ofício. E isso naturalmente abre caminho para muitas desordens, especialmente as nervosas. Segundo, a intemperança, embora não no sentido vulgar: comem mais do que quando trabalhavam mais; e julgue qualquer homem de reflexão por quanto tempo isso se harmonizará com a saúde. Ou dormem mais do que quando trabalhavam mais, e só isso destruirá a firmeza dos nervos. Se, pois, os nossos pregadores querem evitar as desordens nervosas, que: primeiro, tomem tão pouca comida, bebida e sono quanto a natureza suportar; e, segundo, façam diariamente tanto exercício quanto faziam antes de serem pregadores.”

415. As esposas dos pregadores

Quando Deus fez o homem, disse: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda.” (Gn 2.18) Assim, quando uma mulher se casa, deve fazer do ajudar o marido o seu ofício. É a obra que ela assume. É a sua missão divinamente designada. Ele precisa da sua ajuda. Uma esposa pode ajudar o marido a subir na vida, ou pode arrastá-lo para baixo. Muitos homens de alta posição nos negócios civis devem o seu avanço, em grande parte, à influência judiciosamente exercida de suas esposas.

Especialmente a utilidade do pregador casado depende, em grande medida, da cooperação da esposa. Se ela é egoísta e insiste em que ele fique em casa ajudando-a, queixando-se constantemente das suas privações, ela o tornará impopular aonde quer que vá. Ela deve consentir alegremente em que ele fique fora de casa, cumprindo a obra do ministério, tantas horas por dia quantas ficaria se trabalhasse num ofício. A mulher que planeja tirar do povo tudo o que puder pelos serviços do marido, e privá-lo da maior porção possível desses serviços, neutralizará a influência dele e provavelmente acabará por afastá-lo do ministério. Ou poderá embaraçá-lo com a sua extravagância, gastando o dinheiro em passagens de trem ou em guloseimas desnecessárias.

Ao contrário, a esposa de um pregador é de fato “auxiliadora idônea” quando o ajuda na obra, o anima a visitar o povo, a manter os pontos de pregação da região, acompanha-o quando pode e se interessa ativamente pela salvação do povo. Tal mulher abençoará o marido, e o povo a abençoará.

416. Pessoas presunçosas

“Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores.” (2Pe 2.10) As pessoas dessa classe costumam fazer as mais altas profissões de fé. Mas os que precisam impor a sua vontade a qualquer custo, que destroem uma boa sociedade antes que deixar de fazer prevalecer as próprias noções, enganam-se ao pensar que têm fé tão forte. Quem confia em Deus não é autoafirmativo, categórico demais e briguento. Cumpre o dever em espírito sereno e de maneira própria, e deixa o resultado com Deus. Mas os que forçam as coisas contra as convicções da maioria — muitos dos quais, ao menos, têm piedade mais profunda e juízo melhor que o deles — são o que o apóstolo chama aqui de “arrogantes” e “atrevidos”. Em vez de um céu de pureza e paz à espera de tais pessoas, o apóstolo declara que para elas “a negridão das trevas está reservada para sempre”.

417. Orgulho

Por mais que o seu pregador encoraje o orgulho, por preceito e exemplo, você o cultiva com perigo da sua alma. Sem humilhar-se, ser-lhe-á impossível aproximar-se de Deus. “Ao soberbo, ele o conhece de longe.” (Sl 138.6) Orações compostas de frases pomposas, ou de belas elegâncias de expressão, podem excitar a admiração dos que têm “comichão nos ouvidos”, mas não chegam aos ouvidos do Eterno. Diz Baxter: “O orgulhoso faz de si mesmo o seu deus e se erige em seu próprio ídolo: como, então, poderão os seus afetos estar postos em Deus? Como poderá ter o coração no céu? A invenção e a memória podem, talvez, prover-lhe a língua de expressões humildes e celestiais; mas no seu espírito não há mais céu do que humildade. Falo tanto disso porque é o pecado mais perigoso da moralidade, e o que mais promove o grande pecado da incredulidade.”

Leitor, vigie contra o orgulho como quem quer ficar fora do inferno.

418. O orgulho, pecado que condena

O olhar altivo é mencionado em primeiro lugar entre as seis coisas que Deus odeia; encabeça a lista das sete que lhe são abominação (Pv 6.16-17). Entre os que, nos últimos dias, terão forma de piedade, mas negarão o seu poder, estão os soberbos (2Tm 3.2). O orgulho é pecado que condena. “Porque o Dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo soberbo e altivo, e contra todo aquele que se exalta; e ele será abatido.” (Is 2.12)

E, contudo, de todos os pecados a que estamos sujeitos, esse perigosíssimo é o mais difícil de detectar em nós mesmos. Vemo-lo prontamente nos outros. Os orgulhosos nunca se julgam orgulhosos. O orgulho espreita, muitas vezes, sob o disfarce da moralidade e da religião. Ajoelha-se no banco e fala de humildade no púlpito. Como diz Gurnall: “Ele pode asilar-se nas ações mais santas e esconder-se sob as vestes da própria virtude. É impossível matar de fome esse pecado; quase não há nada de que ele não viva; nada tão vil de que um coração orgulhoso não se envaideça, e nada tão sagrado que ele não profane — ousa até beber nas taças do santuário; e, antes que passar fome, alimenta-se dos cadáveres dos outros pecados.” Uma igreja que encoraja o orgulho nos seus membros faz-lhes dano incalculável.

419. O orgulho mostrado nas disputas

O orgulho nem sempre se mostra no traje. Onde há orgulho no vestir, há orgulho no coração. Mas pode haver orgulho no coração com traje perfeitamente simples. Paulo diz de certo mestre: “é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, atritos constantes entre pessoas cuja mente é pervertida e privada da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.4-5). Assim, quem gosta de disputar tem razão de temer que o mova o orgulho. Pode haver ocasiões em que seja dever “batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”; mas é preciso estar certo de que é pela fé, e de que a nossa parte na contenda se conduz em espírito reto. Mas, quando vemos alguém dado a “contendas de palavras”, devemos deixá-lo em paz. Que trave sozinho as suas batalhas. “Afaste-se dessas pessoas.”

420. Orgulho espiritual

Quando alguém se dispõe a ser cristão verdadeiro e abunda em labores e abnegações, então Satanás, falhando em todos os outros métodos, tenta destruí-lo pelo orgulho espiritual. Um dos modos por que este se manifesta é a baixa opinião que a pessoa forma da piedade dos que não a seguem, ou ao menos não lhe dão endosso e apoio. Quando está plenamente sob a sua influência, denuncia como desviados ou hipócritas os que se lhe opõem. Diz o presidente Edwards: “O orgulho espiritual é muito propenso a suspeitar dos outros; ao passo que o santo humilde desconfia sobretudo de si mesmo; de nada no mundo suspeita tanto quanto do próprio coração. A pura humildade cristã dispõe a pessoa a notar tudo o que há de bom nos outros, em qualquer aspecto, a fazer disso o melhor juízo e a diminuir-lhes as faltas; mas a ter os olhos principalmente sobre o que há de mau em si mesma, e a dar muita atenção a tudo o que o agrava.”

421. As oportunidades da provação logo passam

Estamos de passagem. Em pouco tempo, os nossos lugares serão preenchidos por outros. Em rápida sucessão, uma geração segue a outra. Há eras, nos dias do profeta Isaías, o cego poeta grego, Homero, cantava:

“Como as folhas nas árvores é a raça dos homens:
ora verdes na mocidade, ora murchando no chão;
outra geração a primavera seguinte supre;
caem sucessivas, e sucessivas se levantam:
assim as gerações decaem em seu curso;
assim florescem estas quando aquelas já passaram.”

Aproveitemos, pois, ao máximo cada dia que passa. Ele nunca voltará. Abracemos com avidez cada oportunidade de receber o bem e de fazer o bem. Uma vez passada a nossa provação, nunca teremos outra. Uma vez selado o nosso destino, ele se torna irreversível. Consagremo-nos a Deus mais plenamente do que jamais fizemos. Busquemos a perfeição de todas as graças cristãs. Enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos com quem convivemos.

422. Características dos professos populares

A perda do amor à verdade é marca segura do desviado. O filho de Deus ama a Palavra de Deus sem adulteração. E o erro e a falsidade não podem vestir-se de linguagem tão eloquente, nem adornar-se de flores de retórica tão belas, que se lhe tornem aceitáveis. O santo ama a verdade singela; odeia a mentira dourada. Nenhum salário, por maior que seja, pode induzi-lo a calar a verdade desagradável; nenhuma companhia, por refinada que seja, pode afastá-lo da convivência com os que buscam a verdade como ela é em Jesus. Amantes de fingimentos não podem ser amantes de Cristo. A insinceridade nunca terá curso junto a Deus, ainda que vestida de trajes sagrados. Diz o apóstolo dos desviados dos últimos dias: “e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas”. É descrição exata do professo popular de hoje. Que um homem fervoroso pregue a verdade tal como está posta nos padrões deles, e o perseguirão e o expulsarão. Os ministros de Deus não são desejados. Poucos púlpitos se lhes abrem. Mundanos batizados fundam escolas de teologia para formar pregadores ao seu gosto. Também isso foi predito: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, cercar-se-ão de mestres segundo os seus próprios desejos.” (2Tm 4.3) Esses mestres, como jogadores profissionais, vão para onde há maior salário.

423. Professos infrutíferos

Uma grande macieira da nossa horta não dava, ano após ano, fruto de valor algum. Seus ramos eram nodosos. Como não era útil nem ornamental, cortei-a. Estava sã por fora, mas apodrecida por dentro. A casca externa tinha talvez uma polegada de espessura, mas a cortiça estava quase perfeita. Vi então a razão por que muitos professos não dão fruto que o Senhor julgue digno de colher. Parecem em ordem por fora, mas estão podres no coração. Não fazem grande mal — são egoístas demais para isso —, mas também não fazem o bem. Nosso Senhor diz que a árvore estéril terá a mesma sorte da árvore má. Num mundo em que há tanto por fazer, não fazer nada é fazer o mal. “Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo.” (Mt 7.19)

424. Proibição e licença cara

Um dos argumentos mais absurdos contra a proibição é a suposição de que ela não pode ser aplicada. Em termos gerais, equivale a isto: se os criminosos persistem no crime, então o crime deve ser tolerado. Isso serve de razão tão boa para tolerar o furto — impondo aos ladrões uma “licença cara” — quanto para legalizar o negócio ainda mais abominável de fabricar bêbados, impondo uma “licença cara” aos taberneiros. É claro que os vendedores de bebida não se importam com as leis de proibição, nem com lei nenhuma, senão quando lhes convém. São maus até o âmago. O homem que, por ganhos mesquinhos, rouba do próximo a sua dignidade humana e, fazendo dele um bêbado, o expõe a todo mal que pode cair sobre um ser humano, naturalmente pisará as leis proibitórias, se lho permitirem. Mas a “licença cara” em nada ajuda. A menos que seja compelido, ele não tem mais respeito pela “licença cara” do que pela proibição. Se não houvesse outro modo de fazê-lo parar o seu negócio infernal, deveria ser trancado na penitenciária pelo resto da vida. Lá, a proibição é aplicada.

425. A proibição é necessária para todos

É grande erro supor que a proibição só é necessária para os homens de mente fraca. Uma vez formado o apetite pelas bebidas espirituosas, os mais fortes podem tornar-se suas vítimas. Daniel Webster foi, intelectualmente, o homem mais forte que este país já produziu. Mas a bebida forte venceu Daniel Webster. Esse homem de intelecto altaneiro, de eloquência sem igual, “o expositor da Constituição”, “o divino Daniel”, foi visto algumas vezes em público em estado de embriaguez desamparada. Entre os gigantes literários que a Inglaterra produziu, o nome de Samuel Johnson figura na primeira fileira. Mas Samuel Johnson disse a Boswell: “Sei ser abstêmio, mas não sei ser moderado.”

Precisamos da proibição para os nossos grandes homens, tanto quanto para os das veredas comuns da vida.

426. As promessas

Receberemos as promessas se herdarmos as promessas. Mas a nossa identidade precisa ficar estabelecida. Se reivindicamos uma promessa sem sermos uma das pessoas a quem foi feita, a nossa reivindicação será indeferida. Devemos também verificar o verdadeiro sentido da promessa. Os judeus criam nas promessas relativas ao Messias, mas lhes davam interpretação errada; e assim não o reconheceram quando veio.

“A piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser.” (1Tm 4.8) Isto é verdade. É sempre verdade. Mas aquilo que busca os proveitos não é piedade. Está longe disso. É egoísmo vestido de trajes religiosos. Para ter a vida que agora é, e desfrutá-la, não se precisa de riqueza. A maior felicidade que este mundo pode dar pode ser gozada em relativa pobreza.

Dois erros, pois, se cometem quanto a essa promessa: primeiro, ela não é feita a meros formalistas; segundo, ela não oferece as riquezas e honras deste mundo como recompensa da piedade.

Extratos 427–438 · Propriedade, profecia, providência, castigo futuro, quietude+

427. Propriedade consagrada

Se você está verdadeiramente consagrado ao Senhor, então a sua propriedade também está consagrada ao Senhor. Em todos os seus gastos de dinheiro você deve buscar a direção divina. Deve ter a aprovação de Deus sobre o modo como ganha dinheiro e sobre o modo como o gasta. Seja estritamente consciencioso em dar a cada um o que lhe é devido. Você não poderá voltar para corrigir os erros. Não se pode ir ao céu sem ser estritamente honesto. Negocie honestamente com os homens enquanto vive; e trate justamente com Deus quando morrer. Se deixar bens, deixe uma porção onde possa ajudar a causa de Deus. Ore sobre isso até descobrir o que deve fazer, e faça-o a tempo. Faça o seu testamento enquanto está com saúde; você não sabe quão cedo pode ficar incapaz, ou quão de repente pode morrer. Faça-o na forma legal, para que não haja litígio quando você se for, e para que os advogados não fiquem com a maior parte dos seus bens. Lembre-se de Deus no seu testamento.

428. A propriedade na velhice

Se você está entrado em anos, e Deus lhe deu bens que o sustentem quando já não puder ganhar a vida, então cuide deles. Não corra risco algum de perdê-los. Se possui uma fazenda, conserve-a, ainda que não seja muito lucrativa. Mesmo que não possa trabalhá-la, você pode ter um bom lar na casa e arrendar a terra de meia para tirar o sustento. Se a vender por dinheiro, pessoas em quem você confia obterão o seu dinheiro sob pretextos plausíveis e, “sem culpa alguma delas”, o perderão — deixando-o, na velhice, pobre e dependente. Se você se mudar para a cidade, alguém o convencerá de que pode dobrar o dinheiro em pouco tempo num negócio que ele administrará por você, e, quando menos esperar, as duras economias de anos estarão dissipadas. Se Deus lhe deu um lar confortável, não se desfaça dele nos anos do declínio, a menos que saiba que é da vontade dele.

429. Profetizar no Espírito

Diz São Paulo: “O que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.” (1Co 14.3) Fala sob a inspiração direta do Espírito. Assim devem falar os pregadores; e assim todo o povo de Deus. O Senhor disse por Joel: “Derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade; os filhos e as filhas de vocês profetizarão.” (Jl 2.28) Isso começou a cumprir-se no dia de Pentecostes. A promessa alcança o fim dos tempos. Devemos esperar o seu cumprimento em todas as nossas congregações. Devemos dar todo encorajamento a homens ou mulheres que falam “edificando, exortando e consolando”. Onde isso acontece, há boas congregações e interesse profundo. Mas de uma igreja cujos membros “mordem e devoram uns aos outros” o povo naturalmente se afasta. Denúncia não é profecia. Injuriar os que o injuriam não requer o Espírito de Cristo — qualquer pecador faz isso. Para falar no Espírito, é preciso ter o Espírito; é preciso viver no Espírito.

Uma sociedade que vive no Espírito, e ora e profetiza no Espírito, terá reavivamento contínuo. Pode ter um pregador fraco, ou não ter pregador; mas prosperará em suas almas, e o Senhor lhe acrescentará homens e mulheres empenhados de verdade em chegar ao céu. É o que diz São Paulo: “Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, ele se sentirá convencido e julgado por todos. Os segredos do seu coração se tornarão manifestos; e assim, prostrando-se com o rosto em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vocês.” (1Co 14.24-25) Esse resultado se vê com frequência. Pessoas que vão a tais reuniões por curiosidade, e talvez cheias de preconceito, saem para levar uma vida de oração. São convencidas pelo Espírito quando menos esperam; e, se forem honestas com Deus e cederem às suas convicções, serão salvas. Já conhecemos igreja assim que teve reavivamento contínuo por anos. Procure fazer da sua igreja uma igreja assim. Você pode achar que não é possível, mas “tudo é possível ao que crê” (Mc 9.23). Você pode fazer a sua parte — e ela pode realizar mais do que imagina. Em todo caso, o seu esforço garantirá grande bênção para você mesmo.

430. Cristo cuida dos servos fiéis

É animador ver como Cristo provê para quem o segue plenamente. O dr. J. W. Redfield era médico de clínica lucrativa em Nova York. Deus o chamou para sair e trabalhar como evangelista. Seu êxito foi maravilhoso. Milhares foram convertidos e santificados sob os seus labores. Ele não curava superficialmente: fazia obra completa, cujos frutos permanecem. Não estipulava pagamento; geralmente arcava com as próprias despesas. Com o passar dos anos, quando a idade começou a alcançá-lo, disse: “Não sei se não deveria pôr-me a trabalhar e guardar algo para a velhice ou a invalidez.” Mas nunca conseguiu achar o ponto de largar a sua grande obra de salvar almas para ir ganhar dinheiro. Foi derrubado por uma paralisia. Imediatamente, Deus pôs no coração de um fazendeiro rico, que fora plenamente salvo em suas reuniões, o encargo de cuidar dele. Esse irmão o levou para casa e devotou o seu tempo inteiramente a cuidar dele durante os dois ou três anos que ainda viveu. Se o dr. Redfield valesse um milhão de dólares, não teria conseguido comprar, por dinheiro, o cuidado e a atenção que lhe foram dados por amor.

Eis outro irmão que seguiu Cristo plenamente na obra do ministério. Ainda menino, começou a trabalhar entre nós, no comecinho da obra metodista livre. Nunca buscou nomeação, mas sempre foi com alegria para o trabalho que lhe designavam. Aonde quer que fosse, lançava toda a alma na obra de salvar almas. Sem esforço algum da sua parte, o povo cuidava bem, e de bom grado, dele e da família. Nunca comprou nem construiu casa para si. Manteve-se sem dívidas. Quando, em resposta ao chamado por socorro, foi para a fronteira, com os seus salários pequenos e as suas grandes privações, embora houvesse terra boa de sobra, contrariando o exemplo geral dos pregadores, não requereu “posse” alguma. Entregou-se por inteiro à obra do ministério. E, todos esses anos, o Senhor cuidou maravilhosamente dele. Seus filhos foram bem educados, todos gozam da salvação e ocupam posições de responsabilidade. Sua fronte mal tem uma ruga; sua cabeça, nenhum fio grisalho.

Quando os discípulos saíram, sem bolsa nem alforje, a proclamar o evangelho, o Mestre lhes perguntou ao voltarem: “Faltou alguma coisa a vocês?” “Nada”, responderam eles. (Lc 22.35) Cristo ainda é o mesmo. Seus recursos ainda são os mesmos.

431. Aja em harmonia com a providência

Não devemos dar passo importante algum sem direção divina. Ela nos está prometida, e devemos fazer questão de tê-la. “Reconheça o SENHOR em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.” (Pv 3.6) Muita oração antes de decidir um assunto pouparia, muitas vezes, muito sofrimento resultante de uma decisão errada já tomada. É melhor não se mover de todo do que ir contra as providências de Deus. Ele tem um lugar para cada um de nós, e uma obra para cada um de nós fazer. Busquemos achar a nossa obra e o nosso lugar, e aceitemo-los com gratidão, por humildes que sejam. O membro mais fraco do corpo, se cumpre devidamente as suas funções, contribui para o bem-estar do todo.

“Honra e vergonha não nascem de condição alguma.
Desempenha bem a tua parte: nisso está toda a honra.”

Deus tem uma vontade a nosso respeito. Descubramos qual é e sigamo-la com constância. Quando somos cooperadores dele, o nosso trabalho nunca é vão.

432. As providências de Deus

As providências de Deus estão sempre em harmonia com o seu Espírito. Quando Cornélio, movido pelo Espírito de Deus, manda chamar Pedro, o apóstolo é preparado sobrenaturalmente para aceitar o chamado. O casaco veste as costas para as quais foi feito. A porta se abre para aquele que deve atravessá-la.

Diz o dr. Adam Clarke: “Com que exatidão ocorre cada coisa na condução da providência; e como tudo se adapta perfeitamente ao tempo, ao lugar e à ocasião! Tudo é peso, medida e número. Aquelas ocorrências simples que os homens agarram e forçam a servir aos próprios desejos, chamando-as de portas providenciais, podem de fato ser elos de uma cadeia providencial com referência a outro assunto; mas, a menos que falem a mesma língua em todas as suas partes, ocorrência correspondendo a ocorrência, não devem ser interpretadas como indicações da vontade divina em relação aos que as reivindicam. Muitas pessoas, malogrando por esses equívocos, foram levadas a acusar a Deus tolamente pelo desfecho malsucedido de algum negócio em que as suas paixões, e não a providência dele, as levaram a meter-se.”

433. O ensino público

Somos mandados a estar “sempre preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que há em vocês, fazendo isso, porém, com mansidão e temor” (1Pe 3.15). Se devemos estar preparados para dar razão da nossa esperança, certamente devemos estar preparados quanto ao ensino que damos ao público. Sem alguma reputação de sabedoria, as pessoas não darão grande valor às nossas opiniões. E a opinião mesmo do mais sábio, se não sustentada pela experiência ou por outras boas razões, não é confiável. Vitupério, ridículo e afirmações confiantes nada provam — a não ser a fraqueza da causa que servem. “A Sabedoria edificou a sua casa, lavrou as suas sete colunas.” (Pv 9.1) Ela tem algo sólido em que repousar. Cuidemos de edificar sobre as colunas indestrutíveis da sabedoria.

434. Entre no púlpito preparado

Prepare não só os sermões: escolha as leituras da Escritura e os hinos antes de subir ao púlpito. Não deixe a congregação esperando enquanto você folheia a Bíblia e o hinário à procura de algo. Os melhores declamadores profissionais nunca leem uma peça em público antes de a terem lido muitas vezes em particular, familiarizando-se com ela a ponto de lê-la com efeito. Já vimos uma congregação toda quebrantada só com a leitura do primeiro hino. Quem o leu estava cheio do Espírito.

O sol e as chuvas sempre ajudam mais o trigo semeado na terra preparada com maior cuidado. Assim, o Espírito sempre ajuda mais o pregador que, durante a semana, estudou com consciência, visitou com fidelidade, orou com fervor e andou cuidadosamente com Deus. E o essencial, na pregação, é ministrar o Espírito.

435. O castigo futuro

A Bíblia ensina o castigo futuro tão claramente quanto ensina as recompensas futuras. Declara que há um inferno tão enfaticamente quanto declara que há um céu. Se você tem dúvida, tome a concordância e leia as passagens que falam desses dois destinos futuros. Verá também que somos advertidos contra o caminho da perdição tão insistentemente quanto somos persuadidos a buscar o céu. O Novo Testamento, em especial, abunda em exortações veementes a fugir da ira vindoura. O Sermão do Monte do nosso Senhor está cheio de advertência: “Se o seu olho direito faz você tropeçar, arranque-o e jogue-o fora; pois é melhor perder um dos membros do seu corpo do que o corpo inteiro ser lançado no inferno.” (Mt 5.29) Tanto faz rejeitar a Bíblia por inteiro ou dizer que não há inferno.

436. Unidade de propósito

Paulo disse: “Uma coisa faço.” Era homem de uma só obra. Foi grande viajante; mas viajava unicamente para evangelizar as nações. Trabalhava às vezes no seu ofício de fazer tendas; mas com o único fim de sustentar a si e aos companheiros na pregação do evangelho. Ficou preso por dois anos seguidos; mas tal era a sua reputação de santidade que as pessoas iam à prisão ouvir dele palavras pelas quais pudessem ser salvas. Parece que a sua mensagem do evangelho alcançou a família do imperador; pois, escrevendo aos filipenses, disse: “Todos os santos enviam saudações, especialmente os da casa de César.” (Fp 4.22)

Um homem assim devotado à obra de salvar almas, a quem privação alguma desanima e perseguição alguma silencia, não pode senão alcançar êxito marcado.

437. A quietude, elemento de força

“Em sossego e confiança estaria a sua força.” (Is 30.15) Um cavalo fraco, puxando carga pesada, tenta movê-la aos trancos e arremessos. Um forte e bem treinado assenta-se nela, dá passos curtíssimos no começo, ganha movimento e então parte com ela. Diz Carlyle que é “erro fundamental chamar de força a veemência e a rigidez. Não é forte o homem que tem acessos convulsivos, ainda que seis homens não consigam contê-lo. O que caminha sob o peso mais pesado sem cambalear — esse é o homem forte. Quem não sabe calar-se até que chegue a hora de falar e agir não é homem como deve ser.”

De dois modos ganhamos com a quietude: primeiro, acumulamos força constantemente; depois, quando o gasto é realmente exigido, gastamo-la com a máxima vantagem. Muitos desperdiçam, em observações rabugentas e mal-humoradas, uma soma de energia nervosa que, poupada, os levaria em triunfo por grandes provações.

438. Dedique-se à leitura

É infortúnio ser ignorante. E, contudo, em muitos aspectos todos somos ignorantes. O que o mais douto sabe é pouco em comparação com o que não sabe. Infortúnio ainda maior do que ser ignorante é julgar que se sabe tudo. Tal é a decisão da Escritura Sagrada: “Você já viu um homem que se julga sábio? Há mais esperança para o insensato do que para ele.” (Pv 26.12) Quem tem consciência de que não sabe muito dispõe-se a receber instrução. E aprendizes dispostos sempre acham bons mestres. Mas a presunção fecha a porta à instrução, como uma parede grossa, assentada em argamassa, fecha a passagem à luz. Certa vez dissemos a um pregador, cuja mesmice no pregar ia ficando enfadonha, que ele deveria ler mais. Sua resposta enfática foi: “Ler o quê?” Poucos anos bastam para que pregadores assim se esgotem. Não ficam muito tempo em demanda.

Extratos 439–451 · Temeridade, regeneração, religião pura, opróbrio+

439. Imprudência temerária

A temeridade não é fé, nem é um dos frutos da fé. É antes filha da incredulidade e do desespero. O homem que parte para atravessar um mar tempestuoso num barco que sabe velho e furado não tem o direito de falar em ter fé em Deus para uma travessia próspera. O lavrador que planta semente ruim em solo ruim, mal preparado, e negligencia os cuidados necessários, não pode ter fé legítima de que Deus lhe dará colheita abundante. Assim, quem desafia as leis da saúde que Deus ordenou não tem o direito de esperar que Deus lhe dê saúde.

Nas coisas físicas, como nas espirituais, há condições que devemos cumprir para alcançar os resultados desejados. A fé em Deus mostra-se pela nossa obediência às leis de Deus. “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode essa fé salvá-lo?” (Tg 2.14) “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta.” (Tg 2.26)

440. Reformar os homens não basta

O que os homens em estado natural precisam não é de ser um pouco reformados, nem muito reformados, mas de ser ressuscitados dentre os mortos. Enfeitar cadáveres é, no melhor dos casos, inútil. Caixões dourados e sepulcros custosos não fazem bem algum aos mortos. Nenhum benefício se lhes pode conferir sem que primeiro sejam restaurados à vida. “Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida.” (1Jo 5.12) Não visemos, pois, apenas a reformar os homens: esforcemo-nos por persuadi-los a vir a Cristo, para que tenham vida. Se falharmos nisso, por muito que tenhamos êxito noutras coisas, o nosso ministério não passa de fracasso. Quando um ministro decai em mero reformador, faz confissão pública — embora talvez não intencional — de que perdeu o seu poder.

441. Regeneração ou reforma?

Havia grandes males sociais no tempo de Paulo. A sociedade era corrupta. Abundavam a escravidão, a intemperança e a licenciosidade. Mas Paulo nunca se tornou mero reformador. Não organizou sociedades antiescravistas, de temperança ou de pureza social. Pregou um evangelho que arrancava pela raiz todos os males morais. Pôs o machado à raiz da árvore. A sociedade foi-se reformando pela regeneração de muitos dos seus membros. A influência deles elevou na escala moral os que não se converteram.

442. Os parentes idosos e desamparados devem ser cuidados

Paulo, falando de “filhos e netos”, diz: “aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria casa” (1Tm 5.4). Ele se refere especialmente a manifestarem a piedade provendo as necessidades daqueles que, quando eles eram desamparados, cuidaram deles. A religião do filho que pode deixar o pai sofrer, quando está em seu poder aliviá-lo, é de qualidade muito ruim. Não é a religião da Bíblia. Em algumas terras pagãs, é costume expor os velhos e deixá-los morrer por abandono. O verdadeiro cristianismo acaba com todas essas práticas bárbaras. Numa terra cristã, o asilo de indigentes não é lugar para quem tem “filhos ou netos” fortes e sãos. Estes devem fazer do cuidado do parente idoso e desamparado o seu dever. Entre os Dez Mandamentos, o único que traz promessa anexa é: “Honre seu pai e sua mãe, para que você viva muito tempo na terra que o SENHOR, seu Deus, lhe dá.” (Êx 20.12)

443. A religião, fundamento da verdadeira grandeza

Nada toma posse da natureza mais profunda do homem como a religião. As questões relativas ao nosso dever e ao nosso destino são as maiores que temos a resolver. Só uma natureza superficial e insincera consegue despachar tais questões com um sarcasmo ou um escárnio. Todos os homens verdadeiramente grandes foram homens religiosos. Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare e Milton tiraram grande parte da sua inspiração das verdades religiosas correntes em seus tempos. Até os grandes guerreiros do mundo reconheceram a autoridade, e invocaram o auxílio, do Poder divino acima de nós. As fileiras do ateísmo nunca produziram um grande poeta nem um grande comandante.

O jovem que busca distinção zombando da religião dificilmente alcançará distinção mais alta. A menos que dê meia-volta completa e se converta, espera-o uma carreira inglória, terminando em vergonha e desprezo eterno.

444. A religião não está nos exteriores

Muito tempo gasto nos exteriores da religião é tempo gasto sem fruto. Não que os exteriores não contem: contam muito, como indicações do estado do coração e manifestações de uma disposição graciosa ou não graciosa da alma. Mas muito do que se faz não passa, na verdade, de um esforço prolongado para fazer uma árvore má produzir bom fruto. O melhor que se consegue nessa direção é a produção de uma imitação atraente, porém sem valor. Todos os que creem devem cuidar de manter boas obras; mas devem verificar que as boas obras sejam genuínas, e não falsificações — que brotem da fé humilde e do ardente amor de Deus, e não do amor ao louvor e da expectativa de recompensas terrenas.

Quando alguém falha habitualmente em fazer o certo, é porque não está certo. Os esforços por fazer o certo não devem afrouxar; devem redobrar. Faça bom o fruto; mas o único modo eficaz de fazê-lo é fazer boa a árvore. A confissão humilde a Deus, a oração fervorosa, a obediência aos impulsos interiores do Espírito nos levarão aonde Deus pode realizar a obra. A verdadeira religião não consiste em nada externo, mas em justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17).

445. A nossa religião deve beneficiar a todos

Nossa religião deveria, de algum modo, beneficiar cada pessoa com quem entramos em contato. Deveria tornar-nos mais atenciosos com os outros, mais fiéis em todos os deveres comuns da vida. “Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si mesmo.” (Rm 14.7) Isto se diz de todos os verdadeiros cristãos.

446. Negociar a religião por lucro

Negociar princípios é negócio desastroso. É trapaça de todos os lados. Parece muito com o comércio de moeda falsa: quem vende sabe que pratica fraude; quem compra sabe que está adquirindo algo que espera revender por mais que o valor real. A religião de que se dispõe por dinheiro não vale o preço pago, por ínfimo que seja. É pior que sem valor: não salva a alma e impede eficazmente que se busque aquela santificação sem a qual ninguém verá o Senhor. Judas nada ganhou vendendo a Cristo. Sua prata tornou-se fardo penoso que ele não pôde carregar. E a transação foi igualmente fatal às outras partes do negócio. Ó professos transigentes! Não considerarão as palavras de Cristo: “Pois que adianta alguém ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36)

447. A religião misturada é uma maldição

A religião misturada é a maldição da cristandade. É obstáculo maior à difusão do evangelho do que a incredulidade em todas as suas formas variadas. Uma fé cristã combinada com formas pagãs de culto e regras mundanas de conduta ilude e desmoraliza onde quer que prevaleça. Conformar-se ao mundo, professando servir a Deus, é sintoma tão fatal quanto o ato de “roubar a libré do céu para nela servir ao diabo”. Ambos mostram uma divisão de propósito que torna impossível adorar a Deus aceitavelmente. “Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24) é a grande lição que os cristãos professos de hoje precisam aprender. O pregador que ministra nos altares da maçonaria, por devoção aos seus princípios, não deveria ter permissão de pregar em púlpitos cristãos para ganhar a vida. Cantar os cânticos de Sião e manifestar gênios pecaminosos nunca levará ninguém ao céu. Oração e orgulho não andam bem juntos. A oração pode alimentar o orgulho; mas o orgulho mata a oração. O evangelho da conveniência é substituto condenatório do evangelho de Cristo. Cuide de que a sua religião seja pura. Não aceite mistura de princípios celestiais e infernais, por habilmente que sejam compostos. “Medite estas coisas e dedique-se inteiramente a elas, para que o seu progresso seja visto por todos.” (1Tm 4.15)

448. A província de um jornal religioso

Não atacamos intencionalmente o caráter moral de pessoa alguma, especialmente de ministro ou membro em boa situação, nem permitimos que se faça, nestas colunas. Um jornal não é tribunal para o julgamento de membros de igreja, nem de ninguém. Mas é lugar próprio para a discussão temperada de métodos. Ao discuti-los, devemos cuidar de não lançar dúvida sobre a integridade cristã dos outros; e devemos, por outro lado, guardar-nos da suscetibilidade excessiva ao ler o que outros escrevem em oposição às nossas ideias ou práticas. Não devemos presumir que alguém nos julga não cristãos porque não pode concordar conosco. Quando ele diz que a tendência de certo modo de agir é má, não devemos dar por certo que diz que o agente é mau. Devemos interpretá-lo, como foi pretendido, como questão de métodos, e não de moral. A melhor interpretação que se pode dar com justiça às palavras é a interpretação caridosa. Quando um homem diz uma coisa em letra impressa, não devemos passar a denunciá-lo por dizer coisa inteiramente diversa, que nós escolhemos pensar que ele quis dizer. Não devemos acusar ninguém de intenção pior do que as suas palavras.

A consciência e a candura devem ser postas em exercício na leitura, tanto quanto na escrita. Dê-lhes pleno curso, e muita mágoa será evitada.

449. Aristocracia religiosa e política

As igrejas populares deste país deram o exemplo de estabelecer uma aristocracia baseada na riqueza. Os melhores assentos das grandiosas casas de culto são vendidos a quem pagar mais por eles.

Os grandes partidos políticos seguem o exemplo das grandes igrejas. No Senado dos Estados Unidos, diz-se, há dezesseis milionários que valem oitenta milhões de dólares! E provavelmente cada um deles deve a eleição à sua riqueza!

O governo da antiga Roma era muito mais forte que o nosso. Durou centenas de anos e estava, humanamente falando, firmemente estabelecido. Mas, quando o seu povo se corrompeu, e os cargos passaram a ser comprados e vendidos, e Mamom tomou as rédeas do poder, o Estado despedaçou-se pelas próprias corrupções. Seus inimigos triunfaram sobre ele, e o seu povo foi reduzido à escravidão.

Nossa nação está em perigo — não de fora, mas de dentro. O bem-estar dos insensatos os destruirá.

450. O opróbrio não convém entre os santos

Uma igreja composta apenas dos que, antes de convertidos, levaram vidas respeitáveis dificilmente poderia, no presente estado da sociedade, chamar-se igreja de Jesus Cristo. Ele veio chamar “não justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Mc 2.17). Os trapos de que se fez uma folha de papel podem ter vindo do salão de uma dama; os de que se fez outra folha podem ter vindo da sarjeta. Mas agora não se percebe a diferença. Uma folha pode ser tão branca, e tão boa, quanto a outra. A que veio do salão nunca lança em rosto à da sarjeta a sua origem. Ambas tiveram de ser purificadas pelo mesmo processo. Assim é com os santos de Deus. Sua excelência depende, não do que eram, mas do que são. Ninguém deve jamais acusar o outro da condição pecaminosa em que veio a Cristo.

Que importa que ele, ou ela, se tenha casado quando jovem e ímpio, e obtido divórcio por motivos diferentes dos permitidos pelas Escrituras? O seu direito bíblico ao divórcio agora, ninguém questiona. Mas, como já se divorciaram legalmente há muito, não podem obter outro divórcio agora. E, se pudessem, seria despesa inútil. Eles dão toda a evidência de perdão, e de vida cristã, que se poderia pedir em qualquer outro caso. Deixem-nos, pois, em paz. Se Deus os perdoou, você deve perdoá-los, se quer ser perdoado. Não tenha tanto medo de que a igreja seja desonrada. Ela não será desonrada pela má conduta dos seus membros antes de serem salvos, se agora levam vidas santas. Mas é desonrada pelos que, professando salvação, se fazem culpados de maledicência e calúnia contra os outros. Você deve procurar ajudar, e não estorvar, os que foram resgatados das próprias garras de Satanás. Se se arrependeram, produziram frutos dignos de arrependimento e agora são irrepreensíveis na vida, é obra diabólica levantar contra eles o passado. Se Deus o cobriu pelo seu Espírito, que fique coberto. Satanás é o acusador dos irmãos. Não o ajude na sua obra nefanda. A má conduta passada de uma pessoa agora salva por Deus é uma das coisas que você é obrigado a esquecer.

451. Levantar opróbrio contra o próximo

Tomar sobre si o opróbrio contra o próximo é negócio perigoso. Não se pode praticá-lo e ir para o céu. Recentemente, pessoas morreram por manusear velhas granadas caídas vinte e cinco anos atrás, durante a guerra. Se acontecer de você desenterrar uma no arado, é melhor enterrá-la de novo. Se lhe trouxerem opróbrios contra o próximo, não os leve adiante. Se os depuserem à sua porta, deixe-os ali até que morram. Recuse-se positivamente a ter qualquer coisa com eles. Você os toma por sua conta e risco. São coisa imunda, em que não nos é permitido tocar. Os mercadores de escândalo não deveriam achar mercado para as suas mercadorias na casa de um cristão. Podem oferecê-las de graça; mas você deve repelir tais ofertas como repeliria a oferta de lhe darem a varíola ou a febre amarela.

Extratos 452–463 · Repreensão, ressurreição, reavivamentos+

452. Repreensão

Antes de repreender, esteja certo de que a repreensão é merecida. Se você ouve, ou vê, algo em outra pessoa que julga errado, não condene, nem em público nem em particular, sem estar plenamente seguro de que entendeu bem o assunto. Se possível, ouça as explicações da parte envolvida.

Um pregador, no sermão de certa manhã de domingo, deu aos membros severa reprimenda por negligenciarem uma irmã enferma. No fim do culto, vários lhe perguntaram o que ele quisera dizer. Respondeu que uma irmã, que morava do outro lado da rua da sua casa, estava doente havia três semanas, e nenhum membro a visitara.

“Por que o senhor não nos avisou antes? Não sabíamos que ela estava doente.”

“Eu mesmo só soube ontem.”

E, contudo, repreendeu o povo, pública e asperamente, por não fazer o que não sabiam que precisava ser feito. Muitas vezes os sermões ralhadores não têm mais fundamento do que este.

O sr. Wesley esteve certa vez prestes a desligar um membro por avareza. Conhecia a renda do irmão e achava que ele não contribuía para a causa quanto devia. Foi falar com o suspeito. Descobriu que o irmão vivia com dezoito pence por semana — às vezes fazia refeição inteira de nabos cozidos — para pagar dívidas contraídas antes de se tornar cristão! Assim, em vez de censura, Wesley deu-lhe calorosa recomendação.

Antes de administrar repreensão, adote a regra de ir à parte envolvida e, com espírito amoroso e em tom sereno, apurar os fatos e as explicações do caso.

453. A maneira de repreender

A repreensão, para fazer bem, deve ser dada com sabedoria. Muito depende da ocasião escolhida e da maneira empregada. Geralmente, o ofensor deve ser chamado a sós. Se há presentes pessoas não interessadas, ele naturalmente se porá na defensiva. Em vez de confessar onde errou, procurará lançar a culpa nos outros. A maneira deve ser bondosa; o tom de voz, quieto e terno; as palavras, as mais gentis que sirvam. Que sabedoria usou Natã com Davi! O objetivo deve ser, não apenas cumprir o nosso dever, mas restaurar o que erra. “Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vocês, que são espirituais, corrijam essa pessoa com espírito de brandura; e cuide cada um de si mesmo, para que não seja igualmente tentado.” (Gl 6.1)

454. A repreensão deve ser bem recebida

Os pregadores devem ter a consideração, o respeito, a simpatia e o apoio do seu povo. Você deveria pensar com candura no seu pregador, nas suas circunstâncias, nas suas provações e necessidades, e perguntar-se: “Que posso fazer para ajudá-lo?” Se ele lhe dá repreensão bem-intencionada, você não deve inquietar-se sob ela, ainda que verifique não merecê-la. Uma alma salva não é melindrosa nem hipersensível. Se você não está certo, deveria agradecer que lho mostrem; e, ainda que isso lhe fira um pouco os sentimentos, deveria dispor-se a vê-lo apontado, e pôr-se a acertar-se. Por outro lado, se você está em ordem, e a Palavra de Deus não o condena, e o Espírito lhe dá o seu endosso e o enche de consolo, por que se perturbar por ser mal compreendido e mal julgado? “Pois que glória há em suportar com paciência quando vocês são esbofeteados por terem pecado? Mas, se vocês suportam com paciência o sofrimento por terem feito o bem, isso é agradável a Deus. Porque para isso mesmo vocês foram chamados.” (1Pe 2.20-21)

455. Requer-se poder de ressurreição

Em nossos artigos de religião dizemos crer na ressurreição dos mortos. Isso se refere aos corpos que desceram à sepultura. Cremos também na ressurreição de almas mortas e de sociedades mortas. Mas isso só pode efetuar-se pelo poder de Deus. De nada serve denunciá-las. Devemos ser capazes de profetizar sobre esses ossos de tal modo que haja um “estremecimento”, e um “barulho”, e um ajuntar-se “osso a seu osso”, até que “o fôlego entre neles e vivam” (Ez 37). Desse modo muitas sociedades mortas foram ressuscitadas. Mas é inútil você tentar, se está tão morto quanto as demais. Você mesmo precisa primeiro ser trazido à vida. Venha àquele que é “a ressurreição e a vida” (Jo 11.25), em busca do poder que o habilite a ajudar os outros a viver. Os mortos não podem ressuscitar os mortos.

456. Reavivamentos

Leve avante a obra dos reavivamentos. Se não há movimento especial na sua igreja, procure despertar o interesse. Olhe para a multidão ao redor, apinhando o caminho largo que leva à destruição, até que venha sobre você o fardo das almas. A preocupação gera preocupação. A oração fervorosa, importuna e crente será respondida no despertamento das almas. Se há interesse de reavivamento, mantenha-o e aumente-o. Frequente as reuniões. Chegue a tempo de tomar parte ativa nos exercícios de abertura. Cante com vontade. Ore com fervor. Seja abençoado. Dê aos outros a sua vez. Seja breve. Não ralhe. Se você é estorvo para alguém, faça confissão tão humilde que remova todo impedimento. Quebrante os outros quebrantando a si mesmo. Faça a sua própria confissão, e deixe que os outros façam a deles. Não levante controvérsias. Evite ataques pessoais a quem quer que seja. Revista-se de humildade.

457. Precisam-se reavivamentos

Esperamos que cada ponto metodista livre se lance imediatamente a um reavivamento da obra de Deus. Um reavivamento é necessário em todo lugar. O pecado abunda. Multidões não fazem profissão alguma de religião. Dos que pertencem às igrejas, poucos dão evidência bíblica de terem nascido de Deus. Muitos nunca se converteram. Muitos que outrora se converteram estão hoje desviados. A morte espiritual reina. É epidêmica. Os que outrora estavam vivos vão morrendo ao nosso redor. Montes e vales estão cobertos dos ossos dos mortos. E estão sequíssimos. Em toda parte, a grande carência é um derramamento do Espírito de Deus. Se Deus não soprar sobre esses ossos secos, jamais viverão. Mas o sopro do Todo-Poderoso pode causar ressurreição onde tudo indica condição totalmente sem esperança. Os que creem em Deus nunca devem desesperar. Há socorro nele. Estes mortos podem viver. “E não pensem que basta dizer: ‘Nós temos Abraão por pai.’ Porque eu lhes afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mt 3.9)

458. Reavivamento necessário em cada localidade

Desejamos muito que todos os nossos pregadores, e todo o nosso povo, se ponham a trabalhar para promover um reavivamento da religião em suas respectivas localidades. Não há cidade em toda esta terra em que um reavivamento não seja necessário. Em toda parte, pecadores dentro da igreja e pecadores fora da igreja vão para o inferno. Quanto pior o estado da religião e da moral na comunidade, maior a necessidade de reavivamento. Se você quer fazer a obra de um evangelista, há campo de sobra para exercitar todas as suas energias em qualquer dos nossos circuitos. Se deseja tornar-se missionário, comece o seu treinamento agora mesmo, fazendo obra missionária na sua própria vizinhança.

“Se você quer um campo de trabalho,
pode achá-lo em qualquer lugar.”

Quem consagrará ao Senhor o seu serviço para esta obra?

459. Um reavivamento genuíno

Tão rígida era a disciplina entre os velhos espartanos que uma campanha militar era vista por eles como dever agradável. Assim é com todo cristão real. Seus melhores dias são aqueles em que faz os esforços mais vigorosos pela salvação dos homens. Ele ama as cenas de reavivamento. O clamor por misericórdia do pecador convicto, gemendo sob a carga dos seus pecados, e os brados dos remidos caem como doce música em seus ouvidos. Nunca somos tão felizes — nunca tão elevados acima do mundo — como quando Deus condescende em usar-nos como o seu “machado de guerra para despedaçar as nações” de pecadores e “destruir reinos” de trevas (Jr 51.20).

Mas um reavivamento, para ser bênção e não maldição, deve vir acompanhado da purificação da igreja. Os velhos fariseus faziam prosélitos, mas estes eram duas vezes mais filhos do inferno do que eles. Assim é com os convertidos de uma igreja fria, morta, formal e elegante. Entre os membros antigos há muitos que outrora foram solidamente convertidos e que, quando eram pobres, e a sua igreja era perseguida e desprezada, realmente gozavam da religião. Estes, em geral — a menos que vivam na prática secreta de pecado flagrante —, conservam simpatia bastante pela salvação para não se lhe opor com muita amargura. Mas, quando homens não renovados entram em grande número na igreja e tomam as rédeas do governo, então a oposição à vida e ao poder da piedade se torna formidável demais para ser enfrentada com êxito. Então o santuário do Altíssimo se converte em praça de mercado, onde o direito de adorar a Deus é leiloado a quem der mais. Então quermesses e festivais, passeios de prazer, ceias de ostras e saraus tornam-se a ordem do dia. A verdadeira religião é tratada com ridículo, e os que a gozam são estigmatizados de fanáticos ou supersticiosos.

Um reavivamento genuíno é o que leva os seus participantes a acertar-se com Deus e com os homens; que leva os de coração obstinado a curvar-se em humilde submissão aos pés de Jesus. Irmão, você quer um reavivamento? Comece agora mesmo a examinar o próprio coração. Acerte-se a qualquer custo. Onde você lesou alguém no caráter ou nos bens, faça confissão e restituição até o limite das suas forças. Consagre-se plenamente a Deus por todo o tempo por vir.

“Os que a muitos conduzem à justiça brilharão como as estrelas, para todo o sempre.” (Dn 12.3) Se os seus convertidos forem muitos, será porque você é diligente e fervoroso. Você precisará fazer muito trabalho pessoal. Os homens não costumam afluir em multidões ao estandarte da cruz. São atraídos e ganhos — um aqui, outro ali.

460. O reavivamento implica vida nova

O reavivamento numa igreja não depende tanto da condição espiritual da igreja quanto do dar ela um passo à frente na vida divina. Uma igreja pode estar em boa condição espiritual, cada membro pode gozar da bênção da santidade; podem estar unidos e ter o respeito e a confiança da comunidade; o pregador pode ser capaz e trabalhador; mas, se não se deixarem derreter pelo Espírito e receber bênçãos frescas sobre a alma, dificilmente terão reavivamento de qualquer permanência ou profundidade. Por outro lado, se estão divididos e desviados, mas se voltarem ao Senhor “de todo o coração, com jejum, choro e pranto”, e rasgarem “o coração, e não as suas roupas” (Jl 2.12-13) — isto é, tiverem verdadeira humildade interior —, Deus derramará sobre eles o seu Espírito, e haverá um bendito reavivamento da religião.

Foi depois de se ter desviado gravemente, e de ter voltado ao Senhor, orando por perdão e por um coração puro, que Davi orou: “Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário. Então, ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti.” (Sl 51.12-13)

Não que não seja melhor que todos levem vidas santas. Mas, se queremos ver um derramamento do Espírito, devemos quebrantar-nos diante de Deus e receber novos toques do poder divino.

461. O reavivamento à moda antiga

Onde não é necessário um reavivamento? Onde vive o povo todo junto em santo amor, a caminho do céu, com cânticos e alegria eterna sobre a cabeça? Onde não abunda o pecado? Onde a igreja não precisa de purificação?

Um reavivamento à moda antiga fará mais para resolver dificuldades do que arbitragens ou processos eclesiásticos. Melhorará a vizinhança. Ajudará em toda reforma necessária. A salvação do pecado remove a grande causa das rusgas, dissensões e desavenças de vizinhança. Nada ajudará as finanças de uma igreja como um reavivamento completo da obra de Deus. Acima de tudo, glorificará a Deus na salvação de almas.

Empenhe-se, pois, por um reavivamento. Faça planos para tê-lo. Consagre-se a Deus para fazer tudo o que puder por promovê-lo. Seja o seu clamor ao céu: Ó SENHOR, reaviva a tua obra! (Hc 3.2)

462. Reavivamentos não vêm por acaso

Os reavivamentos não vêm por acaso. Uma colheita de almas não se recolhe por acidente, assim como não se recolhe uma colheita de trigo. No primeiro caso, o trabalho bem dirigido é tão necessário quanto no segundo. É preciso solo duro e pesado para dar boas safras de trigo ano após ano; e grandes colheitas de almas já se recolheram dos campos menos promissores.

Charles G. Finney, o maior avivalista do seu tempo, disse: “Um reavivamento é o resultado do uso correto dos meios apropriados. Os meios que Deus prescreveu para a produção de um reavivamento têm, sem dúvida, tendência natural a produzi-lo. Do contrário, Deus não os teria prescrito. Mas os meios não produzirão reavivamento, todos sabemos, sem a bênção de Deus. É-nos impossível dizer que não haja influência ou ação tão direta de Deus na produção de uma safra de grãos quanto na produção de um reavivamento.” Leitor, pergunte ao Senhor o que ele quer que você faça para promover um reavivamento.

463. Sugestões gerais para um reavivamento

Se você quer um reavivamento, não basta concordar em pedi-lo: é preciso concordar quanto a ele. É preciso unir as mãos para remover cada obstáculo que se ponha no caminho do reavivamento. Tanto quanto possível, sarem-se todas as dissensões entre os membros. Ponha-se fim a todas as incoerências reais que os pecadores naturalmente levantam como razão para não se converterem.

Torne confortável a sala em que as reuniões se realizarão. Dê ao povo convites não só públicos, mas pessoais, para vir às reuniões. Esteja sempre presente na abertura de cada culto, e espere que o Espírito seja derramado já no cântico do primeiro hino. Ponha de lado todo ciúme, e todo desejo de destaque, e trabalhe de coração com qualquer pessoa por meio de quem Deus se agrade de operar. Manifeste o seu interesse, e a sua concordância, com tudo o que é de Deus. Não procure atrair a atenção para si; disponha-se a trabalhar despercebido e sem o apreço dos mortais. Você sabe que a roda que move o moinho fica fora da vista. Conserve-se cheio de amor, e leve consigo uma influência de graça a cada lugar em que entrar. Tenha uma fé que nunca vacila, e procure inspirá-la nos outros.

Extratos 464–476 · Como começar, sustentar e não destruir um reavivamento+

464. Reavivamento — comece certo

Uma das razões por que os reavivamentos não são mais extensos e mais permanentes é que não começam certo. Nos produtos feitos por molde, não se poupam esforços para ter um molde perfeito. Os pregadores e os obreiros de um reavivamento moldarão, em grande medida, a experiência dos convertidos. Se os obreiros são frios e formais, os convertidos serão fracos e instáveis. Os fariseus não fazem convertidos iguais a si: fazem-nos com os defeitos dobrados em intensidade — foi o que disse o nosso Salvador. Portanto, se você quer um reavivamento, comece por vocês mesmos. Despertem-se para agarrar-se a Deus. Não se pode comunicar aos outros o que não se tem. Para comunicar vida espiritual, é preciso ter vida espiritual — e tê-la em abundância. Orações de mortos não ressuscitam mortos. Nenhuma igreja está apta a trabalhar num reavivamento se não está ela mesma gozando de um reavivamento. Consagrem-se, pois, de novo a Deus. Não tenham medo de quebrantar-se e ser abençoados diante do mundo.

465. Onde começar um reavivamento

O êxito no começo de qualquer empreendimento inspira coragem aos que nele se empenham. Se você quer um reavivamento, o melhor é começar onde, cumprindo o seu dever, o fracasso é impossível. O seu êxito animará a você e aos outros. Há pouca dúvida de que a obra se espalhará.

“Onde”, pergunta você, “devo começar? Onde tenho certeza, se fizer a minha parte, de ter um reavivamento?”

Respondemos: comece por você mesmo. A obstinação e a perversidade dos outros não podem impedir que o fogo santo caia sobre você. “Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês.” (Tg 4.8) Os outros o sentirão.

466. A oportunidade deve ser aproveitada

As noites longas oferecem oportunidade para reuniões de reavivamento e reuniões prolongadas, que deve ser aproveitada. Se você não tem ânimo para tal reunião, fale disso com Deus no seu quarto. Separe um dia de jejum e oração, para conhecer a mente do Senhor no assunto, e suplique-lhe que batize especialmente a sua alma, para que você apascente o rebanho sobre o qual o Espírito Santo o constituiu supervisor. Depois vá às casas dos seus membros e ore com eles sobre o assunto. A essa altura, você estará pronto para visitar os não salvos em seus lares, falar-lhes pessoalmente das suas almas e orar com eles. Para ter êxito, você precisa ser ungido para a obra; e, quando receber a unção, deve trabalhar como se tudo dependesse de você — e depender de Deus como se você nada fosse, e tudo dependesse dele.

467. As reuniões de reavivamento devem começar cedo

O melhor tempo para começar as reuniões de reavivamento é imediatamente, antes que chegue o frio. Assim, se você voltar ao seu circuito anterior, marque compromissos para as primeiras noites claras e, em nome de Deus, comece de imediato os esforços especiais pela salvação das almas. Se for para um ponto novo, instale-se o quanto antes e inicie as reuniões de reavivamento antes que morra o interesse pelo novo pregador. Não há tempo a perder. Almas perecem ao seu redor. Os jovens serão mais difíceis de alcançar quando começarem os divertimentos de inverno. Incendeie-se todo, e você achará algum lugar em que acender fogo. Carregue-se de amor pelas almas, e achará almas para salvar. Acomodar-se na inatividade amortece as energias de qualquer pregador. Desperte-se por completo, e despertará os outros. Queremos ouvir de mais reavivamentos, e de maior número de conversões em cada reavivamento. Deus o ajude!

468. As reuniões de reavivamento começam no quarto de oração

Não espere pelas reuniões de reavivamento para que o reavivamento comece. Que ele comece agora. Tenha você mesmo um, na própria alma. Ele então se espalhará. O fogo aceso por uma brasa viva do altar de Deus pega tão prontamente quanto qualquer outro. Uma humilde mulher negra, certa vez, pelo seu testemunho ardente do amor perfeito, incendiou de amor a Deus e às almas o coração de um advogado, formalista morto. Ele começou imediatamente a trabalhar com grande zelo e poder pela salvação dos outros. Reavivamentos completos e permanentes acompanharam os seus labores aonde quer que foi. Trabalhou incessantemente pelas almas por mais de trinta anos. Muitos milhares foram trazidos a Cristo nas reuniões que dirigiu. Professos mortos, por belos que sejam na morte, não podem trazer à vida almas mortas. Mas, se você ficar todo vivo, trará outros à vida. Que o reavivamento comece no quarto de oração. Logo alcançará o altar da família, a reunião de oração e a congregação pública.

469. Um reavivamento começado

Se a sua igreja está fria, jogar água fria nela não a aquecerá. Traga um pouco de fogo. Faça você mesmo o que deseja que os outros façam. Fogo acende fogo. Um bom exemplo tende a ser seguido. Uma pequena chama entre tições fumegantes muitas vezes os põe todos em brasa. Uma só pessoa viva numa reunião apagada pode mudar-lhe por completo o caráter. Sua prontidão torna os outros prontos. Seu amor ardente leva alguns a ver que perderam o primeiro amor. Dizem consigo: “Eu também já senti assim. Podem chamá-lo de fanático, mas ele tem razão. Estou mais perto da morte do que pensava. Vou voltar ao Senhor e ter a minha alma abençoada. Não vou continuar neste estado morno.” Foi assim que começou um reavivamento. Aquele homem tinha mais a confessar do que supunha. Mas foi até o fim, e foi poderosamente abençoado. Outros o seguiram. Vários desviados foram restaurados. Em pouco tempo, pecadores começaram a buscar o Senhor, e a boa obra prosseguiu até que muitos foram salvos.

470. Um reavivamento pode começar onde dois concordam

Para ter reavivamento num lugar, não é preciso grande número de cristãos devotados que trabalhem por ele. Diz Cristo: “Se dois dentre vocês, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus.” (Mt 18.19) As palavras são gerais, é verdade. Mas não há nada a que se apliquem com mais propriedade do que a um reavivamento da religião. Se você quer um reavivamento, não pode orar por ele até que Deus lhe dê alguém que se una a você? Se não tem irmão ou irmã que se una, não há um desviado que você possa restaurar, ou um pecador que possa converter? Procure alguém com quem possa concordar. Simão Pedro achou o seu irmão André — e você achará alguém, se tentar.

471. Reuniões de oração nos lares

Queremos ouvir de mais reavivamentos entre nós. Um reavivamento completo da obra de Deus é a grande necessidade de todas as nossas sociedades. Não há lugar na terra onde não seja necessário. Se o pregador está ocupado noutra parte do circuito, não esperem por ele para começar as reuniões. Que os membros as comecem. Façam reuniões de oração de casa em casa. Se pessoas não convertidas abrirem as suas casas para reuniões de oração, vão lá e façam-nas. O pregador poderá surpreender-se muito, quando passar, ao encontrar um reavivamento em andamento. Disse um homem na festa de amor de ontem: “Eu era muito ímpio. Vários vizinhos entraram certa noite. Eu disse à minha esposa: ‘Estenda a toalha na mesa; eles vieram jogar cartas.’ Responderam: ‘Não; viemos fazer uma reunião de oração.’ Fiquei muito sem jeito, mas consenti. Gostei do cântico. Quando perguntaram se podiam voltar, eu disse que sim; mas, no fundo, esperava que não voltassem. Voltaram, e eu me pus a orar, e Deus converteu gloriosamente a minha alma. Isso foi há alguns anos, e desde então levo uma vida de oração. Hoje sou feliz em Deus.” Alguns dos melhores reavivamentos que já conhecemos começaram, e prosseguiram, em reuniões de oração nos lares. Elas podem realizar-se em qualquer lugar, e sem pregador.

472. Esforços de reavivamento sem mistura

“Os metodistas livres do nosso lugar”, disse um membro inteligente da Igreja Metodista Episcopal, “fizeram mais, nos últimos seis anos, para edificar a nossa igreja do que para edificar a deles.”

Se, fazendo isso, estivessem ajudando almas a chegar ao céu, passaríamos em silêncio. Mas, quando ajudam a pôr gente numa igreja em que a conformidade mundana, as quermesses, a farra e a maçonaria vão destruindo depressa todo vestígio da velha piedade e do velho fervor metodistas, sentimo-nos livres para dizer que os metodistas livres deveriam empregar-se melhor. Podem usar o tempo, os talentos e os recursos com mais proveito. Fazendo tal obra, traem o encargo que Deus lhes confiou.

Como se chegou a isso? Não intencionalmente da parte deles. Perderam boa medida da vida e do poder do próprio coração. Absorveram-se na política. O zelo partidário corroeu o zelo religioso. Depois entraram em reuniões unionistas. Os pregadores amaciaram o tom para servir à ocasião. Deixaram de fazer para Deus obra completa. Resultaram reavivamentos superficiais, e a igreja mais mundana recolheu os convertidos fracos.

Tais pregadores precisam arrepender-se. Deus pronuncia um ai sobre os que fazem a sua obra com engano. A verdade deve ser pregada com toda a clareza e ousadia às congregações mundanas. Os convertidos sob os nossos labores devem ser tão completamente convertidos, e tão bem instruídos, que as igrejas formais não os queiram. Devem mostrar tão claramente, em seus testemunhos, daquilo de que Cristo pode salvar uma alma verdadeiramente convertida, que as suas palavras ardentes façam tinir os ouvidos embotados dos professos frios. Sejamos fiéis à nossa vocação. Façamos para Deus obra completa.

473. Os membros devem dar continuidade ao reavivamento

Se as reuniões vão avançando com êxito, não devem ser encerradas porque o pregador precisa ir a outro ponto. Há de ser bem superficial o reavivamento em que os membros não foram abençoados a ponto de poderem conduzir uma reunião sem pregador. Vivemos nos tempos de que falou o profeta: “Então os que temiam o SENHOR falavam uns aos outros.” (Ml 3.16) Era das coisas do Reino que falavam, pois “o SENHOR atentava e ouvia”. Considera-se importante a reunião em que está presente um repórter da imprensa, anotando os trabalhos. Mas estas reuniões são mais importantes, pois Deus enviou um registrador, e “um memorial foi escrito diante dele para os que temem o SENHOR e para os que se lembram do seu nome”. Uma reunião que interessa ao céu dificilmente deixará de atrair alguma atenção na terra. Tal reunião pode realizar-se sem pregador.

Melhor ainda: vivemos nos dias de que falou o profeta Joel: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade; os filhos e as filhas de vocês profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias.” (Jl 2.28-29) Não podem vocês passar sem pregador, num estado de coisas assim? Geralmente, em tais tempos, o difícil é passar com o pregador: ele tende demais a querer “firmar a arca”. Mãos ao largo, quando a presença de Deus se manifesta de modo notável. Deixem as novilhas seguirem, mugindo pelo caminho. Não faltará auditório — “os príncipes dos filisteus” irão atrás delas. Serão movidos pela curiosidade, se por mais nada. Que “os seus filhos e as suas filhas”, sobre quem repousa o Espírito de Deus, profetizem. Deem-lhes a oportunidade, e Deus operará por meio deles.

474. Não encerre as reuniões cedo demais

Muito trabalho eficaz se perde, com frequência, por se encerrarem cedo demais as reuniões prolongadas. Às vezes são interrompidas exatamente quando um interesse profundo despertou, e antes de qualquer grande colheita de almas. Isso é errado. É política equivocada. Impede a realização de muito bem, e às vezes faz mal positivo. Os que ficaram enternecidos, mas não salvos, tornam-se mais duros do que eram. Melhor não lavrar e semear um campo, se não se pretende cuidar da plantação e colhê-la. É crueldade gratuita fisgar o peixe no anzol só para atirá-lo de volta à água. Paulo, embora o mundo estivesse aberto diante dele e necessitado de socorro, perseverou em Éfeso “pelo espaço de três anos”. E não foi tempo de descanso entre velhos amigos, pois ele diz: “não cessei de admoestar, com lágrimas, noite e dia, a cada um”. Foi um esforço longo — e bem-sucedido. Uma igreja forte foi recolhida do mundo e firmada na verdade.

475. Reavivamentos o ano inteiro

É noção inteiramente equivocada a de que só podemos ter reavivamentos no inverno. Os homens morrem e se perdem no verão tanto quanto no inverno. Deus está tão disposto a operar numa estação do ano quanto noutra. O problema está na nossa falta de fé e de consagração à obra. Os pregadores podem ter reavivamentos no verão, se quiserem.

No último circuito que percorremos, tivemos um poderoso reavivamento numa comunidade rural, atravessando a estação mais atarefada do ano. O templo, e as carroças com grades de feno encostadas às janelas abertas, enchiam-se de gente. Muitos foram salvos. Foi uma visitação gloriosa. Noutro ponto mantivemos, todo o verão, uma reunião no bosque cada tarde de domingo, frequentada por centenas de pessoas.

Irmão pregador, conserve o espírito de reavivamento e mire diretamente em ver crentes santificados e pecadores convertidos; os seus labores não serão vãos no Senhor.

476. Um reavivamento destruído pela impaciência

A comunidade inteira estava movida, e havia perspectiva de um grande reavivamento da religião. As reuniões eram o assunto comum das conversas nas lojas e nas casas. Mas o povo não se movia com a prontidão devida. A convicção trabalhava nas mentes, mas ainda não mostravam disposição de ceder a ela. Muitos, sem dúvida, teriam cedido; mas o evangelista que dirigia as reuniões pareceu ao povo perder a paciência, e pôs-se a maltratá-lo. O povo voltou-se contra ele, recusou-se a ouvi-lo de novo, e a reunião que começara com tanta promessa terminou em derrota total.

Amado, aconteça o que acontecer, conserve doce o seu gênio. Por provocadores que sejam os outros, que a paz de Deus reine no seu coração. Se os outros não quiserem receber a religião, você ainda pode viver a religião. Cristo diz: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.” (Jo 12.32) Mas não diz que os empurrará. E é pior que inútil que nós o tentemos.

Extratos 477–488 · Reavivamentos populares, ricos e riquezas, justiça nacional+

477. Reavivamentos populares

Nos reavivamentos populares pregam-se algumas verdades importantes. Mas as verdades impopulares, tão necessárias, ou são passadas em silêncio, ou apenas tocadas de vez em quando. Empregam-se “generalidades reluzentes” onde se deveriam usar aplicações pessoais pertinentes. Em termos gerais, dizem talvez do púlpito às pessoas que devem abandonar os seus pecados, que devem renunciar ao mundo; mas na sala de aconselhamento dizem-lhes simplesmente que creiam em Jesus — ou que creiam que estão perdoadas, e perdoadas estão. Depois as instam a confessar Cristo, isto é, a dizer que estão convertidas. Então se unem à igreja e seguem enganadas até o fim da vida. “Quem já está no chão não teme queda.” Se são morais e amáveis, passam por cristãs, quando nunca foram sequer despertadas biblicamente. Nunca perdem a experiência, pois nunca tiveram experiência a perder. Nunca se desviam, pois não têm de que se desviar. Para que um pecador se converta, ele precisa arrepender-se. Precisa fazer humilde confissão dos seus pecados. Precisa afastar-se de todo mau caminho. Precisa sair do meio dos incrédulos e separar-se. Precisa vir a Cristo pondo-se por inteiro à sua disposição. “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)

478. Obra de reavivamento: superficial ou completa?

Um pregador metodista livre nos informa que dirigiu reuniões por várias semanas no inverno passado e viu cerca de trinta pecadores convertidos; mas apenas dois ou três se uniram à Igreja Metodista Livre. Todos os demais foram induzidos a unir-se à Igreja Metodista Episcopal. Se forem conduzidos à santidade, não terá sido trabalho perdido. Mas é desanimador trabalhar duro para converter pecadores e depois vê-los unir-se a uma igreja que, para dizer o mínimo, encoraja tacitamente os rapazes a entrar numa loja anticristã, e as moças a vestir-se como o mundo e a misturar-se nos seus prazeres. É como tirar água com peneira. É labutar para rolar uma pedra morro acima, só para vê-la, perto do topo, escapar das mãos e rolar para mais baixo do que estava no começo. Tais resultados vêm sempre de obra superficial demais. As igrejas populares não querem os convertidos à moda antiga, a menos que tenham bastante dinheiro. Convertidos que dão testemunho contra a maçonaria, as quermesses e a conformidade mundana, e que exultam de alegria em alta voz, só criariam problema numa igreja mundana. Não se sentiriam em casa nela.

Se você não quer que os seus convertidos vão para as igrejas populares, não adote métodos populares para promover reavivamentos. Pregue o arrependimento, e insista nele. Não suponha que as condições da salvação estabelecidas por Cristo e pelos apóstolos tenham prescrito. Ponha-se ênfase nessas condições. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9) Quando as pessoas vierem à frente para receber oração, faça-se por elas oração fervorosa e unida. Levem-nas a orar. Não fiquem falando com elas o tempo todo. Falem vocês com Deus por elas, e deixem que Deus fale com elas. Cantem os bons e velhos hinos metodistas, como “Tem piedade, Senhor; ó Senhor, perdoa”, e não cantem os hinos antinomianos hoje tão populares. Não as encorajem a julgar-se convertidas antes de terem o testemunho do Espírito de que nasceram de novo. Esperem vê-las sair felizes em Deus.

479. O espírito de reavivamento deve ser mantido

Esperamos que todas as nossas sociedades se firmem no trabalho constante — mas não se acomodem na formalidade. Que cada membro tenha espírito de reavivamento; então haverá espírito de reavivamento em todas as suas reuniões. O pregador pode estar frio; mas, a menos que esteja morto sem remédio, também ele será reavivado. Toda igreja deveria ser igreja de reavivamento, e todo pregador, pregador de reavivamento. Provamo-lo pelas palavras de Cristo: “Nisto é glorificado meu Pai: que vocês deem muito fruto e assim se tornem meus discípulos.” (Jo 15.8) O fruto que os cristãos dão é o bem que fazem aos outros. Se não fazemos bem algum, Cristo nos diz claramente que não somos seus discípulos. Podemos chamar-nos tais; mas ele nos desconhece. Se lhe pertencemos, empenhar-nos-emos de coração na sua obra. Sejamos advertidos a tempo. “Lancem o servo inútil para fora, nas trevas.” Você não teme tal sentença?

480. O evangelho não é para agradar aos ricos

Pelo empenho especial de muitas igrejas em tornar os seus cultos particularmente aceitáveis aos ricos e orgulhosos, pensar-se-ia que o evangelho foi primariamente destinado a satisfazer o gosto dessas classes. Mas é grande engano. Cristo nunca disse aos ricos: “Venham a mim, e eu lhes darei oportunidade de exibir as suas roupas finas da melhor maneira. Venham à minha igreja, e cuidarei de que a pregação, o canto e todos os serviços se adaptem à cultura de vocês. Nada que ofenda o seu gosto refinado será permitido.” Muito pelo contrário. Suas palavras foram estas: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.” (Mt 11.28) “E aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandaliza por minha causa.” (Mt 11.5-6)

Empenhemo-nos, pois, especialmente em pregar o evangelho aos pobres. Os que estiverem dispostos a ouvi-lo em sua pureza e poder poderão então ouvi-lo, se quiserem. A estrada está aberta, livre, tanto para os ricos quanto para os pobres.

481. Os ricos, opressores das almas

Nenhuma igreja pode manter a sua pureza e simplicidade, se depende dos ricos. Em troca do seu dinheiro, eles exigirão concessões ao seu orgulho; e isso será destrutivo para a piedade vital. São Tiago pergunta aos santos: “Não são os ricos que oprimem vocês?” (Tg 2.6) Onde existe uma só igreja controlada pelos ricos em que os santos tenham liberdade de ser abençoados e louvar a Deus?

Os velhos metodistas viam tão claramente o perigo dessa fonte que deram, como razão para construir templos simples e baratos: “Do contrário, a necessidade de levantar dinheiro nos tornará necessários os homens ricos. E, sendo assim, ficaremos dependentes deles — sim, e governados por eles. E então adeus à disciplina metodista, se não também à doutrina.”

Não terá esse adeus já sido pronunciado? Que pregador metodista episcopal faz cumprir a Disciplina — mesmo depois de amaciada para agradar aos inclinados ao mundo?

482. Riquezas

Parece estranho que alguém que crê na Bíblia entre na disputa desenfreada pelas riquezas. Que pode ser mais claro que as palavras de Cristo: “Como é difícil os que têm riquezas entrarem no Reino de Deus!”? Alguém confiaria na sinceridade de um jovem alemão que, expressando grande anseio pela hora de entrar no exército, se mutilasse deliberadamente para ficar inapto ao exército? Pode um homem estar empenhado de verdade em ganhar o céu quando toma um rumo que Cristo diz que o excluirá do céu?

Fiquei profundamente impressionado esta manhã ao ler o relato do rico e Lázaro. Soa como narrativa verídica. Abra o capítulo dezesseis de Lucas e leia-o com cuidado. Pergunte-se se você está buscando receber os seus bens nesta vida.

483. As riquezas são perigosas

Parece estranho que os homens arrisquem quase tudo para obter aquilo que torna a sua salvação eterna extremamente difícil, senão impossível. E, contudo, arriscam. Para obter riquezas, muitos não recuam diante de ato algum de desonestidade que prometa êxito. Muitos dos métodos comuns de enriquecer, despidos do ar de respeitabilidade que as sanções legais e a prática corrente lhes emprestam, não valem mais que o roubo puro e simples. “Aguar” as ações das ferrovias é simplesmente mentir e furtar combinados. As bolsas de valores são casas de jogo mal disfarçadas. E, contudo, homens que se dizem morais e respeitáveis, e muitos membros de igreja, entregam-se a essas práticas. Só para enriquecer! Ouçam o que diz o nosso Salvador: “Como é difícil os que têm riquezas entrarem no Reino de Deus! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” (Lc 18.24-25) Não se prega muito sobre esses textos nos nossos púlpitos populares. E, contudo, tal foi o ensino uniforme de Cristo. A salvação dos ricos é extremamente difícil, senão impossível! Pense nisso, antes de decidir tentar enriquecer.

484. As riquezas, obstáculo à salvação

Que um homem tenha em seu poder ferramentas de arrombador ou de falsário é circunstância suspeita. Mostrar que as obteve honestamente não remove a suspeita. Ele pode exibir recibos dos homens de quem as comprou, mas isso não melhora a sua situação junto aos honestos guardiões da lei. “Estamos convencidos de que você as comprou; mas para que as comprou?” Assim, ainda que um rico pudesse mostrar que obteve honestamente as suas riquezas, aos olhos de Cristo a simples posse delas é forte presunção de que ele é inimigo de Cristo e estranho ao seu reino. Diz o dr. Adam Clarke: “As riquezas terrenas são grande obstáculo à salvação, porque é quase impossível possuí-las e não pôr nelas o coração; e os que amam o mundo não têm em si o amor do Pai (1Jo 2.15). Ser rico é, portanto, em geral, grande infortúnio; mas que rico se deixa convencer disso? É o próprio Deus quem, por milagre de misericórdia, pode fazê-lo. O próprio Cristo afirma a dificuldade da salvação de um rico, com juramento — ‘em verdade’; mas quem, dentre os ricos, o ouve ou nele crê?”

485. A vida justa traz fim em paz

Se você quer morrer a morte do justo, deve viver a vida dele. O viver santo torna fácil o morrer. Se você passar pela porta estreita e caminhar firme pelo caminho apertado, não precisará preocupar-se com o que será o fim quando chegar a ele. Sua única preocupação deve ser avançar com constância no caminho apertado, sem se deixar desviar, por atrativo algum que a terra ofereça, para a estrada larga da conformidade mundana.

Para viver a vida do justo, você deve tornar-se justo. Deve arrepender-se. Deve nascer do Espírito. Deve ser santificado pelo Espírito Santo. Deve andar no Espírito e não satisfazer os desejos da carne. Faça isso, e não precisará ter medo algum de morrer. Estará pronto quando a hora chegar. Os rios que desembocam no oceano chegam a ele no seu nível, por altas que sejam as terras de onde descem. Suas águas correm para o oceano, e as águas do oceano entram neles. Assim, se a sua vida flui em direção a Deus, a vida dele entrará na sua, e você se tornará mais e mais semelhante a ele, até ser por fim tragado no oceano do amor infinito.

486. Justiça nacional

“A justiça exalta as nações, mas o pecado é a vergonha dos povos.” (Pv 14.34) As nações mais poderosas da antiguidade caíram, uma após outra, pelas próprias corrupções. Enquanto tinham força moral por dentro, eram invulneráveis a todos os inimigos externos. Em seus melhores dias, Roma dispensava justiça por todos os seus domínios. Os princípios de jurisprudência que os seus juristas estabeleceram ainda são reconhecidos como obrigatórios por todas as nações civilizadas. Mas, quando o seu povo se tornou rico, voluptuoso e rapace, começou a sua decadência. Os cargos públicos passaram a ser comprados; e Gibbon diz que a própria coroa foi vendida pela guarda pretoriana em leilão público. Tornava-se imperador quem oferecesse o preço mais alto pela honra. O espírito de venalidade prevaleceu, por fim, a tal ponto que o mesmo historiador diz: “Os romanos demoliriam com as próprias mãos os arcos e as muralhas, se a esperança de lucro superasse o custo do trabalho e do transporte.”

Se a república americana há de subsistir, é preciso pôr fim à prática de vencer eleições com dinheiro. Quem compra ou vende um voto deveria ser marcado como traidor e ficar depois incapaz de depositar voto ou ocupar cargo.

487. Os jesuítas

Os jesuítas foram banidos de todos os países católicos romanos da Europa. São menos estimados onde são mais conhecidos. Aqueles a quem servem têm medo deles. Foram organizados para sustentar o papa. Conseguiram deter o avanço da Reforma começada por Lutero. Plantaram o romanismo em todos os quadrantes do globo. Não se encontram iguais a eles em devoção à causa que abraçaram. Sua abnegação, seu destemor diante do perigo, sua persistência em levar a cabo o que empreendem, sua pronta obediência aos superiores, sua consagração vitalícia de toda energia do corpo e da mente não têm paralelo. Mas são tão intrigantes, tão inescrupulosos nos métodos, e o padrão de moralidade que inculcam e praticam é tão baixo e elástico, que todo governo católico romano do mundo tem medo deles e lhes fecha as portas. Este país é o paraíso dos jesuítas. Aqui podem praticar as suas artes perigosas sem estorvo. Trabalham em segredo. Sem oposição na política, constituem fator poderoso em movimentos políticos importantes. Estão agora fazendo esforço persistente para obter o controle do judiciário deste país — e, em boa medida, conseguindo. Magistrados e policiais católicos romanos, em muitas das nossas cidades, onde ousam interferir, põem mão de ferro sobre qualquer esforço incomum dos protestantes para alcançar as massas degradadas, compostas geralmente de ateus, socialistas e católicos romanos. Há pouca dúvida de que o papa tem maior influência política em Chicago e em Nova York do que em Roma.

488. Uma igreja agressiva

A disposição manifestada pelo nosso governo de conceder favores especiais à Igreja Católica Romana deveria despertar o país para uma oposição decidida a todas essas medidas.

O Presbyterian Observer, de Baltimore, diz: “As escolas indígenas que recebem auxílio governamental estão passando rapidamente ao controle dos católicos romanos. Pensem só! Quatro quintos delas estão sob a direção de papistas, enquanto apenas um quinto está aos cuidados dos protestantes de todas as denominações. Como explicar isso? Que significa? Estará Roma mais qualificada para a obra, ou o desígnio é favorecer o romanismo e assegurar o seu apoio político? Os protestantes deveriam vigiar a influência romana nesta e noutras direções.”

O passo do jesuíta é tão silencioso quanto a aproximação de uma serpente. Ele traça os planos e trabalha em segredo até prender a vítima no seu abraço — e então não há escapatória. Que este país caia sob o controle dos jesuítas, e logo cairá na decadência comum a todos os países católicos romanos. Guardemo-nos do mal enquanto pode ser prevenido.

Extratos 489–498 · Romanismo, raízes de amargura, governo, o dia do Senhor+

489. A Igreja Romana e a propriedade

Grande soma da propriedade do país está passando rapidamente às mãos de sacerdotes que reconhecem suprema fidelidade ao papa de Roma. No Brooklyn, Nova York, há alguns anos, obtiveram — levando um solteirão rico a fazer testamento em seu favor e não permitindo que mais ninguém tivesse acesso a ele até a morte — a posse de quase um quarteirão de propriedades, hoje valendo milhões. Na cidade em que vivemos, possuem uma boa fazenda que lhes foi doada. Arranjaram ambas as propriedades de modo a ficarem isentas de impostos. O mesmo vai acontecendo, quietamente, por todo o país.

Na França, nos dias do cardeal Richelieu, os sacerdotes romanos, segundo o historiador Guizot, “possuíam mais de um quarto da propriedade da França”. E para essa propriedade reivindicavam isenção de impostos. Richelieu era o espírito dominante do governo no reinado de Luís XIII. Certa vez lançou sobre essa propriedade um imposto de oitenta milhões de libras.

Em nenhum país papal do mundo se permite aos sacerdotes romanos absorver sem freio a riqueza do povo, como neste país.

490. As agressões do romanismo

As agressões do romanismo são constantes, insidiosas, persistentes e bem dirigidas. Visam a um só objetivo: obter o controle do poder civil deste país. Já em muitas das nossas cidades a liberdade religiosa está cerceada pela sua influência. Permitem-se bandas de música à frente de passeatas barulhentas pelas ruas, até no domingo; mas uns poucos crentes, marchando e cantando os cânticos de Sião, são presos e mandados à cadeia. Os romanistas devem ter os mesmos direitos que os protestantes — mas não mais. Somos a favor da liberdade religiosa na sua máxima extensão; mas objetamos a que se interprete liberdade religiosa como significando apenas a liberdade de fazer o que o papa ordena. Em Boston, o rev. sr. Davis, ministro de alta reputação, é mandado à cadeia por um ano, pelo crime de pregar o evangelho no Boston Common! E, contudo, o país não se levanta para exigir a sua soltura!

491. Romanismo e instituições livres

O povo americano não pode dar-se ao luxo de tolerar o jesuitismo. É inimigo mortal das instituições livres. Os jesuítas mostraram-se tão perigosos que chegaram a ser banidos dos principais países católicos romanos da Europa.

Diz Joseph Cook: “A América é jovem e forte. É uma criança de saúde alegre e transbordante, correndo em pleno sol por vegetações viçosas e prados primaveris. O jesuitismo é uma cobra na relva. A víbora enrosca-se quase despercebida em seus tornozelos enquanto ela corre. Já crava as presas nas veias do jornalismo, nas da educação e na grande artéria central da política. A criança em disparada, no seu afã e vigor, mal sente ainda as feridas. Mas o veneno fará efeito no devido tempo. Quando a saúde da república começar a sofrer seriamente, a cabeça da serpente será esmagada sob o calcanhar da opinião pública. A segurança dos homens é incompatível com a liberdade das víboras. O apelo à tolerância deve ser respondido diante da plena exposição dos propósitos da agressão jesuítica. Quando o Syllabus está por trás da propaganda católica romana, o direito de autopreservação está diante dela.

“Nenhum americano protestante deseja a união de igreja e Estado, nem pede para si, na igreja ou na escola, privilégio algum que não esteja disposto a conceder a qualquer outro cidadão leal. Mas a segurança do povo é a lei suprema. Escola livre, igreja livre e Estado livre são os três pés do tripé sobre o qual repousa todo o peso da prosperidade americana. Arranque qualquer dos três, e o todo cairá. É inegável que toda a força da hierarquia romana está hoje empenhada na destruição do primeiro desses apoios. O braço do Vaticano está erguido para destruir o sistema americano de escolas públicas.”

Nossas escolas públicas devem ser defendidas a todo custo. Ninguém deveria ser admitido à cidadania sem renunciar a toda fidelidade a todas as potências estrangeiras.

492. O romanismo e as escolas públicas

O “padre Chapelle” pergunta: “Não há contradição flagrante na conduta de homens que se unem para dirigir influências evangélicas sobre o nosso povo, e que, com total incoerência, proclamam que o ensino do evangelho deve ser banido das escolas?” Respondemos: há. Tal proceder é incoerente. Deveria trazer o rubor da vergonha ao rosto de cada protestante. Mas como veio a Bíblia a ser posta para fora das nossas escolas públicas? Foi pelo clamor levantado contra ela pelos sacerdotes romanos. Os incrédulos juntaram-se ao clamor; e os políticos, para ganhar os seus votos, votaram pela exclusão da Bíblia. Mas os sacerdotes continuam clamorosos como sempre — só que agora levantam o grito de que as nossas escolas públicas são escolas sem Deus. Ora, foram eles que as fizeram assim. E isto é apenas uma amostra do que farão, se ganharem o poder.

493. Raízes de amargura

É grande coisa ser salvo; é muito maior permanecer salvo. Muitos perdem a comunhão com Deus transigindo com o pecado; muitos mais, perdendo o amor e tornando-se ásperos e sem caridade. No mesmo fôlego em que se nos ordena seguir “a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor”, somos exortados a cuidar “que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbações, e por meio dela muitos sejam contaminados” (Hb 12.14-15).

Essas “raízes de amargura” são coisas problemáticas. Que transtorno causam na conferência e na igreja — especialmente se há um espírito forte e influente nutrido pela raiz! Quase não há fim para o mal que ela pode fazer. Introduz espírito de divisão. Instiga processos eclesiásticos; agita um espírito precipitado; desfaz sociedades e arruína almas. Assim como o álcool, flagelo da nossa raça, se extrai do grão de que se faz o pão da nossa raça, essa “raiz de amargura” é uma perversão da santidade sem a qual ninguém pode ser salvo. Para discerni-la, é preciso olhar diligentemente. Muito do que passa por fruto de santidade cresce sobre essa raiz de amargura. Ela produz muitos sermões, exortações e artigos de jornal que se pretendem inspirados pelo Espírito Santo. Do fato de que o que entra num edifício é bom para alimento, não se pode concluir que o que sai é bom para nutrir seres humanos. O grão pode sair farinha para pão — ou pode sair fogo líquido do inferno. Depende de haver lá dentro um moinho ou um alambique. Assim, o que alguém tira de um texto depende do que há no coração. Se há amor, as palavras mais severas virão temperadas de ternura. Podem ser mais cortantes que espada de dois gumes; mas, para a alma honesta que é ferida, vem o óleo de alegria em lugar do pranto.

Mas, se em vez de amor há dentro a raiz de amargura, as palavras empurrarão em vez de atrair; a flecha pode estar bem apontada, mas deixará uma ferida envenenada que se recusa a sarar. Os que caem sob a influência dessa raiz de amargura tornam-se menos bondosos, menos amáveis, do que eram antes de professar a santidade. Os que vivem no amor podem despertar inimizade, mas os seus inimigos são atraídos a eles, mau grado seu.

Não basta sermos zelosos, e que o nosso zelo tenha êxito em fazer convertidos. Qual é o caráter dos nossos convertidos? Estão cheios daquele amor de Deus que os leva a guardar os seus mandamentos? “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são pesados.” (1Jo 5.3) Ou, ao contrário, estão conformados a este mundo? E, se não estão — se são simples e singelos —, serão amargos no espírito e denunciatórios no tom?

Disse Cristo dos fariseus: “Vocês percorrem o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês.” (Mt 23.15) Devemos cuidar de não ser dessa espécie, e de que os nossos convertidos não sejam dessa espécie. Zelo e êxito em fazer convertidos, e em trazê-los à igreja, não são evidência de que os que têm o zelo e alcançam o êxito sejam filhos de Deus. A igreja e o mundo precisam muito dos que podem e querem fazer para Deus obra verdadeira. Muitos que parecem dispostos a fazê-la não estão em condição espiritual de fazê-la. São ou complacentes demais, ou amargos demais. Seus convertidos são ou mundanos batizados, ou fanáticos cheios de si.

Quem terá a verdadeira caridade e fará para Deus obra fiel?

494. O espírito de “mandar ou destruir” não é de Cristo

Impressiona-nos a repreensão que Cristo deu aos discípulos quando alguns deles quiseram ter autoridade sobre os demais: “Vocês sabem que os que são considerados governadores dos povos têm domínio sobre eles, e sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Mas entre vocês não é assim. Pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, será esse o que os sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vocês será servo de todos.” (Mc 10.42-44) E dá como razão o próprio exemplo: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”

Deus “estabeleceu governos” na igreja (1Co 12.28). Mas daí não se segue que todo homem que quer governar seja chamado por Deus para governar. Se alguém se põe à frente para governar, isso é, em regra, evidência presuntiva de que Deus não o chama para governante. Quando Deus chamou Davi, foi pelo profeta Samuel; e o povo endossou o chamado. Absalão chamou a si mesmo; e, embora tenha conseguido muitos seguidores, teve fim prematuro. O espírito de “mandar ou destruir” é inteiramente oposto ao Espírito de Cristo. Se alguém precisa deixar a igreja porque não foi posto num cargo, não serve para o cargo. O amor ao poder é tão contrário ao Espírito de Cristo quanto o amor ao vestuário ou o amor ao dinheiro. Alguém pode estar morto para tudo o mais; mas, se acha em si a disposição de reunir sob a sua bandeira tantos seguidores quantos puder, para os quais a sua palavra é lei, e sobre os quais exerce autoridade absoluta, tem razão para concluir que não está morto para o pecado. O eu ainda vive, em grau perigoso. “Façam-me rei hoje”, disse um príncipe maometano, “e podem matar-me amanhã.” Mas o verdadeiro discípulo de Cristo não quer reino algum deste mundo.

495. O sábado

Os sabatistas, com as suas afirmações categóricas e as suas longas fileiras de citações bíblicas, conseguem perturbar algumas almas honestas. Mas não se perturbe. As provas deles não resistem ao exame. Dizemo-lo porque as examinamos com toda a equidade e candura. Nunca vimos um só texto que diga que Deus ordenou aos homens guardar como sábado o sétimo dia da semana. São eles que acrescentam “da semana” aos mandamentos de Deus. Nunca vimos autoridade idônea que prove o que afirmam com tanta confiança: que Constantino, ou a Igreja Católica Romana, mudou o dia de descanso do sétimo para o primeiro dia da semana. Se algum dia fizeram tal mudança, deveria haver registro autêntico dela. Nunca vimos nenhum. Que o produzam. Não nos deem afirmações — elas se fazem facilmente. Mostrem-nos registros.

496. O dia do Senhor deve ser estimado

É dever do cristão observar conscienciosamente o dia do Senhor. É o dia que Deus separou especialmente para si. Sua exigência é: “nele não faça nenhum trabalho” (Êx 20.10). O trabalho ordinário deve ser suspenso nesse santo dia.

Para guardá-lo devidamente, é preciso preparar-se no dia anterior. Devemos fazer no sábado tudo o que pudermos para o nosso conforto no domingo. Em vez de trabalhar até mais tarde na noite de sábado, deveríamos parar mais cedo que de costume, para pôr em ordem a mente e os assuntos do mundo para o dia do Senhor. Ficar acordado até tarde no sábado tende a levar a acordar tarde no domingo, chegar atrasado à igreja e, no fim, muitas vezes, a desviar-se de Deus. Foi bem cedo, na manhã de domingo, que as mulheres da Galileia encontraram os anjos e deles souberam que Jesus ressuscitara dentre os mortos.

Se você quer tirar muito da sua religião, deve fazer muita conta do dia do Senhor.

497. A preservação do dia de descanso

Os trabalhadores têm interesse especial na preservação do dia de descanso. Deixem que se converta em dia de recreação, e logo se tornará dia de trabalho. Os reis do dinheiro dirão: “Essa gente se cansa mais com os divertimentos de domingo do que se cansaria trabalhando; portanto, melhor mantê-la no trabalho.” Já chamamos a atenção para o fato de que, no continente europeu, esse resultado se realizou em larga medida. Grande número de trabalhadores não tem dia algum de descanso.

As excursões dominicais e os jogos de beisebol, comuns neste país, terão o mesmo efeito. Já se começa a percebê-lo. Diz um contemporâneo: “O trabalho dominical aumentou muito nos últimos anos. Só na cidade de Nova York há bem cem mil homens e mulheres que trabalham todos os domingos em seus ofícios ou ocupações. Uma organização religiosa de lá procura impedir o crescimento dessa usurpação do dia de descanso.”

Se o povo não quiser um domingo cristão, logo não terá domingo nenhum.

498. O dia do Senhor não deve ser secularizado

Os alemães americanos cometem grande erro ao tentar secularizar os nossos domingos. Podem contar com a ajuda das ferrovias, e de alguns capitalistas, para converter o domingo em dia de prazer, de passeios, bebida e farra; mas, quando o conseguirem, podem esperar que se siga aqui o mesmo resultado que se vai realizando na Alemanha: o domingo se converterá em dia de trabalho, e os trabalhadores serão compelidos a labutar sete dias por semana. O governo alemão, em relatório recente sobre o trabalho dominical, mostra que o trabalho fabril no domingo vai virando regra na Alemanha. O trabalho dominical é mais geral numas partes do império do que noutras; mas há tendência decidida a acabar com a prática de considerar o domingo dia de descanso do trabalho. Se não tivermos o domingo cristão, não teremos mais domingo do que têm no continente europeu. A ganância da maioria dos que empregam mão de obra logo tornará claro que não é pior para o trabalhador estar na fábrica do que jogar bola, embriagar-se e brigar no domingo. Todos têm interesse, saibam-no ou não, na preservação do dia de descanso — mas ninguém mais do que o trabalhador.

Extratos 499–512 · O dia do Senhor, os santos e a taberna+

499. Conversa mundana no dia do Senhor

Não devemos permitir-nos conversa mundana no dia do Senhor, se queremos guardá-lo devidamente. “A boca fala do que está cheio o coração.” (Mt 12.34) A conversa mundana no dia santo não é apenas indicação de falta de graça: abre na alma um vazamento pelo qual a graça que se tem pode facilmente escapar. Não se permita falar de negócios do mundo no santo dia de Deus. Seja decidido nisso. Amigos, filhos, patrões ou empregados o arrastarão para isso, se você permitir. Siga a direção de Deus: não busque o próprio prazer, nem fale palavras vãs, no dia do Senhor. Que a sua conversa esteja no céu — sobre as coisas celestiais. Ponha de lado os cuidados e as conversas do mundo, e procure ministrar graça aos outros e receber graça deles. Então o dia do Senhor será para você um deleite, e Deus fará você cavalgar sobre os altos da terra (Is 58.13-14).

500. Divertimento dominical

As classes trabalhadoras cometem grande erro convertendo o domingo em dia de divertimento público. Se continuarem, arrepender-se-ão quando for tarde demais. Elas têm o interesse mais profundo na preservação do domingo cristão como dia sagrado para o culto de Deus, de quem vieram todas as nossas bênçãos. O New York Journal of Commerce, importante jornal secular, diz:

“No momento em que se perde todo respeito sério pelas horas de descanso como tempo sagrado, a ganância dos homens vem por trás do trabalhador com o seu chicote e, a despeito das leis que proíbem o trabalho, a fábrica e o moinho se abrem, e os operários têm de responder ou deixar o serviço. Grave-se este fato na mente de cada homem que pede mais licença no primeiro dia da semana. Um domingo sem horas sagradas muito em breve não terá intervalo algum de descanso tranquilo. Abram o dia à diversão e à farra irrestritas, e logo estará aberto ao trabalho exaustivo.”

Os homens que organizam excursões dominicais para as classes trabalhadoras, e lhes servem cerveja e uísque, são os seus maiores inimigos.

501. O sábado do sétimo dia

A guarda do sábado (o sétimo dia) sempre resultou em fracasso, onde quer que tenha sido tentada por tempo considerável. Uma grande colônia de batistas do sétimo dia estabeleceu-se na cidade em que passei a meninice. Eram gente piedosa e inteligente, livre de noções fanáticas. Tinham igreja florescente. Seus ministros eram homens piedosos e instruídos. Mas todos se esgotaram. Os filhos aprenderam dos pais a trabalhar e brincar no domingo, e dos vizinhos a fazer o mesmo no sábado — e hoje é uma vizinhança ímpia e perversa. Os batistas do sétimo dia começaram a sua obra neste país há mais de duzentos anos. Eram homens capazes, zelosos, sinceros; mas a bênção de Deus não repousou sobre os seus labores. Seu crescimento foi menor que o crescimento natural das suas famílias. Lutaram com vigor — mas lutaram contra Deus.

502. Santos “aprovados pelos homens”

O que o apóstolo diz sobre os verdadeiros santos serem “aprovados pelos homens” merece séria consideração. Ele não quer dizer que serão populares, na acepção comum da palavra — muito longe disso. Ao contrário, ensinou: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Tm 3.12) Mas os próprios perseguidores acabam por aprovar — e, muitas vezes, por amar e ter em comunhão — aqueles a quem perseguem. A constância no sofrimento, a doçura de gênio e o santo triunfo em agonias extremas, manifestados pelas suas vítimas, já puseram de joelhos muito perseguidor, suplicando a Deus que lhe concedesse essa grande salvação. Nas coisas religiosas, os homens naturais são lentos em adotar o que aprovam, e rápidos em praticar o que condenam. Mas, por mais que se nos oponham, devemos sempre procurar manter do nosso lado a consciência deles. A longo prazo, a consciência costuma gastar o preconceito. Não raro os homens falam contra os santos — e dão meia-volta para defendê-los quando outros fazem o mesmo. Uma vida piedosa desperta oposição; mas, ao mesmo tempo, impõe admiração pela sua coerência.

503. Os santos perseveram na adversidade

Quem só quer ser santo quando tudo prospera não é santo de modo algum. O peixe só nada contra a corrente enquanto está vivo. Os mortos são arrastados à praia. Paulo, na prisão, escreveu: “Você sabe que todos os da Ásia me abandonaram” (2Tm 1.15); mas a sua fé não vacilou por isso.

504. Santos superalimentados

Embora seja preciso comer para poder trabalhar, quem come o tempo todo logo ficará incapaz de trabalhar. A superalimentação é tão perigosa quanto a subalimentação. Em geral, morrem mais pessoas de dispepsia e apoplexia do que de fome.

O problema de alguns dos nossos peregrinos é que não trabalham na proporção do alimento espiritual que tomam. Seu apetite é bom. Saboreiam o alimento sólido. Mas não trabalham o bastante para manter boa a digestão. Seriam fortes, se se exercitassem mais no grande campo de ceifa de Deus. Como estão, em vez de trazer feixes, andam se queixando. Debatem-se em paroxismos e pisam o trigo que deveriam ceifar. Ofendem sem necessidade aqueles que deveriam trazer a Cristo. Se os visitassem e falassem com eles face a face, seriam ternos e solidários, e usariam persuasão onde hoje usam denúncia. Incham-se e morrem de orgulho espiritual, ou tornam-se meros criticadores e, tentando matar os outros, matam a si mesmos. Nossa única segurança é “desenvolver a nossa salvação” enquanto “Deus efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13).

505. As tabernas devem ser suprimidas

A experiência de toda comunidade mostra que a venda de bebida embriagante leva à embriaguez. A isso não há exceções. Onde quer que haja uma taberna, há bêbados entre os seus fregueses. É assim em toda parte. As tabernas fazem bêbados, assim como as escolas fazem estudiosos. Cada copo de bebida embriagante que uma pessoa bebe é um passo a mais para fazer dela um bêbado, assim como cada lição que uma criança aprende a leva um pouco mais longe no caminho de tornar-se instruída. As tabernas são escolas de crime, viveiros de pobreza e degradação. Não ensinam nada de bom; toda a sua influência é danosa à sociedade. Portanto, a sociedade tem o direito de suprimi-las. Não tem o direito de tolerá-las. Ninguém tem direito natural de manter uma taberna. As leis que proíbem a venda de bebidas embriagantes como bebida não interferem nos direitos naturais de ninguém, assim como não interferem as leis que proíbem o furto. Portanto, as tabernas devem ser suprimidas. A venda de bebidas embriagantes como bebida deve ser totalmente proibida.

A taberna é de origem estrangeira. Não é instituição americana. Lembramos o tempo em que não havia tabernas no país. Foram trazidas para cá pelos criminosos, socialistas e anarquistas do velho mundo. A grande maioria dos taberneiros é de estrangeiros, e muitos são ex-presidiários. São os inimigos naturais das nossas instituições livres. Corrompem a nossa política. Põem nos cargos, para fazer e executar as nossas leis, homens ignorantes, infratores, dissolutos e sem princípios. Se continuarem crescendo em influência, acabarão por lançar-nos no despotismo. Uma nação de bêbados não pode permanecer por muito tempo nação livre. Nossas velhas estalagens já eram más; as tabernas são mil vezes piores. São maldição sem atenuante. O patriotismo, não menos que a filantropia, exige que a taberna seja suprimida.

506. A sociedade tem o direito de suprimi-las

Liberdade não é licença. O bem-estar da sociedade exige que o homem exerça os seus direitos naturais sem interferir nos direitos naturais dos outros. Um homem que vive inteiramente só comete crime apenas contra si mesmo quando se embriaga. Mas, se está numa família, ou na sociedade, comete crime contra a família ou contra a sociedade quando se embriaga. Faz-se um estorvo. Coloca-se em posição em que não pode contribuir com a sua parte para o sustento da família e o bem-estar da sociedade. Torna-se cuidado e fardo desnecessário para os outros. No estado de embriaguez, perde em grande medida o controle de si. Sua razão fica desequilibrada, suas sensibilidades morais se embotam, e ele fica sujeito a cometer os maiores crimes contra os seus melhores amigos.

Portanto, na sociedade, ninguém tem o direito de embriagar-se. A sociedade tem o direito não só de puni-lo por embriagar-se, mas de tomar todas as precauções necessárias para impedir que alguém se embriague. Tem, portanto, o direito de suprimir as tabernas.

507. A taberna, quartel-general da anarquia

O povo americano deveria despertar para o fato de que estamos beirando rapidamente um estado de anarquia. O argumento de sempre contra a proibição é que ela não pode ser aplicada. Que é isso senão a confissão de que o uísque e a cerveja são mais fortes que a lei? De que a verdadeira sede do nosso governo é a taberna, e não o Capitólio? E em toda parte a taberna é o quartel-general da anarquia.

Todo verdadeiro patriota deveria dizer: a lei que proíbe ou restringe a venda de bebida e o jogo deve ser aplicada. Os funcionários encarregados de aplicá-la devem ser exortados a cumprir o seu dever, e apoiados enquanto o tentam. Se negligenciarem fazê-lo com honestidade e coragem, devem dar lugar a homens melhores. Os cristãos deveriam fazer questão de consciência de contribuir para a obtenção de boas leis e a sua vigorosa aplicação. A igreja deveria ser tão ativa quanto a taberna na escolha de candidatos aos cargos e na garantia da sua eleição. Não se deve permitir que os ímpios entronizem a impiedade sem oposição nem protesto. Que os nossos atos digam, com as nossas palavras: “Venha o teu Reino.”

508. A taberna deve ser posta fora da lei

Nenhum outro crime é mais fácil de detectar do que a venda de bebida para consumo. As vítimas do taberneiro, mal põem o pé na rua, revelam, pela aparência e pela fala, o que se lhes fez. Para suprimir a venda de bebida, é preciso uma lei forte contra ela, e homens decididos para aplicá-la. Que homens que dão apoio às tabernas professem ser cristãos é uma desonra para o cristianismo. O comerciante que manda rum para a África pode ser membro generoso de igreja, mas é candidato ao fogo do inferno tão provável quanto o país oferece.

O argumento de que os homens não podem ser tornados honestos por lei serviria tão bem para licenciar o furto quanto serve o argumento, tantas vezes repetido, de que, como os homens não podem ser tornados sóbrios por lei, as tabernas devem ser licenciadas.

509. Tabernas: moinhos de morte

Como moinhos de morte, as tabernas deste país são um êxito notável. Muitas pessoas são mortas a revólver, algumas com dinamite, algumas com veneno; mas a bebida forte mata mais do que todos os outros meios violentos combinados. Mata grande proporção dos que a usam; e estes, antes de morrer, sob a sua influência, não raro matam outros. Os próprios taberneiros acabam por fim suas vítimas. Os outros venenos matam o corpo; a bebida forte mata a alma. Nas demais formas de assassinato e roubo, em geral só se levam dinheiro e valores. Quem é assassinado pela bebida forte é frequentemente roubado do caráter, das casas e terras, do gado, das roupas e de tudo o que possui. Fechem-se os moinhos de morte.

510. Tabernas mantidas por condenados, como castigo

A manutenção de tabernas por condenados parece ser de origem antiquíssima. Ramsés III reinou sobre o Egito cerca de 1200 anos antes de Cristo. Perto do fim do seu reinado, formou-se uma conspiração contra ele. Descoberta, os principais conspiradores foram mortos. Algumas damas da corte, que sabiam da conspiração mas não a denunciaram, foram condenadas “à servidão penal de manter uma cervejaria”. Assim diz Rawlinson na História do Egito Antigo.

Nosso avanço na civilização, neste ponto, foi decididamente para trás. É verdade que muitos dos donos das nossas cervejarias são criminosos e ex-presidiários; mas são licenciados a fazê-lo como privilégio, em vez de condenados a fazê-lo como castigo. A velha ideia egípcia era a mais próxima do certo. É bom degradar o negócio da venda de cerveja; é melhor não tolerá-lo.

511. Ai dos que votam por legalizar a taberna

O negócio de fazer bêbados é o negócio do próprio inferno. É pior que o furto comum; pois quem furta o dinheiro de outro o deixa livre para ganhar mais dinheiro. Mas quem toma o dinheiro de um homem por bebida forte o incapacita para o seu ofício, seja qual for. Ele pode ser mecânico habilidoso — mas os serviços ficam cada vez mais difíceis de obter, pois não se pode contar com um bêbado. Quem empregará um cirurgião bêbado, ou um advogado bêbado? Pobreza e crime são o fruto legítimo da taberna. Não admira que Deus pronuncie um ai sobre todos os responsáveis por esse negócio: “Ai daquele que dá bebida ao seu próximo, misturando-lhe o seu furor, e o embriaga, para lhe contemplar a nudez!” (Hc 2.15)

Legislaturas que legalizam o tráfico de bebida forte — isto é com vocês! Cidadãos que votam pela licença, cara ou barata — isto é com vocês! O ai de Deus está sobre todos os que dão apoio a esse negócio, e não há como escapar senão pelo arrependimento e pela reforma.

512. A taberna deve morrer

A taberna está diante do mundo, condenada como assassina deliberada. Ninguém está seguro no seu caminho. Seja o veredicto de todo homem e de toda mulher de bom juízo: a taberna deve morrer. Ela não tem direito a clemência. Suas mãos estão vermelhas de sangue inocente. Se nalguma comunidade não temos autoridades que reprimam as tabernas, elejamos autoridades que o façam. Que os nossos esforços mais decididos e inteligentes se dirijam ao completo extermínio da taberna da face do nosso país.

Extratos 513–525 · Salvação, santificação e as ciladas de Satanás+

513. Taberneiros: opressores

Os grandes opressores dos assalariados deste país são os taberneiros. Abra-se uma fábrica nova, e logo se abrem tabernas perto dela. Quanto menos horas os homens dados à bebida trabalham, e quanto maiores os salários que recebem, mais tempo e dinheiro têm para gastar na taberna. Sejam quais forem os salários, se a taberna e a loja secreta se interpõem entre os homens e as suas famílias, as famílias sofrerão. Os monopolistas a temer são os que têm o monopólio da venda de cerveja e uísque. As greves, tão comuns nas cidades, são perversas e sem sentido. Os salários hoje estão bem acima do custo de vida. A classe realmente oprimida são os lavradores. São precisos cerca de cinco alqueires de trigo para pagar um bom par de sapatos; e os homens que operam as máquinas de fazer sapatos não igualam o lavrador comum em inteligência e habilidade — no entanto, cada um deles produz vários pares por dia. As opressões da loja secreta são sentidas em todos os cantos, por todo o povo. Que os filhos de Deus permaneçam livres; e, ao mesmo tempo, usem a influência que puderem para assegurar liberdade de consciência e de ação a todas as classes e condições da sociedade.

514. Taberneiros versus pregadores

Os taberneiros são os inimigos naturais dos pregadores. Os pregadores procuram salvar os homens; os taberneiros os conduzem ao inferno. Os pregadores dissuadem os homens do crime; quatro quintos dos crimes contra pessoas são causados pelos taberneiros. Os pregadores influenciam homens maus a se tornarem bons; os taberneiros tornam maus os homens bons. O púlpito é contrariado pelo balcão. Os esforços dos pregadores para levantar os homens são neutralizados pelos esforços dos taberneiros para arrastá-los para baixo. Portanto, os pregadores, seja qual for a divergência entre eles, devem fazer causa comum contra o negócio dos taberneiros. O grande crime da venda de bebida é o próprio ofício. É tão mau que não pode ser reformado. É negócio que ninguém pode exercer, em circunstância alguma, e ser cristão.

Unam-se, pois, os ministros cristãos e o povo cristão para derrubar esse tráfico nefando. Não se perca nenhuma oportunidade de bani-lo de qualquer comunidade. Faça-se o esforço mais viável e mais vigoroso para exterminar por completo esse negócio horrível da nossa terra.

515. Salvação pela graça

Somos salvos pela graça, e não por obras nossas. Se somos capazes de fazer alguma boa obra, essa capacidade é da graça. A inclinação para o bem vem do alto, pois é Deus quem opera em nós o querer o que é reto. A capacidade de realizar o que ele nos inspirou a tentar também é dele, pois ele efetua em nós o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13).

O bispo Hamline foi um dos ministros mais piedosos da Igreja Metodista Episcopal. Em cada conferência a que comparecia, incitava os pregadores a buscar a santidade, vivê-la e desfrutá-la. Mas toda a sua confiança estava na misericórdia de Deus. Perto do fim da vida, escreveu: “Meu senso de indignidade é tão grande, e o fato de que Cristo morreu por mim é tão certo, que nenhuma palavra que eu use parece alcançar o fervor e o ardor da minha experiência. ‘Principal dos pecadores!’ ‘Jesus morreu por mim!’ Fiquem estas palavras escritas para sempre no íntimo do meu coração. E oh, pensar que aquele que morreu por mim me renovasse e reacendesse em mim a chama do amor divino, quando ela ardia fraca e por vezes esteve a ponto de apagar-se! Por mérito próprio não mereço nada senão a perdição; mas confio em Cristo, e ele me salva. Sinto que ele me salva. Estou salvo! Sei que estou salvo! Nunca vi tanto das glórias da redenção como vi hoje, em nenhum período da minha vida.”

516. A salvação exige esforço diligente

Parece incrível que alguém que crê em Jesus possa crer no universalismo. Alguém lhe fez a pergunta: “Senhor, são poucos os que serão salvos?” Sua resposta foi direta e ao ponto: “Esforcem-se para entrar pela porta estreita, pois eu lhes digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão.” (Lc 13.24) Isso ensina claramente não só que poucos são salvos, mas que muitos dos que buscam a salvação deixarão de alcançar o céu por não serem suficientemente diligentes. Buscam, mas não se esforçam. Seus esforços são fracos e espasmódicos demais.

Esforce-se! Que poder há nesta palavra! É como o toque do clarim chamando à batalha. Convoca a conflitos desesperados com o eu e com Satanás, com males enraizados e erros fortificados. Manda-nos desenvolver a nossa salvação com temor e tremor (Fp 2.12).

“Não em leitos de plumas,
nem repousando à sombra de dosséis,
se conquista a vida eterna.”

517. Os ricos podem ser salvos

Há grandes obstáculos no caminho da salvação de qualquer pessoa. Todos temos de lutar, se queremos reinar. É preciso esforço diligente para tomar o Reino de Deus. Mas há dificuldades especiais no caminho da salvação dos ricos. Eles amam fazer a própria vontade; custa-lhes muito submeter-se a Deus. Nosso Salvador diz: “Como será difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” (Mc 10.23) Ainda assim, podem ser salvos. Há possibilidade, pois Paulo escreve: “Ordene aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos, nem depositem sua esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus” (1Tm 6.17). Isso implica que podem ser salvos. A Igreja Metodista Livre, embora especialmente adaptada aos pobres, também oferece as melhores oportunidades para a salvação dos ricos. Exigindo de todos os membros o vestir com simplicidade, não dá incentivo ao orgulho. Mantendo livres todos os assentos em todos os seus lugares de culto, não alimenta uma aristocracia do dinheiro. Em cada reunião dá uma lição prática sobre a fraternidade essencial do gênero humano. “O rico e o pobre se encontram; a todos eles o SENHOR os fez.” (Pv 22.2) Para a salvação de todas as classes — especialmente dos ricos — as igrejas de assentos livres oferecem as melhores condições possíveis. O juiz McLean, da Suprema Corte dos Estados Unidos, foi um dos homens públicos mais destacados do seu tempo. Dizia-se que ele jamais frequentava igreja que alugasse ou vendesse os seus assentos, a não ser por ocasião de funeral.

518. Santificação por meio da verdade

Há grande profundidade de sentido na oração de Cristo pelos seus discípulos: “Santifica-os na verdade.” (Jo 17.17) Eles já estavam convertidos e eram guardados; mas precisavam ser santificados. Isso se faria por meio da verdade. O erro não torna santos os seus devotos. Sua tendência é levar os que o abraçam a ceder a afeições erradas e maus temperamentos, tornando-se culpados de conduta viciosa.

Mas há poder santificador na verdade. Ninguém pode abrir o coração a qualquer verdade sem ser tornado melhor por ela.

“Mais forte que o aço
é a espada do Espírito;
mais veloz que as flechas,
a luz da verdade;
maior que a ira,
o amor que subjuga.”

Quem quer ser santificado por completo deve amar a verdade supremamente. Deve ser-lhe leal em todas as palavras e ações. Isso pode custar-nos muito, mas os resultados compensarão tudo o que custar. “Compre a verdade e não a venda.” (Pv 23.23)

519. A santificação deve ser pregada

Nossos pregadores, se querem ter êxito na sua obra, devem pregar a inteira santificação. Devem pregá-la com clareza, distinção e precisão. Neste assunto, a trombeta do evangelho não pode dar som incerto. Francis Asbury fez mais que qualquer outro homem para plantar o metodismo neste continente. Dizia sentir-se divinamente chamado a pregar a santidade em cada sermão. Contudo, certa vez, ao adoecer, escreveu: “Descobri, em exame secreto, que não tenho pregado a santificação como deveria; se eu for restaurado, este será o meu tema, mais incisivamente do que nunca, sendo Deus o meu ajudador.”

Irmão, você prega a inteira santificação como deveria? O seu povo alcança a santificação plena? Você vive de modo a poder pregar a santificação a partir de uma experiência presente?

520. Satanás odeia as manifestações reais do Espírito Santo

É astúcia de Satanás marcar com nomes odiosos os que andam no Espírito. Nada excita tanto a ira do diabo como uma manifestação real do Espírito Santo. Ele incita os seus servos, especialmente os que pertencem à igreja, a acumular desprezo sobre os que se entregam à direção do Espírito. São rotulados de tolos e fanáticos por aqueles que não sabem o que é fanatismo. O verdadeiro fanatismo é muito diferente do espírito de amor humilde que sempre manifestam os que estão cheios do Espírito Santo.

521. Satanás impõe cruzes

O discípulo de Cristo deve negar-se a si mesmo e tomar a sua cruz cada dia. Mas exatamente aqui precisa estar de guarda. Quando Satanás percebe que já não pode impedi-lo de tomar a cruz, muda de tática e passa a fabricar cruzes para você. Apresenta como razão para fazer alguma coisa o fato de ela ser uma cruz. Esta é a lógica de Satanás. Se não há razão melhor para fazer algo além de ser uma cruz, deixe-o de lado. Do fato de algo lhe parecer difícil não se segue que você deva fazê-lo. Um homem iludido, Freeman, do norte de Nova York, achou que devia fazer algo que Satanás transformou em teste da sua fidelidade a Deus — e matou a filha que tanto amava, oferecendo-a, como disse, “em sacrifício a Deus”. O diabo põe cruzes sobre quem as aceita. Não as toque. Damos dois sinais pelos quais se pode distinguir a cruz de Cristo das cruzes que Satanás impõe:

1. A cruz de Cristo está sempre em harmonia com o ensino geral das Escrituras. Satanás muitas vezes apoia as suas sugestões num único texto, destacado do contexto. Leia no capítulo 4 de Mateus como ele tentou o nosso Salvador, e o método que Cristo adotou para derrotá-lo (Mt 4.1-11).

2. Quando alguém toma a cruz de Cristo, Deus dá força e uma glória que torna a cruz fácil de carregar. Pode exigir mais trabalho e mais renúncia do que até agora lhe coube; mas Cristo lhe dará tal vigor e tal descanso de alma que você viverá melhor do que nunca. O jugo dele é suave, e o seu fardo é leve (Mt 11.30).

522. Escolas de salvação

Nenhuma agência entre nós está fazendo mais pela permanência e expansão da obra de Deus na terra do que as nossas escolas de salvação. Elas estão levantando soldados valentes e bem treinados, que levarão adiante a verdade quando nós, que há mais tempo estamos no campo, tivermos sido chamados das cenas do combate. Os bons efeitos dessas escolas já se veem em todos os cantos do globo. Ajude, pois, a sustentá-las. Se você tem filhos para mandar estudar fora, mande-os às nossas escolas. Se tem dinheiro para deixar à causa de Deus quando já não precisar dele, deixe um legado a uma das nossas escolas. Gostaríamos de ver cada uma delas dotada de soma generosa, cujos juros se destinassem ao sustento do diretor e dos professores.

523. Repreender com aspereza não adianta

Você jamais conseguirá ralhar o povo para dentro de um avivamento. Tudo o que você diz é verdade, e o povo merece cada palavra; mas você o diz em tom e maneira tão ríspidos que faz mais mal do que bem. Peça ao Senhor que mude o seu espírito, para que você consiga mudar o seu modo. Encha-se de amor manso, humilde e terno, e isso agirá como um encanto sobre os outros. Você pode conduzir aqueles que não pode empurrar. Por pouco que o suspeite, você mesmo precisa ser reavivado. Está pronto a falar e a orar; mas a sua fala carece de unção, e as suas orações carecem de fé e fervor. Falta-lhe o espírito de súplica. Amados, tenhamos um avivamento entre nós, os que pregamos. Que dizem?

524. A distorção das Escrituras

Todo livro tem alguma palavra ou palavras que usa em sentido peculiar. Assim é com os contratos e com todos os escritos importantes. Para entendê-los corretamente, devemos tomar a palavra no sentido em que o escritor a usa — que pode ser, ou não, o sentido original da palavra. Isso não importa: palavras são apenas sinais de ideias. Assim, para entender um escritor ou interpretar um documento, devemos perguntar que ideia, na passagem em questão, a palavra pretendia transmitir. Dar à palavra, em qualquer escrito, o sentido que geralmente se lhe atribui, quando é evidente que o escritor a usa em outro sentido, é perverter o seu significado. Palavras bíblicas às vezes são usadas desse modo. Pode-se fazê-lo sem nenhuma intenção de perverter o sentido das Escrituras; mas o resultado é que o ensino das Escrituras fica pervertido. Assim, a palavra imortalidade nunca é usada nas Escrituras para denotar, pura e simplesmente, existência para sempre. Vem sempre unida à ideia de uma existência feliz. Nem uma só vez é usada como o oposto de aniquilação. Mas os que ensinam o que chamam “imortalidade condicional” a usam nesse sentido, e assim pervertem o ensino das Escrituras. Em Romanos 2.8-9, Paulo usa, como oposto de imortalidade e vida eterna, não a aniquilação, mas “ira e indignação, tribulação e angústia”. Esses termos implicam claramente uma existência consciente.

Leitor, cuidado com dizer a si mesmo, em substância: “Descanse, coma, beba e alegre-se”, pensando que a morte acaba com tudo. Uma vida sensual é uma vida sem sentido — e não termina na inexistência. Cristo diz de um representante dessa classe que morreu e foi sepultado, “e, no inferno, estando em tormentos, levantou os olhos” (Lc 16.23).

Leitor, fuja do modo de vida desse homem como fugiria do seu destino.

525. Escrupulosidade excessiva

Devemos ser conscienciosos, mas guardar-nos da escrupulosidade excessiva. Alguns bons cristãos são destruídos por ela. Conhecemos uma excelente irmã, professora, que ficou com tanto medo de não falar a verdade exata que passou a qualificar tudo o que dizia, e por fim teve medo de dizer qualquer coisa. Morreu louca. Diz Baxter:

“Se você manda o seu servo com um recado, prefere que ele siga o caminho como puder a que fique parado, escrupulizando a cada passo se deve pôr adiante o pé direito ou o esquerdo, e se deve dar passos deste ou daquele tamanho. Escrúpulos que atrapalham não agradam a Deus.”

Extratos 526–538 · Sociedades secretas, egoísmo e serviço de todo o coração+

526. Organizações secretas de trabalhadores

Entre os direitos inalienáveis do homem está o de trabalhar para quem quiser, e nos termos que quiser. Privá-lo desse direito é privá-lo de elemento essencial da liberdade pessoal. É dar um longo passo para reduzi-lo à condição de servidão. Torna-o, nesse aspecto, um escravo: já não é senhor de si. Se algum estado aprovasse e aplicasse uma lei segundo a qual ninguém pudesse trabalhar sem pertencer a determinada associação, e sem receber pelo trabalho o preço estipulado por essa associação — e, contudo, o estado não lhe garantisse trabalho por esse preço —, haveria rebelião. Tal lei seria considerada despótica demais para ser suportada. Em toda parte haveria revolta contra ela. Nenhum partido político ousaria propor semelhante decreto. Seria vista como violação dos direitos que Deus nos deu. No entanto, é precisamente isso que fazem as organizações secretas de trabalhadores. Se um homem não pertence à sua ordem, não o deixam trabalhar com eles. Se parte deles exige salários que o empregador não quer pagar, decreta-se greve. Os que desejam trabalhar são impedidos. Os que tentam ocupar os seus lugares são maltratados — e alguns, talvez, mortos. Tudo isso é violação dos direitos fundamentais do homem. Tende à derrubada do tecido social. Introduz um poder despótico e irresponsável. Não é melhor que o roubo: é roubo sob outro disfarce. Nenhum cristão pode voluntariamente colocar-se sob o controle de outros a ponto de autorizá-los a exigir dele o que é errado. Para pertencer a Cristo, ele deve estar livre para seguir a Cristo. Não pode servir a dois senhores (Mt 6.24). Quem se submete aos ditames da loja secreta renuncia à lealdade a Cristo: outros senhores têm domínio sobre ele. Por isso, a Igreja Metodista Livre, ao exigir que todos os seus membros não tenham vínculo com sociedades secretas, exige apenas o que é necessário para que sejam cristãos. Presta-lhes ajuda importante na manutenção da sua independência pessoal, e contribui de modo concreto para a boa ordem e o bem-estar da comunidade em geral. Se a influência da Igreja Metodista Livre prevalecesse em toda parte, os conflitos trabalhistas seriam, em grande medida, evitados. Os homens aprenderiam que não podem ser cristãos sem respeitar devidamente os direitos alheios. E que atrativo pode haver em formar sociedades secretas, senão a expectativa de colher delas vantagens a que a capacidade, o caráter e a conduta de cada um não dão direito? O patriotismo se une à piedade para instar-nos a fazer tudo o que pudermos para espalhar entre os homens o cristianismo ensinado pelo Novo Testamento.

527. Sociedades secretas e o trabalho

Os abusos praticados pelas sociedades secretas que controlam o “movimento trabalhista” são de tal natureza que exigem repressão pela mão forte da lei. Ao abolirem na prática o sistema de aprendizado de ofícios, negam virtualmente aos meninos deste país o direito de aprender uma profissão. Por isso os contramestres da maioria dos nossos grandes estabelecimentos fabris são homens nascidos em terras estrangeiras. Os jovens americanos têm de procurar emprego fora dos ofícios, ou contentar-se com posições subordinadas. Se esse estado de coisas fosse produzido por leis, far-se-ia tal alarido que logo viria o remédio. Mas a tirania dos sindicatos é suportada com submissão servil, igualmente vergonhosa para homens livres e perigosa para as nossas liberdades. Precisamos de uma classe melhor e mais corajosa de homens como legisladores.

528. Seitas

Não há no Novo Testamento nenhum mandamento que exija da igreja de Cristo a preservação de uma unidade orgânica. Que tal união fosse desejável, ainda que possível, é extremamente duvidoso. É fato que não admite disputa: onde essa unidade prevalece em maior grau, ali a igreja é mais corrupta — como na Itália, na Espanha e na Áustria. Aconselhamos os que andam tão atormentados com o número de denominações neste país, a ponto de não conseguirem viver aqui em paz, a emigrar para algum daqueles países onde as seitas não são toleradas. Descobrirão que pode haver unidade sem espiritualidade. A água nunca está tão fortemente unida como quando congelada — mas não é nesse estado que ela é mais útil. Calor suficiente para separá-la a torna proveitosa para homens e animais. Até o gelo guardado para uso só serve à medida que se derrete. O fogo do amor divino na igreja compacta da Itália sem dúvida criaria divisões — mas faria grande bem. Há muitas coisas bem mais deploráveis do que a divisão da igreja de Jesus Cristo em denominações. Satanás se deleita em desviar homens bons do combate ao pecado para o combate às seitas. Não se deixe arrastar para esse trabalho sem proveito. Você correrá grande perigo de contaminar-se com um espírito de amargura; e, ainda que fosse um em mil dos que se ocupam dessa obra a conservar a caridade essencial à salvação, sua vida teria sido malgasta.

529. Fiança por outros

Chegam-nos muitos relatos de irmãos, em diferentes partes do país, que perderam os seus bens por se tornarem fiadores de outros. Alguns casos são tristes de verdade. Um casal idoso — de mais de setenta anos —, que havia adquirido modesto patrimônio com trabalho duro, foi induzido a afiançar soma elevada, por curto prazo, a um vizinho que conheciam desde a infância como homem honesto. Resultado: perderam tudo, e agora são obrigados a trabalhar por diária para viver.

O modo de prevenir todas essas calamidades é muito simples: obedecer ao que a Palavra de Deus diz sobre o assunto. “Não esteja entre os que se comprometem, que ficam por fiadores de dívidas. Se você não tem com que pagar, por que deixar que tirem a cama debaixo de você?” (Pv 22.26-27) E ainda: “Quem fica por fiador de outro sofrerá males, mas o que evita a fiança estará seguro.” (Pv 11.15)

530. Autoengano

A capacidade de algumas pessoas para o autoengano é verdadeiramente espantosa. Se fosse próprio falar de gênio em tal contexto, poder-se-ia dizer que têm gênio para iludir a si mesmas. Dão toda a aparência de realmente se julgarem santas, enquanto não exibem, na vida diária, a retidão do pagão honesto. Professam o amor perfeito, enquanto manifestam, por todos os meios que consideram seguros, malícia inconfundível para com os objetos da sua antipatia. Alegam estar dispostas a dar a vida por Cristo, enquanto as suas contribuições para o sustento do evangelho são feitas em resposta a apelos ao seu orgulho ou ao seu amor à autoindulgência. “Quem pode discernir os próprios erros? Purifica-me dos que me são ocultos.” (Sl 19.12)

531. A renúncia deve ser praticada

Se não sabemos o que é renunciar a nós mesmos por amor de Cristo, não pertencemos a Cristo. Quem vive para satisfazer os sentidos não vive para a eternidade — nem sabe em que consiste o verdadeiro prazer. A felicidade desta vida se assegura melhor cumprindo plenamente as condições para alcançar a felicidade da vida por vir.

“Não poderia eu escolher ventura maior
do que ser todo teu.”

Mas, custe o sofrimento passageiro que custar, devemos manter-nos inteiramente consagrados a Deus. Nenhum sacrifício que ele pedir deve ser tido por grande demais. Cristo proíbe toda autoindulgência e extravagância desnecessárias — não para pouparmos o dinheiro que elas custam, mas para termos mais com que abençoar os outros. Nenhum cristão “pode dar-se ao luxo” de gastar dinheiro desnecessariamente consigo mesmo.

532. O egoísmo e a religião de Cristo

Uma religião egoísta não é a religião de Cristo. Os homens que acumulam riquezas e só dão os seus bens onde não são necessários — a igrejas e organizações ricas — ouvirão Cristo dizer: “Porque tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e não me deram de beber; era forasteiro, e não me hospedaram; estava nu, e não me vestiram; enfermo e preso, e não me visitaram.” E quando, surpresos, perguntarem quando fizeram isso, a resposta será: “Todas as vezes que deixaram de fazer isso a um destes mais pequeninos, foi a mim que deixaram de fazer.” “E estes irão para o castigo eterno.” (Mt 25.42-46) Os ricos fariam bem em gravar no coração estas palavras terríveis — não é provável que as ouçam dos seus púlpitos. Uma religião divina é uma religião humana: quem mais ama a Deus é o mais pronto a fazer sacrifícios pelo bem dos seus semelhantes.

533. O egoísmo, o grande obstáculo

Consagre o seu serviço ao Senhor. Seja qual for a sua condição, há trabalho para Deus que você pode fazer — e trabalho que ficará por fazer, se você não o fizer. Cada dia traz a sua oportunidade, que, perdida, nunca volta.

Pare de viver para si. Viver para os outros dará à vida um encanto novo. Alguns nunca estão satisfeitos com a sua experiência, e não descobrem a causa. Em muitos casos, é porque estão ocupados demais consigo mesmos. Menos dinheiro gasto em luxos pessoais, e dado para aliviar as privações alheias, os beneficiaria nesta vida e na vida por vir. Para ter muita graça, é preciso ter um grande coração. Müller tem fé poderosa — porque tem muitas bocas para alimentar.

Busquemos, “perseverando em fazer o bem, a glória, a honra e a imortalidade”, para que tenhamos a “vida eterna” (Rm 2.7).

534. A santificação, remédio para a suscetibilidade

Santificação e suscetibilidade não são sinônimos — muito pelo contrário. Quanto mais plenamente santificados, mais facilmente suportamos que outros tenham opinião diferente da nossa. Podemos chegar, na nossa experiência, ao ponto de tolerar que um irmão diga que estamos enganados sem acharmos que nos acusa de mentir. É possível amadurecer tanto na graça que passemos a dar ao que ouvimos e lemos a melhor interpretação que honestamente comportarem. Podemos, ainda aqui, ser tão completamente transformados pela renovação da nossa mente (Rm 12.2) que tenhamos comunhão cristã doce e íntima com pessoas que diferem muito de nós em opiniões teológicas. Apressemo-nos a chegar lá. Isso acrescentará muito à nossa paz, e à harmonia e ao bem-estar da igreja.

535. Sermões sem poder

Cristo diz: “Eu sou a videira, vocês são os ramos.” (Jo 15.5) O ramo depende inteiramente da videira para viver. Assim a nossa vida espiritual e a nossa utilidade dependem da nossa união vital com Cristo. “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim.” (Jo 15.4)

Um seguidor de Jesus pode ter sido eminentemente útil por muitos anos; mas, se confia em si mesmo, ou na sua experiência passada, já não tem êxito. Sansão virou motivo de riso para os filisteus quando o Senhor, por causa da sua infidelidade, se retirou dele (Jz 16.20). Assim, sermões e exortações que faziam os homens tremer quando pulsavam com a vida de Cristo tornam-se, no máximo, entretenimento, quando o pregador passa a depender da sua retórica ou elocução. As maiores verdades perdem muito da sua força quando levadas ao ouvido apenas pela voz do homem. Palavras que caem sem poder sobre o ouvido efetuariam maravilhosa transformação se levadas ao coração pelo sopro do Todo-Poderoso. Leitor, você está unido a Cristo? “Mas o que se une ao Senhor é um espírito com ele.” (1Co 6.17)

536. Sermões: estude-os e escreva o esboço

Se Deus o chama a dedicar o seu tempo à pregação, então o chama a preparar-se convenientemente para pregar. O fato de você não ler os seus sermões não é razão para não estudá-los. Quanto menos você escrever, mais tempo terá para estudar. Mas você deve escrever, por mais fluente que seja a sua fala. Faça um esboço escrito e cuidadoso de cada sermão. Divida o assunto com naturalidade. Enuncie as suas proposições com clareza. Prove cada proposição importante com um ou dois textos claros, corretamente citados. Não fale a esmo. Torne os seus pontos tão claros que você leve consigo o entendimento e a consciência dos ouvintes. Domine o seu assunto. Obedeça às instruções de Deus: “Ouça a palavra da minha boca e os avise da minha parte.” (Ez 3.17) Deus fala geralmente à alma num cicio tranquilo e suave. É preciso viver perto dele para ouvir essa voz. É preciso estar familiarizado com a sua Palavra, se você quer que Deus ponha as palavras dele na sua boca.

537. O serviço deve ser de todo o coração

Em vão usamos a linguagem da devoção, se o coração não está nela. Deus não muda. Aquilo de que ele se queixou no seu povo antigamente — a falta de pureza de coração — ele não aprova no seu povo agora.

“Eles vêm até você, como o povo costuma vir, e se assentam diante de você como meu povo, e ouvem as suas palavras, mas não as põem em prática; porque com a boca professam muito amor, mas o coração deles está voltado para a ganância.” (Ez 33.31) Devemos pôr o coração nas orações, no testemunho e nos cânticos. As execuções mais elaboradas e artísticas dos atos de culto, tanto quanto as mais simples e toscas, são abominação para Deus quando não são expressão verdadeira dos sentimentos dos que delas participam. Ele abomina a hipocrisia.

“Coração dividido é coração falso! Atentemos ao aviso!
Só o inteiro pode ser perfeitamente verdadeiro;
traga a oferta inteira, desprezando todo pensamento tímido:
só é fiel de coração quem o é de todo o coração.”

É a nós mesmos que Deus quer, e não apenas as nossas palavras. Cuidemos para que a nossa rendição à sua vontade seja completa. Chega de fingimentos e evasivas. Sejamos cristãos não só em algumas coisas, mas em todas. Que a nossa vida seja um contínuo ato de adoração.

538. As vantagens da vida simples

A natureza tem, afinal, o seu próprio modo de equilibrar bem as coisas. O homem que tem as iguarias mais finas para comer sofre de falta de apetite, de dispepsia e de outras doenças decorrentes da vida regalada, de modo que os seus pratos caros não lhe dão tanto prazer quanto o trabalhador tira da sua comida simples. “Troco de bom grado o meu jantar pelo seu”, disse um milionário a um trabalhador, “se você me der o seu apetite e a sua digestão.” As necessidades reais do corpo são fáceis de suprir; as imaginárias, nascidas do orgulho e da inveja, jamais podem ser supridas. A comida preparada por um cozinheiro de três mil dólares já não tem bom gosto quando se descobre que o concorrente tem um cozinheiro de dez mil. Viver com simplicidade e dentro dos próprios meios é viver bem. Quanto mais um homem se abestializa, maiores são os seus sofrimentos físicos e menor a sua capacidade de prazer verdadeiro. Boa saúde e poucas necessidades dão mais contentamento do que a farta provisão das necessidades artificiais de quem tem apetites mimados e constituição arruinada. “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (1Tm 6.8)

Extratos 539–551 · O canto, o pecado e a sabedoria para ganhar almas+

539. O canto

Se cantar é ato de culto, então os adoradores devem cantar. Se são adoradores de verdade, não consentirão em delegar o canto a uns poucos. Não poderiam fazê-lo nem que esses poucos fossem santos. Mas em geral o coro se compõe, em grande parte, de pecadores. Cantam por pagamento, ou por elogio. Não há culto algum nisso. O sentimento expresso não é sentido; as palavras não têm sentido algum na boca dos que as usam. É mera apresentação. Mas será que Deus se agrada de apresentações vazias? Responda Cristo: “Deus é espírito; e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.” (Jo 4.24) Isso não pode ser feito por um órgão sem sentidos, nem por um coro ímpio. Precisam primeiro converter-se. Em vez de contratar outros para cantar por você, diga com o apóstolo: “Cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente.” (1Co 14.15) Nenhuma máquina que o homem já inventou pode fazer isso. Nenhum professor de música pode ensinar essa arte. Só pessoas salvas são capazes dela — e estas, quando cantam, precisam da inspiração do Espírito Santo. Os que cantam no Espírito são eles mesmos abençoados: às vezes são elevados quase até às portas do céu. Muitas vezes, sob um canto fervoroso, pecadores são convencidos e penitentes, convertidos. Multidões são poderosamente tocadas pelo canto cheio do Espírito Santo. Ele produz efeito infinitamente além do que as meras apresentações artísticas podem alcançar. Que alguém que saiba dar o tom o dê em clave devocional. Tenhamos o Espírito e esperemos ser abençoados no nosso canto. Cantem todos, e ponham o coração no cantar.

540. Hinários

Num acampamento metodista livre, anunciamos um hino do nosso hinário metodista livre. Para nossa surpresa, não havia outro hinário no local. Os hinos e melodias metodistas à moda antiga eram novidade. Cada pregador tinha a sua coletânea favorita de cânticos espirituais, e delas o povo estava bem provido. Depois disso, não nos surpreendeu saber que, à noite, as forças de trabalho se dividiam — uns indo ao “Exército da Salvação”, outros à “Banda de Daniel” —, não restando gente bastante, com poder diante de Deus, para conduzir à vitória os pecadores que vinham ao altar buscar salvação.

Irmãos, se querem que a nossa obra tenha êxito, precisam entrar na linha e adotar os métodos metodistas livres, ler a literatura metodista livre e submeter-se à disciplina metodista livre. A tática de um exército vitorioso é essencialmente a mesma em toda parte, embora possa variar conforme a ocasião.

541. O pecado que assedia

Se você vive na prática de algum pecado conhecido, não está justificado. Ele pode estar escondido dos homens, mas não está oculto de Deus. Você pode manter alta profissão de fé; mas isso só torna o seu caso mais desesperador, e a sua condenação mais terrível. Pode ser muito zeloso por reformas, e pode até conseguir expulsar demônios e fazer muitas obras poderosas; mas isso não impedirá que Cristo lhe diga, por fim: “Apartem-se de mim, vocês que praticam a maldade.” (Mt 7.23) Por mais que você cubra os seus rastros por um tempo, de uma coisa pode estar certo: o seu pecado o alcançará (Nm 32.23). Portanto, rompa já com os seus pecados pela justiça. Volte-se para Deus de todo o coração. Busque o perdão até encontrá-lo. Uma evidência confiável de que Deus o perdoou é o poder para vencer o pecado que o assedia.

542. A progressão no pecado

Os antigos tinham uma máxima: Nemo repente fuit turpissimus — “Ninguém se torna vilíssimo de repente.” Uma vida dissoluta, como o inverno, chega aos poucos. O primeiro passo para baixo daquele bêbado sem esperança e sem remédio foi jogar damas. Para estar na moda, passou a fumar charutos; depois, a beber cerveja; depois, uísque. Foi-se a fazenda, foi-se a saúde, foi-se o caráter, foram-se os bens; a família foi reduzida à mendicância, e ele cambaleia à boca do inferno!

Quando alguém se afasta da retidão mais estrita, não pode dizer até onde irá à deriva. Coloca-se no poder do seu inimigo, que só procura arrastá-lo à destruição. Pecados pequenos crescem e viram pecados grandes — e muitas vezes crescem com rapidez assustadora.

543. Os pecadores devem abandonar todo mal

Tiago é tão explícito quanto Daniel ao especificar a natureza da obra que Deus recompensará: “Saiba que aquele que converte um pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá uma multidão de pecados.” (Tg 5.20) O pecador convertido não deve apenas voltar-se para o que é bom: deve afastar-se de tudo o que é mau. Nestes tempos, as pessoas estão muito dispostas a vestir o traje da profissão cristã, desde que possam usá-lo por cima das próprias vestes de orgulho e justiça própria. Consentem em vestir-se com relativa simplicidade na igreja, contanto que possam deslumbrar com diamantes no mundo. Vestem pano de saco na Quaresma, mas se desforram no preço dos chapéus de Páscoa e dos demais trajes vistosos.

Muito homem contribui generosamente para a igreja, desde que possa continuar especulando na bolsa, impondo barganhas duras ou oprimindo o jornaleiro no seu salário.

Mas o convertido que Deus reconhece afasta-se de todos os seus erros — do orgulho, da sensualidade e da cobiça, em todas as suas formas variadas.

544. Os serviços dos pecadores devem ser aceitos

Ninguém pode fazer algo para ajudar a causa de Deus sem receber a sua recompensa, nesta vida ou na vida por vir. Deus é bom pagador. Cristo curou o servo do centurião ao ouvir que ele “ama o nosso povo e foi ele quem construiu a nossa sinagoga” (Lc 7.5). Mencionamos, semanas atrás, como um cavalheiro ajudou a levantar uma subscrição para nos construir uma igreja. Acabamos de saber que ele foi gloriosamente convertido e se uniu à Igreja Metodista Livre. Louvado seja Deus!

Chega-nos notícia de um senhor idoso que tinha preconceito contra os metodistas livres. Mas, quando estes iam realizar uma conferência na cidade em que ele morava, o seu amor à hospitalidade o levou a tomar parte ativa nos preparativos. Assistiu às sessões e aos cultos de pregação, e os seus preconceitos foram varridos. Foi salvo entre eles, e morreu em santo triunfo.

É grande erro não deixar que os pecadores nos ajudem, quando o desejam e podem fazê-lo com coerência. Privamo-nos sem necessidade de ajuda de que precisamos, e muitas vezes os impedimos de receber a bênção que receberiam se lhes fosse permitido fazer o bem a que se sentem inclinados.

545. A gíria nunca deve ser usada

Alguns dos escritores sagrados eram homens instruídos; outros, sem letras. Há grande diferença nos seus estilos; mas todos concordam num ponto: nenhum deles usou gíria. O estilo mais simples encontrado na Bíblia é, ainda assim, um estilo puro. Queremos chamar a atenção de todos os que falam em público, e especialmente dos nossos pregadores, para isto. É nossa convicção firmada que ninguém pode usar gíria sem entristecer o Espírito de Deus. Seu uso ofende todas as pessoas de bom gosto, e especialmente as que têm o Espírito. Usar expressões baixas e chulas não é cativante, nem espirituoso, nem sábio. “Somente procedam de maneira digna do evangelho de Cristo.” (Fp 1.27) Se esta deve ser a regra para a conversa particular, quanto mais para os discursos públicos. Pode-se ser familiar sem ser baixo e vulgar. Estude a Bíblia. Estude O Peregrino. Bunyan não teve instrução. Suas companhias eram os pobres e os ignorantes. Na juventude, adquiriu maus hábitos de fala. Mas a conversão o curou. Nos seus escritos não há nada que ofenda o gosto mais exigente. Sua linguagem era a do povo comum; mas não se encontram nos seus escritos expressões baixas e vulgares. Imite-o nisso. Não diga nada que beire a palhaçada. Não busque uma risada quando deveria ganhar uma alma. Seja sério. Seja fervoroso; e não seja vulgar.

546. O crente preguiçoso

Quem vive procurando dificuldades sempre achará dificuldades. “O preguiçoso diz: ‘Há um leão lá fora! Serei morto no meio da rua!’” (Pv 22.13) O problema estava no homem, não na rua. A preguiça é grande inventora: sempre acha razões, satisfatórias para si mesma, para não fazer o que precisa ser feito. É tão abundante em resoluções quanto os apóstolos o eram em atos. Mas as mais altas resoluções não conseguem mais do que aliviar a consciência. Como o candidato à fama de Pollok, ele

“viu, no próprio limiar da empreitada,
mil obstáculos; hesitou primeiro,
e, enquanto hesitava, viu as suas ardentes esperanças
escurecerem mais e mais…
Seus propósitos, feitos cada dia, cada dia quebrados,
como plantas muitas vezes arrancadas e replantadas,
mais doentios se tornavam, e cada dia mais vacilantes,
até que por fim…
o sono o envolveu depressa, e o arrastou para baixo.”

É tempo de as resoluções de muitos começarem a tomar forma em ação. Deus opera em nós o querer e o realizar, mas nós devemos desenvolver a nossa salvação (Fp 2.12-13). E devemos trabalhar com vontade. Não podemos

“ser levados aos céus
em floridos leitos de descanso”.

Leitor, você é um cristão que trabalha?

Um preguiçoso não pode ser cristão. Pode estar na igreja, mas não pode estar em Cristo. Todos os que estão em Cristo participam do seu espírito — e o espírito dele é diligente. Com apenas doze anos de idade, disse: “Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?” (Lc 2.49) Paulo, ao mesmo tempo que insiste na mais profunda piedade, ordena ao que a possui: “Não sejam preguiçosos; sejam fervorosos de espírito, servindo ao Senhor.” (Rm 12.11) E o sábio disse: “Tudo o que as suas mãos tiverem de fazer, que o façam com todas as suas forças.” (Ec 9.10) A graça de Deus põe vida e energia em quem a possui. Isso se vê nas coisas temporais e espirituais. Quem prevalece com Deus em oração, de joelhos, fará bom trabalho para os homens com as mãos. Era a glória de Paulo: “Estas mãos serviram para o que era necessário a mim e aos que estavam comigo.” (At 20.34) A ociosidade voluntária é pecado.

547. O homem, ser social

O homem não foi feito para estar só. Foi formado para a sociedade. O cristianismo é uma religião social. Assim que André sentiu a alegria da comunhão com Cristo, trouxe o irmão para partilhar da bendita comunhão (Jo 1.40-42). A felicidade se multiplica quando dividida com os outros.

“Oh, a música e a beleza da vida perdem o valor
quando um só coração se alegra nos seus sorrisos;
mas a união dos corações dá à luz aquele prazer
que brilha sobre a escuridão e a frieza da terra,
como o sol sobre as suas ilhas escolhidas:
dá à lareira do inverno a sua luz,
o brilho e o fulgor da primavera.”

Precisamos de uma experiência pessoal da graça salvadora; mas deve ser uma experiência que nos leve a ansiar por reparti-la com os outros. Nenhum homem verdadeiramente nascido do Espírito vive só para si. De todos os seres humanos, o mais atormentado é o que só cuida de si mesmo.

548. A formação de novas congregações

Na formação de novas congregações, é de grande importância que sejam compostas de homens e mulheres piedosos. Os primeiros membros devem ser membros salvos. Devem conhecer os nossos princípios e estar consagrados a Deus para vivê-los. Devem ter experiência clara da graça santificadora e determinação firme de viver vidas santas. Membros assim moldarão os que forem chegando. Crescerão como congregação forte, com poder diante de Deus e influência diante dos homens. Congregações desse tipo não correm o risco de ser despedaçadas por dissensões internas, nem de morrer de formalismo. Assentarão em trabalho constante por Cristo na salvação de almas e, em consequência, prosperarão. É melhor não formar uma congregação do que formá-la de mau material. É o caráter dos membros individuais, mais do que a Disciplina a que dizem ter dado assentimento, que determina o caráter de uma congregação.

549. Alimento para a alma

Quando temos fome, o som da sineta do jantar nos é agradável. Gostamos de ouvi-lo. Mas, chegando à mesa, esperamos algo para comer. Já não nos satisfaz o tilintar da sineta: queremos algo além de barulho. Assim, quando as pessoas vêm às nossas reuniões, vêm para ouvir algo que lhes faça bem. Querem alimento para a alma. Se quisessem ouvir alguém que “toca bem um instrumento”, teriam ido a outro lugar. Nenhum homem pode ministrar aceitavelmente às nossas congregações, por mais cheia de palavras que tenha a cabeça, se não tiver o coração cheio de graça. Nosso povo quer algo mais que mero chocalho. O bronze que soa e o címbalo que retine (1Co 13.1) não o satisfarão, por mais habilmente que soem e retinam. Não basta pregar sobre o Espírito: o pregador deve estar tão cheio que possa ministrar o Espírito. Não deve apenas dizer ao povo que busque a bênção; ele mesmo deve ser abençoado. Para isso, deve andar de perto com Deus a semana inteira. Se foi indolente e autoindulgente durante a semana, não pode compensá-lo com vociferações violentas no domingo.

550. A fome da alma deve ser saciada

O êxito de qualquer igreja será proporcional ao zelo e à fidelidade com que ela exalta a Cristo. Em toda parte o povo está morrendo de fome espiritual. Muitos estão tão longe que já nem sentem fome. Dogmas não os alimentarão. Denúncias e controvérsias só os afastarão. Assim como o cheiro de comida bem preparada desperta o apetite do corpo, o aroma da santidade nunca deixa de excitar fome de justiça.

Nada pode saciar a fome da alma senão o Pão da Vida que desceu do céu. Quem se alimenta de Cristo nunca terá fome (Jo 6.35). Desaparece o anseio inquieto por algo não alcançado. Exalte, pois, a Cristo. Ele é mais atraente que o coro mais bem ensaiado — que o pregador mais eloquente. Devemos mostrar aos homens as suas necessidades para apontar-lhes Cristo, que pode satisfazer cada uma delas.

551. Sabedoria no trato com as almas

Ao cortar uma árvore para lenha, desferimos golpes oblíquos e tiramos, de início, lascas grandes. Para atravessar o tronco uma vez, temos de cortá-lo duas. Cada lasca exige um golpe em cada extremidade. Isso pode parecer, ao inexperiente, grande desperdício de trabalho; mas é grande economia de trabalho. De fato, é o único modo de atravessar um tronco grosso. Golpeando reto, contra o veio, num só ponto, o machado nunca entraria fundo: você estragaria o tronco, mas não teria lenha. Vemos por que alguns obreiros cristãos realizam tão pouco. Desferem golpes fortes, mas não golpes bem dirigidos. Na ânsia de chegar ao coração, vão direto contra o veio. Um maçom, ou uma mulher cheia de babados e plumas, foi ferida pelo Todo-Poderoso e vem à reunião em busca de ajuda. Eles atacam o ídolo de frente, imediatamente, despertam oposição e os afugentam. Com golpes indiretos poderiam facilmente ter extirpado o distintivo ou os enfeites; mas, do modo como trabalharam, só ofenderam. Mandaram embora, vazias, almas famintas — que nunca mais voltaram. O que ganha almas é sábio (Pv 11.30). Não é preciso sabedoria nem graça para irritá-las. Se foi só isso que você fez, não se gabe da sua fidelidade. Peça a Deus que lhe dê sabedoria celestial, para alcançar êxito verdadeiro.

Extratos 552–564 · Cheios do Espírito, força em Deus e submissão+

552. Dedicação à salvação de almas

Se Deus o chama para a obra do ministério, entregue o coração à obra. Não se deixe desviar dela. Se você dedica as suas forças a caçar heresias e a combater toda noção errada, não deve admirar-se de que a obra de Deus não prospere nas suas mãos. Se quer ver almas salvas, deve entregar-se à obra de salvar almas. Cumprir as formalidades de modo apropriado pode aliviar a sua consciência, mas não satisfará as exigências de Deus nem trará almas à cruz. Seja batizado com um espírito de compaixão pelos perdidos. Entregue-se por inteiro à obra de salvar almas. Você se espantará ao ver que pregador de avivamento se tornará.

553. Clareza no falar

Floreios rebuscados no púlpito podem entreter o auditório, mas não despertam terror algum entre os inimigos de Deus. O pregador que produz efeito deve estar mortalmente sério. Enfeites afetados são tão fora de lugar na casa de Deus quanto o seriam no campo de batalha. Fora com eles. Use palavras simples, de maneira simples.

“Fala tu a verdade. Que outros cerquem
e aparem as suas palavras por pagamento;
em sol ameno ou em fingimento,
que outros passem os seus dias.”

Mas você entrega a mensagem de Deus nas próprias palavras de Deus? Tema o inferno; mas não tenha medo de dizer inferno! Se você é mensageiro de Deus, tem advertências da parte de Deus. Não deixe de entregá-las com fidelidade. Está em jogo a salvação da sua própria alma, tanto quanto a dos seus ouvintes. “Tenha cuidado de você mesmo e da doutrina. Continue nestes deveres, porque, fazendo assim, você salvará tanto a si mesmo como aos seus ouvintes.” (1Tm 4.16)

554. Enchei-vos do Espírito

“Encham-se do Espírito.” (Ef 5.18) Trata-se do Espírito Santo. É posto em contraste com o vinho, o espírito mau que leva muitos ao excesso, à loucura, à pobreza e ao crime. Os dois não andam juntos. Embora alguns homens pareçam extraordinariamente religiosos quando meio embriagados, a sua religião não tem valor, pois não é da espécie certa. É a religião da carne, ainda que pareça muito zelosa pelo cristianismo. As roupas podem ser de Jacó, mas a voz é de Esaú.

Não basta ter o Espírito de Deus: devemos estar cheios do Espírito. Deixe entrar o sol num quarto, e ele o inunda de imediato e expulsa as trevas. Abra a alma ao Espírito Santo, e ele expulsará todos os espíritos contrários. Orgulho, inveja, cobiça e desejo profano serão banidos — e jamais poderão reentrar enquanto a alma estiver cheia do Espírito. O modo mais fácil de tirar o ar de um copo é enchê-lo de água; e o modo mais fácil de tirar do coração a vaidade e todas as más paixões é tê-lo cheio do Espírito. Ponha-se, pois, a obedecer a este mandamento, e encha-se do Espírito.

É notável que o apóstolo, depois de nos mandar encher do Espírito, dê imediatamente instruções sobre como agir sob a sua influência. Isso merece a nossa séria atenção. Que aprendemos com isso? Deveríamos aprender muito. Deveria ensinar-nos que nenhum grau da influência do Espírito Santo jamais nos priva do nosso livre agir moral. O Espírito pode repousar sobre nós a ponto de tirar-nos, por um momento, as forças físicas; mas a natureza moral nunca é subjugada. Mesmo sob a mais poderosa pressão do Espírito, permanecemos livres para agir. Dominado por uma manifestação do Filho de Deus, Paulo diz: “Não fui desobediente à visão celestial.” (At 26.19) Não foi coagido por ela: prestou-lhe obediência voluntária. Deus nunca violenta a vontade humana. Nunca transforma homem algum em mera máquina. Fazê-lo seria privá-lo da sua natureza religiosa — torná-lo incapaz de verdadeira obediência. Ninguém pensa em elogiar o relógio por marcar bem as horas: ele funciona exatamente como foi feito para funcionar. Mas o homem não é uma peça de mecanismo curiosamente fabricada. É um ser moral — sempre capaz de escolha e de autodireção. Por isso, quando erra, é digno de culpa.

555. A força espiritual deve ser renovada

A força física, para ser conservada, precisa ser renovada. Se não comer e não dormir, o mais forte logo desfalece. Assim é espiritualmente. A alma que orou pelo perdão e o encontrou precisa vigiar e orar, para não entrar de novo em tentação. Quem foi santificado por completo precisa prosseguir e acrescentar à graça que então recebeu, para que “nunca tropece”, mas que lhe seja “concedida ampla entrada no Reino eterno do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.10-11).

Precisamos, pois, esperar no Senhor, para que as nossas forças se renovem. Não podemos viver de bênçãos passadas, nem quanto à alma, nem quanto ao corpo. A experiência de Paulo era genuína e completa; contudo, escreveu de si mesmo: “Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o nosso homem interior se renova de dia em dia.” (2Co 4.16) Muitos de alta profissão de fé tornam-se secos e espiritualmente mortos por falta dessa renovação interior diária. A petição que o nosso Senhor nos ensinou — “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11) — vale para a alma não menos que para o corpo. Os mais fortes são os que fazem melhor uso dos meios de graça. Quem não ora muito em secreto não espere ser notavelmente recompensado em público. O rosto de Moisés resplandecia diante do povo — mas era quando ele vinha de estar em comunhão com Deus (Êx 34.29).

556. Semeadura e colheita

Nenhum lavrador que semeia aveia espera colher dessa semeadura uma safra de trigo. Para criar ervas daninhas, não é preciso semeá-las: a terra participa da depravação do homem; basta deixá-la em paz, e você terá farta safra de mato. Assim, para colher os frutos da justiça, é preciso semear as sementes da justiça. E uma só semeadura não basta. O terreno alqueivado deve ser lavrado com frequência, e as sementes vivas da eterna verdade de Deus, lançadas a mancheias no espírito contrito — e recolher-se-á fruto para a vida eterna. Mas são necessários vigilância constante e cuidado incessante. O jardim mais produtivo, plantado com as melhores sementes, não suporta ser negligenciado. Nossa salvação eterna não se realiza, de ordinário, num dia ou num ano. Não pode haver afrouxamento até que se alcance o fim. “Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida.” (Ap 2.10)

557. O caminho reto

Entre dois pontos dados numa superfície plana, só se pode traçar uma linha reta. Partindo de um deles, pode-se traçar qualquer número de linhas tortas na direção geral do outro, sem atingi-lo. Assim, há um só caminho para o céu — o Caminho da Santidade. Os modos de errá-lo são legião. As linhas retas parecem-se umas com as outras; de milhares de tortas, talvez não haja duas iguais. Fénelon era católico romano; Edwards, presbiteriano; Wesley, o fundador do metodismo; Stephen Grellet, quacre — mas todos apontam o mesmo caminho para o céu. Examinamos os escritos de muitos universalistas, semiuniversalistas e incrédulos, e não achamos dois que concordem. Cada um tem a sua própria descoberta do caminho da vida e da felicidade, mas verifica, com desgosto, que os verdadeiros cristãos desprezam as suas descobertas e seguem nas veredas antigas da justiça, felizes e contentes. Mantenhamo-nos firmes no caminho estreito, batalhando diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3). “Quanto aos que se desviam por caminhos tortuosos, o SENHOR os levará junto com os malfeitores; mas haverá paz sobre Israel.” (Sl 125.5)

558. Não assine papéis para estranhos

“Não se esqueçam da hospitalidade” (Hb 13.2); mas não assinem papéis para estranhos. Se o fizer, você pode meter-se em apuros. Algumas das nossas leis ajudam a vilania. Um lavrador honesto e desprevenido, aqui perto, foi induzido a comprar de um estranho fino e polido dois sacos de um novo tipo de fertilizante. O custo seria pequeno — e nada, se não gostasse. Foi induzido a assinar um pedido. Essa assinatura custou-lhe trezentos dólares.

É tempo de reverter as leis que tornam válidas, nas mãos de um “comprador de boa-fé”, as notas promissórias obtidas por fraude. Uma promissória, como uma escritura ou o título de qualquer outra propriedade, deveria, se houver fraude ligada a ela, carregar a mácula aonde quer que vá. Se isso virasse lei — como certamente deveria —, fechar-se-ia uma das minas de vilania mais ricas hoje exploradas.

559. Deus é a nossa força

Um homem pode ser pobre; mas, se faz negócios para alguém rico, e está autorizado pelo patrão a sacar dele todo o dinheiro de que precisa para tocar o negócio, não tem direito de queixar-se de falta de fundos enquanto os seus saques forem honrados.

Somos fracos; mas, se somos de fato servos de Deus, temos o direito de vir a ele em busca de toda a força de que precisamos. Ele é a nossa força. Todos podemos orar com o salmista: “Dá força ao teu servo.” (Sl 86.16) Quando essa oração é feita com fé, pelo mais fraco servo de Deus, é sempre respondida. Então podemos dizer com o apóstolo: “Quando sou fraco, então é que sou forte.” (2Co 12.10) Por isso vemos, muitas vezes, aquela que é chamada “vaso mais frágil” ser a mais forte para suportar as durezas e provações da vida. Nem devemos deixar-nos deter, no mínimo que seja, pela nossa própria insignificância; pois o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 12.9). Quanto mais fracos por natureza, mais claramente se verá que a nossa força vem de Deus.

560. A nossa força está em Deus

Não devemos, na nossa fé, limitar o poder de Deus. Ao seu amigo de outrora ele disse: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; ande na minha presença e seja perfeito.” (Gn 17.1) Somos inclinados a basear o que julgamos poder fazer no serviço de Deus naquilo que somos. Quem faz isso não pode aspirar seriamente a “ser perfeito” diante de Deus. Pode ter conhecimento muito imperfeito de si mesmo; mas sabe que não é capaz de tão grande realização — está muito além da sua capacidade. Mas quem depende realmente de Deus depende de uma força que nunca pode falhar. Ela está sempre à altura de qualquer emergência. Àquele que quer andar imaculado em meio às contaminações que pode encontrar no caminho do dever, àquele que quer vencer os seus inimigos em todo conflito, Deus diz: “Que se apegue à minha força.” (Is 27.5) Esta não pode falhar, de modo algum, jamais.

561. Não basta ser rigoroso

É grande erro alguém supor que é cristão radical porque é rigoroso quanto a coisas externas, grandes e pequenas. Os fariseus o eram. A piedade interior sempre virá acompanhada da piedade exterior. A verdadeira graça não é estéril nem infrutífera.

Mas pode haver atenção escrupulosa ao exterior, faltando a obra do coração. Faces coradas nem sempre são evidência de saúde: podem ser pintadas pela vaidade, ou tingidas pela tísica. É importante vestir-se com simplicidade; mais importante ainda é ter o espírito revestido de humildade. Devemos dar testemunho contra o orgulho e a conformidade com o mundo; mas é ainda mais necessário que nós mesmos estejamos livres de um espírito de inveja e ciúme. Cuidemos para que a graça vá ao fundo mesmo da nossa natureza, e arranque toda planta que não seja de origem celestial.

562. A importância do estudo

Se o pregador quer ser útil de modo duradouro, deve estudar. Isso é imperativo. Nenhum dom natural torna o estudo desnecessário. O orador mais brilhante logo perderá o interesse no que diz, se continuar, ano após ano, repetindo os velhos discursos. E, se o orador não se interessa pelo que diz, não conseguirá interessar os outros. Tais pessoas, vendo ida a sua utilidade, tornando-se um peso para si mesmas e o seu ministério uma estafa, tendem a abandonar a vocação divina justamente na idade em que deveriam ser capazes de fazer o maior bem.

Anos atrás, dissemos ao gênio mais original que já conhecemos: “Você deveria estudar mais.” “Estudar o quê?”, foi a sublime resposta, com ênfase especial no eu. Por muitos anos, quando a igreja mais precisou dos seus serviços, e quando a sua influência poderia ter sido mais amplamente sentida, ele ficou escondido, sepultado longe das vistas. O oceano se mantém cheio por ser alimentado por milhares de rios; o solo mais rico mantém a sua produtividade absorvendo fertilidade da terra, da água e do ar; assim também a mente mais ricamente dotada pela natureza precisa receber novas provisões de alimento mental, ou perderá aos poucos o vigor e a força. Timóteo era dotado, bem treinado, profundamente piedoso e cheio do Espírito; mas Paulo lhe escreveu: “Aplique-se à leitura.” (1Tm 4.13) Mas, ai de nós, de que adianta escrever? Os que mais precisam desta nota, muito provavelmente, não a lerão.

563. A submissão é exigida

Uma das razões pelas quais alguns cristãos decididos não crescem na graça, nem têm mais poder com Deus e com os homens, é que precisam sempre fazer prevalecer a própria vontade. Não sabem ceder em nenhum assunto em que difiram de opinião dos seus irmãos. São voluntariosos e contenciosos. Creem na submissão — a eles mesmos.

Diz o dr. Adam Clarke: “O apóstolo inculca a necessidade de ordem e sujeição, especialmente na igreja. Os que não suportam ser governados são, em geral, os que desejam tiranizar. E os que mais alto clamam contra a autoridade, civil ou eclesiástica, são os que desejam ter o poder nas próprias mãos — e infalivelmente abusariam dele, se o tivessem. Só os que estão dispostos a obedecer são capazes de governar; e quem sabe governar bem está tão disposto a obedecer quanto a dirigir. Sejam todos submissos e ordeiros.”

564. A submissão, essencial à vida cristã

O cavalo ou o boi, para ser útil, precisa ser domado. Um cavalo selvagem pode primar pela beleza e pela velocidade; mas a quem, senão a ele próprio, aproveita a sua ligeireza? O jugo é emblema de sujeição e de serviço. Todo homem que vive em sociedade deve, mais cedo ou mais tarde, submeter-se a limites. Não é possível fazer sempre a própria vontade. O czar da Rússia é autocrata; contudo, muitas vezes não consegue realizar os seus desejos. Quem terá de ceder algumas vezes não pode aprender cedo demais a ceder. O hábito da submissão, formado cedo, torna a submissão fácil. A criança treinada desde a infância a obedecer à autoridade dos pais, ao crescer submete-se com elegância à autoridade da escola, e torna-se cidadão útil e cumpridor da lei, e cristão fiel, portador da cruz. Filhos criados na indulgência podem converter-se; mas é muito difícil que permaneçam convertidos. Eles se revoltam sob a disciplina necessária.

Extratos 565–576 · Submissão, simpatia e tato pastoral+

565. A submissão cristã com elegância

O verdadeiro cristão sabe submeter-se mesmo quando sabe que tem razão e que os outros estão errados. Não é preciso graça para fazer prevalecer a própria vontade — nem para abandonar o campo quando se vê que não se pode prevalecer. Adam Clarke, na velhice, foi posto como supranumerário, contra o seu pedido. Ao ser informado, escreveu:

“Sinto que fui maltratado naquela obra para a qual Deus me chamou, e na qual o sr. Wesley, com as próprias mãos, me confirmou, ao me porem como supranumerário, apesar dos protestos feitos ao próprio presidente. Portanto, embora entenda que não tenho nomeação, saio pregando por onde me chamam, a trabalhar pelas suas obras de caridade. Vejam, pois: embora ferido, não tomei aquela ofensa que faz tropeçar. Meu tempo está quase findo. Trabalhei duro, suportei muitas privações e sofri muita dureza, por mais de meio século — e ainda estava disposto a trabalhar; e, como ainda podia trabalhar com a mesma energia e o mesmo efeito, pois Deus continuava a honrar a minha palavra, não foi bom lançar-me assim para fora do campo de trabalho! Deus é justo, E A MINHA ALMA SE CURVA DIANTE DELE!”

566. A submissão deve ser mútua

Diz um pregador: “Temos na nossa congregação um homem que é muito bom — desde que tudo se faça do jeito dele.” Talvez haja outras congregações com um homem desse caráter. Por isso, arriscamos dizer-lhes algumas palavras com amor: irmão, se você é discípulo de Cristo, você é um aprendiz. É esse o sentido da palavra discípulo. O estudante judicioso estuda as matérias necessárias em que é deficiente. Pode não gostar delas; mas, se precisa entendê-las para ser útil, vence a aversão. Você é deficiente em submissão. É uma deficiência importante, que pode facilmente tornar-se fatal. Foi ela que lançou Satanás fora do céu — e o manterá você fora dele. Por mais que ame outras verdades, se não aprender a doutrina da submissão, e não a praticar, jamais poderá entrar no céu. Não basta gostar que os outros se submetam a você, e parar aí: você deve aprender a submeter-se a eles. O mandamento é: “Sujeitem-se uns aos outros no temor de Cristo.” (Ef 5.21) Isso mostra que a submissão deve ser mútua. Você a interpretou como significando que todos devem submeter-se a você. Triste engano! O apóstolo inclui, entre os que estão “reservados para o Dia do Juízo” a fim de serem punidos, os que “desprezam qualquer autoridade. Atrevidos, arrogantes, não receiam difamar autoridades superiores.” (2Pe 2.9-10) Cuidado para não pertencer a essa classe.

567. Submissão: obediência às autoridades

Os santos não são voluntariosos. Ninguém pode permanecer na escola de Cristo sem aprender e praticar a submissão à autoridade legítima. Não deve submeter-se ao pecado; mas deve submeter-se aos que estão sobre ele e o admoestam no Senhor. John Wesley não foi o maior pregador do seu tempo, mas foi o maior organizador: e, enquanto pouco resta da obra de Whitefield, a influência de Wesley se faz sentir no mundo inteiro. Wesley, porém, insistia na obediência em todas as suas sociedades. Os que não obedeciam às regras eram desligados.

Os jesuítas, como corpo, são a pior sociedade religiosa da terra — e a mais poderosa e bem-sucedida. Sua influência depende quase inteiramente do espírito de obediência que inculcam, levado ao limite máximo concebível. O jesuíta deve obedecer ao superior em tudo, certo ou errado; mas o santo de Deus jamais pode fazer o que é moralmente errado, não importa quem o ordene. Nas demais coisas, porém, é manso e submisso.

568. A importância da submissão ao governo

Diz Pedro que, entre os que estão reservados “para o Dia do Juízo” a fim de serem punidos, estão os que “seguem a carne nos seus desejos impuros e desprezam qualquer autoridade” (2Pe 2.9-10). Os que se recusam a unir-se a uma igreja porque não querem ser governados fariam bem em considerar cuidadosamente essa passagem. Ela se aplica com igual força aos que, dentro da igreja, prometeram ser governados pela Disciplina, mas a violam deliberadamente. O pregador metodista livre que está muito pronto a governar, mas não a ser governado, encontra-se realmente em condição espiritual perigosa. A independência de que se gaba é forte evidência de falta de graça. Um dos traços dos que estão cheios do Espírito é a prontidão em sujeitar-se uns aos outros no temor de Deus.

569. Um substituto para o evangelho

Quando uma pessoa ou uma igreja começa a apostatar, muitas vezes não há ponto de parada até se chegar às profundezas da perdição. Enviaram-nos um panfleto bem impresso, de noventa e seis páginas, com o relato de uma “Assembleia” e de um “Acampamento” a realizar-se sob os auspícios de ministros da Igreja Metodista Episcopal. Entre as atrações do acampamento, mencionam-se “evangelistas cantores” que, além de conduzir a congregação, oferecerão solos e duetos, com acompanhamento de violão, piano ou órgão, que valeriam, várias vezes, um ingresso de concerto de cinquenta centavos. O acampamento será seguido imediatamente pela assembleia. Entre as celebridades presentes para edificar e entreter o povo está um “violinista notável”, um rabequista profissional, que “executará no seu versátil instrumento proezas que espantarão e deleitarão todos os ouvintes. É um virtuose do violino sem igual entre os violinistas da sua idade no país, e com poucos, se algum, superiores entre os artistas mais velhos.”

Precisam ser pecadores empedernidos, de fato, os que não puderem ser atraídos à igreja por tais cantos e rabecadas, com acompanhamento de violão, piano e órgão! Mas talvez já estejam na igreja — e essas variadas apresentações sejam providenciadas para lhes servir de substituto da alegria da salvação!

O espantoso, porém, é que os promotores desses entretenimentos se chamem metodistas! Sidney Smith, clérigo da Igreja da Inglaterra, escreveu deles há uns cinquenta ou sessenta anos:

“Os metodistas odeiam prazeres e divertimentos; nada de teatro, nada de cartas, nada de dança, nada de Polichinelo, nada de cães amestrados, nada de rabequistas cegos; todos os divertimentos dos ricos e dos pobres devem desaparecer onde quer que essa gente sombria ponha o pé. Não é o abuso do prazer que atacam, mas o entremeio do prazer, por mais resguardado que esteja pelo bom senso e pela moderação.” — Works, p. 44.

John Wesley, que eles reivindicam como fundador, diz: “Metodista é aquele que tem ‘o amor de Deus derramado no coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado’; aquele que ama o Senhor seu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e de todas as forças. Deus é a alegria do seu coração e o desejo da sua alma, que constantemente clama: ‘Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu tenha prazer na terra, a não ser em ti! Meu Deus e meu tudo! Tu és a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre!’ (Sl 73.25-26) É, portanto, feliz em Deus — sim, sempre feliz, por ter nele ‘uma fonte de água que jorra para a vida eterna’ (Jo 4.14), transbordando-lhe a alma de paz e alegria.” — Works, vol. 5, p. 241.

Eram fanáticos os primeiros metodistas? Ou são os metodistas modernos, elegantes e amantes de prazeres, mundanos enganados? Qual das duas coisas? São tão opostos entre si que é impossível que ambos estejam certos.

570. A obra superficial engana

Um modo seguro de enganar as pessoas é pôr o padrão da santidade cristã abaixo do padrão bíblico. Muitos o fazem; e, fazendo-o, persuadem grande número a professar santidade. Mas isso é trabalho perdido, para quem trabalha para a eternidade. Muitos “mestres de santidade” da Igreja Metodista Episcopal põem o padrão de santidade, em matéria de vestuário, mais baixo do que a sua Disciplina o põe para os que estão biblicamente despertados. A Disciplina deles ensina que o Espírito de Deus e a Palavra de Deus exigem mais renúncia de uma pessoa despertada do que esses “mestres de santidade” dizem exigir-se de quem está inteiramente santificado. É claro que ambos não podem estar certos. Se estamos convencidos de que certos mestres estão rebaixando perigosamente o padrão da santidade, devemos ter cuidado com o apoio ou o aval que lhes damos. Não devemos fazer obra superficial, nem pessoalmente, nem por meio de outros. Nossa obra será provada pelo fogo.

571. Simpatia

O êxito do pregador depende, em grande parte, da sua capacidade de pôr-se em simpatia com os ouvintes. Se não o faz, por maiores que sejam as verdades que proclama, e por mais habilmente que as apresente, repelirá em vez de atrair, afugentará em vez de aproximar.

Para pôr-se em simpatia com os ouvintes, o pregador deve ter por eles simpatia real. Tudo o que for fingido logo será descoberto. Amor gera amor. Aqueles por quem sentimos vivo interesse sentirão interesse por nós, e pelo que dizemos.

Essa simpatia deve manifestar-se nas nossas palavras e maneiras. Devemos colocar-nos em terreno comum com os ouvintes, tanto quanto possível. Em vez de ver em que discordamos, devemos ver até onde podemos concordar. Não deve haver acomodação, nem retenção de verdade impopular. A verdade deve ser proclamada sem medo — mas proclamada com amor. Quanto mais severa a verdade, mais terna deve ser a maneira.

Não deve haver nada do espírito de: “Escutem, rebeldes! Será que teremos de fazer sair água desta rocha para vocês?” (Nm 20.10)

Assim também, no trato pessoal, devemos ser ternos, mansos e compassivos; não reivindicando os nossos direitos, não provocando com as nossas maneiras. Antes, com o apóstolo, devemos poder dizer: “Pelo contrário, nos tornamos amáveis entre vocês, como a mãe que acaricia os próprios filhos.” (1Ts 2.7)

572. O poder da simpatia

Nos esforços para salvar almas, a simpatia vai mais longe que a severidade. A bondade porá mais gente de joelhos do que golpes duros. Cristo era movido de compaixão. Dizia coisas muito claras; mas as dizia de um coração transbordante de ternura. Suas palavras, ações, maneiras, o tom da sua voz, as suas falas comoventes mostravam que ele veio, não para destruir a vida dos homens, mas para salvá-la. Se você tem o Espírito dele, e o imita nessas coisas, atrairá os homens a si, em vez de afastá-los. As pessoas que vierem ouvi-lo pregar continuarão a vir. Você conservará a sua congregação. As coisas mais francas que Deus o levar a dizer serão recebidas, e aproveitarão aos ouvintes. Haverá em torno de você uma influência sutil, invisível, que fará com que os que se sentirem retalhados pelas suas palavras digam: “Pois é… mesmo assim, gosto dele.”

573. Simpatia prática

Há algo notável na disposição das palavras do último versículo do Salmo 126, como nas próprias palavras: “Aquele que sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.” (Sl 126.6) Nesse versículo, o chorar é o ato principal. Nós, pregadores, geralmente fazemos do levar a semente preciosa — expor a verdade — o ato principal. Damos mais peso à lógica do que à compaixão. Não será esta uma das razões por que a pregação não é mais eficaz? Se sentíssemos mais profundamente pelas almas daqueles a quem falamos, as nossas palavras alcançariam o coração deles em maior número de casos. Aquele que vai adiante do seu povo, esforçando-se

“com clamores, súplicas e lágrimas por salvar,
por arrancá-los de uma sepultura escancarada”,

nunca poderá ser de todo malsucedido. Alguns, ao menos, serão ganhos para Cristo.

574. O tato louvável

O tato de Paulo com os atenienses merece estudo e imitação. Seu domínio próprio era admirável. “O seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade.” (At 17.16) Mas ele não usou com eles a linguagem da denúncia. Nem sequer os chamou idólatras. Ao contrário, as suas palavras foram altamente elogiosas. Não disse que não tinham religião, mas: “Senhores atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são bastante religiosos.” (At 17.22) Pois a palavra traduzida por “supersticiosos”, na nossa versão comum, deve verter-se por “religiosos”. Vocês reverenciam todos os deuses que conhecem — e um que não conhecem. Os filósofos deles haviam acusado Paulo de ser “pregador de divindades estranhas”. Sem responder diretamente à acusação, ele diz: “Porque, passando e observando os objetos do culto de vocês, encontrei também um altar no qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois esse que vocês adoram sem conhecer é justamente aquele que eu lhes anuncio.” (At 17.23) Não fez acomodação, mas não provocou desnecessariamente os preconceitos deles. Pôs-se com eles numa plataforma comum e expôs-lhes algumas das grandes verdades que eles admitiam, dando-lhes ênfase. Eram uma classe difícil de trabalhar — os presunçosos sempre o são —, mas ele fez alguns convertidos.

575. Os talentos devem ser empregados

Se pertencemos a Deus, todos os nossos talentos pertencem a Deus. Isso vale para um tipo de talento tanto quanto para outro. Todos, igualmente, devem ser empregados na promoção do Reino de Deus. O homem que tem talento para ganhar dinheiro deve ganhar dinheiro para Deus, assim como o que tem talento para pregar deve pregar para Deus. Um lavrador, ou um professor, deve ser tão inteiramente consagrado quanto um pregador. Um não pode reter parte do que pertence a Deus, quando ele o pede, mais do que o outro. A santidade do evangelho deve ser levada a toda ocupação da vida. Todo trabalho se torna vocação santa quando é exercido por motivos santos e com mãos santas. Os diferentes departamentos do serviço de Deus jamais devem entrar em conflito uns com os outros. Todos são membros de um só corpo. “Os olhos não podem dizer às mãos: ‘Não precisamos de vocês.’ Nem a cabeça pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês.’” (1Co 12.21)

576. A docilidade, marca da verdadeira conversão

O desejo de aprender é uma das marcas da verdadeira conversão. Discípulo é aprendiz — é esse o sentido da palavra. Quando alguém chega ao ponto de não poder mais aprender — quando cresceu tanto que ninguém pode ensiná-lo —, deixou a escola de Cristo. Estabeleceu-se por conta própria. E Cristo também o deixou. Ele manifesta um espírito de intolerância, de impaciência diante da contradição, totalmente incompatível com o espírito de Cristo. Falta-lhe aquela caridade sem a qual a salvação é impossível. Está inchado com o sentimento da própria importância; e, quem quer que se lhe oponha, ele presume que se opõe a Deus. O douto professor universitário é estudante aplicado; e quem de fato mais conhece as coisas divinas é o mais ávido por aprendê-las. O “discípulo amado”, que tinha mais do espírito de Cristo, chegava-se o mais perto de Cristo, para que nenhuma palavra lhe escapasse. “Você já viu um homem que se acha sábio? Há mais esperança para o insensato do que para ele.” (Pv 26.12)

Extratos 577–589 · Tentação, testemunho, gratidão e o tabaco+

577. Precisão no ensino

No ensino religioso, evite toda distinção de fio de cabelo. Alguns fazem diferença entre ser justificado pela fé e por meio da fé. Não há base para tal distinção. A mesma palavra grega é traduzida no Novo Testamento, em muitos lugares, por “por” e, em muitos outros, por “por meio de”. Devemos buscar a precisão no nosso ensino; mas devemos ter cuidado para não fazer distinções que a Bíblia não faz. Um espírito criticador não ajuda as almas como o faz um espírito terno e amoroso. Alguém pode falar errado e querer dizer o certo: Deus o entende e o toma pela intenção. Os escritores inspirados não descem a sutilezas e definições teológicas. Fazemos bem em imitá-los, evitando cuidadosamente os meros tecnicismos. O principal é ministrar o Espírito.

578. O domínio do temperamento

Uma medida da nossa força é o nosso poder de resistência. Um navio de madeira pode disparar balas tão pesadas quanto um encouraçado; mas não tem chance de êxito num combate contra ele, pois as balas que o encouraçado facilmente repele penetram as suas entranhas e o mandam ao fundo. Alguém pode falar com eloquência; mas, se não consegue dominar os apetites ou o temperamento, se cede a ressentimentos mesquinhos, cai facilmente como presa do inimigo. A carreira de alguns dos pregadores mais dotados que já conhecemos foi curta — e terminou em ignomínia e desgraça, por lhes faltar o poder de resistir ao mal. Os dons jamais podem tomar o lugar da graça. E nenhuma igreja, por mais pura, pode suprir de graça os seus membros. Pode mostrar-lhes a falta; mas, para obtê-la, eles mesmos devem vir a Deus.

579. O temperamento sem governo

Alguns homens jamais ocuparão a posição para a qual estariam, de resto, capacitados, por negligenciarem o governo do seu temperamento. Em vez de dominarem o seu espírito, o espírito os domina. Dois dos nossos maiores estadistas poderiam ter sido, um após o outro, presidentes dos Estados Unidos, não fosse uma infeliz briga entre eles. Começou, dizem, por assunto de absolutamente nenhuma importância — a crítica a uma palavra. Muita gente deve o fracasso a um gênio de vespa, formado pela indulgência em réplicas e observações ferinas. Seja qual for a índole natural de alguém, ele pode fortalecê-la, modificá-la ou mudá-la por completo, com o esforço adequado. Assim como a educação aproxima os homens quanto à capacidade, assim o faz a graça quanto à índole. Nenhum filho de Deus deveria jamais ser rabugento ou irritadiço. “Melhor é o que tarda em irar-se do que o valente; e o que domina o seu espírito, do que o que conquista uma cidade.” (Pv 16.32)

580. A tentação exige decisão

É um erro concluir que, por ter cedido à tentação depois de vir sinceramente a Deus e ser abençoado, você foi enganado e não recebeu o que pensou ter recebido. Seu erro foi supor que o Espírito o levaria na direção certa sem nenhuma volição da sua parte. Ele nunca faz isso. Quando vem a tentação, ele o inclina a tomar a decisão certa; mas você não pode deixar de tomá-la, da sua parte. Não permita que alguma vontade mais forte o subjugue — ela só pode, com o seu consentimento. Você pode dar corda num relógio, e ele funcionará bem até a corda acabar. Mas você não pode dar corda em si mesmo desse modo. Terá de dar-se ao trabalho de decidir certo, e de agir certo, em cada caso particular que se apresentar. Isso pode parecer-lhe trabalhoso; mas é o único modo possível de viver a religião. Torna-se fácil quando você vê a necessidade e se decide a fazê-lo. Prossiga com constância e, dia a dia, “desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13).

581. A graça será provada

Graça genuína é graça provada. Foi imediatamente depois de Jesus ter sido milagrosa e publicamente reconhecido por Deus que ele foi levado ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4.1). Mas Cristo não concluiu que se enganara ao pensar que Deus lhe falara, só porque o diabo era tão ousado e insistente nas suas sugestões. O discípulo não está acima do seu Mestre. Assim, se você é abençoado por Deus, pode ter por certo que será tentado pelo diabo. Mas não se alarme. Quando vier a tentação, Deus, “juntamente com a tentação, dará também o livramento, de modo que vocês possam suportá-la” (1Co 10.13). Mas, quando esse caminho se abrir diante de você, entre nele sem demora, com passo firme e decidido. O caminho é providenciado por outro; o caminhar nele é feito por nós. Passo a passo, no caminho estreito, se alcança a vida eterna; golpe a golpe se trava a batalha contra os poderes das trevas, e se ganha a vitória final. Esperamos que todos os nossos leitores sejam grandemente abençoados nos acampamentos; mas ainda precisarão vigiar e orar, para não entrarem em tentação.

582. Fique longe da tentação

Um inseto alado voou para dentro da manga do nosso lampião, que não estava totalmente abaixada — mas a abertura parecia bem pequena. Ainda assim, achou o caminho para dentro e, embora extremamente incomodado pelo calor, não conseguia achar a saída. Tiramo-lo dali o mais depressa possível; mas era tarde demais. O pobrezinho estrebuchou e morreu. Os seres humanos agem de modo semelhante com o pecado. Deus o pôs quase fora do seu alcance. Deu-lhes uma consciência que se levanta contra ele. Cercou-os de tal modo com providências de graça que é preciso esforço especial para chegar até ele. Mas eles forçaram passagem por todas as barreiras e chegaram tão perto das chamas do inferno que chamuscaram as asas; e, se pela infinita misericórdia escapam da morte, é para rastejar onde antes subiam com asas como águias (Is 40.31).

Mantenha-se o mais longe possível da tentação.

583. O testemunho, um meio de salvação

O testemunho é um meio ordenado por Deus para a salvação de almas. Na sua última mensagem aos discípulos antes da ascensão, Cristo disse: “Serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra.” (At 1.8) Depois da ascensão, Cristo disse a Saulo de Tarso: “Eu apareci a você para torná-lo ministro e testemunha, tanto das coisas em que você me viu como daquelas pelas quais aparecerei ainda a você.” (At 26.16) Então, para gravar em nós ainda mais fortemente a importância do testemunho no avanço da obra de Deus, somos apresentados à multidão glorificada e informados do segredo da sua carreira vitoriosa: “Eles venceram o acusador por meio do sangue do Cordeiro e por meio da palavra do testemunho que deram.” (Ap 12.11)

Testemunho é a declaração de um fato de que temos conhecimento pessoal. Quando cai em desuso numa igreja, é porque o pregador, ou o povo — ou, como acontece muitas vezes, ambos — perderam a experiência da graça salvadora. Isto é, apostataram. É preciso muito mais graça para testemunhar com honestidade do que para pregar com honestidade. Um homem pode pregar o que crê ser verdade, e ter ajuda para fazê-lo, embora não viva à altura da própria pregação. Mas não pode testemunhar que possui a graça salvadora, a menos que esteja sob a influência dela. Pregadores que nunca nasceram do Espírito podem pregar poderosos sermões doutrinários e práticos, mas não podem dar um testemunho como o que Paulo deu diante de Agripa e Festo. Para dar testemunho de modo que seja crido e sentido, é preciso estar cheio do Espírito de Deus.

584. Necessita-se de testemunho cheio do Espírito Santo

Se houvesse mais testemunho cheio do Espírito Santo nas nossas reuniões, a obra avançaria melhor. Os que testemunham seriam abençoados e fortalecidos, e os que ouvem seriam convencidos e encorajados. Grande parte da obra feita nos avivamentos se faz por meio do testemunho.

Benjamin Pomeroy relata o caso de um velho conferencista incrédulo que assistiu a um poderoso avivamento ocorrido sob os seus labores. “Estas foram as exatas palavras que ele proferiu: ‘A pregação daquele homem eu aguento; tenho argumentos para enfrentá-lo; mas estes meninos eu não aguento.’ Aqui chorou visivelmente e, com a voz embargada, continuou: ‘Quando eu era menino, orava como estes, e sentia o que eles sentem; mas agora—’ Aqui parou de repente, causando comoção na casa, pois ninguém suspeitava que ele algum dia tivesse orado.”

Preguemos de modo a gerar no povo um espírito de testemunho; e não sejamos tão longos nos nossos exercícios que não sobre tempo para o testemunho.

585. Gratidão para com os outros

Acrescentaria muito à nossa própria felicidade expressar livremente aos nossos semelhantes a gratidão pelos favores que nos fazem. Mesmo quando não tiramos benefício real de um ato de bondade feito em nosso favor, se houve disposição de nos servir, devemos sentir gratidão — e expressá-la livremente. Seria bênção para nós e encorajamento para os outros. Conhecemos casos em que artigos valiosos e úteis foram dados a um pregador, não como salário, mas como presentes, sem que ele fizesse o menor reconhecimento. Os doadores bem-intencionados não sabiam dizer se ele ficara satisfeito ou ofendido. Não admira que tais pregadores sejam mal cuidados e deixem os seus circuitos endividados. Quando você sentir gratidão por alguém, expresse-a — não num “obrigado” frio, formal e polido, mas num caloroso e sincero “eu lhe agradeço”, ou expressão parecida. Polidez fria é uma coisa; afeição verdadeira, outra bem diferente. “Sejam agradecidos.” (Cl 3.15)

586. Ações de graças

Paulo nos manda apresentar os nossos pedidos a Deus com ações de graças (Fp 4.6). As velas do navio custam pouco em comparação com o resto da embarcação; mas são de grande importância para um veleiro. Um navio pode estar com o leme apontado para Liverpool, mas dificilmente chegará lá se as velas não forem desfraldadas. Assim, as ações de graças dão asas às nossas orações e as impelem até o trono de Deus. Um espírito devoto é um espírito grato. Note como os Salmos estão cheios de expressões de louvor a Deus. Nas piores calamidades ainda há algo por que agradecer. O pai de John e Charles Wesley, vendo a casa pastoral e todos os seus bens terrenos arderem, estava cheio de gratidão porque a esposa e todos os filhos haviam sido salvos. Cultivemos um espírito grato. “De dia o SENHOR mostra o seu amor, e de noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida.” (Sl 42.8)

587. O bom uso do tempo

“Isto, porém, lhes digo, irmãos: o tempo se abrevia.” (1Co 7.29) Isso é verdade quanto à vida mais longa: ela logo se vai. Mas é longa o bastante, se bem aproveitada, para nos permitir fazer todos os preparativos necessários para a eternidade. Contudo, muitos, quando instados a cuidar dos interesses da alma, dizem que “não têm tempo para essas coisas”. Assim, o mais importante cede lugar ao menos importante. Dá-se preferência ao temporário sobre o eterno.

“Quem não tem tempo para chorar não tem tempo para emendar-se.
A eternidade chora por isso. É mau remédio,
para os piores males da vida, não ter tempo de senti-los.
Onde a tristeza é tida por intrusa e posta para fora,
ali não entrará a sabedoria, nem o poder verdadeiro,
nem coisa alguma que dignifique a humanidade.”

Tome tempo para ler a sua Bíblia, para orar, para meditar, para pôr e manter o coração em ordem com Deus. Esses interesses mundanos a que você dá tanto pensamento e atenção só lhe dirão respeito por pouco tempo. Preocupe-se principalmente com o bem-estar da sua alma. Cuide para não sair deste mundo como andarilho sem lar, para achar morada eterna com os espíritos perdidos na perdição.

588. O tabaco

Que o uso habitual do tabaco mina gradualmente a constituição física, não há a menor dúvida. Muitos são mortos por ele na flor da vida. Os que o usam com mais moderação, e vivem mais, envelhecem prematuramente.

Leitor, deixe o tabaco em paz. Se você já é escravo dele, não o seja mais. Fuja pela sua vida. Os fugitivos de todo tipo de pecado estão seguros na Canaã do Amor Perfeito. Arranque as suas cadeias e aceite a liberdade que Cristo lhe oferece.

Não há imundícia no céu.

589. O tabaco: um destruidor

O tabaco vence os vencedores de homens. Não é derrotado por estratégia, nem morto pela espada. A artilharia mais pesada não faz mossa nas muralhas do tabaco. Não é derrubado pela diplomacia, nem os seus estragos se aplacam com concessões. É o maior inimigo dos seus maiores amigos, e trata os seus fregueses, obscuros ou eminentes, com a máxima barbaridade.

Diz o irmão G. W. Clark: “Esse destruidor imundo não faz distinção entre altos, baixos, ricos ou pobres. Entre as suas vítimas vencidas e mortas estão homens como o senador Carpenter, o senador Hill, o general McClellan, o general Sheridan e o general Grant; e o amável e promissor ‘Fritz’, imperador da Alemanha. Que perda séria para a Alemanha, onde tanto se esperava do seu reinado! Esses homens capazes poderiam estar hoje na mais robusta saúde, em atividade, gozando vida ativa e sadia, não fosse a indulgência inútil na erva venenosa e perniciosa.”

Não basta que a igreja aprove resoluções contra o tabaco. Não se deve permitir que ele faça o seu ninho sujo na igreja cristã.

Se você nunca o tocou, deixe-o em paz. Se é escravo dele, afirme a sua liberdade em Cristo, e não se submeta mais à sua imunda servidão.

Que a nicotina do tabaco é veneno virulento, ninguém disputa. Faz estragos terríveis no sistema nervoso. Homens de temperamento fleumático podem usá-lo por muito tempo com aparente impunidade; mas homens dotados, ativos e brilhantes, se começam a usá-lo, logo são subjugados.

Aquele firme reformador, G. W. Clark, diz ainda: “Meu vizinho de porta morreu subitamente de paralisia do tabaco. Um jovem de Nova York, de apenas trinta anos, há pouco vítima do charuto, foi acometido de paralisia do tabaco e, depois de lutar terrível e desesperadamente por vários dias e noites, morreu da morte mais lastimável. Os amigos e seis médicos fizeram tudo o que podiam para salvá-lo, mas em vão.”

Extratos 590–602 · A língua, os tesouros e a unção divina+

590. O incômodo do tabaco

O incômodo do tabaco é quase intolerável. Deveria erguer-se contra ele um clamor geral. Hospede-se num hotel, e será sorte conseguir um quarto aonde não chegue a fumaça de tabaco dos corredores. Embarque num navio, e o cheiro nauseante o encontra a cada volta. Ande pelas ruas da cidade, e não há como evitar respirar ar viciado pelo tabaco. Tome assento no trem, e verá o chão emporcalhado pelos mascadores de fumo. Tome um vagão-leito, e a passagem de ferro está cheia de fumantes; o ar imundo e venenoso é levado pelo vagão, e, se você fica ali, é obrigado a respirá-lo. Nós nos recusamos a tomar tais vagões-leito; e, se todos os que não usam tabaco fizessem o mesmo, a reforma logo se efetuaria. Seja o estorvo banido da sociedade decente.

591. Os usuários de tabaco

Devemos, em todas as nossas congregações, fazer cumprir as nossas regras contra o uso do tabaco. Não queremos um só usuário de tabaco na Igreja Metodista Livre. Por mais que concorde conosco em outros pontos, se não quiser purificar-se dessa “impureza da carne” (2Co 7.1), não deve ter lugar entre nós. Não temos sala de fumar na nossa igreja. Se alguém insiste em contaminar com os vapores do tabaco o ar em que se move, uma igreja limpa não é lugar para ele.

O uso generalizado do tabaco ameaça grande dano ao nosso país. O diretor médico da nossa Academia Naval, em Annapolis, dr. Gibon, diz no seu relatório de 1881: “O assunto mais importante na história de saúde dos estudantes é o relativo ao tabaco, e a sua interdição é absolutamente essencial à sua saúde e utilidade futuras. Nesta opinião tenho sido apoiado pelos meus colegas e por todos os sanitaristas da vida civil e militar cujos pareceres pude obter.”

592. A língua empregada por Satanás

Satanás é o acusador dos irmãos (Ap 12.10). Ganha o título pela obra em que está constantemente ocupado, dia e noite. Nessa obra emprega todas as suas forças — os recrutas novos e os soldados veteranos. Os que se ocupam dessa obra podem pertencer à igreja, mas não pertencem a Cristo. Os inimigos mais perigosos são os que agitam a bandeira e vestem o uniforme de amigos.

O salmista dá como marca infalível de quem viverá no céu: “o que não calunia com a sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho” (Sl 15.3). Veja em que classe Paulo coloca os que difamam os outros: “cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo e malícia; são difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos” (Rm 1.29-30).

E Tiago diz: “Se alguém pensa que é religioso, mas não refreia a sua língua, e engana o seu coração, a sua religião é vã.” (Tg 1.26) Ele não fala dos de fora, mas dos que professam ser cristãos.

Leitor, você refreia a sua língua?

593. O governo da língua

Você já considerou a importância que a Bíblia atribui ao governo da língua? O Salvador diz que o único pecado para o qual não há perdão, nem neste mundo nem no vindouro, é um pecado cometido pela língua. E ainda: “Mas eu lhes digo que de toda palavra inútil que os homens disserem terão de dar conta no Dia do Juízo.” (Mt 12.36) Cada palavra falsa e injuriosa acrescentará à condenação. O salmista diz, de quem há de morar no santo monte de Deus — isto é, ir para o céu —, que “não calunia com a sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho” (Sl 15.3). Como anda você a esse respeito? Você fere a reputação alheia pelas costas? Quando alguém lhe traz uma injúria contra o seu próximo, você a toma e a leva ao seguinte? “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito também para refrear todo o corpo.” (Tg 3.2)

594. A língua deve ser dominada

Não podemos manter boa experiência cristã sem cuidado com as nossas palavras. Uma língua desenfreada logo levará o seu dono para além das influências dirigentes do Espírito de Deus. As palavras têm peso: moldam o destino. O salmista e o Salvador concordam em que a nossa sorte pende das nossas palavras. Quem há de morar no santo monte de Deus é o que fala a verdade no seu coração — o que não calunia com a língua, nem lança injúria contra o próximo. E o Salvador diz que o único pecado que jamais tem perdão, nem neste mundo nem no vindouro, é o cometido pela língua (Mt 12.32).

Tiago compara a língua ao pequeno leme com que se governam os grandes navios; e diz: “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito também para refrear todo o corpo.” (Tg 3.2) Deus ouve todas as nossas palavras. Nenhum pedido de segredo pode impedi-las de chegar ao seu ouvido. Ficam registradas em caracteres imperecíveis no seu livro de memórias. Atentemos, pois, para as nossas palavras.

595. Transes, quedas etc. nem sempre vêm de Deus

Transes, quedas, visões, revelações podem ser de Deus; mas podem ser do diabo. Do fato de a experiência de alguém ter sido boa, e a sua vida correta, não se segue que tudo de sobrenatural que nele se manifeste venha de Deus. Há muitas vias pelas quais Satanás pode entrar no coração de quem foi verdadeiramente chamado por Deus. Entrou no coração de Judas pela cobiça. Hoje entra em alguns pela mesma porta; em outros, pelo orgulho da aparência; em outros, pelo orgulho espiritual. Satanás sussurra a uma pessoa ignorante que, se ela apenas se entregar a um impulso cego, se tornará útil e famosa; e, se ela dá ouvidos à sugestão, um demônio do abismo entra pela porta aberta e começa as suas operações. Os desvios do caminho reto, em quem está assim possuído, podem ser a princípio tão leves que os mais espirituais mal ousam insinuar o receio de que ele esteja errando. Ele é operado de modo tão maravilhoso, e no essencial está tão perto do certo, que muitos sinceros são desencaminhados e se tornam seus partidários. Assim que se assegura um séquito, a máscara vai caindo aos poucos, e passam a praticar-se, e a defender-se, coisas em conflito direto com o ensino claro da Palavra de Deus. O estranho, em tais casos, é que os que começaram a segui-lo com toda a honestidade continuam e o seguem nos seus caminhos tortuosos. Por fim, são levados com os que praticam a iniquidade. “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas provem os espíritos para ver se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora.” (1Jo 4.1)

596. Assegure o tipo certo de tesouros

O contraste que Cristo estabelece entre ajuntar tesouros na terra e tesouros no céu mostra que há incompatibilidade entre eles. Não se pode fazer os dois ao mesmo tempo. É preciso escolher deliberadamente qual dos dois fazer. “Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24) Grandes tesouros terrenos tornam difícil o morrer. O cardeal Mazarino havia adquirido grandes riquezas; mas disse, ao chegar a hora da morte, olhando em volta para as magníficas obras de arte que com tanto trabalho colecionara: “Tudo isso terá de ficar para trás!” E, virando-se, acrescentou: “E aquilo também! Que trabalho tive para obter todas estas coisas! Nunca mais as verei, para onde vou!”

Os tesouros terrenos, por mais prezados, terão de ficar para trás! As obras de caridade e beneficência, feitas por amor a Cristo, seguem a pessoa para o mundo eterno. “Não acumulem para vocês tesouros sobre a terra… mas acumulem para vocês tesouros no céu.” (Mt 6.19-20)

597. Homens provados são mais confiáveis

Quando a porta da salvação foi aberta aos gentios, foi por meio de Cornélio, homem devoto e de caráter irrepreensível. Deus usa muitas vezes, para levar avante a sua obra, homens que foram notoriamente perversos e dissolutos, mas se converteram de verdade. Contudo, não nos lembramos de um só caso de tal pessoa usada para inaugurar alguma grande obra. Estão sujeitos demais a cair; e, em muitos casos, ensoberbecem-se com o próprio êxito, perdem do coração a graça de Deus e recaem nos pecados escandalosos a que antes eram dados. Ocorrem-nos muitos casos assim. Convém a todos nós, se queremos perseverar na graça de Deus, cuidar de ter a caridade que não se ensoberbece. Se há uma falha numa ferramenta de aço, não convém dar-lhe uso pesado demais; se uma árvore se quebrou quando nova, ainda que a ferida cicatrize por completo, pode ceder no antigo ponto de quebra, sob um vendaval forte — ou até quando carregada de fruto precioso. Se alguém que foi notoriamente perverso é notavelmente usado na salvação de outros, não o promova depressa demais, nem o exponha sem necessidade à tentação.

Andemos diante do Senhor em toda humildade. “Escutem-me, vocês que seguem a justiça, os que buscam o SENHOR. Olhem para a rocha de que foram cortados e para a pedreira de que foram cavados.” (Is 51.1)

598. Na tribulação, clame a Deus

Aprenda a ir ao Senhor com todas as suas tribulações. Ele é o Senhor Todo-Poderoso. Tem poder sobre o mundo físico e sobre o mundo dos espíritos. As leis da natureza são leis dele. Os corações de todos os homens estão na sua mão. Nenhuma coalizão de demônios e homens pode formar-se contra você que ele não possa desfazer.

Ele nos encoraja a vir a ele, em todo tempo, em busca de socorro. “Este pobre gritou, e o SENHOR o ouviu, e o livrou de todas as suas tribulações.” (Sl 34.6) Se isso tivesse sido dito do rei, você poderia dizer: “Não sou rei.” Mas é este pobre — um mortal comum, bem embaixo na escala social. Não se diz que ele compôs ou leu uma oração: ele gritou. O mais iletrado sabe gritar. É dom que todos possuem. Deus se move, não por repetições de belas palavras, mas pelo fervor profundo e pela sinceridade do coração.

O homem não foi apenas tornado melhor por vir a Deus: a sua oração foi respondida. Não foi alívio temporário, nem livramento parcial, o que ele achou; o Senhor o livrou de todas as suas tribulações.

Quando em apuros, muitas vezes ajuda, para sair, considerar com franqueza como entramos. Foi por culpa nossa? Veio em consequência dos nossos pecados, ou da nossa imprudência? Se a causa está em nós, a primeira coisa a fazer é removê-la, tanto quanto possível, humilhar-nos diante de Deus e implorar o seu perdão. Se a causa não pode ser removida, podemos pedir a Deus que mitigue os males e dê graça para suportá-los. Quando Paulo orou pela remoção do espinho na carne, veio a resposta: “A minha graça é suficiente para você.” (2Co 12.9) Um elefante carrega com facilidade o que esmagaria um cavalo. Deus pode multiplicar de tal modo as nossas forças que suportemos em triunfo o que antes nos teria levado ao desespero. Não devemos pôr limites ao seu poder. Ele tem meios de operar livramento em que não pensamos. Há um item importante na educação do cristão que somos lentos demais em aprender: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.” (Rm 8.28)

599. Veracidade

Um sinal de crescimento na graça é o amor crescente à verdade. Quanto mais perto chegamos do Senhor, mais sensível se torna a consciência quanto a causar impressão falsa na mente dos outros. Uma pessoa verdadeiramente santificada não pode permitir-se nenhuma declaração inexata, tergiversação ou exagero. Jeremy Taylor, nas suas Regras do Viver Santo, é bem específico: “Não minta de modo algum, nem em coisa pequena nem em grande, nem na substância nem na circunstância, nem em palavra nem em ação; isto é, não finja o que é falso, não encubra o que é verdadeiro; e seja a medida da sua afirmação ou negação o entendimento daquele com quem você trata; pois quem engana o comprador ou o vendedor, dizendo o que é verdadeiro num sentido não pretendido nem entendido pelo outro, é mentiroso e ladrão. Pois, nos negócios, deve-se evitar não só o que é falso, mas também o que engana.”

600. O espírito sem caridade

Um espírito sem caridade destrói a unidade do Espírito. Permitir que um espírito de malícia, inveja ou ciúme tenha a mínima influência sobre nós, a ponto de controlar em qualquer grau as nossas palavras ou ações, nos separará imediatamente dos que vivem no Espírito. Podemos não saber o que temos; podemos achar que não temos nada; mas sentimos que algo se interpôs entre nós e os nossos irmãos. Foi-se a comunhão. Já não nos importamos de ir às reuniões de comunhão. A pregação não nos soa como antes. Perdemos o gosto pela leitura da Bíblia. Entrou a disposição de dar a tudo a pior interpretação, e a unidade do Espírito está destruída. Judas separou-se dos discípulos assim que permitiu que Satanás lhe entrasse no coração. Cuidado, pois, com dar lugar a um espírito sem caridade. Se você continuar a ceder a ele, ele o levará, por fim, à perdição.

601. A necessidade da unção divina

A unção divina é mais essencial ao êxito do pregador do que qualquer outra coisa — ou do que todas as outras juntas. Nem talento, nem erudição, nem bela oratória, nem tudo isso combinado pode tomar o seu lugar. Ela atrai congregação nas circunstâncias mais adversas. Já vimos rapazes crus, desajeitados nas maneiras, atraírem multidões numa grande cidade — multidões que não conseguiram atrair quando se tornaram pregadores capazes e distintos, mas haviam perdido boa parte da unção. Já vimos pessoas mais comovidas com a leitura de um hino feita com unção do que com um sermão poderoso, cuidadosamente preparado, sem ela. Não subestimamos a vantagem do estudo; mas não podemos superestimar a importância, para o pregador, da unção que vem do Santo (1Jo 2.20).

602. A unção, necessária à frutificação

A falta de umidade priva de fertilidade os solos mais ricos. Em vão se lavra em boa ordem e se planta na estação certa, se o solo permanece seco e ressequido. Assim, a falta de unção torna estéril de todo bom resultado o sermão mais convincente. Um discurso pode estar cheio das sementes da verdade; mas, se elas não forem regadas, jamais darão fruto. Foi o sentimento profundo que acompanhava as exortações de Paulo que as tornava tão poderosas. “Não deixei de advertir, com lágrimas, noite e dia, a cada um”, diz ele (At 20.31). Tais advertências são sempre eficazes, quando as lágrimas são expressão genuína de sentimento real. Mas a simpatia fingida repugna e repele. O que todos precisamos, para alcançar os outros, é do amor constrangedor de Cristo. Quem é impelido por ele não corre o risco de ir depressa demais nem longe demais. As secas naturais estão fora do nosso alcance; mas as secas espirituais podemos evitá-las. “É tempo de buscar o SENHOR, até que ele venha e faça chover a justiça sobre vocês.” (Os 10.12)

Extratos 603–614 · União, veracidade e a vitória sobre si mesmo+

603. Na união está a força

A dissensão é fraqueza — na união está a força. Jônatas era valente; mas, para derrotar os filisteus, precisava do seu escudeiro consigo (1Sm 14.6-7). Cristo deu a cada um dos doze poder de fazer milagres; mas os enviou de dois em dois. A maior congregação, dividida e brigando, é fraca, e não tem força para salvar almas; a menor, unida em confiança e amor, é poderosa para assaltar e tomar, em santo triunfo, as próprias cidadelas do inferno.

No dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos, unânimes, no mesmo lugar (At 2.1). Se cento e vinte pudessem estar hoje assim unidos, em abandono de si mesmos, esperando com mente disposta e coração expectante o batismo do Espírito Santo, seguir-se-iam resultados poderosos. Uma bateria elétrica é potente na proporção do número de células unidas: assim também as baterias espirituais. Cento e vinte corações humanos, pulsando de amor a Deus e amor aos homens, esperando juntos o batismo do Espírito Santo, fariam descer descargas capazes de sacudir a maior cidade.

604. Cultos em conjunto nem sempre desejáveis

Há certas propostas de unidade cristã que precisam ser tratadas com grande cautela. Alguns dos membros mais zelosos de outras igrejas, que sempre se mantiveram afastados de nós e nunca deixaram de usar a sua influência contra nós, de repente, quando Deus está derramando o seu Espírito entre nós e convertendo pecadores, mostram-se extraordinariamente amistosos. Vêm às nossas reuniões, vão ao altar trabalhar com os penitentes e contribuem com a sua parte para fazer uma “reunião barulhenta” — que em outro lugar condenam. A pregação mais incisiva parecem apreciar e endossar. Recebem acolhida cordial e ficam à vontade; mas, terminado o avivamento, mostram que tudo o que fizeram foi com o propósito de mais facilmente levar embora os convertidos respeitáveis e influentes, e fazê-los unir-se à sua igreja. Conseguido isso, nunca mais se aproximam de nós, até que se apresente nova oportunidade de fazer o mesmo. Por tais meios, os frutos de avivamentos extensos, que o nosso povo trabalhou duro para promover, ficaram quase totalmente perdidos para a nossa igreja. Não o deploraríamos, se os convertidos assim levados permanecessem fiéis às suas convicções e “firmes na liberdade com que Cristo os libertou” (Gl 5.1). Mas não permanecem. As cadeias de seda da moda vão-se prendendo neles aos poucos, e tornam-se meros professos mundanos; ou vendam-lhes os olhos e os conduzem à loja secreta, e assim de novo se enredam com o jugo da escravidão. Em vez de promover a obra de Deus, ajudam a edificar uma igreja formal e mundana, que engana as almas para a sua ruína eterna. E eles próprios correm perigo maior de condenação eterna do que quando estavam no mundo, porque descansam numa falsa segurança.

Pode parecer quase indelicado não aceitar os serviços oferecidos pelos que vêm trabalhar com você num avivamento; mas, se ficaram longe até a sua reunião se tornar um êxito decidido, é melhor passar sem eles. Esteja certo: vieram ajudá-lo a celebrar a vitória apenas para recolher os despojos. Não terão escrúpulos quanto à partilha — tomarão tudo o que puderem. Podem clamar por união, mas querem dizer absorção. Podem acalmá-lo com a língua, mas é para engoli-lo com mais facilidade.

Nossa obra é tão diferente da que hoje fazem as igrejas populares que as almas honestas que realmente desejam promovê-la se unirão a nós. Evitemos toda aliança que enreda.

605. A unidade de esforço é essencial

Para levar avante com êxito a obra de Deus em qualquer comunidade, os que se ocupam da sua promoção devem estar unidos. A Bíblia dá grande ênfase a isso. Cristo enviou os discípulos de dois em dois. “Em verdade também lhes digo que, se dois de vocês, na terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus.” (Mt 18.19) A unidade na fé e no esforço é essencial para alcançar qualquer grande resultado. Os que estão unidos a Cristo devem cuidar de estar unidos uns aos outros. Guerrilheiros, por mais ousados, nunca conquistam uma fortaleza nem subjugam um país. Diferem dos ladrões principalmente por subsistirem saqueando os inimigos que encontram indefesos. O sistema guerrilheiro de guerra cristã não edifica igrejas, não estabelece escolas, não planta missões, faz poucos convertidos do mundo, se algum. Busca a presa nas igrejas. Homens tão voluntariosos que não conseguem trabalhar com ninguém não conseguem trabalhar com Cristo. Não ajuntam com ele: espalham.

606. Exorta-se à unidade de espírito

“Tenham o mesmo sentimento uns para com os outros.” (Rm 12.16) Tenha tal amor pela causa de Cristo que se alegre em alistar quantos puder para a sua promoção. Não se pode, por muito tempo, viver a religião sozinho. Antes de ir longe no caminho de Sião, você persuadirá outros a ir com você. O cristianismo é social por natureza. Seus devotos instintivamente se ajuntam. O apóstolo os compara ao corpo: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele.” (1Co 12.26) Se um membro do corpo se desordena a ponto de não cumprir a sua parte para o bem-estar geral, seguem-se desordem e aflição geral. Portanto, faça tudo o que puder para manter a unidade do Espírito. Suporte censura imerecida, em vez de causar divisão e começar uma briga. Devolva resposta branda a palavras insultuosas. “Finalmente, sejam todos unânimes, compassivos, tenham amor fraternal, sejam misericordiosos e humildes. Não paguem o mal com o mal, nem injúria com injúria; pelo contrário, bendigam.” (1Pe 3.8-9)

607. Homens irracionais

Impressiona-nos muito o pedido de Paulo aos irmãos, de que orassem por ele para que fosse “livre dos homens perversos e maus” (2Ts 3.2). Deve ter sofrido muito com eles. Ele os põe na classe dos homens maus. Um homem irracional dentro da igreja pode atrapalhar a obra de Deus mais do que um homem mau fora dela.

Se o grande apóstolo desejava tanto ser livre deles, então um pregador comum deve ser perdoado por não querer cair nas suas mãos. Nenhum pregador consegue satisfazê-los. Fazem confusão aonde quer que vão. Quanto mais talento, zelo e piedade tiverem, mais capazes são de arruinar uma congregação. Podem neutralizar os melhores esforços do pregador mais capaz. Irmão, você é irracional? O remédio é o amor humilde; pois aos mansos Deus guia no juízo (Sl 25.9).

608. Os não salvos, às vezes empregados por Deus

Algumas pessoas servem de andaime para o andar de baixo do templo do Senhor e, à medida que o edifício sobe, são postas de lado. Se fossem material melhor, entrariam na construção. Mas são tão toscas e de veio tão retorcido que nem podem ser aplainadas — muito menos polidas.

Deus usa muitas vezes homens egoístas, voluntariosos, cobiçosos e presunçosos para abrir caminho à sua obra. Dá-lhes mais uma oportunidade de se acertarem; e, se não a aproveitam, deixa-os entregues a si mesmos. Como os carpinteiros de Noé, ajudam a construir para a salvação dos outros, enquanto eles próprios não são salvos. Leitor, você é dessa classe? Peça a Deus que o ajude; pois, se ele não ajudar, você não estará disposto a reconhecê-lo, caso seja.

609. Não salvo: por que adiar?

Se você não é salvo, e não quer morrer sem salvação, por que permanece sem salvação um único dia? O que está esperando? Uma oportunidade mais favorável? “Eis agora o tempo sobremodo oportuno.” (2Co 6.2) Que alguém ore por você? “Vive sempre para interceder por eles.” Você está incluído. Há mais eficácia na intercessão dele do que nas orações de todos os santos. “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus.” (Hb 7.25) Assim, tudo o que você precisa fazer é vir. Venha como está. Venha confessando e abandonando os seus pecados. Venha renunciando ao mundo — às suas ambições, prazeres e honras. Venha, acima de tudo, renunciando a si mesmo — a toda pretensão sobre si mesmo, a toda confiança na sua moralidade — e lance-se, com toda a energia do desespero, sobre a misericórdia de Deus em Cristo Jesus. Venha crendo que ele é galardoador dos que o buscam (Hb 11.6) — e que você recebe o que deseja quando ora (Mc 11.24) —, e os braços do amor infinito o abraçarão: você será salvo.

610. Veracidade

A veracidade é uma das virtudes cardeais. O cristianismo exige dos seus adeptos suprema lealdade à verdade. O único caso em que os apóstolos usaram os seus poderes miraculosos para dano de alguém foi quando um homem e a sua mulher caíram mortos por mentir (At 5.1-11). “Quanto a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre.” (Ap 21.8) Isso inclui os mentirosos religiosos, os mentirosos na igreja, os mentirosos no púlpito. Temos ficado chocados ao ver alguns que professam o mais alto estado de graça mostrarem-se incapazes de expor corretamente algo de que discordam. Quando isso se dá ao relatar o que se ouviu, pode haver alguma desculpa; mas que desculpa pode haver quando se tem diante de si uma declaração escrita ou impressa? Cuidemos de ter a verdade no íntimo (Sl 51.6). É isso que Deus deseja.

611. A vida vitoriosa traz morte triunfante

Se você quer morrer uma morte triunfante, precisa ter vitória na vida. Quem vence o diabo, e o pecado em todas as suas formas, nada tem a temer da morte.

John Knox teve vida tempestuosa. Mas nunca se acovardou diante de todos os terrores que o papado podia infligir. Nunca transigiu com os princípios. “Poucos homens estiveram expostos a mais perigos, ou passaram por tais durezas.” Foi preso; foi banido; viveu vários anos como proscrito; mas morreu em paz, no sexagésimo sétimo ano de idade.

Quando viu que chegara o seu fim, mandou fazer o caixão. Orou: “Vem, Senhor Jesus. Nas tuas mãos entrego o meu espírito. Sê misericordioso, Senhor, com a tua igreja, que resgataste. Dá paz a esta nação aflita. Levanta pastores fiéis que cuidem da tua igreja. Concede-nos, Senhor, o ódio perfeito ao pecado, pela evidência tanto da tua ira como da tua misericórdia.”

Aos amigos junto ao leito exclamou, arrebatado: “Estive, nestas duas últimas noites, meditando no estado atribulado da igreja de Deus, a esposa de Jesus Cristo, desprezada do mundo, mas preciosa aos olhos de Deus. Clamei a Deus por ela e a entreguei à sua cabeça, Jesus Cristo. Lutei contra a maldade espiritual nas regiões celestiais, e prevaleci. Estive no céu e tenho posse. Provei das alegrias celestiais onde em breve estarei.”

Morreu sem agonia. Ao ser baixado à sepultura, disse o regente:

“Aqui jaz aquele que nunca temeu o rosto de homem algum.”

612. A vitória sobre si mesmo

Se você quer lutar, lute contra si mesmo. De que lhe servirão as vitórias sobre os outros? Só acrescentarão ao seu orgulho — isto é, à probabilidade da sua condenação eterna. Mas uma vitória completa sobre si mesmo trará paz presente e felicidade eterna. Você pode pensar que o combate será curto; mas, na maioria dos casos, será prolongado. O “velho homem” custa a morrer. Somos inclinados demais a subestimar a força e a persistência das forças que se nos opõem.

Antes de pegar em armas contra os seus irmãos, que não pensam em todos os assuntos como você acha que deveriam, subjugue o seu próprio orgulho de opinião, o seu amor à admiração e o seu egoísmo. Isso terá grande tendência a torná-lo pacífico para com os outros.

“Melhor é o que tarda em irar-se do que o valente; e o que domina o seu espírito, do que o que conquista uma cidade.” (Pv 16.32)

613. Espere no Senhor nas circunstâncias apertadas

Se você está em circunstâncias apertadas e precisa de ajuda, é bem provável que o diabo se adiante a Deus e lhe ofereça a sua assistência. Assim fez com o nosso Salvador. Quando ele teve fome, o diabo lhe disse: “Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães.” (Mt 4.3) Isto é: “Busque de modo miraculoso a ajuda que pode facilmente obter de modo racional.” Não é essa a ordem de Deus. Ele exige que vamos tão longe quanto pudermos — e então está pronto a intervir com o seu poder. Devemos arar e plantar, e Deus mandará o sol e a chuva. Devemos dar o exemplo devido e a instrução certa, e Deus mandará o poder vivificante do seu Espírito. A ajuda dele pode demorar; mas chega quando alcançamos a extremidade. Recuse a assistência do diabo, e Deus proverá.

614. A necessidade de andar na luz

Para conservar a bênção de Deus sobre a alma, devemos andar na luz. E a luz nunca muda: o que era luz é luz. Podemos receber luz adicional, mas ela só confirma a convicção de que fizemos bem em andar na luz que Deus antes nos deu. Quem é verdadeiramente santificado a Deus nunca se arrepende de, no comecinho da vida cristã, ter-se arrependido a fundo e produzido frutos dignos de arrependimento. Quem, ao construir, lança um bom alicerce, segue adiante; mas não desce do telhado ao porão para derrubar a parede sobre a qual o edifício descansa. Assim, quem edifica um verdadeiro caráter cristão não toma de volta o que deu a Deus. Fazê-lo é ir para trás, não para a frente; é derrubar, não edificar.

É espantosa a mudança que se opera na aparência física de alguém quando olha para trás e começa a retroceder (Lc 9.62). Vai-se a luz dos olhos, a glória divina do semblante, a elasticidade do passo e o timbre vibrante da voz. Fica sombrio e taciturno, ou leviano e frívolo, severo ou indulgente demais — ou tudo isso alternadamente. Torna-se instável e incoerente, e ninguém sabe para onde irá à deriva; mas há grande perigo de que vagueie para sempre na negridão das trevas. Ó amados, andem enquanto têm a luz, para que as trevas não caiam sobre vocês (Jo 12.35).

Extratos 615–627 · Advertências, sabedoria, as mulheres e a Palavra+

615. Peregrinações no deserto

A jornada dos israelitas do Egito à terra prometida durou quarenta anos. Não havia necessidade disso: poderia ter sido feita em poucas semanas. As peregrinações no deserto poderiam ter sido evitadas. Assim, não há necessidade de que um cristão leve quarenta anos, ou um ano, para chegar à Canaã do amor perfeito —

“terra de trigo, vinho e azeite,
favorecida com o sorriso peculiar de Deus,
abençoada com toda bênção.”

Muitas das batalhas que o cristão comum tem de travar, e das dificuldades que tem de enfrentar, são resultado direto da desobediência e da incredulidade. Cruzes sempre haverá, e fardos a carregar; mas, para uma alma decidida, que confia em Deus, são fáceis de levar. Amado, abandone as suas peregrinações entregando-se inteiramente a Deus. Reivindique as grandíssimas e preciosas promessas que lhe foram dadas para torná-lo participante da natureza divina (2Pe 1.4). Cumpra as condições. Renda-se por completo a toda a vontade de Deus. Faça todas as confissões que Deus pedir. Lance-se sobre o sangue expiador, e creia para a salvação da sua alma de todo pecado arraigado.

616. Todo homem deve ser advertido

Ninguém pode tornar-se verdadeiramente religioso sem que a religião tenha um começo na sua alma. A Bíblia diz: “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria.” (Sl 111.10) Muito da religião de hoje é puramente sentimental, porque não tem fundamento: não descansa no temor de Deus. A pregação popular de hoje põe toda a ênfase no amor de Deus. O New York Sun, jornal bem informado, diz:

“Toda a doutrina do castigo eterno tornou-se impopular entre os protestantes nos últimos anos. Já não se prega como antigamente. As congregações refinadas e polidas consideram grosseiro e rústico o clérigo que troveja as advertências com que todo sermão de outrora costumava terminar. ‘Inferno’ e ‘condenação’ são palavras que exigem expurgar do vocabulário do púlpito.”

É o resultado natural de encher as igrejas de membros não convertidos. Os que não fugiram, eles próprios, da condenação do inferno não gostam de ouvir palavras de advertência. Mas o homem de Deus ouve uma voz dentro de si, dizendo: “Filho do homem, eu o constituí atalaia sobre a casa de Israel. Você ouvirá a palavra da minha boca e os avisará da minha parte.” (Ez 3.17) E ele obedece.

617. Advertências fiéis

João Batista pregou que os homens fugissem da ira vindoura (Mt 3.7). Dois terços das advertências feitas aos homens, no Novo Testamento, para escaparem do inferno, foram proferidas pelo Salvador. Paulo disse que pregava “advertindo a todos” (Cl 1.28).

618. É necessária sabedoria, além de zelo

Para assegurar o êxito, não basta que a nossa causa seja boa e os nossos motivos, puros. Devemos agir sabiamente, se queremos vencer. Houve tempo em que os protestantes da França eram porção grande e influente da população. Ganhavam terreno rapidamente e prometiam em breve alcançar a preponderância. Mas alguns movimentos imprudentes levaram à sua derrocada; e, desde então, o protestantismo nunca mais conseguiu recuperar um ponto de apoio naquela bela terra. Seus princípios eram certos, mas a sua política era errada. Uma boa causa pode ser facilmente derrotada pelas medidas imprudentes dos seus amigos.

Alguns cristãos verdadeiros dão atenção de menos à ordem de Cristo: “Sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas.” (Mt 10.16) Muitos parecem pensar que basta ser simples. Dão pouca ou nenhuma importância à injunção de ser prudente. Uma vez assentado que certo curso de ação é justo, devemos considerar seriamente a pergunta: “É sábio?” Não é tanto por falta de zelo, mas por falta de sabedoria, que a causa de Deus faz entre nós progresso comparativamente tão lento. Precisamos orar mais por sabedoria, e pôr em exercício ativo todo o juízo e toda a graça que temos ou pudermos obter. Muitos, porque o alvo que visam é bom, não querem ver que o caminho que estão tomando derrotará esse alvo.

“Mas a sabedoria lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento.” (Tg 3.17)

619. A sabedoria é indispensável

Embora a graça efetue uma revolução perfeita no caráter moral, a inclinação da índole natural ainda se vê quando a obra da graça se cumpre. O amável João torna-se o discípulo do amor; o impetuoso Pedro, o pregador destemido do Pentecostes; o zeloso perseguidor Saulo torna-se o infatigável apóstolo Paulo, que leva o evangelho até os confins do mundo então conhecido.

Quem quer trabalhar pelas almas deve aprender a trabalhar na linha da índole natural. Para rachar lenha em estacas, é preciso seguir o veio do tronco. Para polir madeira, é preciso trabalhar a favor do veio; ou, se for preciso atravessá-lo, ter ferramentas afiadas e tirar pouco de cada vez.

Em suma: tenha um homem pouca ou muita instrução, se quer ganhar almas, precisa ter sabedoria. Isso é indispensável. Precisa saber onde golpear. É o golpe bem dirigido que produz efeito. “O que ganha almas é sábio.” (Pv 11.30)

620. A verdadeira sabedoria

Os homens que consulto com mais frequência, e em cujas opiniões deposito a maior confiança, não são homens de letras. Sabem pouco de livros; nunca tiveram grandes vantagens de escolas ou de sociedade. Mas são seguidores mansos e humildes de Jesus. E Deus diz: “Aos mansos guiará no juízo.” (Sl 25.9) São homens de oração.

Pode-se ter grande soma de erudição e pouca sabedoria; e pode-se ter muita sabedoria e pouca erudição. Se a pessoa só tiver uma das duas, é de preferir a sabedoria celestial. Pode ter ambas. Só não cometa o erro de supor que essa sabedoria se obtém dos livros. Não se obtém. Livros e escolas não têm com ela nenhuma conexão necessária. Se você quer sabedoria prática para guiá-lo em assuntos importantes, deve vir buscá-la diretamente de Deus. Sua consagração à vontade de Deus deve ser completa. Não deve haver dúvidas nem hesitações. “Todo aquele que pede [desse modo] recebe.” (Mt 7.8)

621. Sábios aos próprios olhos

Deus promete salvar-nos da insensatez; mas, se persistimos na insensatez, ele não promete salvar-nos das consequências dela. Se não sabemos nadar e entramos em água acima da cabeça, devemos esperar afogar-nos. Se olhássemos mais para o Senhor em busca de direção, não teríamos de clamar tanto a ele por socorro. Temos viagem dura porque tomamos a estrada errada. Se uma mulher se casa com um homem dado à bebida, terá de suportar os maus-tratos de um bêbado. “Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito! Ai dos que são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte! Ai dos que absolvem o culpado por suborno e negam justiça ao inocente! Por isso, como a língua de fogo consome o restolho, e a erva seca se desfaz pela chama, assim a raiz deles será como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porque rejeitaram a lei do SENHOR dos Exércitos e desprezaram a palavra do Santo de Israel.” (Is 5.21-24)

622. A mulher elevada pelo evangelho

Em todas as nações onde o Deus verdadeiro não é conhecido nem adorado, a mulher é degradada. Em geral, está em estado de servidão. Muitas vezes, os direitos concedidos a um escravo homem são negados à mulher nascida livre.

O cristianismo concede a ela os mesmos direitos que concede ao homem. Mas muitos homens custam a enxergá-lo. O “velho homem” adora bancar o tirano. O “novo homem”, não: está pronto a ser servo de todos. A medida do amor que os maridos cristãos devem ter pelas esposas é a que Cristo manifestou pela sua igreja quando se entregou por ela (Ef 5.25). Esse amor puro e profundo tornará qualquer marido atencioso com a esposa, e cuidadoso em promover a piedade e a felicidade dela. Não permitirá que homem algum tiranize a sua mulher.

623. Mulheres: obreiras fervorosas do evangelho

“Peço também a você, meu fiel companheiro, que ajude essas mulheres, pois elas lutaram ao meu lado no evangelho.” (Fp 4.3) A palavra aqui traduzida por “lutaram” merece atenção particular. No original é synéthlesan. Da última parte dessa palavra vem o nosso termo atletismo. Denota o mais alto grau de esforço; atleta é quem tem grande força e resistência e, quando a ocasião pede, emprega toda a sua força e habilidade.

Havia, pois, mulheres que combatiam lado a lado com o grande apóstolo no conflito contra os poderes das trevas, e que suportavam durezas como boas soldadas de Jesus Cristo.

O evangelho exaltou a mulher; e ela, por sua vez, esteve desde o princípio pronta a fazer, aguentar e sofrer pelo evangelho.

“Não foi ela quem feriu o Salvador com beijo de traidor,
não foi ela quem o negou com língua profana;
ela, enquanto os apóstolos recuavam, sabia afrontar o perigo:
a última junto à cruz, a primeira junto ao túmulo.”

Embora as igrejas geralmente admitam que, sob a dispensação do evangelho, “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre” (Gl 3.28), ainda insistem, na distribuição das posições na igreja, em que há “homem e mulher”. Alguns dos que abraçam o evangelho levam muito tempo para entender o evangelho.

624. A meditação na Palavra de Deus

Um homem pode estar morrendo de fome com uma vaca por perto, de úbere cheio de alimento. Mas, se quer o alimento, precisa ordenhá-la. Assim, muita alma passa fome enquanto a Palavra de Deus está cheia de alimento substancial. Mas, para obtê-lo, é preciso sentar-se e, com estudo paciente, extraí-lo. Para tirar proveito de palavras — mesmo das palavras de Deus —, devemos descer até os pensamentos que as palavras pretendem transmitir. Devemos pôr a mente nas Escrituras, e então acharemos nelas sabedoria e força. Disse o salmista: “Os meus olhos se antecipam às vigílias da noite, para meditar na tua palavra.” (Sl 119.148) O homem bom descrito no primeiro Salmo é o que medita na lei de Deus de dia e de noite (Sl 1.2). O apóstolo Paulo, escrevendo a um jovem ministro, ordena-lhe: “Medite estas coisas e dedique-se a elas, para que o seu progresso seja evidente a todos.” (1Tm 4.15) E Pedro instrui os novos convertidos: “Como crianças recém-nascidas, desejem ardentemente o genuíno leite espiritual, para que, por meio dele, cresçam para a salvação.” (1Pe 2.2)

Em nenhuma outra epístola Paulo fala com mais repreensão aos destinatários do que na epístola aos Coríntios. Mas começa com palavras de louvor. Mostra que não está de mau humor com eles, mas tão pronto a elogiar as suas boas qualidades quanto a repreender as suas faltas. Que pode haver de mais conciliador do que esta linguagem: “Sempre dou graças ao meu Deus por vocês, por causa da graça de Deus que lhes foi dada em Cristo Jesus. Porque em tudo vocês foram enriquecidos nele, em toda palavra e em todo conhecimento.” (1Co 1.4-5) Assim ele se prepara para falar das faltas deles do modo mais brando possível, e os impede de nutrir a suspeita de que está com preconceito contra eles e por isso subestima a sua piedade.

Quanta alienação e quanto ressentimento se evitariam se, ao repreender os outros, tomássemos caminho semelhante! Quanto mais bem produzem as repreensões quando caem sobre corações amolecidos pela bondade, do que quando são disparadas contra corações endurecidos por modos ásperos e palavras cruéis!

625. Palavras descuidadas

Por uma palavra descuidada, uma alma pode perder-se. Por uma negligência do dever, alguma alma preciosa pode achar-se à esquerda no Dia do Juízo.

626. Palavras puras

As palavras dos puros são palavras agradáveis (Pv 15.26). Não são palavras impuras; não são gírias. O pregador que usa gíria no púlpito, ou em particular, dá evidência inconfundível de falta de graça. Se algum dia foi santificado, perdeu a bênção. Pode ser ministro ordenado; mas é um desviado. Se vivesse em Canaã, falaria a língua de Canaã. Se andasse com Deus, usaria as palavras de Deus. “Toda palavra de Deus é pura.” (Pv 30.5)

Se um ministro, quando está com os ímpios, adota a linguagem deles e conta piadas grosseiras, ou ri delas, e usa gírias, é porque no coração é um deles. Deve correr ao Senhor e obter perdão, e ter toda vaidade e vileza tiradas do coração; ou deve parar de pregar. Não tem o que fazer no púlpito. Não deveria entrar nele de novo na sua condição atual. Deveria clamar ao Senhor: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros.” Deveria esperar no Senhor até que uma brasa viva do altar lhe fosse posta na boca, e se dissesse: “Eis que ela tocou os seus lábios; a sua iniquidade foi tirada, e o seu pecado, perdoado.” (Is 6.5,7)

627. Exige-se trabalho constante

Nenhum grau de piedade ou de gênio pode tomar o lugar do trabalho árduo. O aspirante bem-sucedido à coroa da vida é o que faz do serviço do Senhor o seu ofício. Ninguém sabe o que pode realizar até se pôr firmemente a trabalhar por algum objetivo digno.

Luís XIV subiu ao trono da França ainda menino. Ao crescer, aplicou-se aos negócios. Mais tarde escreveu sobre esse período inicial da sua história: “Impus a mim mesmo, como lei, trabalhar regularmente duas vezes por dia. Não sei dizer o fruto que colhi logo depois dessa resolução. Senti-me elevar, por assim dizer, tanto na mente como na coragem; achei-me outro ser; descobri em mim o que eu não imaginava, e me repreendi com alegria por tê-lo ignorado por tanto tempo. Então me dei conta de que era rei, e de que nascera para sê-lo.” Tornou-se o maior monarca do seu tempo.

Assente-se em trabalho constante em Deus, e você ganhará por fim a coroa da vida.

Extratos 628–641 · Obras, recompensas e o zelo verdadeiro+

628. Desenvolva os seus próprios obreiros

Você quer ajuda no seu circuito? Não mande buscar ninguém fora antes de ver que obreiros podem ser desenvolvidos entre os seus próprios membros. Ponha-os em treinamento. Ponha-os a trabalhar. Chame-os; promova-os. Se não estão em condição espiritual de trabalhar, descobri-lo-ão, ao tentar trabalhar, muito mais depressa do que por qualquer quantidade de pregação e exortação. Leve-os a ser abençoados até o ponto de ebulição, e você se espantará com o talento que se manifestará em certos homens e mulheres tímidos, retraídos e sem letras.

“No ar parado, a música jaz sem ser ouvida;
no mármore bruto, a beleza jaz sem ser vista.”

Dê ao “ar parado” o movimento próprio, e que música arrebatadora você ouvirá! Tire as lascas supérfluas do “mármore bruto”, e que bela estátua se ergue para a admiração da humanidade! Você tem os materiais e as ferramentas; mostre-se “obreiro que não tem de que se envergonhar” (2Tm 2.15), formando pessoas que façam bom trabalho para Deus. Elas o pagarão abundantemente, com a sua ajuda, por todo o esforço que você tiver tido com elas. Você precisará de bem pouca assistência além dessa.

629. As obras

Muitos parecem pensar que, se ganharem o céu, tudo está ganho. É grande engano. Todos no céu são felizes; mas há graus de felicidade no céu. As fazendas de Illinois são todas boas e desejáveis, mas algumas são melhores que outras. Assim, qualquer morada no céu merece ser buscada; mas, quanto mais ardentemente nos esforçarmos, mais alto será o nosso assento na glória. Paulo o declara explicitamente: “Um é o esplendor do sol, outro o esplendor da lua, e outro o esplendor das estrelas; porque até uma estrela difere de outra estrela em esplendor. Assim também é a ressurreição dos mortos.” (1Co 15.41-42) Isto é: há grande diferença no esplendor das estrelas; haverá diferença correspondente na glória dos homens no seu estado eterno. E essa diferença depende das suas obras. Por isso o apóstolo conclui esse capítulo maravilhoso com a exortação: “Portanto, meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é em vão.” (1Co 15.58) Podemos trabalhar para os homens e perder o pagamento; mas, por tudo o que fazemos para o Senhor, receberemos gloriosa recompensa. “Quem lhes der de beber um copo de água, por serem vocês de Cristo, em verdade lhes digo que de modo nenhum perderá a sua recompensa.” (Mc 9.41) O mínimo que fizermos por Cristo valerá, no fim, mais do que o máximo que possamos fazer para assegurar vantagens mundanas.

Fazemos bem em ponderar seriamente as palavras graves de Cristo: “Eis que venho sem demora, e comigo está a recompensa que tenho para dar a cada um segundo as suas obras.” (Ap 22.12)

630. As obras recompensadas

Os homens são recompensados pelos seus semelhantes conforme a sua posição; e muitas vezes acontece que quem faz mais trabalho recebe menos pagamento. Mas não é assim com os que trabalham para Cristo. Estes não recebem aqui a sua recompensa. Nem são pagos, na eternidade, na proporção dos seus talentos, ou dos cargos que ocuparam, mas na proporção do trabalho honesto e árduo que fizeram por Cristo. Muitos que agora são os menores serão então os maiores. “E quem quiser ser o primeiro entre vocês será servo de todos.” (Mc 10.44)

Você crê nesta doutrina — que os homens são recompensados por Cristo segundo as suas obras? Se crê, então trabalhará. Não vai querer ir para onde há menos que fazer. Não estará buscando posição cômoda. Será zeloso. Procurará pôr na causa de Cristo todo o tempo, todo o talento, todos os bens que puder. Não procurará impor a outros os deveres que cabem a você. Encherá cada dia de utilidade.

631. Obras e recompensas

Vinte e cinco anos atrás, julgava-se que ele corria perigo de morrer em breve de tísica. Era cristão dedicado. Buscou direção no Senhor e foi conduzido ao Oeste distante, onde o ar é seco e o sol aparece quase todos os dias do ano. Pela bênção de Deus recuperou a saúde, prosperou nos negócios e enriqueceu. Os filhos se estabeleceram ao seu redor, bem providos quanto às coisas deste mundo. Meses atrás, morreu em paz e, confiamos, foi para o céu. Mas não temos dúvida de que a sua morte teria sido mais triunfante, e a sua eternidade mais feliz, se ele tivesse lembrado a causa de Deus no seu testamento. Toda a sua grande propriedade, porém, foi para os filhos, que já tinham o bastante e cujas afeições parecem postas no mundo. Cometeu grande erro — e, o que é pior, um erro que não pode ser corrigido.

Por que as palavras de Cristo não são mais geralmente cridas? Por que os que professam ser cristãos não agem como se cressem nelas? “Eis que venho sem demora, e comigo está a recompensa que tenho para dar a cada um segundo as suas obras.” Leitor, você está fazendo obra que Cristo recompensará?

632. Escrever para o público: verifique os fatos

Não escreva se não tiver algo a dizer. Se se propõe a ensinar os outros, tenha entendimento claro do assunto sobre o qual escreve. Verifique os fatos. Em viagens, já me indicaram tantas vezes o caminho errado que agora, quando abordo alguém em busca de informação, pergunto primeiro se ele conhece o caminho para o lugar que menciono. Descubro que muita gente está pronta a indicar o caminho de um lugar que ela mesma não conhece. Assim é no escrever. Muitos se adiantam a lançar luz sobre assunto a respeito do qual estão em trevas. No melhor dos casos, o seu conhecimento é extremamente superficial. Esses devem estudar o assunto antes de escrever.

633. Escrever para o público: seja franco e viril

Verdade é verdade, não importa quem a diga ou escreva. Mas a força que ela carrega depende não só da maneira de apresentá-la, mas do caráter de quem a apresenta. Por isso, quando se pede a um auditório que ouça um desconhecido, informa-se quem ele é. Ele não tenta falar disfarçado. O mesmo princípio deve valer no escrever para o público. Como regra, não se deve escrever aquilo por que se tem medo, ou vergonha, de responder. Isso vale especialmente para toda crítica a indivíduos ou associações. Se você se sente chamado a atacar alguém, faça-o de modo aberto e viril. Dê-lhe chance de defesa. Não atire no escuro. E não perca o seu tempo enviando-nos artigos sem o seu nome. Ainda que nem sempre os publiquemos, precisamos ter o nome de quem escreve.

634. Escrever para o público: não seja contencioso

Diz o apóstolo: “Evite discussões tolas… contendas e debates acerca da lei, porque não têm nenhuma utilidade e são fúteis.” (Tt 3.9) Estamos muito desejosos de obedecer a este mandamento. Ele nos chega com autoridade divina. Nossa própria paz, e a prosperidade da igreja, estão intimamente ligadas à sua observância. Desprezá-lo trará consequências desastrosas.

Mas não vemos como cumpri-lo sem assistência, divina e humana. Pedimos devotamente a Deus ajuda para seguir esta instrução. E rogamos humildemente aos nossos correspondentes que nos ajudem neste assunto importante. Se eles insistirem em levantar “discussões tolas” e em manter “contendas e debates acerca da lei”, como poderemos evitá-los? Assim, depois de aprovar a sua colaboração para o Free Methodist quanto ao caráter literário, examine-a criticamente quanto ao caráter moral; e, se verificar que ela cai numa das categorias acima, por favor, não a envie. Ainda que seja verdadeira e bem escrita, se você conhece a decisão de um apóstolo de que é “sem utilidade e fútil”, por que haveria de querer vê-la publicada?

635. Escrever para o público: sugestões gerais

Quando escrever para publicação, use papel branco, tinta preta e boa pena. Traços fracos de lápis em papel colorido leem-se com dificuldade.

Não escreva com pressa. Cuide de usar palavras que exprimam o seu pensamento. Se citar a Bíblia, ou qualquer autor, para provar uma afirmação, cite corretamente e dê a referência, para que as suas citações possam ser verificadas.

Se contestar o que outrem escreveu, esforce-se por entendê-lo antes de escrever uma palavra de resposta. Dê ao que ele escreve a melhor interpretação que a linguagem dele permitir. Se reproduzir o que ele escreveu, reproduza nas palavras dele. Impor a sua própria interpretação à linguagem de outro, e depois afirmar que ele escreveu o que você diz que ele quis dizer, não é honesto; não é justo. Fazê-lo de propósito é pecado: é dar “falso testemunho contra o seu próximo”. Se houvesse mais candura, haveria menos controvérsia. Evite toda pessoalidade ofensiva. Não use epítetos injuriosos. Sejam conciliadores o seu espírito e o seu tom. No escrever, como em tudo o mais: “Sigam a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Hb 12.14)

Se o seu artigo não sair no próximo número do jornal, não se exalte, nem tire conclusões precipitadas. Espere. Tenha paciência. No devido tempo, talvez apareça. Mas, se não aparecer, suporte-o.

636. Espírito que sabe ceder

Um espírito melindroso, que não suporta crítica nem contradição, não é o Espírito de Cristo. Todos estamos sujeitos a erros. Ninguém é perfeito em conhecimento, nem em juízo. Mas o maior erro que qualquer homem, moço ou velho, pode cometer é presumir, ou agir na presunção, de que é infalível. Suponha que alguém discorde de você. Isso não é prova conclusiva — nem sequer é sempre indício — de que ele esteja errado. Se for pai ou mãe, ou alguém cujos meios de informação sobre o assunto sejam muito melhores que os seus, a presunção provavelmente estará do lado contrário. Antes de dizer ou fazer algo precipitado, é melhor examinar o terreno e ver se não é ele que tem razão, e você que está errado. Admita mentalmente a possibilidade, desde o início. Se descobrir que está errado, tenha a franqueza de confessá-lo. Renunciar à nossa vontade e às nossas opiniões, quando devemos, é valiosíssimo meio de graça. Ao princípio devemos guardar lealdade inabalável: por consideração nenhuma devemos desviar-nos, no mínimo que seja, da pureza do evangelho. Mas, quando surgem questões de meios e medidas, devemos estar prontos a ceder as nossas opiniões ao juízo de outros que estão tão interessados quanto nós — e alguns dos quais, ao menos, são tão competentes quanto nós para dar parecer sensato no assunto.

637. Zelo intemperante

Nosso zelo pela causa de Deus deve ser sempre posto sob suspeita quando toma a forma de zelo contra um indivíduo. Devemos cuidar para que o nosso ódio à heresia não brote de um espírito de inveja ou ciúme para com o suspeito de heresia. Não que às vezes não se torne nosso dever chamar transgressores a contas. Mas isso deve ser feito sempre com espírito de mansidão e de genuína compaixão para com a parte acusada. Devemos estar sempre prontos a receber explicações. Diz sabiamente Whitehead: “O zelo imoderado deve ser sempre suspeitado, especialmente quando aparece na adoção de medidas que tendem a prejudicar ou arruinar um indivíduo. Uma causa má, originada do ódio ou da malícia, será quase sempre conduzida com zelo mais intemperante e medidas mais ousadas do que a consciência de agir certo jamais produzirá. A busca de qualquer objetivo, quando governada pelas paixões, é sempre mais violenta do que quando dirigida pela razão e pela verdade.”

638. Zelo temperado pela graça

Jeú era cheio de zelo, mas não do tipo certo. Estava mais pronto a matar do que a orar. Era implacável com uma forma de idolatria, enquanto a praticava sob outra forma. Matou à espada os adoradores de Baal, mas ele próprio adorava os bezerros de ouro. “Mas Jeú não teve o cuidado de andar de todo o coração na lei do SENHOR, Deus de Israel, e não se apartou dos pecados que Jeroboão fizera Israel cometer.” (2Rs 10.31) Contudo, gabava-se da sua piedade. A um dos servos de Deus disse: “Venha comigo e veja o meu zelo pelo SENHOR.” (2Rs 10.16) Devemos ter cuidado para não servir a Jesus com o zelo de Jeú. Nosso zelo intransigente pela verdade deve proceder da graça, e não da fibra. Podemos conduzir depressa, mas não furiosamente. Devemos dizer a verdade; mas em amor. Não devemos praticar, em substância, o que condenamos nos outros. Devemos ser firmes, mas bondosos.

639. O zelo deve nascer da união com Cristo

Nenhuma quantidade de zelo por qualquer reforma, por mais necessária, pode tomar o lugar da união pessoal com Cristo. Façamos o que fizermos, se queremos ganhar o céu, devemos ter o Espírito de Cristo. Jeú foi soldado valente, reformador radical. Executou fielmente os juízos do Senhor contra a casa perversa de Acabe; contudo, falhou em andar diante de Deus com coração íntegro.

Devemos cuidar de não ser reformadores dessa espécie. Devemos nós mesmos seguir as regras de vida santa que prescrevemos aos outros.

640. Zelo: não por opiniões, mas por Cristo

A indiferença na causa de Deus é perigosa. A mornidão é condenatória. Um quase cristão está totalmente fora de Cristo. Devemos estar cheios de fé e amor, e cheios de zelo ardente pela causa de Cristo. Mas devemos cuidar para que o nosso zelo não seja pelas nossas opiniões, e sim por Cristo e pela salvação de almas. Diz o dr. Stephen Olin: “Indivíduos, e às vezes igrejas, são zelosos por ninharias, ou até por coisas daninhas. Há zelo por Deus, mas não com entendimento (Rm 10.2). Isso não condena os altos graus de zelo, mas o seu desvio. Quanto mais conhecermos as coisas divinas, mais zelosos seremos. Os judeus tinham zelo, não pela verdade, mas pela sua seita. Os homens são muitas vezes zelosos pela seita, especialmente pelas peculiaridades — por ninharias que passam a encher a mente. É natural ser zeloso por noções falsas de religião; e quem toma uma noção, uma cerimônia, por cristianismo, precisa inchá-la a dimensões monstruosas para satisfazer a própria mente. Quanto mais trivial a noção, maior a necessidade de zelo. O zelo verdadeiro busca fins benevolentes por meios lícitos — do contrário, é fanatismo. Busca fins práticos por meios sábios — do contrário, é exaltação.”

641. Zelo devidamente equilibrado

Não podemos, com o nosso zelo por uma classe de Escrituras, compensar a negligência de outras Escrituras de igual importância. Foi esta a falta dos fariseus. Davam grande peso às coisas pequenas. Tinham o cuidado de dizimar tudo o que colhiam, até as hortaliças do quintal. Eram extremamente escrupulosos quanto ao vestuário. Mas davam pouca atenção ao que a Bíblia diz sobre ter afeições retas para com Deus e ser governado por princípios retos nas relações com o próximo. Cristo os louvou por isso? Ao contrário: derramou sobre eles as mais fortes denúncias. “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Porque vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezam os preceitos mais importantes da Lei.” (Mt 23.23)

Tradução com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello · Texto original de 1912, em domínio público · Citações bíblicas na NAA

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