“O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos.”Apocalipse 11.15 · NAA
Introdução
Apocalipse 11 dá sequência ao interlúdio do capítulo 10, entre a sexta e a sétima trombetas. Como o capítulo 7 entre os selos, ele volta a atenção para o povo de Deus — a sua missão, o seu sofrimento e a sua vitória.
O texto apresenta um santuário que é medido, duas testemunhas que profetizam, uma besta que as persegue, a aparente derrota do testemunho cristão e, enfim, a ressurreição e a vindicação. É uma passagem profundamente simbólica. Aliás, já no início do livro João diz que Deus “deu a conhecer” a revelação por meio do seu anjo — o verbo traz a ideia de comunicar por sinais (Ap 1.1). Por isso não se deve interpretar cada elemento de forma automaticamente literal: a Escritura interpreta a Escritura, e as figuras do Apocalipse têm o seu pano de fundo na Lei, nos Profetas, nos Salmos e nos Evangelhos.
Apocalipse 11.1-2
João recebe um caniço e a ordem de medir o santuário de Deus, o altar e os que nele adoram (Ap 11.1).
No Novo Testamento, o templo de Deus não é primeiramente um edifício de pedras, mas o povo em quem Deus habita pelo Espírito: a Igreja é santuário de Deus (1Co 3.16-17), o corpo do cristão é santuário do Espírito (1Co 6.19), e os crentes são edificados como morada de Deus (Ef 2.21-22; 1Pe 2.5). Na Nova Jerusalém não há templo material, porque o Senhor e o Cordeiro são o seu santuário (Ap 21.22). Assim, o santuário medido representa a Igreja — a comunidade da presença de Deus, edificada sobre Cristo. Medir o altar e os adoradores significa que Deus conhece, delimita, guarda e reivindica os que lhe pertencem (Ap 1.6; 5.9-10).
Medir é pertencer e ser protegido — mas não é isenção do sofrimento. Nas Escrituras, medir indica posse e preservação (Ez 40—42; Ap 21.15-17). Ainda assim, o próprio capítulo mostra que as testemunhas serão perseguidas e mortas: a proteção prometida é, sobretudo, a preservação do povo de Deus para cumprir a missão e permanecer fiel (Mt 28.18-20; Hb 13.5). A besta pode ferir o corpo, mas não arranca os santos das mãos de Deus (Rm 8.35-39). Por isso o átrio exterior não é medido: entregue às nações, que pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses (Ap 11.2) — distinguindo a preservação espiritual da Igreja da sua vulnerabilidade física (Mt 10.28). Os quarenta e dois meses são os 1.260 dias das testemunhas: três anos e meio, “tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7.25; Ap 12.14) — a metade de sete, um período real, porém limitado e incompleto. Deus fixa os limites da perseguição.
Apocalipse 11.3-4
As duas testemunhas não precisam ser dois personagens individuais que voltarão fisicamente à terra: o texto usa símbolos para descrever a Igreja em sua missão profética.
Jesus já dissera que João Batista era o “Elias que havia de vir” — não em pessoa, mas cumprindo a missão profética (Mt 11.13-14; 17.10-13). E, na transfiguração, Moisés e Elias aparecem como a Lei e os Profetas, testemunhando de Cristo (Mt 17.1-8): as duas testemunhas evocam o testemunho completo das Escrituras, agora proclamado pela Igreja. O próprio número dois aponta para o testemunho válido — “pela boca de duas ou três testemunhas” (Dt 19.15; Mt 18.16) —, e Jesus enviou os discípulos de dois em dois e os fez suas testemunhas pelo Espírito (Lc 10.1; At 1.8).
Apocalipse 11.5-6
Quando o texto diz que sai fogo da boca das testemunhas para consumir os inimigos (Ap 11.5), não descreve necessariamente um fenômeno literal — a figura tem precedente profético.
Deus disse a Jeremias que poria as suas palavras na boca do profeta como fogo, e faria o povo como lenha (Jr 5.14): não saiu fogo físico, mas a palavra anunciou o juízo que se cumpriria sobre a nação impenitente. Do mesmo modo, o testemunho da Igreja traz vida aos que creem e condenação aos que rejeitam a luz — os ministros de Cristo são “aroma de vida” para uns e “cheiro de morte” para outros (2Co 2.14-16). As testemunhas têm ainda poder para fechar o céu, transformar águas em sangue e ferir a terra com pragas (Ap 11.6): ações que recordam Elias, que orou para não chover (1Rs 17.1; Tg 5.17-18), e Moisés, por quem vieram as pragas do Egito (Êx 7—12). Não é que Moisés e Elias voltem em pessoa: a Igreja continua o testemunho profético da Lei e dos Profetas, proclamando a verdade, anunciando a salvação e advertindo do juízo.
A missão será concluída. A besta só faz guerra contra as testemunhas depois que elas concluem o seu testemunho (Ap 11.7): a oposição não pode impedir o propósito de Deus. Jesus prometeu edificar a sua Igreja, e as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt 16.18); e o evangelho será pregado a todas as nações, e então virá o fim (Mt 24.14). A Igreja receberá o tempo e a graça necessários para cumprir a sua missão (2Tm 4.7).
Apocalipse 11.7-10
Concluída a missão, a besta que sobe do abismo faz guerra contra as testemunhas, vence-as e as mata (Ap 11.7) — a mesma cena de Apocalipse 13.7.
Mas essa vitória é apenas aparente e temporária: a besta consegue matar fisicamente os seguidores de Cristo, mas não pode derrotar a sua fé nem impedir a sua ressurreição. O Cordeiro venceu pela morte, e os seus vencem do mesmo modo — “pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho, e não amaram a sua vida até à morte” (Ap 12.11). Os cadáveres ficam expostos na praça da grande cidade, “espiritualmente” chamada Sodoma e Egito, “onde também o seu Senhor foi crucificado” (Ap 11.8) — a própria palavra “espiritualmente” mostra que os nomes são simbólicos: Sodoma é a corrupção moral, o Egito é a escravidão e a idolatria, e a menção à crucificação lembra Jerusalém na sua rejeição ao Messias. A grande cidade é o mundo organizado em oposição a Deus. E os habitantes da terra celebram a morte das testemunhas por três dias e meio (Ap 11.9-10): de novo a metade de sete — a alegria dos inimigos é breve, e a sua vitória, não definitiva. A história das testemunhas reproduz o padrão da vida de Cristo: missão, oposição, morte, ressurreição e ascensão.
Apocalipse 11.11-15
Depois dos três dias e meio, o espírito de vida vindo de Deus entra nas testemunhas, e elas se levantam (Ap 11.11) — cena que recorda os ossos secos, nos quais o Espírito produz vida (Ez 37.1-14).
Em seguida, ouvem uma voz do céu: “Subi para cá”, e sobem numa nuvem, diante dos seus inimigos (Ap 11.12). A aparente derrota vira vindicação pública: a Igreja pode ser perseguida, humilhada e morta, mas será ressuscitada e glorificada — a última palavra não pertence à besta, mas ao Deus que ressuscita os mortos. Naquela hora há um grande terremoto, parte da cidade cai, sete mil morrem, e os sobreviventes, aterrorizados, dão glória ao Deus do céu (Ap 11.13): juízo e testemunho ao mesmo tempo. O testemunho dos santos não é inútil — ele desmascara o mal, anuncia o Reino e chama pessoas ao arrependimento.
“O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos.”Ap 11.15
E então soa a sétima trombeta, e o interlúdio se fecha com a proclamação da consumação: o Reino, já inaugurado, manifesta-se plenamente; os mortos são julgados e os servos de Deus, recompensados (Ap 11.17-18). O mistério de Deus, anunciado no capítulo 10, se cumpre.
Fixação
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Avaliação
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Tarefas
Releia Apocalipse 11.1-14 e identifique o padrão da vida de Cristo nas testemunhas (missão, oposição, morte, ressurreição, ascensão). Depois, escreva onde, na sua própria vida ou igreja, você está em cada etapa — e ore pedindo fidelidade para testemunhar “não por força, mas pelo Espírito” (Zc 4.6; At 1.8).
Aula 13
Apocalipse 12 — a mulher, o filho e o dragão: o grande conflito por trás da história, a vitória já alcançada pelo sangue do Cordeiro, e a guerra do dragão contra os que guardam os mandamentos de Deus. Ir para a Aula 13 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello