“Estes pelejarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; e vencerão os que estão com ele: os chamados, eleitos e fiéis.”Apocalipse 17.14 · NAA
Introdução
Apocalipse 17 amplia a revelação sobre Babilônia, cuja queda já fora anunciada — “Caiu! Caiu a grande Babilônia” (Ap 14.8) — e retomada na sétima taça (Ap 16.17-21). Agora João recebe uma explicação mais detalhada da sua identidade, da sua aliança com a besta e do juízo que a espera.
É parte da estrutura recapitulativa do livro: a derrota de Babilônia já foi anunciada, mas a visão volta ao mesmo conflito para mostrar novos ângulos — a sua sedução, o seu luxo, a sua violência e, por fim, a autodestruição do próprio sistema. Para os primeiros leitores, Babilônia apontava concretamente para Roma, a cidade que dominava os reis e perseguia os cristãos (Ap 17.9,18); mas o símbolo não se esgota nela: Babilônia representa toda ordem política, econômica, cultural e religiosa que se organiza contra Deus, seduz as nações, explora os seres humanos e persegue o povo do Cordeiro (Ap 17.2-6; 18.2-8).
Apocalipse 17.1-3,15
João vê uma mulher montada numa besta escarlate (Ap 17.3). A figura feminina não é uma afirmação depreciativa sobre as mulheres: na linguagem bíblica, povos e cidades são frequentemente personificados como mulheres.
Jerusalém é filha, esposa e mãe; a Nova Jerusalém é a noiva do Cordeiro; e o próprio povo de Deus foi a mulher vestida de sol, perseguida pelo Dragão (Is 54.5-6; Ap 12.1-6; 21.2,9-10). O contraste, portanto, não é entre homens e mulheres, mas entre duas cidades e duas comunidades: Babilônia, a prostituta infiel, e a Nova Jerusalém, a noiva fiel do Cordeiro. E a imagem da prostituição comunica infidelidade espiritual — quando Israel abandonava a aliança pela idolatria, os profetas chamavam isso de adultério (Jr 3.6-10; Ez 16.15-22; Os 1.2). A prostituta está “sentada sobre muitas águas”, que o próprio anjo interpreta: “são povos, multidões, nações e línguas” (Ap 17.1,15) — a sua influência é internacional. Os reis se prostituem com ela e os povos se embriagam com o vinho da sua prostituição (Ap 17.2): alianças de idolatria e interesse. A embriaguez é a perda do discernimento: intoxicados pelas promessas do sistema, os povos deixam de ver que participam de uma ordem destinada ao juízo (Jr 51.7); o que parece liberdade escraviza (Jo 8.34; Rm 6.23).
O deserto e a verdade sobre Babilônia. O anjo leva João “no Espírito” a um deserto para contemplar a mulher (Ap 17.3). De perto, a cidade é fascinante; da perspectiva do Espírito, ela é um deserto espiritual — o luxo esconde vazio, o prazer encobre sofrimento, e a glória exterior não impede o juízo (Ap 17.4-6; 18.7-8). Por isso a Igreja vive no mundo, mas não pode absorver o espírito de Babilônia: Jesus não pediu que os discípulos fossem tirados do mundo, mas guardados do Maligno (Jo 17.15). O chamado é sair espiritualmente de Babilônia, recusando os seus pecados e a sua idolatria (Ap 18.4; 2Co 6.14-18).
Apocalipse 17.4-6,9,18
Para as sete igrejas, a referência era clara: a mulher se assenta sobre sete montes e é “a grande cidade que domina sobre os reis da terra” (Ap 17.9,18) — Roma, das sete colinas, com o culto imperial que colidia com a confissão de que Jesus é o Senhor.
Mas Babilônia é um símbolo mais amplo: antes de Roma, o Egito escravizou Israel, a antiga Babilônia destruiu Jerusalém, e o livro chega a chamar a grande cidade de “Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado” (Ap 11.8). Ela é o arquétipo da cidade humana organizada sem Deus e contra Deus — o espírito de Babel, que buscou fazer para si um nome e alcançar o céu pela própria grandeza (Gn 11.1-9), e a estátua dos impérios destruída pela pedra do Reino (Dn 2.31-45). A mulher está vestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro e pedras, com um cálice de ouro na mão (Ap 17.4): a aparência comunica riqueza e realeza, mas o conteúdo do cálice está cheio de abominações. Babilônia seduz pela prosperidade, pelo prestígio e pela falsa segurança — “estou sentada como rainha… nunca verei luto” (Ap 18.7) —, mas a sua autoconfiança é ilusória. O problema não são os bens, a cultura ou as realizações, mas a sua transformação em ídolos: quando riqueza, prazer, poder ou reconhecimento ocupam o centro, prometem o que só Deus dá e deixam o coração insaciável (Ec 5.10; Mt 6.19-24; 1Tm 6.9-10).
Apocalipse 17.8-14
O anjo explica que a besta “era, não é e está para emergir do abismo”, mas caminha para a destruição (Ap 17.8).
A expressão imita, de modo deformado, a descrição de Deus como aquele “que é, que era e que há de vir” (Ap 1.4,8; 4.8): a besta procura reproduzir a permanência e a soberania divinas, mas a sua existência é instável e o seu destino é a perdição. É a mesma cabeça “ferida de morte” e curada, que provocou admiração no mundo (Ap 13.3) — uma paródia da morte e ressurreição do Cordeiro: Cristo foi morto e vive pelos séculos; a besta apenas imita a vitória e depende da mentira para parecer invencível (Ap 1.18; 5.6). No contexto romano, a linguagem evocava a expectativa do retorno de Nero, ou de outro imperador que retomasse o seu espírito perseguidor — como João Batista veio “no espírito e poder de Elias” sem ser Elias (Lc 1.17). Teologicamente, descreve o reaparecimento recorrente do poder bestial: impérios caem, mas a mesma lógica de idolatria e perseguição ressurge em novas estruturas — e cada manifestação caminha para a destruição, porque o Cordeiro é o Senhor da história (Dn 7.26-27).
As sete cabeças são interpretadas como sete montes e como sete reis (Ap 17.9-10). A frase “cinco caíram, um existe e o outro ainda não veio” admite reconstruções históricas diferentes — as listas de imperadores começavam em pontos distintos —, por isso é prudente não fundar toda a interpretação numa única contagem. Uma leitura, com data mais antiga do livro, liga o “que existe” a Nero; outra, com data posterior, lê Domiciano à luz do motivo do “Nero redivivo”. O ponto central é o mesmo nas duas: os reis aparecem e desaparecem, mas Deus continua soberano — a besta pode apresentar-se como “oitavo rei” e pertencer aos sete, mas o seu destino não é o trono eterno, e sim a destruição (Ap 17.11). E os dez chifres são dez reis que recebem autoridade “por uma hora” com a besta (Ap 17.12) — plenitude de poder político subordinado ao sistema, mas breve e limitado. Essa coalizão se volta contra o Cordeiro: “pelejarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). A besta impressiona as nações, mas não pode derrotá-lo: Cristo já desarmou os poderes na cruz e completará a vitória na sua vinda (Cl 2.14-15; 2Ts 2.8) — e com ele vencem os chamados, eleitos e fiéis.
Apocalipse 17.16-17
A visão traz uma reviravolta: os dez chifres e a besta passam a odiar a prostituta, deixam-na desolada e nua, devoram a sua carne e a queimam no fogo (Ap 17.16). Os poderes que sustentavam Babilônia tornam-se instrumentos da sua destruição.
Esse padrão se repete nas Escrituras: reinos divididos contra si mesmos não permanecem, e Deus pode fazer com que os inimigos do seu povo se destruam mutuamente (Jz 7.22; 2Cr 20.22-24; Mc 3.24-26). A união do mal é sempre instável, porque nasce do egoísmo e da disputa por poder: a besta usa Babilônia e Babilônia usa a besta, mas nenhuma aliança construída sobre o pecado produz fidelidade — o sistema devora os próprios aliados. E há uma ironia no juízo: a prostituta que seduziu os reis é destruída por eles; a cidade que consumiu povos é consumida; a que se vestiu de luxo fica nua (Ap 17.16; 18.16-19).
A soberania de Deus sobre os planos dos reis. O texto afirma que Deus “pôs no coração deles” executar o seu propósito, entregando o reino à besta “até que se cumpram as palavras de Deus” (Ap 17.17). Isso não faz de Deus o autor do pecado: os reis agem segundo os seus próprios desejos perversos, mas nem a sua rebelião escapa à soberania divina — como os irmãos de José agiram com maldade e Deus a transformou em preservação (Gn 50.20), e Herodes e Pilatos condenaram Jesus por suas decisões, cumprindo o plano redentor de Deus (At 2.23; 4.27-28). Babilônia não cai porque o mal ficou mais forte que Deus, mas porque chegou o tempo do cumprimento da sua palavra. E isso consola a Igreja: os poderes da terra não controlam o desfecho da história — o Cordeiro abre o livro, os juízos procedem do trono, e toda palavra de Deus se cumprirá (Ap 5.1-10; 16.17; 17.17).
Síntese pastoral
O Apocalipse apresenta ao mesmo tempo o avanço do evangelho e o crescimento da oposição: a boa-nova alcança toda nação e reúne uma multidão incontável, enquanto o Dragão intensifica a guerra contra os que guardam o testemunho de Jesus (Ap 7.9-10; 12.17).
É a parábola do trigo e do joio — ambos crescem juntos até a colheita (Mt 13.24-30): o crescimento do Reino não elimina a oposição, e a fidelidade da Igreja pode até provocar reação mais intensa. Mas a missão não termina em derrota — quando o inimigo parece cercar o povo de Deus, o Senhor intervém e destrói a oposição (Ap 11.7-13; 17.14). A última palavra é do Cordeiro. Daí as lições: discernir a sedução de Babilônia, pois nem tudo que brilha é glória — o cálice pode ser de ouro e estar cheio de abominações (Ap 17.4; Rm 12.1-2; 1Jo 2.15-17); não entregar ao poder político, econômico ou cultural a lealdade que só é de Cristo, o Rei dos reis (Ap 17.14; Rm 13.1-4); lembrar que riqueza e prazer não substituem Deus (Lc 12.15-21; Mc 8.36-37); ser solidário com os perseguidos, pois Deus se identifica com as suas testemunhas (Ap 17.6; Hb 13.3); sair de Babilônia sem abandonar a missão — rejeitar os seus pecados enquanto se anuncia o evangelho e se serve ao próximo (Jo 17.15-18; Ap 18.4); não temer a aparência de invencibilidade da besta, que “era, não é e caminha para a destruição” (Ap 17.8,11); e lembrar que quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (1Jo 2.17; Ap 14.12-13).
Fixação
Onze cartões para revisar antes da avaliação. Toque cada um para virar.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Faça uma “radiografia” de uma “Babilônia” que o cerca (um sistema, um hábito, uma cultura): descreva o que ela promete (o brilho do cálice) e o que ela cobra e esconde (o conteúdo). Depois, escreva um passo concreto de “sair de Babilônia” sem abandonar a missão, e ore por discernimento e fidelidade (Ap 18.4; Rm 12.2).
Aula 19
Apocalipse 18 — o lamento sobre a Babilônia caída: os reis, mercadores e navegantes choram a perda das suas riquezas, enquanto o céu se alegra porque Deus fez justiça pelos seus servos. Ir para a Aula 19 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello