Leão · Mateus
Jesus como Messias, Filho de Davi e Rei de Israel — o Leão da tribo de Judá (Mt 1.1; Ap 5.5).
“Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir.”Apocalipse 4.8 · NAA
Introdução
Depois das cartas às sete igrejas, a cena se desloca da realidade terrestre para a sala do trono celestial (Ap 4.1-2).
Isso não significa que a Igreja tenha saído da narrativa, nem que o capítulo 4 descreva acontecimentos cronologicamente posteriores aos capítulos 2 e 3. Trata-se de uma nova perspectiva da mesma história: depois de contemplar Cristo no meio dos candelabros, João passa a contemplar o governo de Deus a partir do céu. Na terra, os cristãos veem perseguição, oposição e sofrimento; no céu, João vê um trono estabelecido e Alguém assentado sobre ele (Ap 4.2). O mundo não está entregue ao acaso nem aos impérios: Deus reina e conduz a história ao cumprimento do seu propósito (Sl 103.19; Dn 4.34-35).
“Depois destas coisas” (Ap 4.1) não marca o fim da era da Igreja e o início de eventos exclusivamente futuros, como propõem algumas leituras. A expressão pode simplesmente introduzir uma nova visão: depois de receber uma, João recebe outra. O Apocalipse é feito de ciclos e visões paralelas que retomam os mesmos temas sob ângulos diferentes (Ap 6.12-17; 11.15-19; 19.11-21). Como em Daniel, uma visão profética reúne passado, presente e futuro (Dn 2.28-45; Ap 1.19). E os “últimos dias” já foram inaugurados na primeira vinda de Cristo e no derramamento do Espírito (Mc 1.15; At 2.16-17; Hb 1.1-2): a Igreja já vive neles.
Apocalipse 4.1
“Depois destas coisas, olhei, e eis que havia uma porta aberta no céu” (Ap 4.1).
A imagem é significativa logo após a carta a Laodiceia, em que Cristo aparece do lado de fora, batendo à porta de uma igreja que o excluíra (Ap 3.20). A porta do coração humano pode estar fechada para Deus, mas a porta do céu permanece aberta para quem atende ao chamado de Cristo. Ela fala de revelação, acesso e comunhão: por Cristo, o véu do templo se rasgou e recebemos livre acesso à presença de Deus (Mt 27.50-51; Hb 10.19-22). Ele é a porta das ovelhas e o único caminho ao Pai (Jo 10.7-9; 14.6).
Essa porta aberta não faz de João um símbolo do arrebatamento da Igreja; descreve uma experiência profética em que ele, “no Espírito”, recebe acesso a uma visão celestial (Ap 4.2), como Ezequiel viu os céus se abrirem entre os exilados (Ez 1.1). E consola a Igreja perseguida: os inimigos podem fechar prisões, tribunais e cidades, mas não podem fechar a porta que Deus abriu (Ap 3.7-8).
Apocalipse 4.2-3
“Eis que havia um trono armado no céu, e alguém estava sentado no trono” (Ap 4.2).
A primeira realidade que João contempla no céu não é a besta, o dragão, os impérios ou as calamidades — é o trono de Deus. Ele não está vazio, ameaçado ou em disputa: Alguém está assentado nele. Estabilidade, autoridade, soberania: “O Senhor estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19; 47.8). O Apocalipse não apresenta Cristo esperando um momento futuro para começar a reinar num trono terrestre: ele já venceu e se assentou com o Pai (Ap 3.21), exaltado acima de todo principado e potestade (Ef 1.20-22; Fp 2.9-11). O seu Reino não se origina das estruturas deste mundo (Jo 18.36), mas a sua autoridade alcança o céu e a terra (Mt 28.18); e a consumação não é uma administração política provisória, mas novos céus e nova terra (1Co 15.24-28; 2Pe 3.13; Ap 21.1-5).
João não descreve a forma daquele que se assenta; recorre ao brilho de pedras preciosas — jaspe e sardônio (Ap 4.3) — para comunicar glória, pureza e majestade, não um retrato físico. E ao redor do trono há um arco-íris semelhante à esmeralda: o sinal da aliança de Deus após o dilúvio (Gn 9.8-17). O trono é, ao mesmo tempo, trono de justiça e de graça — dele procedem juízos contra o mal, mas ao seu redor permanece o sinal da misericórdia. Por isso podemos aproximar-nos com confiança do “trono da graça” (Hb 4.16).
Apocalipse 4.4-6
Ao redor do trono, João vê vinte e quatro tronos, e neles vinte e quatro anciãos vestidos de branco, com coroas de ouro (Ap 4.4).
O número vinte e quatro é a soma de doze com doze e aponta para a totalidade do povo de Deus: as doze tribos de Israel, o povo da antiga aliança, e os doze apóstolos, o povo messiânico. A Nova Jerusalém reúne os dois símbolos — doze portas com os nomes das tribos e doze fundamentos com os nomes dos apóstolos (Ap 21.12-14). Os anciãos representam, assim, o único povo de Deus, formado por todos os redimidos das duas alianças, pois em Cristo a parede de separação entre judeus e gentios foi derrubada (Ef 2.13-22; Jo 10.16). Estão vestidos de branco — pureza, vitória e justificação —, têm coroas de ouro, cumprindo as promessas aos vencedores (Ap 2.10; 3.11), e se assentam em tronos, porque participam do reinado de Cristo (Ap 3.21; 20.4).
Do trono saem relâmpagos, vozes e trovões (Ap 4.5): a imagem do Sinai (Êx 19.16-19), ligada à manifestação do juízo divino (Ap 8.5; 11.19; 16.18). O trono é lugar de graça, mas também de justiça — o Deus que oferece misericórdia é o mesmo que julga o pecado; a esperança de novos céus e nova terra exige que o mal seja confrontado e removido (Ap 20.11-15; 21.1-4). A sua justiça não contradiz o seu amor: é o amor pelos oprimidos e pela criação que requer o fim da violência, da mentira e da morte (Sl 96.10-13).
Diante do trono ardem sete tochas de fogo, “os sete Espíritos de Deus” (Ap 4.5): não sete Espíritos Santos, mas a plenitude do único Espírito (Ef 4.4), como o Espírito que repousa sobre o Messias em sua plenitude (Is 11.1-2) e as sete lâmpadas de Zacarias, cujos olhos percorrem toda a terra (Zc 4.2,6,10). E há como que um mar de vidro, semelhante ao cristal (Ap 4.6; Ez 1.22): na Bíblia o mar costuma representar o caos e a ameaça (Sl 74.13-14; Dn 7.2-3), mas diante do trono ele está imóvel e transparente — aquilo que aos homens parece caótico está plenamente subjugado diante de Deus. Na nova criação, “o mar já não existe” (Ap 21.1).
Apocalipse 4.6-8
No meio e ao redor do trono, quatro seres viventes cheios de olhos — semelhantes a leão, novilho, ser humano e águia (Ap 4.6-7).
A visão retoma Ezequiel 1, onde quatro seres têm rostos de ser humano, leão, boi e águia, junto ao carro-trono da glória de Deus (Ez 1.5-10). Os muitos olhos indicam percepção e conhecimento — nada escapa a quem reina; as seis asas os aproximam dos serafins de Isaías (Is 6.1-3). Podem ser compreendidos como a criação animada diante do Criador: o leão entre os animais selvagens, o novilho entre os domésticos, o ser humano como imagem de Deus e a águia entre as aves — toda a criação proclamando a santidade do Senhor (Sl 148.7-13).
Ao longo da história cristã, muitos leram nos quatro seres uma correspondência com os quatro Evangelhos. O texto não a afirma explicitamente, mas a leitura é cristologicamente rica:
Jesus como Messias, Filho de Davi e Rei de Israel — o Leão da tribo de Judá (Mt 1.1; Ap 5.5).
O Servo que veio para servir e dar a vida em resgate por muitos; o novilho, animal de serviço e sacrifício (Mc 10.45).
A verdadeira humanidade de Jesus, sua compaixão e sua vida de oração; a genealogia que remonta a Adão (Lc 3.38).
A existência eterna e divina do Verbo: “No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus” (Jo 1.1,14).
Convém recebê-la como leitura simbólica tradicional, não como a interpretação exclusiva. O ponto do texto é que toda a criação e toda a revelação convergem para a glória de Deus e de Cristo.
Apocalipse 4.9-11
Sempre que os seres viventes dão glória ao que está no trono, os vinte e quatro anciãos se prostram, adoram e lançam as suas coroas diante dele (Ap 4.9-10).
As coroas foram dadas aos vencedores, mas eles reconhecem que toda vitória procede da graça de Deus e, por isso, devolvem simbolicamente a honra que receberam. Nenhum redimido chega ao trono exaltando os próprios méritos: toda coroa é colocada aos pés daquele que tornou possível a vitória (1Co 15.10,57; Fp 2.13). O verdadeiro culto descentraliza o ser humano — na presença de Deus não há vanglória nem autopromoção; a Igreja se prostra e confessa que só o Senhor é digno.
“Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.”Ap 4.11
Deus é digno porque é o Criador: tudo existe pela sua vontade e dele depende continuamente (Gn 1.1; Sl 33.6-9; At 17.24-28). O universo não pertence aos impérios nem está à disposição das forças do mal — a criação pertence ao Criador. O capítulo 4 celebra Deus como Criador; o capítulo 5 celebrará o Cordeiro como Redentor: criação e redenção pertencem ao mesmo propósito (Cl 1.15-20; Ap 5.9-10; 21.5).
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Avaliação
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Tarefas
Faça uma lista de três coisas que hoje lhe tiram a paz e, ao lado de cada uma, escreva o que muda quando você a coloca “diante do trono” de Apocalipse 4. Depois, use o cântico dos anciãos (Ap 4.11) como oração ao longo da semana, adorando a Deus como Criador e Senhor da história.
Aula 6
Apocalipse 5 — o Cordeiro e o livro selado: quem é digno de abrir o livro da história? O Leão que é Cordeiro, imolado e vitorioso, e o novo cântico da redenção. Ir para a Aula 6 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello