ApocalipseAula 10

Apocalipse 9: as trombetas do “ai”

“Foi-lhes ordenado que não causassem dano à erva da terra, nem a coisa verde alguma, mas somente às pessoas que não têm o selo de Deus na fronte.”Apocalipse 9.4 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Ap 9; Êx 10.12-15; Jó 1.9-12; Sl 115.4-8; Rm 1.21-28

Introdução

A quinta e a sexta trombetas: os “ais”

Apocalipse 9 descreve a quinta e a sexta trombetas — o primeiro e o segundo “ais” (Ap 8.13; 9.1,12-13).

À medida que o ciclo avança, os juízos se intensificam; ainda assim permanecem limitados e cumprem um propósito duplo — judicial e pedagógico: punem a rebelião e chamam os sobreviventes ao arrependimento (Ap 9.20-21). As cenas são simbólicas e devem ser lidas à luz do Antigo Testamento e das demais visões do livro. E, sobretudo, o capítulo não apresenta forças malignas agindo com autonomia: Satanás e os demônios só atuam dentro dos limites postos por Deus — a chave lhes é dada, o alvo é determinado e o tempo é restringido (Ap 9.1,4-5,13-15).

Apocalipse 9.1-2

A estrela caída e a chave do abismo

“O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela que caíra do céu sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo” (Ap 9.1).

A estrela caída representa um ser pessoal e maligno — recebe uma chave, abre o abismo e exerce autoridade. A imagem evoca a queda de Satanás: Jesus o via cair do céu como relâmpago (Lc 10.18), e o dragão, o diabo, é lançado à terra com os seus anjos (Ap 12.7-9). O abismo, nas Escrituras, é o lugar de confinamento dos poderes demoníacos: os demônios suplicaram a Jesus que não os mandasse para lá (Lc 8.30-31), e os anjos que pecaram estão reservados para o juízo (2Pe 2.4; Jd 6). Quando o abismo é aberto, sobe dele uma fumaça como a de uma grande fornalha, que escurece o sol e o ar (Ap 9.2): o mal libertado não traz luz nem liberdade, mas trevas, confusão e cegueira espiritual (2Ts 2.9-12).

“Foi-lhe dada” — a palavra decisiva do capítulo. A estrela não tem autoridade independente: recebe permissão para agir. A chave é autoridade delegada (Ap 1.18; 20.1). Assim como Satanás só pôde provar Jó dentro dos limites postos por Deus (Jó 1.9-12), também aqui as forças do mal permanecem subordinadas ao governo divino.

Apocalipse 9.3-11

Os gafanhotos do abismo

Da fumaça saem gafanhotos com poder semelhante ao dos escorpiões (Ap 9.3) — evocando a oitava praga do Egito (Êx 10.12-15), quando os juízos recaem sobre uma humanidade rebelde.

Mas estes não são insetos comuns: recebem ordens, distinguem os selados dos não selados, têm um rei e uma aparência composta e simbólica (Ap 9.4,7-11). Embora gafanhotos possam representar exércitos no Antigo Testamento (Jl 1.4-6), a descrição aqui aponta para poderes demoníacos — saem do abismo, são governados pelo anjo do abismo e atormentam os adoradores da besta. Parecem cavalos de guerra, com algo como coroas, rostos humanos, cabelos como de mulher, dentes de leão, couraças de ferro e caudas de escorpião (Ap 9.7-10): a composição comunica força, inteligência, ferocidade, sedução, resistência e capacidade de produzir tormento profundo.

Os gafanhotos não podem matar, apenas atormentar durante cinco meses (Ap 9.5) — um sofrimento severo, mas limitado pela vontade de Deus. O tormento é tão intenso que as pessoas procurarão a morte e não a acharão (Ap 9.6): a morte, que parece o pior dos males, passa a ser desejada como alívio, revelando a natureza autodestrutiva do pecado e da ação demoníaca — o que promete prazer e liberdade acaba produzindo escravidão e desespero (Pv 14.12; Jo 8.34; Rm 6.21-23). E o seu rei é o anjo do abismo, “Abadom” em hebraico e “Apoliom” em grego: o Destruidor (Ap 9.11; Jó 26.6). O título descreve bem Satanás, que veio para roubar, matar e destruir (Jo 10.10): promete vida e produz morte. Que os próprios adoradores da besta sejam atormentados por demônios mostra que o reino do mal é dividido e autodestrutivo (Mc 3.23-26).

Apocalipse 9.13-19

A sexta trombeta: os anjos do Eufrates

Ao toque da sexta trombeta, uma voz sai das quatro pontas do altar de ouro e ordena: “Solte os quatro anjos que se acham presos junto ao grande rio Eufrates” (Ap 9.13-14).

O altar já fora associado às orações dos santos (Ap 5.8; 6.9-10; 8.3-5): também este juízo surge como resposta ao clamor da Igreja por justiça. O Eufrates marcava, para Israel, a direção de onde vinham os grandes impérios opressores — a Assíria e a Babilônia (Is 7.20; 8.7-8); simbolicamente, funciona como uma barreira que contém forças hostis, e, removida a barreira, os poderes do mal são liberados para executar juízo (a mesma imagem retorna na sexta taça, Ap 16.12). Os quatro anjos estavam prontos “para a hora, e o dia, e o mês, e o ano” determinados (Ap 9.15): a precisão enfatiza que o juízo não acontece por acaso — as forças malignas agem apenas no momento e na medida que o Senhor permite.

A cavalaria é de “duzentos milhões” (Ap 9.16): em linguagem apocalíptica, uma força incontável e aterradora, não um exército convencional. Os cavalos têm cabeças como de leão, e de sua boca saem fogo, fumaça e enxofre; suas caudas, como serpentes, causam dano (Ap 9.17-19) — em forte paralelo com os gafanhotos, reforçando que se trata de forças demoníacas em nível crescente. E há uma progressão clara: na quinta trombeta, atormentam sem matar; na sexta, matam a terça parte (Ap 9.5,15,18); no quarto selo, a autoridade era sobre a quarta parte (Ap 6.8). O juízo se intensifica, mas ainda não é total — há um derradeiro espaço para o arrependimento.

Apocalipse 9.20-21

O mal contra o mal — e a recusa em se arrepender

Uma marca desses juízos é que as forças malignas se voltam contra os próprios seguidores do mal.

O padrão aparece nas Escrituras: nos dias de Josafá, Amom, Moabe e Seir destruíram-se uns aos outros, enquanto Judá permanecia protegido (2Cr 20.22-24); e Senaqueribe, o assírio, foi assassinado pelos próprios filhos no templo do seu deus (Is 37.36-38). O mal traz em si a semente da própria destruição. Isso não torna Deus autor do pecado nem elimina a responsabilidade humana: Deus governa soberanamente até sobre os conflitos dos ímpios, fazendo com que a maldade se volte contra si mesma e cumpra, involuntariamente, os seus propósitos de justiça (Sl 7.14-16; Pv 26.27).

Mas o aspecto mais trágico vem no fim: os sobreviventes “não se arrependeram das obras das suas mãos”, nem da adoração aos demônios e ídolos, nem dos assassínios, das feitiçarias, da imoralidade e dos roubos (Ap 9.20-21). As trombetas são advertência, não a plenitude do juízo final — só parte da humanidade é atingida, e Deus continua oferecendo oportunidade de arrependimento. Contudo, o coração endurecido transforma até a disciplina em ocasião de blasfêmia (Ap 16.9,11). É a mesma resistência de Israel: “duros de coração… sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51); e Jesus chorou sobre Jerusalém porque quis reuni-la, mas ela não quis (Mt 23.37). A recusa persistente diante da graça conduz ao endurecimento (Rm 1.21-28; 2Ts 2.10-12).

Síntese pastoral

Advertência e consolo

Apocalipse 9 revela que Deus continua soberano mesmo quando as forças demoníacas parecem dominar o cenário.

A estrela recebe a chave; os gafanhotos recebem poder; os alvos são delimitados; o período é restringido; os quatro anjos são soltos numa hora determinada (Ap 9.1,4-5,13-15). Nada escapa ao governo do Cordeiro. Para a Igreja, o capítulo traz advertência e consolo. Advertência, porque não devemos brincar com a idolatria, resistir ao Espírito ou endurecer o coração. Consolo, porque os servos de Deus estão selados, as suas orações são ouvidas e a sua vida permanece nas mãos daquele que venceu a morte e governa a história (Ap 7.2-4; 8.3-5; 9.4; Rm 8.31-39).

Fixação

Cartões de memorização

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Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

O capítulo ensina que “aquilo que adoramos molda o nosso caráter”. Que “ídolos” modernos — riqueza, sucesso, ideologia, imagem, aprovação — podem estar disputando, na sua vida, o lugar que só pertence a Deus?Ver resposta sugerida
O exame começa por onde vão o nosso tempo, o nosso dinheiro, a nossa ansiedade e a nossa esperança: aquilo que, na prática, não podemos perder sem desmoronar costuma ocupar o trono do coração (Mt 6.24). A idolatria moderna raramente tem cara de estátua — tem cara de carreira, imagem, ideologia ou aprovação alheia. E o teste do Salmo 115 é sério: nos tornamos parecidos com o que adoramos (Sl 115.8). Quem serve a ídolos que não veem nem ouvem endurece; quem adora o Deus vivo recebe luz e vida. A saída não é apenas “parar de idolatrar”, mas dar a Deus o lugar que é dele — reordenar os afetos em torno de Cristo, de quem tudo o mais recebe o seu devido tamanho (Cl 3.1-5).
Se Deus é soberano até sobre os demônios e o mal (a chave “lhe é dada”, o tempo é fixado), ele não seria, então, o autor do mal? Como responder a partir de Apocalipse 9 e de Jó?Ver resposta sugerida
É preciso distinguir permitir e limitar de originar. Apocalipse 9 mostra Deus limitando o mal, não o produzindo: a estrela caída só age porque a chave “lhe é dada”, o alvo é delimitado e o tempo, restringido (Ap 9.1,4-5,15). É a mesma lógica de Jó: Satanás é o agente do mal, e Deus estabelece as fronteiras que ele não pode ultrapassar (Jó 1.12; 2.6). A Escritura afirma as duas coisas sem contradição: Deus governa soberanamente a história, e o mal procede da vontade rebelde das criaturas — “Deus a ninguém tenta” com o mal (Tg 1.13). Ele é tão senhor que faz a própria maldade voltar-se contra si mesma e servir, sem querer, aos seus propósitos de justiça (Sl 7.15-16; Gn 50.20). Soberania não é autoria: Deus limita o destruidor; ele não é o destruidor.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Faça um inventário sincero dos seus “altares”: liste três coisas boas (trabalho, família, reconhecimento) e pergunte, diante de Deus, se alguma delas subiu ao lugar que só a ele pertence. Depois, ore o Salmo 115.1 (“não a nós, Senhor, mas ao teu nome dá glória”) e agradeça por estar selado nas mãos daquele que venceu a morte.

Aula 11

Apocalipse 10 — o anjo forte e o livrinho: a pausa antes da sétima trombeta, o livro doce e amargo, e a Igreja de novo enviada a profetizar a povos e nações. Ir para a Aula 11 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello