“Foi-lhes ordenado que não causassem dano à erva da terra, nem a coisa verde alguma, mas somente às pessoas que não têm o selo de Deus na fronte.”Apocalipse 9.4 · NAA
Introdução
Apocalipse 9 descreve a quinta e a sexta trombetas — o primeiro e o segundo “ais” (Ap 8.13; 9.1,12-13).
À medida que o ciclo avança, os juízos se intensificam; ainda assim permanecem limitados e cumprem um propósito duplo — judicial e pedagógico: punem a rebelião e chamam os sobreviventes ao arrependimento (Ap 9.20-21). As cenas são simbólicas e devem ser lidas à luz do Antigo Testamento e das demais visões do livro. E, sobretudo, o capítulo não apresenta forças malignas agindo com autonomia: Satanás e os demônios só atuam dentro dos limites postos por Deus — a chave lhes é dada, o alvo é determinado e o tempo é restringido (Ap 9.1,4-5,13-15).
Apocalipse 9.1-2
“O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela que caíra do céu sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo” (Ap 9.1).
A estrela caída representa um ser pessoal e maligno — recebe uma chave, abre o abismo e exerce autoridade. A imagem evoca a queda de Satanás: Jesus o via cair do céu como relâmpago (Lc 10.18), e o dragão, o diabo, é lançado à terra com os seus anjos (Ap 12.7-9). O abismo, nas Escrituras, é o lugar de confinamento dos poderes demoníacos: os demônios suplicaram a Jesus que não os mandasse para lá (Lc 8.30-31), e os anjos que pecaram estão reservados para o juízo (2Pe 2.4; Jd 6). Quando o abismo é aberto, sobe dele uma fumaça como a de uma grande fornalha, que escurece o sol e o ar (Ap 9.2): o mal libertado não traz luz nem liberdade, mas trevas, confusão e cegueira espiritual (2Ts 2.9-12).
“Foi-lhe dada” — a palavra decisiva do capítulo. A estrela não tem autoridade independente: recebe permissão para agir. A chave é autoridade delegada (Ap 1.18; 20.1). Assim como Satanás só pôde provar Jó dentro dos limites postos por Deus (Jó 1.9-12), também aqui as forças do mal permanecem subordinadas ao governo divino.
Apocalipse 9.3-11
Da fumaça saem gafanhotos com poder semelhante ao dos escorpiões (Ap 9.3) — evocando a oitava praga do Egito (Êx 10.12-15), quando os juízos recaem sobre uma humanidade rebelde.
Mas estes não são insetos comuns: recebem ordens, distinguem os selados dos não selados, têm um rei e uma aparência composta e simbólica (Ap 9.4,7-11). Embora gafanhotos possam representar exércitos no Antigo Testamento (Jl 1.4-6), a descrição aqui aponta para poderes demoníacos — saem do abismo, são governados pelo anjo do abismo e atormentam os adoradores da besta. Parecem cavalos de guerra, com algo como coroas, rostos humanos, cabelos como de mulher, dentes de leão, couraças de ferro e caudas de escorpião (Ap 9.7-10): a composição comunica força, inteligência, ferocidade, sedução, resistência e capacidade de produzir tormento profundo.
Os gafanhotos não podem matar, apenas atormentar durante cinco meses (Ap 9.5) — um sofrimento severo, mas limitado pela vontade de Deus. O tormento é tão intenso que as pessoas procurarão a morte e não a acharão (Ap 9.6): a morte, que parece o pior dos males, passa a ser desejada como alívio, revelando a natureza autodestrutiva do pecado e da ação demoníaca — o que promete prazer e liberdade acaba produzindo escravidão e desespero (Pv 14.12; Jo 8.34; Rm 6.21-23). E o seu rei é o anjo do abismo, “Abadom” em hebraico e “Apoliom” em grego: o Destruidor (Ap 9.11; Jó 26.6). O título descreve bem Satanás, que veio para roubar, matar e destruir (Jo 10.10): promete vida e produz morte. Que os próprios adoradores da besta sejam atormentados por demônios mostra que o reino do mal é dividido e autodestrutivo (Mc 3.23-26).
Apocalipse 9.13-19
Ao toque da sexta trombeta, uma voz sai das quatro pontas do altar de ouro e ordena: “Solte os quatro anjos que se acham presos junto ao grande rio Eufrates” (Ap 9.13-14).
O altar já fora associado às orações dos santos (Ap 5.8; 6.9-10; 8.3-5): também este juízo surge como resposta ao clamor da Igreja por justiça. O Eufrates marcava, para Israel, a direção de onde vinham os grandes impérios opressores — a Assíria e a Babilônia (Is 7.20; 8.7-8); simbolicamente, funciona como uma barreira que contém forças hostis, e, removida a barreira, os poderes do mal são liberados para executar juízo (a mesma imagem retorna na sexta taça, Ap 16.12). Os quatro anjos estavam prontos “para a hora, e o dia, e o mês, e o ano” determinados (Ap 9.15): a precisão enfatiza que o juízo não acontece por acaso — as forças malignas agem apenas no momento e na medida que o Senhor permite.
A cavalaria é de “duzentos milhões” (Ap 9.16): em linguagem apocalíptica, uma força incontável e aterradora, não um exército convencional. Os cavalos têm cabeças como de leão, e de sua boca saem fogo, fumaça e enxofre; suas caudas, como serpentes, causam dano (Ap 9.17-19) — em forte paralelo com os gafanhotos, reforçando que se trata de forças demoníacas em nível crescente. E há uma progressão clara: na quinta trombeta, atormentam sem matar; na sexta, matam a terça parte (Ap 9.5,15,18); no quarto selo, a autoridade era sobre a quarta parte (Ap 6.8). O juízo se intensifica, mas ainda não é total — há um derradeiro espaço para o arrependimento.
Apocalipse 9.20-21
Uma marca desses juízos é que as forças malignas se voltam contra os próprios seguidores do mal.
O padrão aparece nas Escrituras: nos dias de Josafá, Amom, Moabe e Seir destruíram-se uns aos outros, enquanto Judá permanecia protegido (2Cr 20.22-24); e Senaqueribe, o assírio, foi assassinado pelos próprios filhos no templo do seu deus (Is 37.36-38). O mal traz em si a semente da própria destruição. Isso não torna Deus autor do pecado nem elimina a responsabilidade humana: Deus governa soberanamente até sobre os conflitos dos ímpios, fazendo com que a maldade se volte contra si mesma e cumpra, involuntariamente, os seus propósitos de justiça (Sl 7.14-16; Pv 26.27).
Mas o aspecto mais trágico vem no fim: os sobreviventes “não se arrependeram das obras das suas mãos”, nem da adoração aos demônios e ídolos, nem dos assassínios, das feitiçarias, da imoralidade e dos roubos (Ap 9.20-21). As trombetas são advertência, não a plenitude do juízo final — só parte da humanidade é atingida, e Deus continua oferecendo oportunidade de arrependimento. Contudo, o coração endurecido transforma até a disciplina em ocasião de blasfêmia (Ap 16.9,11). É a mesma resistência de Israel: “duros de coração… sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51); e Jesus chorou sobre Jerusalém porque quis reuni-la, mas ela não quis (Mt 23.37). A recusa persistente diante da graça conduz ao endurecimento (Rm 1.21-28; 2Ts 2.10-12).
Síntese pastoral
Apocalipse 9 revela que Deus continua soberano mesmo quando as forças demoníacas parecem dominar o cenário.
A estrela recebe a chave; os gafanhotos recebem poder; os alvos são delimitados; o período é restringido; os quatro anjos são soltos numa hora determinada (Ap 9.1,4-5,13-15). Nada escapa ao governo do Cordeiro. Para a Igreja, o capítulo traz advertência e consolo. Advertência, porque não devemos brincar com a idolatria, resistir ao Espírito ou endurecer o coração. Consolo, porque os servos de Deus estão selados, as suas orações são ouvidas e a sua vida permanece nas mãos daquele que venceu a morte e governa a história (Ap 7.2-4; 8.3-5; 9.4; Rm 8.31-39).
Fixação
Onze cartões para revisar antes da avaliação. Toque cada um para virar.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Tarefas
Faça um inventário sincero dos seus “altares”: liste três coisas boas (trabalho, família, reconhecimento) e pergunte, diante de Deus, se alguma delas subiu ao lugar que só a ele pertence. Depois, ore o Salmo 115.1 (“não a nós, Senhor, mas ao teu nome dá glória”) e agradeça por estar selado nas mãos daquele que venceu a morte.
Aula 11
Apocalipse 10 — o anjo forte e o livrinho: a pausa antes da sétima trombeta, o livro doce e amargo, e a Igreja de novo enviada a profetizar a povos e nações. Ir para a Aula 11 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello