Curso do Espírito SantoAula 4

O Espírito na criação e na nova criação

“Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra.”Salmo 104.30 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 1.1-2.3; Jo 16.5-11; Rm 8.18-27; Tt 3.4-7

Para começar

As perguntas que nos guiam

O Espírito não começou a agir no Pentecostes. Ele já estava no segundo versículo da Bíblia — e a sua obra abraça toda a criação.

1

O Espírito só age na Igreja?

Ou a sua ação alcança o mundo inteiro, e mesmo quem ainda não creu?

2

O que a criação tem a ver com a redenção?

Criar e regenerar são obras separadas — ou partes de um mesmo plano?

3

Deus descarta o mundo ou o renova?

O destino final é a fuga para o céu — ou um novo céu e uma nova terra?

Tese da aula: o mesmo Espírito que pairava sobre as águas na criação (Gn 1.2) age hoje na nova criação. Ele atua no mundo inteiro, não só na Igreja (Jo 16.8); a queda quebrou o shalom em quatro dimensões; e o Espírito trabalha para recriar a imagem de Deus em nós e para libertar toda a criação, rumo a um novo céu e nova terra onde habita a justiça.

Gn 1.2

O Espírito na criação: dando vida ao princípio

“…e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2)

O verbo hebraico sugere a imagem de uma ave que choca, que incuba — o Espírito com uma participação ativa e vivificante na criação. Não é um espectador; é o agente que traz ordem ao caos e vida onde não havia. Por isso o salmista canta: “Envias o teu Espírito, e são criados, e renovas a face da terra” (Sl 104.30), e Jó confessa: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jó 33.4). A vida, em toda parte, tem a sua origem no sopro de Deus.

Jo 16.5-11

O Espírito age no mundo, não só na Igreja

Restringimos demais a ação do Espírito à esfera da Igreja. Mas Jesus diz que, ao vir, o Espírito “convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Ou seja, o Espírito trabalha no coração de pessoas que ainda não creram, preparando-as, despertando-as — a graça que vem antes (a graça preveniente). Ninguém pode conhecer a Deus sem a ação do Espírito no mundo. Ele é o mediador entre a ação de Deus e a criação e a história humana.

Gn 3

A queda e as quatro rupturas do shalom

A palavra shalom significa harmonia plena. A queda feriu quatro relações de uma só vez.

1

Com Deus — a comunhão se rompe; o ser humano se esconde (Gn 3.8).

2

Consigo mesmo — entram a vergonha e o medo (Gn 3.10).

3

Com o próximo — a acusação e a dominação (Gn 3.12,16).

4

Com a criação — a terra é submetida à frustração (Gn 3.17-18; Rm 8.20).

Uma leitura importante: quando Gn 3.16 diz que o homem “dominará” sobre a mulher, o texto é descritivo dos efeitos da queda, não prescritivo do desígnio de Deus. A dominação de um sobre o outro é fruto do pecado, uma ruptura da relação original — não o propósito de Deus, que criou homem e mulher à sua imagem, com o mesmo domínio (Gn 1.27-28). A obra do Espírito é justamente restaurar o que a queda quebrou.

Tt 3.5 · 2Co 3.18

A nova criação: recriar a imagem de Deus

O mesmo Espírito, a mesma obra

O Espírito que criou no princípio (Gn 1.2) é o que agora recria em Cristo (Jo 3.5; Mt 1.20). Criação e redenção não são planos rivais: a redenção é a restauração do propósito original de Deus para toda a realidade.

Jo 3.5 · Ef 1.10

Rm 8.18-27

A criação geme — e será libertada

“A criação aguarda, com ardente expectativa, a revelação dos filhos de Deus… na esperança de que a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção.” (Rm 8.19,21)

A criação inteira “geme e sofre dores de parto até agora” (Rm 8.22). Mas repare: são dores de parto — anunciam vida nova, não aniquilação. O Espírito, que é as “primícias” (Rm 8.23), é o penhor dessa libertação. O horizonte da fé não é a fuga para longe da matéria, e sim “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13). Deus não vai jogar fora a sua criação; vai renová-la.

Da doutrina à vida

Aplicações pastorais

1

Evangelize com coragem

O Espírito chega antes de você, convencendo o mundo (Jo 16.8). Você não planta em terreno abandonado, mas onde ele já está arando.

2

Busque a restauração do shalom

A obra do Espírito cura as quatro relações quebradas. Trabalhe pela reconciliação com Deus, consigo, com o próximo e com a criação.

3

Cuide da criação

A terra é obra do Espírito e alvo da redenção (Rm 8.21). Cuidar dela não é distração do evangelho; é sinal do Reino que vem.

4

Espere com os que gemem

Os gemidos de hoje são dores de parto (Rm 8.22-23). Sofra com esperança, sabendo que o Espírito conduz tudo à nova criação.

A pergunta desta aula alarga o coração: tenho limitado o Espírito à igreja — ou o reconheço agindo na criação inteira, rumo à sua renovação?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Costumamos falar do Espírito só dentro da igreja. O que muda quando percebemos que ele age no mundo — na criação inteira e mesmo antes da conversão das pessoas?Ver resposta sugerida
Muda a nossa visão de missão e a nossa esperança. Se o Espírito age só dentro dos muros da igreja, então tudo lá fora está entregue às trevas e nada temos a ver com o mundo. Mas a Escritura começa mostrando o Espírito “pairando sobre as águas” na criação (Gn 1.2) e Jesus diz que ele “convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8) — ou seja, o Espírito já está trabalhando no coração de pessoas que ainda nem creram, e na criação inteira. Restringimos demais a sua ação. Isso me dá coragem para evangelizar (o Espírito chegou antes de mim), respeito pela criação (ela é obra dele e será redimida) e esperança diante do caos do mundo: o mesmo Espírito que ordenou o caos no princípio continua agindo para restaurar todas as coisas. A fé cristã não foge do mundo; anuncia que o Espírito o está reconquistando.
Alguém diz: “Deus vai destruir este mundo e nos levar para o céu, então não importa o que aconteça com a Terra ou com a sociedade”. Como você responderia à luz da obra do Espírito na criação?Ver resposta sugerida
Eu mostraria que o plano de Deus não é abandonar a criação, mas renová-la. Paulo diz que “a criação aguarda ansiosamente” e será “libertada do cativeiro da corrupção”, gemendo em dores de parto (Rm 8.19-22) — dores de parto anunciam vida nova, não aniquilação. O horizonte da fé é “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13). E a regeneração que o Espírito opera em nós é a mesma lógica em miniatura: recriar a imagem de Deus (2Co 3.18; Tt 3.5), restaurar o shalom quebrado pela queda — a harmonia com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a criação. Por isso o cuidado com a pessoa integral, com a justiça e com a criação não é distração do evangelho; é sinal do Reino que vem. Quem crê que o Espírito renova a face da terra (Sl 104.30) não cruza os braços diante do mundo; colabora, na esperança, com a obra restauradora de Deus.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Gênesis 1—3 e Romanos 8.18-27 lado a lado, anotando o que o Espírito faz na criação e o que fará na nova criação; depois, escrever um parágrafo sobre uma das quatro dimensões do shalom (com Deus, consigo, com o próximo ou com a criação) que você precisa ver restaurada, e um passo concreto rumo a isso.

Aula seguinte

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Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello