Para que a Igreja existe?
E qual é a sua relação com o Reino de Deus?
“Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela.”Efésios 5.25 · NAA
Para começar
Esta aula fecha o bloco de Eclesiologia: depois de saber quem a Igreja é, como ela é e como funciona, perguntamos para que ela existe — e como responder aos desafios do nosso tempo.
E qual é a sua relação com o Reino de Deus?
Como responder ao número crescente dos que abandonaram a igreja — e ao impacto dos escândalos?
E o que significa, para o líder, amar a Igreja como Cristo a amou?
Um tema pastoral antes de ser acadêmico: quase todos nós conhecemos pessoalmente alguém que professa fé, mas abandonou a igreja. Esta aula é para essas conversas.
Roteiro da aula
Agência do Reino; missio Dei; comunidade contracultural.
Causas, resposta bíblica e palavra aos feridos.
Plantação de igrejas a partir dos lares: pessoas de paz e leigos.
Amar a Igreja como Cristo a amou — e ser exemplo em tudo.
Parada 1
O Reino é o governo soberano de Deus, inaugurado em Cristo (Mc 1.15) e consumado na sua vinda — maior que a Igreja.
A ela foram confiadas “as chaves do Reino” (Mt 16.19), e sobre ela o Espírito foi derramado (At 2.1-4, 17).
Justiça, paz, reconciliação, libertação, vida e alegria — os sinais do Rei presentes na comunidade do Rei.
Entre a inauguração e a consumação, a Igreja é comunidade do Rei em território contestado.
Dois erros a evitar: identificar igreja e Reino (triunfalismo institucional) e viver uma igreja sem Reino (clube religioso). A Igreja serve ao Reino, anuncia o Reino e demonstra o Reino — sem possuí-lo.
Parada 1
“Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês. E… soprou sobre eles e disse: Recebam o Espírito Santo.” (Jo 20.21-22)
Evangelização e discipulado: “façam discípulos de todas as nações, batizando-os… ensinando-os” (Mt 28.18-20) — a Grande Comissão é fazer discípulos, não só decisões.
Testemunho no poder do Espírito: “receberão poder… e serão minhas testemunhas” (At 1.8) — de Jerusalém aos confins: geografia e coragem.
Justiça e misericórdia: “pratique a justiça, ame a misericórdia” (Mq 6.8; Tg 1.27) — o serviço aos pobres não é apêndice do Evangelho.
As duas mãos do mesmo amor: evangelização e ação social não competem — palavra e obra, lábios e mãos, como em Jesus (At 10.38).
A ordem trinitária da missão: o Pai envia o Filho; o Pai e o Filho enviam o Espírito; o Deus trino envia a Igreja. A missão não é uma atividade da Igreja — a Igreja é que é um instrumento da missão de Deus.
Parada 1
Preserva e dá sabor — mas “se o sal se tornar insípido… para nada mais presta” (Mt 5.13). O perigo do sal é dessorar.
“Cidade edificada sobre um monte não pode ficar escondida” (Mt 5.14-16). O perigo da luz é o alqueire: esconder-se.
Jesus não pede que sejamos tirados do mundo (Jo 17.15): fuga e muros altos negam a vocação do sal.
“Não vivam conforme os padrões deste mundo” (Rm 12.2): desafia-se o pecado da cultura, não a cultura em si.
A fórmula de João 17.14-18: no mundo (presença), não do mundo (santidade), enviados ao mundo (missão). A igreja contracultural não é “do contra” — é do Reino.
Parada 2
Autoritarismo, manipulação e abuso espiritual deixaram cicatrizes verdadeiras — que exigem escuta, não deboche.
Líderes caídos e a fé transformada em negócio corroeram a confiança nas instituições.
“Eu e Deus” sem corpo: a fé virou item de consumo privado, escolhido e descartado como assinatura.
Cultos on-line e conteúdo cristão sem vínculo: alimenta-se a alma sem nunca pertencer a um corpo.
A ordem pastoral: lágrimas antes de argumentos. O pastor sábio não responde com culpabilização rasa: primeiro se ouve e se reconhece o pecado da igreja institucional; depois — e só depois — se apresenta a visão bíblica.
Parada 2 · Resposta bíblica
“Pois em um só Espírito todos nós fomos batizados em um corpo.” (1Co 12.13)
Salvador do corpo: “Cristo é o cabeça da igreja, sendo ele mesmo o salvador do corpo” (Ef 5.23) — a salvação nos incorpora, não nos isola.
Comprada com sangue: ele adquiriu a igreja “com o seu próprio sangue” (At 20.28) — desprezar a Igreja é desprezar o preço pago.
A lógica da arca: como nos dias de Noé, a salvação é um lugar compartilhado — entra-se na arca com a família de Deus; ninguém flutua sozinho.
Sem cristão avulso: em Atos, o Senhor “acrescentava os que iam sendo salvos” (At 2.47) — ser salvo e ser acrescentado são inseparáveis.
A gramática comunitária
Amar (Jo 13.34-35), perdoar e suportar (Cl 3.13), edificar e exortar (Hb 3.13; 10.24), servir (Gl 5.13): são mais de trinta “uns aos outros” no Novo Testamento — e nenhum deles é praticável sozinho, diante de uma tela. E há a ordem explícita: “não deixemos de nos congregar” (Hb 10.25).
O Espírito e a reunião
Foi sobre a comunidade reunida que o Espírito veio no Pentecostes (At 2.1): quem é cheio do Espírito deseja estar com o povo de Deus. “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos… ali o Senhor ordena a bênção e a vida” (Sl 133.1-3).
Cuidado teológico: não estamos dizendo que a instituição salva — Cristo salva. Mas o Cristo que salva incorpora ao seu corpo: cristianismo sem igreja é anatomia sem corpo.
Parada 2 · Resposta bíblica
Um traidor entre os Doze — e nem por isso Jesus dissolveu o colégio apostólico. Iscariotes são pedra de tropeço; não são a Igreja.
O joio cresce com o trigo (Mt 13.24-30): arrancá-lo antes do tempo fere o trigo; fingir que não existe apodrece o campo.
“Os que praticam a iniquidade” serão lançados fora, no tempo de Deus (Mt 13.41-43) — a justiça não falhará.
A validade da graça repousa em Cristo, não na perfeição do ministro: o fracasso de um homem não desmente o Evangelho.
Honestidade: escândalo se trata com verdade, processo e disciplina (Mt 18.15-17) — nunca com abafamento “para proteger a obra”. O que anula o testemunho não é o pecado exposto, é o pecado acobertado.
Parada 3 · Multiplicação
“Ao entrarem numa casa, digam primeiro: Paz seja nesta casa! Se houver ali um filho da paz, a paz de vocês repousará sobre ele.” (Lc 10.5-6)
Aquela a quem Deus, pela graça preveniente, já preparou o coração: recebe o mensageiro e abre a casa.
Não um indivíduo isolado, mas toda uma rede de relacionamentos: família, vizinhos, amigos — o oikos.
Não com terreno, templo e som — com um lar aberto, uma mesa e o Evangelho anunciado.
A graça preveniente já trabalha antes de chegarmos: missão é discernir onde Deus já está agindo — e juntar-se a ele.
Parada 3
At 10
Reúne “parentes e amigos íntimos” em casa; o Espírito cai, e ali nasce a igreja entre os gentios (At 10.24, 44-48).
At 16
O Senhor lhe abre o coração; ela abre a casa — e a igreja de Filipos nasce na sala dela (At 16.14-15, 40).
At 16
Crê “com todos os de sua casa”, à meia-noite, com feridas lavadas e mesa posta (At 16.31-34).
Rm 16 e outras
“A igreja que se reúne na casa deles” (Rm 16.3-5; 1Co 16.19); Ninfa (Cl 4.15); Filemom (Fm 1-2); Gaio, “hospedeiro de toda a igreja” (Rm 16.23).
Por quase três séculos o cristianismo cresceu essencialmente assim: de casa em casa (At 2.46; 5.42; 20.20) — sem templos, sem orçamento, sem equipamento. O que havia: lares, mesas e discípulos.
Parada 3
Prédio, som e orçamento não fazem igreja: discípulos fazem. Estruturas vêm depois, se e quando necessárias.
Evangelizar a casa da pessoa de paz, ensinar a sã doutrina e confiar “a homens fiéis e idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2; At 2.42).
“Constituísse presbíteros de cidade em cidade” (Tt 1.5; At 14.21-23) — sob supervisão conexional, contra heresia e personalismo.
Sociedades, classes e bandas em casas e salões simples, multiplicadas por leigos: Wesley ordenou poucos — e mobilizou milhares.
Orar e mapear: onde Deus já levantou pessoas de paz — na vizinhança, no trabalho, na família?
Entrar na casa: evangelizar a pessoa e sua rede de relacionamentos, não indivíduos isolados.
Formar o grupo: culto doméstico com Palavra, oração, comunhão e mesa (At 2.42, 46).
Discipular e treinar na sã doutrina, com material adequado e acompanhamento pastoral.
Constituir liderança local testada (1Tm 3.10), mantendo o vínculo conexional.
Amadurecer o grupo para congregação — e, no tempo de Deus, para igreja que plantará outra.
Cada lar um posto missionário; cada membro um ministro; cada igreja uma base de envio. É o mesmo espírito das classes wesleyanas que hoje vivemos nos pequenos grupos de discipulado.
Parada 4
“Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para torná-la santa… igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga.” (Ef 5.25-27)
Amar a Deus sobre tudo: de todo o coração, alma e entendimento (Mt 22.37-38) — o fundamento de todos os amores.
Buscar primeiro o Reino: “e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6.33).
Amar a Igreja como Cristo: o primeiro campo em que o amor ao próximo se exercita — com entrega sacrificial (Ef 5.25).
Amar o próximo como a si: do interior da comunidade, o amor transborda para o mundo (Mt 22.39; Gl 6.10).
Quem inverte a ordem — ministério acima de Deus, ativismo acima da alma e da família — colhe esgotamento e ruína. Quem a observa descobre a promessa de Mt 6.33. O pastor trabalha pela santificação da Igreja porque Cristo se entregou para santificá-la.
Parada 4
Na contribuição generosa (2Co 9.7) e na pontualidade (Ec 3.1).
Na assiduidade (Hb 10.25) e na evangelização (Mt 28.19).
Na oração (1Ts 5.17) e no estudo diligente da Palavra (2Tm 2.15).
Na paixão pela obra de Deus (Rm 12.11) e na integridade (Dn 6.4).
No perdão (Ef 4.32), na hospitalidade (1Pe 4.9) e no cuidado da própria família (1Tm 3.4-5).
Tudo com alegria: quando amamos, o fardo é leve e o jugo, suave (Mt 11.28-30).
“Torne-se você um exemplo para os fiéis” (1Tm 4.12): o rebanho aprende a amar o que vê o pastor amando. Somos despenseiros da multiforme graça de Deus — “o que se requer é que cada um seja encontrado fiel” (1Co 4.2; 1Pe 4.10).
Síntese da aula — e do bloco
O arco das quatro aulas
A missão: agência do Reino — evangelho e justiça, sal e luz, sem sectarismo nem diluição. Os desigrejados: escuta e verdade — a arca, os “uns aos outros”, e escândalos que não anulam a noiva. A multiplicação: de lar em lar, por pessoas de paz e leigos discipulados — o recurso maior são pessoas. O coração: amar a Igreja como Cristo a amou, na ordem certa e com exemplo em tudo. O resultado: “o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.47) — “assim brilhe a luz de vocês diante das pessoas, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.16). E o arco completo: a natureza (quem ela é), Atos 2 e as marcas (como ela é), governo e dons (como ela funciona), missão (para que ela existe).
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Aula em vídeo
Assista à aula em vídeo correspondente a este estudo.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello