O que eu faço quando descubro que algo importante está em ruínas: lamento, culpo os outros ou assumo a minha parte?
“Se for do agrado do rei, e se este seu servo encontrou favor em sua presença, peço que o rei me envie a Judá, à cidade onde estão os túmulos dos meus pais, para que eu a reconstrua.”Neemias 2.5 (NAA)
Para começar
Antes de entrar no texto, guarde três perguntas. Elas vão nos acompanhar do palácio da Pérsia aos muros de Jerusalém.
O que eu faço quando descubro que algo importante está em ruínas: lamento, culpo os outros ou assumo a minha parte?
A minha oração muda a minha ação, ou eu oro de um jeito e vivo de outro?
Diante de uma crise, eu paro para entender o problema antes de sair propondo soluções?
Neemias responde a essas perguntas com a própria vida. Ele chora, ora e age (Ne 1.4; 2.5). Vamos acompanhá-lo.
O ponto de partida
Neemias estava vivendo confortavelmente como copeiro do grande rei persa Artaxerxes (Ne 1.11; 2.1). Mas, ao ouvir que seu povo e cidade estavam em grande miséria e ruína, ele se entristeceu profundamente (Ne 1.4; 2.2-3).
O lamento de Neemias não é de um desesperado, conformista, fatalista, ou do murmurador, que já entregou os pontos e que agora está com espírito de autocomiseração engrossando o cordão das carpideiras. Neemias, movido por compaixão, chora e ora a Deus, buscando uma solução. Neemias se coloca como um instrumento nas mãos de Deus, como um agente transformador da realidade. Ele chora, ora e age!
Na cidadela de Susã, capital de inverno do império persa, no mês de quisleu do vigésimo ano de Artaxerxes, por volta de 445 a.C. (Ne 1.1). Copeiro era cargo de confiança: quem provava o vinho do rei tinha a vida do rei nas mãos e o ouvido do rei ao alcance (Ne 1.11).
Hanani, seu irmão, chegou de Judá com outros homens, e Neemias perguntou pelos sobreviventes e por Jerusalém. A resposta: “estão em grande miséria e humilhação. As muralhas de Jerusalém continuam em ruínas, e os seus portões foram destruídos pelo fogo” (Ne 1.2-3).
Fazia quase um século e meio que Nabucodonosor derrubara os muros (586 a.C.). O templo já tinha sido reconstruído havia décadas, e Esdras já ensinava a Lei em Jerusalém, mas a cidade continuava indefesa, exposta a qualquer inimigo, e os judeus que ali viviam eram motivo de desprezo entre os vizinhos. Uma tentativa recente de reerguer os muros havia sido interrompida por ordem do próprio Artaxerxes (Ed 4.12-23). Era essa a notícia que chegou a Neemias. Repare que ele perguntou. Muita gente não sabe da ruína porque nunca perguntou.
Guarde isto
Estar bem não é desculpa para ignorar quem está mal. A compaixão de Neemias começa exatamente onde muitos se acomodam. João pergunta: “se alguém possui recursos deste mundo e vê seu irmão passar necessidade, mas fecha o coração para essa pessoa, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1Jo 3.17). Neemias tinha recursos, posição e conforto, e não fechou o coração.
Ne 1.2-4; 1Jo 3.17-18
O método de Neemias
“Quando ouvi estas palavras, eu me sentei, chorei e lamentei por alguns dias. Fiquei jejuando e orando diante do Deus dos céus” (Ne 1.4).
Diante de tamanha crise, Neemias não fica buscando culpados, que é uma atitude comum daqueles que se autojustificam. Nem tampouco fica olhando em volta à espera de que alguém faça alguma coisa, ou seja, ele não transfere para os outros a responsabilidade. Neemias assume o fardo, pois quer tornar-se parte da solução: “peço-te que me envies…” (Ne 2.5).
Princípio
Jesus, ao se compadecer das multidões, mandou orar pedindo trabalhadores (Mt 9.37-38) e, logo em seguida, enviou os próprios discípulos que oravam (Mt 10.1-5). Em Neemias acontece o mesmo: o homem que orou pedindo misericórdia foi o homem enviado para levá-la. “A fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg 2.17).
Mt 9.36-38; Tg 2.17; Ne 1.4; 2.5
O segredo da força
Neemias era um homem de oração. Ele ora nos momentos de crise (Ne 1.4), ora para confessar pecados (Ne 1.6), ora quando está sendo perseguido (Ne 4.4) e ora diante da tentação (Ne 6.9).
Ora nos momentos de crise, ao receber a notícia da ruína (Ne 1.4).
Ora para confessar pecados, os seus e os do povo (Ne 1.6-7).
Ora quando está sendo perseguido e zombado (Ne 4.4-5, 9).
Ora diante da tentação do medo e da calúnia: “fortalece as minhas mãos” (Ne 6.9).
Antes de falar com o rei, Neemias fala com Deus (Ne 1.11; 2.4). Antes de reformar os muros de Jerusalém, ele buscava a reforma dos muros de seu próprio coração. Neemias confessa pecados e clama pela misericórdia divina (Ne 1.4-10). Orava e agia, fazendo aquilo que estava ao seu alcance. Neemias orava e vigiava (Ne 4.9)!
A oração do capítulo 1 merece ser lida devagar, porque é um modelo. Veja a ordem dela:
E há ainda aquela oração curtíssima, no meio da conversa com o rei: “Então orei ao Deus dos céus e disse ao rei” (Ne 2.4-5). Entre a pergunta de Artaxerxes e a resposta de Neemias coube uma oração. Quatro meses de oração longa prepararam um segundo de oração relâmpago. Quem ora muito no escondido sabe orar rápido no aperto.
O rosto de um servo
O rei reparou que Neemias estava triste, o que lhe despertou a atenção, pois nunca o havia visto entristecido anteriormente.
Pois Neemias era um homem alegre, disposto, cheio de fé e amor, que são frutos do Espírito Santo (Gl 5.22-23). Era mesmo de se estranhar que estivesse triste! O próprio texto diz: “nunca antes eu tinha estado triste diante dele” (Ne 2.1). E o rei percebeu na hora: “Por que o seu rosto está triste, se você não está doente? Isso tem de ser tristeza do coração!” (Ne 2.2).
Um servo do Deus vivo, mesmo exilado e servindo a um rei pagão, era conhecido pelo semblante alegre. A alegria de Neemias não dependia das circunstâncias; ele mesmo diria depois ao povo que “a alegria do Senhor é a força de vocês” (Ne 8.10).
Mas há tristeza santa. Neemias não escondeu a dor pela cidade de Deus, mesmo correndo risco: “fiquei com muito medo” (Ne 2.3), porque mostrar tristeza diante do rei persa podia ser entendido como descontentamento com o rei. Ele arriscou o cargo, e talvez a vida, por amor a Jerusalém.
Note que foi a tristeza sincera que abriu a conversa. Neemias não pediu audiência, não fez discurso; o rei perguntou. Quando Deus prepara o caminho, muitas vezes Ele faz a autoridade fazer a pergunta certa.
Compaixão prudente
Movido por compaixão, Neemias toma uma atitude, respeitando as autoridades constituídas (Ne 2.5-9), ciente de que Deus, que o estava movendo, também moveria o coração das autoridades (Ne 1.11).
Com certeza, o fato de Neemias ter sido um funcionário íntegro e leal durante todo o período em que serviu no palácio colaborou para que o rei fosse simpático a cada uma das suas solicitações (Ne 2.8). Neemias nunca foi um homem rebelde. Certa feita, seus opositores tentaram acusá-lo de rebeldia (Ne 2.19), mas tal acusação se provou infundada, pois Neemias possuía uma carta de autorização assinada pelo próprio rei Artaxerxes (Ne 2.7-8).
Há um detalhe que torna tudo mais impressionante: foi o próprio Artaxerxes quem, anos antes, mandara parar a reconstrução dos muros, por causa de uma carta que acusava Jerusalém de ser “cidade rebelde e má” (Ed 4.12, 21-23). Neemias estava pedindo ao rei que revogasse a própria decisão. Por isso ele orou antes de abrir a boca (Ne 2.4). E o rei não só autorizou: perguntou quanto tempo levaria, deu cartas para os governadores, madeira das florestas reais e até escolta militar (Ne 2.6-9). “O rei me deu o que eu pedi, porque a mão bondosa do meu Deus estava sobre mim” (Ne 2.8).
Princípio
A integridade de anos preparou a porta de um único pedido. Deus costuma mover autoridades a favor de quem já é fiel onde está: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito” (Lc 16.10). Como Daniel, que orava com as janelas abertas para Jerusalém enquanto servia a reis estrangeiros (Dn 6.10), Neemias mostra que é possível servir a um rei pagão com lealdade e, ao mesmo tempo, ter o coração inteiro na cidade de Deus.
Ne 2.5-9; Lc 16.10; Pv 21.1; Dn 6.10
Antes de propor, entender
A compaixão nos aproxima dos aflitos. Neemias deixa o palácio e viaja para onde está o problema.
Primeiramente, ele busca avaliar a situação in loco a fim de ter uma noção clara da dura realidade (Ne 2.13). Neemias não era exibicionista e nem afoito. Ele não chegou abalando em Jerusalém. Esperou três dias antes de tomar qualquer atitude (Ne 2.11). Ele começou com discrição, pois, a princípio, não compartilhou com ninguém os seus planos (Ne 2.12). Faz uma inspeção noturna para não chamar muita atenção (Ne 2.13). Uma avaliação cuidadosa é necessária, pois devemos entender o problema antes de propor soluções.
Três dias em silêncio antes de agir (Ne 2.11). Quem chega com pressa costuma errar o diagnóstico.
“Não declarei a ninguém o que o meu Deus havia posto no meu coração” (Ne 2.12). Nem aos judeus, nem aos sacerdotes, nem aos nobres, nem aos magistrados (Ne 2.16). Plano anunciado cedo demais vira alvo cedo demais.
Saiu de noite, com poucos homens e um só animal, pelo Portão do Vale, passou pela Fonte do Dragão e pelo Portão do Monturo, chegou ao Portão da Fonte e ao Tanque do Rei, e ali a ruína era tanta que o animal não conseguia passar (Ne 2.13-14). Ele viu com os próprios olhos o tamanho do problema.
Só depois de ver é que falou: “Vocês estão vendo a miséria em que nós estamos” (Ne 2.17). Quem avaliou bem fala com autoridade, porque fala do que viu.
Repare na expressão “o que o meu Deus havia posto no meu coração para eu fazer em Jerusalém” (Ne 2.12). O projeto nasceu em oração, foi confirmado pela porta aberta no palácio e agora era medido no terreno. Visão de Deus não dispensa levantamento de campo.
O gancho para a próxima aula
Diante da contemplação da calamidade, Neemias não desanima, pois sua fé em Deus o torna otimista em relação ao futuro.
Assim, ele, estrategicamente, busca recursos e promove uma mobilização, motivando a todos para, unidos, reconstruírem os muros da cidade (Ne 2.17-18). O recrutamento se faz necessário, pois ninguém constrói muralhas sozinho. A visão, a fé e o entusiasmo de Neemias são contagiantes! O povo responde ao chamado dizendo: “Vamos nos preparar e começar a reconstrução!” (Ne 2.18). E o povo cumpriu o que prometeu (Ne 6.15).
Observe como ele fez o convite. Primeiro, nomeou o problema sem rodeios: “Jerusalém em ruínas e os seus portões destruídos pelo fogo” (Ne 2.17). Depois, deu o motivo: “para nos livrarmos desta vergonha”. Em seguida, contou o que Deus já tinha feito, “como a mão bondosa do meu Deus havia estado sobre mim”, e o que o rei tinha autorizado (Ne 2.18). Só então o povo respondeu. Ele não os convocou para um sonho dele, mas para uma obra que Deus já estava visivelmente abençoando. E, quando a zombaria veio, a resposta foi a mesma que sustentou tudo: “O Deus dos céus é quem fará com que sejamos bem-sucedidos” (Ne 2.20).
Para a vida
Pergunte pela ruína. Neemias soube porque perguntou (Ne 1.2). Interesse-se pela situação real da sua igreja, da sua família, da sua cidade.
Diante de uma ruína, não terceirize a culpa nem espere que outro comece. Ore como Neemias: “Senhor, envia a mim” (Ne 2.5).
Una oração e ação. Ore como se tudo dependesse de Deus e trabalhe como quem confia que Ele age. Neemias orava e vigiava (Ne 4.9).
Ore com a Bíblia aberta e inclua-se na confissão. “Temos procedido de forma corrupta”, disse ele, e não “eles” (Ne 1.6-9).
Respeite as autoridades e planeje. Peça com reverência, saiba o que pedir e dê a glória a Deus pela porta aberta (Ne 2.5-8; Rm 13.7).
Avalie antes de propor. Espere, observe, entenda o tamanho do problema e só então convoque (Ne 2.11-17). Zelo sem sabedoria atrapalha a obra.
Fixação
Toque em cada cartão para virar. Comece pelo versículo e siga pelos conceitos da aula.
Avaliação
Cinco perguntas com correção imediata. Ao escolher, você vê na hora o acerto, a alternativa certa e um comentário que ensina.
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Para orar e responder
Há alguma situação que me entristece de longe, mas que eu ainda não levei a sério diante de Deus? Peça a Deus um coração como o de Neemias: que sinta, ore e se disponha a agir.
Resposta sugerida: reconhecer uma área concreta (um filho, um irmão na fé, um ministério, um vizinho), levar a Deus em oração por alguns dias seguidos, como Neemias fez, e dar o primeiro passo prático nesta semana, ainda que pequeno (Ne 1.4; 2.5).
Alguns opõem oração e ação, como se uma dispensasse a outra: ou se diz que “quem ora não precisa se mexer”, ou que “quem se mexe não precisa orar”. Como responder com mansidão?
Resposta sugerida: em Neemias as duas caminham juntas: “nós oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guarda” (Ne 4.9). Quatro meses de oração precederam o pedido ao rei, e o pedido foi feito com plano pronto (Ne 1.1; 2.1, 6-8). A oração não substitui o trabalho; ela o sustenta e direciona. Fé viva produz obras (Tg 2.17), e o crente age porque confia, não em vez de confiar.
Quando eu oro por uma situação difícil, começo pela grandeza de Deus ou pelo tamanho do problema? Confesso “nós” ou acuso “eles”? Oro com as promessas da Bíblia ou só com os meus desejos?
Resposta sugerida: usar Ne 1.5-11 como roteiro durante uma semana: adoração (v. 5), confissão em primeira pessoa (v. 6-7), promessa de Deus lembrada (v. 8-9), o que Deus já fez (v. 10) e um pedido concreto para hoje (v. 11).
Neemias mostra que compaixão verdadeira chora, ora e age. Ele não busca culpados nem espera outros: assume o fardo e se torna parte da solução (Ne 1.4; 2.5).
Antes dos muros da cidade, ele cuida dos muros do coração; antes de falar ao rei, fala com Deus; antes de convocar o povo, inspeciona a ruína. Oração, respeito e prudência sustentam a ação (Ne 1.11; 2.4, 11-17).
Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências na versão Nova Almeida Atualizada (NAA).