Siquém — reparou-a, ampliou-a e fortificou-a; pois havia muito fora arruinada (Jz 9.45). Escolheu-a como lugar auspicioso — ali se lançara o fundamento da sua monarquia — e cômodo, por ficar perto das fronteiras do seu reino. Penuel — lugar além do Jordão, para assegurar aquela parte dos seus domínios.
Disse [v. 26] — arrazoou consigo mesmo. A expressão revela a fonte do seu erro: não consultou a Deus, que lhe dera o reino — como em toda razão, justiça e gratidão devia ter feito —, nem creu na promessa de Deus (1Rs 11.38), mas na sua própria política carnal.
Se tornará [v. 27] — o que em si podia parecer conjectura prudente: isso daria a Roboão, aos sacerdotes e aos levitas — amigos seguros e fiéis da casa de Davi — muitas oportunidades de alienar dele os ânimos e reconduzi-los à antiga lealdade. Mas, considerando a providência de Deus, pela qual são governados os corações de todos os homens e os negócios de todos os reinos — e da qual acabara de ver instância tão eminente —, foi caminho tão louco quanto ímpio.
Bezerros [v. 28] — à imitação do bezerro de ouro de Arão, e dos egípcios, donde havia pouco viera. E tanto mais se atreveu a fazê-lo porque sabia que o povo de Israel era geralmente propenso à idolatria, e que o exemplo de Salomão fortalecera excessivamente essas inclinações; estavam, pois, preparados para tal tentativa — especialmente quando a sua proposta tendia ao próprio descanso, segurança e proveito deles, que ele sabia serem-lhes muito mais caros, como a ele próprio, do que a sua religião. Demais para vós — trabalho e despesa grandes demais, nem necessários nem seguros para eles, no estado presente das coisas. Eis os teus deuses — não que pensasse persuadir o povo de que aqueles bezerros eram o próprio Deus de Israel que os tirara do Egito — coisa tão monstruosamente absurda e ridícula que nenhum israelita em seu juízo podia crê-la, e que, longe de satisfazer o povo, o teria feito odioso e desprezível aos seus olhos. O seu intento era que aquelas imagens fossem representações visíveis pelas quais tencionava adorar o verdadeiro Deus de Israel — como se vê, em parte, do lugar paralelo (Êx 32.4); em parte, porque dos sacerdotes e adoradores dos bezerros se diz que adoravam o SENHOR, distinguindo-se por isso dos de Baal (1Rs 18.21; 22.6-7); e em parte, do desígnio de Jeroboão nesta obra: aquietar o ânimo do povo e remover-lhe os escrúpulos de ir adorar a Deus em Jerusalém, como fora ordenado. O que faz dando-lhes a entender que não intentava alteração alguma na substância da sua religião, nem afastá-los do culto do Deus verdadeiro para o culto de algum dos baalins levantados por Salomão, mas adorar o mesmíssimo Deus que adoravam em Jerusalém, o Deus verdadeiro que os tirara do Egito — variando apenas uma circunstância: como adoravam a Deus em Jerusalém diante de um sinal visível, a arca e os sagrados querubins, assim os seus súditos adorariam a Deus diante de outro sinal visível, o dos bezerros, noutros lugares. E quanto à mudança de lugar, podia sugerir-lhes que Deus está presente em todos os lugares onde homens de reto ânimo o invocam; que, antes de edificado o templo, os melhores reis, profetas e povo oravam e sacrificavam a Deus em vários altos, sem escrúpulo algum; e que Deus os dispensaria também nessa matéria, porque ir a Jerusalém lhes era então perigoso — e Deus quer misericórdia antes que sacrifício.
Betel... [v. 29] — dois lugares que escolheu pela conveniência do povo: Betel na parte sul, Dã na parte norte do seu reino.
Pecado [v. 30] — isto é, ocasião de grande maldade: não só da idolatria, que por eminência se chama pecado; nem só do culto dos bezerros, no qual pretendiam adorar o Deus verdadeiro; mas também do culto de Baal, do total abandono do Deus verdadeiro e de toda sorte de impiedade. Até Dã — que não se menciona aqui exclusivamente, pois iam também a Betel (v. 32-33), mas por outras razões: ou porque o de Dã foi feito primeiro, estando o povo daquelas partes há muito levedado com a idolatria (Jz 18.30); ou para mostrar a prontidão e o zelo do povo pelos ídolos — que os que moravam em Betel ou perto dela não tiveram paciência de esperar que aquele bezerro se acabasse, mas todos se dispunham a ir até Dã, nos confins extremos da terra, para ali adorar um ídolo; quando lhes parecia demais ir a Jerusalém para adorar a Deus.
Casas [v. 31] — casas ou capelas, além dos templos edificados em Dã e Betel: para melhor comodidade do povo, edificou também templos menores sobre vários altos. Dentre o povo todo — o que podia fazer: primeiro, porque os de melhor condição recusavam; segundo, porque os tais se contentariam com côngruas modestas, podendo ele meter na própria bolsa grande parte das rendas dos levitas — das quais sem dúvida se apossou quando o abandonaram e foram para Jerusalém (2Cr 11.13-14); terceiro, porque pessoas humildes dependeriam do seu favor, e por isso seriam dóceis ao seu humor e firmes no seu interesse. Mas as palavras no hebraico significam propriamente dos confins do povo, o que se pode traduzir: dentre todo o povo, indistintamente de cada tribo. Exposição que parece confirmada pelas palavras seguintes, acrescentadas para explicar estas: que não eram dos filhos de Levi. E este era de fato o pecado de Jeroboão: não escolher pessoas humildes — pois alguns levitas o eram, e o seu pecado não teria sido menor se escolhesse as pessoas mais nobres e grandes, como se vê no exemplo de Uzias —, mas escolher homens de outras tribos, contra a ordenação de Deus, que restringia aquele ofício àquela tribo. Levi — à qual aquele ofício estava confinado por ordem expressa de Deus.
Uma festa [v. 32] — a festa dos tabernáculos. Guardaria, pois, a festa de Deus, mas não no tempo de Deus — que era o dia quinze do sétimo mês em diante (Lv 23.34) —, e sim no dia quinze do oitavo mês. E fez esta alteração: primeiro, para manter a diferença entre os seus súditos e os de Judá, tanto pelos modos diversos como pelos tempos distintos do culto; segundo, para não parecer opor-se diretamente ao Deus de Israel (que de modo especial obrigara todo o povo a subir a Jerusalém naquele tempo), exigindo a presença deles para celebrar a festa noutro lugar ao mesmo tempo; terceiro, para atrair à sua festa quantos pudesse — o que fariam de melhor vontade passada a festa de Jerusalém e perfeitamente recolhidos todos os frutos da terra. Dia quinze — e daí em diante, até acabarem os sete dias. Como a festa de Judá — tomou dali o seu modelo, para mostrar que adorava o mesmo Deus e professava, quanto à substância, a mesma religião que eles, embora diferisse nas circunstâncias. Ofereceu — ou pelos seus sacerdotes, ou antes pelas próprias mãos, como se vê de 1Rs 13.1,4; o que fez para dar mais prestígio à sua solenidade recém-inventada. Nem isto é estranho: podia plausivelmente pensar que quem por autoridade própria fizera outros sacerdotes bem podia exercer parte daquele ofício, ao menos em ocasião extraordinária — caso em que sabia que o próprio Davi fizera coisas que de outro modo não poderia fazer. Assim fez — ele mesmo ofereceu ali, do mesmo modo que fizera em Dã.
Inventara [v. 33] — que designou sem autorização alguma de Deus.