Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

InícioAntigo Testamento2 Reis → Capítulo 2

2 Reis 2

Referências: 2Reis 2.12Reis 2.22Reis 2.32Reis 2.72Reis 2.82Reis 2.92Reis 2.102Reis 2.112Reis 2.122Reis 2.132Reis 2.142Reis 2.152Reis 2.162Reis 2.172Reis 2.192Reis 2.202Reis 2.212Reis 2.232Reis 2.24

Introdução ao capítulo

Eliseu apega-se a Elias e atravessa com ele o Jordão (v. 1-8); Elias é arrebatado, e Eliseu lamenta a sua perda (v. 9-12); Eliseu divide o Jordão (v. 13-14); é reconhecido pelos discípulos dos profetas (v. 15), que mandam buscar Elias (v. 16-18); Eliseu sara as águas insalubres (v. 19-22); a destruição dos moços zombadores (v. 23-25).

2Reis 2.1 §

Nota de John Wesley

Quando o SENHOR estava para tomar... — supõe-se (embora não expressamente revelado) que Elias floresceu cerca de vinte anos antes de ser trasladado, corpo e alma, ao céu — passando apenas pela mudança necessária para o habilitar a morar naquele mundo dos espíritos. Trasladando-o, Deus deu, naquela era escura e degenerada, prova bem sensível de outra vida, juntamente com uma figura da ascensão de Cristo e da abertura do reino dos céus a todos os crentes.

Nota do editor

Dois homens na Escritura não viram a morte: Enoque, que 'andava com Deus' (Gn 5.24; Hb 11.5), e Elias — e a nota de Wesley acerta o alvo: numa era escura, Deus deu prova sensível de outra vida, e uma figura da ascensão de Cristo (At 1.9-11). O arrebatamento de Elias é também penhor da esperança dos que estiverem vivos na vinda do Senhor: 'seremos arrebatados... transformados' (1Ts 4.17; 1Co 15.51-52). E há um pormenor pastoral: antes de subir, Elias gastou o último dia visitando as escolas dos profetas — o homem que ia para a glória ocupou-se em consolidar quem ficava (Bet-el, Jericó, v. 2-6). Bem morre — ou bem sobe — quem termina servindo.

Temas: esperanca

2Reis 2.2 §

Nota de John Wesley

Fica aqui — isto ele pede: ou, primeiro, para que, deixado só, melhor se preparasse para a sua grande mudança; ou, segundo, por indulgência com Eliseu, para que não fosse esmagado de tristeza por espetáculo tão doloroso; ou, terceiro, para provar o seu amor e aguçar o seu desejo de o acompanhar — sendo mui conveniente à honra de Deus que houvesse testemunhas de trasladação tão gloriosa. A Betel — o que era verdade, embora não toda a verdade: pois devia fazer jornada muito mais longa. Mas devia primeiro ir a Betel, como também a Jericó, às escolas dos profetas dali, para lhes confortar e fortalecer o coração na obra de Deus, e dar-lhes os seus conselhos de despedida.

2Reis 2.3 §

Nota de John Wesley

E disseram — isto fora revelado a alguns dos discípulos dos profetas, e por eles a todo o colégio. No reino de Judá havia sacerdotes e levitas, e o serviço do templo. A falta destes no reino de Israel Deus graciosamente supriu por estes colégios, onde homens eram formados e empregados nos exercícios da religião, e aonde as pessoas piedosas acorriam para solenizar as festas designadas com oração e audição da palavra, embora não tivessem condições para sacrifício. De sobre a tua cabeça — expressão que pode referir-se ou ao modo de sentar nas escolas, onde o aluno se sentava aos pés do mestre, ou ao modo da trasladação de Elias, que seria por um poder enviado do céu para o levar até lá. Calai-vos — não agraveis a minha dor, nem me distraiais com conversas inoportunas. Fala como quem estava senhor de si, e queria que estivessem calmos e serenos, esperando o desfecho em silêncio reverente.

2Reis 2.7 §

Nota de John Wesley

Para ver — para observar aquele grande acontecimento, a trasladação de Elias ao céu, que esperavam a cada momento, e de que desejavam ser espectadores — não para satisfazer a curiosidade, mas para serem dele testemunhas perante outros.

2Reis 2.8 §

Nota de John Wesley

Feriu as águas — estas águas outrora cederam à arca, agora ao manto do profeta; o qual, para os que não tinham a arca, era penhor equivalente da presença de Deus. Quando Deus quer levar os seus filhos para si, a morte é o Jordão que devem atravessar; e eles acham caminho através dele — caminho seguro e consolador. A morte de Cristo dividiu aquelas águas, para que os resgatados do SENHOR passem.

Temas: esperanca

2Reis 2.9 §

Nota de John Wesley

Porção dobrada — ou antes, o dobro do que os demais discípulos dos profetas recebem a teu pedido. Alude à porção dobrada do primogênito (Dt 21.17). Mas, embora Eliseu não desejasse mais, Deus lhe deu mais do que desejou ou esperou; e parece ter tido porção maior dos dons do Espírito de Deus do que o próprio Elias.

Nota do editor

O pedido de Eliseu não foi ambição de superar o mestre: 'porção dobrada' é a linguagem do primogênito (Dt 21.17) — ele pedia ser reconhecido herdeiro do ministério, filho espiritual por excelência. E pediu a única coisa que Elias não podia dar: 'coisa difícil pediste' — só Deus transmite unção (2Rs 2.10). Que aviso para toda sucessão ministerial: manto se herda, Espírito se recebe do alto (Nm 11.25; At 8.20). A condição — 'se me vires quando for tomado' — prendia o discípulo à comunhão até o fim: quem quer o espírito do mestre não pode desgrudar os olhos dele na hora da partida (2Tm 3.10-11,14).

2Reis 2.10 §

Nota de John Wesley

Coisa difícil — bênção rara e singular, que não posso prometer-te; só Deus a pode dar, e dá-a somente quando e a quem lhe apraz. Se me vires — este sinal ele propôs, não sem a direção do Espírito de Deus, para com isso o empenhar a esperar com mais afinco, e a orar com mais fervor, por esta misericórdia.

2Reis 2.11 §

Nota de John Wesley

Um carro de fogo — nesta forma apareceram os anjos. As almas de todos os fiéis são levadas por uma guarda invisível de anjos ao seio de Abraão. Mas, devendo Elias levar consigo o corpo, esta guarda celestial apareceu visivelmente: não em forma humana — embora assim pudessem tê-lo levado nos braços —, mas em forma de carro e cavalos, para que fosse em estado, em triunfo, como príncipe, como vencedor. Veja-se a prontidão dos anjos em fazer a vontade de Deus, até nos serviços mais humildes, pelos herdeiros da salvação! Assim, aquele que ardera em santo zelo por Deus e pela sua honra foi agora conduzido em fogo à sua imediata presença.

2Reis 2.12 §

Nota de John Wesley

Meu pai — assim o chama pela sua afeição paternal para com ele, e pela autoridade paternal que sobre ele tinha; razão por que os alunos dos profetas são chamados seus filhos. Via a própria condição como a de órfão, e assim a lamenta. Carros de Israel... — tu que, pelo teu exemplo, conselhos, orações e poder com Deus, fizeste mais pela defesa e preservação de Israel do que todos os seus carros e cavaleiros. A expressão alude à forma de carros e cavalos que ele vira.

Nota do editor

'Meu pai, meu pai! Carros de Israel e seus cavaleiros!' (2Rs 2.12): o verdadeiro arsenal de uma nação era um homem de oração. Wesley traduz com exatidão: Elias valia mais para a defesa de Israel que toda a sua cavalaria — e os reis nunca souberam (o mesmo grito se repetirá à morte de Eliseu, 2Rs 13.14). Os poderes deste mundo contam tanques e orçamentos; Deus conta intercessores (Ez 22.30; Tg 5.16). Quando morre um justo que orava, a cidade perde mais defesa do que se desativasse um exército — e quase nunca sai no noticiário.

2Reis 2.13 §

Nota de John Wesley

Que caíra — assim o ordenando Deus para conforto de Eliseu e fortalecimento da sua fé, como penhor de que, junto com o manto de Elias, o seu espírito repousaria sobre ele. E o próprio Elias fora para um lugar onde não precisava do manto — nem para se adornar, nem para se abrigar do tempo, nem para nele envolver o rosto.

2Reis 2.14 §

Nota de John Wesley

O SENHOR — que a pedido de Elias dividiu estas águas, e é poderoso para o fazer de novo.

2Reis 2.15 §

Nota de John Wesley

Se inclinaram — eles haviam sido formados nas escolas; Eliseu fora tomado do arado. Contudo, ao perceberem que Deus estava com ele, e que este era o homem a quem ele queria honrar, prontamente se lhe submetem como cabeça e pai — como o povo a Josué, morto Moisés. Os que mostram ter consigo o Espírito e a presença de Deus devem ter a nossa estima e melhor afeição, não obstante a humildade da sua origem e educação.

2Reis 2.16 §

Nota de John Wesley

Homens valentes — capazes de tal jornada. Para que não... — pensavam ou que Deus não o tirara deles definitivamente, mas só por um tempo; ou que Deus lhe levara apenas a alma, e que o corpo fora lançado nalgum lugar — o qual desejavam buscar, para lhe dar sepultura honrosa.

2Reis 2.17 §

Nota de John Wesley

Se envergonhou — isto é, de lhes negar por mais tempo; para que não pensassem que a sua negativa procedia de desprezo pelo seu mestre, ou por eles.

2Reis 2.19 §

Nota de John Wesley

Estéril — ou o era originalmente — ao menos naquela parte da cidade onde estava o colégio dos profetas —, ou o ficou pela maldição de Deus infligida quando Hiel a reedificou. Contudo, pelo cuidado do profeta, tornou-se fertilíssima, e por isso é louvada pela sua fertilidade nos escritores posteriores.

2Reis 2.20 §

Nota de John Wesley

Um prato novo — para que nele não houvesse contaminação legal alguma que ofendesse a Deus e impedisse a sua operação milagrosa. Ponde sal — remédio dos mais impróprios: pois o sal naturalmente torna as águas salobras e as terras estéreis. Com isso, portanto, mostraria que aquilo se efetuava unicamente pelo poder divino, que pode operar sem os meios, ou contra eles.

Nota do editor

Jericó reconstruída sob maldição (1Rs 16.34) tinha águas que matavam e terra que abortava — e a cura veio por um prato novo com sal lançado na nascente (2Rs 2.19-22). O método é sermão: não se tratam águas mortas remendando o curso; trata-se a fonte (Mc 7.21-23 — 'do coração procedem...'). E o instrumento contradiz a lógica, para que a glória seja só de Deus — sal esteriliza, e ali sarou. É o padrão do evangelho: o meio fraco ou absurdo, o poder todo de Deus (1Co 1.21-25; 2Co 4.7). Onde Cristo é lançado na nascente de uma vida, 'não haverá mais morte nem esterilidade'.

2Reis 2.21 §

Nota de John Wesley

Morte — dano ou perigo, a homem ou animal, por beber dela.

2Reis 2.23 §

Nota de John Wesley

A Betel — à outra escola dos profetas, para os informar da trasladação de Elias e da sua sucessão no mesmo ofício, e para os dirigir, confortar e firmar. Meninos — ou, moços: como esta palavra hebraica muitas vezes significa. É mais que provável que tivessem idade bastante para discernir entre o bem e o mal. A cidade — Betel era a cidade-mãe da idolatria, onde os profetas se estabeleceram para testemunhar contra ela e dissuadir o povo — embora, ao que parece, com pouco êxito. Zombaram dele — com grande petulância e veemência, como a palavra significa: escarnecendo da sua pessoa e do seu ministério, por profano desprezo da verdadeira religião e amor apaixonado àquela idolatria que sabiam que ele combatia. Sobe — sobe ao céu, para onde pretendes que Elias foi. Por que não acompanhaste o teu amigo e mestre ao céu? Calvo — zombam assim da sua enfermidade natural, o que é grande pecado. A repetição mostra o seu empenho e ardor: não foi deslize súbito da língua, mas escárnio procedente de impiedade arraigada e ódio a Deus e aos seus profetas. E muito provavelmente era prática usual deles apupar os profetas quando passavam pelas ruas, para os expor ao desprezo e, se possível, expulsá-los da cidade. Se o insulto feito a Eliseu fosse a primeira ofensa do gênero, talvez não tivessem sido tão severamente castigados. Mas zombar dos mensageiros do SENHOR era um dos pecados clamorosos de Israel.

2Reis 2.24 §

Nota de John Wesley

Os amaldiçoou — nem foi este castigo grande demais para a ofensa, se se considerar: que a sua zombaria procedia de grande malignidade de ânimo contra Deus; que zombavam não só de um homem — e homem idoso, cuja própria idade impunha reverência — e de um profeta, mas do próprio Deus e daquela gloriosa obra de Deus, a assunção de Elias ao céu; que podiam ser culpados de muitos outros crimes graves, que Deus e o profeta conheciam; e eram culpados de idolatria, que pela lei de Deus merecia a morte; que os pais idólatras foram castigados nos filhos; e que, se alguns daqueles moços eram mais inocentes, Deus podia ter misericórdia das suas almas — e então esta morte não lhes foi miséria, mas verdadeira bênção, sendo tirados de uma educação que muito provavelmente os exporia não só à destruição temporal, mas à eterna. Em nome — não por paixão vingativa, mas pela moção do Espírito de Deus, e por ordem e comissão divinas. Deus fez isto, em parte, para terror e cautela de todos os demais idólatras e profanos que abundavam naquele lugar; em parte, para vindicar a honra e manter a autoridade dos seus profetas — particularmente de Eliseu, agora especialmente, no começo do seu sagrado ministério. Moços — esta palavra hebraica significa não só crianças pequenas, mas também os já crescidos (Gn 32.22; 34.4; 37.30; Rt 1.5).

Nota do editor

O episódio dos zombadores de Betel (2Rs 2.23-24) assusta o leitor moderno, e Wesley reúne os atenuantes certos: não eram criancinhas, mas moços da capital da idolatria; a zombaria ('sobe, calvo!') escarnecia da assunção de Elias — isto é, da obra de Deus; e a maldição não foi birra de profeta, mas juízo comissionado no começo de um ministério que precisava ser respeitado para salvar. Fica o princípio, que o NT mantém: 'não vos enganeis: de Deus não se zomba' (Gl 6.7; cf. 2Cr 36.16 — 'zombavam dos mensageiros... até que não houve remédio'). O Deus que fez sarar as águas de Jericó no mesmo capítulo não é menos santo por ser bom — e uma cultura que ri do sagrado está mais perto do juízo do que imagina (Pv 1.24-27).

Ler o texto bíblico completo ↗