Cânticos 1.1 §
Nota de John Wesley
O cântico — o mais excelente de todos os cânticos. E bem se poderia chamar assim, quer se considere o seu autor, que foi um grande príncipe e o mais sábio de todos os mortais; quer o seu tema, que não é Salomão, mas alguém maior que Salomão — Cristo, e o seu casamento com a igreja; quer a sua matéria, que é altíssima, contendo em si os mais nobres de todos os mistérios encerrados no Antigo ou no Novo Testamento; piíssima e comovente, exalando as mais ardentes chamas do amor entre Cristo e o seu povo; dulcíssima, consoladora e útil a todos os que a leem com olhos sérios e cristãos.
Nota do editor
A chave para ler Cânticos está no título e na tradição inteira da igreja: Wesley, seguindo os intérpretes judeus e cristãos, entende que 'o tema deste livro NÃO É Salomão, mas ALGUÉM MAIOR QUE SALOMÃO — Cristo, e o seu casamento com a igreja'. O Cântico dos Cânticos (o hebraico é superlativo, como 'Santo dos Santos': o supremo entre os cantos) não é primariamente um manual de romance humano — embora honre o amor conjugal como coisa boa e criada por Deus (Gn 2.24; Hb 13.4) — mas a mais ousada metáfora da Escritura para a relação entre o Redentor e os redimidos. O Antigo Testamento já falava dessa linguagem nupcial: Deus é o marido do seu povo (Is 54.5; Os 2.16,19-20), e o noivo que se alegra com a noiva (Is 62.5); e o Novo a leva ao ápice — Cristo é o Esposo (Mt 9.15; Jo 3.29), a igreja é a noiva 'apresentada como virgem pura a um só esposo' (2Co 11.2; Ef 5.25-32 — 'este mistério é grande... refiro-me a Cristo e à igreja'), e a história desemboca nas 'bodas do Cordeiro' (Ap 19.7-9; 21.2,9). Ler o Cântico assim não é alegorizar arbitrariamente: é ouvir, na linguagem do amor mais intenso que os humanos conhecem, o eco de um amor maior — o de Cristo que amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela. Cada quadro do livro — a busca, a ausência sentida, o reencontro, o louvor mútuo — retrata as várias condições da alma crente e da igreja neste mundo.
Temas: cristo