E desceu o SENHOR para ver a cidade — expressão à maneira dos homens: ele a conhecia tão claramente quanto os homens conhecem aquilo que vão ver no próprio lugar. E a torre que os filhos dos homens edificavam — o que fala da sua fraqueza e fragilidade (era insensatez os filhos dos homens, vermes da terra, desafiarem o céu); da sua pecaminosidade (eram filhos de Adão, como está no hebraico — e daquele Adão, o Adão pecador e desobediente, cujos filhos são por natureza filhos da desobediência); e da sua distinção dos filhos de Deus, dos quais aqueles ousados construtores se haviam separado, erguendo a torre para sustentar e perpetuar a separação. E disse o SENHOR: Eis que o povo é um, e todos têm uma só língua (v. 6) — e, se continuarem unidos, boa parte da terra ficará desabitada, e esses filhos dos homens, assim incorporados, engolirão o pequeno remanescente dos filhos de Deus; por isso fica decretado que não devem continuar um só povo. E agora nada os deterá — eis a razão por que o seu projeto precisava ser frustrado. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua (v. 7) — isto não foi dito aos anjos, como se Deus precisasse do seu conselho ou auxílio; Deus o diz a si mesmo — ou o Pai ao Filho e ao Espírito Santo. Para que não entendam a fala um do outro — e mal poderiam unir as mãos com as línguas divididas. Foi o meio adequado tanto para os afastar da construção — pois, sem se entenderem, não podiam ajudar-se — quanto para os dispor à dispersão — pois, sem se entenderem, não podiam desfrutar-se mutuamente. Assim, três coisas se fizeram. Primeira: a língua deles foi confundida. Deus — que, ao criar o homem, o ensinou a falar — fez que aqueles construtores esquecessem a língua anterior e falassem uma nova, a mesma para os da mesma tribo ou família, mas não para os demais: os de uma colônia podiam conversar entre si, mas não com os de outra. Todos sofremos com isso até hoje: em todos os incômodos que a diversidade de línguas nos traz, e em todo o trabalho que temos para aprender as línguas de que precisamos, pagamos pela rebelião dos nossos antepassados em Babel. E até aquelas infelizes controvérsias que são disputas de palavras, nascidas de nos entendermos mal uns aos outros, devem-se, quem sabe, a essa confusão de línguas. O projeto de alguns, de criar uma escrita universal em vista de uma língua universal, por desejável que pareça, tenho-o por coisa vã: é lutar contra uma sentença divina, pela qual as línguas das nações ficarão divididas enquanto o mundo durar. Podemos lamentar aqui a perda do uso universal da língua hebraica, que daí em diante foi o idioma vulgar somente dos hebreus, e assim continuou até o cativeiro na Babilônia, onde, mesmo entre eles, foi trocada pelo siríaco. E, assim como a confusão das línguas dividiu os filhos dos homens e os espalhou, o dom de línguas concedido aos apóstolos (At 2.4-11) contribuiu grandemente para congregar os filhos de Deus que andavam dispersos, e para os unir em Cristo, a fim de que, com uma só mente e uma só boca, glorificassem a Deus (Rm 15.6). Quanto à fantasia de certo escritor recente — a de que Deus não teria confundido as línguas, mas o culto deles —, funda-se em críticas sobre o sentido da palavra hebraica que são absolutamente falsas. Além do mais: confundiria Deus o culto religioso? Certamente ele é Deus de ordem, e não de confusão. Segunda: a construção parou — deixaram de edificar a cidade. Foi efeito da confusão das línguas, que não só os impossibilitou de se ajudarem, mas provavelmente lhes abateu o ânimo, pois viram a mão do SENHOR estendida contra eles. Terceira: os construtores foram espalhados dali sobre a face de toda a terra — partiram em grupos, segundo as suas famílias e as suas línguas (Gn 10.5, 20, 31), para os países e lugares que lhes haviam cabido na divisão já feita — que conheciam de antemão, mas dos quais não queriam tomar posse até serem a isso forçados. Observe: veio sobre eles exatamente o que temiam — a dispersão que pensavam evitar; foi obra de Deus — o SENHOR os espalhou, e a mão de Deus deve ser reconhecida em todas as providências que dispersam: se a família se dispersa, se os parentes se dispersam, se as igrejas se dispersam, é o SENHOR quem o faz; deixaram atrás de si um memorial perpétuo da sua vergonha no nome dado ao lugar — chamou-se Babel, confusão; e os filhos dos homens ficaram então definitivamente espalhados, e nunca mais se ajuntarão todos, até o grande dia em que o Filho do Homem se assentará no trono da sua glória e todas as nações serão reunidas diante dele (Mt 25.31-32).