Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 11

Referências: 11.1-411.5-911.10-2611.27-32

Introdução ao capítulo

A distinção entre os filhos de Deus e os filhos dos homens reapareceu quando os homens começaram a multiplicar-se. Segundo essa distinção, temos neste capítulo: a dispersão dos filhos dos homens em Babel (v. 1-9) — o seu projeto presunçoso de construir uma cidade e uma torre (v. 1-4) e o justo juízo de Deus, frustrando o projeto pela confusão da língua e pela dispersão (v. 5-9); e a genealogia dos filhos de Deus até Abraão (v. 10-26), com um relato geral da sua família e da sua saída da terra natal (v. 27-32).

Gênesis 11.1-4 §

Nota de John Wesley

E era toda a terra de uma só língua — enquanto todos se entendiam, eram mais capazes de ajudar-se uns aos outros e menos inclinados a separar-se. E acharam uma planície na terra de Sinar (v. 2) — uma planície espaçosa, capaz de conter a todos. Vinde, façamos tijolos, edifiquemos para nós uma cidade (v. 3-4) — sendo a região uma planície, não fornecia pedra nem argamassa; mas isso não os desanimou: fizeram tijolo em vez de pedra, e betume em vez de argamassa. Alguns pensam que pretendiam com isso proteger-se das águas de outro dilúvio; mas, se fosse assim, teriam preferido construir sobre um monte, não numa planície. Duas coisas, ao que parece, buscavam com a construção. Primeira: fazer para si um nome — queriam fazer algo de que a posteridade falasse. Mas não conseguiram: não encontramos em história alguma o nome de um só desses construtores de Babel. Fílon Judeu diz que cada um gravou o seu nome num tijolo; nem isso lhes serviu de nada. Segunda: impedir a sua dispersão — para que não sejamos espalhados sobre a face da terra. Foi feito, diz Josefo, em desobediência àquela ordem: enchei a terra (Gn 9.1). Deus manda que se espalhem. 'Não', dizem eles, 'viveremos e morreremos juntos.' Para isso se empenharam, uns com os outros, nesse vasto empreendimento: a fim de se unirem num só império glorioso, resolveram construir a cidade e a torre, para ser a metrópole do seu reino e o centro da sua unidade.

Temas: pecado

Gênesis 11.5-9 §

Nota de John Wesley

E desceu o SENHOR para ver a cidade — expressão à maneira dos homens: ele a conhecia tão claramente quanto os homens conhecem aquilo que vão ver no próprio lugar. E a torre que os filhos dos homens edificavam — o que fala da sua fraqueza e fragilidade (era insensatez os filhos dos homens, vermes da terra, desafiarem o céu); da sua pecaminosidade (eram filhos de Adão, como está no hebraico — e daquele Adão, o Adão pecador e desobediente, cujos filhos são por natureza filhos da desobediência); e da sua distinção dos filhos de Deus, dos quais aqueles ousados construtores se haviam separado, erguendo a torre para sustentar e perpetuar a separação. E disse o SENHOR: Eis que o povo é um, e todos têm uma só língua (v. 6) — e, se continuarem unidos, boa parte da terra ficará desabitada, e esses filhos dos homens, assim incorporados, engolirão o pequeno remanescente dos filhos de Deus; por isso fica decretado que não devem continuar um só povo. E agora nada os deterá — eis a razão por que o seu projeto precisava ser frustrado. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua (v. 7) — isto não foi dito aos anjos, como se Deus precisasse do seu conselho ou auxílio; Deus o diz a si mesmo — ou o Pai ao Filho e ao Espírito Santo. Para que não entendam a fala um do outro — e mal poderiam unir as mãos com as línguas divididas. Foi o meio adequado tanto para os afastar da construção — pois, sem se entenderem, não podiam ajudar-se — quanto para os dispor à dispersão — pois, sem se entenderem, não podiam desfrutar-se mutuamente. Assim, três coisas se fizeram. Primeira: a língua deles foi confundida. Deus — que, ao criar o homem, o ensinou a falar — fez que aqueles construtores esquecessem a língua anterior e falassem uma nova, a mesma para os da mesma tribo ou família, mas não para os demais: os de uma colônia podiam conversar entre si, mas não com os de outra. Todos sofremos com isso até hoje: em todos os incômodos que a diversidade de línguas nos traz, e em todo o trabalho que temos para aprender as línguas de que precisamos, pagamos pela rebelião dos nossos antepassados em Babel. E até aquelas infelizes controvérsias que são disputas de palavras, nascidas de nos entendermos mal uns aos outros, devem-se, quem sabe, a essa confusão de línguas. O projeto de alguns, de criar uma escrita universal em vista de uma língua universal, por desejável que pareça, tenho-o por coisa vã: é lutar contra uma sentença divina, pela qual as línguas das nações ficarão divididas enquanto o mundo durar. Podemos lamentar aqui a perda do uso universal da língua hebraica, que daí em diante foi o idioma vulgar somente dos hebreus, e assim continuou até o cativeiro na Babilônia, onde, mesmo entre eles, foi trocada pelo siríaco. E, assim como a confusão das línguas dividiu os filhos dos homens e os espalhou, o dom de línguas concedido aos apóstolos (At 2.4-11) contribuiu grandemente para congregar os filhos de Deus que andavam dispersos, e para os unir em Cristo, a fim de que, com uma só mente e uma só boca, glorificassem a Deus (Rm 15.6). Quanto à fantasia de certo escritor recente — a de que Deus não teria confundido as línguas, mas o culto deles —, funda-se em críticas sobre o sentido da palavra hebraica que são absolutamente falsas. Além do mais: confundiria Deus o culto religioso? Certamente ele é Deus de ordem, e não de confusão. Segunda: a construção parou — deixaram de edificar a cidade. Foi efeito da confusão das línguas, que não só os impossibilitou de se ajudarem, mas provavelmente lhes abateu o ânimo, pois viram a mão do SENHOR estendida contra eles. Terceira: os construtores foram espalhados dali sobre a face de toda a terra — partiram em grupos, segundo as suas famílias e as suas línguas (Gn 10.5, 20, 31), para os países e lugares que lhes haviam cabido na divisão já feita — que conheciam de antemão, mas dos quais não queriam tomar posse até serem a isso forçados. Observe: veio sobre eles exatamente o que temiam — a dispersão que pensavam evitar; foi obra de Deus — o SENHOR os espalhou, e a mão de Deus deve ser reconhecida em todas as providências que dispersam: se a família se dispersa, se os parentes se dispersam, se as igrejas se dispersam, é o SENHOR quem o faz; deixaram atrás de si um memorial perpétuo da sua vergonha no nome dado ao lugar — chamou-se Babel, confusão; e os filhos dos homens ficaram então definitivamente espalhados, e nunca mais se ajuntarão todos, até o grande dia em que o Filho do Homem se assentará no trono da sua glória e todas as nações serão reunidas diante dele (Mt 25.31-32).

Temas: juizopentecostes

Gênesis 11.10-26 §

Nota de John Wesley

Observe aqui: primeiro, que desta linhagem nada ficou registrado além dos nomes e das idades — o Espírito Santo parece apressar-se por eles rumo à história de Abraão. Quão pouco sabemos dos que nos precederam neste mundo, mesmo dos que viveram nos mesmos lugares em que vivemos — ou até dos nossos contemporâneos em lugares distantes! Segundo, que houve uma notável diminuição gradual nos anos das suas vidas. Sem chegou aos seiscentos anos — aquém, ainda assim, da idade dos patriarcas de antes do dilúvio; os três seguintes não chegaram aos quinhentos; os três seguintes não alcançaram os trezentos; depois deles, não lemos de nenhum que chegasse aos duzentos, exceto Terá; e, não muitas eras depois, Moisés contava setenta ou oitenta anos como o limite ordinário do homem (Sl 90.10). Quando a terra começou a povoar-se, a vida dos homens começou a encurtar — de modo que a diminuição deve ser atribuída antes à sábia disposição da providência do que a alguma decadência da natureza. Terceiro, que Héber, de quem os hebreus tomaram o nome, foi o que mais viveu entre os nascidos depois do dilúvio — talvez recompensa da sua firme adesão aos caminhos de Deus.

Temas: providencia

Gênesis 11.27-32 §

Nota de John Wesley

Aqui começa a história de Abrão. Temos: primeiro, a sua terra — Ur dos caldeus, terra idólatra, onde até os próprios filhos de Héber haviam degenerado. Segundo, os seus parentes, mencionados por causa dele e do seu papel na história que segue. Seu pai era Terá, de quem se diz (Js 24.2) que serviu a outros deuses do outro lado do rio — tão cedo a idolatria ganhou pé no mundo. Diz-se (v. 26) que Terá, aos setenta anos, gerou Abrão, Naor e Harã — o que parece indicar que Abrão era o primogênito, nascido no ano setenta; mas, comparando o versículo 32 — que dá a Terá 205 anos ao morrer — com Atos 7.4 — onde se diz que Abrão saiu de Harã depois da morte do pai — e com Gênesis 12.4 — onde se diz que tinha 75 anos ao sair de Harã —, vê-se que nasceu no ano 130 de Terá, sendo provavelmente o filho mais novo. Dos seus irmãos: Naor, de cuja família tomaram as suas mulheres tanto Isaque quanto Jacó; e Harã, o pai de Ló, de quem se diz aqui (v. 28) que morreu antes de Terá, seu pai — e que morreu em Ur dos caldeus, antes da feliz mudança da família para fora daquela terra idólatra. A mulher de Abrão era Sarai — que alguns pensam ser a mesma Iscá, filha de Harã; mas o próprio Abrão diz que ela era filha do seu pai, embora não da sua mãe (Gn 20.12). Era dez anos mais nova que Abrão. Terceiro, a sua saída de Ur dos caldeus, com o pai Terá, o sobrinho Ló e o restante da família, em obediência ao chamado de Deus. O capítulo os deixa em Harã — lugar a meio caminho entre Ur e Canaã —, onde habitaram até a morte de Terá: provavelmente porque o velho, pelas enfermidades da idade, não podia prosseguir viagem.

Temas: fechamado

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