Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 15

Referências: 15.115.2-815.9-1715.18-21

Introdução ao capítulo

Neste capítulo temos um tratado solene entre Deus e Abrão: uma garantia geral da bondade e boa vontade de Deus para com ele (v. 1); e uma declaração particular dos propósitos do seu amor, em duas coisas — que lhe daria uma descendência numerosa (v. 2-7) e que lhe daria Canaã por herança (v. 7-16), tudo selado por um sinal sobre o sacrifício (v. 9-17) e pela aliança firmada naquele dia (v. 18-21).

Gênesis 15.1 §

Nota de John Wesley

Depois destas coisas — depois daquele ato de generosa caridade que Abrão praticara, resgatando os seus vizinhos, Deus lhe fez esta visita graciosa; e depois da vitória sobre os quatro reis — para que Abrão não se exaltasse demais com ela, Deus vem dizer-lhe que tinha coisas melhores reservadas para ele. Veio a palavra do SENHOR a Abrão — isto é, Deus se manifestou a Abrão — numa visão — o que supõe Abrão acordado, com algum sinal sensível da presença da glória divina —, dizendo: Não temas, Abrão. Abrão podia temer que os quatro reis derrotados se reagrupassem e caíssem sobre ele. 'Não', diz Deus, 'não temas: nem a vingança deles, nem a inveja dos teus vizinhos; eu cuidarei de ti. Eu sou o teu escudo' — ou, com ênfase: eu sou escudo para ti, presente contigo, defendendo-te de fato. Considerar que o próprio Deus é escudo do seu povo, para o guardar de todos os males destruidores — escudo pronto, escudo ao redor —, deveria calar todos os temores que nos afligem. E o teu galardão sobremodo grande — não só aquele que te recompensa, mas a tua própria recompensa. O próprio Deus é a felicidade das almas santas: ele é a porção da sua herança e o seu cálice.

Temas: fegraca

Gênesis 15.2-8 §

Nota de John Wesley

Eis que não me deste descendência — não só nenhum filho, mas nenhuma descendência. Se ele tivesse uma filha, dela poderia vir o Messias prometido, que havia de ser a semente da mulher; mas ele não tinha nem filho nem filha. E o levou para fora (v. 5) — ao que parece, de manhã cedo — e disse: Olha para o céu e conta as estrelas... assim será a tua descendência: tão inumerável — pois assim parecem as estrelas ao olhar comum; Abrão temia não ter filho algum, e Deus lhe diz que os seus descendentes seriam tantos que não se poderiam contar — e tão ilustre — como as estrelas do céu em esplendor, pois deles era a glória (Rm 9.4). A descendência de Abrão segundo a carne era como o pó da terra (Gn 13.16); mas a sua descendência espiritual é como as estrelas do céu. E ele creu no SENHOR (v. 6) — isto é, creu na verdade da promessa que Deus então lhe fazia, descansando no poder e na fidelidade daquele que a fazia. Veja como o apóstolo engrandece essa fé de Abrão e a faz exemplo permanente (Rm 4.19-21): não foi fraco na fé; não vacilou diante da promessa; foi forte na fé; teve plena convicção. Opere o Senhor tal fé em cada um de nós! E isso lhe foi imputado como justiça — isto é, por conta disso ele foi aceito por Deus, e pela fé obteve testemunho de que era justo (cf. Hb 11.4). Isto é alegado no Novo Testamento para provar que somos justificados pela fé, sem as obras da lei (Rm 4.3; Gl 3.6) — pois Abrão foi assim justificado quando ainda era incircunciso. Se Abrão, tão rico em boas obras, não foi por elas justificado, mas pela fé, quanto menos nós! E essa fé, que lhe foi imputada como justiça, acabara de lutar com a incredulidade (v. 2); saindo vencedora, foi assim coroada, assim honrada. Eu sou o SENHOR, que te tirei de Ur dos caldeus (v. 7) — 'do fogo dos caldeus', dizem alguns: isto é, das suas idolatrias, pois os caldeus adoravam o fogo; ou das suas perseguições — os escritores judeus têm a tradição de que Abrão foi lançado numa fornalha ardente por se recusar a adorar ídolos, e libertado por milagre; mas é antes o nome de um lugar. De lá Deus o tirou por um chamado eficaz — tirou-o por uma graciosa violência, arrebatou-o como um tição do fogo. E observe como Deus fala disso como daquilo em que se gloria: Eu sou o SENHOR, que te tirei — gloria-se nisso como ato de poder e de graça. Para te dar esta terra por herança — não só para possuí-la, mas para possuí-la como herança, que é o título mais seguro. A providência de Deus tem desígnios secretos, mas graciosos, em todas as suas dispensações: não podemos conceber os projetos da providência até que o desfecho mostre aonde ela queria chegar. Como saberei que hei de herdá-la? (v. 8) — isto não procedia de desconfiança do poder ou da promessa de Deus; ele o desejava, primeiro, para fortalecer a própria fé — ele cria (v. 6), mas aqui ora: 'Senhor, ajuda-me na minha incredulidade'; cria, mas desejava um sinal, para guardá-lo como tesouro contra a hora da tentação; e, segundo, para que a promessa ficasse ratificada à sua posteridade, e também ela cresse.

Nota do editor

Gênesis 15.6 é o texto-fonte da doutrina da justificação pela fé (Rm 4; Gl 3): Abrão foi aceito por Deus crendo na promessa, antes de qualquer obra ou rito — quando ainda era incircunciso. Wesley pregou exatamente isto: a fé que salva é confiança viva na fidelidade de Deus, e o crente pode saber-se aceito. E note-se o equilíbrio: a mesma fé que justifica logo pede socorro contra a incredulidade — certeza e humildade andam juntas.

Temas: fejustificacaocristo

Gênesis 15.9-17 §

Nota de John Wesley

Traze-me uma novilha — talvez Abrão esperasse algum sinal do céu; mas Deus lhe dá um sinal sobre um sacrifício. Os que desejam receber as garantias do favor de Deus devem frequentar as ordenanças instituídas e esperar encontrar-se com Deus nelas. Observe: Deus determinou que cada animal usado no seu serviço tivesse três anos, porque então estavam em pleno vigor e força — Deus deve ser servido com o melhor que temos. Não lemos que Deus desse a Abrão instruções detalhadas sobre como proceder, pois ele conhecia bem o costume dos sacrifícios. Abrão tomou os animais como Deus lhe indicou, embora ainda não soubesse como aquilo se tornaria sinal para ele; partiu-os pelo meio, segundo a cerimônia usada na confirmação de alianças (Jr 34.18-19, onde se diz que cortaram o bezerro em dois e passaram entre as partes). E, tendo preparado tudo conforme a ordem de Deus, pôs-se a esperar o sinal que Deus lhe daria. E, ao pôr do sol (v. 12) — por volta da hora da oblação da tarde. De manhã cedo, quando ainda se viam as estrelas, Deus lhe dera as ordens sobre os sacrifícios (v. 5); podemos supor que gastou a manhã em prepará-los e dispô-los, e depois ficou junto deles, orando e vigiando, até a tarde. Caiu um sono profundo sobre Abrão — não um sono comum, de cansaço ou descuido, mas um êxtase divino: desligado por completo das coisas sensíveis, para se ocupar todo na contemplação das espirituais. As portas do corpo se fecharam, para que a alma ficasse recolhida e agisse com mais liberdade. E eis que um pavor, uma grande escuridão, caiu sobre ele — destinado a impor reverência ao espírito de Abrão e a possuí-lo de santo temor. O santo temor prepara a alma para a santa alegria: Deus primeiro humilha, depois levanta. A tua descendência será peregrina (v. 13) — e assim foram, primeiro em Canaã (Sl 105.11-12) e depois no Egito: antes de serem senhores da sua terra, foram estrangeiros em terra alheia. Os incômodos de um estado instável tornam mais bem-vindo o estabelecimento feliz: assim os herdeiros do céu são primeiro estrangeiros na terra. E os servirão — como serviram aos egípcios (Êx 1.13). Veja como aquilo que foi a condenação dos cananeus (Gn 9.25) vem a ser a angústia da semente de Abrão: também eles são feitos servos; mas com esta diferença — os cananeus servem sob maldição, os hebreus sob bênção. E os afligirão (Êx 1.11) — os que são abençoados e amados de Deus são muitas vezes afligidos por homens maus. Essa perseguição começou com zombaria — quando Ismael, filho de uma egípcia, perseguiu Isaque (Gn 21.9) — e chegou por fim ao assassinato, o mais vil dos assassinatos, o dos recém-nascidos; de modo que, mais ou menos, durou quatrocentos anos. Mas eu julgarei a nação a quem servirem (v. 14) — isto aponta para as pragas do Egito, pelas quais Deus não só forçou os egípcios a soltar Israel, mas os puniu por todas as durezas que lhe haviam imposto. Punir os perseguidores é julgá-los: é coisa justa diante de Deus, e ato particular de justiça, retribuir tribulação aos que atribulam o seu povo. E depois sairão com grandes riquezas. E tu irás para os teus pais (v. 15) — na morte vamos para os nossos pais: para todos os que nos precederam no estado dos mortos, e para os pais piedosos que nos precederam no estado dos bem-aventurados; aquilo ajuda a tirar o terror da morte, isto lhe põe dentro consolo. Serás sepultado em ditosa velhice — talvez se mencione aqui a sua sepultura porque um túmulo foi a primeira posse que ele teve na terra prometida. A velhice é bênção quando é ditosa velhice: a dos que envelhecem com saúde, sem os achaques que fazem a vida pesada; e a dos que envelhecem com santidade — cujas cãs se acham no caminho da justiça, velhos e úteis, velhos e exemplares na piedade: essa, sim, é ditosa velhice. E tornarão para cá (v. 16) — para cá, para a terra de Canaã, onde agora estás. A razão por que não haviam de possuir a terra da promessa antes da quarta geração é que a iniquidade dos amorreus não estava ainda completa. O Deus justo determinou que não fossem eliminados antes de chegarem a tal grau de maldade; e, até lá, a semente de Abrão devia ficar fora da posse. E, posto o sol, foi dado o sinal (v. 17). A fornalha fumegante significava a aflição da sua descendência no Egito: ali estiveram na fornalha da aflição, trabalhando no próprio fogo; ali estiveram na fumaça, com os olhos escurecidos, sem ver o fim das suas tribulações. A tocha ardente fala de consolo nessa aflição — e Deus a mostrou a Abrão junto com a fornalha: a lâmpada indica direção no meio da fumaça; a palavra de Deus foi a sua lâmpada, luz que brilha em lugar escuro; e talvez prefigurasse também a coluna de nuvem e fogo que os tirou do Egito. E o passar de ambas entre as partes foi a confirmação da aliança que Deus então fazia com ele. É provável que a fornalha e a tocha, passando entre os pedaços, os queimassem e consumissem, completando o sacrifício e testemunhando que Deus o aceitava — como o de Gideão (Jz 6.21), o de Manoá (Jz 13.19-20) e o de Salomão (2Cr 7.1). O que sugere: primeiro, que as alianças de Deus com o homem se fazem por sacrifício (Sl 50.5) — por Cristo, o grande sacrifício; segundo, que a aceitação, por Deus, dos nossos sacrifícios espirituais é um sinal de bem e penhor de mais favores.

Temas: aliancasacrificioprovidencia

Gênesis 15.18-21 §

Nota de John Wesley

Naquele mesmo dia fez o SENHOR uma aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta terra — antes dissera 'darei'; aqui diz 'dei': isto é, primeiro, dei a promessa — a carta está selada e entregue, e não pode ser anulada; segundo, a posse, no tempo devido, é tão certa como se já lhes estivesse efetivamente entregue. No tempo de Davi e de Salomão, a sua jurisdição estendeu-se até o extremo desses limites (2Cr 9.26); e foi por culpa deles que não possuíram antes, e por mais tempo, todos esses territórios: perderam o direito pelos seus pecados, e pela sua própria preguiça e covardia ficaram fora da posse. Os ocupantes de então são nomeados para que o seu número, a sua força e a sua longa posse não fossem impedimento ao cumprimento da promessa na sua estação — e para engrandecer o amor de Deus a Abrão e à sua semente, dando àquela única nação a possessão de muitas nações.

Temas: promessaalianca

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