Traze-me uma novilha — talvez Abrão esperasse algum sinal do céu; mas Deus lhe dá um sinal sobre um sacrifício. Os que desejam receber as garantias do favor de Deus devem frequentar as ordenanças instituídas e esperar encontrar-se com Deus nelas. Observe: Deus determinou que cada animal usado no seu serviço tivesse três anos, porque então estavam em pleno vigor e força — Deus deve ser servido com o melhor que temos. Não lemos que Deus desse a Abrão instruções detalhadas sobre como proceder, pois ele conhecia bem o costume dos sacrifícios. Abrão tomou os animais como Deus lhe indicou, embora ainda não soubesse como aquilo se tornaria sinal para ele; partiu-os pelo meio, segundo a cerimônia usada na confirmação de alianças (Jr 34.18-19, onde se diz que cortaram o bezerro em dois e passaram entre as partes). E, tendo preparado tudo conforme a ordem de Deus, pôs-se a esperar o sinal que Deus lhe daria. E, ao pôr do sol (v. 12) — por volta da hora da oblação da tarde. De manhã cedo, quando ainda se viam as estrelas, Deus lhe dera as ordens sobre os sacrifícios (v. 5); podemos supor que gastou a manhã em prepará-los e dispô-los, e depois ficou junto deles, orando e vigiando, até a tarde. Caiu um sono profundo sobre Abrão — não um sono comum, de cansaço ou descuido, mas um êxtase divino: desligado por completo das coisas sensíveis, para se ocupar todo na contemplação das espirituais. As portas do corpo se fecharam, para que a alma ficasse recolhida e agisse com mais liberdade. E eis que um pavor, uma grande escuridão, caiu sobre ele — destinado a impor reverência ao espírito de Abrão e a possuí-lo de santo temor. O santo temor prepara a alma para a santa alegria: Deus primeiro humilha, depois levanta. A tua descendência será peregrina (v. 13) — e assim foram, primeiro em Canaã (Sl 105.11-12) e depois no Egito: antes de serem senhores da sua terra, foram estrangeiros em terra alheia. Os incômodos de um estado instável tornam mais bem-vindo o estabelecimento feliz: assim os herdeiros do céu são primeiro estrangeiros na terra. E os servirão — como serviram aos egípcios (Êx 1.13). Veja como aquilo que foi a condenação dos cananeus (Gn 9.25) vem a ser a angústia da semente de Abrão: também eles são feitos servos; mas com esta diferença — os cananeus servem sob maldição, os hebreus sob bênção. E os afligirão (Êx 1.11) — os que são abençoados e amados de Deus são muitas vezes afligidos por homens maus. Essa perseguição começou com zombaria — quando Ismael, filho de uma egípcia, perseguiu Isaque (Gn 21.9) — e chegou por fim ao assassinato, o mais vil dos assassinatos, o dos recém-nascidos; de modo que, mais ou menos, durou quatrocentos anos. Mas eu julgarei a nação a quem servirem (v. 14) — isto aponta para as pragas do Egito, pelas quais Deus não só forçou os egípcios a soltar Israel, mas os puniu por todas as durezas que lhe haviam imposto. Punir os perseguidores é julgá-los: é coisa justa diante de Deus, e ato particular de justiça, retribuir tribulação aos que atribulam o seu povo. E depois sairão com grandes riquezas. E tu irás para os teus pais (v. 15) — na morte vamos para os nossos pais: para todos os que nos precederam no estado dos mortos, e para os pais piedosos que nos precederam no estado dos bem-aventurados; aquilo ajuda a tirar o terror da morte, isto lhe põe dentro consolo. Serás sepultado em ditosa velhice — talvez se mencione aqui a sua sepultura porque um túmulo foi a primeira posse que ele teve na terra prometida. A velhice é bênção quando é ditosa velhice: a dos que envelhecem com saúde, sem os achaques que fazem a vida pesada; e a dos que envelhecem com santidade — cujas cãs se acham no caminho da justiça, velhos e úteis, velhos e exemplares na piedade: essa, sim, é ditosa velhice. E tornarão para cá (v. 16) — para cá, para a terra de Canaã, onde agora estás. A razão por que não haviam de possuir a terra da promessa antes da quarta geração é que a iniquidade dos amorreus não estava ainda completa. O Deus justo determinou que não fossem eliminados antes de chegarem a tal grau de maldade; e, até lá, a semente de Abrão devia ficar fora da posse. E, posto o sol, foi dado o sinal (v. 17). A fornalha fumegante significava a aflição da sua descendência no Egito: ali estiveram na fornalha da aflição, trabalhando no próprio fogo; ali estiveram na fumaça, com os olhos escurecidos, sem ver o fim das suas tribulações. A tocha ardente fala de consolo nessa aflição — e Deus a mostrou a Abrão junto com a fornalha: a lâmpada indica direção no meio da fumaça; a palavra de Deus foi a sua lâmpada, luz que brilha em lugar escuro; e talvez prefigurasse também a coluna de nuvem e fogo que os tirou do Egito. E o passar de ambas entre as partes foi a confirmação da aliança que Deus então fazia com ele. É provável que a fornalha e a tocha, passando entre os pedaços, os queimassem e consumissem, completando o sacrifício e testemunhando que Deus o aceitava — como o de Gideão (Jz 6.21), o de Manoá (Jz 13.19-20) e o de Salomão (2Cr 7.1). O que sugere: primeiro, que as alianças de Deus com o homem se fazem por sacrifício (Sl 50.5) — por Cristo, o grande sacrifício; segundo, que a aceitação, por Deus, dos nossos sacrifícios espirituais é um sinal de bem e penhor de mais favores.