Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 17

Referências: 17.1-617.717.8-1417.15-1617.1717.18-1917.2017.21

Introdução ao capítulo

Este capítulo contém os artigos de acordo entre o grande Jeová, o Pai das misericórdias, e o piedoso Abrão, o pai dos fiéis. Da aliança já se fizera menção (Gn 15.18); aqui ela é lavrada em detalhe. Temos: as circunstâncias da sua celebração — o tempo, o modo (v. 1) e a postura de Abrão (v. 3); a aliança em si — que ele seria pai de muitas nações, em sinal do que o seu nome foi mudado (v. 4-6); que Deus seria Deus dele e da sua descendência, e lhes daria a terra de Canaã, sendo a circuncisão o selo dessa parte da aliança (v. 7-14); que ele teria um filho de Sarai, em sinal do que o nome dela foi mudado (v. 15-16) — promessa que Abraão recebeu com adoração (v. 17), sendo o seu pedido por Ismael respondido acima do que esperava (v. 18-22); e a circuncisão de Abraão e da sua casa, conforme a ordem de Deus (v. 23-27).

Gênesis 17.1-6 §

Nota de John Wesley

E, quando Abrão tinha noventa e nove anos — treze anos completos depois do nascimento de Ismael. Por tanto tempo foi adiada a promessa de Isaque: talvez para corrigir a pressa de Abrão em casar-se com Agar; e para que, estando Abrão e Sarai tão avançados em idade, o poder de Deus fosse tanto mais engrandecido. Apareceu o SENHOR a Abrão — em alguma manifestação visível da sua imediata e gloriosa presença. E disse: Eu sou o Deus Todo-Poderoso — por este nome quis dar-se a conhecer a Abrão, antes que pelo nome Jeová (Êx 6.3). Usou-o com Jacó (Gn 35.11), e por ele o chamaram os patriarcas (Gn 28.3; 43.14; 48.3); é o nome de Deus mais usado no livro de Jó — ao menos trinta vezes nos discursos daquele livro, onde Jeová aparece uma só vez. Eu sou El-Shaddai — fala do poder onipotente de Deus: seja como vingador, de uma raiz que significa destruir (e alguns pensam que Deus tomou este título da destruição do velho mundo), seja como benfeitor — 'aquele que basta'. A nossa velha tradução inglesa o verte aqui, com muita propriedade: Eu sou o Deus Todo-Suficiente. O Deus com quem tratamos é autossuficiente: tem tudo e de nada precisa; e ele nos basta, se estamos em aliança com ele: temos tudo nele, e temos o bastante nele — o bastante para satisfazer os nossos desejos mais dilatados, para suprir a falta de tudo o mais e para assegurar a felicidade da nossa alma imortal. Mas a aliança é mútua: Anda na minha presença e sê perfeito — isto é, reto e sincero. Observe: andar diante de Deus é pôr Deus sempre à nossa frente, e pensar, falar e agir, em tudo, como quem está continuamente sob os seus olhos; é ter constante respeito à sua palavra como nossa regra, e à sua glória como nosso fim, em todas as ações; é estar por dentro com ele em todos os deveres do culto e ser inteiro para ele em toda santa conduta. E o andar reto com Deus é a condição do nosso interesse na sua todo-suficiência: se o negligenciamos, ou fingimos com ele, perdemos o benefício da nossa relação com ele. E a consideração contínua da sua todo-suficiência terá grande influência no nosso andar reto com ele. E caiu Abrão sobre o seu rosto, enquanto Deus falava com ele (v. 3) — ou vencido pelo brilho da glória divina, como também fizeram Daniel e João; ou envergonhado de si mesmo, corando ao pensar nas honras feitas a alguém tão indigno: olha para si com humildade e para Deus com reverência e, em sinal de ambas, cai sobre o rosto. A promessa é introduzida com solenidade (v. 4): Quanto a mim — diz o grande Deus —, eis, eis e admira, eis e está certo disto: a minha aliança é contigo. E serás pai de muitas nações — o que implica, primeiro, que a sua descendência segundo a carne seria numerosíssima, em Isaque, em Ismael e nos filhos de Quetura — e o desfecho o confirmou, pois houve e há mais filhos dos homens descendentes de Abraão do que de qualquer outro homem à mesma distância de Noé, a raiz comum; e, segundo, que todos os crentes, em todas as eras, seriam tidos por sua descendência espiritual — o pai dos fiéis. É neste sentido que o apóstolo nos manda entender a promessa (Rm 4.16-17): ele é o pai daqueles que, em toda nação, entram pela fé na aliança com Deus e — como dizem os escritores judeus — são recolhidos sob as asas da Majestade divina. Em sinal disso, o seu nome foi mudado (v. 5) de Abrão, pai excelso, para Abraão, pai de multidão. Isso era para confirmar a fé de Abraão enquanto não tinha filhos; talvez o próprio nome lhe fosse por vezes ocasião de tristeza: por que se chamaria 'pai excelso' quem nem pai era? Mas agora, tendo-lhe Deus prometido descendência numerosa e dado um nome que significava exatamente isso, esse nome era a sua alegria.

Temas: aliancafesantidade

Gênesis 17.7 §

Nota de John Wesley

E estabelecerei a minha aliança — para não ser alterada nem revogada; não contigo somente — pois então morreria contigo —, mas com a tua descendência depois de ti; e não só a descendência segundo a carne, mas a descendência espiritual. Ela é eterna no seu sentido evangélico: a aliança da graça é eterna — desde a eternidade nos seus conselhos, para a eternidade nas suas consequências; a sua administração externa é transmitida, com o seu selo, aos filhos dos crentes, e a interna, pelo Espírito, à descendência de Cristo em cada geração. É uma aliança de grandíssimas e preciosas promessas — e eis aqui duas que bastam por todas: que Deus seria o Deus deles. Todos os privilégios da aliança, todas as suas alegrias e esperanças se resumem nisto; ninguém precisa desejar mais para ser feliz. O que Deus é em si mesmo, isso será para o seu povo: sabedoria para guiá-los e aconselhá-los; poder para protegê-los e sustentá-los; bondade para supri-los e consolá-los. O que adoradores fiéis podem esperar do Deus a quem servem, os crentes acharão em Deus como seu.

Temas: aliancagraca

Gênesis 17.8-14 §

Nota de John Wesley

E te darei Canaã em possessão perpétua — Deus já prometera a terra a Abraão e à sua descendência; mas aqui a promete como possessão perpétua, como figura do céu — aquele descanso eterno que resta para o povo de Deus. Esta é a pátria melhor para a qual Abraão olhava; e é a concessão dela que corresponde à vasta extensão daquela promessa: que Deus seria o seu Deus — de modo que, se Deus não tivesse preparado isso, envergonhar-se-ia de ser chamado o seu Deus (Hb 11.16). Assim como a terra de Canaã foi assegurada à descendência de Abraão segundo a carne, o céu está assegurado a toda a sua descendência espiritual, como possessão verdadeiramente eterna. A oferta desta vida eterna é feita na palavra, e confirmada pelos sacramentos, a todos os que estão sob a administração externa da aliança; e o seu penhor é dado a todos os crentes. O sinal da aliança é a circuncisão (v. 10) — por causa da qual a própria aliança é chamada aliança da circuncisão (At 7.8). Diz-se aqui ser ela a aliança que Abraão e a sua descendência deviam guardar, como cópia ou contraparte; e é chamada sinal e selo (Rm 4.11), pois era: primeiro, uma confirmação, a Abraão e à sua descendência, das promessas que eram a parte de Deus na aliança, assegurando-lhes que, no tempo devido, Canaã seria deles — e a continuação da ordenança, depois que Canaã já era deles, indica que a promessa olhava mais longe, para outra Canaã; segundo, uma obrigação, para Abraão e a sua descendência, quanto ao dever que era a parte deles — não só o de aceitar a aliança e despojar-se da corrupção da carne, significados primários da circuncisão, mas, em geral, o de observar todos os mandamentos de Deus: quem quer que Deus seja para ele Deus deve consentir em ser para Deus povo. Ora: a circuncisão era uma ordenança de sangue, pois pela lei quase todas as coisas se purificavam com sangue (Hb 9.22; cf. Êx 24.8); mas, derramado o sangue de Cristo, todas as ordenanças de sangue estão abolidas — a circuncisão, portanto, cede lugar ao batismo. Era exclusiva dos varões, embora as mulheres também estivessem incluídas na aliança. Não se tendo Cristo ainda oferecido por nós, Deus quis que o homem entrasse na aliança pela oferta de alguma parte do próprio corpo. A ordenança devia ser administrada às crianças aos oito dias de idade, para que ganhassem alguma força para suportar a dor. E os filhos dos estrangeiros deviam ser circuncidados — o que olhava favoravelmente para os gentios, que, no tempo devido, seriam trazidos pela fé à família de Abraão.

Nota do editor

Wesley lê a circuncisão como sinal e selo da aliança da graça, aplicado às crianças dos crentes — e vê nela a raiz da prática do batismo, que a substitui depois de Cristo. É a leitura clássica da tradição que pratica o batismo infantil, à qual o metodismo pertence: o rito não salva, mas sela a promessa; a salvação, para todos, continua sendo recebida pela fé.

Temas: aliancabatismo

Gênesis 17.15-16 §

Nota de John Wesley

Sara será o seu nome — acrescenta-se ao nome dela a mesma letra que ao de Abraão. Sarai significa minha princesa, como se a sua honra se limitasse a uma só família; Sara significa princesa — de multidões. E eis a promessa a Abraão de um filho de Sara, aquele em quem se cumpriria a promessa de que seria pai de muitas nações: porque também ela será mãe de nações; reis de povos sairão dela (v. 16). Note: Deus revela os propósitos da sua boa vontade ao seu povo por graus — havia muito dissera a Abraão que teria um filho, mas só agora que o teria de Sara. A bênção do SENHOR faz fecundo, e não acrescenta tristeza — nenhuma tristeza como a do caso de Agar: eu a abençoarei, com a bênção da fecundidade, e terás um filho dela. E o governo civil, com a sua ordem, é grande bênção para a igreja: promete-se não apenas povo, mas reis de povos — não uma turba sem cabeça, mas uma sociedade bem constituída e bem governada.

Temas: promessa

Gênesis 17.17 §

Nota de John Wesley

Então Abraão caiu sobre o rosto e riu-se — riso de deleite, não de desconfiança. Foi então que Abraão exultou por ver o dia de Cristo: viu-o e alegrou-se (Jo 8.56); pois, assim como via o céu na promessa de Canaã, via Cristo na promessa de Isaque. E disse: A um homem de cem anos nascerá um filho? — não o diz como coisa duvidosa — estamos certos de que não vacilou diante da promessa (Rm 4.20) —, mas como coisa maravilhosa, que só o poder onipotente de Deus podia efetuar.

Temas: fecristo

Gênesis 17.18-19 §

Nota de John Wesley

E disse Abraão: Tomara que viva Ismael diante de ti! — não o diz desejando que Ismael fosse preferido ao filho que teria de Sara; mas, temendo que Ismael fosse desamparado de Deus, apresenta esta petição em seu favor. A grande coisa que devemos desejar de Deus para os nossos filhos é que vivam diante dele — isto é, que sejam guardados na sua aliança e tenham graça para andar diante dele na sua retidão. E a resposta de Deus a essa oração é uma resposta de paz: Abraão não pôde dizer que buscara em vão a face de Deus.

Temas: oracaofamilia

Gênesis 17.20 §

Nota de John Wesley

Quanto a Ismael, eu te ouvi: eis que o abençoei — isto é, tenho muitas bênçãos reservadas para ele. A sua posteridade será numerosa: multiplicá-lo-ei grandemente; e será considerável: doze príncipes gerará. E podemos esperar, com caridade, que também bênçãos espirituais lhe foram concedidas, embora a igreja visível não tenha saído dos seus lombos.

Gênesis 17.21 §

Nota de John Wesley

E deu-lhe o nome de Isaque — riso; porque Abraão se regozijou em espírito quando este filho lhe foi prometido.

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