Gênesis 17.1-6 §
Nota de John Wesley
E, quando Abrão tinha noventa e nove anos — treze anos completos depois do nascimento de Ismael. Por tanto tempo foi adiada a promessa de Isaque: talvez para corrigir a pressa de Abrão em casar-se com Agar; e para que, estando Abrão e Sarai tão avançados em idade, o poder de Deus fosse tanto mais engrandecido. Apareceu o SENHOR a Abrão — em alguma manifestação visível da sua imediata e gloriosa presença. E disse: Eu sou o Deus Todo-Poderoso — por este nome quis dar-se a conhecer a Abrão, antes que pelo nome Jeová (Êx 6.3). Usou-o com Jacó (Gn 35.11), e por ele o chamaram os patriarcas (Gn 28.3; 43.14; 48.3); é o nome de Deus mais usado no livro de Jó — ao menos trinta vezes nos discursos daquele livro, onde Jeová aparece uma só vez. Eu sou El-Shaddai — fala do poder onipotente de Deus: seja como vingador, de uma raiz que significa destruir (e alguns pensam que Deus tomou este título da destruição do velho mundo), seja como benfeitor — 'aquele que basta'. A nossa velha tradução inglesa o verte aqui, com muita propriedade: Eu sou o Deus Todo-Suficiente. O Deus com quem tratamos é autossuficiente: tem tudo e de nada precisa; e ele nos basta, se estamos em aliança com ele: temos tudo nele, e temos o bastante nele — o bastante para satisfazer os nossos desejos mais dilatados, para suprir a falta de tudo o mais e para assegurar a felicidade da nossa alma imortal. Mas a aliança é mútua: Anda na minha presença e sê perfeito — isto é, reto e sincero. Observe: andar diante de Deus é pôr Deus sempre à nossa frente, e pensar, falar e agir, em tudo, como quem está continuamente sob os seus olhos; é ter constante respeito à sua palavra como nossa regra, e à sua glória como nosso fim, em todas as ações; é estar por dentro com ele em todos os deveres do culto e ser inteiro para ele em toda santa conduta. E o andar reto com Deus é a condição do nosso interesse na sua todo-suficiência: se o negligenciamos, ou fingimos com ele, perdemos o benefício da nossa relação com ele. E a consideração contínua da sua todo-suficiência terá grande influência no nosso andar reto com ele. E caiu Abrão sobre o seu rosto, enquanto Deus falava com ele (v. 3) — ou vencido pelo brilho da glória divina, como também fizeram Daniel e João; ou envergonhado de si mesmo, corando ao pensar nas honras feitas a alguém tão indigno: olha para si com humildade e para Deus com reverência e, em sinal de ambas, cai sobre o rosto. A promessa é introduzida com solenidade (v. 4): Quanto a mim — diz o grande Deus —, eis, eis e admira, eis e está certo disto: a minha aliança é contigo. E serás pai de muitas nações — o que implica, primeiro, que a sua descendência segundo a carne seria numerosíssima, em Isaque, em Ismael e nos filhos de Quetura — e o desfecho o confirmou, pois houve e há mais filhos dos homens descendentes de Abraão do que de qualquer outro homem à mesma distância de Noé, a raiz comum; e, segundo, que todos os crentes, em todas as eras, seriam tidos por sua descendência espiritual — o pai dos fiéis. É neste sentido que o apóstolo nos manda entender a promessa (Rm 4.16-17): ele é o pai daqueles que, em toda nação, entram pela fé na aliança com Deus e — como dizem os escritores judeus — são recolhidos sob as asas da Majestade divina. Em sinal disso, o seu nome foi mudado (v. 5) de Abrão, pai excelso, para Abraão, pai de multidão. Isso era para confirmar a fé de Abraão enquanto não tinha filhos; talvez o próprio nome lhe fosse por vezes ocasião de tristeza: por que se chamaria 'pai excelso' quem nem pai era? Mas agora, tendo-lhe Deus prometido descendência numerosa e dado um nome que significava exatamente isso, esse nome era a sua alegria.