Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 30

Referências: 30.1-830.9-1330.14-2430.3430.37-43

Introdução ao capítulo

Neste capítulo temos o relato do crescimento, primeiro, da família de Jacó — mais oito filhos registrados: Dã e Naftali, de Bila, serva de Raquel (v. 1-8); Gade e Aser, de Zilpa, serva de Lia (v. 9-13); Issacar, Zebulom e Diná, de Lia (v. 14-21); e, por fim, José, de Raquel (v. 22-24); e, segundo, dos bens de Jacó — o novo acordo com Labão (v. 25-34) e a maravilhosa bênção de Deus sobre os seus seis anos adicionais de serviço, de modo que o seu rebanho se tornou muito considerável (v. 35-43). Nisso se cumpria a bênção com que Isaque o despedira: Deus te faça fecundo e te multiplique (Gn 28.3).

Gênesis 30.1-8 §

Nota de John Wesley

Raquel teve inveja da sua irmã — a inveja é entristecer-se com o bem do outro; nenhum pecado é mais danoso, a Deus, ao próximo e a nós mesmos. E não foi só: disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. Um filho não a contentaria; porque Lia tem mais de um, ela também há de ter mais. Dá-me filhos — o coração está posto nisso; dá-mos, senão morro: isto é, hei de consumir-me de desgosto até a morte. Observe a diferença entre o pedido de Raquel e o de Ana (1Sm 1.10ss): Raquel invejou, Ana chorou; Raquel exige filhos, e morreu do segundo; Ana orou por um filho, e teve mais quatro; Raquel é impaciente e peremptória, Ana é submissa e devota — 'se me deres um filho, eu o darei ao SENHOR'. Imite-se Ana, não Raquel; e estejam os nossos desejos sempre sob a direção e o freio da razão e da religião. E a ira de Jacó se acendeu (v. 2) — irou-se não contra a pessoa, mas contra o pecado. Foi grave e piedosa a resposta que deu a Raquel: Estou eu no lugar de Deus? — posso dar-te o que Deus te nega? Ele reconhece a mão de Deus na aflição: ele reteve de ti o fruto do ventre. O que quer que nos falte, é Deus quem o retém — Senhor soberano, sapientíssimo, santo e justo, que pode fazer o que quiser do que é seu, e a ninguém deve nada; que jamais fez, nem pode fazer, injustiça a criatura alguma. A chave das nuvens, a do coração, a da sepultura e a do ventre são quatro chaves que Deus tem na mão e que — dizem os rabinos — não confia nem a anjo nem a serafim. Jacó reconhece também a própria incapacidade de alterar o que Deus determinou: Estou eu no lugar de Deus? Fazes de mim um deus? Nenhuma criatura é, nem pode ser, para nós, o lugar de Deus. Deus pode ser para nós em lugar de qualquer criatura — como o sol em lugar da lua e das estrelas; mas a lua e todas as estrelas não serão para nós em lugar do sol. A sabedoria, o poder e o amor de criatura alguma nos servirão em lugar dos de Deus. É, portanto, pecado e insensatez depositar em qualquer criatura a confiança que só em Deus se deve depositar. Eis a minha serva Bila (v. 3) — por persuasão de Raquel, ele tomou por mulher Bila, serva dela, para que, segundo o costume daqueles tempos, os filhos desta fossem adotados e reconhecidos como filhos da sua senhora. Ela preferia ter filhos de reputação a não ter nenhum — filhos a que pudesse chamar seus, ainda que não o fossem. E, como primeira mostra do seu domínio sobre os nascidos no seu aposento, compraz-se em dar-lhes nomes — que só trazem marcas de rivalidade com a irmã. Como se a tivesse vencido em juízo, chama ao primeiro filho da serva Dã, 'julgamento': Deus me julgou — isto é, sentenciou a meu favor; e, como se a tivesse vencido em batalha, chama ao segundo Naftali, 'lutas': Lutei com a minha irmã e prevaleci. Veja que raízes de amargura são a inveja e a contenda, e que estragos fazem entre parentes!

Temas: pecadooracaofamilia

Gênesis 30.9-13 §

Nota de John Wesley

Raquel fizera aquela coisa absurda e despropositada de pôr a serva no leito do marido; agora Lia — porque passou um ano sem dar à luz — faz o mesmo, para ficar quite com ela. Veja o poder da rivalidade — e admire a sabedoria da ordenação divina, que une um só homem a uma só mulher. Dois filhos deu Zilpa a Jacó, que Lia teve por seus: a um chamou Gade, prometendo-se uma pequena tropa de filhos; ao outro, Aser, 'feliz' — julgando-se feliz nele e prometendo-se que as vizinhas também a julgariam assim.

Temas: casamento

Gênesis 30.14-24 §

Nota de John Wesley

Rúben, menino de cinco ou seis anos, brincando no campo, achou mandrágoras. Não é certo o que eram; os críticos não concordam; certo é que eram alguma raridade — frutos ou flores de cheiro muito agradável (Ct 7.13). Fossem o que fossem, Raquel não pôde vê-las nas mãos de Lia sem as cobiçar. E Deus ouviu a Lia (v. 17) — talvez a razão desta disputa entre as mulheres de Jacó pela sua companhia, e do darem-lhe as servas por mulheres, fosse o desejo ardente de cumprir a promessa feita a Abraão (e há pouco renovada a Jacó): que a sua descendência seria como as estrelas do céu, e que numa semente sua — o Messias — todas as nações da terra seriam benditas. Dois filhos teve então Lia: ao primeiro chamou Issacar, 'recompensa', julgando-se bem paga das suas mandrágoras — e até (estranha leitura da providência!) recompensada por ter dado a serva ao marido. Ao outro chamou Zebulom, 'morada', reconhecendo a generosidade de Deus: Deus me deu um bom dote. Jacó não lhe dera dote ao casar; mas ela conta uma família de filhos como bom dote. Menciona-se Diná (v. 21) por causa da história que a seu respeito virá (Gn 34). Talvez Jacó tivesse outras filhas não registradas. E Deus se lembrou de Raquel (v. 22) — de quem parecia ter-se esquecido —, e a ouviu, a ela cujas orações por tanto tempo pareciam negadas; e ela deu à luz um filho. Chamou-o José — nome que em hebraico se aparenta a duas palavras de sentido contrário: asaf, 'tirou' — Deus tirou o meu opróbrio, como se a maior misericórdia deste filho fosse salvar-lhe o crédito —, e iosef, 'acrescentará' — o SENHOR me acrescentará outro filho: o que se pode tomar como linguagem da sua fé, recebendo esta misericórdia como penhor de mais misericórdia: deu-me Deus esta graça? Posso chamá-lo José e dizer: ele acrescentará mais graça.

Temas: oracaograca

Gênesis 30.34 §

Nota de John Wesley

Labão consentiu de bom grado no acordo, porque pensou: separados imediatamente os poucos salpicados e malhados que havia, o grosso do rebanho que Jacó apascentaria, sendo de uma só cor, produziria poucas ou nenhumas crias de cor mista — e assim teria o serviço de Jacó por nada, ou quase nada. Conforme o acordo, os poucos malhados foram separados, entregues aos filhos de Labão e mandados a três dias de caminho: tamanho era o ciúme de Labão, para que nenhum deles se misturasse ao resto do rebanho em proveito de Jacó.

Gênesis 30.37-43 §

Nota de John Wesley

Eis aqui o expediente de Jacó para tornar o acordo mais vantajoso do que prometia ser — e, se não tivesse tomado alguma medida em seu próprio favor, teria sido de fato um mau negócio, coisa que Labão jamais consideraria, pois não consultava interesse algum senão o próprio. As suas artimanhas foram: pôs varas descascadas diante do gado nos bebedouros, para que, fitando aquelas varas malhadas e incomuns, pelo poder da imaginação gerassem crias igualmente malhadas — costume provavelmente corrente entre os pastores de Canaã, que apreciavam gado dessa cor; e, quando começou a ter um rebanho de listrados e escuros, cuidou de pô-los à frente, voltando para eles os olhos dos demais, com o mesmo propósito. Se essa política foi honesta ou não, pode ser questão discutível; leia-se Gênesis 31.7-16, e a questão se resolve.

Temas: providencia

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