Gênesis 30.1-8 §
Nota de John Wesley
Raquel teve inveja da sua irmã — a inveja é entristecer-se com o bem do outro; nenhum pecado é mais danoso, a Deus, ao próximo e a nós mesmos. E não foi só: disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. Um filho não a contentaria; porque Lia tem mais de um, ela também há de ter mais. Dá-me filhos — o coração está posto nisso; dá-mos, senão morro: isto é, hei de consumir-me de desgosto até a morte. Observe a diferença entre o pedido de Raquel e o de Ana (1Sm 1.10ss): Raquel invejou, Ana chorou; Raquel exige filhos, e morreu do segundo; Ana orou por um filho, e teve mais quatro; Raquel é impaciente e peremptória, Ana é submissa e devota — 'se me deres um filho, eu o darei ao SENHOR'. Imite-se Ana, não Raquel; e estejam os nossos desejos sempre sob a direção e o freio da razão e da religião. E a ira de Jacó se acendeu (v. 2) — irou-se não contra a pessoa, mas contra o pecado. Foi grave e piedosa a resposta que deu a Raquel: Estou eu no lugar de Deus? — posso dar-te o que Deus te nega? Ele reconhece a mão de Deus na aflição: ele reteve de ti o fruto do ventre. O que quer que nos falte, é Deus quem o retém — Senhor soberano, sapientíssimo, santo e justo, que pode fazer o que quiser do que é seu, e a ninguém deve nada; que jamais fez, nem pode fazer, injustiça a criatura alguma. A chave das nuvens, a do coração, a da sepultura e a do ventre são quatro chaves que Deus tem na mão e que — dizem os rabinos — não confia nem a anjo nem a serafim. Jacó reconhece também a própria incapacidade de alterar o que Deus determinou: Estou eu no lugar de Deus? Fazes de mim um deus? Nenhuma criatura é, nem pode ser, para nós, o lugar de Deus. Deus pode ser para nós em lugar de qualquer criatura — como o sol em lugar da lua e das estrelas; mas a lua e todas as estrelas não serão para nós em lugar do sol. A sabedoria, o poder e o amor de criatura alguma nos servirão em lugar dos de Deus. É, portanto, pecado e insensatez depositar em qualquer criatura a confiança que só em Deus se deve depositar. Eis a minha serva Bila (v. 3) — por persuasão de Raquel, ele tomou por mulher Bila, serva dela, para que, segundo o costume daqueles tempos, os filhos desta fossem adotados e reconhecidos como filhos da sua senhora. Ela preferia ter filhos de reputação a não ter nenhum — filhos a que pudesse chamar seus, ainda que não o fossem. E, como primeira mostra do seu domínio sobre os nascidos no seu aposento, compraz-se em dar-lhes nomes — que só trazem marcas de rivalidade com a irmã. Como se a tivesse vencido em juízo, chama ao primeiro filho da serva Dã, 'julgamento': Deus me julgou — isto é, sentenciou a meu favor; e, como se a tivesse vencido em batalha, chama ao segundo Naftali, 'lutas': Lutei com a minha irmã e prevaleci. Veja que raízes de amargura são a inveja e a contenda, e que estragos fazem entre parentes!