Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 44

Referências: 44.544.1644.18-34

Introdução ao capítulo

José, tendo banqueteado os irmãos, despediu-os; mas aqui os vemos trazidos de volta, num susto maior que todos os anteriores. Observe: o método que ele usou, tanto para os humilhar mais quanto para provar o seu afeto por Benjamim — pelo qual poderia julgar a sinceridade do arrependimento deles quanto ao que lhe haviam feito: e o fez pondo Benjamim em apuros (v. 1-17); e o bom resultado do experimento: achou-os todos sinceramente empenhados, e Judá em particular, tanto pela segurança de Benjamim quanto pelo consolo do velho pai (v. 18-34).

Gênesis 44.5 §

Nota de John Wesley

Não é este o copo em que bebe o meu senhor, e pelo qual ele haveria de esquadrinhar tudo? — assim se pode traduzir.

Gênesis 44.16 §

Nota de John Wesley

Deus achou a iniquidade dos teus servos — referindo-se ao mal que outrora fizeram a José, pelo qual julgavam que Deus agora lhes tomava contas. Mesmo nas aflições em que nos julgamos injustiçados pelos homens, devemos reconhecer que Deus é justo e acha a nossa iniquidade. Não podemos julgar o que os homens são pelo que foram outrora, nem o que farão pelo que fizeram: a idade e a experiência podem torná-los mais sábios e melhores. Os que venderam José não quiseram abandonar Benjamim.

Temas: conscienciaarrependimento

Gênesis 44.18-34 §

Nota de John Wesley

E disse Judá — temos aqui o comoventíssimo discurso de Judá a José em favor de Benjamim. Ou Judá era mais amigo de Benjamim que os demais, ou se julgava mais obrigado que os demais a livrá-lo, por ter empenhado a sua palavra ao pai pelo seu regresso são e salvo. O discurso, como registrado, é tão natural e tão expressivo da sua emoção que não podemos deixar de supor que Moisés, escrevendo tanto tempo depois, o escreveu sob a direção especial daquele que fez a boca do homem. Há nele muita arte sem afetação e muita retórica sem estudo. Primeiro, ele se dirige a José com grande respeito: chama-o seu senhor, a si e aos irmãos seus servos, roga-lhe paciente audiência e faz-lhe alto cumprimento — tu és como Faraó: cujo favor desejamos e cuja ira tememos como a de Faraó. Segundo, apresenta Benjamim como digno da sua compassiva consideração: era um pequeno, comparado com os demais; o mais moço, sem trato com o mundo nem afeito a durezas, criado sempre com ternura junto ao pai. Tornava o caso mais digno de pena o ser ele o único que restava da sua mãe, pois o seu irmão morrera — isto é, José. Mal sabia Judá em que ponto sensível tocava: sabendo que José fora vendido, tinha razões de sobra para o julgar morto. Terceiro, insiste em que o próprio José os constrangera a trazer Benjamim: exprimira o desejo de vê-lo, proibira-lhes a sua presença sem ele — tudo indicando que lhe destinava alguma bondade. E haveria ele de ser trazido, com tanta dificuldade, para a 'promoção' de uma escravidão perpétua? Não viera ao Egito em pura obediência à ordem de José? E não lhe mostraria ele misericórdia? Quarto, o grande argumento em que insiste é a dor insuportável que seria para o velho pai, se Benjamim ficasse na servidão. O seu pai o ama (v. 20). Se deixar o pai, o pai morrerá (v. 22) — quanto mais se agora ficasse para nunca voltar. A sua vida está ligada à vida do moço: quando vir que o moço não está conosco, desfalecerá e morrerá — ou se entregará a tal grau de tristeza que em poucos dias dará cabo dele. E, por fim, alega que ele mesmo não suportaria vê-lo: não veja eu o mal que sobrevirá a meu pai. Quinto, em honra à justiça da sentença de José, e para mostrar a sinceridade do seu apelo, Judá oferece-se para ficar escravo em lugar de Benjamim. Assim a lei ficaria satisfeita; José nada perderia (podemos supor Judá mais robusto que Benjamim); e Jacó suportaria isso melhor que a perda de Benjamim. Tão longe estava de se magoar com a predileção do pai por Benjamim, que se dispõe a ser escravo para poupá-la. Ora, fosse José, como Judá supunha, inteiramente estranho à família, a simples humanidade não poderia deixar de ser tocada por razões tão poderosas — nada se poderia dizer de mais comovente e terno; bastaria para derreter um coração de pedra. Mas para José — mais chegado a Benjamim do que o próprio Judá, e que naquele momento sentia por ele e pelo velho pai afeto maior que o de Judá — nada se poderia dizer mais agradável e oportuno. Nem Jacó nem Benjamim precisavam de intercessor junto a José: ele mesmo os amava. Em suma, note: com que prudência Judá evitou qualquer menção ao crime imputado a Benjamim — reconhecê-lo seria macular a honestidade de Benjamim; negá-lo, macular a justiça de José; por isso deixa de lado esse ponto e apela à compaixão. Com que razão o moribundo Jacó diria: Judá, a ti te louvarão os teus irmãos (Gn 49.8) — pois a todos excedeu em coragem, sabedoria, eloquência e, sobretudo, ternura pelo pai e pela família. E a fiel adesão de Judá a Benjamim, na sua angústia, foi recompensada muito depois pela constante adesão da tribo de Benjamim à tribo de Judá, quando as outras dez a abandonaram.

Nota do editor

O discurso de Judá é a prova cabal do arrependimento: o mesmo homem que vendeu um irmão agora se oferece como escravo no lugar do outro. E há aqui mais que um belo gesto — Judá, oferecendo-se substituto, prefigura o Leão da tribo de Judá, que de fato tomou o nosso lugar. O arrependimento verdadeiro não se prova com palavras, mas com uma vida que escolhe o contrário do antigo pecado.

Temas: intercessaoarrependimentocristo

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