Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Gênesis 9

Referências: 9.1-49.59.69.8-119.12-179.20-219.22-239.24-27

Introdução ao capítulo

Neste capítulo temos: a aliança da providência firmada com Noé e seus filhos (v. 1-11) — na qual Deus lhes promete cuidar da vida deles (encheriam a terra, estariam a salvo dos animais, poderiam comer carne, mas não o sangue, e o mundo nunca mais seria inundado) e deles requer que cuidem da vida uns dos outros e da sua própria (v. 5-6); o selo dessa aliança, o arco-íris (v. 12-17); um episódio particular envolvendo Noé e seus filhos, que ocasionou profecias sobre tempos futuros — o pecado e a vergonha de Noé, a insolência de Cam, o pudor piedoso de Sem e Jafé, a maldição de Canaã e a bênção de Sem e Jafé (v. 20-27); e a idade e a morte de Noé (v. 28-29).

Gênesis 9.1-4 §

Nota de John Wesley

E Deus abençoou Noé e seus filhos — assegurou-lhes a sua boa vontade e as suas graciosas intenções a respeito deles. A primeira bênção é aqui renovada: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra — e repetida no versículo 7, pois a raça humana havia, por assim dizer, de começar de novo. Em virtude dessa bênção, a humanidade seria multiplicada e perpetuada sobre a terra, de modo que em pouco tempo todas as partes habitáveis estariam mais ou menos habitadas; e, embora uma geração passasse, outra viria — a corrente da raça humana correndo em sucessão constante, paralela à corrente do tempo, até que ambas sejam tragadas pelo oceano da eternidade. Deus lhes concede também poder sobre as criaturas inferiores (v. 2): um título sobre elas — nas vossas mãos são entregues, para vosso uso e benefício — e um domínio sobre elas, sem o qual o título de pouco valeria: O medo e o pavor de vós estarão sobre todo animal. Isso reaviva a concessão anterior (Gn 1.28), com esta diferença: o homem, na inocência, governava pelo amor; o homem caído governa pelo medo. E até hoje temos o benefício disso: as criaturas que nos são úteis são domesticadas, e as usamos para serviço ou alimento; as que nos são nocivas são refreadas — de modo que, embora aqui e ali alguém seja ferido por alguma delas, elas não se coligam para levantar-se em rebelião contra o homem. Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento (v. 3) — até então o homem estivera limitado aos produtos da terra: frutas, ervas, raízes, cereais e leite; assim fora a primeira concessão (Gn 1.29). Mas o dilúvio talvez tivesse lavado muito da virtude da terra, tornando os seus frutos menos saborosos e menos nutritivos; por isso Deus agora ampliou a concessão e permitiu ao homem comer carne — coisa em que talvez o próprio homem nunca tivesse pensado até então. Os preceitos e ressalvas desta carta de privilégios não são menos bondosos e graciosos, mostras da boa vontade de Deus para com o homem. Os doutores judeus falam tanto dos sete preceitos de Noé — ou dos filhos de Noé —, que dizem deverem ser observados por todas as nações, que não é descabido registrá-los: o primeiro, contra o culto aos ídolos; o segundo, contra a blasfêmia, exigindo bendizer o nome de Deus; o terceiro, contra o homicídio; o quarto, contra o incesto e toda impureza; o quinto, contra o furto e a rapina; o sexto, exigindo a administração da justiça; o sétimo, contra comer a carne com a sua vida. Os judeus exigiam a observância deles dos prosélitos da porta. Mas os preceitos aqui dados dizem todos respeito à vida do homem — o homem não deve prejudicar a própria vida comendo o que é insalubre e nocivo à saúde. A carne, porém, com a sua vida, isto é, com o seu sangue, não comereis (v. 4) — o sangue fazia expiação pela alma (Lv 17.11): a vida do sacrifício era aceita pela vida do pecador. O sangue não devia ser tratado como coisa comum, mas derramado perante o SENHOR (2Sm 23.16).

Temas: aliancaprovidencia

Gênesis 9.5 §

Nota de John Wesley

E certamente requererei o vosso sangue, o das vossas vidas — a nossa vida não é tão nossa que possamos deixá-la quando nos aprouver: ela é de Deus, e devemos entregá-la quando a ele aprouver. Se de algum modo apressamos a nossa própria morte, prestaremos contas disso a Deus. Mais: da mão de todo animal o requererei — para mostrar quão zeloso é Deus da vida do homem, ele quer que se dê morte ao animal que matar um homem; isso foi confirmado pela lei de Moisés (Êx 21.28). E da mão de todo homem, da mão do próximo de cada um, requererei a vida do homem — vingarei o sangue do assassinado sobre o assassino. Quando Deus requer a vida de um homem da mão de quem injustamente a tirou, este não pode restituí-la; deve, portanto, dar a própria em seu lugar — o único modo que resta de fazer restituição.

Temas: justica

Gênesis 9.6 §

Nota de John Wesley

Quem derramar o sangue do homem — seja por provocação repentina, seja premeditadamente (pois a ira precipitada é homicídio do coração, tanto quanto a malícia deliberada, Mt 5.21-22) —, pelo homem o seu sangue será derramado — isto é, pelo magistrado, ou por quem for designado vingador do sangue. Antes do dilúvio, como parece pela história de Caim, Deus reservava a si a punição do homicídio; agora confiou esse juízo aos homens — primeiro aos chefes de família, depois aos chefes das nações. Porque à imagem de Deus foi feito o homem — o homem é criatura cara ao seu Criador, e por isso deve sê-lo também a nós. Deus pôs honra sobre ele; não ponhamos nós desprezo. Restam ainda, mesmo no homem caído, tais vestígios da imagem de Deus, que aquele que injustamente mata um homem desfigura a imagem de Deus e o desonra.

Temas: imagem de deusjustica

Gênesis 9.8-11 §

Nota de John Wesley

Temos aqui o estabelecimento geral da aliança de Deus com este novo mundo, e a extensão dessa aliança. Não haverá mais dilúvio (v. 11) — Deus inundara o mundo uma vez, e o mundo continua tão provocador como sempre; contudo, ele nunca mais o inundará, pois não nos trata segundo os nossos pecados. Essa promessa de Deus mantém o mar e as nuvens no lugar que lhes foi decretado, e lhes põe portas e trancas: Até aqui virás (Jó 38.10-11). Se o mar transbordasse por alguns dias — como transborda duas vezes ao dia por algumas horas —, que desolações não faria! O mesmo as nuvens, se chuvas como as que às vezes vemos durassem muito. Deus, pelos mares que avançam e pelas chuvas que varrem, mostra o que poderia fazer na ira; e, preservando a terra de ser submersa por ambos, mostra o que pode fazer na misericórdia e fará na fidelidade.

Temas: aliancaprovidencia

Gênesis 9.12-17 §

Nota de John Wesley

Ponho o meu arco nas nuvens — é provável que o arco-íris já fosse visto nas nuvens antes; mas nunca foi selo da aliança até agora. Sobre este selo, observe: primeiro, ele é afixado com repetidas garantias da verdade da promessa que veio ratificar: ponho o meu arco na nuvem (v. 13); ele será visto na nuvem (v. 14); será sinal da aliança (v. 12-13); e lembrar-me-ei da minha aliança, e as águas não se tornarão mais em dilúvio (v. 15); mais ainda — como se a mente eterna precisasse de um memorando: olharei para ele, para me lembrar da aliança eterna (v. 16). Segundo, o arco-íris aparece quando as nuvens estão mais carregadas de chuva: quando temos mais razão de temer que a chuva prevaleça, Deus mostra este selo da promessa de que ela não prevalecerá. Terceiro, o arco-íris aparece quando uma parte do céu está limpa — o que figura a misericórdia lembrada no meio da ira; e as nuvens ficam como que debruadas pelo arco, para que não cubram o céu inteiro, pois o arco é chuva colorida, ou a borda de uma nuvem dourada. Assim como Deus olha para o arco a fim de se lembrar da aliança, olhemos nós também — para estarmos sempre lembrados da aliança, com fé e gratidão.

Temas: aliancagraca

Gênesis 9.20-21 §

Nota de John Wesley

E começou Noé a ser lavrador — no hebraico, homem da terra: homem que lidava com a terra, que a mantinha nas mãos e a cultivava. Algum tempo depois de sair da arca, voltou ao seu antigo ofício, do qual o desviara primeiro a construção da arca e, provavelmente, depois, a construção de uma casa para si e para a família. E plantou uma vinha — e, colhida a vindima, provavelmente marcou um dia de alegria e festa em família, com os filhos e os netos, para se alegrar com o crescimento da sua casa e da sua vinha; e podemos supor que abriu a festa com um sacrifício em honra de Deus. Se o omitiu, justo seria da parte de Deus entregá-lo a si mesmo — pois termina com os animais quem não começa com Deus; mas esperamos, com caridade, que não o omitiu. E bebeu do vinho e embriagou-se (v. 21) — é altamente provável que não conhecesse antes o efeito dele. E ficou descoberto dentro da sua tenda — nu, para a sua vergonha.

Temas: pecado

Gênesis 9.22-23 §

Nota de John Wesley

E Cam viu a nudez do seu pai e contou-o aos dois irmãos — tê-la visto por acidente e sem querer não teria sido crime; mas ele se compraz no que vê. E contou-o aos dois irmãos lá fora — na rua, como diz a palavra: em tom zombeteiro e escarnecedor. E Sem e Jafé tomaram uma capa, andaram de costas e cobriram a nudez do pai (v. 23) — não só não quiseram vê-la eles mesmos, como providenciaram que ninguém mais a visse: dando nisso um exemplo de caridade para com o pecado e a vergonha alheios.

Temas: santidade

Gênesis 9.24-27 §

Nota de John Wesley

Servo de servos seja — isto é: será o mais baixo e desprezível servo, até dos seus irmãos. Os que por nascimento eram seus iguais tornar-se-iam, por conquista, seus senhores. Isso aponta certamente para as vitórias de Israel sobre os cananeus, pelos quais todos foram ou passados à espada ou postos sob tributo (Js 9.23; Jz 1.28, 30) — o que só aconteceu cerca de oitocentos anos depois. Deus muitas vezes visita a iniquidade dos pais sobre os filhos, especialmente quando os filhos herdam as disposições más dos pais e imitam as suas más práticas. Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem (v. 26) — todas as bênçãos estão incluídas nisto. Foi esta a bênção conferida a Abraão e à sua descendência: o Deus do céu não se envergonhou de ser chamado o seu Deus (Hb 11.16). Sem foi suficientemente recompensado pelo respeito ao pai com isto: o próprio SENHOR lhe põe a honra de ser o seu Deus — recompensa que basta por todos os nossos serviços e todos os nossos sofrimentos pelo seu nome. Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem (v. 27) — a sua descendência seria tão numerosa e vitoriosa que se tornaria senhora das tendas de Sem: o que se cumpriu quando o povo judeu, o mais eminente da raça de Sem, ficou tributário primeiro dos gregos e depois dos romanos, ambos da semente de Jafé. Mas isto fala também da conversão dos gentios e da sua entrada na igreja — e então devemos ler: Deus persuadirá a Jafé (pois é o que a palavra significa), e, persuadido, ele habitará nas tendas de Sem: judeus e gentios unidos no aprisco do evangelho. Depois que muitos gentios se tivessem tornado prosélitos da religião judaica, ambos seriam um em Cristo (Ef 2.14-15). Quando Jafé se une a Sem, Canaã cai diante de ambos; quando estranhos se tornam amigos, inimigos se tornam servos.

Temas: cristoigrejaprofecia

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