Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Jó 28

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Introdução ao capítulo

A sabedoria de Deus nas obras da natureza (v. 1-11); sabedoria como esta não se acha no homem, nem se compra por preço algum (v. 12-21); a morte dá notícia dela (v. 22); está escondida em Deus (v. 23-27); temer a Deus é a sabedoria do homem (v. 28).

Jó 28.1 §

Nota de John Wesley

Na verdade — Jó, tendo no capítulo anterior discorrido sobre as várias providências de Deus para com os maus, e mostrado que Deus às vezes lhes dá prosperidade por uma estação, mas depois os chama a tristes contas; e tendo mostrado que às vezes Deus prospera os maus por todos os seus dias, de modo que vivem e morrem sem sinal visível do desagrado de Deus, quando, ao contrário, os bons são exercitados com muitas calamidades; e percebendo que os amigos se escandalizavam com estes métodos da providência divina e negavam o fato, por não poderem entender a razão de tais dispensações — neste capítulo declara que esta é uma das profundezas da sabedoria divina, que nenhum mortal pode descobrir; e que, embora os homens tenham algum grau de sabedoria com que investigam muitas coisas escondidas, como os veios de prata e ouro, esta é sabedoria de natureza mais alta, fora do alcance do homem. As cavernas da terra ele pode descobrir; os conselhos do céu, não.

Jó 28.3 §

Nota de John Wesley

Perfeição — tudo o que jaz profundamente lavrado nas mais fundas cavernas. Pedras da escuridão — as pedras preciosas escondidas nas entranhas escuras da terra, onde ser vivo nenhum pode morar.

Jó 28.4 §

Nota de John Wesley

Rompe — enquanto os homens escavam, a água irrompe sobre eles. Moradores — daquela parte da terra que os mineiros habitam. Esquecidas — não pisadas por pé de homem. Secam-se — são secadas (ou puxadas para cima, por engenhos feitos para isso) para longe dos homens, dos mineiros, para que não sejam estorvados no seu trabalho.

Jó 28.5 §

Nota de John Wesley

Fogo — carvões, enxofre e outros materiais de fogo. A menos que isto se refira, como alguns supõem, a um fogo central.

Jó 28.6 §

Nota de John Wesley

Safiras — de pedras preciosas; a safira, uma das mais eminentes, põe-se por todas as demais. Nalgumas partes da terra as safiras estão misturadas com pedras, e delas são cortadas e polidas. Tem — a terra contém. Pó — distinto daquele ouro que se acha em massa; ambas as espécies de ouro se acham na terra.

Jó 28.7 §

Nota de John Wesley

Vereda — nas entranhas da terra. Olho do abutre — cujo olho é agudíssimo e forte, e esquadrinha todos os lugares atrás da presa.

Jó 28.8 §

Nota de John Wesley

Leão — que percorre todos os lugares atrás de presa. As aves e as feras muitas vezes conduziram os homens a lugares que de outro modo jamais achariam; mas não os podiam conduzir a estas minas: o seu achado é dom especial de Deus.

Jó 28.9 §

Nota de John Wesley

Ele... — este e os dois versículos seguintes mencionam outras obras eminentes de Deus, que derruba rochas e produz novos rios.

Jó 28.10 §

Nota de John Wesley

Veem — até aquelas que arte ou indústria humana alguma jamais pôde descobrir. A sabedoria — o homem tem uma espécie de sabedoria: descobrir as obras da natureza e realizar as operações da arte; mas aquela sabedoria sublime, que consiste no conhecimento de Deus e de nós mesmos, ninguém a pode descobrir senão por dom especial de Deus.

Jó 28.13 §

Nota de John Wesley

Se acha — entre os homens sobre a terra; somente entre aqueles espíritos benditos que habitam no alto.

Jó 28.14 §

Nota de John Wesley

O abismo — não se acha em parte alguma do mar, por mais fundo que alguém cave ou mergulhe para achá-la, nem se pode aprender de criatura alguma.

Jó 28.20 §

Nota de John Wesley

Donde... — por diligente inquirição achamos por fim que há uma dupla sabedoria: uma escondida em Deus, que não nos pertence; outra revelada ao homem, que pertence a nós e a nossos filhos.

Jó 28.21 §

Nota de John Wesley

Encoberta — a linha e o prumo da razão humana jamais poderão sondar o abismo dos conselhos divinos. Quem pode explicar as máximas, medidas e métodos do governo de Deus? Contentemo-nos, pois, de não conhecer os eventos futuros da providência até que o tempo os revele; e de não conhecer as razões secretas da providência até que a eternidade as traga à luz.

Jó 28.22 §

Nota de John Wesley

A morte — a sepultura, o lugar dos mortos, aos quais estas coisas se atribuem aqui, como às profundezas e ao mar, por figura comum. Embora não possam eles mesmos dar conta dela, há um mundo com o qual essas regiões escuras confinam, onde a veremos claramente. Tem paciência, diz a morte: em breve te levarei a um lugar onde até esta sabedoria se achará. Quando o véu da carne se rasgar, e as nuvens interpostas se dissiparem, saberemos o que Deus faz, embora agora não o saibamos.

Jó 28.23 §

Nota de John Wesley

Deus — Deus somente. O caminho — os métodos que ele toma na administração de todos os negócios, com os seus fundamentos e fins. O lugar — onde ela habita: somente na sua própria mente.

Jó 28.24 §

Nota de John Wesley

Porque — ele, e só ele, a conhece: porque a sua providência é infinita e universal, alcançando todos os lugares e tempos — passados, presentes e futuros; ao passo que os homens mais sábios têm entendimento estreito, e a sabedoria, justiça e beleza das obras de Deus não se veem plenamente enquanto todas as suas partes não forem postas juntas.

Jó 28.25 §

Nota de John Wesley

Ventos — Deus os administra todos por peso, marcando a cada vento que sopra a sua estação, a sua proporção, os seus limites: quando, onde, quanto e por quanto tempo cada um soprará. Só ele faz todas estas coisas, e só ele sabe por que as faz. Jó dá exemplos de algumas poucas obras de Deus, e justamente das que parecem mais triviais e incertas, para com isso dar a entender mais fortemente que Deus faz o mesmo nas coisas mais consideráveis: que faz tudo na mais exata ordem, peso e medida. As águas — a saber, as águas da chuva, que Deus armazena nos seus depósitos, as nuvens, e de lá as tira e as faz descer sobre a terra nos tempos e proporções que julga bons. Medida — pois as coisas líquidas se examinam por medida, como as outras por peso; e aqui há peso e medida, para significar com que perfeita sabedoria Deus governa o mundo.

Jó 28.26 §

Nota de John Wesley

Quando — na primeira criação, quando fixou o curso e a ordem que haveriam de continuar. Um decreto — uma determinação e, por assim dizer, uma lei estatutária: que a chuva caísse sobre a terra em tais tempos, lugares e proporções.

Jó 28.27 §

Nota de John Wesley

A ela — a sabedoria, assunto do presente discurso. Deus a viu dentro de si mesmo; contemplou-a na sua própria mente, como a regra pela qual procederia na criação e governo de todas as coisas. Declarou — ou revelou. Preparou — teve-a pronta para fazer todas as suas obras, como se por longo tempo estivesse preparando materiais para elas; é, pois, um falar de Deus à maneira dos homens. Esquadrinhou — não propriamente, pois esquadrinhar implica ignorância e requer tempo e indústria, tudo repugnante às perfeições divinas; mas figuradamente: ele fez, e faz, todas as coisas com aquela sabedoria absoluta e perfeita, tão exata e perfeitamente como se tivesse gasto longo tempo esquadrinhando para as descobrir.

Jó 28.28 §

Nota de John Wesley

Ao homem — a Adão, no dia em que foi criado; e nele, a toda a sua posteridade. Disse — Deus o falou primeiro à mente do homem, na qual o escreveu com o seu próprio dedo, e depois pelos santos patriarcas, profetas e outros mestres que enviou ao mundo para ensinar aos homens a verdadeira sabedoria. Eis que — expressão que denota a grande importância desta doutrina, e juntamente a lentidão do homem em apreendê-la. O temor do Senhor — a verdadeira religião. Sabedoria — a sabedoria do homem: porque isto, e só isto, é o seu dever, a sua segurança e a sua felicidade, para esta vida e para a próxima. Do mal — do pecado, chamado mal por eminência, por ser o mal principal e a causa de todos os outros males. A religião consiste em dois ramos: fazer o bem e abandonar o mal; o primeiro está expresso na primeira cláusula deste versículo, o segundo nestas palavras. E esta é a melhor espécie de conhecimento ou sabedoria a que o homem pode chegar nesta vida. O desígnio de Jó, neste fecho do seu discurso, é não só repreender a ousadia dos amigos em devassar os segredos de Deus e proferir censura tão precipitada sobre ele e sobre o trato de Deus com ele, mas também vindicar-se da imputação de hipocrisia que lhe pregavam, mostrando que sempre estimou ser a sua melhor sabedoria temer a Deus e apartar-se do mal.

Nota do editor

Jó 28 é um poema-parêntese que respira no meio do debate: o homem que perfura montanhas atrás de safira e pendura-se em abismos por ouro (v. 1-11) não acha a sabedoria em mina nenhuma, nem a compra com o que extraiu (v. 12-19). A tecnologia venceu a terra e não venceu a pergunta. E a resposta final desarma toda soberba intelectual: 'o temor do Senhor é a sabedoria; apartar-se do mal é o entendimento' (v. 28) — a mesma tese que abre Provérbios (Pv 1.7; 9.10) e fecha Eclesiastes (Ec 12.13). Note-se o rebaixamento salutar: a sabedoria acessível ao homem não é decifrar os conselhos de Deus (o que o debate inteiro tentava), é reverenciá-lo e obedecer — Jó, que não recebeu explicação nenhuma, tinha desde o cap. 1 exatamente esta sabedoria ('temente a Deus e que se desviava do mal', Jó 1.1). Em Cristo o poema ganha rosto: ele é feito por Deus 'sabedoria para nós' (1Co 1.30; Cl 2.3) — a pérola que nenhuma mina dá e a graça entrega (Mt 13.45-46).

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