Ao homem — a Adão, no dia em que foi criado; e nele, a toda a sua posteridade. Disse — Deus o falou primeiro à mente do homem, na qual o escreveu com o seu próprio dedo, e depois pelos santos patriarcas, profetas e outros mestres que enviou ao mundo para ensinar aos homens a verdadeira sabedoria. Eis que — expressão que denota a grande importância desta doutrina, e juntamente a lentidão do homem em apreendê-la. O temor do Senhor — a verdadeira religião. Sabedoria — a sabedoria do homem: porque isto, e só isto, é o seu dever, a sua segurança e a sua felicidade, para esta vida e para a próxima. Do mal — do pecado, chamado mal por eminência, por ser o mal principal e a causa de todos os outros males. A religião consiste em dois ramos: fazer o bem e abandonar o mal; o primeiro está expresso na primeira cláusula deste versículo, o segundo nestas palavras. E esta é a melhor espécie de conhecimento ou sabedoria a que o homem pode chegar nesta vida. O desígnio de Jó, neste fecho do seu discurso, é não só repreender a ousadia dos amigos em devassar os segredos de Deus e proferir censura tão precipitada sobre ele e sobre o trato de Deus com ele, mas também vindicar-se da imputação de hipocrisia que lhe pregavam, mostrando que sempre estimou ser a sua melhor sabedoria temer a Deus e apartar-se do mal.
Nota do editor
Jó 28 é um poema-parêntese que respira no meio do debate: o homem que perfura montanhas atrás de safira e pendura-se em abismos por ouro (v. 1-11) não acha a sabedoria em mina nenhuma, nem a compra com o que extraiu (v. 12-19). A tecnologia venceu a terra e não venceu a pergunta. E a resposta final desarma toda soberba intelectual: 'o temor do Senhor é a sabedoria; apartar-se do mal é o entendimento' (v. 28) — a mesma tese que abre Provérbios (Pv 1.7; 9.10) e fecha Eclesiastes (Ec 12.13). Note-se o rebaixamento salutar: a sabedoria acessível ao homem não é decifrar os conselhos de Deus (o que o debate inteiro tentava), é reverenciá-lo e obedecer — Jó, que não recebeu explicação nenhuma, tinha desde o cap. 1 exatamente esta sabedoria ('temente a Deus e que se desviava do mal', Jó 1.1). Em Cristo o poema ganha rosto: ele é feito por Deus 'sabedoria para nós' (1Co 1.30; Cl 2.3) — a pérola que nenhuma mina dá e a graça entrega (Mt 13.45-46).