Dele — não de todo o ouro, pois então seria pesada demais para uso, mas de parte; o resto empregado provavelmente noutras coisas a ela pertencentes, que noutros lugares se compreendem sob o nome de estola sacerdotal (Jz 17.5). Pô-la — não como monumento da vitória, pois tais monumentos não eram próprios nem usuais, mas para uso religioso, único fim para que a estola fora instituída. O caso parece ser este: Gideão, tendo por ordem de Deus erguido um altar na sua própria cidade, Ofra (Jz 6.24), para tempo e ocasião extraordinários, julgou que podia continuar em uso ordinário; e, pretendendo prover sacerdotes, intentou fazer vestes sacerdotais, especialmente a estola, a principal e mais custosa — que, além do uso nos ministérios sagrados, era também o instrumento pelo qual se consultava e descobria a mente de Deus; e podia parecer necessário ao juiz tê-la à mão, para consultar a Deus em toda ocasião. Se prostituiu — cometeu idolatria com ela; ou ia até lá inquirir a vontade de Deus, com o que se desviavam da verdadeira estola, instituída por Deus para este fim, que só o sumo sacerdote devia vestir. Um laço — ocasião de pecado e ruína para ele e os seus, como mostra o capítulo seguinte. Embora Gideão fosse homem bom e o fizesse com intenção honesta e desejo de estabelecer a religião na sua cidade e família, parecem estar aqui muitos pecados: primeiro, superstição e culto de invenção própria, adorando a Deus por dispositivo seu, o que era expressamente proibido; segundo, presunção, ao vestir, ou fazer que outros sacerdotes vestissem, esta espécie de estola, peculiar ao sumo sacerdote; terceiro, transgressão da ordem clara de adorar a Deus ordinariamente num só lugar e num só altar (Dt 12.5,11,14); quarto, divisão no meio do povo; quinto, o pôr tropeço, ocasião de idolatria, diante de povo que sabia tão propenso a ela.
Nota do editor
A queda mais instrutiva do livro: Gideão, que derrubou o altar de Baal, criou sem querer um ídolo com os despojos da própria vitória — 'toda a Israel se prostituiu ali após ela' (Jz 8.27). Boa intenção não santifica culto inventado; e as vitórias de ontem, viradas relíquia, tornam-se os laços de amanhã (compare a serpente de bronze, 2Rs 18.4). Adora-se a Deus como ele prescreveu, não como nos parece devoto.