De quem é a culpa da incredulidade?
Se Deus é soberano, a rejeição de Israel foi decreto divino — ou escolha humana?
“Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”Romanos 10.13 · NAA
Para começar
No estudo de Romanos 9, vimos a soberania de Deus. Agora Paulo vira a lente para o nosso lado da história.
Se Deus é soberano, a rejeição de Israel foi decreto divino — ou escolha humana?
Preciso “subir ao céu” para achá-la, ou ela está mais perto do que imagino?
A salvação é de um grupo restrito — ou de “todo aquele que invocar”?
Tese da aula: Romanos 10 é o outro lado da moeda de Romanos 9. Se lá vimos a soberania de Deus, aqui vemos a responsabilidade humana: Israel tem zelo, mas sem entendimento (10.1-4); a fé é simples e está perto (10.5-10); a oferta é para todos (10.11-13); ela exige a pregação (10.14-17); e a rejeição é culpa do povo, não decreto de Deus (10.18-21).
De Rm 9 a Rm 10
Como observa John Stott, no capítulo 9 a incredulidade de Israel aparecia ligada a um mistério divino — o endurecimento; no capítulo 10, ela é claramente atribuída à desobediência obstinada do povo. Não há fatalismo em Paulo. O ser humano é agente moral responsável, capaz de resistir à graça. As duas verdades — soberania e responsabilidade — não se anulam; convivem na mesma carta e no mesmo Deus.
Rm 10.1-4
“Irmãos, o bom desejo do meu coração e a minha súplica a Deus, em favor deles, é para que sejam salvos.” (Rm 10.1)
Repare no detalhe: Paulo ora pela salvação de Israel. Se o destino deles estivesse fechado por um decreto eterno de reprovação, ele estaria orando contra a vontade de Deus. A oração de Paulo já prova que a porta não está trancada.
O erro de Israel
Não faltava sinceridade — “têm zelo por Deus” (Rm 10.2). Faltava direção. Procuraram “estabelecer a sua própria justiça”, baseada na performance da Lei, e “não se sujeitaram à justiça de Deus”, baseada na dádiva da graça (Rm 10.3).
Rm 10.2-3
Cristo, o fim da Lei
“O fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). A palavra télos significa tanto “término” quanto “alvo”: Cristo encerrou o regime da Lei como meio de salvação e cumpriu tudo o que ela apontava. Buscar salvação pela Lei, agora, é um anacronismo espiritual.
Rm 10.4
Rm 10.5-10
Paulo contrasta a “justiça que vem da lei” (fazer para viver) com a “justiça que vem da fé” (viver pelo que foi feito).
Citando Deuteronômio, ele mostra que não é preciso “subir ao céu” nem “descer ao abismo” para achar a salvação — como se ela fosse inacessível. Cristo já veio, já morreu e já ressuscitou. Por isso “a palavra está perto de você, na sua boca e no seu coração” (Rm 10.8).
“Se, com a sua boca, você confessar Jesus como Senhor e, em seu coração, crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo.” (Rm 10.9)
Confissão e fé, boca e coração: a salvação é profunda, mas não é complicada. Não é um prêmio para gênios religiosos nem para atletas espirituais; é um dom ao alcance de quem crê e confessa.
Rm 10.11-13
Sem distinção
“Não há distinção entre judeu e grego, visto que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12). A mesma porta, a mesma fé, o mesmo Senhor generoso.
Rm 10.11-12
Todo aquele que invocar
“Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). O “todo aquele”, repetido nos v. 11 e 13, desmonta a ideia de uma expiação limitada a poucos: a salvação está disponível para quem crer.
Rm 10.13 · Jl 2.32
Este é um dos textos mais caros à nossa tradição arminiano-wesleyana: a oferta da salvação é genuína e é para todos. Deus não finge convidar. Quando dizemos “todo aquele”, dizemos a verdade — inclusive para a pessoa que hoje se julga longe demais.
Rm 10.14-17
Aqui está a base bíblica das missões. A eleição não anula a pregação — ela a exige.
Como invocarão aquele em quem não creram?
Como crerão naquele de quem nada ouviram?
Como ouvirão, se não há quem pregue?
Como pregarão, se não forem enviados? (Rm 10.14-15)
Rm 10.18-21
Paulo antecipa as desculpas e as desmonta uma a uma.
“Não ouviram?”
“Sim, por certo” (Rm 10.18). A mensagem chegou; o som saiu por toda a terra.
“Não entenderam?”
Entenderam — e mesmo assim foram rebeldes e contradizentes. O problema não foi falta de informação, foi recusa da vontade.
“Quanto a Israel, porém, diz: Todo o dia estendi as mãos a um povo rebelde e contradizente.” (Rm 10.21)
Esta é uma das imagens mais comoventes da Escritura, e uma das mais importantes para a nossa teologia: Deus de mãos estendidas. Ele oferece a graça o dia inteiro; o povo é quem contradiz e recusa. O quadro refuta a ideia de uma graça irresistível: a graça é real e é oferecida de verdade, mas pode ser rejeitada por uma vontade livre. O amor de Deus não arromba portas — ele as bate, com as mãos abertas.
Da exegese à vida
Sinceridade não basta; é possível ter fervor e estar no caminho errado (Rm 10.2). Ancore o zelo na justiça de Deus, não na sua própria.
Ninguém precisa escalar o céu: a palavra está perto (Rm 10.8). Diga ao aflito que crer e confessar já é o caminho (Rm 10.9).
A oferta é genuína e é para todos (Rm 10.13). Não estreite o convite que Deus fez largo.
Alguém pregou para você; agora envie, vá, sustente quem vai (Rm 10.14-15). A soberania de Deus é convite ao trabalho, não desculpa para a inércia.
A pergunta de Romanos 10 nos alcança: diante das mãos estendidas de Deus, tenho invocado o seu nome — e ajudado outros a ouvir?
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Tarefas
Ler Romanos 10 inteiro e escrever, com suas palavras, uma frase para cada elo da cadeia de Rm 10.14-17; depois, orar por três pessoas específicas que precisam “invocar o nome do Senhor” e anotar um passo concreto para que elas ouçam o evangelho por meio de você nesta semana.
Aula seguinte
A oliveira e o futuro de Israel: o remanescente pela graça, a advertência aos gentios (“se não permaneceres, também tu serás cortado”) e o mistério do “todo o Israel”, culminando na doxologia (Rm 11). Ir para a Aula 11 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello