Curso de RomanosAula 6

Mortos para o pecado, vivos para Deus

“Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.”Romanos 6.11 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 6 (leia o capítulo inteiro; observe as palavras “morrer”, “viver” e “escravo”)

Para começar

As perguntas que nos guiam

Romanos 5 terminou com uma frase ousada: onde abundou o pecado, superabundou a graça. Agora Paulo antecipa o mau uso dessa verdade.

1

A graça é licença para pecar?

Se sou salvo de graça, minha conduta ainda importa?

2

O que mudou de fato em mim?

A justificação muda o meu status diante de Deus. E a minha vida do dia a dia, muda?

3

Sou livre — livre para quê?

Cristo me libertou. Mas liberdade cristã é ausência de senhor, ou troca de senhor?

Tese da aula: a resposta de Paulo ao antinomismo (a ideia de que a graça dispensa a santidade) não é um novo código de regras, mas uma nova identidade. Em Cristo, morremos para o pecado e vivemos para Deus (Rm 6.1-11); por isso, mudamos de senhor: deixamos de servir ao pecado para servir à justiça (Rm 6.12-23). A graça não só perdoa — ela liberta.

Rm 6.1-2

A objeção perigosa: “pequemos, então?”

“Que diremos, então? Permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos?” (Rm 6.1-2)

Paulo dialoga com um opositor imaginário (a diatribe). A objeção é o antinomismo: já que a graça cobre tudo, a conduta não importaria. A resposta não vem em forma de proibição, mas de definição de identidade: nós morremos para o pecado. Insistir no pecado depois disso é uma contradição de existência, não apenas uma infração de regra.

Rm 6.3-7

União com Cristo: a morte do velho homem

Onde e quando “morremos”? Paulo aponta para o batismo como o retrato visível de uma realidade espiritual.

O corpo do pecado, destronado

O alvo é que o “corpo do pecado seja destruído” (Rm 6.6). À luz da leitura wesleyana (Comentário Beacon), isso não é a aniquilação do corpo físico, e sim a quebra da tirania do pecado: ele deixa de ser o senhor.

Rm 6.6-7

Rm 6.4-10

Novidade de vida: enxertados na ressurreição

“…para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.” (Rm 6.4)

A união não é só na morte, mas também na vida. Paulo usa a palavra sýmphytoi (Rm 6.5): plantados juntos, enxertados. A santidade não é uma performance moral arrancada a duras penas; é a vida de Cristo fluindo em nós pelo Espírito. Ele morreu para o pecado “uma vez por todas” e vive para Deus (Rm 6.10) — e nós, unidos a ele, participamos dessa mesma lógica.

Rm 6.11

“Considerem-se”: o primeiro mandamento da carta

“Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.” (Rm 6.11)

Guarde a ordem: primeiro o indicativo (o que Deus fez — “vocês morreram e vivem”), depois o imperativo (o que devemos fazer — “considerem-se… ofereçam-se”). A vida cristã não é subir para ser aceito; é viver a partir da aceitação já recebida.

Rm 6.12-14

Mudança de senhorio: não reine o pecado

“Portanto, não reine o pecado no corpo mortal de vocês… Porque o pecado não terá domínio sobre vocês, pois vocês não estão debaixo da lei, e sim da graça.” (Rm 6.12,14)

O texto de ouro da libertação

“O pecado não terá domínio sobre vocês” (Rm 6.14). Para nós, wesleyanos, esta é a prova de que é possível viver sem ser dominado pelo pecado. Estar “debaixo da graça” é ter o poder para não pecar — não uma licença para pecar.

Rm 6.14

Rm 6.15-19

Escravos da justiça e o molde da doutrina

Paulo troca a imagem: do tribunal (cap. 5) para o mercado de escravos. E a lógica é simples: você é escravo de quem obedece.

Ninguém é absolutamente livre: ou somos escravos do pecado, que leva à morte, ou escravos da obediência, que leva à justiça (Rm 6.16). A verdadeira liberdade cristã é esta escravidão boa — servos de Deus (doûlos theoû). E há uma imagem bela no v. 17: obedecemos “à forma de doutrina” a que fomos entregues. A palavra é týpos, molde: o evangelho é a fôrma em que o metal derretido — nós — é despejado para ganhar o formato de Cristo.

Rm 6.23

Salário e dom: dois pagamentos, dois destinos

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rm 6.23)

O salário

A palavra é opsốnion: o soldo do soldado, aquilo que se ganha e é devido. O pecado paga certinho, e o pagamento é a morte.

O dom

A palavra é chárisma: presente gratuito, imerecido. Deus não paga a vida eterna como salário; ele a dá como dádiva, em Cristo.

O contraste fecha o capítulo: de um lado, o que o pecado nos deve; do outro, o que Deus nos oferece. A santificação — o processo de nos tornarmos santos — tem como fim essa vida, e não uma folha de méritos.

Da exegese à vida

Aplicações pastorais

1

Creia antes de sentir

Comece o dia “fazendo as contas” de Rm 6.11: em Cristo, o pecado não é mais o seu dono. A verdade governa o sentimento, não o contrário.

2

Ofereça os seus membros

Santidade tem endereço concreto: olhos, mãos, língua, agenda. Entregue cada um a Deus como instrumento de justiça (Rm 6.13).

3

Não normalize a derrota

A graça dá poder para não pecar (Rm 6.14). Não chame de “normal” um cativeiro do qual Cristo já nos libertou.

4

Deixe-se moldar

O evangelho é fôrma (týpos): permita que a doutrina recebida dê forma de Cristo à sua vida, não só à sua mente (Rm 6.17).

A pergunta de Romanos 6 é de identidade: a quem, na prática, os meus dias têm servido — ao velho senhor ou ao novo?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Paulo manda “considerar-se” morto para o pecado (Rm 6.11). Como fazer isso nos dias em que eu não me sinto nem um pouco morto para o pecado?Ver resposta sugerida
A palavra que Paulo usa em Rm 6.11 é logízesthe, um termo de contabilidade: “fazer as contas”, dar por certo um fato. Não é fingir um sentimento nem repetir uma frase de autoajuda; é tomar posse, pela fé, de algo que já aconteceu em Cristo — “o nosso velho homem foi crucificado com ele” (Rm 6.6). O sentimento oscila; o fato, não. Nos dias de fraqueza, eu não começo perguntando “o que eu sinto?”, e sim declarando “o que é verdade?”: em Cristo, o pecado deixou de ser o meu dono (Rm 6.14). A partir dessa verdade, e não do humor do dia, ofereço os meus membros a Deus (Rm 6.13). A santidade começa por crer no que Deus diz que já sou, para então viver de acordo.
Alguém conclui: “se, onde o pecado abundou, superabundou a graça, então posso pecar à vontade que a graça cobre”. Como Romanos 6 responde a isso?Ver resposta sugerida
Responde com uma pergunta indignada e uma verdade libertadora. A pergunta: “Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos?” (Rm 6.2). Continuar no pecado depois de morrer para ele é tão incoerente quanto um viúvo voltar a obedecer a um cônjuge já sepultado. A verdade: a graça não é apenas um perdão que cobre; é um poder que liberta. “O pecado não terá domínio sobre vocês, pois vocês não estão debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14). Para nós, wesleyanos, essa é a boa notícia dobrada: a graça não só apaga a dívida, ela quebra a tirania. Quem entendeu o evangelho não pergunta “até onde posso pecar?”, mas “já que fui libertado, para que vou querer voltar à cela?”. O fim do pecado é a morte; o dom de Deus é a vida (Rm 6.23).

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Romanos 6 inteiro e listar, em duas colunas, o que o texto diz que Deus já fez (indicativos) e o que ele nos manda fazer (imperativos); depois, escolher um “membro” concreto (olhos, língua, tempo, dinheiro) e escrever como oferecê-lo a Deus como instrumento de justiça nesta semana (Rm 6.13).

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Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello