Sermões do Bispo Ildo Mello

Não Me Desampares na Velhice

O drama e a esperança da terceira idade à luz do Novo Testamento · 2.519 palavras

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Texto base: 2Co 4.16-18 · Textos de apoio: Sl 71.9; Lc 2.25-38; Tt 2.2-5; 2Tm 1.5; 1Tm 5.1-8

Introdução: uma confissão antes da pregação

Irmãos e irmãs, antes de abrir a Palavra com vocês esta manhã, preciso fazer uma confissão. Durante décadas, preguei e aconselhei sobre a velhice com a confortável distância de quem observa de fora. Acompanhei o aposentado que definhou sem o trabalho, a viúva que passou a falar sozinha com os retratos, o ancião lúcido que a própria família tratava como criança. E falava sobre tudo isso com sinceridade, mas de longe.

Pois bem: a distância acabou. Entrei na terceira idade. E o tema que eu estudava agora me estuda de volta. O que antes era pesquisa bibliográfica virou pesquisa de campo, em primeira pessoa e em tempo integral. Devo, portanto, avisar que este sermão tem um evidente conflito de interesses: o pregador fala sobre idosos sendo um deles, com joelhos que fazem relatórios sonoros ao subir escadas e uma memória que, vez ou outra, arquiva nomes queridos em pastas que só reaparecem de madrugada. Mas há uma vantagem nisso: já não falo apenas sobre eles. Falo sobre nós.

E não é só a minha biografia que torna este assunto urgente; é a biografia do Brasil. Éramos o país que se orgulhava de ser jovem, e estamos envelhecendo depressa. A expectativa de vida do brasileiro já passa dos 76 anos, quando em 1940 era de pouco mais de 45. Ao mesmo tempo, os berços se esvaziam, e o IBGE projeta que em poucas décadas quase quatro em cada dez brasileiros terão 60 anos ou mais. Em termos simples: haverá cada vez mais cabelos brancos nos nossos bancos, e cada vez menos crianças no berçário.

Isso significa que a terceira idade deixou de ser um capítulo periférico da pastoral para se tornar uma das questões centrais da igreja brasileira nas próximas décadas. E uma igreja que não souber envelhecer com seus membros, e acolher os que envelhecem fora dela, estará despreparada para o país que já começou a existir.

Por isso, quero começar do mesmo modo que sempre recomendei aos meus alunos: fazendo as perguntas certas.

Perguntas para começar

O que acontece com um homem quando ele percebe que o mundo já não espera nada dele? O que acontece com uma mulher quando ela, depois de cuidar de todos por décadas, descobre que agora é ela quem precisa de cuidado? A velhice é apenas declínio, ou pode ser vocação? E, sobretudo: o evangelho tem alguma palavra para quem sente que os melhores anos ficaram para trás?

Se a meia-idade é a fase em que fazemos as contas entre quem imaginamos ser e quem nos tornamos, a terceira idade é a fase em que essas contas são cobradas com juros. O corpo cobra. A solidão cobra. A memória cobra. E, no entanto, a Escritura não trata a velhice como um problema a ser resolvido, mas como uma etapa da vida diante de Deus, com dores reais e com uma dignidade que a nossa cultura esqueceu.

I. O drama é real, e a Bíblia não finge que não é

Antes de qualquer consolo, é preciso nomear a dor. Assim como não se deve dizer ao deprimido que ore mais, não se deve dizer ao idoso que sofre que ele apenas precisa de mais fé. O primeiro passo pastoral é reconhecer que o drama é real, e ele tem vários rostos.

Há a perda dos papéis: o trabalho termina, os filhos partem, a agenda esvazia, e numa cultura que mede o valor da pessoa pela utilidade, quem já não produz corre o risco de se sentir descartável. Há a traição do corpo: as forças diminuem, as doenças se acumulam, e cada limitação parece uma pequena humilhação para quem sempre se orgulhou de não depender de ninguém.

Há a solidão e o luto acumulado: o idoso enterra os pais, depois os irmãos, depois os amigos, às vezes o cônjuge, e em casos dolorosos até filhos. Envelhecer é, muitas vezes, tornar-se a última testemunha da própria vida. Há a invisibilidade: a sociedade fala com o idoso em tom infantilizado, decide por ele, olha através dele. E é preciso dizer com tristeza que, em igrejas obcecadas por juventude e novidade, os idosos por vezes são empurrados para a condição de plateia.

E há o medo do fim, não apenas da morte, mas do caminho até ela: a dependência, a dor, o peso que se imagina causar aos outros. O salmista dá voz a esse temor com uma honestidade que a igreja deveria imitar: “Não me rejeites na velhice; quando me faltarem as forças, não me desampares” (Sl 71.9).

Vejam bem: essa é uma oração da Bíblia. Não é falta de fé pedir a Deus que não nos desampare quando as forças faltarem. É a fé madura reconhecendo a fragilidade e clamando ao único que não falha.

II. O homem que se aposenta e a mulher que já não é necessária

Para muitos homens, a crise da velhice é a falência de uma identidade construída sobre o desempenho. Se o homem aprendeu que vale enquanto produz, sustenta e resolve, a aposentadoria não é apenas o fim de um contrato de trabalho; é o fim de um contrato de identidade. Conhecemos os sinais: o aposentado que adoece meses depois de parar de trabalhar, o pai que se torna calado porque já não é consultado, o homem que passou a vida sem cultivar amizades profundas e agora colhe uma solidão que ele mesmo semeou.

A mulher chega ao mesmo abismo por outro caminho. Se a falsa identidade masculina diz “eu valho porque produzo”, a falsa identidade feminina costuma dizer “eu valho porque sou necessária”. E a velhice ataca precisamente esse ponto: os filhos já não precisam dela como antes, a casa esvaziou, e muitas mulheres, depois de cuidar do marido ou dos próprios pais, se perguntam: quem sou eu quando ninguém depende de mim?

Não é por acaso que o Novo Testamento dedica atenção explícita às viúvas (At 6.1; 1Tm 5.3-16; Tg 1.27). A igreja primitiva entendeu que a mulher idosa e sozinha era, ao mesmo tempo, a pessoa mais vulnerável da comunidade e uma das mais preciosas.

Percebam que os dois dramas, o masculino e o feminino, nascem da mesma raiz: uma identidade que depende de utilidade. E é exatamente essa raiz que o evangelho vem arrancar.

III. Quatro respostas do Novo Testamento

1. Uma identidade que não se aposenta

O evangelho começa desmontando a mentira comum aos dois dramas: a ideia de que o valor humano depende de utilidade, força, beleza ou desempenho. O idoso cristão não é um ex-provedor nem uma ex-cuidadora. Ele é filho de Deus, e filiação não tem prazo de validade. “Recebestes o espírito de adoção, com base no qual clamamos: Aba, Pai!” (Rm 8.15). O Espírito não testifica que somos úteis; testifica que somos filhos e, portanto, herdeiros (Rm 8.16-17).

E herdeiro é uma identidade voltada para a frente. O mundo diz ao idoso que seu futuro está atrás dele; o evangelho diz que sua maior herança ainda está adiante, “uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus” (1Pe 1.4). Paulo assina uma de suas cartas assim: “Paulo, o velho e, agora, também prisioneiro de Cristo Jesus” (Fm 9). Ele não esconde a idade nem a fraqueza; e é precisamente desse lugar que exerce uma das intercessões mais nobres do Novo Testamento. A velhice não diminuiu sua autoridade espiritual; deu a ela outro timbre.

2. O desgaste exterior e a renovação interior

Chegamos agora ao texto que dá nome a este sermão. Paulo escreve: “Por isso, não desanimamos. Embora o nosso homem exterior se desgaste, o nosso homem interior, contudo, se renova de dia em dia” (2Co 4.16). Notem que Paulo não nega o declínio; ele o descreve com realismo. Mas acrescenta a contrapartida que só a fé enxerga: a renovação também é diária, exatamente como o desgaste.

O corpo perde um pouco a cada dia; a alma que vive em comunhão com Cristo ganha um pouco a cada dia. Por isso Paulo pode chamar de “leve e momentânea tribulação” aquilo que, visto de fora, é um processo pesado e longo: “porque as coisas que se veem são temporárias, mas as que não se veem são eternas” (2Co 4.18).

Isso muda o modo de enxergar a velhice cristã. Ela não é apenas subtração; é também destilação. Deus usa a perda das forças exteriores para amadurecer o que é interior: paciência, oração, desprendimento, mansidão, esperança. O Salmo 92.14 promete que os justos, na velhice, ainda darão frutos, e o Novo Testamento explica que fruto é esse: o fruto do Espírito, que não depende de vigor físico (Gl 5.22-23).

3. A esperança da ressurreição do corpo

Ao drama do corpo que falha, o Novo Testamento não responde com espiritualismo, como se o corpo não importasse. Responde com a ressurreição. “Semeia-se corpo em corrupção, ressuscita em incorrupção. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder” (1Co 15.42-43). Cristo “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória” (Fp 3.21).

Quem entre nós olha para as próprias mãos trêmulas pode saber que aquele corpo não caminha para o nada, mas para a glória. A velhice não é a última palavra sobre o corpo; a ressurreição é. E sobre a morte, o Novo Testamento fala com uma serenidade que escandaliza a nossa cultura. Paulo, já idoso e prisioneiro, escreve: “Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). E, perto do fim, faz o balanço sem amargura: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4.7).

O cristão idoso não precisa fingir que não teme. Precisa saber que aquele a quem ele vai encontrar já venceu aquilo que ele teme (Hb 2.14-15).

4. A velhice como vocação, não como aposentadoria espiritual

O Novo Testamento abre com dois idosos no templo, e isso não é detalhe decorativo. Simeão passou a vida esperando a consolação de Israel, e foi na velhice, não na juventude, que seus olhos viram a salvação: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo” (Lc 2.29). Ana, viúva de oitenta e quatro anos, reúne quase todos os dramas que descrevemos: perdeu o marido cedo, envelheceu sozinha, não tinha posição social. E, no entanto, a Escritura a apresenta como profetisa, que “não se afastava do templo, mas adorava noite e dia” e falava do menino Jesus a todos os que esperavam a redenção (Lc 2.36-38).

Simeão e Ana reconheceram no bebê aquilo que os sacerdotes em atividade não perceberam. Há um tipo de discernimento que só décadas de comunhão com Deus produzem.

Paulo transforma essa realidade em programa para a igreja. Em Tito 2.2-5, os homens idosos devem ser exemplo de sobriedade, dignidade, fé e amor; as mulheres idosas devem ser “mestras do bem”, ensinando as mais jovens. O verbo é forte: mestras. A mulher idosa, que a cultura torna invisível, recebe na igreja uma cátedra. E em 2Timóteo 1.5 vemos o alcance disso: a fé de Timóteo habitou “primeiro” na avó Loide e na mãe Eunice. Uma avó que ora e ensina pode formar um pastor que mudará a história de muitas igrejas.

A velhice cristã, portanto, é mudança de vocação, não o fim dela. Passamos de construtores a formadores, de executores a intercessores, de protagonistas a testemunhas. A pergunta que nos acompanhou a vida inteira, “quem posso formar?”, torna-se na terceira idade a pergunta central: que fé, que histórias, que oração deixarei plantadas em quem fica?

IV. A igreja como família dos que envelhecem

O Novo Testamento não entrega o idoso à própria sorte. Jesus confrontou duramente os que usavam pretextos religiosos para não sustentar os pais idosos, chamando isso de invalidação da palavra de Deus (Mc 7.9-13). Na cruz, em plena agonia, providenciou cuidado para sua própria mãe (Jo 19.26-27). Paulo declara que quem não cuida dos seus “negou a fé e é pior do que o descrente” (1Tm 5.8). Tiago define a religião pura diante de Deus como visitar órfãos e viúvas nas suas tribulações (Tg 1.27).

Uma igreja que segue o Novo Testamento não pergunta apenas “o que fazemos com os nossos idosos?”, mas “o que os nossos idosos são para nós?”. A resposta bíblica é clara: são pais, mães, mestres, intercessores e portadores da memória da fé.

V. Aplicação: o que fazemos com isto hoje

Se você já entrou, ou está entrando, na terceira idade, deixo alguns caminhos práticos. Nomeie as perdas diante de Deus, sem disfarce; o Salmo 71 mostra que a oração honesta é o oposto da incredulidade. Recuse a aposentadoria espiritual: ninguém se aposenta da oração, do testemunho, da hospitalidade e do amor. Cultive deliberadamente a vida interior que se renova: Escritura, oração, comunhão, gratidão diária. Cuide do corpo sem idolatrá-lo nem desprezá-lo. E peça ajuda sem vergonha, porque depender dos outros não é indignidade; na economia de Cristo, é oportunidade para que outros exerçam o amor (Gl 6.2).

E se você ainda está longe da terceira idade, a palavra é igualmente clara. Dê presença antes de programa aos seus idosos; eles precisam menos de eventos e mais de gente que sente, escuta e volta. Dê função, não apenas assistência: peça conselho, peça oração, peça que ensinem. Leve a sério os sinais persistentes de tristeza ou isolamento, e não hesite em buscar avaliação médica quando necessário. E prepare-se, desde já, para falar de morte com esperança, porque um dia o ministério mais importante que você poderá exercer será simplesmente estar presente.

Conclusão

Irmãos, a terceira idade é, de fato, marcada por perdas reais, que não devem ser minimizadas nem espiritualizadas: o corpo declina, os papéis terminam, os amados partem, a morte se aproxima. Uma pastoral honesta começa reconhecendo isso, e uma igreja fiel oferece, junto com a oração, também escuta, presença e cuidado prático.

Mas eu sustento, com base no Novo Testamento, que a velhice não é essencialmente declínio; é a última etapa da formação de um filho ou de uma filha de Deus antes da glória. O homem exterior se desgasta, e nisso não há escolha; o homem interior pode renovar-se de dia em dia, e nisso há. A identidade do idoso cristão não repousa no que ele ainda produz, sustenta ou aparenta, mas na graça que o adotou, na ressurreição que o aguarda e na vocação que permanece: adorar como Simeão, interceder e testemunhar como Ana, ensinar como as mestras do bem, terminar a carreira como Paulo.

A igreja que marginaliza seus idosos não está apenas cometendo uma injustiça social; está desperdiçando um dos seus maiores tesouros espirituais e contradizendo o próprio evangelho que prega. E cada um de nós, ao envelhecer, pode levantar os olhos com realismo e esperança: o melhor da nossa história não está atrás de nós. Está diante de nós, guardado por aquele que prometeu: “Até a velhice eu serei o mesmo e, até as cãs, eu os carregarei” (Is 46.4).

Que o Senhor nos ajude a envelhecer, e a acompanhar os que envelhecem, com essa mesma esperança. Amém.

Bispo Ildo Mello
De Sermões do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).