Profecias do Antigo TestamentoAula 13

Isaías 53: o Servo Sofredor

“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”Isaías 53.5

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Is 52.13-53.12; At 8.26-40; 1Pe 2.21-25

Para começar

“De quem diz isto o profeta?”

Um alto oficial etíope volta de Jerusalém lendo Isaías 53 em voz alta, sem entender. E faz a Filipe a pergunta que atravessa os séculos: “De quem diz isto o profeta? De si mesmo ou de outro?” (At 8.34).

A resposta de Filipe é a leitura apostólica em uma linha: “Então, Filipe… começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (At 8.35). Sete séculos antes da cruz, Isaías descreveu o Messias rejeitado, substituto, silencioso, morto entre ímpios e sepultado com o rico, e vitorioso depois da morte. É o coração messiânico do Antigo Testamento.

Nesta aula, vamos percorrer o cântico, ver como o Novo Testamento o cita, celebrar a grande troca, e corrigir com carinho o uso que a Teologia da Prosperidade faz do versículo mais amado do capítulo.

Isaías 52.13-53.12

O quarto cântico do Servo

O poema tem cinco estrofes, e começa e termina no mesmo lugar: a exaltação do Servo.

1. O Servo exaltado (52.13-15). “Ele será exaltado e elevado e será muito sublime.” Antes de descrever a dor, Deus anuncia o desfecho.
2. O Servo rejeitado (53.1-3). Sem aparência nem formosura, “desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores”.
3. O Servo substituto (53.4-6). O centro do poema: as nossas enfermidades, as nossas dores, as nossas transgressões, as nossas iniquidades, sobre ele.
4. O Servo silencioso e morto (53.7-9). “Como cordeiro foi levado ao matadouro… e não abriu a boca.” Sepultado com o rico, sem ter feito injustiça.
5. O Servo vivo e vitorioso (53.10-12). “Verá a sua posteridade e prolongará os seus dias… o meu Servo, o justo, justificará a muitos.” Um morto que vê descendência e reparte despojos: o poema exige ressurreição.

O centro

A grande troca

Toda a força do cântico está nos pronomes: o que era nosso caiu sobre ele; o que era dele foi dado a nós.

O que era nosso, sobre ele

As nossas enfermidades, as nossas dores, as nossas transgressões, as nossas iniquidades, o castigo (Is 53.4-5). “O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (53.6).

O que era dele, para nós

A paz (“o castigo que nos traz a paz”), a cura, a justificação (“o meu Servo, o justo, justificará a muitos”, 53.11), o acesso ao Pai (Rm 5.1).

Paulo resume a troca numa frase: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21). E repare na amplitude que o próprio Isaías declara: “todos nós andávamos desgarrados… e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (Is 53.6). O sacrifício do Servo é suficiente para todos os desgarrados, sem exceção; nenhum pecador está fora do alcance dessa troca.

Escritura interpretando Escritura

Isaías 53 lido pelo Novo Testamento

Nenhum capítulo do Antigo Testamento é aplicado a Jesus com tanta insistência. Veja o mapa.

Is 53.1 → Jo 12.37-38; Rm 10.16. “Quem creu na nossa pregação?”: a incredulidade diante do Messias, prevista.
Is 53.4 → Mt 8.16-17. “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades”: aplicado por Mateus às curas do ministério de Jesus.
Is 53.7-8 → At 8.32-35. O cordeiro silencioso: o texto exato que o etíope lia quando Filipe lhe anunciou Jesus.
Is 53.9 → 1Pe 2.22. “Ele não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca.”
Is 53.5-6 → 1Pe 2.24-25. “Pelas suas feridas, vocês foram curados. Porque vocês estavam desgarrados como ovelhas”: Pedro aplica a cura ao pecado e o desgarre à conversão.
Is 53.12 → Lc 22.37. “Foi contado com os transgressores”: citado pelo próprio Jesus, sobre si mesmo, na noite da prisão. O Servo do cântico tem nome, e quem o diz é ele.

A correção necessária

“Pelas suas pisaduras fomos sarados”

Apoiada em Isaías 53.4-5, a Teologia da Prosperidade promete cura física plena e garantida nesta vida. É preciso examinar o texto com cuidado, no contexto de Isaías e à luz do conjunto das Escrituras.

No livro de Isaías, “enfermidade” já aparece como retrato do pecado: “Toda a cabeça está doente… desde a planta do pé até a cabeça não há nada são” (Is 1.5-6). Por isso Pedro, ao citar o versículo, aplica-o à libertação do pecado: “Ele mesmo levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro… pelas suas feridas vocês foram curados” (1Pe 2.24). Ao mesmo tempo, a palavra não exclui o sentido físico: Mateus aplica Isaías 53.4 às curas do ministério de Jesus (Mt 8.16-17). A profecia abrange o pecado e todas as suas consequências.

E as Escrituras registram, sem constrangimento, servos fiéis enfermos: Paulo com o espinho que não lhe foi removido (2Co 12.7-9), Timóteo com enfermidades frequentes tratadas com remédio prático (1Tm 5.23), Epafrodito quase morto por doença (Fp 2.27), Trófimo deixado enfermo em Mileto (2Tm 4.20). Deus pode curar, e cura; mas o faz segundo a sua soberania. Prometer o que Deus não prometeu para agora é fabricar decepção e culpa; anunciar o que ele garantiu para sempre é consolar de verdade.

O convite

Por nós todos

“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (Is 53.6).

O versículo começa e termina com “todos”: todos desgarrados, a iniquidade de todos sobre o Servo. Ninguém fica de fora do diagnóstico, e ninguém precisa ficar de fora do remédio. O cântico termina anunciando o fruto: “o meu Servo, o justo, justificará a muitos” (53.11), e Pedro completa o retorno para casa: “agora, vocês se converteram ao Pastor e Bispo da sua alma” (1Pe 2.25).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Como consolar um irmão fiel que orou por cura, não a recebeu e agora carrega culpa por “falta de fé”?Ver resposta sugerida
Primeiro, tire dos ombros dele um peso que a Bíblia nunca colocou. Mostre que a Escritura registra servos cheios de fé que permaneceram doentes: Paulo orou três vezes pelo espinho e ouviu “a minha graça te basta” (2Co 12.8-9); Timóteo, Epafrodito e Trófimo adoeceram servindo (1Tm 5.23; Fp 2.27; 2Tm 4.20). Se doença fosse prova de pouca fé, Paulo seria o menor dos crentes. Depois, devolva-lhe a promessa no tamanho certo: Cristo levou nossas enfermidades, e por isso a cura é certa; a pergunta é quando. Deus cura hoje segundo a sua soberania, como primícias; e curará completamente na ressurreição, quando “a morte já não existirá” (Ap 21.4). Por fim, ore com ele (Tg 5.14-16), sem prometer o que Deus não prometeu para agora, e sem duvidar do que ele garantiu para sempre. A fé dele não falhou; a mentira que o culpou é que precisa cair.
Um pregador afirma que o crente que declara Isaías 53.5 “toma posse” da cura garantida. Como responder com mansidão, sem apagar a fé em milagres?Ver resposta sugerida
Comece afirmando junto com ele tudo o que a Escritura afirma: Deus cura, Jesus curou multidões cumprindo Isaías 53.4 (Mt 8.16-17), e a igreja deve orar pelos enfermos com fé (Tg 5.14-15). A divergência não é sobre o poder de Deus, é sobre a promessa. Então faça duas perguntas ao texto. Primeira: como o apóstolo Pedro cita “pelas suas feridas fostes sarados”? Resposta: aplicando a cura ao pecado, “para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1Pe 2.24). Segunda: se a cura física plena fosse direito garantido agora, por que Paulo ficou com o espinho, e por que ainda morremos? A resposta bíblica é o já e o ainda não: curas hoje como sinais, segundo a soberania de Deus; cura total na ressurreição (1Co 15.53-54). Declarar versículo não é fé; fé é confiar no Deus que prometeu, no prazo em que prometeu. E cuidado pastoral: a doutrina da posse fabrica culpados entre os mais frágeis. A verdade consola melhor (2Tm 2.24-25).

Para ver e rever

A aula em vídeo

Se você preferir ouvir o argumento inteiro de uma vez, esta exposição do Bispo Ildo trata exatamente da seção mais delicada da lição: o uso de Isaías 53 pela Teologia da Prosperidade.

Desmascarando os erros da Teologia da Prosperidade na interpretação de Isaías 53 · Bispo Ildo Mello

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo Desmascarando os Erros da Teologia da Prosperidade na Interpretação de Isaías 53, do Bispo Ildo Mello, que você pode ler e compartilhar em página própria.

Tarefas

Ler Isaías 52.13-53.12 e, ao lado, Atos 8.26-40 e 1Pedro 2.21-25, marcando cada frase do cântico citada no Novo Testamento; e escrever, em poucas linhas, como você explicaria “pelas suas pisaduras fomos sarados” a alguém doente.

Aula 14

Salmo 110, o capítulo do Antigo Testamento mais citado no Novo: o enigma que calou os fariseus, o Rei assentado à direita e o Sacerdote para sempre. Ir para a Aula 14 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello