O pai do metodismo e o coração aquecido pela graça (1703–1791)

Como um pastor anglicano do século XVIII, sério e disciplinado, tornou-se o instrumento de um avivamento que atravessou oceanos e séculos? A resposta está numa vida marcada pela busca de Deus, por um coração transformado pela graça e por uma obediência metódica ao chamado.
Clérigo anglicano e evangelista incansável, Wesley pregou mais de 40 mil sermões e percorreu cerca de 400 mil quilômetros a cavalo, anunciando a graça de Deus a todos. “O mundo é a minha paróquia”, costumava dizer. Percorra abaixo as etapas dessa história.
“Senti meu coração estranhamente aquecido.”Diário de John Wesley · 24 de maio de 1738

John Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, na reitoria de Epworth, em Lincolnshire, décimo quinto filho do reverendo Samuel Wesley e de Susanna Wesley. Foi Susanna, mulher de rara piedade e disciplina, quem moldou nos filhos o amor às Escrituras e o hábito da oração metódica.
Em fevereiro de 1709, um incêndio consumiu a reitoria. O menino John, então com cinco anos, foi resgatado de uma janela do andar superior no último instante. A imagem do “tição arrebatado do fogo” (Zc 3.2) acompanhou-o a vida toda como sinal de que fora poupado para um propósito.
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Depois de estudar em Charterhouse, em Londres, Wesley ingressou em Christ Church, Oxford, em 1720. Ordenado diácono em 1725 e eleito fellow do Lincoln College em 1726, dedicou-se ao estudo e ao ensino.
Junto de seu irmão Charles e de alguns amigos, formou um pequeno grupo de disciplina espiritual — comunhão frequente, jejum, estudo das Escrituras e visita a presos e enfermos. Os colegas os apelidaram, com escárnio, de “metodistas”, pela regularidade metódica de sua devoção. O apelido pegou; o método permaneceu.

Em 1735, John e Charles embarcaram para a colônia da Geórgia, na América, como capelães e missionários. A empreitada frustrou-se: Wesley voltou desanimado, ciente de que lhe faltava a certeza da própria salvação.
No mar, porém, algo o marcou. Durante uma tempestade violenta, enquanto muitos entravam em pânico, um grupo de morávios cantava tranquilo, sem temor da morte. Wesley reconheceu naquela serenidade uma fé que ainda não possuía — e passou a buscá-la de todo o coração.
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Na noite de 24 de maio de 1738, quase contra a vontade, Wesley participou de uma reunião numa casa da Rua Aldersgate, em Londres. Enquanto liam o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, sua convicção intelectual tornou-se experiência viva.
Ele escreveu no diário: “Senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados”. Ali a justificação pela fé deixou de ser doutrina e passou a ser vida (Rm 5.1; Ef 2.8–9).

Barrado em muitos púlpitos por causa de seu entusiasmo evangelístico, Wesley aceitou, em 1739, o convite de George Whitefield para pregar ao ar livre, em Bristol. Confessou a princípio o incômodo, mas rendeu-se: “Consenti em ser ainda mais vil”, e anunciou o evangelho a mineiros e operários que jamais entrariam numa igreja.
As multidões vinham aos milhares. Vidas eram transformadas, e o avivamento se espalhava. Wesley tornou-se um pregador itinerante por mais de cinquenta anos, levando a mensagem da graça a cada vilarejo da Inglaterra (Mc 16.15).

Wesley não queria fundar uma nova igreja; queria renovar a Igreja da Inglaterra por dentro. Mas o crescimento exigiu estrutura. Ele organizou os convertidos em sociedades, subdivididas em classes e bandas, pequenos grupos de mútuo cuidado, prestação de contas e crescimento na santidade.
Diante da escassez de clérigos, valeu-se de pregadores leigos e de conferências anuais para pastorear o movimento. Construiu a New Room, em Bristol (1739), e a Capela de City Road, em Londres (1778). Em 1784, ordenou obreiros para a América, dando origem à Igreja Metodista independente.

Nenhum retrato de John estaria completo sem Charles Wesley. Companheiro de Oxford, da Geórgia e do avivamento, Charles deu voz à teologia do movimento em mais de seis mil hinos, muitos deles cantados até hoje.
Se John pregava a graça, Charles a fazia cantar. Hinos como “Ó mil línguas” e “Cristo já ressuscitou” ensinaram doutrina ao povo pela melodia, provando que o coração aquecido também precisa de lábios que louvem (Cl 3.16).
Wesley pregou e viajou até quase o fim. Em fevereiro de 1791, já com 87 anos, pregou seu último sermão. Faleceu em 2 de março de 1791, cercado de amigos, entoando louvores.
Suas palavras finais tornaram-se um testemunho de toda a sua vida: “O melhor de tudo é que Deus está conosco.” Deixou atrás de si não riquezas, mas dezenas de milhares de metodistas, uma Inglaterra transformada e um método de discipulado que atravessaria o mundo (2Tm 4.7).
A pregação de Wesley não era mero entusiasmo: tinha espinha dorsal teológica. Eis alguns dos seus grandes temas, que continuam a nutrir a fé arminiana-wesleyana.
Deus vai adiante de nós. Antes mesmo de o buscarmos, a graça já opera, despertando a consciência e capacitando a resposta. Ninguém é salvo por mérito próprio, mas todos são convidados e habilitados a crer (Jo 1.9; Tt 2.11).
Somos aceitos por Deus não por obras, mas pela fé em Cristo. Foi a redescoberta viva dessa verdade, em Aldersgate, que incendiou todo o ministério de Wesley (Rm 3.28; Ef 2.8–9).
A fé produz vida nova. O crente pode ter a certeza da filiação divina pelo testemunho interior do Espírito, que confirma em nosso coração que somos filhos de Deus (Rm 8.14–17).
A graça que perdoa também transforma. Wesley pregou a busca de um amor pleno a Deus e ao próximo — a santidade de coração e de vida como alvo real do cristão (1Ts 5.23; Hb 6.1; Mt 5.48).
Fiel à tradição arminiana, Wesley proclamou que Cristo morreu por todos e que a salvação, embora dependa inteiramente da graça, é oferecida a cada pessoa e recebida pela fé (1Tm 2.4; Tt 2.11).
“Não há santidade senão a santidade social.” A fé verdadeira floresce em amor concreto: cuidado dos pobres, dos presos e dos doentes, educação e combate à escravidão (Tg 2.17; Mt 25.40).

Wesley morreu como filho da Igreja da Inglaterra, mas deixou um movimento que se tornaria uma das maiores famílias do cristianismo mundial. Do metodismo brotaram igrejas em todos os continentes — entre elas, no Brasil, a Igreja Metodista Livre e tantas outras tradições de santidade.
Seu legado é duplo: a paixão por almas, que levou o evangelho a quem estava longe; e o cuidado com a santidade, que uniu conversão e discipulado, fé e obras de misericórdia. Wesley nos lembra que o coração aquecido pela graça não descansa: ele arde para servir (Gl 5.6).
Que a sua história desperte em nós a mesma busca — não por método apenas, mas pelo Deus vivo que salva, santifica e envia.
Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil