Muitos dons, um só corpo, um só objetivo — à luz de Efésios 4
Para que serve a igreja, e de quem é o trabalho do ministério? Só do pastor, ou de todos? Por que o Cristo ressurreto, ao subir aos céus, resolveu presentear a sua igreja não com dinheiro ou estrutura, mas com pessoas — apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres? E o que essas funções tão diferentes têm em comum? Efésios 4 responde a essas perguntas, e é sobre esse capítulo que se assenta o Ministério de Capacitação.
A palavra capacitar traduz bem o coração de Efésios 4: preparar o povo de Deus para servir. A ideia central de Paulo é que os líderes não existem para fazer sozinhos todo o ministério, mas para equipar cada membro a fazer a sua parte. Um só corpo, com muitos membros e muitos dons, movendo-se na direção de um mesmo alvo. É essa visão que este ministério procura tornar realidade entre nós.
“…com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo.”Efésios 4.12 (NAA)
Paulo diz que o Cristo ascendido deu líderes à igreja “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11-12). A palavra traduzida por aperfeiçoamento traz a ideia de ajustar, consertar e preparar — a mesma usada para remendar redes de pesca (Mt 4.21). Capacitar, portanto, é preparar cada crente para o serviço, deixando-o em condições de exercer o seu papel.
Isso muda a compreensão do ministério. O trabalho não é do pastor apenas, com a igreja assistindo; o trabalho é de todos os santos, e a função da liderança é justamente prepará-los. Onde essa verdade é levada a sério, a igreja deixa de ser plateia e vira corpo em movimento. Capacitar é, no fundo, devolver o ministério às mãos do povo de Deus.
Antes de falar da diversidade, Paulo assenta a unidade. Ele roga que andemos “de modo digno da vocação”, com toda a humildade, mansidão e longanimidade, suportando-nos uns aos outros em amor e empenhados “em preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.1-3). E dá o alicerce: “há um só corpo e um só Espírito… um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos” (Ef 4.4-6).
Esse ponto é decisivo para um ministério de capacitação. A diversidade de dons só edifica quando repousa sobre uma unidade mais profunda. Não somos um ajuntamento de talentos avulsos disputando espaço, mas um só corpo com um só Senhor. O objetivo comum nasce dessa fé comum; sem ela, os dons viram competição, e não edificação.
Sobre essa base, Paulo celebra a diversidade. “A cada um de nós foi concedida a graça segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4.7). Ao subir, o Senhor “deu dons aos homens” (Ef 4.8) e constituiu “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11). Funções bem diferentes, com temperamentos e chamados distintos — e todas presentes por decisão do próprio Cristo.
Essa mesma variedade Paulo descreve em outras cartas: dons diversos repartidos pelo mesmo Espírito, num só corpo (1Co 12.4-7,11), membros com funções distintas mas necessárias (Rm 12.4-8), cada um servindo com o dom que recebeu, “como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Capacitar é ajudar cada irmão a descobrir e desenvolver o dom que Deus lhe deu, sabendo que nenhum é dispensável e nenhum é o dono do corpo.
Para que serve toda essa variedade? Paulo não deixa dúvida: para edificar o corpo de Cristo, “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). Eis o alvo comum que reúne dons tão diferentes: a maturidade da igreja e a sua semelhança com Cristo.
Um grupo diverso trabalhando por um objetivo único — é essa a marca de um ministério saudável. O evangelista e o mestre, o profeta e o pastor não competem: convergem. Cada dom é uma estrada diferente que leva ao mesmo destino, que é ver o povo de Deus crescido, firme e parecido com o seu Senhor.
O resultado da capacitação é a maturidade. Cristãos preparados “não serão mais como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina” (Ef 4.14); ao contrário, “seguindo a verdade em amor”, crescem “em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15). A imunidade ao erro e a firmeza da fé nascem, em boa parte, de um povo bem instruído e servindo.
Paulo fecha com a imagem do corpo: dele, a cabeça, “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pela cooperação de toda junta, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função” (Ef 4.16). A frase final diz tudo: o corpo cresce “na medida em que cada parte realiza a sua função”. Se um membro não faz a sua parte, o corpo inteiro sente falta. Por isso capacitamos — para que ninguém fique de fora e o corpo cresça inteiro.
O Ministério de Capacitação ganha corpo em ações que preparam o povo: cursos de discipulado e de fundamentos da fé, formação de líderes e de novos obreiros, oficinas e seminários, acompanhamento de quem começa a servir, e ajuda para que cada membro descubra e desenvolva os seus dons. Trabalha lado a lado com a Educação Cristã e com os demais ministérios, alimentando-os com gente preparada.
O critério que orienta tudo é o de Efésios 4: não formamos pessoas para exibirem talentos, mas para edificarem o corpo. A boa capacitação sempre termina em serviço — alguém mais bem preparado para amar, ensinar, cuidar e anunciar o evangelho.
Minha convicção é que uma igreja só vai tão longe quanto vai a capacitação do seu povo. Enquanto o ministério for entendido como tarefa de poucos, a maioria ficará ociosa e o corpo, aleijado. Mas, quando cada membro é preparado e posto para servir, a igreja floresce por inteiro, e ninguém carrega sozinho um peso que era para ser repartido.
Por isso, o convite de Efésios 4 é para todos: descubra o seu dom, deixe-se preparar e sirva. Você não precisa ser o pastor para ter um ministério; basta ser um membro do corpo que faz a sua parte. E, quando cada parte faz a sua, é o corpo todo que cresce em amor, para a glória daquele que é a nossa Cabeça.
No amor do Senhor,
Bispo Ildo Mello