Igreja Metodista Livre · Lições
A via da salvação e a vida em santidade: o que Deus faz por nós e o que Ele faz em nós.
por Bispo Ildo Mello
O que Deus faz por nós quando nos salva, e o que Ele faz em nós? A salvação é apenas um perdão declarado no céu, ou também uma vida transformada aqui na terra? E o pecado: podemos de fato vencê-lo, ou o máximo que nos resta é administrar as nossas quedas? A soteriologia wesleyana responde a essas perguntas com um raro otimismo — não um otimismo sobre o homem, mas sobre o poder da graça de Deus.
Antes de falar do poder da graça, é preciso ser honesto quanto ao ponto de partida. Wesley não teve nenhuma ilusão a respeito da condição humana. Ele afirmava a depravação total com a mesma firmeza de qualquer reformador: estamos, por natureza, “mortos em delitos e pecados” e somos “filhos da ira”.
“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados… e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.”Ef 2.1–3 (NAA)
A Escritura não abre exceção: “não há justo, nem sequer um” (Rm 3.10–11); “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Deus fez o ser humano reto, mas ele se meteu em muitas astúcias (Ec 7.29). O próprio Wesley conheceu isso de perto. Durante anos ele tentou alcançar a Deus pelo esforço, pela disciplina, pelas boas obras — visitava presos, ajudava os pobres, jejuava — e ainda assim confessou que estava “dando socos no ar”, sem paz e sem a certeza da aceitação diante de Deus.
Aqui já aparece a diferença que definirá tudo o que vem depois. O diagnóstico wesleyano do pecado é tão severo quanto o de Lutero ou Calvino. A distância não está na gravidade da doença, e sim na confiança quanto à cura.
Se estamos mortos no pecado, como alguém chega a crer? A resposta wesleyana é a graça preveniente — a graça que vai adiante. Antes de qualquer decisão nossa, Deus já está agindo: desperta a consciência, atrai o coração, devolve ao pecador a capacidade de responder ao evangelho.
“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.”Tt 2.11 (NAA)
Note a força dessa palavra: a todos os homens. É neste ponto que a teologia arminiana e wesleyana se distingue de um predestinacionismo rígido. A graça que capacita a resposta não é reservada a alguns poucos escolhidos, nem age de forma irresistível. Ela pode ser resistida; a Escritura adverte contra endurecer o coração (Hb 3.15). Mas é graça de ponta a ponta: mesmo a nossa fé é dom que nasce da ação de Deus em nós, e não mérito que apresentamos a Ele.
Na conhecida imagem que Wesley usava, esta é a varanda da casa da salvação. Ninguém entra sem passar por ela, mas a varanda não é o lugar de morar.
Em 24 de maio de 1738, numa reunião em Aldersgate, o pregador que tanto se esforçara finalmente descansou. Wesley descreveu o momento com uma frase que ficou famosa: sentiu o coração “estranhamente aquecido”, confiou em Cristo — e somente em Cristo — para a salvação, e recebeu a certeza de que os seus pecados, até os seus, haviam sido tirados.
Foi a redescoberta da justificação pela fé. A condição da nossa justificação é a fé somente, e não as boas obras; as obras feitas antes da justificação, por melhores que pareçam, não nos tornam aceitos diante de Deus. Justificar é o ato pelo qual Deus, por causa de Cristo, perdoa o pecador e o declara justo.
“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.”Rm 5.1 (NAA)
Para Wesley, essa fé não é uma ideia fria sobre Cristo, mas a confiança certa de que Ele me amou e se entregou por mim. E ela vem sempre acompanhada de um senso de perdão: a verdadeira fé viva é inseparável da consciência de que os pecados foram perdoados.
Dizer que somos justificados pela fé somente levanta de imediato uma pergunta antiga: e as obras, então, não valem nada? Aqui a soteriologia wesleyana mantém um equilíbrio que se perde com facilidade nas duas pontas.
De um lado, ela nega que as obras justifiquem. De outro, ela nega que a fé salvadora seja um mero assentimento intelectual. Se crer fosse apenas concordar com uma verdade, os próprios demônios seriam salvos, pois eles creem — e tremem (Tg 2.19). A fé que justifica é aquela que confia a ponto de se entregar e obedecer.
“A fé, se não tiver obras, por si só está morta… Pela fé que atua por amor.”Tg 2.17; Gl 5.6 (NAA)
Não é que as obras produzam a salvação; é que a fé viva necessariamente produz obras, como a árvore boa produz bom fruto. Foi assim com a mulher do fluxo de sangue, com Zaqueu, com o cego de Jericó, com tantos a quem Jesus disse: “a tua fé te salvou” (Mc 5.34). A fé que salva é a fé que se converte em ação.
Há quem fale muito da graça soberana de Cristo e, ainda assim, deixe de perceber o seu poder transformador. Reduz-se a salvação a uma transação jurídica no céu, um perdão declarado que pouco altera a vida aqui embaixo. A tradição wesleyana recusa esse encolhimento.
Cristo não apenas perdoa pecados; Ele purifica de toda injustiça (1Jo 1.9) e transforma vidas. O propósito da graça não termina no perdão — ela nos educa para uma vida nova.
“A graça… nos educa para que… vivamos de modo sensato, justo e piedoso… a fim de purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.”Tt 2.11–14 (NAA)
É por isso que se pode dizer, sem exagero, que a teologia wesleyana é a mais otimista quanto ao poder e à ação soberana da graça de Deus. Ela crê que Deus faz o que promete: onde entra a graça, a vida muda.
Wesley gostava de comparar a via da salvação a uma casa. A varanda é a graça preveniente, que nos alcança antes mesmo de sabermos. A porta é a justificação, pela qual entramos. E os cômodos onde devemos morar são a santificação.
O erro comum é parar na porta. Muitos tratam a justificação como se fosse o fim da caminhada, quando ela é apenas a entrada. O alvo não é meramente ser salvo pela graça e ficar por ali; o alvo é ser transformado à imagem de Cristo.
“Os que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”Rm 8.29 (NAA)
E isto requer a nossa participação. Deus não nos salva à força nem nos santifica sem nós. Ele abre a casa; a Ele cabe a obra, mas a nós cabe entrar e habitar.
Chegamos à contribuição mais característica de Wesley: a inteira santificação, ou perfeição cristã. É uma doutrina que precisa ser bem entendida, porque a palavra “perfeição” assusta. Wesley não ensinou uma ausência absoluta de pecado — no sentido absoluto, só Deus é santo (Ap 15.4). O que ele ensinou foi o amor perfeito: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo, como um alvo alcançável nesta vida pelo poder do Espírito.
“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo… Fiel é aquele que vos chama, o qual também o fará.”1Ts 5.23–24 (NAA)
Repare como esse texto une as duas mãos da salvação. De um lado, a obra é de Deus: é Ele quem santifica, e Ele é fiel para cumprir. De outro, há responsabilidade humana — o mesmo apóstolo manda “abstende-vos de toda forma de mal”. A santidade é, ao mesmo tempo, dom que se recebe e chamado a que se obedece.
Na Escritura, esse alvo é descrito como a renovação da imagem de Deus em nós (Cl 3.10; Ef 4.24), a transformação de glória em glória (2Co 3.18). O que parece impossível às nossas forças é inteiramente possível a Deus (Lc 18.27). Por isso o cristão não batalha contra o pecado com resignação, e sim com esperança.
Otimismo, porém, não é ingenuidade. A perfeição no amor não põe fim ao conflito. A carne e o Espírito continuam em choque, e por isso a exortação permanece necessária.
“Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne.”Gl 5.16–17 (NAA)
Vale aqui uma observação exegética. O homem derrotado de Romanos 7 — “vendido à escravidão do pecado” — não é o retrato normal do regenerado, mas a condição de quem tenta vencer debaixo da lei. O retrato do crente está em Romanos 8: “já nenhuma condenação há… a lei do Espírito da vida… te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1–2). Tropeçamos de muitas maneiras (Tg 3.2), é verdade; mas a promessa é que, agindo com diligência, jamais tropeçaremos de forma a cair (2Pe 1.10).
A palavra que resume isso é sinergia: a obra de Deus em nós e a nossa obra em Deus, sem confundir uma com a outra. “Desenvolvei a vossa salvação… porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar” (Fp 2.12–13). Não somos fantoches passivos, nem heróis que se salvam sozinhos. Somos colaboradores de Deus — e, nEle, mais que vencedores (Rm 8.37).
Há um dito atribuído a Wesley que resume bem o coração do metodismo: não há santidade senão a social. Ele não quis dizer com isso que a salvação seja coletiva e não pessoal, nem que baste reformar a sociedade. Quis dizer que a santidade verdadeira nunca fica presa no coração de quem a recebe: ela transborda em amor e serviço ao próximo.
A renovação da imagem de Deus abrange, ao mesmo tempo, a dimensão pessoal e a social. O amor que Deus derrama em nós (Rm 5.5) nos torna sal e luz, e nos move à obra do Reino aqui e agora.
“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”Mt 5.16 (NAA)
Foi essa convicção que levou Wesley e os primeiros metodistas a lutar contra a escravidão, a reformar prisões, a abrir escolas para os pobres, a cuidar de doentes e endividados. A fé que atua pelo amor não separa o que Deus uniu: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo (Mt 22.37–39).
A soteriologia wesleyana é, de fato, a mais otimista quanto ao poder da graça — mas convém dizer com clareza de onde vem esse otimismo. Ele não nasce de nenhuma confiança no ser humano. Nasce da confiança em Deus, no poder da sua graça para vencer os efeitos do pecado.
Salvos pela graça, mediante a fé (Ef 2.8), somos justificados de graça, e essa mesma graça nos chama a viver a santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). Fica afastado, de um lado, o pessimismo que se resigna ao pecado como a um mal inevitável; e, de outro, a presunção que confia nas próprias forças. No meio, a esperança firme: podemos batalhar com esperança contra o pecado, porque a graça é maior.
E, para que não reste dúvida: essa salvação é dom de Deus, condicionada à fé em Cristo. Ela não é um destino automático de todos, nem uma conquista do nosso esforço — é a graça recebida pela fé, que se completa numa vida transformada à imagem de Jesus.
Bispo Ildo Mello
Assista ao vídeo abaixo para aprofundar o estudo da soteriologia wesleyana.
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1. A soteriologia wesleyana se distingue principalmente do calvinismo por:
2. A graça preveniente é:
3. Na imagem da casa, a justificação corresponde:
4. “A fé que atua pelo amor” (Gl 5.6) ensina que:
5. A perfeição cristã, para Wesley, é:
6. Sobre Romanos 7.7–25, a leitura wesleyana entende que o texto:
7. Na perspectiva wesleyana, a salvação é:
8. “Não há santidade senão a social” significa que: