SERMÃO 5
A justificação pela fé
Publicado entre os sermões-padrão da primeira série (1746).
“Porém, para aquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé é atribuída como justiça.”
(Rm 4.5, NAA)Antes de ler
Se o Sermão 1 é o manifesto do avivamento, este é o seu tratado doutrinário. Aqui Wesley define com precisão o que a justificação é (o perdão dos pecados) e o que ela não é (não é a santificação, nem Deus fingindo que somos o que não somos). Repare em duas joias: a distinção entre o que Deus faz por nós no Filho e o que faz em nós pelo Espírito; e a resposta à pergunta "quem é justificado?" — não o santo, mas o ímpio. O apelo final está entre as páginas mais comoventes que Wesley escreveu.
— Bispo Ildo Mello
1. Como pode um pecador ser justificado diante de Deus, o Senhor e Juiz de todos? Eis uma pergunta de importância nada comum para todo filho de homem. Ela contém o fundamento de toda a nossa esperança, pois, enquanto estamos em inimizade com Deus, não pode haver paz verdadeira nem alegria sólida, nem no tempo nem na eternidade. Que paz pode haver, enquanto o nosso próprio coração nos condena — e, muito mais, aquele que “é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas” (1Jo 3.20)? Que alegria sólida, neste mundo ou no vindouro, enquanto “a ira de Deus permanece sobre nós” (Jo 3.36)?
2. E, no entanto, quão pouco essa importante questão tem sido entendida! Que noções confusas muitos têm tido a seu respeito! Não apenas confusas: muitas vezes totalmente falsas, contrárias à verdade como a luz às trevas; noções absolutamente incompatíveis com os oráculos de Deus e com toda a analogia da fé. E daí, errando quanto ao próprio fundamento, não podiam de modo algum edificar sobre ele — ao menos não “ouro, prata e pedras preciosas”, que resistiriam à prova do fogo, mas somente “feno e palha” (1Co 3.12), que nem agradam a Deus nem aproveitam ao homem.
3. Para fazer justiça, tanto quanto está em mim, à vasta importância do assunto; para livrar os que buscam a verdade com sinceridade das “disputas vãs e contendas de palavras”; para desfazer a confusão de pensamento a que tantos já foram levados; e para dar-lhes concepções verdadeiras e justas desse grande mistério da piedade, procurarei mostrar:
Primeiro: qual é o fundamento geral de toda a doutrina da justificação;
Segundo: o que é a justificação;
Terceiro: quem são os que são justificados;
Quarto: sob que condição são justificados.
I. O fundamento da doutrina
1. À imagem de Deus o homem foi feito: santo como é santo aquele que o criou; misericordioso como é misericordioso o Autor de tudo; perfeito como é perfeito o seu Pai celestial. Como Deus é amor, assim o homem, habitando no amor, habitava em Deus, e Deus nele. Deus o fez para ser “imagem da sua própria eternidade”, retrato incorruptível do Deus da glória. Era, portanto, puro de toda mancha de pecado, como Deus é puro. Não conhecia o mal em espécie ou grau algum; era, por dentro e por fora, sem pecado e sem mácula. “Amava o Senhor, seu Deus, de todo o coração, de todo o entendimento, de toda a alma e de toda a força.”
2. Ao homem assim reto e perfeito, Deus deu uma lei perfeita, para a qual exigiu obediência plena e perfeita. Exigiu obediência total em cada ponto, e sem interrupção alguma, desde o momento em que o homem se tornou alma vivente até o fim do seu tempo de prova. Nenhuma concessão se fez para alguma falha — nem, de fato, era necessária: o homem estava plenamente à altura da tarefa que lhe fora designada e perfeitamente equipado para toda boa palavra e obra.
3. À lei do amor, inteira, escrita no seu coração (contra a qual, talvez, ele não pudesse pecar diretamente), pareceu bem à soberana sabedoria de Deus acrescentar uma lei positiva: “Não coma do fruto da árvore que está no meio do jardim” — anexando-lhe a pena: “No dia em que dela comer, certamente você morrerá” (Gn 2.17).
4. Tal era, pois, o estado do homem no paraíso. Pelo amor livre e imerecido de Deus, era santo e feliz: conhecia, amava e desfrutava a Deus — o que é, em substância, a vida eterna. E nessa vida de amor haveria de continuar para sempre, se continuasse a obedecer a Deus em tudo; mas, se lhe desobedecesse em alguma coisa, perderia tudo. “Naquele dia”, disse Deus, “certamente você morrerá.”
5. E o homem desobedeceu a Deus. “Comeu da árvore de que Deus lhe ordenara: dela você não comerá.” E naquele dia foi condenado pelo justo juízo de Deus. Então também a sentença de que fora avisado começou a cumprir-se nele. Pois, no momento em que provou daquele fruto, morreu: a sua alma morreu, foi separada de Deus — e, separada dele, a alma não tem mais vida do que o corpo tem quando separado da alma. O seu corpo, igualmente, tornou-se corruptível e mortal, de modo que a morte se apossou também dele. E, já morto em espírito, morto para Deus, morto no pecado, ele se apressava para a morte eterna — para a destruição do corpo e da alma no fogo que nunca se apaga.
6. Assim, “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte; assim, a morte passou a todos os homens” (Rm 5.12), por estarem todos contidos naquele que era o pai comum e o representante de todos nós. Assim, “pela ofensa de um só”, todos estão mortos — mortos para Deus, mortos no pecado, habitando num corpo corruptível e mortal, prestes a dissolver-se, e sob a sentença da morte eterna. Pois, como “pela desobediência de um só homem todos foram feitos pecadores”, assim, por aquela ofensa de um só, “veio o juízo sobre todos os homens para condenação” (Rm 5.18–19).
7. Nesse estado estávamos — toda a humanidade — quando “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Na plenitude do tempo, ele se fez homem, outra Cabeça comum da humanidade, um segundo Pai geral e Representante de toda a raça humana. E foi como tal que “carregou as nossas enfermidades”, “fazendo o Senhor cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Is 53.4, 6). Então foi “traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades”. “Fez da sua alma uma oferta pelo pecado”; derramou o seu sangue pelos transgressores; “carregou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro” (1Pe 2.24), para que pelas suas feridas fôssemos sarados. E, por aquela única oblação de si mesmo, uma vez oferecida, redimiu a mim e a toda a humanidade, tendo feito com ela “um sacrifício e uma satisfação plenos, perfeitos e suficientes pelos pecados do mundo inteiro”.
8. Em consideração a isso — a que o Filho de Deus “provou a morte por todos” (Hb 2.9) —, Deus agora “reconciliou o mundo consigo mesmo, não imputando aos homens as suas transgressões” passadas (2Co 5.19). E assim, “como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação” (Rm 5.18). De modo que, por amor do seu Filho amado, pelo que ele fez e sofreu por nós, Deus agora se digna, sob uma única condição (que ele mesmo também nos capacita a cumprir), a perdoar o castigo devido aos nossos pecados, a reintegrar-nos no seu favor e a restaurar as nossas almas mortas à vida espiritual, como penhor da vida eterna.
9. Este é, portanto, o fundamento geral de toda a doutrina da justificação. Pelo pecado do primeiro Adão — que era não apenas o pai, mas também o representante de todos nós —, todos ficamos privados do favor de Deus; todos nos tornamos filhos da ira; ou, como diz o apóstolo, “veio o juízo sobre todos os homens para condenação”. Do mesmo modo, pelo sacrifício pelo pecado feito pelo segundo Adão, como Representante de todos nós, Deus está reconciliado com todo o mundo a ponto de lhe haver dado uma nova aliança. Cumprida uma vez a sua condição simples, “já nenhuma condenação há” para nós; antes, “somos justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 8.1; 3.24).
II. O que é a justificação
1. Mas o que é ser “justificado”? O que é a “justificação”? Foi a segunda coisa que me propus mostrar. E é evidente, pelo que já se observou, que ela não é o sermos feitos real e efetivamente justos e retos. Isso é a santificação — a qual, de fato, é em certa medida o fruto imediato da justificação, mas é, ainda assim, um dom distinto de Deus, e de natureza totalmente diferente. Uma diz respeito ao que Deus faz por nós por meio do seu Filho; a outra, ao que ele opera em nós pelo seu Espírito. De modo que, embora se encontrem alguns raros casos em que o termo “justificado” ou “justificação” é usado em sentido tão amplo que inclui também a santificação, no uso geral elas são suficientemente distinguidas uma da outra, tanto por Paulo quanto pelos demais escritores inspirados.
2. Tampouco aquela ideia rebuscada — de que a justificação seria o livrar-nos da acusação, particularmente a de Satanás — se prova com facilidade a partir de algum texto claro da Escritura. Em todo o relato bíblico do assunto, como exposto acima, nem o acusador nem a sua acusação aparecem em consideração. Não se pode negar, é claro, que ele é o “acusador” dos homens, assim chamado com ênfase (Ap 12.10). Mas de modo algum se vê que o grande apóstolo tenha qualquer referência a isso em tudo o que escreveu sobre a justificação, seja aos romanos, seja aos gálatas.
3. Também é muito mais fácil supor do que provar, por algum testemunho claro da Escritura, que a justificação seja o livrar-nos da acusação movida contra nós pela lei — a menos que essa maneira forçada e artificial de falar signifique apenas isto: que, havendo nós transgredido a lei de Deus e merecido com isso a condenação do inferno, Deus não inflige aos justificados o castigo que mereciam.
4. Menos ainda a justificação implica que Deus se engane a respeito dos que justifica; que os considere o que de fato não são; que os tenha em conta diferente do que são. De modo algum ela implica que Deus julgue a nosso respeito contrariando a natureza real das coisas; que nos estime melhores do que realmente somos, ou nos creia justos quando somos injustos. Certamente não. O juízo do Deus todo-sábio é sempre segundo a verdade. Nem jamais poderia ser compatível com a sua sabedoria infalível pensar que sou inocente, julgar que sou justo ou santo, porque outro o é. Ele não pode, dessa maneira, confundir-me com Cristo, assim como não pode confundir-me com Davi ou com Abraão. Que qualquer pessoa a quem Deus deu entendimento pese isso sem preconceito, e não poderá deixar de perceber que tal noção de justificação não se concilia nem com a razão nem com a Escritura.
5. A noção bíblica e simples de justificação é o perdão, a remissão dos pecados. É aquele ato de Deus Pai pelo qual, por causa da propiciação feita pelo sangue do seu Filho, ele “manifesta a sua justiça (ou misericórdia) pela remissão dos pecados passados” (Rm 3.25). Esse é o relato fácil e natural que Paulo dá do assunto ao longo de toda esta epístola — e que ele mesmo explica, mais particularmente, neste capítulo e no seguinte. Assim, dois versículos depois do nosso texto: “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado” (Rm 4.7–8). Àquele que é justificado, ou perdoado, Deus “não imputará pecado” para a sua condenação. Não o condenará por causa dele, nem neste mundo nem no vindouro. Os seus pecados — todos os seus pecados passados, em pensamento, palavra e obra — estão cobertos, estão apagados; não serão lembrados nem mencionados contra ele, como se nunca tivessem existido. Deus não infligirá àquele pecador o que ele merecia sofrer, porque o Filho do seu amor sofreu por ele. E, desde o momento em que somos “aceitos no Amado” (Ef 1.6), “reconciliados com Deus pelo seu sangue”, ele nos ama, nos abençoa e vela por nós para o bem, como se nunca tivéssemos pecado.
É verdade que o apóstolo, numa passagem, parece estender o sentido da palavra muito além disso, quando diz: “não os que ouvem a lei, mas os que praticam a lei serão justificados” (Rm 2.13) — aqui ele parece referir a nossa justificação à sentença do grande Dia. E assim faz, sem dúvida, o próprio Senhor, quando diz: “Pelas suas palavras você será justificado” (Mt 12.37), provando com isso que “de toda palavra inútil que os homens disserem, darão conta no Dia do Juízo”. Mas dificilmente se poderá apresentar outro exemplo de Paulo usando a palavra nesse sentido remoto. No teor geral dos seus escritos, é evidente que não o faz — e menos que em qualquer outro lugar no texto que temos diante de nós, que fala, inegavelmente, não dos que já “completaram a carreira”, mas dos que agora estão apenas partindo, apenas começando a “correr a carreira que lhes está proposta”.
III. Quem são os justificados
1. Mas esta é a terceira coisa a considerar: quem são os que são justificados? E o apóstolo nos diz expressamente: os ímpios. “Ele” — isto é, Deus — “justifica o ímpio”; o ímpio de toda espécie e grau, e ninguém senão o ímpio. Assim como “os justos não precisam de arrependimento”, também não precisam de perdão. Somente pecadores têm ocasião para o perdão: é só o pecado que admite ser perdoado. O perdão, portanto, refere-se diretamente ao pecado e, nesse sentido, a nada mais. É da nossa “injustiça” que o Deus perdoador se compadece; é da nossa “iniquidade” que ele “já não se lembra” (Hb 8.12).
2. Isso parece não ser considerado, de modo algum, por aqueles que tão veementemente sustentam que o homem precisa ser santificado — isto é, santo — antes de poder ser justificado; especialmente pelos que afirmam que a santidade universal, ou a obediência, deve preceder a justificação (a menos que se refiram à justificação do último Dia, que está totalmente fora da presente questão). Tão longe disso está a verdade que a própria suposição é não apenas claramente impossível (pois, onde não há amor de Deus, não há santidade; e não há amor de Deus senão a partir do senso de que ele nos ama), mas também grosseira e intrinsecamente absurda, contraditória em si mesma. Pois não é um santo, mas um pecador, que é perdoado — e perdoado na condição de pecador. Deus não justifica os piedosos, mas os ímpios; não os que já são santos, mas os que não o são. Sob que condição ele faz isso, consideraremos em seguida; mas, seja ela qual for, não pode ser a santidade. Afirmar isso seria dizer que o Cordeiro de Deus tira apenas os pecados que já haviam sido tirados antes.
3. Será, então, que o bom Pastor busca e salva apenas os que já foram achados? Não: ele busca e salva o que está perdido (Lc 19.10). Ele perdoa os que precisam da sua misericórdia perdoadora. Ele salva da culpa do pecado (e, ao mesmo tempo, do seu poder) pecadores de toda espécie e grau: homens que, até então, eram totalmente ímpios; nos quais não havia o amor do Pai; e nos quais, por conseguinte, não habitava coisa boa alguma, nenhuma disposição boa ou verdadeiramente cristã — mas todas as que são más e abomináveis: orgulho, ira, amor do mundo, os frutos genuínos daquela “mente carnal” que é “inimizade contra Deus” (Rm 8.7).
4. Esses que estão doentes, para quem o fardo dos seus pecados é intolerável, são os que precisam de Médico; esses que são culpados, que gemem sob a ira de Deus, são os que precisam de perdão. Esses que estão “já condenados” — não só por Deus, mas também pela própria consciência, como por mil testemunhas, de toda a sua impiedade em pensamento, palavra e obra — clamam em alta voz por aquele que “justifica o ímpio”, mediante a redenção que há em Jesus: o ímpio, e “aquele que não trabalha”; que não opera, antes de ser justificado, nada de bom, nada verdadeiramente virtuoso ou santo, mas somente o mal, continuamente. Pois o seu coração é necessária e essencialmente mau, até que o amor de Deus seja derramado nele. E, enquanto a árvore é má, os frutos também o são: “a árvore má não pode dar bons frutos” (Mt 7.18).
5. Se alguém objetar: “Mas um homem, antes de ser justificado, pode alimentar os famintos ou vestir os nus — e essas são boas obras”, a resposta é fácil. Ele pode fazê-las mesmo antes de ser justificado; e elas são, num certo sentido, “boas obras”: são “boas e proveitosas aos homens”. Mas daí não se segue que sejam, em sentido estrito, boas em si mesmas, ou boas aos olhos de Deus. Todas as obras verdadeiramente boas (para usar as palavras da nossa Igreja) “seguem-se à justificação”; e são boas e “aceitáveis a Deus em Cristo” porque “brotam de uma fé verdadeira e viva”. Por igual razão, todas as “obras feitas antes da justificação não são boas”, no sentido cristão, “porquanto não brotam da fé em Jesus Cristo” (embora possam brotar de alguma espécie de fé em Deus); “antes, por não serem feitas como Deus quis e ordenou que fossem feitas, não duvidamos” — por estranho que pareça a alguns — “de que tenham a natureza de pecado”.
6. Talvez os que duvidam disso não tenham considerado devidamente a razão de peso que aqui se apresenta para que nenhuma obra feita antes da justificação possa ser verdadeira e propriamente boa. O argumento é claramente este:
Nenhuma obra é boa se não é feita como Deus quis e ordenou que fosse feita.
Mas nenhuma obra feita antes da justificação é feita como Deus quis e ordenou que fosse feita.
Logo, nenhuma obra feita antes da justificação é boa.
A primeira proposição é evidente por si mesma. E a segunda — que nenhuma obra feita antes da justificação é feita como Deus quis e ordenou — parecerá igualmente clara e inegável se apenas considerarmos que Deus quis e ordenou que “todas as nossas obras” fossem “feitas em amor” (1Co 16.14): naquele amor a Deus que produz amor a toda a humanidade. Mas nenhuma das nossas obras pode ser feita nesse amor enquanto o amor do Pai (de Deus como nosso Pai) não está em nós; e esse amor não pode estar em nós enquanto não recebemos o “Espírito de adoção, que clama em nossos corações: Aba, Pai”. Se, portanto, Deus não “justifica o ímpio” e aquele que (nesse sentido) “não trabalha”, então Cristo morreu em vão; então, apesar da sua morte, ninguém pode ser justificado.
IV. Sob que condição somos justificados
1. Mas sob que condição, então, é justificado aquele que é totalmente “ímpio” e que, até então, “não trabalha”? Sob uma única: a fé. Ele “crê naquele que justifica o ímpio”. E “quem nele crê não é condenado” (Jo 3.18); mais: “passou da morte para a vida” (Jo 5.24). “Pois a justiça (ou misericórdia) de Deus é mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem… a quem Deus apresentou como propiciação, pela fé, no seu sangue, para que ele seja justo e” — em plena coerência com a sua justiça — “o justificador daquele que tem fé em Jesus”. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.22–28) — sem a obediência prévia à lei moral, que, de fato, até então ele não podia cumprir. Que se trata da lei moral, e somente dela, fica evidente pelas palavras que se seguem: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.” Que lei confirmamos pela fé? Não a lei ritual, não a lei cerimonial de Moisés — de modo nenhum; mas a grande e imutável lei do amor: o santo amor a Deus e ao próximo.
2. A fé, em geral, é uma “evidência” ou “convicção” divina e sobrenatural “de coisas que não se veem” (Hb 11.1) — não alcançáveis pelos nossos sentidos corporais, por serem passadas, futuras ou espirituais. A fé justificadora implica não apenas uma evidência ou convicção divina de que “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19), mas também uma confiança segura de que Cristo morreu pelos meus pecados, de que ele me amou e se entregou por mim. E, em qualquer momento em que um pecador assim creia — seja na primeira infância, na força dos seus anos ou já velho e de cabelos brancos —, Deus justifica esse ímpio: Deus, por amor do seu Filho, perdoa e absolve aquele em quem, até então, não havia coisa boa alguma. O arrependimento, é verdade, Deus já lhe havia dado antes; mas aquele arrependimento não era nem mais nem menos que um senso profundo da falta de todo bem e da presença de todo mal. E qualquer bem que ele tenha, ou faça, a partir da hora em que primeiro crê em Deus por Cristo, a fé não o encontra, mas o traz. Esse é o fruto da fé. Primeiro a árvore é boa; depois, também o fruto.
3. Não sei descrever a natureza dessa fé melhor do que nas palavras da nossa própria Igreja: “O único instrumento da salvação” (da qual a justificação é um ramo) “é a fé: isto é, a confiança segura de que Deus perdoou e perdoará os nossos pecados, de que nos aceitou de novo no seu favor, pelos méritos da morte e paixão de Cristo. Mas aqui devemos ter cuidado para não claudicar diante de Deus com uma fé inconstante e vacilante. Pedro, vindo a Cristo sobre as águas, porque fraquejou na fé, esteve em perigo de afogar-se; assim nós, se começamos a vacilar ou duvidar, é de temer que afundemos como Pedro — não nas águas, mas no abismo sem fundo do fogo do inferno.” E ainda: “Tenha, portanto, uma fé firme e constante, não apenas em que a morte de Cristo é eficaz para todo o mundo, mas em que ele fez um sacrifício pleno e suficiente por você, uma purificação perfeita dos seus pecados, de modo que você possa dizer, com o apóstolo: ele amou você e se entregou por você. Pois isso é fazer de Cristo seu, e aplicar os méritos dele a si mesmo.”
4. Ao afirmar que essa fé é o termo, ou a condição, da justificação, quero dizer, primeiro, que não há justificação sem ela. “Quem não crê já está condenado” (Jo 3.18); e, enquanto não crê, essa condenação não pode ser removida: “a ira de Deus permanece sobre ele”. Assim como “não há outro nome debaixo do céu” senão o de Jesus de Nazaré — nenhum outro mérito pelo qual um pecador condenado possa ser salvo da culpa do pecado —, também não há outro modo de obter parte no mérito dele senão “pela fé no seu nome”. De sorte que, enquanto estamos sem essa fé, somos “estranhos às alianças da promessa”, “separados da comunidade de Israel e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). Quaisquer que sejam as virtudes (assim chamadas) que alguém tenha — falo dos que ouvem a pregação do evangelho, pois “que tenho eu com julgar os que estão de fora?” (1Co 5.12) —, quaisquer boas obras (assim reputadas) que faça, nada disso lhe aproveita: ele continua “filho da ira”, continua debaixo da maldição, até que creia em Jesus.
5. A fé, portanto, é a condição necessária da justificação — mais: a única condição necessária dela. Este é o segundo ponto a observar com cuidado: no exato momento em que Deus dá a fé (pois “ela é dom de Deus”) ao “ímpio”, àquele que “não trabalha”, essa “fé lhe é atribuída como justiça”. Ele não tem justiça alguma antes disso — nem sequer justiça negativa, ou inocência. Mas “a fé lhe é imputada como justiça” no momento mesmo em que crê. Não que Deus (como se observou antes) o julgue ser o que não é. Mas, assim como “fez Cristo pecado por nós” — isto é, tratou-o como pecador, punindo-o pelos nossos pecados —, assim nos considera justos desde o momento em que cremos nele: isto é, não nos pune pelos nossos pecados; antes, trata-nos como se fôssemos inocentes e justos.
6. Certamente a dificuldade de assentir a esta proposição — que a fé é a única condição da justificação — deve nascer de não a entender. Queremos dizer com ela o seguinte: a fé é a única coisa sem a qual ninguém é justificado; a única coisa imediata, indispensável e absolutamente requerida para o perdão. Se, por um lado, ainda que alguém tivesse tudo o mais, sem fé não pode ser justificado; por outro, ainda que se suponha que lhe falte tudo o mais, se tem fé, não pode deixar de ser justificado. Pois suponha um pecador de qualquer espécie ou grau, plenamente cônscio da sua total impiedade, da sua completa incapacidade de pensar, falar ou fazer o bem, e do seu absoluto merecimento do fogo do inferno; suponha, digo, que esse pecador, sem socorro e sem esperança, se lance por inteiro na misericórdia de Deus em Cristo (o que, de fato, ele não pode fazer senão pela graça de Deus) — quem pode duvidar de que ele é perdoado naquele mesmo momento? Quem afirmará que algo mais é “indispensavelmente exigido” antes que esse pecador possa ser justificado? Ora, se alguma vez houve um caso assim desde o princípio do mundo (e não houve, e não há, dez mil vezes dez mil?), segue-se claramente que a fé é, no sentido acima, a única condição da justificação.
7. Não fica bem a pobres vermes, culpados e pecadores — que recebem todas as bênçãos de que desfrutam (da menor gota d'água que refresca a língua às imensas riquezas da glória na eternidade) por graça, por puro favor, e não por dívida —, pedir a Deus as razões da sua conduta. Não nos convém chamar a juízo aquele “que não dá conta de nenhum dos seus atos” (Jó 33.13); exigir: “Por que fizeste da fé a condição, a única condição, da justificação? Por que decretaste que ‘quem crê’, e somente ele, ‘será salvo’?” É exatamente este o ponto em que Paulo tanto insiste no capítulo 9 desta epístola: que os termos do perdão e da aceitação devem depender, não de nós, mas “daquele que chama”; que não há “injustiça em Deus” ao fixar os seus próprios termos — não segundo os nossos, mas segundo o seu beneplácito —, ele que pode dizer com justiça: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9.15), a saber, daquele que crê em Jesus. “Assim, pois, não depende de quem quer, nem de quem corre” escolher a condição sob a qual será aceito, “mas de Deus, que usa de misericórdia” (Rm 9.16) — que não aceita ninguém senão pelo seu livre amor, pela sua bondade imerecida. “Portanto, tem misericórdia de quem quer” — dos que creem no Filho do seu amor — “e endurece a quem quer” — isto é, os que não creem, ele os deixa, por fim, à dureza dos seus corações.
8. Uma razão, contudo, podemos humildemente conceber para Deus ter fixado esta condição de justificação — “se você crer no Senhor Jesus Cristo, será salvo” —: foi para “esconder do homem o orgulho” (Jó 33.17). O orgulho já havia destruído os próprios anjos de Deus, já havia derrubado “a terça parte das estrelas do céu” (Ap 12.4). E foi em grande medida por causa dele — quando o tentador disse “vocês serão como Deus” (Gn 3.5) — que Adão caiu da sua firmeza e trouxe ao mundo o pecado e a morte. Foi, portanto, um traço de sabedoria digno de Deus estabelecer, para ele e toda a sua posteridade, uma condição de reconciliação capaz de humilhá-los eficazmente, de abatê-los até o pó. E tal é a fé. Ela é peculiarmente adequada a esse fim: pois quem vem a Deus por essa fé precisa fixar o olhar unicamente na própria maldade, na sua culpa e na sua impotência, sem a mínima consideração por qualquer suposto bem em si mesmo, por qualquer virtude ou justiça que seja. Precisa vir como mero pecador, por dentro e por fora, destruído por si mesmo e condenado por si mesmo, sem trazer a Deus nada além de impiedade, sem alegar nada de seu além de pecado e miséria. Assim é — e somente assim, quando a sua “boca se cala” e ele se reconhece totalmente “culpado diante de Deus” (Rm 3.19) —, que ele pode “olhar para Jesus” como a inteira e única “propiciação pelos seus pecados”. Assim, somente, pode ser “achado nele” e receber a “justiça que vem de Deus, pela fé” (Fp 3.9).
9. Você, ímpio, que ouve ou lê estas palavras! Você, pecador vil, desamparado, miserável! Eu o exorto, diante de Deus, o Juiz de todos: vá diretamente a ele, com toda a sua impiedade. Cuidado para não destruir a própria alma alegando a sua justiça, seja muita, seja pouca. Vá como quem é totalmente ímpio, culpado, perdido, destruído — merecendo o inferno e caindo para dentro dele —, e então você achará favor aos olhos dele, e saberá que ele justifica o ímpio. Assim você será conduzido ao “sangue da aspersão” (Hb 12.24), como pecador arruinado, impotente, condenado. “Olhe para Jesus!” Ali está “o Cordeiro de Deus, que tira” os seus pecados! Não alegue obras, nem justiça própria! Nem humildade, contrição, sinceridade! De modo algum. Isso seria, de fato, negar o Senhor que o resgatou. Não: alegue unicamente o sangue da aliança, o resgate pago pela sua alma orgulhosa, teimosa e pecadora. Quem é você, que agora vê e sente a sua impiedade interior e exterior? Você é o homem! Eu o quero para o meu Senhor! Eu o reivindico como filho de Deus pela fé! O Senhor precisa de você. Você, que se sente pronto apenas para o inferno, está pronto para promover a glória dele: a glória da sua graça gratuita, que justifica o ímpio e aquele que não trabalha. Oh, venha depressa! Creia no Senhor Jesus — e você, sim, você, estará reconciliado com Deus.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.