SERMÃO 6

A justiça da fé

Publicado entre os sermões-padrão da primeira série (1746).

Rm 10.5–8, NAA ⏱ 24 min de leituraSalvação e graça

“Porque Moisés escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei viverá por ela. A justiça, porém, que vem da fé assim diz: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, para fazer descer a Cristo), ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, para tornar a trazer a Cristo dentre os mortos). Mas que diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos.”

(Rm 10.5–8, NAA)

Antes de ler

Este sermão é o par doutrinário do anterior. Wesley coloca lado a lado dois pactos: a aliança das obras, feita com Adão inocente no paraíso ("faça isto e viva"), e a aliança da graça, feita com o pecador caído ("creia e viva"). O erro que ele combate — buscar a aceitação de Deus pela própria justiça — não era só dos judeus do tempo de Paulo; é a tentação permanente do coração religioso. O sermão termina desmontando, uma a uma, as desculpas com que adiamos crer: "não sou bom o bastante", "não estou arrependido o suficiente", "preciso fazer algo antes". A resposta de Wesley é sempre a mesma: creia primeiro.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. O apóstolo não opõe aqui a aliança dada por Moisés à aliança dada por Cristo. Se algum dia imaginamos isso, foi por não termos observado que tanto a segunda quanto a primeira parte destas palavras foram ditas pelo próprio Moisés ao povo de Israel, e a respeito da aliança que então vigorava (Dt 30.11–14). O que Paulo aqui opõe à aliança das obras — feita com Adão enquanto estava no paraíso, mas comumente tida como a única aliança que Deus fizera com o homem, especialmente por aqueles judeus de quem o apóstolo escreve — é a aliança da graça, que Deus, por meio de Cristo, estabeleceu com os homens em todas as eras (tanto antes e durante a dispensação judaica quanto depois de Deus se manifestar em carne).

2. É deles que ele fala com tanto afeto no começo deste capítulo: “O desejo do meu coração e a minha súplica a Deus por Israel é para que sejam salvos. Pois eu lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas não com entendimento. Porquanto, ignorando a justiça de Deus” — a justificação que flui da sua pura graça e misericórdia, perdoando gratuitamente os nossos pecados por meio do Filho do seu amor, pela redenção que há em Jesus — “e procurando estabelecer a sua própria justiça” — a sua própria santidade, anterior à fé “naquele que justifica o ímpio”, como fundamento do seu perdão e aceitação —, “não se sujeitaram à justiça de Deus” (Rm 10.1–3), e por isso buscam a morte no erro da sua vida.

3. Eles ignoravam que “Cristo é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4); que, pela oblação de si mesmo, uma vez oferecida, ele pôs fim à primeira lei ou aliança (a qual, de fato, não foi dada por Deus a Moisés, mas a Adão no seu estado de inocência), cujo teor estrito, sem nenhuma atenuação, era: “Faça isto e viva”; e que, ao mesmo tempo, comprou para nós aquela aliança melhor: “Creia e viva”; creia, e você será salvo — salvo agora, tanto da culpa quanto do poder do pecado, e, por consequência, do seu salário.

4. E quantos são hoje igualmente ignorantes, até mesmo entre os que são chamados pelo nome de Cristo! Quantos que têm agora “zelo por Deus”, mas não “com entendimento”; que ainda estão procurando “estabelecer a sua própria justiça” como fundamento do seu perdão e aceitação, e que, por isso, recusam veementemente “sujeitar-se à justiça de Deus”! Certamente o desejo do meu coração e a minha súplica a Deus por vocês, irmãos, é para que sejam salvos. E, para remover esse grande tropeço do caminho de vocês, procurarei mostrar, primeiro, o que é a justiça que vem da lei e o que é a justiça que vem da fé; e, segundo, a insensatez de confiar na justiça da lei e a sabedoria de sujeitar-se à que vem da fé.

I. As duas justiças

1. Primeiro: “a justiça que vem da lei assim diz: o homem que praticar estas coisas viverá por elas.” Observe todas estas coisas, constante e perfeitamente, para praticá-las, e então viverá para sempre. Essa lei, ou aliança — comumente chamada de aliança das obras —, dada por Deus ao homem no paraíso, exigia uma obediência perfeita em todas as suas partes, inteira e sem falta alguma, como condição para que ele permanecesse eternamente na santidade e na felicidade em que fora criado.

2. Exigia que o homem cumprisse toda a justiça, interior e exterior, negativa e positiva: que não apenas se abstivesse de toda palavra inútil e evitasse toda obra má, mas que mantivesse cada afeto, cada desejo, cada pensamento em obediência à vontade de Deus; que permanecesse santo, como é santo aquele que o criou, tanto no coração quanto em todo o seu procedimento; que fosse puro de coração, como Deus é puro, e perfeito como o seu Pai celestial era perfeito; que amasse o Senhor, seu Deus, de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com toda a força; que amasse cada alma que Deus fizera, assim como Deus o amara; que, por essa benevolência universal, habitasse em Deus (que é amor), e Deus nele; que servisse ao Senhor, seu Deus, com toda a sua força, e em tudo visasse unicamente a glória dele.

3. Eram essas as coisas que a justiça da lei exigia, para que aquele que as praticasse vivesse por elas. Mas exigia ainda mais: que essa obediência inteira a Deus, essa santidade interior e exterior, essa conformidade do coração e da vida à sua vontade, fosse perfeita em grau. Nenhuma atenuação, nenhuma concessão se podia fazer para qualquer falta em grau algum, quanto a um jota ou til que fosse, seja da lei exterior, seja da interior. Ainda que se obedecesse a todo mandamento relativo às coisas exteriores, isso não bastava, a menos que cada um fosse obedecido com toda a força, na mais alta medida e da maneira mais perfeita. Tampouco satisfazia a exigência dessa aliança amar a Deus com cada poder e faculdade, a menos que ele fosse amado com toda a capacidade de cada uma delas, com toda a possibilidade da alma.

4. Mais uma coisa era indispensavelmente exigida pela justiça da lei: que essa obediência universal, essa perfeita santidade de coração e de vida, fosse também perfeitamente ininterrupta, que continuasse sem intervalo algum, desde o momento em que Deus criou o homem e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, até que os dias da sua prova terminassem e ele fosse confirmado na vida eterna.

5. A justiça que vem da lei, então, assim fala: “Você, ó homem de Deus, permaneça firme no amor, na imagem de Deus segundo a qual foi feito. Se quer permanecer na vida, guarde os mandamentos que agora estão escritos no seu coração. Ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração. Ame como a si mesmo cada alma que ele fez. Não deseje nada além de Deus. Vise a Deus em cada pensamento, em cada palavra e obra. Não se desvie dele, o seu alvo e o prêmio da sua soberana vocação, num só movimento do corpo ou da alma; e tudo o que há em você louve o seu santo nome — cada poder e faculdade da sua alma, de todo modo, em todo grau e a cada momento da sua existência. ‘Faça isto e viverá’: a sua luz brilhará, o seu amor arderá cada vez mais, até que você seja recebido na casa de Deus, nos céus, para reinar com ele para todo o sempre.”

6. “Mas a justiça que vem da fé assim diz: não diga em seu coração: quem subirá ao céu? (isto é, para fazer descer a Cristo)” — como se houvesse alguma tarefa impossível que Deus exigisse que você cumprisse antes, para ser aceito; “ou: quem descerá ao abismo? (isto é, para tornar a trazer a Cristo dentre os mortos)” — como se ainda restasse fazer aquilo em vista do qual você seria aceito; “mas que diz? A palavra” — segundo cujo teor você pode agora ser aceito como herdeiro da vida eterna — “está perto de você, na sua boca e no seu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos”: a nova aliança que Deus agora estabeleceu com o homem pecador, por meio de Cristo Jesus.

7. Por “justiça que vem da fé” entende-se aquela condição da justificação (e, por consequência, da salvação presente e final, se nela perseverarmos até o fim) que Deus deu ao homem caído, pelos méritos e pela mediação do seu Filho unigênito. Ela foi revelada em parte a Adão, logo após a sua queda, estando contida na promessa original, feita a ele e à sua descendência, acerca do Descendente da mulher, que haveria de “ferir a cabeça da serpente” (Gn 3.15). Foi um pouco mais claramente revelada a Abraão, pelo anjo de Deus lá do céu, ao dizer: “Por mim mesmo jurei, diz o Senhor, que na sua descendência serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 22.16, 18). Foi ainda mais plenamente dada a conhecer a Moisés, a Davi e aos profetas que se seguiram; e, por meio deles, a muitos do povo de Deus nas suas respectivas gerações. Mesmo assim, a maioria até destes a ignorava, e pouquíssimos a entendiam com clareza. Ainda não estavam “a vida e a imortalidade trazidas à luz” aos judeus de outrora como estão agora para nós “pelo evangelho” (2Tm 1.10).

8. Ora, esta aliança não diz ao homem pecador: “Preste uma obediência sem pecado, e viva.” Se essa fosse a condição, ele não teria mais proveito de tudo o que Cristo fez e sofreu por ele do que se lhe exigissem, para viver, que “subisse ao céu e fizesse descer a Cristo”, ou que “descesse ao abismo”, ao mundo invisível, e “trouxesse a Cristo dentre os mortos”. Ela não exige que se faça o impossível (ainda que, para o mero homem, o que ela exige seja de fato impossível — mas não para o homem assistido pelo Espírito de Deus): isso seria apenas zombar da fraqueza humana. Na verdade, em sentido estrito, a aliança da graça não nos exige fazer coisa alguma como absoluta e indispensavelmente necessária para a nossa justificação; exige apenas que creiamos naquele que, por amor do seu Filho e da propiciação que ele fez, “justifica o ímpio que não trabalha” e lhe atribui a fé como justiça. Assim também Abraão “creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15.6). “E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, para que fosse pai de todos os que creem, a fim de que também a eles a justiça fosse imputada” (Rm 4.11). “Ora, não foi só por causa dele que está escrito que lhe foi imputado, mas também por causa de nós, a quem será imputado” — a quem a fé será imputada como justiça, valendo no lugar da obediência perfeita para a nossa aceitação diante de Deus —, “a nós, que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitado por causa da nossa justificação” (Rm 4.23–25): para a certeza da remissão dos nossos pecados e de uma segunda vida por vir, aos que creem.

9. Que diz, então, a aliança do perdão, do amor imerecido, da misericórdia que absolve? “Creia no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo.” No dia em que crer, certamente viverá. Será restaurado ao favor de Deus — e no favor dele está a vida. Será salvo da maldição e da ira de Deus. Será vivificado, da morte do pecado para a vida da justiça. E, se perseverar até o fim, crendo em Jesus, jamais provará a segunda morte; antes, tendo sofrido com o seu Senhor, também viverá e reinará com ele para todo o sempre.

10. Ora, “esta palavra está perto de você”. Esta condição de vida é simples, fácil, está sempre à mão. “Está na sua boca e no seu coração”, pela operação do Espírito de Deus. No momento em que você “crê no coração” naquele que Deus “ressuscitou dentre os mortos” e “confessa com a boca o Senhor Jesus” como seu Senhor e seu Deus, “será salvo” da condenação, da culpa e do castigo dos seus antigos pecados, e receberá poder para servir a Deus em verdadeira santidade por todos os dias que lhe restam de vida.

11. Qual é, então, a diferença entre a “justiça que vem da lei” e a “justiça que vem da fé” — entre a primeira aliança, ou aliança das obras, e a segunda, a aliança da graça? A diferença essencial e imutável é esta: uma supõe que aquele a quem é dada já é santo e feliz, criado à imagem de Deus e desfrutando do seu favor, e prescreve a condição sob a qual ele pode permanecer nesse estado, em amor e alegria, vida e imortalidade. A outra supõe que aquele a quem é dada está agora sem santidade e sem felicidade, privado da gloriosa imagem de Deus, tendo a ira de Deus a permanecer sobre ele e apressando-se, pelo pecado — pelo qual a sua alma está morta —, para a morte do corpo e a morte eterna; e ao homem nesse estado ela prescreve a condição sob a qual ele pode reaver a pérola que perdeu, recuperar o favor e a imagem de Deus, resgatar a vida de Deus na sua alma e ser restaurado ao conhecimento e ao amor de Deus, que é o princípio da vida eterna.

12. De novo: a aliança das obras, para que o homem permanecesse no favor de Deus, no seu conhecimento e amor, em santidade e felicidade, exigia do homem perfeito uma obediência perfeita e ininterrupta a cada ponto da lei de Deus. Ao passo que a aliança da graça, para que o homem recupere o favor e a vida de Deus, exige apenas fé — fé viva naquele que, por Deus, justifica o que não obedeceu.

13. Ainda uma vez: a aliança das obras exigia de Adão e de todos os seus filhos que pagassem eles mesmos o preço, em consideração ao qual receberiam todas as bênçãos futuras de Deus. Mas, na aliança da graça, visto que nada temos para pagar, Deus “de bom grado nos perdoa tudo” — contanto apenas que creiamos naquele que pagou o preço por nós, que se deu a si mesmo como “propiciação pelos nossos pecados, pelos pecados do mundo inteiro” (1Jo 2.2).

14. Assim, a primeira aliança exigia o que agora está muito longe de todos os filhos dos homens, a saber, uma obediência sem pecado — que está longe dos que são “concebidos e nascidos em pecado” (Sl 51.5). Ao passo que a segunda exige o que está bem perto, como se dissesse: “Você é pecado! Deus é amor! Você, pelo pecado, ficou privado da glória de Deus; contudo, há misericórdia com ele. Traga, então, todos os seus pecados ao Deus que perdoa, e eles se dissiparão como uma nuvem. Se você não fosse ímpio, não haveria lugar para que ele o justificasse como ímpio. Mas agora chegue-se, em plena certeza de fé. Ele fala, e está feito. Não tema, apenas creia; pois até o Deus justo justifica todos os que creem em Jesus.”

II. Insensatez e sabedoria

1. Consideradas essas coisas, seria fácil mostrar, como me propus fazer em segundo lugar, a insensatez de confiar na “justiça que vem da lei” e a sabedoria de sujeitar-se à “justiça que vem da fé”. A insensatez dos que ainda confiam na “justiça que vem da lei” — cujos termos são “faça isto e viva” — pode ficar abundantemente clara por isto: eles partem do lugar errado; o seu primeiro passo já é um equívoco fundamental. Pois, antes de poderem sequer pensar em reivindicar qualquer bênção nos termos dessa aliança, precisam supor-se no mesmo estado daquele com quem essa aliança foi feita. Mas que suposição vã é essa, visto que ela foi feita com Adão num estado de inocência! Quão frágil, portanto, deve ser todo o edifício que se assenta sobre tal fundamento! E quão insensatos são os que assim edificam sobre a areia! — os que parecem nunca ter considerado que a aliança das obras não foi dada ao homem quando ele estava “morto em delitos e pecados”, mas quando estava vivo para Deus, quando não conhecia pecado algum, mas era santo como Deus é santo; e que se esquecem de que ela nunca foi projetada para a recuperação do favor e da vida de Deus, uma vez perdidos, mas apenas para a continuação e o aumento deles, até que se completassem na vida eterna.

2. Tampouco consideram, esses que assim buscam estabelecer a “sua própria justiça, que vem da lei”, que tipo de obediência ou de justiça é a que a lei indispensavelmente exige. Ela precisa ser perfeita e inteira em cada ponto, ou não satisfaz a exigência da lei. Mas qual de vocês é capaz de prestar tal obediência, ou, por consequência, de viver por ela? Quem entre vocês cumpre cada jota e til até mesmo dos mandamentos exteriores de Deus — não fazendo nada, grande ou pequeno, que Deus proíba; não deixando de fazer nada do que ele ordena; não dizendo nenhuma palavra inútil; tendo a sua conversa sempre “apropriada para edificação, a fim de transmitir graça aos que ouvem” (Ef 4.29); e, “quer você coma, quer beba, ou faça outra coisa qualquer, fazendo tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31)? E quanto menos ainda vocês são capazes de cumprir todos os mandamentos interiores de Deus! — aqueles que exigem que cada disposição e cada movimento da sua alma seja santidade ao Senhor! Vocês são capazes de “amar a Deus de todo o coração”, de amar toda a humanidade como à própria alma, de “orar sem cessar”, de “em tudo dar graças” (1Ts 5.17–18), de ter Deus sempre diante de vocês e de manter cada afeto, desejo e pensamento em obediência à sua lei?

3. Devem considerar, ainda, que a justiça da lei exige não apenas a obediência a cada mandamento de Deus — negativo e positivo, interno e externo —, mas também no grau perfeito. Em toda e qualquer situação, a voz da lei é: “Você servirá ao Senhor, seu Deus, com toda a sua força.” Ela não admite atenuação de espécie alguma; não desculpa nenhuma falha; condena todo aquém da medida plena de obediência e, no mesmo instante, pronuncia uma maldição sobre o transgressor. Ela considera apenas as regras invariáveis da justiça e diz: “Não sei mostrar misericórdia.”

4. Quem, então, pode comparecer diante de tal Juiz, que é rigoroso em observar o que se faz de errado? Quão fracos são os que desejam ser julgados naquele tribunal onde “nenhum ser vivo pode ser justificado” (Sl 143.2) — ninguém da descendência de Adão! Pois, ainda que agora guardássemos cada mandamento com toda a nossa força, uma única transgressão que já tenha havido destrói por completo toda a nossa pretensão à vida. Se alguma vez ofendemos num só ponto, essa justiça chegou ao fim. Pois a lei condena todos os que não prestam uma obediência tão ininterrupta quanto perfeita. De modo que, segundo a sentença dela, para aquele que uma vez pecou, em grau algum que seja, “resta apenas uma expectativa horrível de juízo e de fogo ardente, prestes a consumir os adversários” de Deus (Hb 10.27).

5. Não é, então, o cúmulo da insensatez que o homem caído busque a vida por essa justiça? — o homem que foi “formado na iniquidade, e em pecado o concebeu sua mãe” (Sl 51.5); o homem que é, por natureza, todo “terreno, animal, diabólico” (Tg 3.15), totalmente corrupto e abominável, em quem, até que ache graça, “não habita coisa boa alguma” (Rm 7.18); mais: que não pode, por si mesmo, nem sequer pensar um bom pensamento (2Co 3.5); que é, de fato, todo pecado, uma mera massa de impiedade, e que peca a cada fôlego que respira; cujas transgressões concretas, em palavra e obra, são mais numerosas que os cabelos da sua cabeça? Que estupidez, que insensibilidade deve ser, para um verme tão imundo, culpado e desamparado como este, sonhar em buscar aceitação pela própria justiça, em viver pela “justiça que vem da lei”!

6. Ora, quaisquer considerações que provem a insensatez de confiar na “justiça que vem da lei” provam igualmente a sabedoria de sujeitar-se à “justiça que vem de Deus pela fé”. Isso seria fácil de mostrar em relação a cada uma das considerações anteriores. Mas, deixando-as de lado, a sabedoria do primeiro passo para isso — renunciar à nossa própria justiça — fica clara por isto: ela consiste em agir de acordo com a verdade, com a real natureza das coisas. Pois o que é ela senão reconhecer, com o coração tanto quanto com os lábios, o verdadeiro estado em que nos encontramos? Reconhecer que trazemos conosco ao mundo uma natureza corrupta e pecaminosa — mais corrupta, de fato, do que facilmente concebemos ou achamos palavras para exprimir; que por ela somos inclinados a todo mal e avessos a todo bem; que estamos cheios de orgulho, teimosia, paixões indomáveis, desejos insensatos, afeições vis e desordenadas; que somos amantes do mundo, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus; que a nossa vida não foi melhor que o nosso coração, mas, de muitos modos, ímpia e sem santidade, a tal ponto que os nossos pecados concretos, em palavra e obra, foram tão numerosos quanto as estrelas do céu; que, por tudo isso, somos desagradáveis àquele que tem os olhos por demais puros para contemplar a iniquidade, e não merecemos dele senão indignação, ira e morte, o justo salário do pecado; que não podemos, por nenhuma justiça nossa (pois, de fato, não temos nenhuma), nem por nenhuma das nossas obras (pois elas são como a árvore em que crescem), aplacar a ira de Deus ou desviar o castigo que justamente merecemos; mais: que, entregues a nós mesmos, só iremos de mal a pior, afundando cada vez mais no pecado, ofendendo a Deus cada vez mais, tanto com as nossas más obras quanto com as más disposições da nossa mente carnal, até enchermos a medida das nossas iniquidades e trazermos sobre nós repentina destruição. E não é este o próprio estado em que, por natureza, nos encontramos? Reconhecer isto, então, com o coração e com os lábios — isto é, renunciar à nossa própria justiça, à “justiça que vem da lei” —, é agir de acordo com a real natureza das coisas e, por consequência, é um exemplo de verdadeira sabedoria.

7. A sabedoria de sujeitar-se à “justiça da fé” aparece ainda por esta consideração: que ela é a justiça de Deus. Quero dizer com isso que ela é aquele método de reconciliação com Deus que foi escolhido e estabelecido pelo próprio Deus — não apenas como Deus da sabedoria, mas como soberano Senhor do céu e da terra e de toda criatura que ele fez. Ora, assim como não convém ao homem dizer a Deus “que fazes?” — assim como ninguém que não seja totalmente destituído de entendimento contenderá com quem é mais forte do que ele, com aquele cujo reino domina sobre tudo —, também é verdadeira sabedoria, é sinal de são entendimento, aquiescer em tudo o que ele escolheu; dizer neste, como em todas as coisas: “É o Senhor; faça o que bem lhe parecer” (1Sm 3.18).

8. Pode-se considerar, ainda, que foi por pura graça, por livre amor, por misericórdia imerecida, que Deus se dignou a conceder ao homem pecador qualquer caminho de reconciliação consigo mesmo — que não fomos cortados da sua mão e totalmente apagados da sua memória. Portanto, seja qual for o método que lhe apraz estabelecer, na sua terna misericórdia, na sua bondade imerecida, pelo qual os seus inimigos — que tão profundamente se revoltaram contra ele, que tão longa e obstinadamente se rebelaram — possam ainda achar favor aos seus olhos, é sem dúvida a nossa sabedoria aceitá-lo com toda a gratidão.

9. Para mencionar só mais uma consideração: é sabedoria buscar o melhor fim pelos melhores meios. Ora, o melhor fim que qualquer criatura pode perseguir é a felicidade em Deus. E o melhor fim que uma criatura caída pode perseguir é a recuperação do favor e da imagem de Deus. Mas o melhor — na verdade, o único — meio dado ao homem debaixo do céu, pelo qual ele pode reaver o favor de Deus, que é melhor que a própria vida, ou a imagem de Deus, que é a verdadeira vida da alma, é sujeitar-se à “justiça que vem da fé”, crer no Filho unigênito de Deus.

III. O apelo: creia agora

1. Portanto, quem quer que você seja, que deseja ser perdoado e reconciliado com o favor de Deus, não diga em seu coração: “Preciso primeiro fazer isto; preciso primeiro vencer todo pecado, cortar toda palavra e obra más e fazer todo o bem a todos”; ou: “preciso primeiro ir à igreja, receber a Ceia do Senhor, ouvir mais sermões e fazer mais orações.” Ai, meu irmão! Você saiu completamente do caminho. Ainda “ignora a justiça de Deus” e está “procurando estabelecer a sua própria justiça” como fundamento da sua reconciliação. Você não sabe que nada pode fazer senão pecar, enquanto não estiver reconciliado com Deus? Por que, então, diz: “Preciso fazer isto e aquilo primeiro, e então crerei”? Não! Antes, creia primeiro! Creia no Senhor Jesus Cristo, a propiciação pelos seus pecados. Que este bom fundamento seja lançado primeiro, e então você fará tudo bem.

2. Tampouco diga em seu coração: “Ainda não posso ser aceito, porque não sou bom o bastante.” Quem é bom o bastante — quem jamais foi — para merecer a aceitação das mãos de Deus? Algum filho de Adão foi alguma vez bom o bastante para isso, ou será, até a consumação de todas as coisas? E, quanto a você, você não é bom de modo algum: não habita em você coisa boa alguma. E nunca será, enquanto não crer em Jesus. Antes, você se achará cada vez pior. Mas há alguma necessidade de ficar pior para ser aceito? Você já não é mau o suficiente? De fato é, e Deus o sabe. E você mesmo não pode negá-lo. Então não demore. Tudo já está pronto. “Levante-se e lave os seus pecados” (At 22.16). A fonte está aberta. Agora é a hora de você se lavar e ficar branco no sangue do Cordeiro. Agora ele o “purificará com hissopo”, e você ficará “limpo”; ele o “lavará”, e você ficará “mais branco que a neve” (Sl 51.7).

3. Não diga: “Mas não estou suficientemente contrito; não estou suficientemente consciente dos meus pecados.” Eu sei. Quisera Deus que você fosse mais consciente deles, mil vezes mais contrito do que é. Mas não fique esperando por isso. Pode ser que Deus o torne assim, não antes de você crer, mas ao crer. Pode ser que você não chore muito enquanto não amar muito — porque muito lhe foi perdoado (Lc 7.47). Enquanto isso, olhe para Jesus. Veja como ele o ama! Que mais poderia ele ter feito por você que não tenha feito?

Ó Cordeiro de Deus, houve alguma vez dor,

houve alguma vez amor como o teu?

Fite-o firmemente, até que ele olhe para você e quebre o seu coração duro. Então a sua “cabeça se fará águas, e os seus olhos, fonte de lágrimas” (Jr 9.1).

4. Nem diga tampouco: “Preciso fazer mais alguma coisa antes de vir a Cristo.” Concedo que, supondo que o seu Senhor demorasse a vir, seria conveniente e justo esperar a sua manifestação fazendo, na medida do seu poder, tudo o que ele lhe ordenou. Mas não há necessidade de fazer tal suposição. Como você sabe que ele vai demorar? Talvez ele apareça, como a alva lá do alto, antes da luz da manhã. Oh, não marque um tempo para ele! Espere-o a cada hora. Ele está perto — à porta!

5. E com que fim você esperaria por mais sinceridade antes que os seus pecados fossem apagados — para se tornar mais digno da graça de Deus? Ai, você ainda está “estabelecendo a sua própria justiça”. Ele terá misericórdia não porque você seja digno dela, mas porque as suas misericórdias não têm fim; não porque você seja justo, mas porque Jesus Cristo expiou os seus pecados. Além disso, se há algo de bom na sinceridade, por que você a espera antes de ter fé — visto que a própria fé é a única raiz de tudo o que é realmente bom e santo? Acima de tudo, até quando você vai esquecer que, o que quer que faça, ou o que quer que tenha, antes que os seus pecados lhe sejam perdoados, de nada vale diante de Deus para obter o seu perdão? Mais: que tudo isso precisa ser lançado para trás das suas costas, pisado, tido por nada, ou você jamais achará favor aos olhos de Deus — porque, até então, você não pode pedi-lo senão como mero pecador, culpado, perdido, arruinado, nada tendo para alegar, nada para oferecer a Deus, senão apenas os méritos do seu Filho amado, “que amou você e se entregou por você”!

6. Para concluir: quem quer que você seja, ó homem, que tem em si a sentença de morte, que se sente um pecador condenado e tem sobre si a ira de Deus a permanecer — a você o Senhor diz, não “faça isto” (obedeça perfeitamente a todos os meus mandamentos) “e viva”, mas: “Creia no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo.” “A palavra da fé está perto de você”: agora, neste instante, no momento presente, e no seu estado presente, pecador como você é, tal como você está, creia no evangelho; e “eu serei misericordioso para com as suas injustiças e nunca mais me lembrarei dos seus pecados” (Hb 8.12).

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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