SERMÃO 20
O Senhor, justiça nossa
Pregado na Capela da West-Street, em Seven Dials, Londres, no domingo, 24 de novembro de 1765.
“Este é o nome com que será chamado: O Senhor, Justiça Nossa.”
(Jr 23.6, NAA)Antes de ler
Aqui Wesley faz algo raro num sermão: propõe um acordo de paz. O tema é a justiça imputada de Cristo — doutrina que dividia os cristãos do seu tempo em disputas acaloradas. Sua tese é que boa parte dessas brigas nasce de mal-entendido: pessoas que creem no mesmo fundamento discutem por causa de palavras. Ele afirma sem rodeios que a justiça de Cristo é imputada a todo crente, defende a expressão contra quem a rejeita, mas também a protege daqueles que a usam como capa para viver no pecado. É Wesley teólogo e pacificador ao mesmo tempo — firme na doutrina, generoso com os irmãos.
— Bispo Ildo Mello
1. Quão terríveis e quão incontáveis são as contendas que se levantaram por causa da religião! E não apenas entre os filhos deste mundo, entre os que nunca souberam o que é a verdadeira religião, mas até entre os filhos de Deus — aqueles que experimentaram “o Reino de Deus dentro de si”, que provaram a “justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Quantos deles, em todas as eras, em vez de se unirem contra o inimigo comum, voltaram as armas uns contra os outros, e assim não só desperdiçaram o seu precioso tempo, mas feriram o espírito uns dos outros, enfraqueceram as mãos uns dos outros e, com isso, atrapalharam a grande obra do seu Mestre comum! Quantos fracos se escandalizaram por causa disso! Quantos coxos se desviaram do caminho! Quantos pecadores se firmaram no seu desprezo por toda religião e no seu escárnio dos que a professam! E quantos “dos preciosos da terra” foram levados a “chorar em lugares ocultos”!
2. O que não faria, o que não sofreria todo aquele que ama a Deus e ao próximo, para remediar esse mal doloroso — para afastar a contenda dos filhos de Deus, para restaurar ou preservar a paz entre eles? Que preço, a não ser uma consciência limpa, ele acharia caro demais para promover fim tão valioso? E, ainda que não possamos “fazer cessar essas guerras em todo o mundo”, ainda que não possamos reconciliar todos os filhos de Deus uns com os outros, que cada um faça o que puder, que contribua, ainda que apenas com duas moedinhas (Mc 12.42), para isso. Felizes os que são capazes, em qualquer medida, de promover “paz e boa vontade entre os homens” — especialmente entre os bons, entre os que estão todos alistados sob a bandeira do “Príncipe da Paz” e que, por isso, estão de modo particular comprometidos, “quanto depender de si, a viver em paz com todos” (Rm 12.18).
3. Seria um passo considerável rumo a esse fim glorioso se conseguíssemos levar os homens de bem a se entenderem uns aos outros. Uma infinidade de disputas nasce puramente da falta disso — de simples mal-entendido. Frequentemente nenhuma das partes em conflito entende o que o oponente quer dizer; e daí resulta que cada um ataca violentamente o outro, enquanto entre eles não há diferença real alguma. E, contudo, nem sempre é fácil convencê-los disso, sobretudo quando as paixões estão inflamadas: aí a tarefa vem acompanhada da máxima dificuldade. Não é impossível, porém — especialmente quando o tentamos não confiando em nós mesmos, mas colocando toda a nossa dependência naquele para quem tudo é possível. Quão depressa ele é capaz de dispersar a nuvem, de resplandecer nos corações e de capacitá-los a entenderem-se uns aos outros e “a verdade como ela é em Jesus”!
4. Um artigo muito importante dessa verdade está contido nas palavras acima citadas: “Este é o nome com que será chamado: O SENHOR, JUSTIÇA NOSSA” — verdade que penetra fundo na natureza do cristianismo e, de certo modo, sustenta toda a sua estrutura. Dela, sem dúvida, pode-se afirmar o que Lutero afirmou de uma verdade estreitamente ligada a ela: é articulus stantis vel cadentis ecclesiae — o artigo com o qual a Igreja se mantém em pé ou cai. É, certamente, a coluna e o fundamento daquela fé da qual, somente, vem a salvação; daquela fé católica, ou universal, que se encontra em todos os filhos de Deus.
5. Não se poderia, portanto, esperar razoavelmente que, por mais que divergissem em outros pontos, todos os que invocam o nome de Cristo concordassem neste? Mas quão longe está isso de acontecer! Quase não há ponto em que estejam tão pouco de acordo, em que os que todos professam seguir a Cristo pareçam divergir de modo tão amplo e irreconciliável. Digo pareçam, porque estou plenamente convencido de que muitos deles apenas parecem divergir. A discordância está mais nas palavras do que nos sentimentos: estão bem mais próximos no juízo do que na linguagem. E uma grande diferença de linguagem certamente existe, não só entre protestantes e católicos romanos, mas entre um protestante e outro — sim, até entre os que todos creem na justificação pela fé, que concordam tanto nisto quanto em toda outra doutrina fundamental do evangelho.
6. Mas, se a diferença está mais na opinião do que na experiência real, e mais na expressão do que na opinião, como pode ser que até os filhos de Deus contendam tão violentamente uns com os outros sobre o assunto? Várias razões se podem apontar; a principal é não se entenderem uns aos outros, somada a um apego excessivo às próprias opiniões e a modos particulares de se expressar. Para remover isso, ao menos em alguma medida, e para que nos entendamos neste ponto, procurarei, com a ajuda de Deus, mostrar:
I. O que é a justiça de Cristo;
II. Quando, e em que sentido, ela nos é imputada.
E concluirei com uma aplicação curta e simples.
I. O que é a justiça de Cristo
1. Ela é dupla: ou a sua justiça divina, ou a sua justiça humana. A justiça divina pertence à sua natureza divina, enquanto ele é “Aquele que existe”, “sobre todos, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5); o Supremo, o Eterno; “igual ao Pai quanto à sua divindade, ainda que inferior ao Pai quanto à sua humanidade”. Ora, esta é a sua santidade eterna, essencial e imutável; a sua infinita justiça, misericórdia e verdade, em tudo o que ele e o Pai são um. Mas não me parece que a justiça divina de Cristo esteja diretamente em jogo na presente questão. Creio que poucos, se é que alguém, hoje defendem a imputação dessa justiça a nós. Quem quer que creia na doutrina da imputação a entende principalmente, se não unicamente, quanto à justiça humana de Cristo.
2. A justiça humana de Cristo pertence a ele na sua natureza humana, enquanto é o “Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Ela é ou interior ou exterior. A sua justiça interior é a imagem de Deus, gravada em cada poder e faculdade da sua alma. É uma cópia da sua justiça divina, tanto quanto esta pode ser comunicada a um espírito humano. É um decalque da pureza divina, da justiça, misericórdia e verdade divinas. Inclui o amor, a reverência e a entrega ao Pai; a humildade, a mansidão, a doçura; o amor à humanidade perdida e toda outra disposição santa e celestial — e tudo isso no mais alto grau, sem defeito algum, sem mistura de qualquer falta de santidade.
3. Era a menor parte da sua justiça exterior o fato de que ele nada fez de errado; de que não conheceu pecado exterior de espécie alguma, nem “engano se achou na sua boca” (1Pe 2.22); de que nunca disse uma palavra imprópria, nem praticou uma ação imprópria. Até aí, é apenas uma justiça negativa — embora tal como nunca pertenceu, nem jamais poderá pertencer, a ninguém nascido de mulher, exceto a ele somente. Mas a sua justiça exterior era também positiva: ele fez tudo bem; em cada palavra da sua língua, em cada obra das suas mãos, fez exatamente “a vontade daquele que o enviou”. Em todo o curso da sua vida, fez a vontade de Deus na terra como os anjos a fazem no céu. Tudo o que fez e falou foi exatamente certo em cada circunstância. O todo e cada parte da sua obediência foram completos. “Ele cumpriu toda a justiça” (Mt 3.15).
4. Mas a sua obediência implicava mais do que tudo isso: implicava não só o agir, mas o sofrer — sofrer toda a vontade de Deus, desde o momento em que veio ao mundo até “carregar os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro”; sim, até que, tendo feito plena expiação por eles, “inclinou a cabeça e entregou o espírito” (Jo 19.30). Isto costuma ser chamado a justiça passiva de Cristo; a anterior, a sua justiça ativa. Mas, assim como a justiça ativa e a passiva de Cristo nunca, de fato, se separaram uma da outra, também nós nunca precisamos separá-las — nem ao falar, nem sequer ao pensar. E é com respeito a ambas, conjuntamente, que Jesus é chamado “o Senhor, justiça nossa”.
II. Quando, e em que sentido, essa justiça nos é imputada
1. Olhe para o mundo inteiro: todos os homens nele ou são crentes, ou incrédulos. A primeira coisa, então, que não admite disputa entre pessoas sensatas é esta: a todos os crentes a justiça de Cristo é imputada; aos incrédulos, não. Mas quando é imputada? Quando creem. Naquela mesma hora a justiça de Cristo é deles. Ela é imputada a todo aquele que crê, assim que ele crê: a fé e a justiça de Cristo são inseparáveis. Pois, se ele crê segundo a Escritura, crê na justiça de Cristo. Não há fé verdadeira — isto é, fé justificadora — que não tenha por objeto a justiça de Cristo.
2. É verdade que nem todos os crentes falam do mesmo modo; nem todos usam a mesma linguagem. Não é de esperar que o façam; não podemos razoavelmente exigi-lo deles. Mil circunstâncias podem fazê-los variar uns dos outros na maneira de se exprimir; mas uma diferença de expressão não implica necessariamente uma diferença de sentimento. Pessoas diferentes podem usar expressões diferentes e, ainda assim, querer dizer a mesma coisa. Nada é mais comum do que isso, embora raramente façamos a devida concessão a esse fato. Mais: não é fácil nem para a mesma pessoa, ao falar da mesma coisa com considerável distância de tempo, usar exatamente as mesmas expressões, ainda que conserve os mesmos sentimentos. Como, então, podemos ser rigorosos ao exigir que os outros usem exatamente as mesmas expressões que nós?
3. Podemos ir um passo além: as pessoas podem divergir de nós tanto nas opiniões quanto nas expressões e, apesar disso, participar conosco da mesma preciosa fé. É possível que não tenham uma apreensão nítida da própria bênção que desfrutam: as suas ideias podem não ser tão claras, e, ainda assim, a sua experiência ser tão sólida quanto a nossa. Há uma grande diferença entre as faculdades naturais dos homens, em particular os seus entendimentos; e essa diferença é imensamente aumentada pelo modo da sua educação. De fato, só isto pode causar uma diferença inconcebível nas suas opiniões de vários tipos — e por que não neste ponto, como em qualquer outro? Mas, ainda que as suas opiniões, tanto quanto as suas expressões, sejam confusas e imprecisas, o coração deles pode estar apegado a Deus por meio do Filho do seu amor e verdadeiramente participar da sua justiça.
4. Façamos, então, aos outros toda a concessão que, se estivéssemos no lugar deles, desejaríamos para nós mesmos. Quem ignora (para tocar de novo apenas nesse ponto) o espantoso poder da educação? E quem, sabendo disso, poderia esperar que, digamos, um membro da Igreja de Roma pensasse ou falasse com clareza sobre este assunto? E, contudo, se tivéssemos ouvido o próprio Belarmino, à beira da morte — quando lhe perguntaram “A qual dos santos você recorrerá?” —, responder Fidere meritis Christi tutissimum (“O mais seguro é confiar nos méritos de Cristo”), teríamos afirmado que, apesar das suas opiniões equivocadas, ele não tinha parte nessa justiça?
5. Mas em que sentido essa justiça é imputada aos crentes? Neste: todos os crentes são perdoados e aceitos, não por causa de algo que haja neles, ou de algo que já foi, é, ou possa vir a ser feito por eles, mas total e unicamente por causa do que Cristo fez e sofreu por eles. Repito: não por causa de algo que haja neles ou feito por eles, de nenhuma justiça ou obra própria. “Não por obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou” (Tt 3.5). “Pela graça vocês são salvos, mediante a fé; não vem de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8–9); mas total e unicamente por causa do que Cristo fez e sofreu por nós. Somos “justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24). E este não é apenas o meio de obtermos o favor de Deus, mas de nele permanecermos. É assim que chegamos a Deus no princípio; é pelo mesmo caminho que a ele chegamos sempre, dali em diante. Andamos por um só e mesmo caminho novo e vivo, até que o nosso espírito volte a Deus.
6. E esta é a doutrina que constantemente tenho crido e ensinado por quase vinte e oito anos. Publiquei-a a todo o mundo no ano de 1738, e dez ou doze vezes desde então, com estas palavras e muitas outras do mesmo teor, extraídas das Homilias da nossa Igreja: “Estas coisas necessariamente concorrem juntas na nossa justificação: da parte de Deus, a sua grande misericórdia e graça; da parte de Cristo, a satisfação da justiça de Deus; e da nossa parte, a fé nos méritos de Cristo. De modo que a graça de Deus não exclui a justiça de Deus na nossa justificação, mas exclui apenas a justiça do homem, quanto a merecer a nossa justificação.” E ainda: “Que somos justificados somente pela fé é dito para afastar por completo todo mérito das nossas obras, e para atribuir inteiramente o mérito da nossa justificação só a Cristo. A nossa justificação vem gratuitamente da mera misericórdia de Deus. Pois, visto que o mundo inteiro não era capaz de pagar parte alguma do nosso resgate, aprouve a Deus, sem nenhum merecimento nosso, preparar-nos o corpo e o sangue de Cristo, pelos quais o nosso resgate fosse pago e a sua justiça satisfeita. Cristo, portanto, é agora a justiça de todos os que verdadeiramente creem nele.”
7. Os Hinos publicados um ou dois anos depois disso, e desde então reeditados várias vezes (testemunho claro de que o meu juízo permaneceu o mesmo), falam plenamente no mesmo sentido. Citar todas as passagens desse teor seria transcrever grande parte dos volumes. Tome-se uma por todas:
Jesus, o teu sangue e a tua justiça
são a minha beleza, o meu glorioso traje;
vestido assim, em meio a mundos em chamas,
com alegria erguerei a cabeça.
Todo o hino exprime o mesmo sentimento, do princípio ao fim.
8. No Sermão sobre a Justificação, publicado há dezenove anos, e de novo há sete ou oito, exprimo a mesma coisa nestas palavras: “Em consideração a isto — que o Filho de Deus ‘provou a morte por todos’ —, Deus agora ‘reconciliou o mundo consigo mesmo, não imputando aos homens as suas transgressões’ passadas. De modo que, por amor do seu Filho amado, pelo que ele fez e sofreu por nós, Deus agora se digna, sob uma única condição (que ele mesmo também nos capacita a cumprir), a perdoar o castigo devido aos nossos pecados, a reintegrar-nos no seu favor e a restaurar as nossas almas mortas à vida espiritual, como penhor da vida eterna.”
9. Isto está expresso de modo mais amplo e particular no Tratado sobre a Justificação, que publiquei no ano passado: “Se tomarmos a expressão ‘imputar a justiça de Cristo’ como o conceder (por assim dizer) a justiça de Cristo, incluindo a sua obediência, tanto passiva quanto ativa, na sua devolução a nós — isto é, nos privilégios, bênçãos e benefícios por ela adquiridos —, então se pode dizer que o crente é justificado pela justiça de Cristo imputada. O sentido é: Deus justifica o crente por causa da justiça de Cristo, e não por qualquer justiça própria dele.” Assim também Calvino (Institutas, livro 2, cap. 17): “Cristo, por sua obediência, obteve e mereceu para nós graça, ou favor, diante de Deus Pai.” E ainda: “Cristo, por sua obediência, obteve ou comprou justiça para nós.” E mais: “Todas essas expressões — que somos justificados pela graça de Deus, que Cristo é a nossa justiça, que a justiça nos foi obtida pela morte e ressurreição de Cristo — significam a mesma coisa, a saber, que a justiça de Cristo, tanto a sua justiça ativa quanto a passiva, é a causa meritória da nossa justificação.”
10. Mas talvez alguém objete: “Ora, você afirma que a fé nos é imputada como justiça.” Paulo o afirma vez após vez; portanto, eu também o afirmo. A fé é imputada como justiça a todo crente — a saber, a fé na justiça de Cristo. Mas isto é exatamente a mesma coisa que já foi dita antes; pois, com essa expressão, não quero dizer nem mais nem menos do que isto: que somos justificados pela fé, não pelas obras; ou que todo crente é perdoado e aceito unicamente por causa do que Cristo fez e sofreu.
11. Mas o crente não é revestido, ou vestido, da justiça de Cristo? Sem dúvida é. E, por isso, as palavras acima citadas são a linguagem de todo coração crente: “Jesus, o teu sangue e a tua justiça são a minha beleza, o meu glorioso traje” — isto é: “Por causa da tua justiça ativa e passiva, sou perdoado e aceito por Deus.” Mas não devemos despir os trapos imundos da nossa própria justiça antes de podermos vestir a justiça sem mácula de Cristo? Certamente devemos; ou seja, em termos claros, devemos nos arrepender antes de podermos crer no evangelho. Devemos ser cortados da confiança em nós mesmos antes de podermos confiar verdadeiramente em Cristo. Devemos lançar fora toda confiança na nossa própria justiça, ou não poderemos ter verdadeira confiança na dele. Até sermos libertos de confiar em qualquer coisa que fazemos, não podemos confiar plenamente no que ele fez e sofreu. Primeiro recebemos em nós mesmos a sentença de morte; então confiamos naquele que viveu e morreu por nós.
12. Mas você não crê na justiça inerente? Creio, no seu devido lugar: não como fundamento da nossa aceitação diante de Deus, mas como fruto dela; não no lugar da justiça imputada, mas como consequência dela. Isto é, creio que Deus implanta a justiça em cada um a quem a imputou. Creio que “Cristo Jesus, da parte de Deus, se tornou para nós santificação”, tanto quanto “justiça” (1Co 1.30); ou seja, que Deus santifica, tanto quanto justifica, todos os que creem nele. Aqueles a quem a justiça de Cristo é imputada tornam-se justos pelo Espírito de Cristo, são renovados à imagem de Deus, “segundo a semelhança em que foram criados, em justiça e verdadeira santidade” (Ef 4.24).
13. Mas você não coloca a fé no lugar de Cristo, ou da sua justiça? De modo algum: tenho o cuidado especial de pôr cada uma dessas coisas no seu devido lugar. A justiça de Cristo é o todo e o único fundamento de toda a nossa esperança. É pela fé que o Espírito Santo nos capacita a edificar sobre esse fundamento. Deus dá essa fé; naquele momento somos aceitos por Deus; e, contudo, não por causa dessa fé, mas por causa do que Cristo fez e sofreu por nós. Veja: cada uma dessas coisas tem o seu devido lugar, e uma não colide com a outra. Cremos, amamos, esforçamo-nos por andar irrepreensíveis em todos os mandamentos do Senhor; e, no entanto:
Enquanto assim passamos
os nossos momentos aqui embaixo,
renunciamos a nós mesmos
e nos refugiamos na justiça de Jesus.
Só na sua paixão
reconhecemos o fundamento;
e reclamamos o perdão
e a redenção eterna no nome de Jesus.
14. Não nego, portanto, a justiça de Cristo, assim como não nego a divindade de Cristo; e alguém pode, com tanta justiça, acusar-me de negar uma quanto a outra. Tampouco nego a justiça imputada — esta é outra acusação injusta e desamorosa. Sempre afirmei, e continuo continuamente a afirmar, que a justiça de Cristo é imputada a todo crente. Mas quem a nega? Ora, todos os incrédulos, batizados ou não; todos os que afirmam que o glorioso evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo é uma fábula habilmente inventada; todos os socinianos e arianos; todos os que negam a suprema divindade do Senhor que os comprou. Estes, por consequência, negam a sua justiça divina, por suporem-no mera criatura; e negam a sua justiça humana como imputada a qualquer pessoa, por crerem que cada um é aceito pela sua própria justiça.
15. A justiça humana de Cristo — ao menos a sua imputação como a única e total causa meritória da justificação do pecador diante de Deus — é igualmente negada pelos membros da Igreja de Roma, por todos os que são fiéis aos princípios da própria igreja. Mas, sem dúvida, há muitos entre eles cuja experiência vai além dos seus princípios; que, embora estejam longe de se exprimirem corretamente, sentem o que não sabem como exprimir. Sim, ainda que as suas concepções desta grande verdade sejam tão rudes quanto as suas expressões, contudo, com o coração, eles creem: descansam somente em Cristo, tanto para a salvação presente quanto para a eterna.
16. Ao lado destes podemos colocar aqueles, mesmo nas igrejas reformadas, que costumam ser chamados de místicos. Um dos principais deles, no presente século (ao menos na Inglaterra), foi o Sr. Law. É bem sabido que ele negou absoluta e zelosamente a imputação da justiça de Cristo, tão zelosamente quanto Robert Barclay, que não hesita em dizer: “Justiça imputada — disparate imputado!” O grupo conhecido pelo nome de quakers adota o mesmo sentimento. Mais: a generalidade dos que se dizem membros da Igreja da Inglaterra, ou ignoram totalmente o assunto e nada sabem sobre a justiça imputada, ou negam esta e a justificação pela fé juntas, como se fossem destruidoras das boas obras. A estes podemos acrescentar um número considerável dos chamados anabatistas, junto com milhares de presbiterianos e independentes. Mas alguém ousaria afirmar que todos os místicos (como o Sr. Law em particular), todos os quakers, todos os presbiterianos ou independentes, e todos os membros da Igreja da Inglaterra que não são claros nas suas opiniões ou expressões, estão destituídos de toda experiência cristã — que, por consequência, estão todos em estado de perdição, “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12)? Por mais confusas que sejam as suas ideias, por mais imprópria que seja a sua linguagem, não poderá haver muitos deles cujo coração é reto para com Deus e que, de fato, conhecem “o Senhor, justiça nossa”?
17. Mas, bendito seja Deus, não estamos entre os que são tão obscuros nas suas concepções e expressões. Não negamos nem a expressão nem a coisa; mas não queremos impô-la aos outros. Que usem esta ou outras expressões que julguem mais exatamente bíblicas, contanto que o seu coração descanse somente no que Cristo fez e sofreu, para o perdão, a graça e a glória. Não consigo exprimir isto melhor do que nas palavras do Sr. Hervey, dignas de serem escritas em letras de ouro: “Não estamos preocupados com este ou aquele conjunto de frases. Basta que os homens se humilhem, como criminosos arrependidos, aos pés de Cristo, e que se apoiem, como pensionistas dedicados, nos méritos dele — e estarão, sem dúvida, a caminho de uma bem-aventurada imortalidade.”
18. Haverá necessidade, haverá possibilidade, de dizer mais? Fiquemos apenas com essa declaração, e toda a contenda sobre esta ou aquela “frase particular” fica arrancada pela raiz. Atenhamo-nos a isto: “Todos os que se humilham como criminosos arrependidos aos pés de Cristo, e se apoiam como pensionistas dedicados nos méritos dele, estão a caminho de uma bem-aventurada imortalidade.” E que espaço resta para disputa? Quem nega isto? Não nos encontramos todos neste terreno? Sobre o que, então, vamos brigar? Um homem de paz propõe aqui termos de acordo a todas as partes em conflito. Não desejamos nada melhor: aceitamos os termos, subscrevemo-los de coração e de mão. Quem se recusar a fazê-lo, marque-se esse homem! É um inimigo da paz e um perturbador de Israel, um transtornador da Igreja de Deus.
19. Enquanto isso, o que tememos é isto: que alguém use a expressão “a justiça de Cristo”, ou “a justiça de Cristo me é imputada”, como capa para a sua própria injustiça. Já vimos isso acontecer mil vezes. Um homem foi repreendido, digamos, por embriaguez: “Ah”, diz ele, “não pretendo ter justiça própria; Cristo é a minha justiça.” A outro se disse que “os ladrões, os injustos, não herdarão o Reino de Deus”; e ele responde, com toda a segurança: “Sou injusto em mim mesmo, mas tenho uma justiça sem mácula em Cristo.” E assim, embora esse homem esteja tão longe da prática quanto das disposições de um cristão — embora não tenha a mente que houve em Cristo, nem de modo algum ande como ele andou —, ainda assim julga ter uma armadura à prova de toda repreensão, naquilo que chama de “a justiça de Cristo”.
20. É por ver tantos exemplos lamentáveis desse tipo que somos comedidos no uso dessas expressões. E não posso deixar de conclamar todos vocês que as usam com frequência, rogando-lhes, em nome de Deus, nosso Salvador, de quem vocês são e a quem servem, que resguardem seriamente todos os que os ouvem contra esse abuso maldito delas. Ah, advirtam-nos (talvez ouçam a voz de vocês) contra “continuar no pecado para que a graça seja mais abundante” (Rm 6.1)! Advirtam-nos contra fazer de “Cristo ministro do pecado” (Gl 2.17); contra anular aquele decreto solene de Deus — “sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14) — por uma vã imaginação de serem santos em Cristo! Ah, advirtam-nos de que, se permanecerem injustos, a justiça de Cristo de nada lhes aproveitará! Clamem em alta voz (não há motivo?) que, para este mesmo fim, a justiça de Cristo nos é imputada: para que “a justiça da lei se cumpra em nós” (Rm 8.4) e para que vivamos “de modo sóbrio, justo e piedoso, no presente século” (Tt 2.12).
Aplicação
1. Resta apenas fazer uma aplicação curta e simples. E, primeiro, dirijo-me a vocês que se opõem violentamente a essas expressões e estão prontos a condenar como antinomistas todos os que as usam. Mas isto não é vergar o arco demais para o lado contrário? Por que condenar todos os que não falam exatamente como vocês? Por que brigar com eles por usarem as frases de que gostam, mais do que eles brigam com vocês por tomarem a mesma liberdade? Ou, se eles brigam com vocês por causa disso, não imitem a intolerância que censuram. Ao menos concedam-lhes a liberdade que deveriam conceder a vocês. E por que se irritar com uma expressão? “Ah, ela foi abusada!” E que expressão não foi? Contudo, o abuso pode ser removido e, ao mesmo tempo, o uso permanecer. Acima de tudo, tenham o cuidado de reter o sentido importante que se abriga sob essa expressão: “Todas as bênçãos de que desfruto, tudo o que espero no tempo e na eternidade, são dados total e unicamente por causa do que Cristo fez e sofreu por mim.”
2. Em segundo lugar, acrescento algumas palavras a vocês que apreciam essas expressões. Permitam-me perguntar: não concedo o bastante? Que mais poderia qualquer pessoa sensata desejar? Concedo todo o sentido pelo qual vocês contendem: que temos toda bênção pela justiça de Deus, nosso Salvador. Permito que usem quaisquer expressões que escolherem, e isso mil vezes; apenas resguardando-as daquele terrível abuso, que vocês estão tão profundamente interessados em prevenir quanto eu. Eu mesmo uso com frequência a expressão em questão — justiça imputada — e muitas vezes ponho esta e outras semelhantes na boca de toda uma congregação. Mas concedam-me, nisto, liberdade de consciência; concedam-me o direito ao juízo próprio. Permitam-me usá-la exatamente quantas vezes eu a julgar preferível a qualquer outra expressão, e não fiquem irritados comigo se eu não a julgar apropriada a cada dois minutos. Não me representem, por isso, como papista ou “inimigo da justiça de Cristo”. Suportem-me, como eu suporto vocês; do contrário, como cumpriremos “a lei de Cristo” (Gl 6.2)? Não façam clamores trágicos, como se eu estivesse “subvertendo os próprios fundamentos do cristianismo”. Lanço, e há muitos anos lancei, exatamente o mesmo fundamento que vocês. E, de fato, “ninguém pode lançar outro fundamento além do que já foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). Sobre ele edifico a santidade interior e exterior, como vocês, e pela fé. Não deixem, portanto, que qualquer aversão ou frieza tome conta do coração de vocês. Se houvesse diferença de opinião, onde está a nossa religião, se não podemos pensar e deixar pensar? Quanto mais quando há apenas uma diferença de expressão — ou nem tanto: a disputa toda é apenas sobre se um modo particular de exprimir-se deve ser usado com mais ou menos frequência! Ah, não demos mais, por ninharias como essas, ocasião aos nossos inimigos comuns para blasfemar! Antes, unamos enfim corações e mãos no serviço do nosso grande Mestre. Como temos “um só Senhor, uma só fé, uma só esperança da nossa vocação” (Ef 4.4–5), fortaleçamos as mãos uns dos outros em Deus e, com um só coração e uma só boca, declaremos a toda a humanidade: O SENHOR, JUSTIÇA NOSSA.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.