SERMÃO 21
A pobreza de espírito e os que choram
Primeiro dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.
“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, tendo-se assentado, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los: Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”
(Mt 5.1–4, NAA)Antes de ler
Wesley abre aqui a maior série da sua coletânea: treze discursos sobre o Sermão do Monte. Antes de tratar das bem-aventuranças, ele faz uma defesa preciosa — a de que esse sermão é para todos, e não só para os apóstolos ou "cristãos avançados". Depois entra na primeira porta do caminho: a pobreza de espírito, que ele recusa chamar de "virtude da humildade", pois é antes o reconhecimento nu da nossa culpa e impotência. E mostra que o cristianismo começa exatamente onde a moral pagã termina. Note também o retrato pastoral do crente que chora a ausência de Deus e é de novo consolado.
— Bispo Ildo Mello
1. O nosso Senhor havia agora percorrido “toda a Galileia” (Mt 4.23), começando no tempo “em que João foi lançado na prisão” (Mt 4.12), não só “ensinando nas sinagogas e pregando o evangelho do Reino”, mas também “curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”. Consequência natural disso foi que “grandes multidões o seguiram da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia e dalém do Jordão” (Mt 4.25). “E, vendo as multidões” — que nenhuma sinagoga poderia conter, ainda que houvesse alguma por perto —, “subiu ao monte”, onde havia lugar para todos os que a ele acorriam de toda parte. “E, tendo-se assentado”, como era o costume dos judeus, “aproximaram-se os seus discípulos. E ele abriu a boca” (expressão que denota o início de um discurso solene) “e passou a ensiná-los, dizendo…”
2. Observemos quem é que aqui fala, para atentarmos em como ouvimos. É o Senhor do céu e da terra, o Criador de tudo, que, como tal, tem o direito de dispor de todas as suas criaturas; o Senhor, nosso Governador, cujo reino é desde a eternidade e domina sobre tudo; o grande Legislador, que bem pode fazer valer todas as suas leis, sendo “poderoso para salvar e para destruir” (Tg 4.12), sim, para punir com “eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder” (2Ts 1.9). É a eterna Sabedoria do Pai, que sabe de que somos feitos e conhece a nossa mais íntima estrutura; que sabe como nos relacionamos com Deus, uns com os outros e com cada criatura que Deus fez, e, por consequência, como adaptar cada lei que prescreve a todas as circunstâncias em que nos colocou. É aquele que é “bondoso para com todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” (Sl 145.9); o Deus de amor que, tendo-se esvaziado da sua glória eterna, veio do Pai para declarar a sua vontade aos filhos dos homens e depois volta ao Pai; que é enviado por Deus para “abrir os olhos dos cegos e dar luz aos que estão sentados nas trevas”. É o grande Profeta do Senhor, a respeito de quem Deus solenemente declarou há muito tempo: “Quem não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas” (Dt 18.19); ou, como o apóstolo o exprime, “toda alma que não ouvir esse profeta será exterminada do meio do povo” (At 3.23).
3. E o que é que ele está ensinando? O Filho de Deus, que veio do céu, aqui nos mostra o caminho para o céu — para o lugar que ele nos preparou, para a glória que tinha antes que o mundo existisse. Ensina-nos o verdadeiro caminho para a vida eterna, o caminho régio que conduz ao Reino, e o único caminho verdadeiro — pois não há outro; todas as demais veredas levam à destruição. Pelo caráter de quem fala, temos plena certeza de que ele declarou a plena e perfeita vontade de Deus. Não proferiu um til a mais do que recebera do Pai, nem de menos — não se furtou a anunciar todo o desígnio de Deus; muito menos disse algo errado, algo contrário à vontade daquele que o enviou. Todas as suas palavras são verdadeiras e retas a respeito de todas as coisas, e permanecerão firmes para todo o sempre. E podemos facilmente notar que, ao explicar e confirmar essas palavras fiéis e verdadeiras, ele tem o cuidado de refutar não só os equívocos dos escribas e fariseus — que eram, então, os falsos comentários com que os mestres judeus daquela época haviam pervertido a palavra de Deus —, mas todos os equívocos práticos, incompatíveis com a salvação, que viessem a surgir na Igreja cristã.
4. E daí somos naturalmente levados a observar a quem ele está ensinando. Não só aos apóstolos; se fosse assim, não teria precisado subir ao monte — um cômodo na casa de Mateus, ou de qualquer dos discípulos, comportaria os Doze. Nem aparece de modo algum que os discípulos que a ele se aproximaram fossem apenas os Doze. A expressão “os seus discípulos”, sem nenhuma força imposta a ela, pode ser entendida de todos os que desejavam aprender dele. Mas, para pôr isto fora de qualquer dúvida — para deixar inegavelmente claro que, onde se diz “ele abriu a boca e passou a ensiná-los”, a palavra os inclui todas as multidões que subiram com ele ao monte —, basta observar os versículos finais do capítulo 7: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7.28–29). E não era só àquelas multidões que estavam com ele no monte que ele então ensinava o caminho da salvação, mas a todos os filhos dos homens, a toda a raça humana, aos que ainda estavam por nascer, a todas as gerações vindouras, até o fim do mundo, que algum dia ouvissem as palavras desta vida.
5. E todos concordam com isso quanto a algumas partes do discurso que se segue. Ninguém, por exemplo, nega que o que se diz da pobreza de espírito diz respeito a toda a humanidade. Mas muitos supuseram que outras partes concerniam apenas aos apóstolos, ou aos primeiros cristãos, ou aos ministros de Cristo, e nunca foram destinadas à generalidade das pessoas — que, por consequência, nada teriam a ver com elas. Mas não podemos justamente perguntar: quem lhes disse isso, que algumas partes deste discurso concerniam apenas aos apóstolos, aos cristãos da era apostólica ou aos ministros de Cristo? Meras afirmações não bastam para estabelecer ponto de tamanha importância. Terá o próprio Senhor nos ensinado que algumas partes do seu discurso não dizem respeito a toda a humanidade? Sem dúvida, se assim fosse, ele nos teria dito; não poderia ter omitido informação tão necessária. Mas terá ele dito isso? Onde? No próprio discurso? Não: não há ali a menor insinuação disso. Terá dito em algum outro dos seus discursos? Nem uma palavra sequer que aponte nessa direção se encontra em tudo o que ele falou, seja às multidões, seja aos discípulos. Quem são, então, os homens que são tão mais sábios do que Deus — sábios muito além do que está escrito?
6. Talvez digam que a razão da própria coisa exige tal restrição. Se exige, há de ser por um destes dois motivos: porque, sem tal restrição, o discurso ou seria manifestamente absurdo, ou contradiria alguma outra Escritura. Mas não é este o caso. Ficará claro, quando examinarmos os vários detalhes, que não há absurdo algum em aplicar a toda a humanidade tudo o que o nosso Senhor aqui declarou. Nem isso implicará contradição com qualquer outra coisa que ele disse, ou com qualquer outra Escritura. Mais: ficará claro que ou todas as partes deste discurso se aplicam aos homens em geral, ou nenhuma — visto que estão todas ligadas entre si, unidas como as pedras de um arco, do qual não se pode retirar uma sem destruir toda a estrutura.
7. Podemos, por fim, observar como o nosso Senhor ensina aqui. E, decerto, como em todos os tempos, mas particularmente neste, ele fala “como jamais homem algum falou” (Jo 7.46). Não como os santos homens de outrora, ainda que também eles falassem “movidos pelo Espírito Santo”. Não como Pedro, ou Tiago, ou João, ou Paulo: estes foram, de fato, sábios construtores na sua Igreja; mas ainda assim, nos graus da sabedoria celestial, o servo não é como o seu Senhor. Não, nem sequer como ele mesmo em qualquer outro tempo ou ocasião. Não parece que tenha sido seu propósito, em qualquer outro tempo ou lugar, expor de uma só vez todo o plano da sua religião, dar-nos uma visão completa do cristianismo, descrever amplamente a natureza daquela santidade sem a qual ninguém verá o Senhor. Ramos particulares dela ele descreveu, de fato, em mil ocasiões diferentes; mas nunca, a não ser aqui, deu, deliberadamente, uma visão geral do todo. Aliás, não há nada mais desse tipo em toda a Bíblia — a não ser, talvez, aquele breve esboço de santidade dado por Deus naquelas Dez Palavras, ou Mandamentos, a Moisés, no monte Sinai. Mas mesmo aqui, quão ampla é a diferença entre um e outro! “Aquilo que foi glorioso, neste respeito já não é glorioso, diante da glória que sobreexcede” (2Co 3.10).
8. Acima de tudo, com que espantoso amor o Filho de Deus aqui revela ao homem a vontade do seu Pai! Ele não nos leva de novo “ao monte que ardia em fogo, nem à escuridão, às trevas e à tempestade” (Hb 12.18). Não fala como quando “trovejou do céu”, quando o Altíssimo “fez ouvir a sua voz, com granizo e brasas de fogo”. Agora ele nos fala com a sua voz mansa e suave: “Bem-aventurados” — ou felizes — “os humildes de espírito”. Felizes os que choram, os mansos, os que têm fome de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração: felizes no fim e no caminho, felizes nesta vida e na vida eterna! Como se dissesse: “Quem é o homem que ama a vida e deseja ver dias bons? Eis que lhe mostro aquilo por que a sua alma anseia! Veja o caminho que há tanto buscou em vão: o caminho da suavidade, a vereda da paz serena e alegre, do céu aqui embaixo e do céu lá em cima!”
9. Ao mesmo tempo, com que autoridade ele ensina! Bem podiam dizer: “Não como os escribas.” Observe a maneira (mas não se pode exprimir em palavras), o ar com que ele fala! Não como Moisés, o servo de Deus; não como Abraão, seu amigo; não como qualquer dos profetas, nem como qualquer dos filhos dos homens. É algo mais do que humano, mais do que pode convir a qualquer ser criado. Fala o Criador de tudo! Um Deus, um Deus se manifesta! Sim, “Aquele que existe”, o Ser dos seres, o SENHOR, o que subsiste por si mesmo, o Supremo, o Deus que está sobre todos, bendito para sempre!
10. Este divino discurso, proferido no método mais excelente — cada parte seguinte iluminando as que precedem —, costuma ser dividido, e não sem razão, em três ramos principais: o primeiro, contido no capítulo 5; o segundo, no capítulo 6; e o terceiro, no capítulo 7. No primeiro, a soma de toda a verdadeira religião é exposta em oito pontos, que são explicados e resguardados das falsas interpretações dos homens no restante do capítulo 5. No segundo, há regras para a reta intenção que devemos conservar em todas as nossas ações exteriores, sem mistura de desejos mundanos ou ansiosos cuidados nem sequer com o necessário à vida. No terceiro, há advertências contra os principais estorvos da religião, encerradas com uma aplicação do todo.
I. A pobreza de espírito
1. O nosso Senhor, primeiro, expõe a soma de toda a verdadeira religião em oito pontos, que explica e resguarda das falsas interpretações dos homens, até o fim do capítulo 5. Alguns supuseram que ele quis, nesses pontos, assinalar as várias etapas da caminhada cristã, os passos que o cristão dá sucessivamente na sua jornada para a terra prometida; outros, que todos os pontos aqui expostos pertencem, em todo tempo, a cada cristão. E por que não admitir uma coisa e outra? Que incoerência há entre elas? É indubitavelmente verdade que tanto a pobreza de espírito quanto toda outra disposição aqui mencionada se encontram, em todo tempo, em maior ou menor grau, em cada cristão real. E é igualmente verdade que o cristianismo real sempre começa na pobreza de espírito e prossegue na ordem aqui exposta, até que o “homem de Deus seja aperfeiçoado”. Começamos pelo mais baixo destes dons de Deus, mas de modo a não abandoná-lo quando somos chamados por Deus a subir mais alto; antes, “o que já alcançamos, isso guardamos firmes” (Fp 3.16), enquanto avançamos para o que ainda está adiante, para as mais altas bênçãos de Deus em Cristo Jesus.
2. O fundamento de tudo é a pobreza de espírito; por isso o Senhor começa aqui: “Bem-aventurados”, diz ele, “os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus.” Não é improvável supor que o Senhor tenha olhado para os que o rodeavam e, notando que ali não havia muitos ricos, mas antes os pobres do mundo, tomasse daí ocasião para fazer a transição das coisas temporais para as espirituais. “Bem-aventurados”, diz ele (ou felizes — assim se deveria traduzir a palavra, tanto aqui quanto nos versículos seguintes), “os humildes de espírito”. Ele não diz “os que são pobres quanto às circunstâncias exteriores” — sendo bem possível que alguns destes estejam tão longe da felicidade quanto um monarca no seu trono —, mas “os humildes de espírito”, os que, sejam quais forem as suas circunstâncias exteriores, têm aquela disposição de coração que é o primeiro passo para toda felicidade real e sólida, seja neste mundo, seja no vindouro.
3. Alguns julgaram que, por “humildes de espírito”, se entendem aqui os que amam a pobreza, os que estão livres da cobiça, do amor ao dinheiro, os que antes temem do que desejam as riquezas. Talvez tenham sido levados a esse juízo por confinarem o pensamento apenas ao próprio termo, ou por considerarem aquela ponderada observação de Paulo, de que “o amor ao dinheiro é raiz de todos os males” (1Tm 6.10). E daí muitos se despojaram por completo, não só das riquezas, mas de todos os bens deste mundo. Daí também parecem ter surgido, na Igreja de Roma, os votos de pobreza voluntária — supondo-se que um grau tão eminente dessa graça fundamental fosse um grande passo rumo ao “Reino dos céus”. Mas estes não parecem ter observado, primeiro, que a expressão de Paulo deve ser entendida com alguma restrição; do contrário, não é verdadeira — pois o amor ao dinheiro não é a raiz, a única raiz, de todos os males. Há mil outras raízes de mal no mundo, como a triste experiência mostra diariamente. O seu sentido só pode ser que ele é a raiz de muitíssimos males — talvez de mais do que qualquer outro vício isolado. Segundo, que esse sentido da expressão “humildes de espírito” de modo algum condiz com o presente propósito do Senhor, que é lançar um fundamento geral sobre o qual toda a estrutura do cristianismo possa ser edificada — propósito que de modo nenhum seria atendido pela precaução contra um vício particular. Terceiro, que nem sequer se pode supor que isso faça parte do seu sentido, a menos que o acusemos de manifesta redundância: pois, se a pobreza de espírito fosse apenas o estar livre da cobiça, do amor ao dinheiro ou do desejo de riquezas, coincidiria com o que ele menciona depois — seria apenas um ramo da pureza de coração.
4. Quem são, então, “os humildes de espírito”? Sem dúvida, os humildes; os que conhecem a si mesmos; os que estão convictos do pecado; aqueles a quem Deus deu aquele primeiro arrependimento que precede a fé em Cristo. Um destes já não pode dizer: “Estou rico, tenho-me enriquecido e de nada tenho falta”; pois agora sabe que é “miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3.17). Está convencido de que é, de fato, espiritualmente pobre, não havendo bem espiritual algum a permanecer nele. “Em mim”, diz ele, “não habita coisa boa alguma” (Rm 7.18), mas somente o que é mau e abominável. Tem um senso profundo da repugnante lepra do pecado, que trouxe consigo desde o ventre da mãe, que se espalha por toda a sua alma e corrompe totalmente cada poder e faculdade dela. Vê cada vez mais as más disposições que brotam dessa má raiz: o orgulho e a altivez de espírito, a constante inclinação a pensar de si mais do que convém; a vaidade, a sede da estima ou da honra que vem dos homens, o ódio ou a inveja, o ciúme ou a vingança, a ira, a malícia ou a amargura; a inimizade inata tanto contra Deus quanto contra o próximo, que se manifesta em dez mil formas; o amor ao mundo, a teimosia, os desejos insensatos e nocivos que se agarram ao mais íntimo da sua alma.
5. A sua culpa está agora também diante do seu rosto. Ele sabe o castigo que mereceu, ainda que fosse só por causa da sua mente carnal, da corrupção inteira e universal da sua natureza — quanto mais por causa de todos os seus maus desejos e pensamentos, de todas as suas palavras e ações pecaminosas! Não pode duvidar, nem por um instante, de que o menor destes merece a condenação do inferno — “o verme que não morre e o fogo que nunca se apaga” (Mc 9.48). Acima de tudo, a culpa de “não crer no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18) pesa fortemente sobre ele. Como, diz ele, escaparei eu, que “negligencio tão grande salvação” (Hb 2.3)? “Quem não crê já está condenado”, e “a ira de Deus permanece sobre ele”.
6. Mas o que dará ele em troca da sua alma, entregue à justa vingança de Deus? “Com que se apresentará diante do Senhor?” (Mq 6.6). Como lhe pagará o que deve? Ainda que, deste momento em diante, prestasse a mais perfeita obediência a cada mandamento de Deus, isso não compensaria um só pecado, um só ato de desobediência passada — visto que ele deve a Deus todo o serviço que é capaz de prestar, deste momento por toda a eternidade. Vê-se, portanto, totalmente incapaz de expiar os seus pecados passados, totalmente incapaz de fazer qualquer reparação a Deus, de pagar qualquer resgate pela própria alma. Mas, se Deus lhe perdoasse tudo o que passou, sob esta única condição — que ele não peque mais, que dali em diante obedeça inteira e constantemente a todos os mandamentos —, ele bem sabe que isso de nada lhe aproveitaria, por ser condição que jamais poderia cumprir. Sabe e sente que não é capaz de obedecer nem sequer aos mandamentos exteriores de Deus, visto que estes não podem ser obedecidos enquanto o seu coração permanece na sua pecaminosidade e corrupção naturais — porquanto a árvore má não pode dar bons frutos. Mas ele não pode purificar um coração pecaminoso: para os homens, isso é impossível. De modo que se acha totalmente perdido, sem saber nem como começar a andar na vereda dos mandamentos de Deus. Cercado de pecado, tristeza e medo, e não achando saída, ele só pode clamar: “Senhor, salva-me, ou pereço!”
7. A pobreza de espírito, então, enquanto implica o primeiro passo que damos na corrida que nos está proposta, é um justo senso dos nossos pecados interiores e exteriores, e da nossa culpa e impotência. A isto alguns monstruosamente chamaram “a virtude da humildade”, ensinando-nos assim a ter orgulho de saber que merecemos a condenação! Mas a expressão do nosso Senhor é de tipo bem diverso, não transmitindo ao ouvinte outra ideia senão a de mera carência, de nu pecado, de culpa e miséria sem socorro.
8. O grande apóstolo, ao procurar levar os pecadores a Deus, fala de maneira exatamente correspondente a isto. “A ira de Deus”, diz ele, “se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1.18) — acusação que ele imediatamente fixa sobre o mundo pagão, provando com isso que estão sob a ira de Deus. Em seguida mostra que os judeus não eram melhores do que eles, estando, portanto, sob a mesma condenação; e tudo isso, não para que alcançassem “a nobre virtude da humildade”, mas “para que toda boca se feche e todo o mundo seja culpável perante Deus” (Rm 3.19). Prossegue mostrando que eram tão impotentes quanto culpados, o que é o claro sentido de todas aquelas expressões: “Por isso, ninguém será justificado diante dele por obras da lei”; “mas agora, sem a lei, se manifestou a justiça de Deus, que é mediante a fé em Jesus Cristo”; “concluímos que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” — expressões que tendem todas ao mesmo ponto, a saber, “esconder do homem o orgulho”, humilhá-lo até o pó, sem ensiná-lo a olhar para a sua humildade como uma virtude; inspirar-lhe aquela plena e penetrante convicção da sua total pecaminosidade, culpa e impotência, que lança o pecador, despojado de tudo, perdido e arruinado, sobre o seu poderoso Auxiliador, Jesus Cristo, o Justo.
9. Não se pode deixar de notar aqui que o cristianismo começa exatamente onde a moral pagã termina: a pobreza de espírito, a convicção do pecado, o renunciar a si mesmo, o não ter a própria justiça (o primeiro ponto na religião de Jesus Cristo) — deixando para trás toda religião pagã. Isto sempre esteve oculto aos sábios deste mundo, a tal ponto que toda a língua latina, mesmo com todos os aprimoramentos da era de Augusto, não oferece sequer uma palavra para “humildade” (o termo do qual a tomamos emprestada, como é sabido, tem em latim um sentido bem diferente); nem sequer uma se achava em toda a copiosa língua da Grécia, até que foi cunhada pelo grande apóstolo.
10. Oh, que possamos sentir o que eles não foram capazes de exprimir! Pecador, desperte! Conheça a si mesmo! Saiba e sinta que você foi “formado na iniquidade” e que “em pecado o concebeu sua mãe” (Sl 51.5), e que você mesmo tem amontoado pecado sobre pecado, desde que soube discernir o bem do mal! Abata-se sob a poderosa mão de Deus, como réu de morte eterna; e lance fora, renuncie, deteste toda imaginação de algum dia ser capaz de socorrer a si mesmo! Seja toda a sua esperança a de ser lavado no sangue dele e renovado pelo seu Espírito todo-poderoso — dele, que “levou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro”! Assim você testemunhará: “Felizes os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus.”
11. Este é aquele Reino dos céus, ou de Deus, que está dentro de nós — a saber, “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). E que é a “justiça” senão a vida de Deus na alma, a mente que houve em Cristo Jesus, a imagem de Deus gravada no coração, renovada agora à semelhança daquele que a criou? Que é senão o amor de Deus, porque ele primeiro nos amou, e o amor de toda a humanidade por causa dele? E que é essa “paz”, a paz de Deus, senão aquela calma serenidade da alma, aquele doce repouso no sangue de Jesus, que não deixa dúvida da nossa aceitação nele, que exclui todo medo, exceto o amoroso e filial temor de ofender o nosso Pai que está nos céus? Este reino interior implica também “alegria no Espírito Santo”, que sela em nossos corações “a redenção que há em Jesus”, a justiça de Cristo a nós imputada “para a remissão dos pecados passados”; que nos dá agora “o penhor da nossa herança” (Ef 1.14), da coroa que o Senhor, o justo Juiz, dará naquele Dia. E bem pode isto ser chamado “o Reino dos céus”, visto que é o céu já aberto na alma, o primeiro brotar daqueles rios de delícias que correm à direita de Deus para sempre.
12. “Deles é o Reino dos céus.” Quem quer que você seja, a quem Deus concedeu ser “humilde de espírito”, sentir-se perdido, você tem direito a ele, pela graciosa promessa daquele que não pode mentir. Ele foi comprado para você pelo sangue do Cordeiro. Está muito perto: você está à beira do céu! Mais um passo, e você entra no reino de justiça, paz e alegria! Você é todo pecado? “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” Todo sem santidade? Veja o seu “Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo!” Você é incapaz de expiar o menor dos seus pecados? “Ele é a propiciação” por todos os seus pecados. Agora creia no Senhor Jesus Cristo, e todos os seus pecados são apagados! Você está totalmente imundo, na alma e no corpo? Aqui está a “fonte para o pecado e a impureza!” “Levante-se e lave os seus pecados!” Não vacile mais diante da promessa, por incredulidade! Dê glória a Deus! Ouse crer! Agora clame, do fundo do seu coração:
Sim, eu me rendo, eu me rendo enfim;
escuto o teu sangue que fala.
A mim, com todos os meus pecados, lanço
sobre o meu Deus que expia.
13. Então você aprende dele a ser “humilde de coração” (Mt 11.29). E esta é a verdadeira, genuína humildade cristã, que flui de um senso do amor de Deus, reconciliado conosco em Cristo Jesus. A pobreza de espírito, neste sentido da palavra, começa onde termina o senso da culpa e da ira de Deus; e é um contínuo senso da nossa total dependência dele para todo bom pensamento, palavra ou obra; da nossa completa incapacidade para todo bem, a menos que ele nos “regue a cada momento”; e uma aversão ao louvor dos homens, sabendo que todo louvor é devido somente a Deus. A isto se junta uma amorosa vergonha, uma terna humilhação diante de Deus, mesmo pelos pecados que sabemos que ele nos perdoou, e pelo pecado que ainda permanece em nosso coração, embora saibamos que não nos é imputado para condenação. Contudo, a convicção que sentimos do pecado inato é cada dia mais profunda. Quanto mais crescemos na graça, mais vemos da desesperada malignidade do nosso coração. Quanto mais avançamos no conhecimento e no amor de Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo (por maior que seja o mistério que isto possa parecer aos que não conhecem o poder de Deus para a salvação), mais discernimos o nosso afastamento de Deus, a inimizade que há na nossa mente carnal, e a necessidade de sermos inteiramente renovados em justiça e verdadeira santidade.
II. Os que choram
1. É verdade que quem agora começa a conhecer o Reino interior dos céus quase não tem noção disto. “Na sua prosperidade, ele diz: jamais serei abalado; tu, Senhor, firmaste o meu monte” (Sl 30.6–7). O pecado está de tal modo esmagado sob os seus pés que ele mal pode crer que permaneça nele. Até a tentação foi silenciada e não fala mais: não pode aproximar-se, mas fica de longe. Ele é levado ao alto nos carros da alegria e do amor; alça voo “como sobre asas de águia”. Mas o nosso Senhor bem sabia que esse estado triunfante nem sempre dura muito; por isso logo acrescenta: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”
2. Não que se possa imaginar que essa promessa pertença aos que choram apenas por algum motivo mundano; que estão em tristeza e abatimento por causa de algum problema ou desapontamento deste mundo — como a perda da reputação ou dos amigos, ou a diminuição da fortuna. Tão pouco direito a ela têm os que se afligem por medo de algum mal temporal, ou que definham em ansioso cuidado, ou naquele desejo das coisas terrenas que “faz adoecer o coração”. Não pensemos que estes “hão de receber alguma coisa do Senhor” (Tg 1.7): Deus não está em nenhum dos seus pensamentos. Por isso é que eles “andam qual sombra vã e em vão se inquietam” (Sl 39.6). “E isto vocês receberão da minha mão”, diz o Senhor: “vocês jazerão em tormento” (Is 50.11).
3. Os que choram, de quem o nosso Senhor aqui fala, são os que choram por motivo bem diverso: os que choram por Deus; por aquele em quem se “alegravam com alegria indizível” quando ele lhes deu a “provar a boa palavra” — a palavra que perdoa — “e os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5). Mas agora ele “esconde o rosto, e eles ficam perturbados” (Sl 30.7): não conseguem vê-lo através da nuvem escura. Mas veem a tentação e o pecado, que supunham ternamente terem ido para nunca mais voltar, erguendo-se de novo, perseguindo-os com força e cercando-os por todos os lados. Não é de estranhar que a sua alma esteja agora perturbada dentro deles, e que a tristeza e o abatimento se apoderem deles. Nem deixará o seu grande inimigo de aproveitar a ocasião, para perguntar: “Onde está agora o teu Deus? Onde está agora a bem-aventurança de que falavas, o início do Reino dos céus? Terá Deus mesmo dito: ‘Os teus pecados estão perdoados’? Certamente Deus não o disse. Foi apenas um sonho, mera ilusão, criação da tua própria imaginação. Se os teus pecados estão perdoados, por que estás assim? Pode um pecador perdoado ser tão sem santidade?” E se então, em vez de imediatamente clamar a Deus, eles se põem a raciocinar com aquele que é mais astuto do que eles, ficarão de fato abatidos, em tristeza de coração, em angústia inexprimível. Mais: mesmo quando Deus torna a resplandecer sobre a alma e tira toda dúvida da sua misericórdia passada, ainda assim aquele que é fraco na fé pode ser tentado e perturbado quanto ao que está por vir, especialmente quando o pecado interior revive e o acossa fortemente para que caia.
4. Certo é que essa “aflição”, no presente, “não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que por ela têm sido exercitados” (Hb 12.11). Bem-aventurados, portanto, os que assim choram, se “esperam o tempo do Senhor” e não se deixam desviar do caminho pelos miseráveis consoladores do mundo; se rejeitam resolutamente todos os consolos do pecado, da insensatez e da vaidade; todas as diversões e distrações ociosas do mundo; todos os prazeres que “perecem pelo uso” e que só tendem a entorpecer e estupidificar a alma, para que ela não seja sensível nem a si mesma nem a Deus. Bem-aventurados os que “prosseguem em conhecer o Senhor” (Os 6.3) e firmemente recusam todo outro consolo. Serão consolados pelas consolações do seu Espírito, por uma nova manifestação do seu amor, por tal testemunho de que os aceita no Amado, que nunca mais lhes será tirado. Essa “plena certeza da fé” engole toda dúvida, assim como todo medo atormentador — dando-lhes Deus agora uma esperança segura de uma herança permanente e “forte consolação, pela graça” (2Ts 2.16). Sem disputar se é possível que algum “dos que uma vez foram iluminados e feitos participantes do Espírito Santo” venha a “cair” (Hb 6.4–6), basta-lhes dizer, pelo poder que agora repousa sobre eles: “Quem nos separará do amor de Cristo? Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem a altura, nem a profundidade poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.35–39).
5. Todo esse processo — tanto o chorar por um Deus ausente quanto o recobrar a alegria do seu rosto — parece estar esboçado no que o nosso Senhor falou aos apóstolos, na noite anterior à sua paixão: “Vocês indagam entre si sobre o que eu disse: ‘Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e me vereis’? Em verdade, em verdade lhes digo que vocês chorarão e se lamentarão” — a saber, enquanto não me veem — “mas o mundo se alegrará”, triunfará sobre vocês, como se a sua esperança tivesse agora chegado ao fim. “Vocês estarão tristes” — pela dúvida, pelo medo, pela tentação, pelo veemente anseio —, “mas a sua tristeza se converterá em alegria”, pelo retorno daquele a quem a sua alma ama. “A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque é chegada a sua hora; depois de nascer a criança, já não se lembra da aflição, pela alegria de haver um homem nascido no mundo. Vocês, pois, agora têm tristeza” — choram e não podem ser consolados —; “mas eu os verei outra vez, e o seu coração se alegrará” com calma e íntima alegria, “e a sua alegria ninguém lhes tirará” (Jo 16.19–22).
6. Mas, ainda que esse choro tenha fim, ainda que se perca em santa alegria pelo retorno do Consolador, há outro choro — e um bendito choro — que permanece nos filhos de Deus. Eles ainda choram pelos pecados e misérias da humanidade: “choram com os que choram” (Rm 12.15). Choram por aqueles que não choram por si mesmos, pelos pecadores contra a própria alma. Choram pela fraqueza e infidelidade dos que estão, em alguma medida, salvos dos seus pecados. “Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me inflame?” (2Co 11.29). Entristecem-se pela desonra continuamente feita à Majestade do céu e da terra. Em todo tempo têm disso um senso solene, que traz uma profunda seriedade ao seu espírito — seriedade que não pouco se acentuou, desde que os olhos do seu entendimento foram abertos, por verem continuamente o vasto oceano da eternidade, sem fundo nem margem, que já engoliu milhões de milhões de homens e se escancara para devorar os que ainda restam. Veem aqui a casa de Deus, eterna nos céus; ali, o inferno e a destruição a descoberto; e daí sentem a importância de cada momento, que apenas surge e se vai para sempre!
7. Mas toda essa sabedoria de Deus é loucura para o mundo. Todo o assunto do choro e da pobreza de espírito é, para ele, estupidez e apatia. Aliás, já é muito se emitem juízo tão favorável a respeito; se não a votam por mero desânimo e melancolia, quando não por franca loucura e desatino. E não é de admirar que tal juízo seja emitido pelos que não conhecem a Deus. Suponha que, enquanto duas pessoas caminham juntas, uma de repente pare e, com os mais fortes sinais de medo e espanto, clame: “Sobre que precipício estamos! Veja, estamos a ponto de ser despedaçados! Mais um passo, e caímos naquele imenso abismo! Pare! Não avanço por nada deste mundo!” — enquanto a outra, que se julga igualmente perspicaz, olha adiante e nada vê de tudo isso; o que pensaria ela do companheiro, senão que estava fora de si, que tinha a cabeça desarranjada, que muita religião (se não fosse culpado de “muito saber”) certamente o enlouquecera?
8. Mas não se deixem abalar por nenhuma dessas coisas os filhos de Deus, “os que choram em Sião”. Vocês, cujos olhos foram iluminados, não se perturbem com os que ainda andam nas trevas. Vocês não andam qual sombra vã: Deus e a eternidade são coisas reais. O céu e o inferno estão, de fato, abertos diante de vocês; e vocês estão à beira do grande abismo. Ele já engoliu mais do que as palavras podem exprimir — nações, tribos, povos e línguas; e ainda se escancara para devorar, quer o vejam quer não, os tontos e miseráveis filhos dos homens. Ó clamem em alta voz! Não poupem! Levantem a voz àquele que segura tanto o tempo quanto a eternidade, por vocês mesmos e por seus irmãos, para que sejam tidos por dignos de escapar da destruição que vem como um turbilhão! Chorem por vocês mesmos, até que ele enxugue as lágrimas dos seus olhos. E, mesmo então, chorem pelas misérias que vêm sobre a terra, até que o Senhor de tudo ponha fim à miséria e ao pecado, enxugue as lágrimas de todos os rostos, e “o conhecimento do Senhor encha a terra, como as águas cobrem o mar” (Is 11.9).
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.