SERMÃO 22

Os mansos, a fome de justiça e os misericordiosos

Segundo dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.

Mt 5.5–7, NAA ⏱ 31 min de leituraSermão do Monte

“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.”

(Mt 5.5–7, NAA)

Antes de ler

Wesley continua subindo os degraus das bem-aventuranças. Primeiro define a mansidão — que não é insensibilidade estoica nem falta de zelo, mas o equilíbrio das paixões sob o governo do amor —, e mostra como ela alcança até a raiz da ira, no coração. Depois trata da fome e sede de justiça, distinguindo a religião viva da religião apenas exterior do mundo. E no terceiro ponto faz algo notável: expõe toda a passagem de 1Coríntios 13, versículo a versículo, como retrato do misericordioso. O fecho é uma das páginas mais impressionantes da coletânea — um lamento pelas guerras entre os cristãos e um clamor pela renovação da terra.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

I. Os mansos

1. Quando “o inverno passou”, quando “chegou o tempo de cantar, e já se ouve a voz da rola na nossa terra” (Ct 2.11–12); quando aquele que consola os que choram volta, “para permanecer com eles para sempre”; quando, ao brilho da sua presença, as nuvens se dispersam — as nuvens escuras da dúvida e da incerteza —, as tempestades do medo fogem, as ondas da tristeza se acalmam, e o seu espírito de novo se alegra em Deus, seu Salvador; então é que esta palavra se cumpre de modo eminente; então aqueles a quem ele consolou podem testemunhar: “Bem-aventurados”, ou felizes, “os mansos, porque herdarão a terra.”

2. Mas quem são “os mansos”? Não os que não se entristecem com nada porque nada sabem; que não se abalam com os males que ocorrem porque não distinguem o mal do bem. Não os que estão protegidos dos choques da vida por uma estúpida insensibilidade; que têm, por natureza ou por artifício, a “virtude” dos troncos e das pedras, e nada os ofende porque nada sentem. Os filósofos que se fazem de brutos nada têm a ver com isto. A apatia está tão longe da mansidão quanto da própria humanidade — de modo que não é fácil conceber como alguns cristãos das eras mais puras, especialmente alguns dos Pais da Igreja, puderam confundir estas coisas e tomar um dos mais torpes erros do paganismo por um ramo do verdadeiro cristianismo.

3. Nem a mansidão cristã implica estar sem zelo por Deus, tanto quanto não implica ignorância ou insensibilidade. Não; ela se mantém livre de todo extremo, seja por excesso, seja por falta. Não destrói, mas equilibra os afetos — que o Deus da natureza nunca quis que fossem arrancados pela graça, mas apenas trazidos e mantidos sob a devida regulação. Ela equilibra a mente corretamente. Mantém a balança certa quanto à ira, à tristeza e ao medo, guardando o justo meio em cada circunstância da vida, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda.

4. A mansidão, portanto, parece dizer respeito propriamente a nós mesmos. Mas pode referir-se a Deus ou ao próximo. Quando essa devida serenidade da mente se refere a Deus, costuma ser chamada de resignação: uma calma aquiescência a tudo o que é a sua vontade a nosso respeito, ainda que não agrade à natureza, dizendo continuamente: “É o Senhor; faça o que bem lhe parecer.” Quando a consideramos mais estritamente em relação a nós mesmos, chamamo-la de paciência ou contentamento. Quando é exercida para com os outros, então é brandura para com os bons e gentileza para com os maus.

5. Os que são verdadeiramente mansos conseguem discernir claramente o que é mau, e conseguem também suportá-lo. São sensíveis a tudo isso, mas ainda assim a mansidão segura as rédeas. São extremamente “zelosos pelo Senhor dos Exércitos”, mas o seu zelo é sempre guiado pelo conhecimento e temperado, em cada pensamento, palavra e obra, pelo amor ao homem, tanto quanto pelo amor a Deus. Não desejam extinguir nenhuma das paixões que Deus, para fins sábios, implantou na sua natureza; mas têm o domínio de todas: mantêm-nas todas em sujeição e as empregam apenas a serviço daqueles fins. E assim, até as paixões mais ásperas e desagradáveis se tornam aplicáveis aos mais nobres propósitos: até o ódio, a ira e o medo, quando dirigidos contra o pecado e regulados pela fé e pelo amor, são como muros e baluartes para a alma, de modo que o Maligno não pode aproximar-se para feri-la.

6. É evidente que esta disposição divina não só deve permanecer, mas crescer em nós dia após dia. Nunca faltarão ocasiões de exercitá-la, e assim aumentá-la, enquanto permanecermos na terra. “Temos necessidade de paciência, para que, tendo feito” e sofrido “a vontade de Deus, alcancemos a promessa” (Hb 10.36). Temos necessidade de resignação, para que possamos dizer em todas as circunstâncias: “Não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). E temos necessidade de “gentileza para com todos”, mas especialmente para com os maus e ingratos; do contrário, seremos vencidos pelo mal, em vez de vencer o mal com o bem.

7. Nem a mansidão restringe apenas o ato exterior, como ensinavam os escribas e fariseus de outrora, e como não deixarão de fazer, em todas as eras, os miseráveis mestres que não são ensinados por Deus. O nosso Senhor previne isto e mostra a verdadeira extensão dela nas palavras seguintes: “Vocês ouviram que foi dito aos antigos: Não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem disser a seu irmão: Racá, estará sujeito ao tribunal; e quem lhe disser: Tolo, estará sujeito ao fogo do inferno” (Mt 5.21–22).

8. O nosso Senhor coloca aqui sob a rubrica do homicídio até aquela ira que não vai além do coração, que não se manifesta por uma desatenção exterior — não, nem sequer por uma palavra exaltada. “Qualquer que se irar contra seu irmão” — contra qualquer pessoa viva, visto que somos todos irmãos; qualquer que sinta no coração alguma desafeição, alguma disposição contrária ao amor; qualquer que se ire sem causa, sem causa suficiente, ou além do que a causa requer — “estará sujeito a julgamento”: naquele mesmo momento, ficará exposto ao justo juízo de Deus. Mas não se seria levado a preferir a leitura dos manuscritos que omitem a palavra “sem causa”? Não é ela totalmente supérflua? Pois, se a ira contra pessoas é uma disposição contrária ao amor, como pode haver uma causa, uma causa suficiente para ela, alguma que a justifique aos olhos de Deus? A ira contra o pecado, admitimos. Nesse sentido, podemos nos irar e, contudo, não pecar. Nesse sentido, do próprio Senhor se registra uma vez que se irou: “Olhando ao redor para eles com indignação, condoído com a dureza dos seus corações” (Mc 3.5). Ele se entristecia pelos pecadores e se irava contra o pecado. E isto, sem dúvida, é reto diante de Deus.

9. “E quem disser a seu irmão: Racá” — quem der lugar à ira a ponto de proferir alguma palavra de desprezo. Os comentaristas observam que Racá é uma palavra siríaca que significa propriamente “vazio, vão, tolo”; de modo que é uma expressão tão inofensiva quanto se possa usar contra alguém com quem estamos descontentes. E, contudo, quem a usar, como o Senhor nos assegura, “estará sujeito ao tribunal” — antes, ficará exposto a ele: sujeito a uma sentença mais severa do Juiz de toda a terra. “Mas quem disser: Tolo” — quem der tal lugar ao diabo a ponto de irromper em injúria, em linguagem deliberadamente ofensiva e ultrajante —, “ficará exposto ao fogo do inferno”: naquele instante, sujeito à mais alta condenação. Note-se que o Senhor descreve todos estes como passíveis de pena capital: o primeiro, do estrangulamento, geralmente aplicado aos condenados por um dos tribunais inferiores; o segundo, do apedrejamento, frequentemente aplicado aos condenados pelo grande Conselho de Jerusalém; o terceiro, de ser queimado vivo, aplicado apenas aos maiores criminosos, no “vale dos filhos de Hinom” — donde evidentemente se tira a palavra que traduzimos por “inferno”.

10. E, visto que os homens naturalmente imaginam que Deus lhes relevará a falha em alguns deveres por causa da exatidão em outros, o Senhor a seguir cuida de cortar essa vã, embora comum, imaginação. Mostra que é impossível a qualquer pecador negociar com Deus, que não aceitará um dever em lugar de outro, nem tomará uma parte da obediência pelo todo. Adverte-nos de que o cumprimento do nosso dever para com Deus não nos desobrigará do nosso dever para com o próximo; que as obras de piedade, como são chamadas, tão longe estarão de nos recomendar a Deus, se nos falta o amor, que, ao contrário, essa falta de amor tornará todas essas obras uma abominação ao Senhor. “Portanto, se você trouxer a sua oferta ao altar e ali se lembrar de que seu irmão tem alguma coisa contra você” — por causa do seu comportamento desamoroso para com ele, de tê-lo chamado de “Racá” ou “Tolo” —, não pense que a sua oferta expiará a sua ira, ou que encontrará aceitação com Deus enquanto a sua consciência estiver manchada com a culpa de pecado não arrependido. “Deixe ali diante do altar a sua oferta, vá primeiro reconciliar-se com seu irmão” (ao menos faça tudo o que está em você para reconciliar-se) “e, depois, venha apresentar a sua oferta” (Mt 5.23–24).

11. E que não haja demora naquilo que tão de perto diz respeito à sua alma. “Reconcilie-se depressa com o seu adversário” — agora, no mesmo lugar — “enquanto está com ele a caminho”; se possível, antes que ele saia da sua vista; “para que o adversário não o entregue ao juiz” — para que não apele a Deus, o Juiz de todos —; “e o juiz não o entregue ao oficial” — a Satanás, executor da ira de Deus —; “e você não seja lançado na prisão” — no inferno, ali reservado para o juízo do grande Dia. “Em verdade lhe digo: de maneira nenhuma sairá dali enquanto não pagar o último centavo” (Mt 5.25–26). Mas isto é impossível você fazer algum dia, visto que nada tem para pagar. Portanto, se você uma vez cair naquela prisão, a fumaça do seu tormento há de “subir para todo o sempre”.

12. Enquanto isso, “os mansos herdarão a terra”. Tal é a insensatez da sabedoria mundana! Os sábios do mundo os haviam advertido vez após vez de que, se não reagissem a tal tratamento, se se deixassem docilmente abusar assim, não haveria como viverem sobre a terra; que jamais conseguiriam prover o necessário à vida, nem conservar o que tinham; que não podiam esperar paz, nem posse tranquila, nem gozo de coisa alguma. Verdadeiríssimo — suponha que não houvesse Deus no mundo, ou suponha que ele não se importasse com os filhos dos homens. Mas, “quando Deus se levanta para o juízo, para salvar todos os mansos da terra” (Sl 76.9), como ele zomba de toda essa sabedoria pagã e converte “o furor dos homens em seu louvor” (Sl 76.10)! Ele tem um cuidado especial de prover-lhes tudo o que é necessário para a vida e a piedade; assegura-lhes a provisão que fez, apesar da força, da fraude ou da malícia dos homens; e o que assegura, dá-lhes ricamente para desfrutar. É doce para eles, seja pouco, seja muito. Como na paciência possuem a sua alma, assim verdadeiramente possuem tudo o que Deus lhes deu. Estão sempre contentes, sempre satisfeitos com o que têm: agrada-lhes porque agrada a Deus. De modo que, enquanto o seu coração, o seu desejo, a sua alegria estão no céu, verdadeiramente se pode dizer que “herdam a terra”.

13. Mas parece haver um sentido ainda mais profundo nestas palavras: o de que terão uma parte mais eminente na “nova terra, na qual habita a justiça” (2Pe 3.13); naquela herança cuja descrição geral (e os detalhes conheceremos depois) João deu no capítulo 20 do Apocalipse: “Vi descer do céu um anjo… Ele segurou o dragão, a antiga serpente… e o prendeu por mil anos… Vi também os que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam a marca na testa nem nas mãos; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes a segunda morte não tem poder; serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos” (Ap 20.1–6).

II. A fome e sede de justiça

1. O nosso Senhor tem, até aqui, se ocupado mais diretamente em remover os estorvos da verdadeira religião: tal é o orgulho, o primeiro e grande estorvo de toda religião, que é retirado pela pobreza de espírito; a leviandade e a irreflexão, que impedem qualquer religião de criar raízes na alma, até serem removidas pelo santo pranto; tais são a ira, a impaciência, o descontentamento, que são todos curados pela mansidão cristã. E, uma vez removidos esses estorvos — essas más doenças da alma, que continuamente suscitavam nela falsos anseios e a enchiam de apetites doentios —, retorna o apetite natural de um espírito nascido do céu: ele tem fome e sede de justiça. E “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos”.

2. A justiça, como se observou antes, é a imagem de Deus, a mente que houve em Cristo Jesus. É toda disposição santa e celestial num só feixe, que brota do amor de Deus — como nosso Pai e Redentor — e do amor a todos os homens por causa dele, e nesse amor também termina.

3. “Bem-aventurados os que têm fome e sede” dela. Para entender plenamente essa expressão, devemos observar, primeiro, que a fome e a sede são os mais fortes de todos os nossos apetites corporais. Do mesmo modo, essa fome na alma, essa sede pela imagem de Deus, é o mais forte de todos os nossos apetites espirituais, uma vez despertado no coração; mais: engole todos os demais naquele único grande desejo — ser renovado à semelhança daquele que nos criou. Devemos observar, segundo, que, do momento em que começamos a ter fome e sede, esses apetites não cessam, mas se tornam cada vez mais exigentes e insistentes, até que comamos e bebamos, ou morramos. Assim também, do momento em que começamos a ter fome e sede de toda a mente que houve em Cristo, esses apetites espirituais não cessam, mas clamam pelo seu alimento com insistência cada vez maior; nem podem, de modo algum, cessar antes de serem satisfeitos, enquanto houver alguma vida espiritual restante. Devemos observar, terceiro, que a fome e a sede não se satisfazem com nada senão comida e bebida. Se você desse ao faminto todo o resto do mundo — toda a elegância das roupas, todos os adornos do poder, todo o tesouro da terra, sim, milhares em ouro e prata; se lhe prestasse toda a honra possível —, ele não faria caso: nada disso teria então valor para ele. Ele continuaria a dizer: “Não são estas as coisas de que preciso; dê-me comida, ou morro.” Exatamente o mesmo se dá com toda alma que verdadeiramente tem fome e sede de justiça. Ela não encontra conforto em nada senão nisto; com nada mais se satisfaz. Tudo o que você lhe ofereça além disso é tido em pouca conta: sejam riquezas, honra ou prazer, ela ainda diz: “Não é isto o que preciso! Dê-me amor, ou morro!”

4. E é tão impossível satisfazer tal alma — uma alma sedenta de Deus, o Deus vivo — com o que o mundo tem por religião quanto com o que ele tem por felicidade. A religião do mundo implica três coisas: (1) não fazer mal, abster-se do pecado exterior, ao menos do que é escandaloso, como roubo, furto, palavrões, embriaguez; (2) fazer o bem, socorrer os pobres, ser caridoso, como se diz; (3) usar os meios de graça, ao menos ir à igreja e à Ceia do Senhor. Aquele em quem se acham essas três marcas é chamado pelo mundo de homem religioso. Mas isso satisfará quem tem fome de Deus? Não: não é alimento para a sua alma. Ele quer uma religião de tipo mais nobre, uma religião mais alta e mais profunda do que essa. Não pode mais alimentar-se dessa coisa pobre, rasa e formal do que “encher o ventre de vento oriental”. É verdade que ele tem o cuidado de abster-se de toda aparência do mal; é zeloso de boas obras; assiste a todas as ordenanças de Deus; mas nada disso é o que ele anseia. Isto é apenas o lado de fora daquela religião de que ele tem fome insaciável. O conhecimento de Deus em Cristo Jesus; “a vida que está escondida com Cristo em Deus”; o estar “unido ao Senhor num só espírito”; ter “comunhão com o Pai e com o Filho”; o “andar na luz, como ele está na luz”; o ser “purificado assim como ele é puro” — esta é a religião, a justiça de que ele tem sede; nem pode descansar enquanto não descansar assim em Deus.

5. “Bem-aventurados os que” assim “têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.” Serão fartos daquilo por que anseiam: da justiça e da verdadeira santidade. Deus os saciará com as bênçãos da sua bondade, com a felicidade dos seus escolhidos. Alimentá-los-á com o pão do céu, com o maná do seu amor. Dar-lhes-á a beber dos seus deleites, como do rio — do qual quem bebe jamais terá sede, a não ser de mais e mais da água da vida. Essa sede há de durar para sempre.

A sede dolorosa, o terno anelo,

a tua alegre presença há de remover;

mas a minha alma plena ainda pedirá

uma eternidade inteira de amor.

6. Quem quer que você seja, então, a quem Deus concedeu “ter fome e sede de justiça”, clame a ele para nunca perder esse dom inestimável — para que esse apetite divino jamais cesse. Se muitos o repreenderem e mandarem calar-se, não faça caso deles; antes, clame ainda mais: “Jesus, Mestre, tem misericórdia de mim!” “Que eu não viva senão para ser santo como tu és santo!” Não “gaste mais o seu dinheiro naquilo que não é pão, nem o seu trabalho no que não satisfaz” (Is 55.2). Você pode esperar cavar a felicidade da terra, encontrá-la nas coisas do mundo? Ó pise sob os pés todos os prazeres dela, despreze as suas honras, tenha as suas riquezas por esterco e escória — sim, e todas as coisas que estão debaixo do sol —, “pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus” (Fp 3.8), pela inteira renovação da sua alma naquela imagem de Deus em que foi originalmente criada. Cuidado para não apagar essa bendita fome e sede com o que o mundo chama de religião: uma religião de forma, de aparência exterior, que deixa o coração tão terreno e sensual como sempre. Nada o satisfaça senão o poder da piedade, senão uma religião que é espírito e vida; o seu habitar em Deus e Deus em você — o ser habitante da eternidade, o entrar, pelo sangue da aspersão, “para dentro do véu”, e o assentar-se “nos lugares celestiais em Cristo Jesus”.

III. Os misericordiosos

1. E quanto mais eles se enchem da vida de Deus, mais ternamente se preocuparão com os que ainda estão sem Deus no mundo, ainda mortos em delitos e pecados. Nem essa preocupação com os outros perderá a sua recompensa. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” A palavra usada pelo nosso Senhor implica mais diretamente os compassivos, os de coração terno; os que, longe de desprezar, se entristecem sinceramente por aqueles que não têm fome de Deus. Esta parte eminente do amor fraternal é aqui posta, por uma figura comum, pelo todo; de modo que “os misericordiosos”, no pleno sentido do termo, são os que “amam o próximo como a si mesmos”.

2. Por causa da imensa importância desse amor — sem o qual, “ainda que falássemos as línguas dos homens e dos anjos, ainda que tivéssemos o dom de profecia, e conhecêssemos todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivéssemos toda a fé, a ponto de transportar montes; sim, ainda que déssemos todos os nossos bens para sustentar os pobres e o nosso próprio corpo para ser queimado, nada disso nos aproveitaria” —, a sabedoria de Deus nos deu, pelo apóstolo Paulo, um relato pleno e detalhado dele; e, ao considerá-lo, discerniremos com toda a clareza quem são os misericordiosos que alcançarão misericórdia.

3. O amor ao próximo, como Cristo nos amou, “é paciente”: é longânimo para com todos. Suporta toda a fraqueza, ignorância, erros e enfermidades, toda a rebeldia e pequenez de fé dos filhos de Deus; toda a malícia e maldade dos filhos do mundo. E suporta tudo isso não só por um tempo, por uma curta estação, mas até o fim — ainda alimentando o inimigo quando ele tem fome, ainda lhe dando de beber quando tem sede, assim continuamente “amontoando brasas vivas”, de amor que derrete, “sobre a sua cabeça” (Rm 12.20).

4. E em cada passo rumo a esse fim desejável — o “vencer o mal com o bem” —, o amor “é benigno”: é suave, brando, bondoso. Está na maior distância possível da rispidez, de toda aspereza ou azedume de espírito; e inspira aquele que sofre, ao mesmo tempo, com a mais amável doçura e com o mais fervoroso e terno afeto.

5. Por consequência, o amor “não arde em ciúmes”: é impossível que arda; é diretamente oposto a essa disposição funesta. Não pode ser que aquele que tem esse terno afeto por todos, que sinceramente deseja todas as bênçãos temporais e espirituais, todas as coisas boas neste mundo e no vindouro, a cada alma que Deus fez, se aflija por Deus conceder algum bom dom a qualquer filho do homem. Se ele mesmo recebeu o mesmo, não se entristece, mas se alegra de que outro participe do benefício comum. Se não o recebeu, bendiz a Deus por, ao menos, o seu irmão o ter, sendo nisto mais feliz do que ele. E quanto maior o seu amor, mais se alegra com as bênçãos de toda a humanidade; tanto mais está removido de toda espécie e grau de inveja para com qualquer criatura.

6. O amor não é precipitado nem apressado em julgar; não condena ninguém às pressas. Não emite uma sentença severa a partir de uma visão ligeira ou repentina das coisas: primeiro pesa toda a evidência, particularmente a que se apresenta em favor do acusado. Um verdadeiro amante do próximo não é como a generalidade dos homens, que, mesmo em casos da mais delicada natureza, “veem um pouco, presumem muito e assim saltam à conclusão”. Não: ele procede com cautela e circunspecção, atentando em cada passo; subscrevendo de bom grado aquela regra do antigo pagão (ó, onde aparecerá o cristão moderno!): “Estou tão longe de crer levianamente no que um homem diz contra outro que nem sequer creio facilmente no que um homem diz contra si mesmo. Sempre lhe concederei um segundo pensamento, e muitas vezes também um conselho.”

7. Segue-se que o amor “não se ensoberbece”: não inclina nem consente que alguém “pense de si mesmo mais do que convém”, mas antes que pense com moderação; sim, humilha a alma até o pó. Destrói todos os altos conceitos que geram o orgulho; e faz-nos alegrar de sermos como nada, de sermos pequenos e desprezíveis, os menores de todos, os servos de todos. Os que se amam “cordialmente uns aos outros com amor fraternal” não podem senão “preferir-se em honra uns aos outros” (Rm 12.10). Os que, tendo o mesmo amor, são de um só acordo, em humildade de mente “cada um considera os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3).

8. O amor “não se conduz inconvenientemente”: não é rude, nem deliberadamente ofensivo a ninguém. “Dá a todos o que lhes é devido: a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Rm 13.7); cortesia, civilidade, humanidade para com todo o mundo, “honrando a todos” nos seus vários graus. Um escritor recente define a boa educação — aliás, o grau mais alto dela, a delicadeza — como “um contínuo desejo de agradar, manifesto em todo o comportamento”. Mas, se é assim, ninguém é tão bem-educado quanto um cristão, um amante de toda a humanidade. Pois ele não pode senão desejar “agradar a todos para o bem e a edificação”; e esse desejo não pode ficar oculto: necessariamente aparecerá em todo o seu convívio com os homens. Pois o seu “amor é sem fingimento”: aparecerá em todas as suas ações e conversas; sim, e o constrangerá, embora sem engano, “a fazer-se tudo para com todos, para, por todos os meios, salvar alguns” (1Co 9.22).

9. E, ao fazer-se tudo para com todos, o amor “não procura os seus interesses”. Ao esforçar-se por agradar a todos, o amante da humanidade não tem olho algum na própria vantagem temporal. Não cobiça a prata, o ouro ou as vestes de ninguém: nada deseja senão a salvação das almas. Sim, em certo sentido, pode-se dizer que ele não busca a própria vantagem espiritual, tanto quanto não busca a temporal; pois, enquanto está totalmente empenhado em salvar as almas da morte, de certo modo esquece-se de si mesmo. Não pensa em si, enquanto aquele zelo pela glória de Deus o absorve. Aliás, em certos momentos, por um excesso de amor, pode quase parecer entregar-se a si mesmo, alma e corpo, ao clamar, com Moisés: “Ah, este povo cometeu grande pecado; agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me do teu livro que escreveste” (Êx 32.31–32); ou, com Paulo: “Eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus parentes segundo a carne!” (Rm 9.3).

10. Não é de admirar que tal amor “não se exaspere”. Note-se que a palavra “facilmente”, estranhamente inserida em algumas traduções, não está no original: as palavras de Paulo são absolutas. “O amor não se exaspera”: não é levado à desafeição para com ninguém. Ocasiões, de fato, ocorrerão com frequência — provocações exteriores de vários tipos; mas o amor não cede à provocação; triunfa sobre todas. Em todas as provações, ele olha para Jesus e é mais que vencedor no amor dele.

11. O amor previne mil provocações que de outro modo surgiriam, porque “não suspeita mal”. É verdade que o misericordioso não pode evitar conhecer muitas coisas más; não pode senão vê-las com os próprios olhos e ouvi-las com os próprios ouvidos. Pois o amor não lhe arranca os olhos, de modo que lhe seja impossível não ver que tais coisas se fazem; nem lhe tira o entendimento, mais do que os sentidos, de modo que não possa senão saber que são más. Por exemplo: quando vê um homem ferir o próximo, ou o ouve blasfemar de Deus, não pode pôr em dúvida a coisa feita, nem as palavras ditas, nem duvidar de que sejam más. Contudo, a palavra “suspeita” não se refere ao nosso ver e ouvir, nem aos primeiros e involuntários atos do nosso entendimento, mas ao pensarmos voluntariamente o que não precisamos; ao inferirmos o mal onde ele não aparece; ao raciocinarmos sobre coisas que não vemos; ao supormos o que nem vimos nem ouvimos. É isto que o verdadeiro amor absolutamente destrói. Arranca pela raiz todo imaginar o que não conhecemos. Lança fora todos os ciúmes, todas as más suspeitas, toda prontidão para crer no mal. É franco, aberto, não desconfiado; e, assim como não pode tramar, também não teme o mal.

12. O amor “não se alegra com a injustiça” — por comum que isto seja, mesmo entre os que trazem o nome de Cristo, que não hesitam em regozijar-se sobre o seu inimigo quando ele cai, seja em aflição, seja em erro, seja em pecado. Aliás, quão dificilmente podem evitar isto os que estão zelosamente ligados a algum partido! Quão difícil lhes é não se comprazerem com qualquer falta que descubram nos do partido oposto — com qualquer mácula, real ou suposta, seja nos seus princípios, seja na sua prática! Que fervoroso defensor de qualquer causa está livre disso? Sim, quem é tão sereno a ponto de estar de todo isento? Quem não se alegra quando o adversário dá um passo em falso, que ele julga favorável à própria causa? Somente um homem de amor. Só ele chora ou o pecado, ou a insensatez do inimigo; não tem prazer em ouvi-la ou repeti-la; antes, deseja que seja esquecida para sempre.

13. Mas ele “se alegra com a verdade”, onde quer que se ache; com “a verdade que é segundo a piedade”, que produz o seu próprio fruto: a santidade do coração e a santidade da conduta. Alegra-se ao descobrir que até os que se lhe opõem — quanto a opiniões, ou a alguns pontos de prática — são, contudo, amantes de Deus e, sob outros aspectos, irrepreensíveis. Fica contente de ouvir o bem a respeito deles e de dizer tudo o que puder, em coerência com a verdade e a justiça. De fato, o bem em geral é a sua glória e a sua alegria, onde quer que esteja difundido pela raça humana. Como cidadão do mundo, reivindica uma parte na felicidade de todos os seus habitantes. Por ser homem, não é indiferente ao bem-estar de nenhum homem; antes, desfruta de tudo o que traz glória a Deus e promove a paz e a boa vontade entre os homens.

14. Esse amor “tudo desculpa”: pois o misericordioso, não se alegrando com a injustiça, tampouco de bom grado faz menção dela. Qualquer mal que veja, ouça ou saiba, ele o oculta, tanto quanto pode sem se tornar “participante dos pecados alheios”. Onde quer que esteja, ou com quem quer que esteja, se vê algo que não aprova, isso não lhe sai dos lábios, a não ser à própria pessoa, se acaso puder ganhar o seu irmão. Tão longe está de fazer das faltas ou fracassos dos outros o assunto da sua conversa que, dos ausentes, nunca fala, a menos que possa falar bem. Um mexeriqueiro, um difamador, um caluniador é, para ele, o mesmo que um assassino. Cortaria a garganta do próximo tão prontamente quanto assim assassina a sua reputação. Tão prontamente pensaria em divertir-se ateando fogo à casa do vizinho quanto em assim “espalhar flechas, tições e morte” e dizer: “Não estou brincando?” (Pv 26.18–19). Ele faz uma única exceção. Às vezes está convencido de que é para a glória de Deus, ou (o que dá no mesmo) para o bem do próximo, que um mal não deve ser encoberto. Nesse caso, para o benefício do inocente, é constrangido a denunciar o culpado. Mas mesmo aqui: (1) não falará de modo algum enquanto o amor, um amor superior, não o constranger; (2) não pode fazê-lo a partir de uma visão geral e confusa de fazer o bem ou promover a glória de Deus, mas a partir de uma clara visão de algum fim particular, de algum bem determinado que persegue; (3) ainda assim não pode falar, a menos que esteja plenamente convencido de que exatamente esse meio é necessário àquele fim, que o fim não pode ser alcançado, ao menos não tão eficazmente, por nenhum outro caminho; (4) então o faz com a maior tristeza e relutância, usando-o como o último e pior remédio, um recurso desesperado num caso desesperado, uma espécie de veneno que só se usa para expelir veneno; por consequência, (5) usa-o o mais parcimoniosamente possível. E isto ele faz com temor e tremor, para não transgredir a lei do amor falando demais, mais do que teria feito não falando de modo algum.

15. O amor “tudo crê”. Está sempre disposto a pensar o melhor, a dar a interpretação mais favorável a tudo. Está sempre pronto a crer em tudo o que possa contribuir para o bom nome de alguém. Convence-se facilmente (do que sinceramente deseja) da inocência ou da integridade de qualquer homem; ou, ao menos, da sinceridade do seu arrependimento, se ele uma vez se desviou do caminho. Alegra-se em desculpar tudo o que está errado; em condenar o ofensor o menos possível; e em fazer toda a concessão à fraqueza humana que se possa fazer sem trair a verdade de Deus.

16. E quando já não pode crer, então o amor “tudo espera”. Relata-se algum mal de alguém? O amor espera que o relato não seja verdadeiro, que a coisa relatada nunca tenha sido feita. É certo que foi? “Mas talvez não tenha sido feita com as circunstâncias relatadas; de modo que, admitindo o fato, há lugar para esperar que não tenha sido tão mau como se representa.” A ação foi aparente e inegavelmente má? O amor espera que a intenção não tenha sido tal. É claro que o propósito também era mau? “Ainda assim, não terá brotado da disposição assentada do coração, mas de um ímpeto de paixão, ou de alguma tentação veemente, que arrastou o homem para além de si mesmo.” E mesmo quando não se pode duvidar de que todas as ações, propósitos e disposições são igualmente maus, ainda assim o amor espera que Deus, por fim, desnude o seu braço e obtenha a vitória; e que haja “alegria no céu por” este “um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7).

17. Por fim: o amor “tudo suporta”. Isto completa o retrato do que é verdadeiramente misericordioso. Ele não suporta apenas algumas coisas, nem muitas apenas; não a maioria, mas absolutamente todas. Seja qual for a injustiça, a malícia, a crueldade que os homens possam infligir, ele é capaz de sofrer. Nada chama de intolerável; nunca diz de coisa alguma: “Isto não se pode suportar.” Não: ele pode não só fazer, mas sofrer todas as coisas, por Cristo que o fortalece. E tudo o que sofre não destrói o seu amor, nem o diminui no mínimo. É à prova de tudo. É uma chama que arde mesmo no meio do grande abismo. “Nem muitas águas podem apagar” o seu “amor, nem os rios, afogá-lo” (Ct 8.7). Triunfa sobre tudo. “Nunca acaba”, nem no tempo, nem na eternidade.

Em obediência ao que o céu decreta,

a ciência falhará, e a profecia cessará;

mas o domínio mais amplo do amor duradouro,

não preso ao tempo nem sujeito à ruína,

em feliz triunfo viverá para sempre,

difundindo bem sem fim e recebendo louvor sem fim.

Assim “os misericordiosos alcançarão misericórdia”; não só pela bênção de Deus sobre todos os seus caminhos, ao retribuir-lhes agora, mil vezes no próprio seio, o amor que dedicam aos irmãos, mas também por “um peso eterno de glória, acima de toda medida” (2Co 4.17), no “Reino preparado para eles desde a fundação do mundo”.

18. Por um pouco de tempo você pode dizer: “Ai de mim, que sou forçado a habitar em Meseque e a morar entre as tendas de Quedar!” (Sl 120.5). Você pode derramar a sua alma e lamentar a perda do amor verdadeiro e genuíno na terra — perdido, de fato! Bem pode dizer (mas não no sentido antigo): “Vejam como estes cristãos se amam!” — estes reinos cristãos, que arrancam as entranhas uns dos outros, assolando-se mutuamente a fogo e espada! estes exércitos cristãos, que enviam uns aos outros, aos milhares, aos dez milhares, vivos para o inferno! estas nações cristãs, todas em chamas com discórdias internas, partido contra partido, facção contra facção! estas cidades cristãs, onde o engano e a fraude, a opressão e o dano, sim, o roubo e o homicídio, não saem das ruas! estas famílias cristãs, dilaceradas por inveja, ciúme, ira, brigas domésticas sem número e sem fim! sim — e o mais terrível, o mais lamentável de tudo — estas igrejas cristãs! Igrejas que trazem o nome de Cristo, o Príncipe da Paz, e travam guerra contínua umas com as outras! que convertem pecadores queimando-os vivos! que estão “embriagadas com o sangue dos santos”! Pertence este “louvor” apenas à “Babilônia, a grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra”? Não, de fato; mas as igrejas reformadas (assim chamadas) aprenderam muito bem a pisar nas pegadas dela. Também as igrejas protestantes sabem perseguir, quando têm o poder nas mãos, até ao sangue. E, entretanto, como também se anatematizam umas às outras! como se condenam mutuamente ao mais fundo inferno! Que ira, que contenda, que malícia, que amargura se acham por toda parte entre elas, mesmo onde concordam no essencial e só divergem em opiniões, ou nos aspectos secundários da religião! Quem busca somente as “coisas que promovem a paz e as coisas com que uns edificam os outros” (Rm 14.19)? Ó Deus, até quando? Falhará a tua promessa? Não o temas, ó pequeno rebanho! Contra a esperança, crê na esperança! É ainda do bom prazer do teu Pai renovar a face da terra. Certamente todas estas coisas hão de ter fim, e os habitantes da terra aprenderão a justiça. “Uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.” “O monte da Casa do Senhor será estabelecido no cume dos montes”, e “os reinos do mundo se tornarão o reino do nosso Deus”. Então “não se fará mal nem dano algum em todo o seu santo monte”; antes, chamarão às suas “muralhas Salvação, e às suas portas, Louvor”. Serão todos sem mácula nem defeito, amando-se uns aos outros, assim como Cristo nos amou. Seja você parte das primícias, se a colheita ainda não chegou. Ame o próximo como a si mesmo. O Senhor Deus encha o seu coração de tal amor por cada alma, que você esteja pronto a dar a vida por amor dela! Que a sua alma transborde continuamente de amor, engolindo toda disposição desamorosa e sem santidade, até que ele o chame para a região do amor, para ali reinar com ele para todo o sempre!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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