SERMÃO 23

Os limpos de coração, os pacificadores e os perseguidos

Terceiro dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.

Mt 5.8–12, NAA ⏱ 32 min de leituraSermão do Monte

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os injuriarem, e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. Alegrem-se e exultem, porque é grande o seu galardão nos céus.”

(Mt 5.8–12, NAA)

Antes de ler

Wesley fecha aqui as bem-aventuranças e, com elas, o retrato do cristão. Trata da pureza de coração — que ele liga à visão de Deus em todas as coisas, uma espécie de contemplação prática que enxerga o Criador em cada criatura. Passa então aos pacificadores, mostrando que a santidade interior precisa transbordar em fazer o bem a todos. E termina com o tema da perseguição, num trecho de rara franqueza: descreve exatamente as zombarias que o mundo dirige a cada bem-aventurança — inclusive as que ele mesmo ouviu. O parágrafo final é um convite a não apenas ouvir esse retrato, mas deixar que Deus o grave no coração.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

I. Os limpos de coração

1. Que coisas excelentes se dizem do amor ao próximo! Ele é “o cumprimento da lei” (Rm 13.10), “o alvo do mandamento” (1Tm 1.5). Sem ele, tudo o que temos, tudo o que fazemos, tudo o que sofremos, não tem valor algum aos olhos de Deus. Mas é aquele amor ao próximo que brota do amor de Deus; do contrário, ele mesmo nada vale. Convém-nos, portanto, examinar bem sobre que fundamento se assenta o nosso amor ao próximo: se está realmente edificado sobre o amor de Deus; se “o amamos porque ele nos amou primeiro”; se somos limpos de coração. Pois este é o fundamento que jamais será abalado. “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

2. “Os limpos de coração” são aqueles cujos corações Deus “purificou, assim como ele é puro” (1Jo 3.3); que estão purificados, pela fé no sangue de Jesus, de toda afeição sem santidade; que, “purificando-se de toda impureza da carne e do espírito, aperfeiçoam a santidade no” amoroso “temor de Deus” (2Co 7.1). Estão, pelo poder da sua graça, purificados do orgulho, pela mais profunda pobreza de espírito; da ira, de toda paixão desamorosa ou turbulenta, pela mansidão e brandura; de todo desejo que não seja o de agradar a Deus e desfrutá-lo, de conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, por aquela fome e sede de justiça que agora absorve toda a sua alma. De modo que agora amam o Senhor, seu Deus, de todo o coração, de toda a alma, entendimento e força.

3. Mas quão pouca atenção deram a essa pureza de coração os falsos mestres de todas as eras! Ensinaram os homens a abster-se apenas das impurezas exteriores que Deus proibiu pelo nome; mas não atingiram o coração; e, por não se resguardarem das corrupções interiores, na prática as toleraram. Um exemplo notável disto o nosso Senhor nos deu nas palavras seguintes: “Vocês ouviram que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5.27); e, ao explicá-lo, aqueles cegos guias de cegos só insistem em que os homens se abstenham do ato exterior. “Eu, porém, lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela” (Mt 5.28); pois Deus requer a verdade no íntimo; sonda o coração e prova os rins; e, se você inclinar o coração para a iniquidade, o Senhor não o ouvirá.

4. E Deus não admite desculpa alguma para reter o que quer que seja ocasião de impureza. Portanto, “se o seu olho direito o faz tropeçar, arranque-o e lance-o de você; pois lhe é melhor que se perca um dos seus membros do que seja todo o seu corpo lançado no inferno” (Mt 5.29): se pessoas tão caras a você quanto o seu olho direito são ocasião de você assim ofender a Deus, meio de despertar desejo impuro na sua alma, não demore, separe-se delas com firmeza. “E, se a sua mão direita o faz tropeçar, corte-a e lance-a de você” (Mt 5.30): se alguém que lhe parece tão necessário quanto a sua mão direita é ocasião de pecado, de desejo impuro — ainda que jamais fosse além do coração, jamais irrompesse em palavra ou ação —, obrigue-se a uma separação inteira e final: corte-o de um golpe; entregue-o a Deus. Qualquer perda, seja de prazer, de bens ou de amigos, é preferível à perda da sua alma. Apenas dois passos talvez não seja impróprio dar antes de tal separação absoluta e final. Primeiro, verifique se o espírito impuro não pode ser expulso pelo jejum e pela oração, e por abster-se cuidadosamente de toda ação, palavra e olhar que você tenha percebido serem ocasião de mal. Segundo, se por esse meio você não for liberto, peça conselho àquele que vela pela sua alma, ou, ao menos, a alguns que tenham experiência nos caminhos de Deus, quanto ao tempo e ao modo dessa separação; mas não consulte a carne e o sangue, para que não seja “entregue a um poderoso engano, para dar crédito à mentira”.

5. Nem o próprio casamento, santo e honroso como é, pode ser usado como pretexto para dar rédea solta aos nossos desejos. É verdade que “foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio” — e então tudo estava bem, ainda que ele não alegasse causa alguma, senão que não gostava dela, ou gostava mais de outra. “Eu, porém, lhes digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas” (isto é, adultério; a palavra grega significa impureza sexual em geral, seja no estado casado, seja no solteiro), “a expõe a tornar-se adúltera”, se ela se casar de novo; “e aquele que casar com a repudiada comete adultério” (Mt 5.31–32). Toda poligamia está claramente proibida nestas palavras, nas quais o nosso Senhor expressamente declara que, para qualquer mulher que tenha o marido vivo, casar-se de novo é adultério. Por igual razão, é adultério qualquer homem casar-se de novo enquanto tem a esposa viva — sim, ainda que estejam divorciados —, a menos que esse divórcio tenha sido por causa de adultério: só nesse caso não há Escritura que proíba casar-se de novo.

6. Tal é a pureza de coração que Deus requer e opera nos que creem no Filho do seu amor. E “bem-aventurados os” que são assim “limpos de coração, porque verão a Deus”. Ele “se manifestará a eles”, não só “como não faz ao mundo” (Jo 14.22), mas como nem sempre faz aos seus próprios filhos. Abençoá-los-á com as mais claras comunicações do seu Espírito, com a mais íntima “comunhão com o Pai e com o Filho”. Fará com que a sua presença vá continuamente adiante deles, e a luz do seu rosto resplandeça sobre eles. É a incessante oração do seu coração: “Rogo-te que me mostres a tua glória” (Êx 33.18); e obtêm o que lhe pedem. Já agora o veem pela fé (feito, por assim dizer, transparente o véu da carne), até nestas suas mais humildes obras, em tudo o que os cerca, em tudo o que Deus criou e fez. Veem-no na altura acima e na profundidade abaixo; veem-no enchendo tudo em todos. Os limpos de coração veem todas as coisas cheias de Deus. Veem-no no firmamento do céu; na lua, que caminha em esplendor; no sol, que se alegra como um herói a percorrer o seu caminho. Veem-no “fazer das nuvens o seu carro e andar sobre as asas do vento” (Sl 104.3). Veem-no “preparar a chuva para a terra e abençoar as suas colheitas; dar erva ao gado e plantas para o uso do homem” (Sl 104.14). Veem o Criador de tudo, governando tudo sabiamente e “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). “Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico é o teu nome em toda a terra!” (Sl 8.1).

7. Em todas as suas providências relativas a eles mesmos, à sua alma ou ao seu corpo, os limpos de coração veem a Deus de modo mais particular. Veem a sua mão sempre sobre eles para o bem; dando-lhes todas as coisas em peso e medida, contando os cabelos da sua cabeça, cercando-os com uma sebe, a eles e a tudo o que têm, e dispondo todas as circunstâncias da sua vida segundo a profundidade tanto da sua sabedoria quanto da sua misericórdia.

8. Mas, de modo ainda mais especial, veem a Deus nas suas ordenanças. Quer apareçam na grande congregação, para “dar-lhe a honra devida ao seu nome” e “adorá-lo na beleza da santidade”; quer entrem “no seu quarto” e ali derramem a alma diante do seu “Pai que está em secreto” (Mt 6.6); quer perscrutem os oráculos de Deus, ou ouçam os embaixadores de Cristo proclamarem as boas-novas da salvação; ou, ao comer daquele pão e beber daquele cálice, “anunciem a sua morte, até que ele venha” nas nuvens do céu — em todos esses caminhos por ele designados, eles encontram uma aproximação tão íntima que não se pode exprimir. Veem-no, por assim dizer, face a face, e “falam com ele como um homem fala com o seu amigo” (Êx 33.11) — apta preparação para aquelas moradas lá do alto, onde o verão como ele é.

9. Mas quão longe estavam de ver a Deus aqueles que, tendo ouvido que “foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos” (Mt 5.33), o interpretavam assim: “Não jurarás falso quando jurares pelo Senhor Jeová; cumprirás para com o Senhor estes teus juramentos; mas, quanto a outros juramentos, ele não os leva em conta.” Assim ensinavam os fariseus. Não só permitiam toda espécie de juramento na conversa comum, mas tinham até o jurar falso por coisa leve, contanto que não houvessem jurado pelo nome peculiar de Deus. Mas o nosso Senhor aqui proíbe absolutamente todo juramento comum, tanto quanto todo juramento falso; e mostra a gravidade de ambos pela mesma solene consideração: que toda criatura é de Deus, e ele está presente em toda parte, em tudo e sobre tudo. “Eu lhes digo: de modo nenhum jurem; nem pelo céu, porque é o trono de Deus” (Mt 5.34) — e, portanto, isto é o mesmo que jurar por aquele que está assentado sobre o globo da terra; “nem pela terra, porque é o estrado dos seus pés” (Mt 5.35), e ele está tão intimamente presente na terra quanto no céu; “nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei”, e Deus é bem conhecido nos seus palácios. “Nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou preto” (Mt 5.36); porque nem sequer isto, é claro, é teu, mas de Deus, o único que dispõe de tudo no céu e na terra. “Antes, seja o teu falar” (Mt 5.37), a tua conversa, o teu diálogo uns com os outros, “sim, sim; não, não” — um simples e sério afirmar ou negar; “pois o que passa disto vem do maligno”: procede do diabo e é marca dos seus filhos.

10. Que o nosso Senhor não proíbe aqui o “jurar em juízo e em verdade”, quando somos requeridos a isso por uma autoridade, pode-se ver: (1) pela ocasião desta parte do seu discurso — o abuso que ele repreendia, que era o jurar falso e o jurar comum, estando totalmente fora de questão o jurar diante de uma autoridade; (2) pelas próprias palavras com que forma a conclusão geral: “Seja o teu falar: sim, sim; não, não”; (3) pelo seu próprio exemplo, pois ele mesmo respondeu sob juramento, quando requerido por uma autoridade. Quando o sumo sacerdote lhe disse: “Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus”, Jesus imediatamente respondeu de modo afirmativo: “Tu o disseste” (isto é, a verdade); “entretanto, eu lhes digo que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.63–64); (4) pelo exemplo de Deus, o próprio Pai, que, “querendo mostrar de modo ainda mais evidente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, confirmou-o com juramento” (Hb 6.17); (5) pelo exemplo de Paulo, que, cremos, tinha o Espírito de Deus e bem entendia a mente do seu Mestre. “Deus me é testemunha”, diz ele aos romanos, “de que sem cessar faço menção de vocês, em todas as minhas orações” (Rm 1.9); aos coríntios: “Invoco a Deus por testemunha sobre a minha alma de que, para poupá-los, não fui ainda a Corinto” (2Co 1.23); e aos filipenses: “Deus me é testemunha de quanto tenho saudades de todos vocês, com terna afeição de Cristo Jesus” (Fp 1.8). Daí aparece inegavelmente que, se o apóstolo conhecia o sentido das palavras do seu Senhor, elas não proíbem jurar em ocasiões de peso, mesmo uns aos outros — quanto menos diante de uma autoridade! E, por fim, pela afirmação do grande apóstolo a respeito do juramento solene em geral (que lhe seria impossível mencionar sem qualquer nota de censura, se o seu Senhor o houvesse totalmente proibido): “Os homens juram por alguém maior do que eles, e o juramento, para confirmação, é para eles o fim de toda contenda” (Hb 6.16).

11. Mas a grande lição que o nosso bendito Senhor aqui inculca, e que ilustra com esse exemplo, é que Deus está em todas as coisas, e que devemos ver o Criador no espelho de cada criatura; que não devemos usar nem olhar coisa alguma como separada de Deus — o que, de fato, é uma espécie de ateísmo prático —, mas, com uma verdadeira grandeza de pensamento, contemplar o céu e a terra, e tudo o que neles há, como contidos por Deus na palma da sua mão — ele que, por sua íntima presença, os mantém a todos em existência, que penetra e move toda a estrutura criada, e é, num sentido verdadeiro, a alma do universo.

II. Os pacificadores

1. Até aqui o nosso Senhor esteve mais diretamente empenhado em ensinar a religião do coração. Mostrou o que os cristãos devem ser. Passa a mostrar também o que devem fazer — como a santidade interior há de manifestar-se na nossa conduta exterior. “Bem-aventurados”, diz ele, “os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”

2. “Os pacificadores.” É bem sabido que a palavra “paz”, nos escritos sagrados, implica todo tipo de bem: toda bênção que diga respeito à alma ou ao corpo, ao tempo ou à eternidade. Assim, quando Paulo, nas saudações das suas epístolas, deseja “graça e paz” aos romanos ou aos coríntios, é como se dissesse: “Como fruto do livre e imerecido amor e favor de Deus, que vocês desfrutem de todas as bênçãos, espirituais e temporais; de todas as coisas boas que Deus preparou para os que o amam.”

3. Daí podemos facilmente aprender em que sentido amplo se deve entender o termo “pacificadores”. No seu sentido literal, implica aqueles amantes de Deus e do próximo que detestam e abominam totalmente toda contenda e debate, toda discórdia e disputa; e que, por isso, trabalham com todas as suas forças, ou para impedir que esse fogo do inferno seja aceso, ou, quando aceso, para que não irrompa, ou, quando irrompeu, para que não se espalhe mais. Esforçam-se por acalmar os espíritos tempestuosos dos homens, por sossegar as suas paixões turbulentas, por abrandar as mentes das partes em conflito e, se possível, reconciliá-las umas com as outras. Usam todos os recursos inocentes e empregam toda a sua força, todos os talentos que Deus lhes deu, tanto para preservar a paz onde ela existe quanto para restaurá-la onde não existe. É a alegria do seu coração promover, confirmar e aumentar a boa vontade mútua entre os homens, mas especialmente entre os filhos de Deus, por mais que se distingam em coisas de menor importância; para que, tendo todos “um só Senhor, uma só fé”, e sendo todos “chamados a uma só esperança”, todos “andem de modo digno da vocação a que foram chamados; com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-se uns aos outros em amor, esforçando-se por guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.1–3).

4. Mas, em toda a extensão da palavra, um pacificador é aquele que, conforme tem oportunidade, “faz o bem a todos”; aquele que, cheio do amor de Deus e de toda a humanidade, não pode confinar as expressões desse amor à própria família, aos amigos, aos conhecidos, ao seu partido, ou aos da sua própria opinião — não, nem sequer aos que participam da mesma preciosa fé; mas transpõe todos esses limites estreitos, para fazer o bem a cada pessoa, para, de um modo ou de outro, manifestar o seu amor a próximos e estranhos, amigos e inimigos. Faz o bem a todos eles conforme tem oportunidade, isto é, em toda ocasião possível; “remindo o tempo” para isso, aproveitando cada oportunidade, valorizando cada hora, não perdendo momento algum em que possa beneficiar a outro. Faz o bem, não de um tipo particular, mas o bem em geral, de todo modo possível; empregando nisso todos os seus talentos de toda espécie, todos os seus poderes e faculdades do corpo e da alma, toda a sua fortuna, a sua influência, a sua reputação — desejando apenas que, quando o seu Senhor vier, possa dizer: “Muito bem, servo bom e fiel!”

5. Faz o bem, até o limite do seu poder, mesmo aos corpos de todos os homens. Alegra-se em “repartir o seu pão com o faminto” e em “cobrir o nu com uma veste”. Há algum estrangeiro? Recolhe-o e o socorre segundo as suas necessidades. Há doentes ou presos? Visita-os e presta a ajuda de que mais precisam. E tudo isso faz, não como aos homens, mas lembrando-se daquele que disse: “Sempre que fizeram isso a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram.”

6. Quanto mais se alegra, se pode fazer algum bem à alma de alguém! Esse poder, de fato, pertence a Deus. É só ele quem muda o coração, sem o que toda outra mudança é mais leve que a vaidade. Contudo, apraz àquele que opera tudo em todos socorrer o homem principalmente por meio do homem; transmitir o seu próprio poder, bênção e amor, de um homem a outro. Portanto, ainda que seja certo que “o socorro que se faz na terra é Deus mesmo quem o faz”, ninguém tem, por isso, motivo para ficar de braços cruzados na sua vinha. O pacificador não pode: está sempre trabalhando nela e, como instrumento na mão de Deus, preparando o solo para o uso do seu Mestre, ou semeando a semente do Reino, ou regando o que já foi semeado, para que talvez Deus dê o crescimento. Segundo a medida de graça que recebeu, usa toda a diligência, ou para repreender o pecador declarado, para trazer de volta os que correm de cabeça na larga estrada da perdição; ou para “dar luz aos que estão sentados nas trevas” e prestes a “perecer por falta de conhecimento”; ou para “amparar os fracos, levantar as mãos que pendem e os joelhos vacilantes”; ou para trazer de volta e sarar o que estava manco e desviado do caminho. Nem é menos zeloso em firmar os que já se esforçam por entrar pela porta estreita; em fortalecer os que estão de pé, para que “corram com perseverança a carreira que lhes está proposta”; em edificar na santíssima fé os que sabem em quem creram; em exortá-los a avivar o dom de Deus que neles há, para que, crescendo diariamente na graça, “lhes seja amplamente suprida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.

7. “Bem-aventurados” os que estão assim continuamente ocupados na obra da fé e no trabalho do amor; “porque serão chamados”, isto é, serão (um hebraísmo comum), “filhos de Deus”. Deus lhes continuará o Espírito de adoção; sim, o derramará mais abundantemente no seu coração. Abençoá-los-á com todas as bênçãos dos seus filhos. Reconhecê-los-á como filhos diante dos anjos e dos homens; “e, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo”.

III. Os perseguidos

1. Seria de imaginar que uma pessoa como a que foi acima descrita — tão cheia de genuína humildade, tão sinceramente séria, tão branda e gentil, tão livre de todo desígnio egoísta, tão dedicada a Deus e tão ativo amante dos homens — fosse o predileto da humanidade. Mas o nosso Senhor conhecia melhor a natureza humana no seu estado presente. Por isso encerra o retrato desse homem de Deus mostrando-lhe o tratamento que deve esperar no mundo: “Bem-aventurados”, diz ele, “os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus.”

2. Para entender isto plenamente, indaguemos, primeiro: quem são os que são perseguidos? E isto podemos aprender facilmente com Paulo: “Como, outrora, o que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora” (Gl 4.29). “Sim”, diz o apóstolo, “e todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). O mesmo nos ensina João: “Não se admirem, irmãos, se o mundo os odeia. Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3.13–14) — como se dissesse: os irmãos, os cristãos, não podem ser amados senão pelos que passaram da morte para a vida. E de modo expresso pelo nosso Senhor: “Se o mundo os odeia, saibam que, primeiro do que a vocês, me odiou a mim. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não são do mundo, por isso o mundo os odeia. Lembrem-se da palavra que eu lhes disse: o servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão vocês” (Jo 15.18–20). Por todas essas Escrituras aparece manifestamente quem são os perseguidos, a saber, os justos: o que “nasceu do Espírito”; “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus”; os que “passaram da morte para a vida”; os que “não são do mundo”; todos os mansos e humildes de coração, que choram por Deus, que têm fome da sua semelhança; todos os que amam a Deus e ao próximo e, por isso, conforme têm oportunidade, fazem o bem a todos.

3. Se, em segundo lugar, se pergunta por que são perseguidos, a resposta é igualmente clara e óbvia. É “por causa da justiça”; porque são justos; porque nasceram segundo o Espírito; porque “querem viver piedosamente em Cristo Jesus”; porque “não são do mundo”. Seja qual for o pretexto, esta é a causa real: sejam as suas fraquezas mais ou menos, ainda assim, se não fosse por isto, seriam tolerados, e o mundo amaria o que é seu. São perseguidos porque são pobres de espírito; isto é, diz o mundo, “almas pusilânimes, mesquinhas, covardes, que não servem para nada, impróprias para viver no mundo”; porque choram: “São criaturas tão pesadas, sombrias e melancólicas, capazes de abater o ânimo de quem quer que as veja! São verdadeiras caveiras; matam a alegria inocente e estragam a companhia por onde passam”; porque são mansos: “Tolos dóceis e passivos, próprios para serem pisados”; porque têm fome e sede de justiça: “Um bando de exaltados de cabeça quente, boquiabertos atrás não sabem do quê, não contentes com uma religião racional, mas correndo enlouquecidos atrás de arroubos e sentimentos interiores”; porque são misericordiosos, amantes de todos, amantes dos maus e ingratos: “Incentivam toda espécie de maldade; aliás, tentam as pessoas a fazer o mal pela impunidade; e homens que, é de temer, ainda têm de encontrar a própria religião, muito frouxos nos seus princípios”; porque são limpos de coração: “Criaturas sem caridade, que condenam todo o mundo, exceto os do seu próprio tipo! Miseráveis blasfemos, que pretendem fazer de Deus um mentiroso, alegando viver sem pecado!” Acima de tudo, porque são pacificadores, porque aproveitam toda oportunidade de fazer o bem a todos. Esta é a grande razão por que têm sido perseguidos em todas as eras, e o serão até a restauração de todas as coisas: “Se ao menos guardassem a sua religião para si, seria tolerável; mas é este espalhar os seus erros, este contagiar tantos outros, que não se pode suportar. Fazem tanto estrago no mundo que não deveriam mais ser tolerados. É verdade que fazem algumas coisas bastante boas; socorrem alguns dos pobres; mas isto também só é feito para ganhar mais para o seu partido, e assim, na prática, fazer ainda mais estrago!” Assim pensam e falam, com sinceridade, os homens do mundo. E quanto mais prevalece o Reino de Deus, quanto mais os pacificadores conseguem propagar a humildade, a mansidão e todas as demais disposições divinas, mais estrago se faz, na conta deles; por consequência, tanto mais se enfurecem contra os autores disso, e tanto mais veementemente os perseguirão.

4. Indaguemos, em terceiro lugar: quem são os que os perseguem? Paulo responde: “O que nasceu segundo a carne”; todo aquele que não é “nascido do Espírito”, ou, ao menos, que não deseja sê-lo; todos os que nem sequer se esforçam por “viver piedosamente em Cristo Jesus”; todos os que não “passaram da morte para a vida” e, por consequência, não podem “amar os irmãos”; “o mundo”, isto é, segundo a definição do nosso Salvador, os que “não conhecem aquele que me enviou”; os que não conhecem a Deus — o Deus que ama e perdoa — pelo ensino do seu próprio Espírito. A razão é clara: o espírito que está no mundo é diretamente oposto ao Espírito que vem de Deus. Necessariamente, pois, os que são do mundo hão de opor-se aos que são de Deus. Há entre eles a máxima contrariedade, em todas as suas opiniões, desejos, propósitos e disposições. E, até aqui, o leopardo e o cabrito não podem deitar-se juntos em paz. O orgulhoso, porque é orgulhoso, não pode senão perseguir o humilde; o leviano e frívolo, os que choram; e assim em toda outra espécie — sendo a dessemelhança de disposição (ainda que não houvesse outra) um perpétuo fundamento de inimizade. Portanto, ainda que fosse só por isso, todos os servos do diabo hão de perseguir os filhos de Deus.

5. Se se perguntar, em quarto lugar, como os perseguirão, pode-se responder, em geral: exatamente da maneira e na medida que o sábio Dispensador de tudo vê que serão mais para a sua glória, que mais tenderão ao crescimento dos seus filhos na graça e ao alargamento do seu próprio Reino. Não há ramo algum do governo de Deus sobre o mundo mais admirável do que este. O seu ouvido nunca é surdo às ameaças do perseguidor, nem ao clamor do perseguido. O seu olho está sempre aberto, e a sua mão estendida para dirigir cada circunstância, por menor que seja. Quando a tempestade começará, quão alto se erguerá, que rumo tomará, quando e como terminará, tudo é determinado pela sua infalível sabedoria. Os ímpios são apenas uma espada sua, um instrumento que ele usa como lhe apraz, e que, quando os graciosos fins da sua providência são alcançados, é lançado ao fogo. Em alguns raros momentos — como quando o cristianismo foi plantado pela primeira vez, e enquanto criava raiz na terra; e também quando a pura doutrina de Cristo começou a ser plantada de novo na nossa nação — Deus permitiu que a tempestade se erguesse alta, e os seus filhos foram chamados a resistir até ao sangue. Havia uma razão peculiar para que ele o permitisse quanto aos apóstolos: que o testemunho deles fosse ainda mais inatacável. Mas dos anais da Igreja aprendemos outra razão, bem diferente, por que ele permitiu as pesadas perseguições que surgiram nos séculos segundo e terceiro, a saber, porque “o mistério da iniquidade” de tal modo já operava, por causa das monstruosas corrupções que mesmo então reinavam na Igreja: estas Deus castigava, e ao mesmo tempo procurava sarar, por aquelas severas, mas necessárias, visitações.

6. Mas é raro que Deus permita que a tempestade se erga tão alto a ponto de tortura, morte, cadeias ou prisão. Ao passo que os seus filhos são frequentemente chamados a suportar aquelas formas mais leves de perseguição: sofrem muitas vezes o afastamento de parentes, a perda dos amigos que lhes eram como a própria alma. Sentem a verdade da palavra do seu Senhor (quanto ao efeito, embora não ao propósito da sua vinda): “Vocês pensam que vim trazer paz à terra? Não, eu lhes digo, mas antes divisão” (Lc 12.51). E daí seguir-se-á naturalmente a perda de negócios ou de emprego e, por consequência, de bens. Mas também todas essas circunstâncias estão sob a sábia direção de Deus, que reparte a cada um o que lhe é mais conveniente.

7. Mas a perseguição que acompanha todos os filhos de Deus é a que o nosso Senhor descreve nas palavras seguintes: “Bem-aventurados são vocês quando os injuriarem e os perseguirem” — perseguirem injuriando — “e, mentindo, disserem todo mal contra vocês, por minha causa.” Isto não pode faltar; é o próprio distintivo do nosso discipulado; é um dos selos da nossa vocação; é uma porção certa reservada a todos os filhos de Deus: se não a temos, somos bastardos, e não filhos. Direto por entre a má fama, tanto quanto a boa fama, corre o único caminho para o Reino. Os mansos, sérios, humildes e zelosos amantes de Deus e do próximo são de boa fama entre os seus irmãos, mas de má fama para com o mundo, que os tem e trata “como o lixo e a escória de todas as coisas”.

8. De fato, alguns supuseram que, antes que se cumpra a plenitude dos gentios, o escândalo da cruz cessará; que Deus fará com que os cristãos sejam estimados e amados até por aqueles que ainda estão nos seus pecados. E certo é que, mesmo agora, ele às vezes suspende tanto o desprezo quanto a ferocidade dos homens: “faz que até os inimigos de um homem tenham paz com ele por um tempo” e lhe dá favor com os seus mais ferozes perseguidores. Mas, pondo de lado esse caso excepcional, o escândalo da cruz ainda não cessou; antes, ainda se pode dizer: “Se eu agradasse aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1.10). Não dê ninguém, portanto, ouvidos àquela agradável sugestão (agradável, sem dúvida, à carne e ao sangue) de que os maus apenas fingem odiar e desprezar os bons, mas, no fundo do coração, os amam e estimam. Não é assim: podem servir-se deles às vezes, mas é para o próprio proveito. Podem confiar neles, pois sabem que os seus caminhos não são como os dos outros homens. Mas, ainda assim, não os amam — a não ser na medida em que o Espírito de Deus esteja lutando com eles. As palavras do nosso Salvador são expressas: “Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não são do mundo, por isso o mundo os odeia.” Sim (pondo de lado as exceções que a graça preveniente ou a peculiar providência de Deus possa fazer), o mundo os odeia tão cordial e sinceramente quanto jamais odiou o seu Mestre.

9. Resta apenas indagar: como devem os filhos de Deus proceder quanto à perseguição? E, primeiro, não devem, consciente ou deliberadamente, trazê-la sobre si mesmos. Isto é contrário tanto ao exemplo quanto ao conselho do nosso Senhor e de todos os seus apóstolos, que nos ensinam não só a não buscá-la, mas a evitá-la, tanto quanto pudermos sem ferir a consciência, sem abrir mão de parte alguma daquela justiça que devemos preferir à própria vida. Assim diz o nosso Senhor expressamente: “Quando os perseguirem numa cidade, fujam para outra” — o que é, de fato, quando se pode fazer, o modo mais irrepreensível de evitar a perseguição.

10. Contudo, não pense que sempre poderá evitá-la, seja por esse ou por qualquer outro meio. Se alguma vez essa vã imaginação se insinuar no seu coração, ponha-a em fuga com aquela séria advertência: “Lembrem-se da palavra que eu lhes disse: o servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão vocês.” “Sejam prudentes como as serpentes e símplices como as pombas.” Mas isto o protegerá da perseguição? Não, a menos que você tenha mais sabedoria do que o seu Mestre, ou mais inocência do que o Cordeiro de Deus. Nem deseje evitá-la, escapar dela por completo; pois, se o fizer, você não é dele. Se escapar da perseguição, escapará da bênção — a bênção dos que são perseguidos por causa da justiça. Se você não é perseguido por causa da justiça, não pode entrar no Reino dos céus. “Se com ele sofremos, também com ele reinaremos; mas, se o negarmos, também ele nos negará.”

11. Antes, pelo contrário, “alegrem-se e exultem” quando os homens os perseguirem por causa dele; quando os perseguirem injuriando-os e, “mentindo, dizendo todo mal contra vocês” — o que não deixarão de misturar com toda espécie de perseguição, pois precisam denegri-los para se desculparem. “Pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês!” — aqueles que foram os mais eminentemente santos de coração e de vida; sim, e todos os justos que houve desde o princípio do mundo. Alegrem-se, porque também por essa marca vocês sabem a quem pertencem. E porque “é grande o seu galardão nos céus” — o galardão comprado pelo sangue da aliança e gratuitamente concedido em proporção aos seus sofrimentos, tanto quanto à sua santidade de coração e de vida. Exultem, sabendo que “estas leves aflições, que são momentâneas, produzem para vocês um peso eterno de glória, acima de toda medida”.

12. Entretanto, que nenhuma perseguição os desvie do caminho da humildade e da mansidão, do amor e da beneficência. “Vocês ouviram” de fato “que foi dito: Olho por olho, dente por dente” (Mt 5.38); e os seus miseráveis mestres, com base nisso, permitiram que vocês se vingassem, retribuindo mal com mal. “Eu, porém, lhes digo que não resistais ao perverso” — não assim, não retribuindo na mesma moeda. Antes de fazer isto, “se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E, se alguém quiser levá-lo aos tribunais e tirar-lhe a túnica, deixe também a capa. E, se alguém o obrigar a andar uma milha, vá com ele duas.” Tão invencível seja a sua mansidão. E seja o seu amor à altura dela. “Dê a quem lhe pede e não volte as costas ao que deseja que você lhe empreste.” Apenas não dê o que é de outro, o que não é seu. Portanto: (1) tenha o cuidado de não dever nada a ninguém, pois o que você deve não é seu, mas de outro; (2) proveja aos da sua própria casa — isto também Deus lhe requer; e o que é necessário para sustentá-los em vida e piedade também não é seu; então, (3) dê ou empreste tudo o que restar, dia após dia, ou ano após ano; apenas, primeiro, visto que não pode dar ou emprestar a todos, lembre-se da família da fé.

13. A mansidão e o amor que devemos sentir, a bondade que devemos mostrar aos que nos perseguem por causa da justiça, o nosso bendito Senhor os descreve ainda nos versículos seguintes. Ó, que fossem gravados em nossos corações! “Vocês ouviram que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5.43) — Deus, de fato, dissera apenas a primeira parte, “Amarás o teu próximo”; os filhos do diabo acrescentaram a última, “e odiarás o teu inimigo”. “Eu, porém, lhes digo”: (1) “Amem os seus inimigos.” Cuidem de nutrir uma terna boa vontade para com os que são mais amargos de espírito contra vocês, que lhes desejam todo mal. (2) “Bendigam os que os amaldiçoam.” Há alguns cuja amargura de espírito irrompe em palavras amargas, que estão continuamente amaldiçoando e injuriando vocês quando presentes, e “dizendo todo mal contra vocês” quando ausentes? Tanto mais os bendigam: no convívio com eles, usem toda a brandura e doçura de linguagem. Repreendam-nos repetindo diante deles uma lição melhor, mostrando-lhes como deveriam ter falado. E, ao falar deles, digam todo o bem que puderem, sem violar as regras da verdade e da justiça. (3) “Façam o bem aos que os odeiam.” Que as suas ações mostrem que vocês são tão reais no amor quanto eles no ódio. Retribuam bem por mal. “Não se deixem vencer do mal, mas vençam o mal com o bem.” (4) Se nada mais puderem fazer, ao menos “orem pelos que os maltratam e os perseguem”. Disto vocês nunca poderão ser impedidos; nem toda a malícia ou violência deles poderá estorvá-los. Derramem a sua alma a Deus, não só pelos que fizeram isto uma vez e agora se arrependem — isto é coisa pequena: “Se teu irmão, sete vezes ao dia, se voltar a ti, dizendo: Estou arrependido” (Lc 17.4), isto é, se, após recaídas tão numerosas, ele lhe der razão para crer que está real e inteiramente mudado, então você o perdoará, de modo a confiar nele, a recebê-lo no seu seio, como se ele nunca tivesse pecado contra você. Mas orem, lutem com Deus, pelos que não se arrependem, que agora os maltratam e os perseguem. Até aí perdoem-nos, “não até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.22). Quer se arrependam, quer não — sim, ainda que pareçam cada vez mais longe disso —, mostrem-lhes esta prova de bondade: “para que sejam filhos” — para que se mostrem os filhos genuínos — “do seu Pai que está nos céus”, que mostra a sua bondade concedendo tais bênçãos, das quais são capazes, até aos seus mais obstinados inimigos, “que faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir a chuva sobre justos e injustos”. “Pois, se amarem os que os amam, que recompensa terão? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mt 5.46) — os que não professam religião alguma, que vocês mesmos reconhecem estar sem Deus no mundo. “E, se saudarem” (mostrarem bondade em palavra ou ação) “apenas os seus irmãos”, os seus amigos ou parentes, “que fazem de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mt 5.47). Não; antes, sigam um modelo melhor do que eles. Na paciência, na longanimidade, na misericórdia, na beneficência de toda espécie, para com todos, mesmo os seus mais amargos perseguidores, “sejam vocês”, cristãos, “perfeitos” — em espécie, ainda que não em grau — “como perfeito é o seu Pai celestial” (Mt 5.48).

IV. Conclusão

Eis o cristianismo na sua forma nativa, tal como entregue pelo seu grande Autor! Esta é a genuína religião de Jesus Cristo! Assim ele a apresenta àquele cujos olhos foram abertos. Veja um retrato de Deus, na medida em que ele é imitável pelo homem! Um retrato traçado pela própria mão de Deus: “Vejam, ó desprezadores, admirem-se e pereçam!” Ou antes, admirem-se e adorem! Antes clamem: “É esta a religião de Jesus de Nazaré, a religião que eu perseguia? Que eu não seja mais achado sequer a lutar contra Deus. Senhor, que queres que eu faça?” Que beleza aparece no todo! Que justa simetria! Que exata proporção em cada parte! Quão desejável é a felicidade aqui descrita! Quão venerável, quão amável a santidade! Este é o espírito da religião, a sua quintessência. Estes são, de fato, os fundamentos do cristianismo. Ó, que não sejamos apenas ouvintes dele! — “semelhantes ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto e, tendo-se contemplado, sai e, logo, se esquece de como era” (Tg 1.23–24). Não; antes, fitemos firmemente “esta lei perfeita, a lei da liberdade, e nela perseveremos”. Não descansemos enquanto cada linha dela não estiver transcrita em nosso próprio coração. Vigiemos, oremos, creiamos, amemos e “combatamos pela vitória”, até que cada parte dela apareça em nossa alma, ali gravada pelo dedo de Deus; até que sejamos “santos como é santo aquele que nos chamou” e “perfeitos como perfeito é o nosso Pai que está nos céus”!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os sermões