SERMÃO 35
Como não anular a lei pela fé
Primeiro de dois discursos de Wesley sobre a lei e a fé.
“Anulamos, pois, a lei por meio da fé? De modo nenhum! Antes, confirmamos a lei.”
(Rm 3.31, NAA)Antes de ler
Continuação natural do sermão anterior. Se lá Wesley mostrou o que a lei é, aqui ele combate o antinomismo — o erro de usar a graça para dispensar a santidade. Ele expõe os três modos mais comuns de "anular a lei pela fé": primeiro, os pregadores que deixam de pregar a lei (e Wesley prova, com o exemplo de Paulo em Atos, que pregar Cristo inclui pregar toda a sua palavra, mandamentos e advertências); segundo, a doutrina de que a fé torna a santidade desnecessária; e terceiro — o mais sutil e comum — o anulá-la na prática, vivendo como se a graça nos dispensasse da obediência. Este terceiro ponto é um exame de consciência incômodo e atualíssimo, dirigido a quem, "estando debaixo da graça", passou a permitir-se o que não ousava "debaixo da lei".
— Bispo Ildo Mello
1. Paulo, tendo estabelecido no início desta epístola a sua proposição geral — a saber, que “o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” —, prossegue mostrando que não há outro caminho debaixo do céu pelo qual os homens possam ser salvos. Fala particularmente da salvação da culpa do pecado, que ele comumente chama de justificação. E, depois de provar amplamente que todos os homens tinham necessidade dela, conclui: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.28).
2. Era fácil prever uma objeção que se poderia fazer, e que de fato se fez em todas as eras: a de que dizer que somos justificados independentemente das obras da lei é abolir a lei. O apóstolo, sem entrar numa disputa formal, simplesmente nega a acusação: “Anulamos, pois, a lei por meio da fé? De modo nenhum! Antes, confirmamos a lei.”
3. A estranha imaginação de alguns — de que Paulo, ao dizer “o homem é justificado independentemente das obras da lei”, se refere apenas à lei cerimonial — é abundantemente refutada por estas mesmas palavras. Pois terá Paulo confirmado a lei cerimonial? É evidente que não. Ele de fato anulou aquela lei por meio da fé, e abertamente o declarou. Era só da lei moral que ele podia dizer com verdade: “Não a anulamos, mas antes a confirmamos, por meio da fé.”
4. Mas nem todos os homens são deste parecer. Muitos, em todas as eras da Igreja, até entre os que traziam o nome de cristãos, sustentaram que “a fé, uma vez entregue aos santos”, foi destinada a anular toda a lei. Não pouparam a lei moral mais do que a cerimonial, mas queriam “despedaçar”, por assim dizer, “as duas diante do Senhor”, mantendo veementemente: “Se estabelecerdes qualquer lei, Cristo de nada vos aproveitará; separados estais de Cristo; da graça decaístes.”
5. Mas será o zelo desses homens segundo o conhecimento? Terão observado a conexão entre a lei e a fé — e que, considerando a estreita conexão entre elas, destruir uma é, de fato, destruir ambas? Que abolir a lei moral é, na verdade, abolir a fé e a lei juntas, por não deixar meio apropriado nem de nos trazer à fé, nem de avivar esse dom de Deus na nossa alma? Convém, portanto, a todos os que desejam ou chegar a Cristo, ou andar naquele a quem receberam, atentar em como “anulam a lei por meio da fé”. Para nos guardar eficazmente disto, indaguemos, primeiro, quais são os modos mais usuais de anular a lei por meio da fé; e, segundo, como podemos seguir o apóstolo e, pela fé, confirmar a lei.
I. Não pregar a lei
1. O modo de um pregador anular a lei de um só golpe é não pregá-la de modo algum. Isto é exatamente o mesmo que apagá-la dos oráculos de Deus — especialmente quando é feito de propósito, quando se faz regra não pregar a lei, e a própria expressão “pregador da lei” é usada como termo de opróbrio, como se significasse pouco menos do que um inimigo do evangelho. Tudo isto procede da mais profunda ignorância da natureza, das propriedades e do uso da lei; e prova que os que assim agem, ou não conhecem a Cristo, são totalmente estranhos à fé viva, ou, ao menos, são apenas recém-nascidos em Cristo.
2. O grande argumento deles é este: que pregar o evangelho — isto é, segundo o seu juízo, falar de nada senão dos sofrimentos e méritos de Cristo — atende a todos os fins da lei. Mas isto negamos por completo. Não atende ao primeiro fim da lei, a saber, convencer os homens do pecado, despertar os que ainda dormem à beira do inferno. Pode ter havido, aqui e ali, um caso excepcional. Um em mil pode ter sido despertado pelo evangelho; mas isto não é regra geral. O método ordinário de Deus é convencer os pecadores pela lei, e só por ela. Nem temos, quanto à natureza da coisa, fundamento para esperar outra coisa. “Os sãos”, como o próprio Senhor observa, “não precisam de médico, e sim os doentes.” É absurdo, portanto, oferecer um médico aos que estão sãos, ou que ao menos se imaginam sãos. Você deve primeiro convencê-los de que estão doentes; do contrário, não lhe agradecerão o trabalho. Igualmente absurdo é oferecer Cristo àqueles cujo coração está inteiro, nunca tendo sido quebrantado. É, no sentido próprio, “lançar pérolas aos porcos”.
3. “Mas o apóstolo Paulo não diz ‘pregamos Cristo crucificado’ (1Co 1.23), e ‘não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor’ (2Co 4.5)?” Consentimos em pôr a causa neste ponto: em seguir as suas pisadas, em imitar o seu exemplo. Pregue você exatamente como Paulo pregou, e a disputa acaba. Pois, embora tenhamos certeza de que ele pregou Cristo de modo tão perfeito quanto o maior dos apóstolos, contudo, quem pregou a lei mais do que Paulo? Portanto, ele não pensava que o evangelho atendesse ao mesmo fim.
4. O primeiríssimo sermão de Paulo que está registrado conclui com estas palavras: “Por ele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés. Vede, pois, que não sobrevenha o que está dito nos Profetas: Olhai, ó desprezadores, admirai-vos e desaparecei; porque realizo uma obra em vossos dias, obra que de modo nenhum acreditaríeis, se alguém vo-la contasse” (At 13.39–41). Ora, é manifesto que tudo isto é pregar a lei, no sentido em que você entende o termo, ainda que grande parte dos seus ouvintes fossem judeus ou prosélitos religiosos. Ele primeiro os lembra de que não podiam ser justificados pela lei de Moisés, mas só pela fé em Cristo; e depois severamente os ameaça com os juízos de Deus — o que é, no sentido mais forte, pregar a lei.
5. No seu discurso seguinte, aos pagãos em Listra (At 14.15ss.), não encontramos sequer o nome de Cristo: todo o teor dele é que “se convertessem desses ídolos vãos ao Deus vivo”. Ora, confesse a verdade: você não acha que, se tivesse estado ali, poderia ter pregado muito melhor do que ele? Não me admiraria se você pensasse também que o pregar tão mal foi o que ocasionou o ter sido tão maltratado; e que o ser apedrejado foi um justo juízo sobre ele por não pregar Cristo! Ao carcereiro, de fato, quando ele “se precipitou para dentro e, trêmulo, se prostrou diante de Paulo e Silas, dizendo: Senhores, que devo fazer para que seja salvo?”, ele imediatamente disse: “Crê no Senhor Jesus” (At 16.29–31); e, no caso de alguém tão profundamente convicto do pecado, quem não teria dito o mesmo? Mas aos homens de Atenas você o vê falando de modo bem diferente, repreendendo a superstição, a ignorância e a idolatria deles, e movendo-os fortemente ao arrependimento, pela consideração de um juízo futuro e da ressurreição dos mortos (At 17.24–31). Igualmente, quando Félix mandou chamar Paulo, com o propósito de “ouvi-lo a respeito da fé em Cristo”, em vez de pregar Cristo no seu sentido (o que provavelmente teria levado o governador ou a zombar, ou a blasfemar), “dissertou sobre a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro”, até que Félix (endurecido como era) “ficou aterrado” (At 24.24–25). Vá você e siga as suas pisadas. Pregue Cristo ao pecador descuidado, dissertando “sobre a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro”!
6. Se você disser “mas ele pregou Cristo de modo diferente nas suas epístolas”, respondo: (1) ali ele não pregou, no sentido em que falamos, pois pregar, na presente questão, significa falar diante de uma congregação; (2) as suas epístolas são dirigidas, não a incrédulos, mas “aos santos de Deus” em Roma, Corinto, Filipos e outros lugares; e, sem dúvida, ele falaria mais de Cristo a estes do que aos que estavam sem Deus no mundo; e, contudo, (3) cada uma delas é cheia da lei, até as epístolas aos Romanos e aos Gálatas, em ambas as quais ele faz o que você chama de “pregar a lei”, e isso tanto a crentes quanto a incrédulos. Daqui fica claro que você não sabe o que é pregar Cristo, no sentido do apóstolo. Pois, sem dúvida, Paulo julgava estar pregando Cristo, tanto a Félix quanto em Antioquia, Listra e Atenas. Pregar Cristo é pregar tudo o que ele revelou, seja no Antigo, seja no Novo Testamento; de modo que você está realmente pregando Cristo quando diz “os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus”, tanto quanto quando diz “eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”
7. Considere bem isto: que pregar Cristo é pregar todas as coisas que Cristo falou — todas as suas promessas, todas as suas advertências e mandamentos, tudo o que está escrito no seu livro; e então você saberá como pregar Cristo sem anular a lei. “Mas não acompanha a maior bênção aqueles discursos em que pregamos particularmente os méritos e o sofrimento de Cristo?” Provavelmente, quando pregamos a uma congregação de pranteantes ou de crentes, estes serão acompanhados da maior bênção, porque tais discursos são peculiarmente adequados ao seu estado. Mas isto nem sempre é a maior bênção. Às vezes posso receber uma bênção bem maior por um discurso que me corta o coração e me humilha até o pó. Nem receberia aquele consolo se pregasse, ou ouvisse, discursos apenas sobre os sofrimentos de Cristo. Estes, pela constante repetição, perderiam a sua força e se tornariam cada vez mais insossos e mortos. De modo que pregar Cristo assim deve, com o tempo, anular o evangelho tanto quanto a lei.
II. Ensinar que a fé dispensa a santidade
1. Um segundo modo de anular a lei por meio da fé é ensinar que a fé torna desnecessária a santidade. Isto se divide em mil veredas menores, e muitos há que andam nelas. De fato, poucos escapam por completo dela; poucos, dos que estão convencidos de que somos salvos pela fé, deixam de ser, mais cedo ou mais tarde, mais ou menos, desviados para este atalho. Todos são atraídos para ele se supõem, ainda que não seja juízo assentado, ou (1) que a santidade é menos necessária agora do que era antes da vinda de Cristo; ou (2) que um grau menor dela é necessário; ou (3) que ela é menos necessária aos crentes do que aos outros. Sim, e também todos os que, embora o seu juízo esteja correto em geral, pensam que podem tomar mais liberdade em casos particulares do que poderiam antes de crer. De fato, o uso do termo “liberdade” dessa maneira — para liberdade da obediência ou da santidade — mostra de imediato que o seu juízo está pervertido.
2. O primeiro argumento dos que ensinam isto expressamente é que estamos agora sob a aliança da graça, não das obras; e, portanto, já não estamos sob a necessidade de praticar as obras da lei. Mas quem jamais esteve sob a aliança das obras? Ninguém, senão Adão antes da queda. Ele estava plena e propriamente sob aquela aliança que exigia obediência perfeita e universal, como a única condição de aceitação, e não deixava lugar para perdão à menor transgressão. Mas nenhum outro homem esteve jamais sob esta, nem judeu nem gentio; nem antes de Cristo, nem depois. Todos os seus filhos estavam e estão sob a aliança da graça. O modo da sua aceitação é este: a livre graça de Deus, pelos méritos de Cristo, dá perdão aos que creem; que creem com tal fé que, atuando pelo amor, produz toda obediência e santidade.
3. O caso não é, portanto, como você supõe — que os homens estivessem outrora mais obrigados a obedecer a Deus, ou a praticar as obras da sua lei, do que estão agora. Teríamos estado obrigados, se estivéssemos sob a aliança das obras, a praticar essas obras antes da nossa aceitação. Ao passo que agora todas as boas obras, embora tão necessárias como sempre, não são anteriores à nossa aceitação, mas consequentes a ela. Portanto, a natureza da aliança da graça não lhe dá fundamento algum para pôr de lado qualquer instância ou grau de obediência, qualquer parte ou medida de santidade.
4. “Mas não somos justificados pela fé, independentemente das obras da lei?” Sem dúvida que somos — independentemente das obras, seja da lei cerimonial, seja da moral. E quisera Deus que todos os homens estivessem convencidos disto! Preveniria inúmeros males; o antinomismo em particular. Pois, de modo geral, são os fariseus que fazem os antinomistas. Correndo para um extremo tão palpavelmente contrário à Escritura, dão ocasião a outros de correrem para o oposto. Mas a verdade está entre ambos. Somos, sem dúvida, justificados pela fé. Esta é a pedra angular de todo o edifício cristão. Somos justificados independentemente das obras da lei, como condição prévia alguma da justificação; mas elas são fruto imediato daquela fé pela qual somos justificados. De modo que, se as boas obras não se seguem à nossa fé — sim, toda santidade interior e exterior —, é claro que a nossa fé nada vale; ainda estamos nos nossos pecados. Portanto, que sejamos justificados pela fé, mesmo pela nossa fé sem obras, não é fundamento algum para anular a lei por meio da fé, ou para imaginar que a fé seja uma dispensa de qualquer tipo ou grau de santidade.
5. “Mas Paulo não diz expressamente: ‘Àquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça’? E não se segue daí que a fé está, para o crente, no lugar da justiça? Mas, se a fé está no lugar da justiça ou da santidade, que necessidade há também desta?” Isto, é preciso reconhecer, vai direto ao ponto, e é, de fato, o principal pilar do antinomismo. E, contudo, não precisa de resposta longa. Admitimos: (1) que Deus justifica o ímpio, aquele que, até aquela hora, é totalmente ímpio; (2) que justifica o ímpio que não trabalha, que, até aquele momento, não pratica boa obra alguma, nem pode; pois a árvore má não pode dar bons frutos; (3) que o justifica pela fé somente, sem nenhuma bondade ou justiça precedente; e (4) que a fé lhe é então atribuída como justiça — a saber, como justiça precedente; isto é, Deus, pelos méritos de Cristo, aceita aquele que crê como se ele já houvesse cumprido toda a justiça. Mas o que tem tudo isto a ver com o seu ponto? O apóstolo não diz, nem aqui nem em outro lugar, que essa fé lhe é atribuída como justiça subsequente. Ele de fato ensina que não há justiça antes da fé; mas onde ensina que não há nenhuma depois dela? Afirma que a santidade não pode preceder a justificação; mas não, que ela não precise segui-la. Paulo, portanto, não lhe dá pretexto algum para anular a lei, ensinando que a fé dispensa a necessidade da santidade.
III. Anular a lei na prática
1. Há ainda outro modo de anular a lei por meio da fé, mais comum do que os anteriores. E é fazê-lo praticamente; anulá-la de fato, ainda que não em princípio; viver como se a fé fosse destinada a dispensar-nos da santidade. Quão seriamente o apóstolo nos previne disto, naquelas conhecidas palavras: “E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo nenhum!” (Rm 6.15) — cautela que é necessário considerar a fundo, porque é da máxima importância.
2. Estar “debaixo da lei” pode significar: (1) estar obrigado a observar a lei cerimonial; (2) estar obrigado a conformar-se a toda a instituição mosaica; (3) estar obrigado a guardar toda a lei moral como condição da nossa aceitação com Deus; e (4) estar sob a ira e a maldição de Deus, sob sentença de morte eterna, sob um senso de culpa e condenação, cheio de horror e de temor servil.
3. Ora, embora o crente não esteja “sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo”, contudo, desde o momento em que crê, ele não está “debaixo da lei” em nenhum dos sentidos anteriores. Pelo contrário, está “debaixo da graça”, sob uma dispensação mais benigna e graciosa. Como já não está sob a lei cerimonial, nem sob a instituição mosaica; como não está obrigado a guardar sequer a lei moral como condição da sua aceitação — assim é livrado da ira e da maldição de Deus, de todo senso de culpa e condenação, e de todo aquele horror e temor da morte e do inferno pelo qual, toda a sua vida anterior, estivera sujeito à escravidão. E agora presta (o que, enquanto “debaixo da lei”, não podia fazer) uma obediência voluntária e universal. Obedece, não pelo motivo do temor servil, mas por um princípio mais nobre — a saber, a graça de Deus reinando no seu coração e fazendo com que todas as suas obras sejam feitas em amor.
4. E daí? Será este princípio evangélico de ação menos poderoso do que o legal? Seremos menos obedientes a Deus por amor filial do que éramos por temor servil? É de temer que este não seja caso raro; que este antinomismo prático, este modo despercebido de anular a lei por meio da fé, não tenha infectado milhares de crentes. Não o infectou a você? Examine-se com honestidade e de perto. Você não faz agora o que não ousaria ter feito quando estava “debaixo da lei”, ou (como comumente dizemos) sob convicção? Por exemplo: você não se permitia então, na comida, senão o necessário, e do tipo mais barato. Não se permite agora um pouco mais? Ó, acautele-se de “pecar porque não está debaixo da lei, e sim da graça!”
5. Quando você estava sob convicção, não ousava satisfazer em grau algum a concupiscência dos olhos. Não faria nada, grande ou pequeno, só para satisfazer a curiosidade. Considerava apenas o asseio e a necessidade, ou, no máximo, uma conveniência muito moderada, seja na mobília, seja no vestuário; o supérfluo e o requinte de todo tipo, bem como a elegância da moda, eram para você um horror e uma abominação. Ainda o são? A sua consciência está tão terna agora, nessas coisas, quanto estava então? Ou você não retomou o que uma vez pusera de lado, e o que então não podia usar sem ferir a consciência? E não aprendeu a dizer: “Ó, já não sou tão escrupuloso”? Quisera Deus que fosse! Então você não pecaria assim, “porque não está debaixo da lei, e sim da graça!”
6. Você também era, outrora, escrupuloso em elogiar alguém na sua cara; e ainda mais em permitir que alguém o elogiasse. Era uma punhalada no coração; você não a suportava; buscava a honra que vem só de Deus. Não suportava tal conversa, nem qualquer conversa que não fosse boa para edificação. Toda conversa vã, todo discurso frívolo, você abominava; odiava e temia, profundamente cônscio do valor do tempo, de cada precioso e fugaz momento. Do mesmo modo, temia e abominava o gasto ocioso, valorizando o seu dinheiro só um pouco menos que o seu tempo. Você olha agora o louvor como veneno mortal, que não pode dar nem receber senão com perigo da alma? Ainda teme e abomina toda conversa que não tende à edificação, e trabalha por aproveitar cada momento? Não está você menos cuidadoso quanto ao gasto, tanto de dinheiro quanto de tempo? Ai! Como aquilo “que devia ser para a sua saúde” lhe “serviu de ocasião de queda”! Como você “pecou porque não estava debaixo da lei, e sim da graça!”
7. Longe de você continuar assim a “converter a graça de Deus em libertinagem”! Ó, lembre-se de quão clara e forte convicção você teve, um dia, a respeito de todas essas coisas! E, ao mesmo tempo, você estava plenamente certo de quem vinha aquela convicção. O mundo lhe dizia que você estava numa ilusão; mas você sabia que era a voz de Deus. Nessas coisas você não era escrupuloso demais então; mas agora não é escrupuloso o bastante. Deus o manteve por mais tempo naquela escola dolorosa, para que você aprendesse aquelas grandes lições mais perfeitamente. E você já as esqueceu? Ó, recorde-as antes que seja tarde demais! Sofreu tantas coisas em vão? Agora use a convicção sem a dor! Pratique a lição sem a vara! Não pese menos com você agora a misericórdia de Deus do que pesou antes a sua ardente indignação. É o amor um motivo menos poderoso do que o medo? Se não, seja regra invariável: “Nada farei agora que estou ‘debaixo da graça’, que não ousaria ter feito quando estava ‘debaixo da lei’.”
8. Não posso concluir este ponto sem exortá-lo a examinar-se também quanto aos pecados de omissão. Você está tão limpo destes, agora que “está debaixo da graça”, quanto estava quando “debaixo da lei”? Quão diligente você era então em ouvir a palavra de Deus! Negligenciava alguma oportunidade? Não jejuava então muitas vezes? Não estava muito em oração, mesmo frio e pesado como era, enquanto pendia sobre a boca do inferno? Não falava, e não poupava, mesmo por um Deus desconhecido? Não pleiteava com ousadia a causa dele, repreendendo os pecadores e confessando a verdade diante de uma geração adúltera? E é você agora um crente em Cristo? Tem a fé que vence o mundo? Como! E é menos zeloso pelo seu Mestre agora do que era quando não o conhecia? Menos diligente no jejum, na oração, no ouvir a sua palavra, no chamar pecadores a Deus? Ó, arrependa-se! Veja e sinta a sua grave perda! Lembre-se de onde caiu! Chore a sua infidelidade! Agora seja zeloso e pratique as primeiras obras; para que, se você continuar a “anular a lei por meio da fé”, Deus não o corte e lhe designe a sua porção com os incrédulos!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.