SERMÃO 39

O espírito católico

Um dos sermões mais amados de Wesley — sobre a unidade no amor.

2Rs 10.15, NAA ⏱ 26 min de leituraIgreja, unidade e missão

“Partindo dali, Jeú encontrou Jonadabe, filho de Recabe, que lhe vinha ao encontro; saudou-o e lhe perguntou: Tens o coração sincero para comigo, como o meu para contigo? Respondeu Jonadabe: Tenho. Então, se tens, disse Jeú, dá-me a mão.”

(2Rs 10.15, NAA)

Antes de ler

Uma nota sobre o título: "católico" aqui não significa "romano", mas o seu sentido original — universal. O "espírito católico" é o espírito do amor universal. Este é um dos textos mais preciosos de Wesley, e talvez o mais oportuno para a nossa época dividida. A partir do encontro de Jeú e Jonadabe, ele constrói uma teologia da unidade cristã que não exige uniformidade: não podemos pensar todos do mesmo modo, mas podemos amar do mesmo modo. Wesley distingue com rigor o espírito católico da indiferença: não é relativismo doutrinário (que ele chama de "cria do inferno"), nem indiferença ao culto ou à igreja. Pelo contrário, é o homem firme nas suas convicções e apegado à sua congregação que, justamente por isso, tem o coração alargado para todos os que amam a Deus. A pergunta que resume tudo — "tens o coração sincero, como o meu?" — vale mais que mil concordâncias de opinião. Ao final, incluí o hino "Amor católico", de Charles Wesley, que acompanha o sermão em algumas edições.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Admite-se, até pelos que não pagam esta grande dívida, que o amor é devido a toda a humanidade — trazendo a lei régia, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, a sua própria evidência a todos os que a ouvem; e isso não segundo a miserável interpretação que lhe davam os zelotes de outrora, “Amarás o teu próximo”, teu parente, conhecido, amigo, “e odiarás o teu inimigo”; não é assim: “Eu, porém, vos digo”, disse o nosso Senhor, “amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que vos torneis filhos”, e assim apareçais a toda a humanidade, “do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir a chuva sobre justos e injustos”.

2. Mas é certo que há um amor peculiar que devemos aos que amam a Deus. Assim Davi: “Quanto aos santos que há na terra, eles são os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer.” E assim um maior do que ele: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34–35). É esse o amor sobre o qual o apóstolo João tão frequente e fortemente insiste: “Esta”, diz ele, “é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros” (1Jo 3.11). “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos”, se o amor a isso nos chamar, “dar a nossa vida pelos irmãos” (1Jo 3.16). E ainda: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.7–8). “Não que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos também amar uns aos outros” (1Jo 4.10–11).

3. Todos aprovam isto; mas será que todos o praticam? A experiência diária mostra o contrário. Onde estão até os cristãos que “se amam uns aos outros como ele nos ordenou”? Quantos estorvos há no caminho! Os dois grandes estorvos gerais são: primeiro, que eles não podem todos pensar do mesmo modo; e, por consequência disto, segundo, não podem todos andar do mesmo modo, mas, em vários pontos menores, a sua prática há de diferir na proporção da diferença dos seus pareceres.

4. Mas, embora uma diferença de opiniões ou de modos de culto possa impedir uma inteira união exterior, precisa ela impedir a nossa união no afeto? Ainda que não possamos pensar do mesmo modo, não podemos amar do mesmo modo? Não podemos ser de um só coração, ainda que não sejamos de uma só opinião? Sem dúvida alguma, podemos. Nisto todos os filhos de Deus podem unir-se, apesar dessas diferenças menores. Permanecendo estas como estão, eles podem estimular-se uns aos outros no amor e nas boas obras.

5. Certamente, neste respeito, o exemplo do próprio Jeú, por mais misto que fosse o seu caráter, é bem digno tanto da atenção quanto da imitação de todo cristão sério. “Partindo dali, encontrou Jonadabe, filho de Recabe, que lhe vinha ao encontro; saudou-o e lhe perguntou: Tens o coração sincero para comigo, como o meu para contigo? Respondeu Jonadabe: Tenho. Então, se tens, dá-me a mão.” O texto naturalmente se divide em duas partes: primeiro, uma pergunta proposta por Jeú a Jonadabe: “Tens o coração sincero para comigo, como o meu para contigo?”; segundo, uma oferta feita quando Jonadabe respondeu “Tenho”: “Se tens, dá-me a mão.”

I. A pergunta: “Tens o coração sincero, como o meu?”

1. A primeiríssima coisa que podemos observar nestas palavras é que aqui não há indagação alguma sobre as opiniões de Jonadabe. E, contudo, é certo que ele sustentava algumas muito incomuns, aliás, bem peculiares a si mesmo; e algumas que tinham estreita influência sobre a sua prática, e às quais ele dava tanto peso que as impôs aos filhos dos seus filhos, à sua mais distante posteridade. Isto é evidente pelo relato dado por Jeremias muitos anos após a sua morte: os recabitas recusaram-se a beber vinho, dizendo: “Não beberemos vinho, porque Jonadabe, filho de Recabe, nosso pai, nos ordenou, dizendo: Nunca jamais bebereis vinho, nem vós, nem vossos filhos; nem edificareis casa, nem semeareis semente, nem plantareis vinha, nem a possuireis; mas habitareis em tendas todos os vossos dias… E nós temos obedecido e feito conforme tudo quanto nos ordenou Jonadabe, nosso pai” (Jr 35.6–10).

2. E, contudo, Jeú (embora pareça ter sido seu modo, tanto nas coisas seculares quanto religiosas, agir com ímpeto furioso) não se ocupa de modo algum com nenhuma dessas coisas, mas deixa Jonadabe abundar no seu próprio parecer. E nenhum dos dois parece ter causado ao outro a menor perturbação a respeito das opiniões que sustentava.

3. É bem possível que muitos homens de bem também hoje sustentem opiniões peculiares; e alguns deles podem ser tão singulares nisso quanto o foi Jonadabe. E é certo que, enquanto conhecemos apenas em parte, nem todos os homens verão todas as coisas do mesmo modo. É consequência inevitável da presente fraqueza e limitação do entendimento humano que vários homens sejam de vários pareceres, tanto na religião quanto na vida comum. Assim foi desde o princípio do mundo, e assim será “até a restauração de todas as coisas”.

4. Aliás, mais: embora todo homem necessariamente creia que toda opinião particular que sustenta é verdadeira (pois crer que uma opinião não é verdadeira é o mesmo que não a sustentar), contudo, nenhum homem pode estar seguro de que todas as suas próprias opiniões, tomadas em conjunto, são verdadeiras. Aliás, todo homem que pensa tem a certeza de que não o são, visto que errar é humano: “Ignorar muitas coisas, e equivocar-se em algumas, é a condição necessária da humanidade.” Ele tem consciência, portanto, de que este é o seu próprio caso. Sabe, em geral, que ele mesmo se equivoca; embora em que pontos particulares se equivoca, talvez não possa saber.

5. Digo “talvez não possa saber”; pois quem pode dizer até onde se pode estender a ignorância invencível — ou (o que dá no mesmo) o preconceito invencível, que muitas vezes fica tão fixado em mentes tenras que depois é impossível arrancar o que lançou raiz tão profunda? E quem pode dizer, a menos que conhecesse cada circunstância que a acompanha, até que ponto qualquer equívoco é culpável — visto que toda culpa supõe algum concurso da vontade, do qual só pode julgar aquele que sonda o coração?

6. Todo homem sábio, portanto, concederá aos outros a mesma liberdade de pensar que deseja que eles lhe concedam; e não mais insistirá em que abracem as suas opiniões do que quereria que eles insistissem em que ele abraçasse as deles. Ele suporta os que diferem dele, e apenas faz àquele com quem deseja unir-se em amor aquela única pergunta: “Tens o coração sincero, como o meu para contigo?”

7. Podemos, segundo, observar que aqui não se faz indagação alguma sobre o modo de culto de Jonadabe, embora seja altamente provável que houvesse, também neste respeito, uma diferença muito ampla entre eles. Pois bem podemos crer que Jonadabe, bem como toda a sua posteridade, adorasse a Deus em Jerusalém, ao passo que Jeú não o fazia: ele tinha mais consideração pela política de estado do que pela religião. E, por isso, embora matasse os adoradores de Baal e “eliminasse Baal de Israel”, contudo, do conveniente pecado de Jeroboão, o culto dos “bezerros de ouro”, ele “não se apartou” (2Rs 10.29).

8. Mas, mesmo entre homens de coração reto, homens que desejam “ter uma consciência sem ofensa”, necessariamente há de ser que, enquanto houver opiniões diversas, haverá modos diversos de adorar a Deus, visto que uma variedade de opinião necessariamente implica uma variedade de prática. E, assim como em todas as eras os homens em nada diferiram mais do que nas suas opiniões acerca do Ser Supremo, também em nada mais diferiram uns dos outros do que na maneira de adorá-lo. Se isto fosse só no mundo pagão, não seria de modo algum surpreendente, pois sabemos que estes, “pela sua sabedoria, não conheceram a Deus”; nem, portanto, poderiam saber como adorá-lo. Mas não é estranho que, mesmo no mundo cristão, ainda que todos concordem no geral — “Deus é Espírito, e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” —, os modos particulares de adorar a Deus sejam quase tão variados quanto entre os pagãos?

9. E como havemos de escolher em meio a tanta variedade? Nenhum homem pode escolher por outro, ou prescrever a outro. Mas cada um deve seguir os ditames da própria consciência, em simplicidade e sincera piedade. Deve estar plenamente persuadido no seu próprio íntimo, e então agir segundo a melhor luz que tem. Nem tem criatura alguma poder de constranger outra a andar pela sua própria regra. Deus não deu a nenhum dos filhos dos homens o direito de assim dominar sobre a consciência dos seus irmãos; antes, cada um deve julgar por si mesmo, assim como cada um deve dar conta de si mesmo a Deus.

10. Embora, portanto, todo seguidor de Cristo seja obrigado, pela própria natureza da instituição cristã, a ser membro de alguma congregação particular, alguma igreja, como comumente se diz (o que implica um modo particular de adorar a Deus, pois “dois não andam juntos, se não houver entre eles acordo”), contudo, nenhum pode ser obrigado por poder algum na terra — a não ser o da própria consciência — a preferir esta ou aquela congregação, este ou aquele modo particular de culto. Sei que comumente se supõe que o lugar do nosso nascimento fixa a igreja a que devemos pertencer; que alguém, por exemplo, nascido na Inglaterra, deva ser membro da Igreja da Inglaterra e, por consequência, adorar a Deus do modo particular por ela prescrito. Fui um dia zeloso defensor disto; mas acho muitas razões para moderar esse zelo. Não a menor delas é que, se essa regra tivesse valido, não poderia ter havido Reforma alguma do papado, visto que ela destrói inteiramente o direito ao juízo próprio, sobre o qual toda aquela Reforma se assenta.

11. Não ouso, portanto, presumir de impor o meu modo de culto a qualquer outro. Creio que ele é verdadeiramente primitivo e apostólico; mas a minha crença não é regra para outro. Não pergunto, portanto, àquele com quem quero unir-me em amor: Você é da minha igreja, da minha congregação? Recebe a mesma forma de governo eclesiástico que eu? Une-se à mesma forma de oração com que adoro a Deus? Não indago: Você recebe a Ceia do Senhor na mesma postura e maneira que eu? Nem se, na administração do batismo, você concorda comigo quanto ao modo de administrá-lo, ou à idade daqueles a quem deve ser administrado. Aliás, não lhe pergunto (por mais claro que eu esteja no meu próprio íntimo) se você admite, de todo, o batismo e a Ceia do Senhor. Fiquem todas essas coisas de lado: falaremos delas, se for preciso, em ocasião mais conveniente; a minha única pergunta, no presente, é esta: “Tens o coração sincero, como o meu para contigo?”

12. Mas o que está propriamente implicado nessa pergunta? Não pergunto o que Jeú com ela quis dizer, mas o que um seguidor de Cristo deve entender por ela, ao propô-la a qualquer dos seus irmãos. A primeira coisa implicada é esta: O teu coração é reto para com Deus? Crês no seu ser e nas suas perfeições — na sua eternidade, imensidade, sabedoria, poder; na sua justiça, misericórdia e verdade? Crês que ele agora “sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder”, e que governa até a mais ínfima delas para a sua própria glória e o bem dos que o amam? Tens uma evidência divina, uma convicção sobrenatural, das coisas de Deus? Andas “por fé, e não por vista”, olhando não para as coisas temporais, mas para as eternas?

13. Crês no Senhor Jesus Cristo, “Deus sobre todos, bendito para sempre”? Ele está revelado na tua alma? Conheces Jesus Cristo, e este crucificado? Ele habita em ti, e tu nele? Ele está formado no teu coração pela fé? Havendo renunciado absolutamente a todas as tuas próprias obras, à tua própria justiça, “sujeitaste-te à justiça de Deus, que é pela fé em Cristo Jesus”? És “achado nele, não tendo justiça própria, mas a que é pela fé”? E estás, por meio dele, “combatendo o bom combate da fé e lançando mão da vida eterna”?

14. É a tua fé “cheia da energia do amor”? Amas a Deus (não digo “acima de todas as coisas”, pois é expressão não bíblica e ambígua, mas) “de todo o teu coração, de todo o teu entendimento, de toda a tua alma e com toda a tua força”? Buscas toda a tua felicidade só nele? E achas o que buscas? A tua alma continuamente “engrandece o Senhor, e o teu espírito se alegra em Deus, teu Salvador”? Tendo aprendido “em tudo a dar graças”, achas que “é coisa boa e agradável ser grato”? É Deus o centro da tua alma, a soma de todos os teus desejos? Ajuntas, por conseguinte, o teu tesouro no céu, e tens todas as demais coisas por esterco e escória? O amor de Deus lançou fora da tua alma o amor ao mundo? Então tu estás “crucificado para o mundo”; estás morto para tudo o que há aqui embaixo; e a tua “vida está escondida com Cristo em Deus”.

15. Estás ocupado em fazer, “não a tua própria vontade, mas a vontade daquele que te enviou” — daquele que te enviou aqui embaixo para peregrinar por um tempo, passar alguns dias em terra estranha, até que, terminada a obra que ele te deu para fazer, voltes à casa de teu Pai? É a tua comida e a tua bebida “fazer a vontade do teu Pai que está nos céus”? É o teu olho bom em todas as coisas, sempre fixo nele, sempre olhando para Jesus? Apontas para ele em tudo o que fazes — em todo o teu trabalho, negócio e conversa —, visando só à glória de Deus em tudo, “quer faças, quer digas, fazendo tudo em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai”?

16. O amor de Deus te constrange a servi-lo com temor, a “alegrar-te nele com reverência”? Temes mais desagradar a Deus do que a morte ou o inferno? Nada te é tão terrível quanto o pensamento de ofender os olhos da sua glória? Sobre esse fundamento, “odeias todo caminho de falsidade”, toda transgressão da sua santa e perfeita lei; e nisto “te exercitas, para ter uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens”?

17. É o teu coração reto para com o próximo? Amas como a ti mesmo toda a humanidade, sem exceção? “Se amais os que vos amam, que recompensa tereis?” Amas os teus inimigos? A tua alma está cheia de boa vontade, de terno afeto, para com eles? Amas até os inimigos de Deus, os ingratos e sem santidade? Comovem-se as tuas entranhas por eles? Poderias “desejar ser tu mesmo” temporalmente “separado” por amor deles? E mostras isto “bendizendo os que te maldizem e orando pelos que te maltratam e te perseguem”?

18. Mostras o teu amor pelas tuas obras? Enquanto tens tempo, conforme tens oportunidade, de fato “fazes o bem a todos”, próximos ou estranhos, amigos ou inimigos, bons ou maus? Fazes-lhes todo o bem que podes, procurando suprir todas as suas carências, socorrendo-os tanto no corpo quanto na alma, até o limite do teu poder? Se és assim disposto — pode dizer todo cristão —, sim, se apenas és sinceramente desejoso disso, e prossegues até alcançá-lo, então “o teu coração é sincero, como o meu para contigo”.

II. A oferta: “Dá-me a mão”

1. “Se tens, dá-me a mão.” Não quero dizer “Sê da minha opinião”. Não precisas; não o espero nem o desejo. Nem quero dizer “Serei da tua opinião”. Não posso; isto não depende da minha escolha: não posso pensar, assim como não posso ver ou ouvir, à minha vontade. Guarda tu a tua opinião; eu, a minha; e isso tão firmemente como sempre. Não precisas nem sequer esforçar-te por vir para o meu lado, ou trazer-me para o teu. Não desejo que discutas esses pontos, nem que ouças ou fales uma só palavra sobre eles. Deixem-se todas as opiniões de lado, de um lado e de outro: apenas “dá-me a mão”.

2. Não quero dizer “Abraça os meus modos de culto”, ou “Abraçarei os teus”. Também isto é coisa que não depende nem da tua escolha, nem da minha. Devemos ambos agir conforme cada um está plenamente persuadido no seu próprio íntimo. Guarda tu firmemente o que crês ser mais agradável a Deus, e eu farei o mesmo. Creio que a forma episcopal de governo eclesiástico é bíblica e apostólica. Se pensas que a presbiteriana ou a independente é melhor, continua a pensar assim, e age em conformidade. Creio que as crianças devem ser batizadas, e que isto pode ser feito por imersão ou por aspersão. Se estás de outro modo persuadido, permanece assim, e segue a tua própria persuasão. Parece-me que as formas de oração são de excelente uso, particularmente na grande congregação. Se julgas a oração espontânea de maior uso, age conforme o teu próprio juízo. Não tenho desejo de disputar contigo um só momento sobre qualquer dos pontos anteriores. Fiquem de lado todos esses pontos menores. Que nunca venham à vista. “Se o teu coração é como o meu”, se amas a Deus e a toda a humanidade, não peço mais: “dá-me a mão”.

3. Quero dizer, primeiro: ama-me; e isso não só como amas toda a humanidade; não só como amas os teus inimigos, ou os inimigos de Deus, os que te odeiam, que “te maltratam e te perseguem”; não só como a um estranho, de quem não sabes nem bem nem mal — não me contento com isto —; não: “se o teu coração é como o meu”, então ama-me com um afeto muito terno, como um amigo mais chegado do que um irmão; como um irmão em Cristo, um concidadão da Nova Jerusalém, um companheiro de armas empenhado na mesma guerra, sob o mesmo Capitão da nossa salvação. Ama-me como um companheiro no reino e na perseverança de Jesus, e co-herdeiro da sua glória.

4. Ama-me (mas em grau mais alto do que amas a massa da humanidade) com o amor que é longânimo e bondoso; que é paciente — se eu sou ignorante ou estou fora do caminho, suportando-me e não aumentando o meu fardo; e que é terno, brando e compassivo; que não inveja, se em algum tempo aprouver a Deus prosperar-me na sua obra ainda mais do que a ti. Ama-me com o amor que não se exaspera, seja com as minhas insensatezes ou fraquezas, seja mesmo com o meu agir (se às vezes assim te parecer) não segundo a vontade de Deus. Ama-me de modo a não suspeitar mal de mim, a lançar fora todo ciúme e má suspeita. Ama-me com o amor que tudo desculpa, que nunca revela nem as minhas faltas nem as minhas fraquezas; que tudo crê, sempre disposto a pensar o melhor, a dar a interpretação mais favorável a todas as minhas palavras e ações; que tudo espera — ou que a coisa relatada nunca foi feita, ou não com as circunstâncias relatadas, ou, ao menos, que foi feita com boa intenção, ou num súbito ímpeto de tentação. E espera até o fim que tudo o que está errado será, pela graça de Deus, corrigido, e tudo o que falta, suprido, pelas riquezas da sua misericórdia em Cristo Jesus.

5. Quero dizer, segundo: recomenda-me a Deus em todas as tuas orações; luta com ele em meu favor, para que ele depressa corrija o que vê de errado e supra o que me falta. No teu acesso mais íntimo ao trono da graça, roga àquele que está então bem presente contigo que o meu coração seja mais como o teu, mais reto tanto para com Deus quanto para com os homens; que eu tenha uma convicção mais plena das coisas que não se veem, e uma visão mais forte do amor de Deus em Cristo Jesus; que eu ande mais firmemente por fé, e não por vista, e lance mão mais fervorosamente da vida eterna. Ora para que o amor de Deus e de toda a humanidade seja mais amplamente derramado no meu coração; para que eu seja mais fervoroso e ativo em fazer a vontade do meu Pai que está nos céus, mais zeloso de boas obras e mais cuidadoso em abster-me de toda aparência do mal.

6. Quero dizer, terceiro: estimula-me ao amor e às boas obras. Secunda a tua oração, conforme tens oportunidade, falando-me, em amor, tudo o que crês ser para a saúde da minha alma. Aviva-me na obra que Deus me deu para fazer, e instrui-me em como fazê-la mais perfeitamente. Sim, “fere-me amistosamente, e repreende-me”, em tudo aquilo em que eu te pareça estar fazendo antes a minha própria vontade do que a vontade daquele que me enviou. Ó, fala, e não poupes, tudo o que creres que possa conduzir ou à correção das minhas faltas, ou ao fortalecimento da minha fraqueza, ou ao edificar-me no amor, ou ao tornar-me mais apto, de todo modo, para o uso do Mestre.

7. Quero dizer, por fim: ama-me, não de palavra somente, mas de fato e de verdade. Na medida em que, em consciência, puderes (conservando ainda as tuas próprias opiniões e o teu próprio modo de adorar a Deus), une-te comigo na obra de Deus; e prossigamos de mãos dadas. E até aqui, é certo, tu podes ir. Fala honrosamente, onde quer que estejas, da obra de Deus, por quem quer que ele opere, e com bondade dos seus mensageiros. E, se estiver em teu poder, não só te compadece deles quando estiverem em alguma dificuldade ou angústia, mas dá-lhes uma ajuda alegre e eficaz, para que glorifiquem a Deus por tua causa.

8. Duas coisas devem ser observadas quanto ao que se falou neste último ponto: a primeira, que todo amor, todos os ofícios de amor, toda assistência espiritual ou temporal que reivindico daquele cujo coração é reto, como o meu para com o dele, o mesmo estou pronto, pela graça de Deus, segundo a minha medida, a dar-lhe; a outra, que não fiz esta reivindicação em favor só de mim mesmo, mas de todos aqueles cujo coração é reto para com Deus e para com os homens, para que todos nos amemos uns aos outros como Cristo nos amou.

III. O que é o espírito católico

1. Uma inferência podemos tirar do que foi dito: podemos aprender daqui o que é um espírito católico. Quase não há expressão que tenha sido mais grosseiramente mal-entendida, e mais perigosamente mal-aplicada, do que esta. Daqui podemos aprender, primeiro, que o espírito católico não é o latitudinarismo especulativo. Não é uma indiferença a todas as opiniões: isto é a cria do inferno, não a descendência do céu. Essa instabilidade de pensamento, esse ser “levado ao redor por todo vento de doutrina”, é grande maldição, não bênção; inimigo irreconciliável, não amigo, do verdadeiro catolicismo. O homem de espírito verdadeiramente católico não tem agora a sua religião a buscar. Ele está firme como o sol no seu juízo quanto aos ramos principais da doutrina cristã. É verdade que está sempre pronto a ouvir e pesar tudo o que se possa apresentar contra os seus princípios; mas, assim como isto não mostra vacilação alguma na sua própria mente, tampouco a ocasiona. Ele não claudica entre duas opiniões, nem se esforça em vão por fundi-las numa só. Notem isto, vocês que não sabem de que espírito são: que se chamam homens de espírito católico só porque são de um entendimento turvo; porque a sua mente está toda numa névoa; porque não têm princípios firmes e coerentes, mas são por misturar todas as opiniões juntas. Convençam-se de que erraram por completo o caminho; não sabem onde estão. Pensam que entraram no próprio espírito de Cristo, quando, na verdade, estão mais perto do espírito do anticristo. Vão, primeiro, e aprendam os primeiros elementos do evangelho de Cristo, e então aprenderão a ser de um espírito verdadeiramente católico.

2. Podemos aprender, segundo, que o espírito católico não é nenhuma espécie de latitudinarismo prático. Não é indiferença quanto ao culto público, ou quanto ao modo exterior de realizá-lo. Isto, igualmente, não seria bênção, mas maldição. Longe de ser ajuda a isso, seria, enquanto durasse, estorvo inexprimível ao adorar a Deus em espírito e em verdade. Mas o homem de espírito verdadeiramente católico, tendo pesado todas as coisas na balança do santuário, não tem dúvida nem escrúpulo algum quanto àquele modo particular de culto em que se une. Está claramente convencido de que essa maneira de adorar a Deus é tanto bíblica quanto racional. Não conhece nenhuma no mundo que seja mais bíblica, nem mais racional. Por isso, sem vaguear daqui para acolá, apega-se firmemente a ela e louva a Deus pela oportunidade de assim fazer.

3. Podemos, terceiro, aprender que o espírito católico não é indiferença a todas as congregações. Isto é outra espécie de latitudinarismo, não menos absurda e antibíblica do que a anterior. Mas está longe do homem de espírito verdadeiramente católico. Ele está firme na sua congregação, bem como nos seus princípios. Está unido a uma, não só em espírito, mas por todos os laços exteriores da comunhão cristã. Ali participa de todas as ordenanças de Deus. Ali recebe a Ceia do Senhor. Ali derrama a sua alma em oração pública e se une ao louvor e à ação de graças públicos. Ali se alegra em ouvir a palavra da reconciliação, o evangelho da graça de Deus. Com estes, os seus mais chegados e amados irmãos, em ocasiões solenes, busca a Deus pelo jejum. Sobre estes, particularmente, vela em amor, como eles velam pela sua alma; admoestando, exortando, consolando, repreendendo e, de todo modo, edificando-se uns aos outros na fé. A estes tem por sua própria casa e, por isso, segundo a capacidade que Deus lhe deu, naturalmente cuida deles e provê para que tenham todas as coisas necessárias à vida e à piedade.

4. Mas, enquanto está firmemente fixado nos seus princípios religiosos, no que crê ser a verdade como ela é em Jesus; enquanto adere firmemente àquele culto de Deus que julga ser o mais agradável aos seus olhos; e enquanto está unido pelos mais ternos e chegados laços a uma congregação particular — o seu coração se alarga para com toda a humanidade, os que conhece e os que não conhece; abraça, com forte e cordial afeto, próximos e estranhos, amigos e inimigos. Este é o amor católico, ou universal. E quem tem isto é de espírito católico. Pois só o amor dá direito a esse título: o amor católico é um espírito católico.

5. Se, então, tomamos esta palavra no sentido mais estrito, um homem de espírito católico é aquele que, da maneira acima mencionada, dá a mão a todos cujos corações são retos com o dele: aquele que sabe valorizar, e louvar a Deus por, todas as vantagens de que desfruta quanto ao conhecimento das coisas de Deus, à verdadeira maneira bíblica de adorá-lo e, acima de tudo, à sua união com uma congregação que teme a Deus e pratica a justiça; aquele que, conservando essas bênçãos com o mais estrito cuidado, guardando-as como a menina dos olhos, ao mesmo tempo ama — como amigos, como irmãos no Senhor, como membros de Cristo e filhos de Deus, como participantes agora do presente reino de Deus e co-herdeiros do seu reino eterno — a todos, de qualquer opinião, culto ou congregação, que creem no Senhor Jesus Cristo; que amam a Deus e ao homem; que, alegrando-se em agradar e temendo ofender a Deus, são cuidadosos em abster-se do mal e zelosos de boas obras. É o homem de espírito verdadeiramente católico aquele que traz continuamente a todos estes no seu coração; que, tendo por eles uma ternura inexprimível e ansiando pelo seu bem-estar, não cessa de recomendá-los a Deus em oração, bem como de pleitear a causa deles diante dos homens; que lhes fala palavras de conforto e trabalha, com todas as suas palavras, para fortalecer as suas mãos em Deus. Assiste-os até o limite do seu poder em todas as coisas, espirituais e temporais. Está pronto “a gastar e a deixar-se gastar por eles”; sim, a dar a vida por amor deles.

6. Tu, ó homem de Deus, pensa nestas coisas! Se já estás neste caminho, prossegue. Se antes erraste a vereda, bendize a Deus, que te trouxe de volta! E agora corre a carreira que te está proposta, no caminho régio do amor universal. Cuida de não estar vacilante no teu juízo, nem estreitado nas tuas entranhas; mas guarda um passo constante, arraigado na fé uma vez entregue aos santos, e alicerçado no amor, no verdadeiro amor católico, até seres tragado no amor para todo o sempre!

[O hino Amor Católico, de Charles Wesley, acrescentado em algumas edições:]

Cansado de toda esta contenda de palavras,

destas noções, formas, modos e nomes,

a ti — o Caminho, a Verdade, a Vida —,

cujo amor inflama o meu simples coração,

divinamente ensinado, enfim me refugio,

para com os teus viver e morrer.

Tirado do meio de Babel,

deixo atrás partidos e seitas;

alargado o coração, e livre o pensamento,

onde quer que ache a verdade oculta —

a verdade oculta, com alegria a reconheço,

e curvo-me só ao nome de Jesus.

Redimido pela tua graça todo-poderosa,

provo a minha gloriosa liberdade;

de braços abertos abraço o mundo,

mas apego-me aos que se apegam a ti;

só nos teus santos me deleito,

os que andam com Deus na mais pura brancura.

Uno-me ao pequeno rebanho e nele descanso —

os membros sãos que se firmam à Cabeça;

os poucos escolhidos, com o perdão abençoados

e conduzidos pelo Espírito que unge

à mente que houve em ti,

às profundezas da Divindade.

Meus irmãos, amigos e parentes são estes,

os que fazem a vontade do meu Pai celeste;

os que buscam a perfeita santidade,

e cumprir todos os teus conselhos;

sedentos de ser tudo o que tu és,

e amar a seu Deus de todo o coração.

Por estes, ainda que separados na carne,

onde quer que estejam dispersos pela terra,

acho um amor não fingido, sem limites,

e constante como a vida de Deus —

Fonte da vida, dela ele brotou,

tão puro, tão firme e tão forte.

Unido à igreja oculta e desconhecida,

neste seguro vínculo da perfeição,

obscuramente seguro, habito só,

e me glorio na graça que une —

dada a mim, a cada crente,

a todos os teus santos, na terra e no céu.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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